domingo, 5 de julho de 2026

Poluição dos oceanos começa nos rios e efluentes

A poluição marinha tem origem no continente, impulsionada pelo descarte inadequado de resíduos sólidos e esgoto. Mais de 80% dos detritos nos oceanos chegam até lá através do escoamento por rios, córregos e redes de drenagem urbana.

O Caminho dos Resíduos até o Mar

A contaminação dos ecossistemas aquáticos segue um ciclo urbano e geológico específico:

O Descarte nas Cidades: Resíduos plásticos descartados de forma irregular são levados pela chuva ou pelo vento para as galerias de águas pluviais. A falta de saneamento básico e o esgoto não tratado também são despejados diretamente em bacias hidrográficas.

O Transporte Fluvial: Os rios atuam como "corredores" naturais que carregam essa carga orgânica, química e plástica para as zonas costeiras.

O Impacto Profundo: Estima-se que milhões de toneladas de plástico cheguem aos mares anualmente, poluindo desde as praias até o mar profundo. O material se degrada em microplásticos, afetando milhares de espécies e entrando na cadeia alimentar.

Iniciativas e Ações

A proteção da vida marinha e do oceano está diretamente ligada ao tratamento de efluentes em áreas urbanas e industriais:

O Papel do Saneamento: Relatórios da ONU alertam que a melhora no tratamento de esgoto no Brasil é vital para reverter a poluição marinha.

Iniciativas Litorâneas: Campanhas locais, como as promovidas pelo Orla Rio, demonstram como as ações de limpeza costeira e o gerenciamento de resíduos terrestres previnem o dano ambiental.

Educação Ambiental: Discussões de especialistas enfatizam que o combate à poluição exige a conscientização sobre o destino final do lixo urbano e o impacto nos rios.
Antes de chegar ao mar, a poluição percorre cidades, indústrias e sistemas de saneamento que nem sempre conseguem tratar corretamente a água descartada

O Dia Mundial dos Oceanos, celebrado em 8 de junho, costuma chamar atenção para imagens de praias sujas, ilhas de plástico e animais marinhos afetados por resíduos. No entanto, parte importante desse problema começa longe da faixa de areia.

A poluição que chega ao mar percorre um caminho anterior, formado por rios, córregos, redes de drenagem, estações de tratamento e efluentes lançados de forma inadequada.

Essa conexão é essencial para entender por que a proteção dos oceanos depende também da qualidade da água tratada em áreas urbanas, rurais e industriais. Quando resíduos domésticos, químicos, orgânicos ou industriais chegam aos rios sem tratamento adequado, eles seguem o fluxo natural das bacias hidrográficas até alcançar represas, estuários e zonas costeiras.

O resultado aparece em diferentes formas: aumento da carga orgânica, proliferação de algas, redução do oxigênio na água, contaminação por metais, presença de microplásticos e degradação de habitats marinhos. Por isso, discutir oceanos também exige falar sobre saneamento, controle de efluentes e tecnologias usadas para tornar a água mais segura antes do descarte ou do reuso.

O papel do tratamento de água no controle da poluição

O tratamento de água e efluentes é uma das etapas mais importantes para reduzir a pressão sobre rios e mares. Em sistemas bem estruturados, a água passa por processos físicos, químicos e biológicos capazes de remover partículas, matéria orgânica, microrganismos e substâncias que poderiam comprometer o ambiente.

No caso do abastecimento público, o tratamento busca tornar a água própria para consumo, seguindo padrões de potabilidade definidos pelas autoridades sanitárias. Já no tratamento de efluentes, o objetivo é reduzir a carga poluidora antes que a água retorne ao meio ambiente ou seja reaproveitada em atividades industriais, agrícolas ou operacionais.

Nesse contexto, produtos químicos coagulantes têm papel relevante. Eles ajudam a agrupar partículas muito pequenas que ficariam dispersas na água, facilitando sua remoção nas etapas seguintes, como decantação e filtração. Essa etapa é decisiva para melhorar a turbidez, reduzir impurezas e aumentar a eficiência do processo.

É nesse ponto que pode ser citado o policloreto de alumínio 10, utilizado em determinados sistemas de tratamento como agente coagulante. Sua aplicação deve ocorrer com controle técnico, dosagem adequada e acompanhamento de parâmetros como pH, turbidez, alcalinidade e características do efluente. O uso correto contribui para a remoção de sólidos suspensos e para a melhoria da qualidade da água tratada.

Efluentes industriais exigem controle rigoroso

A indústria tem participação importante nesse debate porque diversos segmentos geram efluentes com características específicas. Alimentos, bebidas, papel e celulose, mineração, química, têxtil, metalurgia e construção civil podem produzir águas residuais com alta carga orgânica, cor, óleos, graxas, sedimentos ou compostos químicos.

Quando esses efluentes não passam por tratamento adequado, o impacto ambiental pode ser expressivo. Rios contaminados perdem capacidade de autodepuração, a biodiversidade aquática é prejudicada e comunidades que dependem da água para pesca, lazer ou abastecimento ficam mais vulneráveis.

Por isso, o controle começa dentro das empresas. É necessário mapear os pontos de geração de efluentes, monitorar a qualidade da água descartada, manter estações de tratamento em funcionamento adequado e cumprir as normas ambientais aplicáveis. A adoção de tecnologias mais eficientes não deve ser vista apenas como obrigação regulatória, mas como parte da responsabilidade ambiental do negócio.

A prevenção começa antes do descarte

Reduzir a poluição dos oceanos exige uma abordagem preventiva. Isso significa evitar que resíduos cheguem aos rios, ampliar a coleta e o tratamento de esgoto, fiscalizar descartes irregulares, melhorar a gestão de resíduos sólidos e incentivar o reúso de água sempre que tecnicamente viável.

O tratamento não corrige todos os danos quando a contaminação já se espalhou pelo ambiente. Por isso, a prevenção é mais eficiente e menos custosa do que a recuperação de rios degradados ou ecossistemas marinhos afetados.

Também é importante considerar que a qualidade da água depende de decisões integradas. Poder público, empresas, produtores rurais e população têm responsabilidades diferentes, mas complementares. A destinação correta de resíduos, a manutenção de redes de esgoto, o controle de produtos químicos e a escolha de insumos adequados para tratamento fazem parte da mesma cadeia de proteção.

