sábado, 27 de fevereiro de 2010

O novo embaixador do clima

A convite de Gordon Brown, Lula entra nos esforços para evitar um fiasco na conferência do aquecimento global, mesmo sem o país ter se preparado.Quando faltavam poucas semanas para o início da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que foi realizado em Copenhague, na Dinamarca, a comunidade de ambientalistas, diplomatas e pesquisadores envolvidos em seus preparativos cultiva uma rotina de frustração e pessimismo. Depois que a humanidade tomou consciência da necessidade de enfrentar o aquecimento global num processo difícil e demorado, mas necessário, o encontro de Copenhague passou a ser visto como uma oportunidade única para as principais nações do planeta firmarem compromissos concretos para proteger o meio ambiente, estimular uma economia ecologicamente sustentável e desenvolver novas formas de energia limpa. As últimas reuniões preparatórias, porém, têm sido frustrantes e desanimadoras. Até o momento, poucos países desenvolvidos assumiram metas claras e definitivas para diminuir nas próximas décadas suas emissões de gás carbônico, causador do efeito estufa, principal fator do aquecimento global. Chamadas a oferecer recursos para que os países em desenvolvimento possam ter acesso a tecnologias limpas, as nações mais ricas oferecem migalhas. O risco de um fiasco é tão grande que mesmo o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, governante do país que abriga a maior economia e mais emite gás carbônico no mundo, nem sequer confirmou sua presença. Gordon Brown, o primeiro-ministro do Reino Unido, talvez o líder mais empenhado no sucesso da conferência, aproveitou a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na semana passada, em Londres para pedir ajuda. Lula fora a Londres para receber o prêmio de estadista do ano do instituto Chatham House. Também foi recebido em audiência pela rainha Elizabeth II. No encontro com o presidente brasileiro, Gordon Brown falou de suas preocupações com o rumo - ou falta de - da conferência e sugeriu que Lula usasse seu prestígio para pedir empenho a outros líderes mundiais. O presidente brasileiro prometeu colaborar. Disse que ligaria para Barack Obama, para o presidente da China, Hu Jintao, e para o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh. "O pior que pode acontecer é a sociedade mundial achar que os líderes mundiais não estão assumindo a responsabilidade. O problema é sério. Não tem rico nem pobre. Todos temos de trabalhar", disse Lula. Considerando a baixa produtividade dos encontros preparatórios, que reuniram muitos países que ainda não deixaram a UTI da crise econômica, o apelo de Gordon Brown reforçou a visão de que o Brasil poderia ter um papel particularmente destacado em Copenhague. O problema é que o governo brasileiro também não se preparou, acumulou um passivo pesado de problemas não resolvidos e enfrenta respeitáveis divergências internas sobre os compromissos que o país deve assumir no enfrentamento do aquecimento global. Para o governo, um corte de 80% do desmatamento da Amazônia representa uma proposta ambiciosa Até o momento, só há uma única proposta fechada para o Brasil levar a Copenhague: o compromisso de reduzir em até 80% o desmatamento da Amazônia. Há outras ideias, como estimular o reflorestamento, a recuperação de áreas degradadas e a disseminação do "aço verde", obtido a partir da queima do carvão vegetal proveniente de áreas de replantio e não de matas nativas. Outro ponto é a abolição do uso de carvão mineral, altamente poluidor. A maior polêmica em Brasília envolve uma pergunta: o Brasil deveria chegar a Copenhague com um detalhado compromisso de metas numéricas para a redução da emissão de gás carbônico conforme cobrou a ONU na semana passada? No debate interno do governo, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, acha que sim. Minc está convencido de que, se a delegação brasileira desembarcar em Copenhague nessa situação, poderá assumir um papel de liderança numa conferência em que o ânimo dos ativistas do lado de fora é sempre muito mais elevado que o de políticos e burocratas do lado de dentro. A dificuldade é que a conferência não será um encontro de ecologistas, mas uma reunião de governantes que vão definir políticas de Estado para as próximas décadas. Não é só uma discussão ambiental - mas envolve também economia, política e diplomacia.

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