A ciência indica que o Oceano
Ártico ultrapassou um ponto crítico irreversível de esgotamento de nutrientes,
como o nitrato. Isso altera a base da cadeia alimentar marinha, prejudicando o
plâncton e impactando peixes, aves e baleias em um processo de mudança
ecossistêmica que dificilmente será revertido.
O Declínio dos Nutrientes
Essenciais
O derretimento do gelo
marinho, impulsionado pelo aquecimento global e pela "atlantificação"
(entrada de águas mais quentes do Atlântico), alterou a circulação das
correntes e a química da água. A expectativa inicial era que a redução do gelo
permitiria que mais luz solar chegasse à água, estimulando o crescimento do
fitoplâncton. No entanto, dados recentes demonstraram o oposto: o Ártico entrou
em um estado de deficiência de nutrientes que compromete a base de sua cadeia
alimentar.
Impacto Climático e
Retroalimentação
Além da escassez nutricional,
as alterações no Ártico causam efeitos climáticos em cascata. O derretimento da
calota polar reduz a capacidade da Terra de refletir a luz solar para o espaço,
acelerando ainda mais o aquecimento global. Esse processo é agravado pelo
enfraquecimento de correntes marítimas, como as do Atlântico, e pela mistura de
águas profundas mais quentes com a superfície.
Para entender melhor a
gravidade e as pesquisas feitas nessa região extrema do planeta, assista a este
vídeo sobre uma expedição brasileira realizada no arquipélago de Svalbard, na
Noruega.
Tem uma frase que fica
difícil de digerir na primeira leitura: “o oceano pode nunca mais se
recuperar“. Não é o tipo de coisa que a gente espera ouvir sobre algo do
tamanho do Oceano Ártico. A gente costuma pensar em oceanos como sistemas
gigantescos, resilientes, cíclicos, sempre voltando ao equilíbrio depois de
qualquer choque. Mas foi exatamente essa ideia que um grupo de cientistas da
Universidade de Edimburgo colocou em xeque.
E o mais inquietante não é só a escala do problema. É a data. Segundo o estudo, a mudança começou de forma silenciosa, quase imperceptível, há mais de quinze anos, muito antes do degelo do Ártico de virar manchete.
O que os cientistas descobriram
O Estreito de Bering é uma
passagem marítima que separa a Ásia (Rússia) da América do Norte (Alasca). Ele
conecta o Oceano Ártico ao norte com o Oceano
O estudo, publicado na
revista Communications Earth & Environment, sob o título “Sea ice loss
drives a regime shift in Arctic Ocean nitrogen biogeochemistry”, partiu de uma
pergunta simples: por que as populações de animais selvagens no Ártico vêm
mudando de um jeito que ninguém conseguia explicar direito?
Para responder, a equipe foi
atrás de mais de duas décadas de dados de amostragem oceânica coletados no
Estreito de Fram, uma passagem estratégica entre a Groenlândia e o arquipélago
de Svalbard, por onde a água do Ártico escoa em direção ao Atlântico. É como
medir o pulso de um paciente por 20 anos seguidos: em algum momento, um sinal
muda de padrão, e é isso que os pesquisadores encontraram.
A partir de 2009, os níveis de nitrato na água que sai do Ártico começaram a cair de forma constante. E essa data não é coincidência porque foi justamente quando a perda de gelo marinho no Ártico acelerou de forma drástica.
Por que o nitrato importa tanto?
Se você nunca parou para
pensar em nitrato, tudo bem, a maioria de nós também não pensa. Mas ele é, para
o plâncton, o equivalente ao adubo para uma plantação. Sem esse nutriente, o
crescimento simplesmente não acontece na mesma escala.
E o plâncton, por sua vez, é
a base literal de tudo o que vive no Ártico: peixes pequenos comem plâncton,
peixes maiores comem os pequenos, aves marinhas mergulham atrás desses peixes,
focas e baleias fecham a cadeia. Tirar o nitrato da equação é como enfraquecer
o primeiro degrau de uma escada muito longa e o efeito se propaga para cima,
degrau por degrau.
