sábado, 9 de fevereiro de 2019

Brumadinho é crime, não uma tragédia

Lama em Brumadinho
Da localidade de Casa Branca, em Brumadinho, acompanhei o crime contra todas e todos nós, que tem em sua origem o modelo de desenvolvimento voltado para exportação de commodities. Vi e senti todo o horror. Voltei no domingo de manhã para Belo Horizonte, e participei da Manifestação na Praça da Liberdade.
Estou com muita raiva e indignada. Estou com muita raiva da nossa impotência, dos pronunciamentos dos atuais e dos antigos poderosos, dos noticiários, dos comentários.
Que loucura foi ver Bolsonaro, Presidente da República e Zema, Governador de Minas se pronunciarem. Exatamente eles que têm discursos incisivos contra os órgãos de controle ambiental. Querem liberalizar e agilizar a continuidade da destruição de nossas serras, de nossos rios, em prol de quê? De lucratividade insana. E ainda trazem o exército de Israel, com uma tecnologia que já temos e que não serve para a situação atual?
Ver o presidente da empresa responsável pelo crime, falar que a segurança da barragem tinha laudo de estabilidade garantido por empresa alemã de renome.
E como é frustrante: a imprensa repetindo milhares de vezes, termos como “acidente” e/ou “tragédia”. Como assim?
Tragédia é uma ação que vai suscitar terror e piedade e termina com acontecimento funesto. A exemplo da tragédia grega. Acidente é acontecimento casual, fortuito, imprevisto, onde as pessoas não podem ser responsabilizadas por algo imprevisível. Estes são os termos utilizados. E são ótimos para justificar a atitude do Estado e da Empresa. Que até aceitam, a necessidade de alguma indenização, de algum ressarcimento aos atingidos, desde que definidos por eles, após criarem obstáculos e protelações infinitas. Conhecemos este filme com o crime da Vale/BHP, a luta dos atingidos, a tática utilizada pelo estado e pela empresa e a impunidade ate hoje.
Falar do rompimento das barragens como acidente ou tragédia é estratégico para o Estado e a Empresa, como forma de construir a solidariedade, de envolver a população ao mesmo tempo que retira sua capacidade de denunciar, de cobrar as responsabilidades e punição e exigir mudanças.
Aqui em Minas temos muitos exemplos de crime semelhante. Exemplos que se ampliam e se acumulam a partir de 1997 (Jornal O Tempo, de 28/01/2019):
1986 – Itabirito – 7 mortos
1997 – Rio Acima –
2001 – Macacos – 5 mortos
2003 – Cataguases –
2007 – Miraí
2014 – Itabirito – 3 mortos
2015 – Mariana – 19 mortos (Na realidade foram 21)
2019 – Brumadinho – centenas de mortos.
Legislação ambiental é boa, mas fiscalização falha e punição lenta levam a novas tragédias, alertam especialistas.
Por que a partir de 1997 há uma intensificação dos rompimentos de barragens, com todas as consequências que conhecemos, incluindo a impunidade?
Milhares de famílias sequer são reconhecidas como atingidas. Imaginem a situação da população que vivia e sobrevivia do Rio Doce, que hoje está MORTO. São populações inteiras, como os indígenas, quilombolas, pescadores que viviam dos rios e das matas e perderam o modo de vida, obrigadas a viver em centros urbanos com a “bolsa família”, em um habitat que não é o seu. Perdendo sua história e dignidade.
Em cada um destes rompimentos, viram os milhares de animais mortos? Viram o gado sendo levado? Peixes mortos à margem do rio?
Sou economista e saí recentemente de uma campanha para o governo estadual. Nosso programa procurava romper com esta lógica atual. Trabalhamos um modelo de desenvolvimento local e comunitário visando o cuidado do bem comum, pensando a sociedade e não o lucro. Uma mudança radical de perspectiva, que muda a produção, a vida social e cultural.
Os governos de Minas tem subsidiado e estimulado o investimento nas mineradoras e no agronegócio. Na nossa proposta, as grandes empresas extrativistas – que destroem deixando só os buracos para nos -, e o agronegócio – que degrada, mata e devasta os territórios-, continuariam a produzir por sua conta e risco, sem as “benesses” do estado. Não são eles que tanto falam das benesses do Estado?
O governo agora teria o papel de estimular e subsidiar a criação de redes para produção e venda, a partir da pequena e média produção.
Especialistas dizem que falhas na fiscalização fazem com que tragédias se repitam.
Estimularia a reciclagem e o aproveitamento os minérios já extraídos, para fazer face às necessidades do país. A agroecologia, próxima aos centros urbanos, traria melhor qualidade, menos perdas, melhoria na qualidade de vida dos produtores e consumidores. Nestas regiões, nossa história e cultura, os recursos naturais, são riquíssimo. Assim, estimularia o turismo, gerando empregos, com melhor distribuição de renda.
Seria um investimento no que temos de melhor: a diversidade social com seu rico conhecimento, abandonando a ditadura do mercado e das grandes corporações.
Meu sonho é deixar de “enxugar gelo”. Minas tem centenas de outras barragens, construídas no mesmo modelo das que romperam. E, mesmo se aprimorar a tecnologia das barragens, mantida a lógica do modelo econômico centrado na exportação de comodities, a destruição ambiental e todas as suas consequências, permanecem.
O rompimento dessas barragens é o alerta que denuncia este modelo de subdesenvolvimento, que destrói nossa população tradicional, que não investe nos nossos conhecimentos sobre o aproveitamento dos recursos naturais, nem na capacitação científica e tecnológica e, precisa exaurir a natureza.
Precisamos pensar em outra sociedade. Iniciando, desde agora, a sua construção.
Rompimento de barragem gerou avalanche de lama em Brumadinho.
Um outro mundo é possível. Um outro Brasil é necessário. (ecodebate)

Nenhum comentário:

Região Sul ganha maior influência na formação de preços de energia

Com El Niño em 2026, região Sul ganha maior influência na formação de preços de energia. Super El Niño com mais de 80% de chance pode devast...