Proteger os oceanos é cuidar da água desde a origem

O Dia Mundial dos Oceanos reforça que o mar não começa apenas na praia. Ele recebe o reflexo do que acontece nas cidades, nas indústrias, nos rios e nos sistemas de saneamento. Cada efluente tratado corretamente representa menos carga poluidora seguindo em direção aos ecossistemas aquáticos.

Ao incluir o tratamento de água no centro dessa discussão, a data ganha um sentido mais amplo e prático. Cuidar dos oceanos passa por melhorar a infraestrutura de saneamento, modernizar processos industriais, adotar insumos adequados e ampliar o compromisso com a qualidade da água em todas as etapas do seu ciclo.

A proteção marinha, portanto, começa antes da chegada ao litoral. Ela começa na forma como a água é captada, usada, tratada e devolvida ao ambiente. (ecodebate)

Perda de água na distribuição abasteceria 77 milhões de pessoas no Brasil

O Brasil desperdiça cerca de 39,53% da água tratada durante a distribuição. Esse volume jogado fora equivale a abastecer 77 milhões de pessoas por ano, superando em mais de duas vezes a população brasileira que hoje vive sem acesso à água potável.

Os dados fazem parte do “Estudo de Perdas de Água” elaborado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a consultoria GO Associados.

Principais pontos do cenário de perdas:

• O Volume Desperdiçado: O desperdício diário equivale a cerca de 4,8 mil piscinas olímpicas ou 16,2 milhões de caixas d'água.

• Causas Principais: As perdas ocorrem por vazamentos nos canos, fraudes (os chamados "gatos") e erros de medição nos hidrômetros.

• Disparidade Regional: Os piores índices estão nas regiões Norte e Nordeste, onde o desperdício supera a marca de 55%.

• Metas de Melhoria: A meta oficial é reduzir o índice nacional de perdas para 25%. Se o país conseguir alcançar esse patamar economizará 2,8 bilhões de metros cúbicos de água, gerando uma grande economia de recursos.

Volume de água desperdiçado no Brasil seria suficiente para abastecer 77 milhões de pessoas, aponta estudo

Estudo do Instituto Trata Brasil aponta que, por dia, o país perde o equivalente a 16,2 milhões de caixas d’água.

• Esse volume perdido corresponde a mais de duas vezes o total de brasileiros sem acesso ao abastecimento de água (cerca de 33 milhões de pessoas) e a mais de um quarto da população do país em 2024;

• Reduzir as perdas totais dos atuais 39,53% para 25% economizaria 2,8 bilhões de m³ de água por ano, volume capaz de abastecer 17,2 milhões de brasileiros que vivem em comunidades vulneráveis por dois anos;

• O volume total de água referente às perdas físicas em 2024 (cerca de 4,4 bilhões de m³) é equivalente a 4,8 mil piscinas olímpicas de água desperdiçadas diariamente ou ao conteúdo de 16,2 milhões de caixas d’água para uma família de cinco pessoas desperdiçadas por dia;

• 12 dos 100 municípios mais populosos do Brasil atendem às metas de 25% em perdas na distribuição e 216 L/ligação/dia em perdas por ligação, entre eles as capitais Goiânia (GO), Teresina (PI) e Campo Grande (MS);

• Redução de perdas de água de 39,53% para 25% resultaria em ganhos de R$ 47,3 bilhões até 2033;

• A eficiência no controle é uma medida de adaptação climática que aumenta a disponibilidade hídrica e reduz a pressão sobre os mananciais;

O Instituto Trata Brasil (ITB), em parceria com a consultoria GO Associados, publica o “Estudo de Perdas de Água 2026 (SINISA, 2024): Desafios na Eficiência do Saneamento Básico no Brasil”, que traz o panorama do problema ambiental, econômico e social da ineficiência no controle de perdas de água em nosso país.

Em meio ao agravamento das mudanças climáticas e cerca de 33 milhões de habitantes sem acesso à água potável, o país desperdiça 39,53% da água tratada antes mesmo que ela chegue às torneiras das famílias. O estudo aponta que o volume de perdas físicas em 2024 (cerca de 4,4 bilhões de m³) equivale a 4,8 mil piscinas olímpicas desperdiçadas por dia. Para ter uma ideia do que isso representa, esse mesmo volume corresponde a 16,2 milhões de caixas d’água para uma família de cinco pessoas por dia ou a 4,5 vezes o volume do Sistema Cantareira ao longo de um ano.

O levantamento foi elaborado a partir de dados públicos do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA, ano-base 2024) e compreende uma análise do Brasil, de suas cinco macrorregiões, das 27 Unidades da Federação e dos 100 municípios mais populosos do país (incluindo as capitais dos estados), que figuraram no Ranking do Saneamento de 2026.

O que é perda de água?

No processo de abastecimento de água, podem ocorrer perdas por vários motivos, como vazamentos, erros de medição e consumos não autorizados. Esses desperdícios trazem impactos negativos ao meio ambiente, à receita e aos custos de produção das empresas, o que deixa mais caro o sistema como um todo, prejudicando, em última instância, todos os usuários.

Quadro 1 – Características dos Indicadores Analisados
GO Associados

Então o ideal seria termos zero de perdas de água? Apesar da resposta ser sim, de acordo com a literatura sobre o tema, não ter perdas no sistema é algo inviável por limites econômicos (em determinado ponto, o custo fica superior ao do volume recuperado) e limites técnicos (existe um volume mínimo de perdas dadas as tecnologias atuais de materiais, ferramentas e logística).

No Brasil, o Ministério das Cidades editou a Portaria MCID nº 788, de 1º de agosto de 2024 (Portaria 788/2024), revogando e substituindo a Portaria nº 490, de 22 de março de 2021 (Portaria 490/2021), anteriormente editada pelo então Ministério do Desenvolvimento Regional. A Portaria 788/2024 passou a estabelecer metas para os indicadores de perdas na distribuição e perdas por ligação. Segundo o normativo, os municípios beneficiados por recursos públicos federais ou financiamentos com recursos da União deverão apresentar indicadores iguais ou inferiores a:

1. 35% e 303,0 L/ligação/dia até 2025;

2. 30% e 263,0 L/ligação/dia entre 2026 e 2032;

3. 25% e 216,0 L/ligação/dia a partir de 2033.

