terça-feira, 27 de outubro de 2026

Relatório da ONU alerta para a falência hídrica global

Relatório declara a Era da Falência Hídrica Global. Veja os 5 alertas sobre lagos, aquíferos, geleiras e o que muda na gestão da água.
Estudo da Universidade das Nações Unidas afirma que muitos sistemas de água não voltarão ao normal e propõe trocar a gestão de crise pela gestão de falência.

Lagos encolhendo, aquíferos em declínio, geleiras desaparecendo e cidades afundando: o relatório do UNU-INWEH mostra por que o termo “crise hídrica” ficou pequeno.

Durante gerações, a humanidade acreditou que a água doce era um recurso infinitamente renovável. Bastaria esperar a próxima estação de chuvas para que rios, lagos e aquíferos voltassem aos níveis históricos. Ao empurrar o planeta além dos limites do ciclo hidrológico global, porém, destruímos essa margem de segurança.

Um estudo publicado pelo Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Ambiente e Saúde (UNU-INWEH) muda a forma de enxergar o problema. Segundo o relatório, o termo “crise” já não descreve a realidade vivida por bilhões de pessoas. Entramos na “Era da Falência Hídrica Global”.

Conduzido pelo cientista Kaveh Madani, o estudo alerta que ultrapassamos pontos de não retorno em diversos ecossistemas essenciais. Veja a seguir as 5 principais revelações do documento, que redefinem nossa relação com a água e exigem uma transformação urgente na governança do planeta.

Esqueça o termo “crise”: muitos sistemas de água faliram e não voltarão ao normal

Rotular a escassez atual como “crise” ou “estresse hídrico” alimenta a falsa esperança de que uma chuva mais forte basta para restaurar o padrão do passado. O estudo, revisado por pares e publicado na revista científica Water Resources Management, distingue com precisão os 3 conceitos:

Estresse hídrico: pressão elevada sobre o sistema, com impactos ainda temporários e reversíveis.

Crise hídrica: choques agudos e momentâneos, que podem ser superados com intervenções emergenciais de curto prazo.

Falência hídrica: estado pós-crise permanente, resultante da extração contínua de águas superficiais e subterrâneas acima da taxa de recarga natural. O resultado é a perda irreversível, ou extremamente dispendiosa de recuperar, do capital natural.

Para traduzir esse colapso em termos econômicos, os pesquisadores recorrem a uma analogia financeira. Ao longo de décadas, a sociedade gastou toda a “renda” hidrológica renovável, gerada a cada ano pelas chuvas, pelos rios e pelo derretimento da neve.

Além disso, liquidou as “poupanças” acumuladas durante milênios em aquíferos profundos, geleiras e zonas úmidas. Quando a poupança acaba e a infraestrutura natural colapsa, a insolvência é inevitável.

“Este relatório diz uma verdade desconfortável: muitas regiões estão vivendo além de seus meios hidrológicos, e muitos sistemas hídricos críticos já estão falidos”, afirma Kaveh Madani, diretor do UNU-INWEH e autor principal do estudo.
Os dados da bancarrota: lagos desaparecendo, geleiras derretendo e cidades afundando

Alerta global: relatório da ONU declara entrada na era da “falência hídrica” do planeta.

As evidências já estão visíveis em todo o globo. Muitas vezes, os danos ocorrem em silêncio, debaixo dos nossos pés, até que a infraestrutura urbana rache e o solo ceda sob as cidades. O relatório reúne dados alarmantes sobre a degradação dos ecossistemas de água doce:

50% dos grandes lagos do mundo perderam volume desde o início da década de 1990, o que afeta diretamente 25% da população mundial, que depende deles para sobreviver.

410 milhões de hectares de zonas úmidas e pântanos foram destruídos nos últimos 50 anos, área equivalente a quase toda a União Europeia. A perda anual em serviços ecossistêmicos é estimada em US$ 5,1 trilhões.

70% dos principais aquíferos do planeta apresentam declínio contínuo em suas reservas de longo prazo.

2 bilhões de pessoas vivem em terrenos que estão afundando (subsidência do solo) por causa do bombeamento excessivo de água subterrânea. Em algumas metrópoles e deltas, o rebaixamento chega a 25 cm por ano.

Mais de 30% da massa de geleiras desapareceu em várias regiões desde 1970. Prevê-se que diversas cordilheiras de baixa e média altitude percam totalmente suas geleiras funcionais nas próximas décadas.

A agricultura no centro do problema: o custo das secas criadas pelo ser humano

A falência hídrica não é obra do acaso nem mero azar meteorológico. É resultado direto de escolhas de gestão, de modelos de consumo e da destruição ambiental. O relatório consolida o conceito de “seca antropogênica”: déficit hídrico causado por sobre-exploração, desmatamento, salinização do solo, poluição e mudanças climáticas, e não por simples oscilações naturais do clima.

Cerca de 4 bilhões de pessoas enfrentam escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano.

Mundo entra em era de falência hídrica, alerta relatório da ONU

A produção global de alimentos está no centro desse cenário:

A agricultura irrigada responde por cerca de 70% de todas as retiradas globais de água doce.

A água subterrânea garante 50% da água potável doméstica e mais de 40% da água usada na irrigação em todo o mundo.

3 bilhões de pessoas e mais de 50% da produção global de alimentos estão concentrados em regiões onde o armazenamento total de água está em queda ou se tornou instável.

Mais de 170 milhões de hectares de lavouras irrigadas enfrentam estresse hídrico alto ou muito alto, e a salinização já danificou cerca de 100 milhões de hectares de terras agrícolas.

O custo econômico direto dessas secas provocadas pelo ser humano é estimado em cerca de US$ 307 bilhões por ano.

Impactos desiguais: como a perda de água gera desigualdade e conflitos

A falência hídrica é, antes de tudo, uma questão de justiça social, segurança e geopolítica. A degradação dos recursos hídricos não atinge todos da mesma maneira. Os lucros do consumo predatório ficaram concentrados nas mãos dos atores econômicos mais poderosos, enquanto a conta da escassez recai sobre os mais vulneráveis.

