segunda-feira, 1 de março de 2010

A hipocrisia da simples neutralização de carbono

Muitas empresas têm encontrado o fácil caminho da plantação de mudas de árvores, que levarão 20 anos para seqüestrar carbono, para tentar convencer os consumidores de que já compensaram seus pecados poluidores e que estão, novamente, livres e “zeradas” para continuarem poluindo. Na propaganda televisiva, até detergente virava uma gigante árvore, instantaneamente, na frente de um espectador infantil que não crescia. Era a lenda da semente de feijão reinventada. Carbono neutro, carbono zero, carbon free são termos cada vez mais frequentes nas propagandas no nosso dia-a-dia. Recentemente, uma empresa de estacionamento publicou um anúncio onde em um pátio totalmente asfaltado e impermeável crescia, por força de um artifício de algum programa de computador, uma frondosa árvore e a empresa anunciava que estava livre de emissões de carbono. Ora, a impermeabilidade do terreno faz muito mal à cidade estimulando o aquecimento e o transbordamento de rios. Será essa uma linguagem responsável de comunicação? Será que se pode “enganar tantos por tanto tempo”? Cabe refletirmos a respeito, pois num primeiro momento, pode-se entender que a atitude reflete uma preocupação ambiental, mas a verdade é que, muitas vezes, não passa de “greenwashing”, a tal da maquiagem verde que ou é propaganda enganosa ou é falsidade ideológica. Essas empresas ao buscarem transmitir uma imagem de responsabilidade socioambiental estão montando uma bomba relógio contra si próprias. Estimular simplesmente a compensação, em 20 anos, de suas emissões, muitas vezes por força de ineficiências em seus processos e atitudes, não contribui de forma eficaz para resolver os problemas ambientais que temos e teremos. As empresas precisam demonstrar de forma genuína e verdadeira que desenvolvem ações para que seus fornecedores, sua produção e sua distribuição sejam sustentáveis, e mais, que seus produtos e serviços são sustentáveis. Não existirão empresas sustentáveis se seus produtos e serviços não forem sustentáveis. Apenas plantar árvores que levarão 20 anos para crescer e absorver carbono não é uma solução eficiente de valorização consistente de marca e nem de contribuição efetiva para um mundo melhor, por mais que muitos ainda possam ficar na ilusão de estarem com as “consciências limpas”, mas entregando produtos e serviços não sustentáveis para consumidores cada vez mais conscientes e seletivos.

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