Impacto das perdas de água no Brasil

Para entender o impacto do controle de perdas, considerando-se somente as perdas físicas (como, por exemplo, os vazamentos), o volume (cerca de 4,4 bilhões de m³) seria suficiente para abastecer aproximadamente 77 milhões de brasileiros em um ano. Esta quantidade não somente equivale a mais de um quarto da população do país em 2024, como também corresponde a mais de duas vezes o número de habitantes sem acesso ao abastecimento de água nesse ano, cuja grandeza situa-se em torno de 33 milhões.

Além disso, com esse mesmo volume, seria possível abastecer os 17,2 milhões de brasileiros que vivem em comunidades vulneráveis por dois anos. Ao meio ambiente, a redução dessas perdas implicaria a disponibilidade de mais recurso hídrico para a população sem a necessidade de captação de água em novos mananciais.

Com o cenário de mudanças climáticas, os desafios para a disponibilidade hídrica nos mananciais se tornam cada vez mais evidentes. As perdas reais afetam diretamente os custos de produção e a demanda por água. Neste sentido, um elevado nível destas perdas equivale a uma captação e a uma produção superior ao volume efetivamente demandado, gerando as seguintes ineficiências:

Quadro 2 – Impactos na produção de água e no meio ambiente das perdas de água

Desequilíbrios na produção de água

Desequilíbrios ambientais

- Maior custo dos insumos químicos, energia para bombeamento, entre outros fatores de produção

- Maior custo de manutenção da rede e de equipamentos

- Uso excessivo da capacidade de produção e de distribuição existente

- Maior custo oriundo da possível utilização de fontes de abastecimento alternativas de menor qualidade ou de difícil acesso

- Pressão excessiva sobre as fontes de abastecimento do recurso hídrico, uma vez que se capta mais água do que efetivamente chega à população

- Maior custo posterior para mitigação dos impactos negativos dessa atividade (externalidades)


Reduzir as perdas totais dos atuais 39,53% para 25% economizaria volume capaz de abastecer 17,2 milhões de brasileiros

Instituto Trata Brasil

Benefícios sociais com a redução de perdas

Quadro 3 a seguir aponta as principais estatísticas descritivas a partir da redução de perdas, desagregadas por estado. Ao se admitir não uma eliminação total das perdas, mas uma redução dos atuais 39,5% aos 25% previstos pela Portaria 788/2024, o volume economizado seria da ordem de 2,8 bilhão de m3. Isso equivale ao consumo médio de aproximadamente 48 milhões de brasileiros em um ano.

Cenário nacional de perdas nos últimos 5 anos

O indicador mais comumente utilizado para a análise geral de perdas no país é o Índice de Perdas na Distribuição, que busca estabelecer uma relação entre a água produzida e a água efetivamente consumida nas residências. Considerando os últimos cinco anos, o valor de 2024, de 39,53%, é ligeiramente menor que o de 2020, de 40,14%, ambos significativamente superior à meta de 25%.

Recorte por região

A situação de perdas no Brasil apresenta significativas diferenças quando se comparam suas diversas macrorregiões. É possível concluir que Norte e Nordeste são as mais carentes e que devem enfrentar os maiores desafios para reduzirem seus índices de perdas. Além disso, essas regiões também são aquelas que possuem os piores indicadores de atendimento de água, de coleta e de tratamento de esgotos.

De 2020 a 2024, a macrorregião que mais apresentou piora foi a Nordeste, com aumento de 0,46 ponto percentual. Por outro lado, observa-se melhora na macrorregião Norte, com redução de 1,79 pontos percentuais no mesmo período.

Recorte de indicadores por estado

A análise comparativa dos indicadores estaduais de perdas na distribuição evidencia a variação do desempenho entre as unidades federativas, identificando padrões regionais, diferenças estruturais entre os sistemas de abastecimento e potenciais implicações para a eficiência operacional dos prestadores. A leitura do indicador permite uma compreensão mais abrangente do estágio de controle de perdas no país.

A análise evidencia um padrão de maior ineficiência concentrado principalmente nas regiões Norte e Nordeste do país. Estados como Alagoas (66,90%), Roraima (65,97%), Pará (57,33%), Maranhão (56,68%), Acre (56,48%) e Sergipe (55,10%), apresentam níveis de perdas superiores a 55% do volume distribuído, significativamente acima da média nacional (39,53%).

Por outro lado, estados das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país, como Goiás (27,61%), Mato Grosso do Sul (30,60%), Distrito Federal (31,55%), São Paulo (32,15%), e Paraná (33,11%) registram indicadores inferiores a 35%. Neste indicador, merece destaque o estado do Piauí, que possui a menor média entre os estados (24,61%), e Tocantins, com a quinta menor média entre as unidades da federação para este indicador (31,58%).
Recorte para os 100 maiores municípios brasileiros

O indicador médio computado na amostra foi de 35,56% em 2024, o que representa uma piora em relação aos 31,09% computados em 2023. Dos 99 municípios considerados, apenas 20 possuem níveis de perdas na distribuição menores que 25%. Os dados mostram ainda que 14 municípios têm perdas na distribuição superiores a 50%.

É possível observar uma forte concentração dos melhores desempenhos nos estados do Sudeste, que concentram 12 dos 20 municípios com menores índices de perdas na distribuição. Municípios como Suzano (1,27%) e Santos (5,35%), apresentam níveis significativamente inferiores à média nacional.

Por outro lado, os municípios com piores resultados estão majoritariamente localizados nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para Parauapebas (PA), com 70,68%, e Maceió, com 64,05%. Além disso, outras cidades de diferentes regiões também apresentam perdas significativas, com destaque para Belo Horizonte, com 68,29% e Várzea Grande (MT), com 59,03%.

Municípios nos padrões de excelência

Conforme a já mencionada Portaria 788/2024, são considerados excelentes os municípios que contam com até 25% em perdas na distribuição e de 216 L/ligação/dia em perdas por ligação.

Somente doze dentre os 100 municípios mais populosos do Brasil atendiam às metas da Portaria 788/2024 simultaneamente em 2024, indicando haver um longo caminho a ser percorrido na busca pela redução das perdas de água.

Recorte para as capitais brasileiras

Apenas quatro das 27 capitais, Goiânia, São Paulo, Campo Grande e Teresina, apresentaram valores inferiores à meta de 25% estabelecida pela Portaria 788/2024. A média das capitais foi de 39,30%.