Pequenos agricultores, povos indígenas, moradores de assentamentos informais, mulheres e jovens suportam o peso desproporcional do colapso. As consequências também não se limitam às fronteiras locais. Elas circulam pelo planeta por meio do comércio internacional, da volatilidade nos preços dos alimentos e das migrações forçadas.

Cerca de 75% da humanidade vive em países classificados como inseguros ou criticamente inseguros em termos de água.

2,2 bilhões de pessoas não têm acesso a serviços de água potável gerenciados de forma segura.

3,5 bilhões de pessoas não dispõem de saneamento básico adequado.

“A falência hídrica está se tornando um motor de fragilidade, deslocamento e conflito. Gerenciá-la com justiça, protegendo as comunidades vulneráveis e compartilhando de forma equitativa as perdas inevitáveis, é agora central para manter a paz, a estabilidade e a coesão social”, afirma Tshilidzi Marwala, reitor da Universidade das Nações Unidas e subsecretário-geral da ONU.

Imagem mostra Rio Negro em período de vazante

Gerir a falência e usar a água como ponte para a paz

Diante de um sistema hidrológico insolvente, tentar “voltar ao normal” é uma impossibilidade física. Para o UNU-INWEH, reconhecer a falência hídrica não é um ato de desespero nem de desistência, mas de honestidade intelectual e política. É o primeiro passo para estancar os prejuízos e reorganizar a sociedade dentro dos limites reais da natureza.

Para passar da ineficaz “gestão de crise” à necessária “gestão de falência”, o relatório aponta quatro diretrizes estratégicas:

Superar o emergencialismo: abandonar soluções temporárias de curto prazo e investir em adaptação estrutural aos “novos normais” hidrológicos.

Mudar a perspectiva econômica: deixar de tratar a água apenas como setor de impacto a jusante (downstream), voltado ao consumo final e à mitigação de danos, e reconhecê-la como setor de oportunidade a montante (upstream). Isso significa investir na proteção da fonte, do ciclo hidrológico, dos solos e do capital natural que a produz.

Usar a água como instrumento diplomático: aproveitar a dependência humana compartilhada da água como recurso neutro de cooperação, capaz de aproximar governos, setores produtivos e ideologias em um mundo geopoliticamente fragmentado.

Revisar as agendas multilaterais: usar marcos internacionais decisivos para redefinir as regras da governança hídrica global, como a Conferência da ONU sobre a Água de 2026 (co-sediada por Senegal e Emirados Árabes Unidos), o encontro de 2028 e o prazo final dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em 2030.

Lago do Parque do Ibirapuera em 2024 viu seu volume de água secar.

O relatório é um chamado à honestidade e ao realismo

A ciência é clara: nenhuma tecnologia consegue re-inflar aquíferos cujas estruturas rochosas colapsaram e se compactaram, nem reconstituir no curto prazo as geleiras milenares que derreteram. O passado hidrológico ficou para trás.

Aceitar a falência, porém, abre espaço para agir com realismo. Isso significa conter a degradação do capital natural que resta, redirecionar investimentos e adaptar instituições e economias à capacidade real da Terra.

O déficit com o planeta cresce a cada dia de negação. Estamos prontos para declarar essa falência e reorganizar nossas economias, ou vamos continuar emitindo cheques sem fundo contra o futuro da vida na Terra? (ecodebate)

domingo, 25 de outubro de 2026

Estudo afirma que o mundo entrou na era da falência hídrica global

Na região de Liptako-Gourma, no Níger, uma área que sofre com a degradação generalizada do solo e a escassez de água, um morador toma precauções extras para manter seu suprimento de água limpo.

Lagos, rios e aquíferos estão em colapso, colocando em risco produção mundial de alimentos; especialista afirma que situação pode impulsionar conflitos sociais; em muitas regiões, o que antes eram secas ocasionais transformaram-se em escassez permanente de água.

O abastecimento de água no mundo entrou numa era de falência, após décadas de uso excessivo, poluição e perturbações causadas pelas mudanças climáticas.

Esse é o quadro trágico apresentado no relatório “Falência Hídrica Global”, lançado pelo Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas.

Quase metade da produção mundial de alimentos sob risco

O estudo revela que muitos sistemas hidrológicos importantes ao redor do mundo chegaram num ponto sem volta, em que o volume de água extraída é muito maior que a reposição natural. Cruzar essa linha significa que aquíferos, lagos e zonas úmidas não podem mais ser restaurados.

O diretor do Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde, Kaveh Madani, disse que é preciso encarar a verdade incômoda de que “muitos sistemas hídricos essenciais já estão em colapso”. A situação afeta áreas responsáveis por quase metade da produção global de alimentos.

Falando a jornalistas em Nova Iorque, ele afirmou que se a humanidade continuar a lidar com essa falha como uma crise temporária, com soluções de curto prazo, “o dano ecológico só vai se aprofundar, alimentando conflitos sociais”. Ele enfatizou que a falência da água é uma questão séria de justiça e segurança globais.

Os países em desenvolvimento, como o Iraque (foto), não têm recursos para investir na recuperação, na ação climática e nos ODS.

Lagos, aquíferos e zonas úmidas estão desaparecendo

Os dados indicam que metade dos grandes lagos do mundo, dos quais 25% da humanidade depende, perderam água desde o início da década de 1990. Além disso, 70% dos principais aquíferos apresentam declínio.

Nas últimas 5 décadas, 410 milhões de hectares de zonas úmidas naturais foram destruídos, quase o equivalente ao tamanho de toda a União Europeia.

O estudo ressalta que embora nem todas as bacias hidrográficas ou países estejam nessa situação de falência hídrica, muitas áreas cruciais já foram afetadas, com consequências no comércio, migração, equilíbrio climático e relações geopolíticas.

Usando analogias financeiras, o relatório afirma que muitas sociedades não só gastaram em excesso sua "renda" anual de água renovável proveniente de rios, solos e neve derretida, como também esgotaram suas "reservas" de longo prazo em aquíferos, geleiras, zonas úmidas e outros reservatórios naturais.

