segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Decrescimento populacional com prosperidade social na Tailândia

 “Não podemos esconder os problemas do crescimento populacional humano debaixo do tapete” - Dra. Jane Goodall.

A Tailândia deve servir de inspiração para os demais países, especialmente para aqueles países que apresentam grande crescimento populacional e baixo crescimento econômico

A Tailândia (conhecida anteriormente como Sião) é uma nação asiática situada no centro da península da Indochina e península Malaia. Faz fronteira ao norte com Mianmar e Laos, a Leste com Laos e Camboja, ao sul pelo Golfo da Tailândia e da Malásia e a oeste o Mar de Andamão.

Suas fronteiras marítimas incluem o Vietnã, no Golfo da Tailândia, a Indonésia e a Índia. O país é uma monarquia constitucional, desde 1946. Cerca de 75% da população é etnicamente tailandesa, 14% são de origem chinesa e 3% são etnicamente malaias. A religião principal é o budismo, praticado por cerca de 85% da população.

A Tailândia era um dos países mais pobres do mundo em meados do século passado, mas passou por uma rápida e profunda transição demográfica e avançou em termos econômicos e sociais. Até o início dos anos de 1970, a Tailândia tinha uma renda per capita abaixo da renda per capita de Moçambique e muito abaixo da renda per capita brasileira.

A evolução econômica e social da Tailândia depois da Segunda Guerra Mundial foi marcada por profundas transformações que a levaram de uma economia agrária tradicional a uma economia emergente, industrializada e urbanizada.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Tailândia escapou de ocupação direta, mas esteve alinhada ao Japão. Ao fim do conflito, buscou se reposicionar internacionalmente, tornando-se aliada dos EUA no contexto da Guerra Fria. A economia ainda era fortemente agrária, com predominância do cultivo de arroz para exportação. O país recebeu apoio econômico e militar dos EUA, especialmente nos anos 1950, o que financiou infraestrutura e ajudou a estabilizar o regime militar que se consolidava no poder.

O governo incentivou a industrialização por substituição de importações e, depois, a abertura ao capital estrangeiro. O investimento direto externo, sobretudo japonês e americano, impulsionou indústrias leves (têxteis, processamento de alimentos) e a infraestrutura urbana, principalmente em Bangkok. O país se tornou um polo logístico e militar importante durante a Guerra do Vietnã, recebendo grandes fluxos de capital e tecnologia. O crescimento econômico acelerou, acompanhado de migração rural-urbana, ampliando desigualdades sociais e regionais (Bangkok versus o interior).
Nos anos 1980–1990 aconteceu o “milagre econômico tailandês”. A Tailândia passou a adotar políticas exportadoras, com foco em manufaturas, eletrônicos, automóveis e vestuário. O PIB cresceu em média de 7 a 8% ao ano, transformando o país em um dos chamados “tigres asiáticos secundários”. Houve expansão da classe média urbana, maior acesso à educação e redução da pobreza.

Nos anos 2000, a economia se diversificou, mantendo a agricultura como base exportadora (arroz, borracha, açúcar), mas consolidando setores industriais e serviços. O turismo se tornou um dos maiores motores econômicos, representando cerca de 15% do PIB. Houve melhorias sociais: redução da pobreza extrema, maior acesso à saúde e educação. No entanto, persistiram desigualdades regionais.

A Tailândia, hoje, é classificada como país de renda média-alta (possui renda per capita maior do que a brasileira). Destaca-se pela integração às cadeias globais de valor, com forte presença de montadoras e eletrônicos. Socialmente, apresenta altos índices de alfabetização, sistemas de saúde relativamente bem estruturados e redução expressiva da pobreza em comparação ao período pós-guerra.

Em 1950, a população da Tailândia era de 20,4 milhões de habitantes, cerca de 2,6 vezes menor do que a população de 53,9 milhões de habitantes do Brasil. Mas a Tailândia, mesmo sendo um país majoritariamente rural e agrário, fez uma rápida e profunda transição demográfica que possibilitou o crescimento da renda per capita e a melhoria das condições sociais.

O gráfico abaixo, com dados do FMI, mostra que a população da Tailândia era de 47 milhões de habitantes em 1980 e chegou ao pico de 72 milhões em 2022. No mesmo período, a renda per capita, em preços constantes, em poder de paridade de compra (ppp) passou de US$ 4,6 mil para US$ 21,3 mil.

Na atual década, a população da Tailândia vai diminuir para 71,2 milhões de habitantes em 2030. Porém, a renda per capita deve subir para US$ 25 mil em 2030. Ou seja, entre 2022 e 2030 a população vai encolher, mas a renda per capita vai aumentar, elevando o poder de compra médio da população. O IDH da Tailândia, em 2023, foi de 0,798, ocupando o 76º lugar no ranking global, muito próximo de entrar no grupo muito alto de desenvolvimento humano.
No pensamento convencional, o envelhecimento populacional conjugado com o decrescimento demográfico é interpretado como “armadilha fiscal gerontológica” ou “inverno demográfico” e seria o fim da linha para o desenvolvimento humano de qualquer nação. Contudo, o exemplo da Tailândia, que tem uma idade mediana de 41 anos em 2025, mostra que pode haver envelhecimento e decrescimento da população com prosperidade social.