Estima-se que as capitais brasileiras percam anualmente cerca de 2,3 bilhões de m³ de água, dos quais aproximadamente 0,9 bilhão de m³ (40%) correspondam a perdas aparentes (comerciais), enquanto 1,4 bilhão de m³ (60%) refiram-se a perdas reais (físicas). Considerando-se apenas estas últimas, o v

Ganhos econômicos com a redução das perdas de água portável

Para calcular os ganhos econômicos ao país pela redução de perdas, o estudo apresentou uma análise de três cenários: o otimista, o realista e o pessimista. Cada um deles responde à média nacional do nível de perdas a ser alcançada em 2033: 15% (cenário otimista), 25% (cenário realista) e 35% (cenário pessimista).

Tomando como referência o Cenário Realista, é possível constatar que existe um potencial de ganhos brutos com a redução de perdas de água de R$ 47,3 bilhões até 2033. Caso sejam considerados os investimentos necessários para a redução de perdas, o benefício líquido gerado pela redução de perdas é da ordem de R$ 23,6 bilhões em 10 anos.
A melhor gestão e eficiência nos sistemas de distribuição estão diretamente ligadas à universalização do saneamento básico. Combater as perdas é, antes de tudo, garantir o acesso pleno à água para todos os brasileiros, proteger os mananciais e responder aos efeitos das mudanças climáticas com a infraestrutura que o país já tem, mas ainda desperdiça.

O estudo evidencia que as perdas de água permanecem em níveis elevados no país. Em 2024, as perdas na distribuição foram de 39,53%, enquanto as perdas por ligação foram de 349,09 L/dia/ligação, valores significativamente superior aos parâmetros de eficiência estabelecidos pela Portaria 788/2024, de 25% e 216 L/ligação/dia, respectivamente. As desigualdades regionais permanecem como um dos principais desafios para a universalização dos serviços de saneamento básico no Brasil, e as regiões Norte e Nordeste seguem concentrando os indicadores mais elevados de perdas de água.

Em uma realidade que já se faz presente, os efeitos das mudanças climáticas refletem em impactos diretos no acesso à água potável. A redução das perdas contribui para mitigar a necessidade de expansão de mananciais e aumenta a resiliência dos sistemas de abastecimento em um contexto de crescente pressão sobre os recursos hídricos. Além disso, menores níveis de perdas tendem a ampliar a sustentabilidade econômico-financeira dos prestadores, reduzindo pressões sobre tarifas futuras e liberando recursos para investimentos em expansão, manutenção e melhoria dos serviços.

Para tanto, é necessário priorizar essa agenda com a implementação de programas que unam eficiência e inovação e, consequentemente, acelerar o ritmo dos investimentos para que o Brasil atinja a meta de 25% em perdas na distribuição até 2033, conforme previsto pela Portaria 788/2024.

“Seguimos perdendo, a cada ano, água suficiente para abastecer populações inteiras, enquanto milhões de brasileiros ainda não têm acesso a esse recurso básico e essencial para a vida. Estamos falando de um volume capaz de atender 77 milhões de habitantes, número que representa mais de duas vezes a quantidade de pessoas sem acesso ao abastecimento de água no país. São casas que ficam sem abastecimento, rios que secam uma sobrecarga em todo o sistema de distribuição que recai, inevitavelmente, sobre os habitantes. Reduzir perdas de água é uma escolha de gestão que impacta diretamente a qualidade de vida da população e a saúde dos nossos mananciais, especialmente em um cenário em que as mudanças climáticas já pressionam a disponibilidade hídrica e tornam a eficiência no uso da água ainda mais urgente. Em um ano eleitoral, esse debate precisa chegar às propostas de saneamento integrado, porque não há universalização possível sem eficiência na distribuição da água que já produzimos”. – Analisa Luana Pretto, Presidente-Executiva do Trata Brasil.

“A redução das perdas de água deixou de ser apenas uma agenda de eficiência operacional no setor de saneamento básico e passou a ocupar um papel estratégico na adaptação climática dos municípios. Em um contexto internacional em que parte do setor privado e de governos tem abandonado compromissos ambientais, torna-se ainda mais importante fortalecer políticas públicas capazes de conciliar a expansão do atendimento às populações ainda sem acesso ao abastecimento de água e aos serviços de coleta e tratamento de esgotos com segurança hídrica e preservação ambiental. Nesse sentido, reduzir perdas significa utilizar de forma mais racional a água já captada e tratada, diminuindo a pressão sobre os mananciais, reduzindo custos operacionais e aumentando a resiliência dos sistemas de abastecimento frente a eventos climáticos extremos”. – Declara Gesner Oliveira, Sócio Executivo da GO Associados. (ecodebate)

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Não existe plano B e a Terra é única casa que temos

Enquanto multibilionários deliram com rotas de fuga para o espaço, os ecossistemas que sustentam toda a vida na Terra estão sendo destruídos em tempo real. E não há resgate chegando.
A ideia de colonizar Marte como plano B para o colapso ambiental é uma fantasia perigosa. O nosso único futuro ainda é e sempre será aqui na Terra.

Deixa eu te fazer uma pergunta simples, dessas que a gente evita fazer em voz alta porque a resposta incomoda demais: para onde você acha que vai quando a Terra não puder mais nos sustentar?

Marte? A Lua? Uma estação espacial flutuando no vácuo?

Se essa ideia passou pela sua cabeça ou se você já viu alguém defender isso com seriedade preciso que a gente tenha uma conversa honesta. Porque tem uma narrativa perigosa, embalada em otimismo tecnológico e financiada por fortunas inimagináveis, que merece ser desmontada com calma, mas sem rodeios.

O espaço não é um plano B. É só espaço.

O espaço é vácuo. Radiação. Temperaturas que variam de -270°C a +120°C dependendo de onde você está e se tem sol ou não. Não tem ar. Não tem água. Não tem solo. Não tem absolutamente nada do que qualquer forma de vida conhecida precisa para existir.

A Lua, nossa vizinha mais próxima, a apenas 384 mil quilômetros de distância, não tem atmosfera, não tem campo magnético para proteger da radiação solar e tem uma temperatura superficial que pode chegar a +127°C durante o dia e -173°C à noite.

Marte, o grande sonho dos bilionários do momento, é um deserto gelado com uma atmosfera tão fina que equivale a menos de 1% da pressão que temos aqui em baixo. É composta principalmente de dióxido de carbono. O solo marciano está saturado de percloratos, compostos tóxicos que destruiriam células humanas. A radiação cósmica chega à superfície sem filtro. Tempestades de poeira duram meses e cobrem o planeta inteiro.