Águas cada vez mais tóxicas

O levantamento ressalta o impacto das escolhas e atividades humanas no esgotamento dos recursos hídricos, criando situações crônicas. Em muitas regiões, o que antes era uma seca ocasional transformou-se em escassez permanente de água, que persiste mesmo em anos com chuvas “normais”, devido a uma demanda maior do que o ambiente pode oferecer.

Paralelamente a essas mudanças físicas, a qualidade da água também caiu em muitos locais, devido a aditivos usados na agricultura, despejo de esgoto, resíduos de mineração, poluição por plásticos e contaminantes como produtos farmacêuticos e de higiene pessoal.

Essa poluição degradou rios, lagos e águas costeiras. Bacias hidrográficas densamente povoadas estão sendo afetadas pela proliferação de algas nocivas, contaminação por patógenos e altos níveis de toxicidade, o que dificulta o reaproveitamento da água para uso humano.

A transferência de contaminantes entre espécies marinhas e seres humanos através do consumo de frutos do mar tem sido identificada como um grave risco para a saúde

Fase de “gestão da falência”

Os autores do relatório enfatizam que os governos devem agora focar na “gestão da falência”, prevenindo danos irreversíveis, transformando setores que consomem muita água e priorizando transições justas para comunidades vulneráveis.

O documento foi divulgado antes de uma reunião de alto nível em Dacar, no Senegal, marcada para 26 a 27 de janeiro. O encontro terá como foco a preparação da Conferência da ONU sobre a Água de 2026, que será de 2 a 4 de dezembro, nos Emirados Árabes Unidos, com apoio do Senegal. (news.un.org)

População idosa cresce no Brasil e o país precisa de um plano

O Brasil envelhece em ritmo acelerado e precisa integrar políticas públicas de saúde, mobilidade, trabalho e clima para garantir longevidade com dignidade.

O país já contabiliza cerca de 36,6 milhões de idosos (pessoas com 60 anos ou mais), o que representa uma parcela expressiva e crescente da população. Para transformar essa transição demográfica em um cenário positivo, especialistas apontam pilares fundamentais que vão além da previdência social:

Frentes Essenciais de Planejamento

• Transporte e mobilidade: Calçadas seguras, semáforos com tempo adequado de travessia e ônibus acessíveis evitam o isolamento e preservam a autonomia urbana dos mais velhos.

• Saúde integrada no SUS: Aprimorar a prevenção e o acompanhamento contínuo (físico e mental) para combater a perda de capacidade funcional e dar suporte às famílias e cuidadores.

• Trabalho e renda: Promover jornadas flexíveis, requalificação profissional e combate ao preconceito etário para quem deseja ou precisa continuar economicamente ativo.

• Lazer e convivência: Criar centros de integração e programas intergeracionais para combater a solidão e preservar a saúde mental da comunidade idosa.

• Adaptabilidade climática: Considerar o impacto de ondas de calor e poluição atmosférica — fatores que afetam de maneira severa o sistema respiratório e cardiovascular dessa faixa etária.
O Brasil envelhece rápido e viver mais é uma conquista. Veja por que o país precisa de políticas públicas de saúde, moradia, transporte, lazer e trabalho.

Com mais gente chegando aos 70, 80 e 90 anos, a longevidade é uma conquista que só se transforma em qualidade de vida com políticas públicas de saúde, moradia, transporte, lazer e trabalho.

Pense numa rua comum de um bairro brasileiro. Duas décadas atrás, o barulho vinha das crianças jogando bola na calçada. Hoje, é bem provável que o som mais frequente seja o de uma avó chamando o neto da janela, o de um vizinho de 75 anos regando as plantas ou o de uma tia aposentada que segue trabalhando meio período, porque ainda tem disposição e também contas a pagar.

Essa mudança silenciosa nas famílias revela um fenômeno bem maior: o Brasil está envelhecendo, e num ritmo que poucos países viveram.

Os números que mudaram o retrato do país

Em 2023, pela primeira vez, o Brasil passou a ter mais pessoas com 70 anos ou mais do que crianças pequenas. Para dimensionar o salto: em 1950, havia 4,3 crianças de 0 a 4 anos para cada pessoa com 60 anos ou mais. A projeção para 2100 inverte a conta, com 10 idosos para cada criança dessa faixa etária.

A expectativa de vida acompanha essa curva. Era de 48,5 anos em 1950, chegou a 76 em 2024 e deve alcançar 87 até o fim do século. Quem nasceu em meados do século passado dificilmente imaginaria que seus netos viveriam quase 3 décadas a mais.

Viver mais é motivo de celebração

Ao falar de envelhecimento, é comum ouvir previsões sombrias, como se um país com mais idosos estivesse fadado ao colapso. Prefiro outro ângulo. Viver mais significa que menos gente morre cedo, que doenças antes fatais passaram a ter tratamento e que saneamento, vacinas e atendimento básico chegaram a mais lares. É um resultado coletivo, construído ao longo de gerações.

O economista Andrew Scott propõe uma distinção útil: há a sociedade apenas envelhecida e há a sociedade da longevidade. A diferença está em como cada país trata seus mais velhos, se como um custo a administrar ou como uma força a aproveitar.

Há evidências de que a segunda opção funciona. Dados da OCDE indicam que, na Europa, cerca de 90% do aumento no número de empregados na última década veio de pessoas com mais de 50 anos. Ao contrário do que muita gente supõe, os mais velhos não esvaziam o mercado de trabalho: ajudam a sustentá-lo.

Não basta somar anos, é preciso somar vida

Aqui está o ponto central. Importa menos quantos anos a pessoa vai viver e mais como vai vivê-los. Especialistas chamam isso de longevidade sadia: o tempo vivido com saúde, autonomia e vontade de participar da vida em comunidade.