Segundo os pesquisadores, o
mecanismo por trás disso tem um nome técnico pouco conhecido fora da ciência
marinha: desnitrificação bentônica. Em termos simples, é um processo natural
que converte o nitrato em gás nitrogênio no fundo do mar, em áreas rasas da
plataforma continental, regiões que, juntas, cobrem quase metade de todo o
Oceano Ártico.
O problema é que esse processo, que sempre existiu em ritmo lento, foi acelerado. E o motivo é quase poético em sua simplicidade: menos gelo significa mais luz solar entrando na água. Mais luz solar acelera reações que, antes, aconteciam de forma muito mais gradual. O gelo, que por milênios funcionou como uma espécie de cortina protetora, está sendo derretido e o que fica exposto por baixo não é o mesmo de antes.
Uma cadeia alimentar mais frágil, um oceano mais silencioso
A diferença geográfica entre
o Ártico e a Antártica é fascinante! O Ártico é uma região localizada no
extremo norte da Terra, composta principalmente por um oceano congelado cercado
por terras de vários países, como Canadá, Rússia e Noruega. Não é um
continente, e seu gelo flutua sobre o Oceano Ártico.
Já a Antártica é um
continente no extremo sul, coberto por uma gigantesca camada de gelo que pode
atingir até 4 km de espessura! Além disso, é o lugar mais frio e ventoso do
planeta, abrigando a maior reserva de água doce da Terra.
Duas regiões congeladas, mas
geograficamente muito diferentes.
Os cientistas alertam que,
num cenário de menos nitrato disponível, espécies de plâncton menores tendem a
se tornar predominantes. E aqui está o ponto que talvez mais preocupe quem
estuda ecossistemas marinhos: plâncton menor sustenta cadeias alimentares menos
produtivas. Há menos energia circulando, menos alimento disponível para os
animais no topo da cadeia, de peixes a mamíferos marinhos.
Não é uma mudança visível da
noite para o dia. É mais parecido com uma casa que vai perdendo sustentação aos
poucos, sem que ninguém perceba até que algo comece a ceder.
E tem uma segunda camada nessa história, que ultrapassa as fronteiras do Ártico. O plâncton também desempenha um papel essencial na absorção de dióxido de carbono da atmosfera, através da fotossíntese. Um oceano com menos plâncton é, também, um oceano menos eficiente em ajudar a conter o excesso de carbono que já aquece o planeta. Ou seja, o que acontece lá em cima, no topo do mundo, não fica lá em cima.
Porque os cientistas falam em “ponto sem volta”
Talvez a parte mais difícil
de aceitar seja que os pesquisadores acreditam ser improvável que o Oceano
Ártico retorne ao estado em que estava antes. Não porque falte esforço ou
vontade, mas porque a mudança está diretamente ligada ao declínio contínuo do
gelo marinho e esse declínio, por ora, não dá sinais de reversão.
É esse tipo de constatação
que caracteriza o que os cientistas chamam de “regime shift”, ou mudança de
regime porque não é uma flutuação temporária, é uma nova configuração do
sistema, com uma lógica própria, que se sustenta sozinha mesmo depois que a
causa inicial diminui.
Fico pensando em como é
estranho e triste que algo aparentemente tão distante do nosso dia a dia, um
oceano gelado no topo do planeta, esteja reescrevendo silenciosamente as
próprias regras que sustentam a vida ali. E que a gente só esteja descobrindo
isso agora, olhando para trás, através de dados de duas décadas.
Talvez seja esse o maior alerta do estudo: as mudanças mais profundas nem sempre chegam com barulho. Às vezes, elas já aconteceram e só quando alguém finalmente parar para medir, o tamanho real da transformação aparece.
(ecodebate)
