Não existe um único ecossistema funcionando em nenhum desses lugares. Não existe um único organismo vivo confirmado. Não existe água líquida acessível. Não existe nada que nos receba.

E alguém quer ir para lá fugindo de um planeta que ainda tem florestas, rios, oceanos e ar respirável. Não é apenas um delírio, mas a mais absoluta insanidade.

A lógica ilógica

Pense bem na lógica que está embutida na ideia de “colonizar Marte como alternativa ao colapso da Terra”.

Primeiro, ela pressupõe que haverá transporte. Que foguetes, que hoje ainda explodem com regularidade nos testes, vão escalar a ponto de transportar populações inteiras para outro planeta. Só em 2025, 3s voos da Starship terminaram em explosão. Três. E cada missão bem-sucedida a Marte leva cerca de sete meses de viagem em micro gravidade, com exposição à radiação que compromete ossos, músculos e sistema imunológico.

Segundo, ela pressupõe que haverá infraestrutura lá. Que alguém terá construído, antes da chegada dos refugiados planetários, estruturas capazes de gerar ar, água, alimento e calor suficientes para sustentar vida humana em larga escala. Em Marte. Com os recursos disponíveis em Marte, que são basicamente areia tóxica e CO2.

Terceiro e aqui está o ponto mais honesto de todos, ela pressupõe que você estará nessa lista. Você, eu, as oito bilhões de pessoas que vivem no planeta hoje. Os quilombolas do Pará. Os pescadores do Nordeste. Os agricultores familiares do Sul. Os povos indígenas da Amazônia.

Se alguma coisa dessa fantasia bilionária se materializasse, seria uma saída para um grupo minúsculo e ultra seleto. Uma colônia de elite num bunker vermelho a 225 milhões de quilômetros de distância, enquanto o resto da humanidade ficaria aqui tentando sobreviver num planeta degradado.

O filme “Não Olhe Para Cima” (Don’t Look Up, 2021), por enquanto de ficção, ilustra muito bem como funcionaria uma ‘evacuação’ dos ricos e poderosos.

Riqueza não existe num planeta morto

Tem uma contradição no coração de toda essa conversa que raramente é colocada de forma direta: de nada adianta ter bilhões de dólares se não há um planeta funcionando para sustentar a cadeia produtiva que gera esses bilhões.

Riqueza é uma abstração social. Ela existe enquanto existem pessoas, trabalho, recursos naturais, alimentos, infraestrutura. Um planeta com ecossistemas em colapso não produz safras. Não produz água potável. Não produz o oxigênio que você respira. Não produz nada que possa ser convertido em moeda ou ativo financeiro.

A riqueza dos mais ricos do mundo depende, em última instância, da mesma biosfera que os mais pobres dependem. A diferença é que os ricos têm mais tempo, mais acesso a soluções paliativas, como bunkers, filtros de ar, água engarrafada, propriedades em altitudes seguras. Mas é um adiamento, não uma solução.

Num planeta morto, nenhuma conta bancária tem valor. Nenhuma ação na bolsa tem valor. Nenhuma propriedade tem valor. É o colapso do único sistema que importa, o ecológico.
Onde estamos de verdade?

Aqui é importante ser preciso para não cair no alarmismo vazio, que paralisa tanto quanto a negação.

Ainda não chegamos ao ponto de colapso. Ainda não ultrapassamos todos os pontos de não retorno. Ainda existem florestas. Ainda existem rios. Ainda existem ecossistemas funcionando. E isso importa porque significa que ainda há margem para agir.

Mas estamos nos aproximando de limiares críticos com uma velocidade que os dados mais recentes tornam cada vez mais difícil de ignorar. A perda de biodiversidade deixou de ser um fenômeno localizado para se tornar um processo sistêmico. Anfíbios, os animais mais sensíveis às alterações ambientais, uma espécie de termômetro da saúde dos ecossistemas, estão apresentando quedas populacionais rápidas e contínuas em todo o mundo. Aquíferos estão sendo esgotados. O solo agrícola está sendo degradado. A temperatura média do planeta segue subindo.

O cientista Carlos Nobre, um dos maiores especialistas mundiais no clima da Amazônia, tem repetido que o planeta está “quase em colapso”. Não é catastrofismo. É leitura de dados.

E enquanto isso, a conversa pública em muitos espaços ainda gira em torno de se as mudanças climáticas são reais. Estamos, coletivamente, perdendo um tempo que não temos.

O delírio que custa muito caro

Não é inocente a narrativa de que existe um plano B espacial. Ela tem consequências reais.

Ela desloca atenção e recursos. Cada bilhão investido em foguetes que explodem poderia financiar reflorestamento, transição energética, pesquisa em regeneração de solos, proteção de aquíferos, desenvolvimento de tecnologias de adaptação para populações vulneráveis.

Ela cria uma ilusão de saída que desobriga. Se existe uma solução tecnológica mágica no horizonte, seja colonizar Marte, seja alguma geoengenharia mirabolante, fica psicologicamente mais fácil não mudar o presente. É o mesmo mecanismo cognitivo que leva pessoas a não fazer checkups médicos porque “a medicina vai avançar”. Só que aqui as apostas são a biosfera inteira.

E ela concentra poder e narrativa. Quando o debate sobre o futuro da humanidade é travado nos termos propostos por um punhado de multibilionários, cujo interesse imediato não é necessariamente alinhar com o do restante dos 8 bilhões de nós, alguma coisa no processo democrático de decidir coletivamente esse futuro está profundamente quebrada.
Não existe um “plano B” para o planeta Terra

O que precisamos não é de foguetes

Precisamos de algo muito mais difícil e muito menos cinematográfico do que colonizar outro planeta.

Precisamos de decisões políticas que efetivamente limitem a destruição dos ecossistemas. De sistemas econômicos que não dependam do consumo infinito de recursos finitos. De distribuição mais justa dos recursos existentes, o que reduziria a pressão sobre os mais vulneráveis e sobre a própria natureza. De ciência aplicada à regeneração de florestas, de solos, de populações de espécies ameaçadas. De cidades que funcionem de forma mais integrada com os ciclos naturais ao redor delas.

Isso não é poesia. É engenharia. É política. É economia. É o tipo de trabalho que não rende manchete de capa com foguete em chamas ao fundo, mas que é o único que efetivamente muda alguma coisa.