Quem mantém a mobilidade, faz acompanhamento de saúde adequado e conta com uma rede de apoio tende a seguir produtivo, a consumir e a contribuir com a sociedade. Quem envelhece sem suporte acaba pressionando hospitais, famílias e o sistema previdenciário. O que separa um cenário do outro são as decisões tomadas hoje, não as de daqui a 3 décadas.

Previdência é só uma parte da conversa

Idosos serão a maior parcela da população, e expectativa de vida chegará a 83 anos em 2070

Taxa no futuro será de quase 4 idosos para cada 10 habitantes, indica IBGE. Já na idade média, Brasil será dos 'cinquentões'.

Quando o tema é envelhecimento, o debate costuma parar na aposentadoria. A sustentabilidade das contas é legítima e urgente, mas sozinha não dá conta da vida real de quem envelhece. Um plano sério precisa olhar para ao menos 5 frentes.

Saúde. O sistema precisa estar preparado para cuidar de doenças crônicas, prevenir quedas, ampliar o acesso a geriatras e fortalecer a atenção primária e o cuidado domiciliar. Prevenir sai mais barato e é mais humano do que remediar.

Habitação. Escadas sem corrimão, banheiros escorregadios e ruas sem acessibilidade transformam o lar num risco. Programas de adaptação de moradias, opções para quem vive sozinho e incentivos a projetos acessíveis fazem diferença concreta.

Transporte e mobilidade. Calçadas regulares, semáforos com tempo suficiente para atravessar, ônibus de piso baixo e estações acessíveis garantem que a pessoa continue frequentando a padaria, a consulta e a casa dos amigos. Sem mobilidade, a autonomia vai embora antes da saúde.

Lazer e convivência. A solidão adoece. Praças bem cuidadas, centros de convivência, atividades culturais e esportivas e programas entre gerações ajudam a manter os vínculos e a saúde mental.

Trabalho. Quem quer ou precisa continuar trabalhando deve poder fazê-lo, com jornadas flexíveis, combate ao preconceito etário e oportunidades de requalificação. A permanência voluntária no mercado é um caminho para colher o chamado dividendo da longevidade: o ganho econômico e social de ter uma população mais velha e mais saudável.

O clima também entra na conta

Idosos em posto de atendimento do INSS: eles serão maior parcela da população em 2070

Há ainda um fator novo. Uma pesquisa da Universidade de Michigan com pessoas acima de 50 anos mostrou que 74% haviam vivido ao menos um evento climático extremo recentemente. Entre elas, 59% temem os efeitos do clima sobre a própria saúde, e 74% se preocupam com o impacto sobre as gerações futuras.

Não é exagero. Idosos sofrem mais com ondas de calor e com a poluição, que agrava problemas respiratórios. Um plano de adaptação climática que ignore esse grupo deixa de fora justamente a parcela da população que mais cresce.

Idade mediana dos brasileiros hoje e em 2070

A decisão que não pode esperar

A transição demográfica brasileira já está em curso, é mensurável e, em boa parte, irreversível. A pergunta não é se o país vai envelhecer, mas se vai envelhecer bem.

Isso exige políticas públicas claras, com metas, orçamento e responsáveis definidos, que conversem entre si em vez de funcionarem em gavetas separadas. Previdência, saúde, habitação, transporte, lazer, trabalho e clima precisam estar no mesmo desenho, porque na vida de uma pessoa de 75 anos tudo isso acontece ao mesmo tempo, no mesmo dia.

O Brasil tem a chance de transformar uma mudança demográfica inédita em um projeto de país mais digno e mais humano. Todos nós estamos a caminho dessa fase.

Pirâmide populacional em 2070: População de “cinquentões”

Planejar para os mais velhos de hoje é, no fundo, cuidar de quem seremos amanhã. (ecodebate)

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Super El Niño previsto para 2026 será o fenômeno mais forte dos últimos 150 anos

Pico do Super El Niño tem data prevista para 2026 e fenômeno será o mais forte dos últimos 150 anos.
O pico do Super El Niño está previsto para ocorrer entre novembro e dezembro de 2026, com grandes chances de ser um dos episódios mais intensos já registrados no mundo.

Previsão e Intensidade

• Data do pico: Entre novembro e dezembro de 2026.

• Intensidade: Mais de 90% de probabilidade de atingir nível "muito forte", podendo ser o mais intenso em 150 anos segundo análises climáticas e serviços meteorológicos como o Met Office.

• Duração: Os efeitos devem se estender por grande parte de 2027.

Impactos no Brasil

• Região Sul: Chuvas excessivas e temporais frequentes (como no Rio Grande do Sul).

• Norte e Nordeste: Tendência de tempo seco, calor acentuado e maior risco de incêndios florestais.

• Sudeste e Centro-Oeste: Variações com áreas mais secas e risco de impacto em reservatórios de energia.

Super El Niño pode se tornar um dos fenômenos mais fortes dos últimos 150 anos. 

O El Niño de 2026 continua avançando rapidamente e as projeções mais recentes aumentaram a expectativa de que o fenômeno alcance uma intensidade excepcional nos próximos meses. Modelos climáticos apontam que o pico deve ocorrer entre novembro e dezembro de 2026, com possibilidade de o episódio entrar para a lista dos mais fortes já observados.

A atualização de setembro da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) mostra que existe mais de 90% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte durante o fim de 2026 e o inverno de 2026/2027 no Hemisfério Norte.

Além disso, a NOAA calcula 75% de chance de o trimestre outubro-novembro-dezembro registrar um evento histórico, com intensidade superior à de todos os episódios de El Niño registrados pela série utilizada pelo órgão desde 1950.

Projeções analisadas por pesquisadores também levantam a possibilidade de o episódio de 2026/2027 se transformar no El Niño mais intenso em pelo menos 150 anos de registros e reconstruções históricas. No entanto, essa comparação ainda depende de como o fenômeno realmente evoluirá até atingir seu máximo.

Quando será o pico do Super El Niño?

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) aponta que a intensificação deve continuar durante a primavera no Hemisfério Sul. A previsão mais recente indica que o fenômeno deverá alcançar seu ponto máximo entre novembro e dezembro de 2026.

