A ideia não é empobrecer a população
ou causar uma recessão desorganizada, mas sim reorientar o sistema para
garantir o bem-estar e a equidade. As principais propostas dessa vertente
incluem:
• Desmaterialização: Focar em
serviços públicos, redistribuição de renda e redução de setores nocivos (como
combustíveis fósseis).
• Reorganização do trabalho:
Implementar jornadas de trabalho menores e garantir renda básica universal.
• Economia regenerativa:
Valorizar práticas locais, agricultura regenerativa e o uso de recursos comuns.
Compreender o decrescimento exige analisar as críticas ao modelo capitalista tradicional. Você pode explorar mais sobre o tema acessando o debate detalhado sobre a Teoria do Decrescimento Econômico promovida pelo portal Politize!
“O decrescimento econômico é a melhor estratégia para deter a crise ecológica e social que vivemos”.
Um movimento internacional
está emergindo em torno da ideia de que o atual crescimento econômico do
planeta ameaça o bem-estar, a saúde e os recursos naturais dos quais dependemos.
O capitalismo extremo, personificado nas corporações multinacionais
gigantescas, cada vez mais poderosas, encontrou na tecnologia uma aliada que
amplia ainda mais sua influência.
A entrevista é de Joan Lluís
Ferrer, publicada por Información, 09-06-2026.
O Fórum Social para Além do Crescimento reúne, na Espanha, aqueles que defendem um decrescimento econômico, com o objetivo de que a economia se ajuste às necessidades da população e do planeta, em vez de utilizar os recursos como meras matérias-primas. No mês de fevereiro passado, 700 pessoas participaram de uma sessão desse fórum, entre elas a ex-prefeita de Barcelona, Ada Colau, e o pesquisador Fernando Valladares. Trata-se de um movimento que surge e se expande por toda a Europa. Hugo Abad é um de seus membros mais ativos e uma de suas vozes mais destacadas.
Por que há cada vez mais vozes que clamam por um decrescimento econômico e em que deve consistir exatamente esse decrescimento?
Há um consenso científico
crescente em torno do decrescimento econômico como a melhor estratégia para
deter a crise ecológica e as diversas crises sociais que vivemos (acesso à
moradia e à alimentação digna, precariedade trabalhista, crise dos cuidados,
saúde mental etc.), a fim de avançar rumo a sociedades justas e sustentáveis.
Os fatos mostram que uma
redução democraticamente planejada da produção e do consumo, para alinhar as
sociedades aos limites ecológicos, é a única via realmente sustentável nos
países de alta renda.
A impossibilidade de um
desacoplamento absoluto entre crescimento econômico e impactos ecológicos, no
ritmo e na escala necessários para deter o colapso ecológico, evidencia a
fantasia ou mito de um “crescimento verde”, ao qual as grandes corporações e
poderes econômicos continuam se apegando.
Por que o capitalismo passou
de ser o modo de produção que sempre conhecemos para se tornar um modelo de
destruição ecológica em massa?
O capitalismo sempre se
baseou na destruição ecológica e na exploração das pessoas, embora seja com os
combustíveis fósseis e em sua fase neoliberal das últimas décadas que estamos
assistindo a suas consequências mais destrutivas. Entre elas, inclui-se também
a guinada autoritária, em que formas de controle e repressão que até agora
tinham ocorrido apenas nas colônias e em Estados autocráticos passam a ocorrer
nos centros imperiais da Europa e da América do Norte, com o objetivo de manter
a acumulação das elites, em um contexto de guerras por recursos.
Problema não é apenas o nível
agregado de produção e consumo, mas também o que se produz e quem controla as
decisões sobre o que e como se produz. Hoje, continuam sendo produzidas
inúmeras coisas que estão acabando com as bases da vida e da saúde planetária e
humana (armas, carros a combustão, carne de grandes fazendas industriais, etc.),
respondendo a modelos empresariais extrativistas apoiados por uma indústria do
marketing disposta a garantir que todo o valor do que é produzido se realize
por meio da compra.