Nosso futuro continua aqui. Não como resignação, mas como o reconhecimento mais lúcido que a gente pode ter: este é o único planeta com as condições para nos sustentar, e ele ainda tem condições de seguir fazendo isso se a gente parar, agora, de fazer o que estamos fazendo.

Não existe evacuação planejada. Não existe frota de resgate vindo. Não existe Planeta B.

Existe este aqui, ainda vivo, ainda possível. E existe o que a gente decide fazer com ele. (ecodebate)

Qual será a população mundial em 2100?

As projeções indicam que a população mundial em 2100 ficará em torno de 10,2 a 10,3 bilhões de pessoas. A estimativa mais provável aponta que o crescimento global deve atingir um pico de cerca de 10,3 bilhões de habitantes na década de 2080, seguido por um leve declínio até o final do século.

As principais projeções e dinâmicas demográficas para o ano indicam:

• Crescimento e Declínio: Na projeção média da Organização das Nações Unidas (ONU), o planeta atingirá o marco máximo por volta de 2084 e apresentará uma leve queda para cerca de 10,18 bilhões em 2100.

• População em 2100 vs 2050: Espera-se que a população passe de 9,8 bilhões em 2050 para se estabilizar no início do século XXII.

• Cenários alternativos: Dependendo das taxas de natalidade e mortalidade, o número final do planeta pode variar de uma projeção baixa (com o mundo chegando a 6,99 bilhões) a uma alta (chegando a 14,4 bilhões de pessoas).

Um novo estudo publicado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) e os levantamentos da Pew Research Center enfatizam que, além do tamanho, a idade mediana global deve subir significativamente (de 31 para 42 anos). O relatório traduzido da Pew Research Center destaca que o mundo terá proporções quase iguais de jovens (abaixo de 25 anos) e idosos (acima de 65 anos). Além disso, a EcoDebate aborda como essas mudanças afetarão as economias locais e globais.

O debate sobre o futuro demográfico global não deve se pautar pelo pânico de um colapso populacional iminente, tampouco pela negligência diante do crescimento contínuo

A população mundial chegou a 1 bilhão de habitantes por volta de 1800, atingiu 2,5 bilhões em 1950 e alcançou 8 bilhões de habitantes em 2022. Foi um crescimento de 8 vezes em pouco mais de 2 séculos. Mas o que acontecerá no restante do século XXI?

A Divisão de População da ONU atualiza de 3 em 3 anos as suas projeções e apresenta um leque de possibilidades para o futuro da população global. O gráfico abaixo apresenta 3 cenários da dinâmica das taxas de fecundidade e da expectativa de vida, com projeções alta, média e baixa.

Na projeção alta, a população continua crescendo durante as próximas 8 décadas e deve atingir 14,4 bilhões de habitantes em 2100. Na projeção média, a mais provável, a população mundial cresce até 2084 – quando atinge 10,3 bilhões de habitantes – e diminui para 10,18 bilhões de habitantes em 2100. Na projeção baixa, a população global atinge o pico em 2052 – com 8,95 bilhões de habitantes – e decresce para 6,99 bilhões de habitantes em 2100.

Portanto, a população mundial pode ficar entre 7 bilhões e 14 bilhões de habitantes no final do atual século. Tudo dependerá do comportamento das taxas de natalidade e mortalidade. Se a Taxa de Fecundidade Total (TFT) ficar pouco acima do nível de reposição (2,1 filhos por mulher) e a expectativa de vida continuar subindo, a população do Planeta pode atingir 14 bilhões. Se a TFT diminuir de maneira moderada chegaremos a 10 bilhões em 2100. Mas se a TFT cair de maneira mais rápida, poderemos ficar com pouco menos de 7 bilhões de habitantes. O futuro está aberto e o leque de possibilidades é imenso.
Projeções da população mundial até 2100

O site Our World in Data criou uma ferramenta interativa que apresenta a projeção média da ONU e permite testar como as mudanças nas taxas de natalidade e mortalidade afetarão a população mundial até 2100. A ferramenta de simulação populacional ajuda a testar várias hipóteses. Esta ferramenta foi concebida para ser simples: suficientemente pequena para ser executada num navegador e, ainda assim, capaz de modelar populações inteiras com base nas principais variáveis ​​demográficas. É menos detalhada do que os modelos utilizados por demógrafos experientes, mas o objetivo não é substituí-los.

A ferramenta funciona da seguinte forma. Primeiro, selecione-se a população mundial (ou o país de interesse) no menu suspenso no título. Em seguida, no primeiro painel, altere qualquer uma das três variáveis: taxas de fecundidade, esperança de vida e taxas de migração líquida (para os países). Pode-se fazê-lo em três momentos distintos: 2030, 2050 e 2100. Finalmente, no segundo e terceiro painéis, se verá o que o resultado das novas hipóteses significaria para os números populacionais e a estrutura etária do país.

Exemplo abaixo mostramos o caso da população mundial. Na hipótese média da ONU, a taxa de fecundidade total (TFT) ficaria em 2,2 filhos por mulher entre 2030, 2,1 filhos em 2050 e 1,8 filho por mulher em 2100. A expectativa de vida ao nascer (Eo) ficaria em 74 anos em 2030, 76 anos em 2050 e 81 anos em 2100. Não há migração interplanetária. A população em 2100 seria de 10 bilhões de habitantes.

No exercício, modificamos a taxa de fecundidade para 2 filhos em 2030, 1,8 filho em 2050 e 1,6 filho por mulher em 2100. Abaixamos a estimativa da expectativa de vida para 73 anos em 2030 e para 74 anos em 2050. O resultado é uma população de 8,1 bilhões de habitantes em 2100.

Projeção da população mundial em 2100

Portanto, mesmo com uma queda significativa das taxas de fecundidade a população mundial deve ficar com mais de 8 bilhões de habitantes em 2100 (no exercício acima) ou com 7 bilhões de habitantes na projeção baixa da Divisão de População da ONU. Isto afasta qualquer visão catastrofista que apresenta um armagedon demográfico e esvazia o discurso do “Planeta Vazio”.

Em última análise, o debate sobre o futuro demográfico global não deve se pautar pelo pânico de um colapso populacional iminente, tão pouco pela negligência diante do crescimento contínuo. Ferramentas de simulação e as constantes revisões da ONU nos mostram que, embora o ritmo de crescimento esteja desacelerando, a humanidade ainda manterá uma presença robusta e expressiva na Terra até o fim do século.