Ativistas do Greenpeace Brasil na Marcha pelo Clima em 2024, ano sob influência de forte El Niño, com pior seca da história e de fortes enchentes, como o desastre climático no Rio Grande do Sul.

Portanto, apesar de o El Niño já estar muito forte, o oceano ainda poderá esquentar mais nas próximas semanas.

A OMM estimou, em sua atualização para setembro, outubro e novembro, uma anomalia média próxima de 3,6°C na região Niño 3.4, uma das principais áreas utilizadas pelos cientistas para acompanhar a evolução do fenômeno.

O termo “Super El Niño” não representa uma categoria meteorológica oficial separada. Especialistas costumam empregá-lo informalmente para descrever episódios excepcionalmente fortes, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.

Pacífico já registra aquecimento

Os dados divulgados pelo International Research Institute for Climate and Society (IRI), da Universidade de Columbia, mostram que o aquecimento já alcançou níveis impressionantes.

Na semana centrada em 16 de setembro, o índice Niño 3.4 chegou a 3°C acima da média. Em agosto, a média mensal havia sido de 2,52°C, mostrando uma intensificação rápida em poucas semanas.

Além disso, os 22 modelos climáticos analisados pelo IRI projetam um El Niño muito forte durante o fim de 2026 e o começo de 2027.

A maioria dos modelos também indica que as anomalias na região Niño 3.4 poderão permanecer próximas ou acima de 3°C justamente durante o período em que o fenômeno costuma alcançar sua maior intensidade.

Outro fator aumenta a atenção dos meteorologistas. Uma enorme quantidade de água excepcionalmente quente permanece abaixo da superfície do Pacífico equatorial.

Segundo o IRI, algumas regiões entre aproximadamente 50 e 150 metros de profundidade apresentam temperaturas mais de 8°C superiores ao normal. Esse reservatório de calor pode continuar alimentando o aquecimento da superfície do oceano.

A NOAA também identificou áreas de subsuperfície com anomalias superiores a 10°C durante agosto.
Super El Niño está em ação.

Super El Niño pode ser o maior em 150 anos

Uma análise divulgada em julho reuniu centenas de simulações climáticas e indicou a possibilidade de o El Niño de 2026 superar os grandes episódios registrados desde o fim do século XIX.

A revista científica Nature destacou que pesquisadores consideram possível que o evento se transforme no maior em pelo menos 150 anos caso as projeções mais extremas se confirmem.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) também afirma que a NOAA e outras instituições projetam um evento muito forte, potencialmente entre os maiores observados em mais de 150 anos.

Entretanto, ainda não é possível afirmar definitivamente que o recorde será quebrado. A intensidade oficial dependerá das temperaturas observadas durante vários meses e da resposta conjunta entre oceano e atmosfera.

El Niño deve continuar em 2027

O fenômeno também não deverá desaparecer logo depois de atingir seu pico.

As projeções do IRI indicam 100% de probabilidade de manutenção do El Niño até o trimestre fevereiro-março-abril de 2027. Depois disso, a chance começa a diminuir conforme o fenômeno tende a perder força.

A previsão oficial da NOAA também mantém uma probabilidade extremamente elevada de El Niño durante os primeiros meses de 2027, antes de uma possível transição para condições neutras durante o segundo trimestre.

Isso significa que os efeitos associados ao fenômeno poderão continuar influenciando o clima mesmo depois do pico previsto para novembro e dezembro.

Super El Niño já começa a impactar as regiões do Brasil

Brasil pode sentir impactos diferentes em cada região

No Brasil, o cenário exige atenção principalmente por causa das alterações na distribuição das chuvas e das temperaturas.

O boletim oficial produzido por INMET, INPE, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil e Censipam aponta tendência de chuvas acima da média no Sul, especialmente no Rio Grande do Sul. Parte de São Paulo e Mato Grosso do Sul também poderá registrar volumes superiores ao normal.

Por outro lado, áreas do Norte e Nordeste tendem a enfrentar menos chuva. Partes de Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo também apresentam maior probabilidade de precipitações abaixo da média.

Além disso, os meteorologistas projetam temperaturas acima da média em praticamente todo o Brasil. A combinação de calor e períodos prolongados sem chuva também pode elevar o risco de queimadas principalmente nas regiões central e norte do país.

No Sul, por outro lado, um El Niño muito intenso pode favorecer episódios de chuva volumosa. Por isso, os órgãos brasileiros mantêm o monitoramento sobre a possibilidade de enchentes, temporais e outros eventos extremos.

Apesar disso, os cientistas reforçam que um El Niño mais forte não significa automaticamente impactos extremos em todos os lugares. Outros fatores atmosféricos e oceânicos também determinam onde e quando ocorrerão ondas de calor, secas ou grandes volumes de chuva.

Com o pico previsto para o fim de 2026 e grande quantidade de calor ainda armazenada no Pacífico, as próximas semanas serão decisivas para determinar se o atual Super El Niño realmente entrará para a história como o mais intenso das últimas gerações. (portaltemponovo)

O Brasil e as políticas públicas para eventos climáticos extremos

Análise dos crescentes e devastadores impactos dos eventos climáticos extremos, com um foco especial na vulnerabilidade social e na insuficiência das políticas públicas no Brasil.
Este artigo analisa os principais temas e ideias apresentados nos artigos “Extremos climáticos sempre afetam os mais pobres”, “Faltam políticas públicas urbanas para desastres naturais no Brasil”, “Impactos dos eventos climáticos extremos na população e na economia” e “Tragédia Climática no Rio Grande do Sul: Lições de um Desastre”, todos publicados pelo EcoDebate.

Os textos convergem na análise dos crescentes e devastadores impactos dos eventos climáticos extremos, com um foco especial na vulnerabilidade social e na insuficiência das políticas públicas no Brasil.