De fato, a diminuição da população significou o fim do 1º bônus demográfico. Mas a Tailândia contou com o 2º bônus demográfico – bônus da produtividade – o 3º bônus demográfico – bônus da longevidade e da geração prateada e o 4º bônus ou bônus do decrescimento.

Esta visão sobre o decrescimento populacional como oportunidade de progresso social e ambiental é apontada pelo renomado demógrafo Wolfgang Lutz, que traça um quadro bastante otimista do futuro da civilização humana se for dada prioridade à educação universal e, em particular, à educação feminina:

“Mais investimentos em educação compensam em termos de maior bem-estar, e ainda mais quando combinado com níveis de fecundidade que levam ao declínio populacional a longo prazo em países individuais e, em última análise, em todo o mundo. Portanto, esta conclusão apoia o título do artigo, que afirma que o declínio da população global não é apenas provável, mas também irá beneficiar o bem-estar humano a longo prazo” (Lutz, 2023, p. 13).

Desta forma, o envelhecimento populacional é inexorável, mas isto não implica necessariamente em retrocesso nos indicadores sociais. O mundo será um lugar melhor para se habitar se o decrescimento populacional dos países for acompanhado do aumento da renda per capita e da redução da pegada ecológica e do déficit ambiental. Um mundo com menor quantidade de pessoas, pode ser um mundo com maior qualidade de vida humana e ecológica.

O avanço tecnológico pode compensar a diminuição do número de trabalhadores. Por exemplo, a Inteligência Artificial (IA) – a despeito de seus efeitos potencialmente perigosos – pode contribuir para mitigar as tendências de declínio da população em idade produtiva, mesmo não substituindo completamente o trabalho humano. A IA pode ajudar a aumentar a produtividade, transformar setores e criar novas oportunidades, compensando, em parte, a escassez de mão de obra, podendo contribuir da seguinte forma:

Pirâmide populacional do Tailândia em 2025

1. Aumento da produtividade

A IA pode automatizar tarefas repetitivas e rotineiras, liberando os trabalhadores humanos para focarem em tarefas mais complexas e de maior valor agregado. Isso é especialmente importante em setores como a manufatura, serviços financeiros, saúde e logística, onde a automação já está permitindo operações mais eficientes.

2. Compensação em setores críticos

Nos cuidados de saúde e na assistência aos idosos, onde a demanda aumentará devido ao envelhecimento populacional, a IA pode desempenhar um papel crucial. Sistemas baseados em IA podem ajudar no diagnóstico precoce de doenças, monitoramento de pacientes e administração de medicamentos, reduzindo a carga sobre médicos, enfermeiros e cuidadores.

3. Economia baseada em habilidades tecnológicas

Com a adoção de IA, muitos setores estão se transformando, exigindo novas habilidades. Isso pode compensar o decrescimento da força de trabalho em setores mais tradicionais, desde que as economias estejam preparadas para transições tecnológicas. A educação e a requalificação serão cruciais para permitir que as pessoas se adaptem a essas mudanças.

4. Autonomia em infraestrutura e transportes

Sistemas autônomos, como veículos sem motorista e drones, podem reduzir a necessidade de trabalhadores em setores como transporte e logística. Essas inovações também podem ser aplicadas em infraestruturas inteligentes para melhorar a eficiência de cidades e indústrias, com menos necessidade de mão de obra direta.

5. Melhoria da eficiência econômica

A IA pode ajudar a otimizar processos econômicos em várias escalas. Com a capacidade de analisar grandes volumes de dados e prever padrões, a IA pode identificar áreas de melhoria nas cadeias de suprimento, na alocação de recursos e no consumo de energia, aumentando a produtividade geral da economia.

6. Automação de trabalhos intelectuais

Além dos trabalhos manuais, a IA também pode assumir tarefas que tradicionalmente requerem habilidades cognitivas, como análises financeiras, geração de conteúdo e tomada de decisões estratégicas, o que pode compensar a falta de profissionais em certos campos especializados.

Como disse Larry Fink, Chairman and CEO at BlackRock (2025): “Há uma preocupação de que a IA possa eliminar empregos. É uma preocupação válida. Mas em sociedades ricas e envelhecidas que enfrentam escassez inevitável de mão de obra, a IA pode ser menos uma ameaça do que uma tábua de salvação”.

Evidentemente, o progresso tecnológico não é inevitavelmente positivo, uma vez que ele precisa ser orientado por escolhas conscientes que busquem beneficiar o coletivo e não apenas o poder econômico de elites minoritárias. Para garantir que os avanços tecnológicos beneficiem a maioria da população e não apenas uma elite é importante garantir o funcionamento de instituições fortes e inclusivas, possibilitando um futuro mais próspero e equitativo para todas as pessoas.
Evolução da população mundial 1950-2050

As transições demográfica, energética e tecnológica podem reconfigurar a dinâmica social e econômica no século XXI. O caso da Tailândia deve servir de inspiração para os demais países, especialmente para aqueles países que apresentam grande crescimento populacional e baixo crescimento econômico, visando a redução da pobreza e o aumento da qualidade de vida humana. (ecodebate)

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