terça-feira, 5 de outubro de 2010

‘Terra Mãe’: em defesa das hortas na África

Milhares de hortas na África. Nas periferias repletas de desesperados que fogem do avanço do deserto e das guerras. Nas escolas que protegem o futuro do continente. Nas ilhas de resistência assediadas pelas monoculturas que sacrificam para a exportação os alimentos necessários para a sobrevivência de milhões de pessoas. É essa a proposta que será lançada no “Terra Madre”, o encontro de 50 mil representantes das comunidades de base do alimento provenientes de 163 países, organizado pelo Slow Food, em Turim, na Itália, de 21 a 25 de outubro. A reportagem é de Antonio Cianciullo, publicada no jornal La Repubblica, 24-09-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Leia na íntegra“Pode parecer estranha a ideia de criar hortas em um continente que, no imaginário comum, está associado a uma multidão de pequenos campos, mas a realidade já está muito distante desse estereótipo”, explica Carlo Petrini, fundador do Slow Food. “A pressão das multinacionais, das monoculturas voltadas para a exportação, dos pesticidas, da urbanização, do avanço do deserto alterou equilíbrios seculares. Nas favelas em crescimento violento, perdeu-se a memória dos saberes alimentares que permitiam sobreviver também em condições muito difíceis, e os produtos tradicionais foram substituídos pelo fast food”. Até hoje, a operação-horta conseguiu estabelecer as primeiras 150 bases das culturas tradicionais em cerca de 20 países. O objetivo é chegar a mil até o final de 2011. Mas é preciso acertar as contas, país por país, com resistências muito fortes e problemas crescentes. No Senegal, 95% do arroz cultivado já vem do Sudeste Asiático, e as produções tradicionais são residuais. O projeto Mangeons Local, nascido em 2008 e defendido pela região do Piemonte, colocou em contato os pequenos produtores com cozinheiros e pesquisadores para sustentar uma rede de consumo baseado no fonio, um dos cereais tradicionais, o milho e o sorgo, que também serão cultivados nas novas hortas. Na Costa do Marfim, os maiores problemas nascem, ao invés, do crescimento dos conflitos, o que comprometeu a circulação das mercadorias e a produção agrícola. O relançamento das hortas visa recuperar o uso de hortaliças locais e da sumbala, um composto que exalta o sabor dos alimentos e que caiu em desuso, substituído pelos caldos de tempero industriais impostos com uma opressiva campanha de marketing. Na Guiné-Bissau, a monocultura de castanhas suplantou os cultivos tradicionais: a partir de maio, toda a mão-de-obra disponível foi monopolizada, e as hortas, abandonadas. Além disso, o abuso de vinho de castanha multiplicou os casos de alcoolismo. A resposta das hortas é apostar nos produtos tradicionais como o arroz de pilau e a pimenta malagueta. No Quênia, confrontos étnicos e o abandona das técnicas tradicionais agravaram a migração para as áreas urbanas: os campos se despovoam, e a idade média dos agricultores aumenta. Para defender o equilíbrio ambiental e social dos vilarejos, serão multiplicadas as hortas em que se cultiva a abóbora de Lare e a urtiga. (Ecodebate)

Nenhum comentário:

Região Sul ganha maior influência na formação de preços de energia

Com El Niño em 2026, região Sul ganha maior influência na formação de preços de energia. Super El Niño com mais de 80% de chance pode devast...