1. O preço humano e social da crise climática: a vulnerabilidade dos mais pobres

Um tema central e recorrente em todos os artigos é a desproporcionalidade dos impactos dos eventos climáticos extremos, que recaem de forma mais severa sobre a população pobre e marginalizada. O artigo “Extremos climáticos sempre afetam os mais pobres” destaca que, embora o mundo todo sofra com tragédias climáticas, no Brasil, eventos como deslizamentos e enchentes resultam em centenas de mortes, “em sua maioria de cidadãos pobres que habitam em áreas de risco”.

Essa vulnerabilidade é intrinsecamente ligada à falta de políticas públicas eficazes. A ausência de programas de geração de emprego e renda, projetos habitacionais e acesso a serviços básicos leva famílias pobres a ocupar ilegalmente áreas de risco, buscando proximidade com locais de trabalho e serviços essenciais. O texto argumenta que a formação de favelas em áreas perigosas é um “primeiro erro da administração pública, que é a ausência total de políticas públicas sérias que possam reverter este fenômeno”.

A omissão do poder público na fiscalização e prevenção dessas ocupações é apontada como um “crime”. A permissão para a criação dessas comunidades em áreas de alto risco, sabendo que “mais cedo ou mais tarde, uma tragédia acontecerá”, demonstra uma negligência que se perpetua ao longo dos mandatos. A consequência é a contínua construção de um cenário de tragédias onde “a verdadeira tragédia no Brasil seja ser pobre e privado dos serviços básicos, ser invisível aos olhos dos políticos”.

2. A insuficiência crítica das políticas públicas urbanas

Os artigos evidenciam uma lacuna significativa nas políticas públicas brasileiras para lidar com desastres naturais. O levantamento apresentado em “Faltam políticas públicas urbanas para desastres naturais no Brasil” revela que a maioria das capitais brasileiras não possui planos diretores com regulamentações adequadas para prevenção e reparação de danos causados por desastres. A pesquisa identificou que apenas 17 capitais (42%) usam o termo “risco” para expressar situações catastróficas e somente 10 capitais (24%) tratam efetivamente de políticas públicas para desastres. A situação é ainda mais crítica no que diz respeito ao direito à moradia em casos de reassentamentos ou realocações, mencionado por apenas 7 capitais (17%).

A falta de amparo jurídico e de um debate consolidado sobre o direito à moradia como um direito social constitucionalmente garantido agrava o problema. O texto ressalta que, mesmo com o repasse de recursos em desastres recentes, “os instrumentos jurídicos foram insuficientes para amparar a gestão territorial desse tipo de situação”. A ausência de dispositivos legais para penalizar a administração pública por negligência e omissão em tragédias é destacada em “Extremos climáticos sempre afetam os mais pobres”, reforçando a ideia de que os políticos evitam criar leis que possam puni-los.

3. A relação direta entre mudanças climáticas e eventos extremos

Os textos estabelecem uma conexão clara entre as mudanças climáticas globais e o aumento na frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos. “Impactos dos eventos climáticos extremos na população e na economia” explica que as alterações no clima da Terra, causadas principalmente pela emissão de gases de efeito estufa, “afetam o equilíbrio do sistema climático e podem aumentar a frequência, a intensidade e a duração dos eventos climáticos extremos”. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é citado para corroborar a influência das mudanças climáticas em eventos como ondas de calor, secas e chuvas intensas, projetando que “esses eventos se tornarão mais frequentes e severos com o aumento do aquecimento global”.

O artigo “Riscos climáticos aumentam e cobram preço humano e econômico” reforça essa ligação, afirmando que “Perigos climáticos hídricos estão aumentando em frequência e intensidade como resultado das mudanças climáticas”. O Secretário-Geral da OMM, Prof. Petteri Taalas, destaca que, “Conforme a atmosfera fica mais quente, ela retém mais umidade, o que significa que choverá mais durante as tempestades, aumentando o risco de inundações”. A tragédia no Rio Grande do Sul, em 2024, é apresentada em “Tragédia Climática no Rio Grande do Sul: Lições de um Desastre” como um “choque de realidade triste” que demonstra a urgência de ações, com o Brasil enfrentando um número crescente de eventos extremos.

4. Os custos humanos e econômicos devastadores

Os artigos detalham os múltiplos e severos impactos dos eventos climáticos extremos, tanto na população quanto na economia. “Impactos dos eventos climáticos extremos na população e na economia” lista consequências diretas como “Mortes e ferimentos”, “Deslocamentos e migrações”, “Prejuízos econômicos”, “Problemas de saúde” e “Conflitos sociais”.

No âmbito econômico, os danos são significativos. O relatório da ONG Christian Aid, citado em “Impactos dos eventos climáticos extremos na população e na economia”, aponta que em 2021, 10 eventos extremos causaram prejuízos bilionários globalmente. O furacão Ida nos EUA, com US$ 95 bilhões em danos, e as enchentes na Europa, com US$ 30 bilhões, são exemplos destacados. A América Latina também sofreu, com a seca do Rio Paraná afetando navegação, agricultura e energia, e as enchentes na Bahia deixando milhares de desabrigados.

O artigo “Riscos climáticos aumentam e cobram preço humano e econômico” apresenta dados da Organização Meteorológica Mundial (WMO), revelando que, entre 1970 e 2019, os riscos relacionados à água dominaram os desastres em termos de custos humanos e econômicos. Secas, tempestades e inundações foram responsáveis pelas maiores perdas humanas, enquanto tempestades e enchentes geraram as maiores perdas econômicas globais. Apesar da melhoria nos sistemas de alerta e gestão de desastres, que têm reduzido o número de mortes em algumas regiões como a Europa (excetuando as ondas de calor extremas), o custo econômico continua alto.

5. A urgência de adaptação e mitigação

Diante do cenário apresentado, os artigos enfatizam a necessidade urgente de ações de adaptação e mitigação para enfrentar os desafios impostos pelos eventos climáticos extremos. “Impactos dos eventos climáticos extremos na população e na economia” sugere que a adaptação consiste em “aumentar a resiliência dos sistemas naturais e humanos aos eventos climáticos extremos, por meio de planejamento, prevenção, proteção e recuperação”. Já a mitigação envolve “reduzir as emissões de gases de efeito estufa e aumentar os sumidouros de carbono, por meio de transição energética, eficiência, inovação e cooperação”. A “recuperação verde” é vista como uma oportunidade para alinhar essas medidas com a retomada econômica pós-pandemia.

