segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Os 8 anos mais quentes do Antropoceno

“Nossa casa ainda está pegando fogo e vocês estão jogando gasolina nas chamas!” Greta Thunberg.
O aquecimento global é uma realidade inexorável e as pessoas já começam a perceber a dimensão do problema quando sofrem os efeitos dos furacões, inundações, secas prolongadas, ondas letais de calor, etc. O período de 2014 a 2021 foi o octênio mais quente do Antropoceno.

O gráfico abaixo mostra a variação mensal da temperatura nos últimos 8 anos – que ocorreram entre 2014 e 2021 – registrando as maiores temperaturas da série histórica iniciada em 1880. O ano de 1998 foi o mais quente do século passado e apresentou temperatura 0,65ºC acima da média do século XX. O ano de 2010 registrou 0,72ºC, mas em 2011 a temperatura ficou em 0,58ºC acima da média do século passado, mas abaixo daquela registrada em 1998.

Contudo, o quadro muda de figura e, a partir de 2014, todos os anos apresentam variações de temperatura acima do registrado em 1998 e 2010. Em 2014 a temperatura foi 0,74ºC acima da média do século XX. Em 2016 e 2020 ficou quase 1ºC acima da média do século XX. Em 2021, com o fenômeno La Niña, a temperatura ficou 0,84ºC, acima da média do século XX.

Segundo o Global Temperature Report for 2021, do centro de pesquisa Berkeley Earth, “o ano de 2021 foi nominalmente o 6º ano mais quente na Terra desde que as observações diretas começaram. A temperatura média global em 2021 foi significativamente mais fria do que em 2020, mas ainda 1,2°C acima da média de 1850 a 1900. O La Niña provavelmente contribuiu com as condições um pouco mais frias em 2021 e espera-se que também afete 2022. Embora 2021 não tenha sido um ano recorde global, 8% da superfície da Terra teve um ano localmente mais quente, incluindo a China e outros centros populacionais”.

O que tem acelerado o aquecimento global é o aumento das emissões de gases de efeito estufa provocado pelo crescimento demoeconômico do mundo. Mais pessoas consumindo mais produtos significa mais extração de recursos naturais e mais poluição. Como não existe população sem consumo e nem consumo sem população o resultado é maior concentração de CO2 na atmosfera. Alguns países têm alto padrão de consumo e baixas taxas de crescimento demográfico, enquanto outros países possuem alto crescimento da população com baixo padrão de consumo. Evidentemente, uns emitem e desmatam mais do que os outros. Mas uma característica em comum é que todas as pessoas, em maior ou menor proporção, contribuem para a degradação ambiental. O ser humano, ao contrário da abelha, não possui uma relação simbiótica com o meio ambiente.

Com o crescimento demoeconômico a humanidade ultrapassou a capacidade de carga da Terra. Nos últimos 50 anos (1972-2022) a população mundial mais que dobrou de tamanho (passando de 3,85 bilhões para 7,9 bilhões de habitantes) e o PIB mundial aumentou 5 vezes. Assim, enquanto algumas pessoas consideram que o crescimento econômico teve maior impacto sobre as emissões de gases de efeito estufa do que o crescimento populacional, o fato é que a pegada ecológica já ultrapassou a biocapacidade do Planeta.

Segundo o climatologista James Hansen (03/12/2021), a temperatura da superfície global em 2021 (gráfico abaixo) foi de +1,12°C em relação à média de 1880-1920 na análise do GISS (Instituto Goddard para Estudos Espaciais). Os anos de 2021 e 2018 estão empatados entre os 6 mais quentes no registro instrumental. Os oito anos mais quentes ocorreram nos últimos oito anos. A taxa de aquecimento sobre a terra é cerca de 2,5 vezes mais rápida do que sobre o oceano. O ciclo irregular El Niño/La Nina domina a variabilidade interanual da temperatura, o que sugere que 2022 não será muito mais quente que 2021, mas 2023 pode estabelecer um novo recorde. Além disso, três fatores: (1) aceleração das emissões de gases de efeito estufa (GEE), (2) diminuição dos aerossóis, (3) o ciclo de irradiação solar aumentará um desequilíbrio energético planetário já recorde e levará a temperatura global além do limite de 1,5°C – provavelmente durante a década de 2020. Por causa da inércia e atrasos de resposta nos sistemas climáticos e energéticos, o limite de 2°C provavelmente também será ultrapassado em meados do século.

Desta forma, se o aquecimento global continuar no ritmo atual, a civilização estará no rumo de uma catástrofe. E o mais grave é que a autodestruição humana pode levar junto milhões de espécies que nada tem a ver com os erros egoísticos dos seres que se julgam superiores e os mais inteligentes do Planeta. A humanidade pode estar rumando para o suicídio, podendo também gerar um ecocídio e um holocausto biológico de proporções épicas.

O aquecimento global derrete o gelo dos polos, da Groenlândia e dos glaciares elevando o nível do mar e deixando bilhões de pessoas afetadas pela invasão da água salgada e escassez da água potável. A acidificação e a morte dos oceanos vai ter um impacto devastador para a humanidade. O aquecimento e a acidificação também vai afetar a agricultura e o preço dos alimentos deve subir, aumentando a insegurança alimentar e acendendo uma centelha capaz de incendiar grandes mobilizações de massa.

Para mitigar o aquecimento global, libertar-se dos combustíveis fósseis é essencial. Porém, está cada vez mais evidente que não basta mudar a matriz energética, descarbonizar a economia e promover uma maquiagem verde no processo de produção e consumo. É preciso, urgentemente, colocar na ordem do dia o debate sobre os meios de se promover o decrescimento das atividades antrópicas. A meta de redução da pobreza deve ser alcançada pelo decrescimento das desigualdades sociais e não pelo crescimento demoeconômico desenfreado.

Em meados de janeiro de 2021, uma onda de calor intensa atingiu a região central da América do Sul fazendo com que cidades na Argentina, Uruguai, Paraguai e no Rio Grande do Sul registrassem temperaturas recordes. A poderosa onda de calor provocou uma onda de incêndios em vegetação no Cone Sul. A área mais atingida por incêndios florestais foi a Argentina, o país mais afetado pelo calor extremo com máximas nacionais acima de 40ºC todos os dias entre 08 e 15 de janeiro, com registros de até 45ºC. A Austrália bateu o recorde com 50,7ºC. Isto é inédito e serve de alerta para os negacionistas da crise climática provocada pelo crescimento exponencial das atividades antrópicas.

O mundo precisa aprender com o trauma da covid-19 e mobilizar todas as forças possíveis para mitigar a crise climática e resolver os problemas ambientais do século XXI. Senão, como mostrou o jornalista David Wallace-Wells, teremos uma “Terra inabitável”. (ecodebate)

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