A alternativa consiste em
organizar a economia de forma democrática em torno de um enfoque
público-comunitário que priorize o bem-estar ecossocial, com critérios de
suficiência. Nesse modelo, a satisfação das necessidades fundamentais deve
ficar fora do mercado e aqueles que existirem devem operar sob critérios
sociais e ecológicos que impeçam a especulação e a exploração da vida em suas
diversas dimensões. Por isso, nessa alternativa, é crucial o papel das
comunidades para além do mercado e do Estado, já que são elas que habitam os
territórios e tornam a sustentação cotidiana da vida possível.
Dado que o grande capital
está cada vez mais concentrado em menos mãos e surgem oligopólios de proporções
até então desconhecidas, há realmente possibilidades de escapar dessa dinâmica?
Há possibilidades reais que
exigem mudanças profundas na propriedade e no controle do investimento.
Setores-chave como energia, transporte e alimentação precisam sair das mãos de
acionistas que buscam o lucro privado e passar a se colocar a favor da
propriedade e gestão públicas ou coletivas. A isto deve se somar um
planejamento democrático que envolva instituições, pessoas trabalhadoras e
comunidades para orientar a economia à satisfação das necessidades reais, à
redistribuição da riqueza e à proteção do planeta.
Muitas pessoas, ao ouvir
críticas ao capitalismo, automaticamente pensam que está sendo feita uma defesa
do comunismo. É possível superar esse dualismo?
Os socialismos realmente
existentes, como o da URSS, reproduziram padrões produtivistas e acabaram
fazendo com que o mesmo processo de acumulação, em vez de ocorrer em torno dos
atores do mercado, se desse no âmbito do Estado. As correntes ecossocialistas
vêm realizando uma crítica a esta realidade, apresentando propostas que
convergem e alimentam o corpo teórico do decrescimento.
Não obstante, as influências
que o decrescimento recebe são muito amplas, abrangendo críticas provenientes
de visões ecofeministas, decoloniais e de defesa dos bens comuns. Esta é a
riqueza de um projeto social e político que diz um “não” claro ao sistema
capitalista e muitos “sins” às alternativas possíveis para libertar a trama da
vida do imperativo do crescimento e do lucro privado.
As grandes corporações podem
acabar governando o planeta, tendo os políticos como meros intermediários? É o que
já está acontecendo?
Em grande medida, isso já
está acontecendo, sobretudo se prestarmos atenção na dependência digital dos
governos e instituições em relação às grandes corporações tecnológicas, em um
cenário de expansão das formas de poder baseadas no controle de dados e da
informação.
Diante desse cenário preocupante, é urgente criar formas de soberania tecnológica e digital, bem como regulações que impeçam, no curto prazo, que essa tendência prossiga, isolando, em última instância, as instituições democráticas da influência das grandes corporações. Para isso, é essencial o apoio em nível internacional entre territórios e países para resistir a essa tendência e buscar colocar alternativas em prática.
Em que consiste o Fórum Social para Além do Crescimento? Está surgindo uma nova consciência ou fica restrito apenas a círculos muito reduzidos?
O Fórum Social para Além do
Crescimento é um espaço de deliberação democrática que tem como objetivo
fortalecer e expandir alianças entre organizações e coletivos que compartilham
um horizonte comum de superação do modelo econômico capitalista baseado no
crescimento. O processo do Fórum Social surge da Conferência para Além do
Crescimento, realizada em setembro de 2025, e que teve sua primeira sessão em fevereiro/2026,
na Universidade Autônoma de Madri.
Atualmente, mais de 140
entidades, redes e alianças aderiram ao processo. A diversidade de organizações
e coletivos que participam do Fórum Social demonstra sua transversalidade e o
potencial de articulação em torno de uma transição ecossocial justa.
Perspectivas que vão além do crescimento e do capitalismo estão sendo
disseminadas na sociedade civil, a partir de valores compartilhados de justiça
social e sustentabilidade ecológica. O Acordo Ecossocial, no qual trabalharemos
nos próximos 10 meses, busca alcançar um programa comum para uma transição
ecossocial justa no Estado espanhol, articulável em todos os níveis
territoriais. (ecodebate)




