O verdadeiro desafio para 2100 não será a ausência de pessoas, mas sim a nossa capacidade coletiva de garantir sustentabilidade, equidade e qualidade de vida para os bilhões que aqui estarão, independentemente de qual cenário — alto, médio ou baixo — acabe se concretizando. (ecodebate)

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Ondas de calor podem gerar perdas de até 7% do PIB global até 2030

As ondas de calor podem gerar perdas de até 7% do PIB global até 2030, segundo levantamentos recentes. Esse impacto é impulsionado pelo aumento global das temperaturas e pela queda na produtividade do trabalho.

Abaixo estão os principais fatores e impactos econômicos mapeados em estudos de mercado:

• Impacto na Produtividade: A partir de 30°C, a produção horária de um trabalhador diminui em média 3% a cada grau adicional. Esse número dispara quando as temperaturas sobem ainda mais.

• Setores mais afetados: Atividades ao ar livre ou que exigem esforço físico contínuo são as mais impactadas, com destaque para a construção civil, a logística e a agricultura.

• Impacto por Região: A Allianz Research estima que economias fortemente expostas (como França, Alemanha, Itália e Espanha) podem ter perdas acumuladas entre 5% e 7% do PIB caso o calor extremo se repita anualmente até 2030.

Relatório mostra que ondas de calor já impactam produtividade, consumo de energia, investimentos e contas públicas em diferentes regiões do mundo

O aumento da frequência e da intensidade das ondas de calor já representa um risco estrutural para a economia global e pode provocar perdas acumuladas de até 7% do Produto Interno Bruto (PIB) em algumas das economias mais expostas até 2030.

É que o revela o mais novo estudo “Too hot to grow: The economic costs of extreme heat”, realizado pela Allianz Research, divisão de pesquisa econômica da Allianz Trade, que analisou os impactos do calor extremo sobre produtividade, consumo de energia, investimentos, inflação e contas públicas.

O estudo identifica que os impactos econômicos do calor se intensificam significativamente quando as temperaturas ultrapassam os 30°C. A partir desse ponto, há uma queda acelerada na produtividade do trabalho, aumento do consumo de energia e pressão sobre custos operacionais das empresas.

Segundo os autores, cada grau adicional acima dos 30°C reduz em aproximadamente US$ 1,30 a produção por hora trabalhada, o equivalente a cerca de 3% da produtividade média observada na amostra analisada entre 2014 e 2024. Paralelamente, a demanda por energia cresce cerca de 1,2% por grau adicional em cenários de calor extremo.

O alto custo econômico das ondas de calor nos países preparados só para o frio

Destaque para o Brasil e América do Sul

O Brasil é destacado nominalmente no estudo como uma das economias que já operam sob níveis elevados de temperatura. O levantamento revela que, ao comparar o consumo de energia per capita durante o episódio de calor mais intenso enfrentado pelo país após 2014 com a sua média histórica do período de 1991–2010, o Brasil registrou um aumento superior a 4% a 5% na demanda por energia. Além disso, em termos regionais, a América do Sul verá o impacto direto no mercado de trabalho se acentuar: a parcela de horas de trabalho perdidas devido ao estresse térmico deve dobrar, subindo de 0,4% em 1995 para 0,8% até 2030.

Impactos globais

Para medir os efeitos macroeconômicos, os economistas apontam um cenário em que os cinco anos mais quentes registrados por cada país entre 2014 e 2024 se repetem progressivamente entre 2026 e 2030. Nesse contexto, as perdas acumuladas de PIB poderiam alcançar US$ 354 bilhões no Japão, US$ 240 bilhões na França, US$ 147 bilhões na Itália, US$ 131 bilhões na Alemanha e US$ 120 bilhões na Espanha.

Ondas de calor atingem os mais pobres com mais intensidade

O estudo também destaca que os impactos não se limitam ao crescimento econômico. Em países mais afetados pelo calor, a formação de capital fixo, indicador ligado a investimentos produtivos, pode cair em média 8% no período analisado. Segundo a Allianz Research, o calor extremo reduz o retorno esperado sobre novos investimentos, desencorajando projetos de expansão e comprometendo a capacidade produtiva futura.

Além disso, os autores identificam um cenário de estagflação em economias mais expostas, com inflação elevada combinada ao aumento do desemprego. Em países como Espanha, França, Itália e Eslováquia, o estudo projeta simultaneamente alta de preços e deterioração do mercado de trabalho, pressionando autoridades monetárias e fiscais.

Os impactos também atingem diretamente as contas públicas: o relatório estima que o calor extremo pode reduzir receitas fiscais anuais em até 1,8% na França, 1,3% na Itália e Espanha e 0,7% na Alemanha, ao mesmo tempo em que aumenta despesas com saúde, infraestrutura, energia e adaptação climática.

Outro ponto destacado pelo relatório é a baixa cobertura securitária relacionada aos danos causados pelo calor extremo. Em 2022, as perdas financeiras na Europa chegaram a €46 bilhões, mas apenas uma pequena parcela estava protegida por seguros. Segundo o estudo, a maior parte dos danos ocorre de forma indireta, por meio de perda de produtividade, pressão sobre sistemas de saúde e impactos econômicos difusos, dificultando a cobertura pelos modelos tradicionais de seguro.

O levantamento também aponta que países e empresas precisarão acelerar medidas de adaptação climática para reduzir os impactos econômicos das ondas de calor. Entre as recomendações estão a criação de protocolos trabalhistas específicos para altas temperaturas, modernização de edifícios para reduzir superaquecimento, investimentos em infraestrutura energética e ampliação de mecanismos de proteção financeira e securitária.

Crise climática pode reduzir até 50% do PIB global e gerar choques econômicos, sociais e financeiros, segundo estudo internacional.

Fim do mundo: cientistas colocam o planeta em alerta ao revelar que a crise climática pode devastar a economia global, com perdas de até 50% do PIB e risco de choques sociais e financeiros em cadeia. (ecodebate)

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Brasil está preparado para o El Niño 2026?

O Brasil enfrenta desafios significativos para o El Niño que se consolida. Órgãos de monitoramento como o GOV.BR apontam que o país tem melhorado sua capacidade de previsão e mitigação de desastres, mas a severidade dos eventos extremos exige resiliência constante das infraestruturas e do agronegócio.

O prognóstico climático para este ano indica impactos regionais bastante distintos:

• Região Sul: Risco aumentado de eventos extremos de chuvas volumosas, temporais e enchentes, especialmente a partir de agosto e setembro.

