Estudos
mostram impactos diretos e mensuráveis no desenvolvimento das árvores em
resposta às mudanças climáticas:
•
Crescimento mais lento: O estresse térmico e a falta de água provocam o
fechamento estomático, reduzindo o crescimento dos troncos. Pesquisas
publicadas na EcoDebate apontam que modelos climáticos superestimam em até 30%
a capacidade de armazenamento de carbono das florestas devido a esse
descompasso.
•
Ciclo de vida reduzido: Em regiões tropicais, o aumento da temperatura global
faz com que as plantas cumpram seu ciclo mais rapidamente, o que resulta em
árvores que crescem mais velozes e morrem mais cedo, detalha o portal
#Colabora.
•
Limites de temperatura: A fotossíntese opera de forma otimizada em médias
próximas a 34°C. Temperaturas acima de 40°C nas copas podem causar danos
irreversíveis às folhas, comprometendo o crescimento e a sobrevivência da
espécie.
• Acúmulo de reservas afetado: Árvores expostas a secas e calor na estação seca gastam suas reservas de amido e açúcares para se manter, deixando menos energia disponível para o crescimento quando chega o período de chuvas, segundo a Revista Pesquisa Fapesp.
Um novo estudo da Cornell University revela que o aquecimento está travando o crescimento das florestas, mesmo quando elas têm mais carbono disponível
Pesquisadores
descobriram que árvores sob aquecimento fotossintetizam, mas não crescem na
mesma proporção, um detalhe que pode estar fazendo os modelos climáticos
superestimarem em até 30% a capacidade das florestas de armazenar carbono.
Tem
uma frase que ouço desde criança e que, confesso, sempre me deu um certo
alívio: “não se preocupe tanto, as florestas absorvem o carbono que a gente
emite”. Era quase um suporte emocional. A natureza dando um jeito na nossa
bagunça, enquanto a gente tentava se organizar.
Um
grupo de pesquisadores da Cornell University, liderado pelo pesquisador de
pós-doutorado Brendan Clark, publicou em 18 de junho de 2026, um estudo na
revista Geophysical Research Letters que parte de uma constatação simples, mas
incômoda: as árvores estão crescendo mais devagar com o aquecimento global,
mesmo havendo mais carbono disponível na atmosfera para elas absorverem.
Isso
é contra intuitivo, eu sei. A lógica que aprendemos na escola é direta: mais CO2
no ar, mais “alimento” para a fotossíntese, mais crescimento. Só que a equipe
de Clark mostrou que essa conta não está fechando como deveria.
O
motivo tem o nome técnico de turgor, ou pressão de turgescência, mas a
explicação é quase poética de que em climas mais secos e quentes, as células
das árvores perdem água. E sem água suficiente dentro das células, elas não
conseguem se dividir e crescer, mesmo que a fotossíntese continue acontecendo
normalmente.
Em outras palavras: a árvore está “comendo”, mas não está “crescendo”. E é exatamente aí que mora o problema.
Fotossíntese não é a mesma coisa que crescimento
Essa
foi a frase do estudo que mais me marcou, dita pelo próprio Brendan Clark: os
modelos climáticos atuais partem da premissa de que fotossíntese e crescimento
são processos equivalentes. Só que, segundo as novas evidências, frequentemente
não são.
Isto
é como avaliar a saúde financeira de alguém só pelo quanto essa pessoa ganha,
sem considerar que boa parte do dinheiro pode estar travada, sem conseguir ser
usada para nada. A árvore “ganha” carbono através da fotossíntese, mas se as
condições climáticas não permitem que esse carbono se transforme em madeira,
tronco, raiz, ou seja, em crescimento real, ele simplesmente não se converte em
armazenamento de longo prazo.
E os modelos que usamos hoje para prever o futuro do clima não estavam considerando esse detalhe.
Os números que deveriam nos preocupar
Para
testar a hipótese, Clark usou dados de pesquisas realizadas com florestas na
Suíça, que acompanharam o crescimento de árvores de folha larga e de coníferas
durante 8 anos. O padrão observado lá já havia sido identificado também na
América do Norte e na Amazônia, de que o clima mais seco e mais quente reduz o
crescimento das árvores, independentemente da quantidade de carbono disponível
para fotossíntese.