O artigo “Tragédia Climática no Rio Grande do Sul: Lições de um Desastre” reitera a urgência da redução de emissões e da adaptação aos impactos. Gustavo Loiola, especialista citado no texto, afirma que “para lidar com essa situação, duas frentes de ação são essenciais: a redução de emissões de gases do efeito estufa e a adaptação aos impactos já em curso”. Ele destaca a importância de “Investir em infraestrutura resistente, desenvolver planos de emergência, adotar práticas sustentáveis e aprender com soluções baseadas na natureza” como passos cruciais para a adaptação.

A necessidade de políticas públicas mais robustas é um chamado constante. O estudo apresentado em “Faltam políticas públicas urbanas para desastres naturais no Brasil” incentiva a realização de mais pesquisas para “melhorias de desenho legislativo e de medidas administrativas para lidar com os desastres e concretizar o direito à moradia digna”.
Conclusão

Os artigos fornecem um panorama crítico e urgente sobre os impactos dos eventos climáticos extremos no Brasil. Eles demonstram que a crise climática não é apenas um problema ambiental, mas uma questão profundamente social e econômica, que exacerba as desigualdades existentes e cobra um alto preço humano e financeiro.

A falta de políticas públicas eficazes, especialmente no âmbito urbano e social, é identificada como um fator crucial que aumenta a vulnerabilidade da população, em particular dos mais pobres.

A urgência em implementar medidas de adaptação e mitigação, aliada a um compromisso político real e à criação de um arcabouço legal mais robusto, é fundamental para enfrentar este desafio crescente e construir um futuro mais resiliente e justo. (ecodebate)

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Construir verde custa mais agora e economiza depois

Construir verde custa mais agora e economiza depois: por que o mercado imobiliário brasileiro ainda não fez essa conta.

Construir com foco em sustentabilidade exige um aporte inicial maior, mas gera economia operacional a longo prazo. No entanto, o mercado residencial brasileiro ainda hesita em adotar essa conta devido a barreiras de curto prazo, foco no custo inicial e estrutura de incentivos insuficientes.
Fachada moderna com um exuberante jardim vertical em Portland, exibindo a vegetação urbana.

Existe uma conta simples que o mercado imobiliário brasileiro ainda não decidiu fazer de forma sistemática. Um edifício com certificação LEED custa entre 5% e 10% a mais para construir. Em contrapartida, consome em média 30% menos energia elétrica e 40% menos água do que uma construção convencional equivalente, segundo dados do GBC Brasil. Os valores de locação de imóveis certificados são entre 15% e 18% mais altos. A velocidade de ocupação é maior. O custo operacional ao longo da vida útil do edifício é significativamente menor.

O sobre custo inicial se amortiza. A questão é em quanto tempo e quem paga essa conta.

O que é a certificação LEED e por que ela importa

A certificação LEED, sigla para Leadership in Energy and Environmental Design, é um sistema de avaliação ambiental de edificações criado pelo U.S. Green Building Council e reconhecido internacionalmente. No Brasil, o GBC Brasil é o órgão responsável pela implementação do sistema, que avalia eficiência energética, uso racional da água, qualidade do ar interno, materiais utilizados na construção e sustentabilidade do terreno escolhido para o empreendimento.

A certificação tem quatro níveis: Certified, Silver, Gold e Platinum. O nível Platinum, mais alto da escala, exige acima de 80 pontos numa avaliação que pode chegar a 110. São Paulo lidera o ranking nacional com dez empreendimentos certificados LEED Platinum, todos na categoria corporativa, concentrados nos principais eixos da Avenida Paulista, Faria Lima e Engenheiro Luís Carlos Berrini.

Em 2025, o GBC lançou o LEED v5, versão que intensifica o foco em descarbonização e neutralidade de carbono. Projetos registrados no Brasil a partir de 2025 podem optar pela nova versão, que adiciona métricas de emissões incorporadas na construção ao conjunto de critérios já existentes.

Os números que justificam o investimento

O Faria Lima 3500, prédio corporativo adquirido pelo Itaú por R$ 1,49 bilhão e detentor de três certificações LEED simultâneas, alcançou 31% de redução no consumo de energia em relação ao padrão convencional. Cem por cento dos resíduos não orgânicos gerados pelo edifício são encaminhados para reciclagem. O sistema de uso eficiente de água reduziu o consumo hídrico de forma expressiva.

A Torre Santander, na Vila Olímpia em São Paulo, recebeu a certificação LEED Platinum por práticas que incluem reuso de água, sistemas avançados de climatização, iluminação natural maximizada e utilização de materiais reciclados na construção.

Esses casos corporativos representam o topo do mercado. O argumento ambiental e financeiro funciona com clareza quando o comprador ou locatário é uma empresa que contabiliza custo operacional, relata emissões para investidores e usa o endereço sustentável como argumento de posicionamento de marca.

O problema é que esse argumento ainda não desceu para o mercado residencial na mesma proporção.

O mercado residencial e o apartamento para alugar em São Paulo

Para quem busca apartamento para alugar em São Paulo, a certificação LEED raramente aparece como critério de busca. Não porque o inquilino não se beneficiaria dela, mas porque a oferta de imóveis residenciais certificados ainda é proporcionalmente pequena em relação ao estoque total disponível na cidade.

O GBC Brasil reconhece essa lacuna e tem trabalhado para ampliar a certificação para o segmento residencial. Mas esbarra numa lógica de mercado que o próprio setor nomeia com honestidade. Como apontam especialistas do setor, no alto padrão a sustentabilidade é uma questão conceitual, já que dificilmente a economia de água e luz muda algo na vida do comprador que paga R$ 40 mil ou R$ 60 mil por metro quadrado. A sustentabilidade como diferencial de venda funciona melhor onde o impacto econômico é mais visível: nos programas de habitação popular, onde a redução da conta de luz e água representa percentual relevante da renda familiar.