• Sudeste e Centro-Oeste: Períodos alternados entre chuvas irregulares e ondas de calor longo, com altas temperaturas que aumentam a demanda por energia e refrigeração.

• Norte e Nordeste: Preocupação com a possibilidade de secas severas e redução na reposição hídrica de reservatórios importantes.

O GOV.BR detalha os estudos de monitoramento climático para nortear a tomada de decisões no país.

El Niño

Modelos climáticos apontam para um episódio forte ou muito forte entre 2026 e 2027 e a maior ameaça ao país não é o fenômeno em si, mas as nossas velhas vulnerabilidades

Com probabilidade acima de 90% de formação do El Niño no segundo semestre de 2026, cientistas alertam que temos ciência de ponta para prever, mas seguimos falhando em proteger quem está no caminho da catástrofe.

Nem todo El Niño produz os mesmos efeitos, e é importante evitar simplificações excessivas. Mas nosso país esbarra na dificuldade histórica de incorporar o conceito de risco ambiental às suas atividades de planejamento territorial. É importante aprendermos a lidar com nossas vulnerabilidades

O fenômeno El Niño voltou a aparecer com frequência no noticiário internacional nos últimos meses. A razão é simples: alguns modelos climáticos indicam a possibilidade de desenvolvimento de um evento relativamente intenso entre 2026 e 2027. Isso não significa, evidentemente, que o planeta caminhe inevitavelmente para uma catástrofe climática global, mas chama atenção porque os episódios mais fortes de El Niño costumam alterar o regime de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.

O El Niño é um fenômeno natural associado ao aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Esse aquecimento modifica a circulação atmosférica tropical e acaba influenciando o clima em várias regiões do planeta. A climatologia conhece esse mecanismo há bastante tempo, embora ainda existam dificuldades importantes quando se tenta antecipar, com muitos meses de antecedência, a intensidade exata de cada evento e seus impactos regionais (Trenberth, 1997; McPhaden et al., 2006).

Nem todo El Niño produz os mesmos efeitos. Os episódios de 1982/1983, 1997/1998 e 2015/2016 ficaram conhecidos pela intensidade e pelos impactos observados em diferentes continentes, mas cada um deles apresentou características próprias. A atmosfera não responde de maneira idêntica em todos os eventos, e isso é importante para evitar simplificações excessivas.

No Brasil, os efeitos do El Niño variam bastante de uma região para outra. Historicamente, a Região Sul tende a registrar aumento das chuvas durante esses episódios, enquanto áreas do Norte e do Nordeste frequentemente enfrentam redução das precipitações e períodos mais secos. Mas isso não funciona como uma regra absoluta. Outros fatores oceânicos e atmosféricos também interferem no comportamento climático sul-americano, especialmente as condições térmicas do Atlântico Tropical.

Ainda assim, existe uma preocupação compreensível em relação ao cenário atual. O país vem enfrentando, nos últimos anos, uma sequência de eventos extremos bastante significativa. Secas severas na Amazônia, enchentes no Sul, ondas de calor persistentes em diferentes regiões e incêndios florestais de grande proporção passaram a fazer parte da rotina climática recente do Brasil.

Nem todos esses eventos decorrem diretamente do El Niño, e atribuições automáticas costumam ser cientificamente problemáticas. Mas existe hoje um entendimento consolidado de que o aquecimento global pode aumentar a frequência e a intensidade de alguns extremos climáticos. Fenômenos naturais de variabilidade climática, como o El Niño, passam então a atuar sobre uma atmosfera mais quente e com maior disponibilidade de energia e vapor d’água (IPCC, 2021).
O problema brasileiro, contudo, não é apenas climático.

Desastres raramente são produzidos exclusivamente pela chuva, pela seca ou pelo calor. Eles dependem muito das condições sociais e territoriais sobre as quais esses eventos atuam. Uma mesma quantidade de chuva produz impactos completamente diferentes em cidades com infraestrutura adequada e em áreas marcadas por ocupação irregular, drenagem insuficiente e forte vulnerabilidade social.

Isso vale igualmente para as secas. Seus efeitos são muito mais graves onde há baixa segurança hídrica, maior dependência de agricultura de sequeiro e pouca capacidade de resposta institucional. Por isso, fenômenos como o El Niño acabam expondo fragilidades que já existiam antes deles.

O Brasil possui instituições científicas altamente qualificadas para monitorar o clima e produzir previsões sazonais. Houve avanços importantes nas últimas décadas em monitoramento hidrometeorológicos, modelagem climática e sistemas de alerta. Hoje existe capacidade técnica para acompanhar secas, enchentes e extremos climáticos com um nível de detalhe muito superior ao que existia há vinte ou trinta anos.
Mas conhecimento científico, sozinho, não reduz risco.

Em muitas cidades brasileiras, a expansão urbana continuou ocorrendo em áreas suscetíveis a enchentes e movimentos de massa. Em outras regiões, a pressão sobre recursos hídricos aumentou sem planejamento compatível com a variabilidade climática do país. Grande parte dos problemas aparece justamente aí: menos na ausência de informação e mais na dificuldade histórica de incorporar risco ambiental ao planejamento territorial.

Preparar-se para possíveis impactos associados ao El Niño não significa impedir a ocorrência do fenômeno. Isso simplesmente não é possível. A questão central é reduzir vulnerabilidades. Melhorar drenagem urbana, fortalecer sistemas de alerta, proteger encostas, ampliar monitoramento hidrológico e planejar melhor o uso do território continua sendo medidas muito mais efetivas do que respostas emergenciais tomadas apenas depois das tragédias.

Talvez a principal lição trazida pela discussão atual sobre o El Niño seja justamente essa. Eventos climáticos extremos fazem parte da dinâmica natural do sistema climático. O que transforma esses eventos em desastres de grandes proporções é, muitas vezes, a forma como as sociedades organizam seus territórios e lidam, ou deixam de lidar, com suas próprias vulnerabilidades.

Impactos do super El Niño podem ser históricos no Brasil

Enner Alcântara é professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Desastres Naturais (Unesp/Cemaden), onde orienta pesquisas nas áreas de sensoriamento remoto, análise espacial e modelagem preditiva aplicada a eventos extremos. (ecodebate)

Poluição dos oceanos começa nos rios e efluentes

A poluição marinha tem origem no continente, impulsionada pelo descarte inadequado de resíduos sólidos e esgoto. Mais de 80% dos detritos no...