Com
esses dados, ele construiu um modelo estatístico que projeta o crescimento das
árvores e o armazenamento de carbono até 2069, comparando essa projeção com
simulações de um dos modelos de superfície terrestre mais usados no mundo,
daqueles que orientam políticas públicas, acordos climáticos e decisões
bilionárias.
O
resultado foi expressivo. Os modelos atuais podem estar superestimando o
crescimento das árvores de folha larga em até duas vezes, e o das coníferas em
até 3 vezes. Isso significa árvores menores do que o previsto, especialmente
nas regiões que devem se tornar mais quentes e secas nas próximas décadas e,
por consequência, bem menos carbono armazenado do que os planos climáticos
atuais assumem.
Para colocar em perspectiva:
hoje, a vegetação terrestre absorve cerca de 27% de todo o carbono que emitimos
ao queimar combustíveis fósseis, enquanto os oceanos absorvem outros 25%. O
restante fica na atmosfera, alimentando o aquecimento. Se essa fatia de 27%
encolher, porque as florestas não estão crescendo como o esperado, o
aquecimento pode acelerar de um jeito que ainda não estamos contabilizando
direito.
Professor
Daniele Visioni, da Cornell e autor sênior do estudo, resumiu bem o espírito da
descoberta: quanto mais a comunidade científica observa, mais evidente fica
que, com o avanço do aquecimento, vai ficar mais difícil para a natureza “dar
conta do recado” sozinha.
E
aqui está o ponto que, para mim, é o mais sensível de todo o estudo. Não é que
as florestas tenham deixado de ser aliadas importantes no combate à crise
climática. É que talvez a gente estivesse contando demais com elas e super
dimensionando o quanto elas conseguiriam compensar nossas próprias emissões.
Clark
só chegou a essa descoberta porque um colega ecólogo, Shan Kothari, comentou
com ele sobre essas novas evidências de campo. A partir daí, Clark começou a
frequentar congressos de ecologia florestal só para entender melhor o fenômeno,
apesar de sua formação ser voltada para modelagem climática, não para ecologia
de campo.
Ele
próprio reconheceu que existe um certo distanciamento entre quem estuda as árvores
de perto, no campo, e quem constrói os grandes modelos matemáticos que tentam
prever o clima do planeta. E que esse tipo de ponte, entre quem observa a
natureza e quem a traduz em equações, é exatamente o que precisa acontecer com
mais frequência.
Acho que isso diz algo importante sobre ciência e sobre a vida, na verdade. Às vezes a resposta para um problema complexo não está em mais dados, mas em conversar com quem está olhando para o problema de um ângulo diferente do seu.
Clark já está trabalhando no próximo passo: desenvolver um código que outros pesquisadores possam incorporar diretamente aos seus modelos climáticos, para que esse efeito do crescimento mais lento das árvores passe a ser considerado nas previsões.
A
ideia é simples de explicar e gigantesca de executar, ajustar a peça que
faltava no quebra-cabeça, para que as próximas gerações de modelos climáticos
sejam mais precisas do que as atuais.
Confesso
que, no fim das contas, esse tipo de descoberta não me deixou mais pessimista,
mas me deixou mais atento. Existe uma diferença entre “a natureza vai resolver
isso por nós” e “a natureza é uma aliada poderosa, mas com limites que
precisamos respeitar e entender”.
As
árvores continuam fazendo seu trabalho silencioso, lá fora, mesmo sob calor e
seca. Só que talvez estejam fazendo um pouco menos do que a gente gostaria de
acreditar.
E
saber disso, em vez de nos desanimar, deveria nos dar ainda mais clareza sobre
onde colocar nossa energia. Não podemos e não devemos esperar que a floresta
cresça mais rápido, mas em garantir que ela tenha as condições e o tempo para
continuar crescendo, no ritmo que for possível. (ecodebate)


