Essa constatação revela uma contradição que o mercado ainda não resolveu. Quem mais se beneficiaria da redução de custos operacionais proporcionada pela construção sustentável é exatamente quem menos acesso tem a ela, porque o sobre custo de 5% a 10% na construção se traduz em preços de venda e locação acima do que o segmento de renda média consegue absorver sem subsídio.

O que muda com o LEED v5

A versão 5 do LEED, disponível para novos registros no Brasil desde 2025, adiciona ao sistema de avaliação métricas de carbono incorporado na construção, ou seja, as emissões geradas pela extração, transporte e processamento dos materiais utilizados antes mesmo de o edifício entrar em operação. Esse componente, chamado de carbono incorporado ou embodied carbon, representa entre 10% e 20% das emissões totais de um edifício ao longo de sua vida útil, segundo estimativas do setor.

A mudança é relevante porque até então a avaliação LEED focava principalmente nas emissões operacionais, aquelas geradas pelo consumo de energia e água durante o uso do edifício. Com o LEED v5, a conta ambiental passa a começar antes da obra terminar, o que pressiona incorporadoras a escolher materiais com menor pegada de carbono desde o projeto.

Por que o mercado ainda não generalizou a construção verde

A resposta que o setor dá quando pressionado é sempre a mesma: o sobre custo inviabiliza a adoção em larga escala sem incentivos. Mas essa resposta é parcial. O sobre custo de 5% a 10% na construção se amortiza ao longo da vida útil do edifício por meio da redução de custos operacionais. O problema não é que a conta não fecha. É que ela fecha no longo prazo para o proprietário, enquanto o construtor paga o sobre custo no curto prazo e o repassa integralmente para o preço de venda.

Municípios como São Paulo, Curitiba e Niterói já concedem desconto no IPTU para edificações com certificação ambiental reconhecida, o que representa um incentivo concreto. Mas a escala desse incentivo ainda é insuficiente para mover o mercado de forma sistêmica.

O resultado é que São Paulo, cidade com dez empreendimentos LEED Platinum e dezenas de projetos registrados em diferentes estágios de certificação, convive com um estoque residencial majoritariamente construído sem qualquer critério de eficiência ambiental. O apartamento verde existe. O apartamento para alugar em São Paulo com certificação LEED que caiba no orçamento do inquilino de renda média ainda é exceção.

Construção verde: obra que não pode mais ignorar essa tendência

A conta que o mercado precisa fazer

Construir verde custa mais agora e economiza depois. Essa equação é matematicamente verificável. O que falta é que o mercado a incorpore como padrão, não como diferencial de luxo ou marketing de sustentabilidade.

O setor imobiliário é responsável por 38% das emissões globais de carbono, segundo dados do GBC. No Brasil, onde o ritmo de construção é acelerado e o estoque de edificações antigas é enorme, a oportunidade de reduzir essas emissões por meio da construção mais eficiente é proporcionalmente grande. A certificação LEED é um instrumento para isso. O LEED v5 chegou com critérios mais rigorosos. Os incentivos fiscais existem, ainda que insuficientes.

O que falta não é tecnologia nem metodologia. É a decisão de tratar a eficiência ambiental das edificações como critério de planejamento urbano, não como atributo opcional de empreendimento premium. (ecodebate)

Super El Niño desafia resiliência das redes de distribuição

Super El Niño desafia resiliência das redes de distribuição com a previsão de ondas de calor extremo, tempestades e ventos fortes que pressionam a infraestrutura elétrica brasileira no verão de 2026/2027.

Desafios para o Setor Elétrico

• Demografia e Carga: Temperaturas acima da média elevam o uso de ar-condicionado e aumentam a carga sobre transformadores e subestações.

• Eventos Extremos: O Super El Niño e a resiliência do Setor Elétrico Brasileiro debatido pela ANEEL apontam riscos de quedas de galhos e tempestades.

• Limites de Ativos: Cabos e dispositivos operam perto do limite, elevando o risco de falhas localizadas.

Ações das Concessionárias

• Investimentos: O setor prevê aportar cerca de R$ 20 bilhões em reforço de redes e modernização.

• Tecnologia: Uso de monitoramento em tempo real e simulações de cenários climáticos para antecipar gargalos.

• Operação: Ampliação de equipes de atendimento emergencial e protocolos integrados com a Defesa Civil.

Distribuidoras antecipam investimentos, reforçam equipes e ampliam automação para enfrentar tempestades, ventos fortes e chuvas intensas, no verão 2026/2027.

O verão 2026/2027 colocará as redes de distribuição de energia elétrica diante de um cenário climático mais desafiador. A expectativa de um El Niño de forte intensidade aumenta o risco de chuvas volumosas, tempestades e ventos fortes no Sul e Sudeste. Enquanto isso, o Norte e o Nordeste tendem a enfrentar temperaturas mais elevadas, ondas de calor excessivo e menor volume de precipitação. Para as distribuidoras, os 2 cenários exigem preparação.

O fenômeno também ocorre em um momento em que os eventos climáticos extremos passaram a ocupar espaço permanente no planejamento do setor elétrico. Árvores derrubadas, postes danificados, alagamentos, descargas atmosféricas, queimadas e ondas de calor ocasionam interrupções simultâneas e pressionam a capacidade de resposta das empresas.

Embora o termo “Super El Niño” tenha ganhado espaço no debate público, a classificação científica utilizada é a de El Niño muito forte, segundo a Climatempo. Os efeitos mais relevantes são esperados no último trimestre de 2026 e ao longo do verão de 2027.

El Niño tão pouco atua sozinho. Frentes frias, bloqueios atmosféricos e outros sistemas podem alterar a intensidade e a distribuição dos eventos. (canalenergia)

Relatório da ONU alerta para a falência hídrica global

Relatório declara a Era da Falência Hídrica Global. Veja os 5 alertas sobre lagos, aquíferos, geleiras e o que muda na gestão da água. Estud...