domingo, 13 de setembro de 2026

A infraestrutura verde que o planejamento urbano deixou de reconhecer

A infraestrutura verde que o planejamento urbano frequentemente deixa de reconhecer abrange a vegetação espontânea, os quintais particulares e os vazios urbanos que prestam serviços ecossistêmicos vitais.

O que o planejamento tradicional ignora

Vegetação espontânea (plantas ruderais):

Nascem sem plantio em frestas de calçadas, muros e beiradas de ruas.

Resistem a solos secos e reduzem o calor local.

São tratadas como mato ou sujeira pelos órgãos de limpeza.

Quintais e jardins privados:

Formam grandes manchas verdes contínuas nos bairros residenciais.

Infiltram a água da chuva no solo e abrigam pássaros e insetos.

Ficam fora dos mapas oficiais de áreas verdes públicas.

Terrenos vazios ou baldios:

Funcionam como esponjas naturais que evitam enchentes.

Permitem a troca de calor e o resfriamento do ar na vizinhança.

Sofrem com a pressão para receber construções de concreto.

Córregos canalizados e soterrados:

Rios escondidos sob o asfalto que ainda mantêm umidade no subsolo.

Poderiam ser abertos para criar corredores de vento e biodiversidade.

Continuam invisíveis nos planos de drenagem que priorizam tubos de cimento.

Por que isso importa

Serviços invisíveis: Essas áreas regulam a temperatura e a água sem custo para a prefeitura.

Visão cinza: O urbanismo clássico valoriza apenas parques desenhados e praças limpas.

Perda gradual: A eliminação desses espaços aumenta os alagamentos e o calor nas cidades.

Soluções baseadas na natureza abrangem a proteção, a recuperação e o manejo de ecossistemas para enfrentar problemas sociais e ambientais, produzindo benefícios para a população e para a biodiversidade

Em julho/2026, ao discutir a preparação do Estado brasileiro para um novo ciclo de eventos climáticos extremos, o Tribunal de Contas da União reuniu órgãos públicos, instituições científicas e representantes municipais diante de uma sequência já conhecida de ameaças: secas prolongadas, enchentes, ondas de calor e incêndios florestais. O encontro expôs uma realidade que ultrapassa a capacidade de resposta da defesa civil. O país ainda administra grande parte dos desastres depois que eles acontecem, enquanto ocupa várzeas, canaliza rios, remove vegetação, impermeabiliza o solo e reduz justamente os sistemas naturais que poderiam diminuir a intensidade dos danos.

Florestas urbanas, matas ciliares, manguezais, áreas úmidas, dunas, várzeas e solos permeáveis cumprem funções coletivas comparáveis às de obras construídas pelo poder público. Retêm água, estabilizam encostas e margens, reduzem temperaturas, protegem a costa, filtram poluentes e oferecem abrigo à biodiversidade. Essas funções não transformam a natureza em uma máquina nem autorizam reduzir seu valor a cálculos econômicos. Reconhecê-las como infraestrutura pública significa admitir que a segurança de uma cidade ou de uma região depende tanto de pontes, galerias e reservatórios quanto da integridade dos ecossistemas que regulam a água, o clima e o solo.

O significado e a importância das soluções baseadas na natureza

A urbanização brasileira consolidou uma concepção de infraestrutura associada quase exclusivamente ao concreto, ao asfalto e à canalização. Rios foram retificados e confinados, áreas alagáveis receberam avenidas e empreendimentos, encostas perderam vegetação e extensas superfícies passaram a impedir a infiltração da chuva. Esse modelo ampliou a circulação de pessoas e mercadorias, mas também acelerou o escoamento da água, transferiu alagamentos para outros pontos das bacias hidrográficas e elevou a temperatura dos bairros mais densamente ocupados.

A natureza opera por conexões. Uma mata ciliar protegida reduz erosão, retém sedimentos e contribui para a qualidade da água. Uma várzea preservada recebe temporariamente o excesso de chuva que, em uma área inteiramente ocupada, alcançaria ruas e moradias. Árvores maduras proporcionam sombra e liberam umidade, amenizando o calor; solos vegetados absorvem parte da precipitação; manguezais dissipam a energia das ondas e reduzem a erosão costeira. Cada elemento oferece mais de um serviço ao mesmo tempo, algo que a obra convencional, geralmente desenhada para uma finalidade específica, nem sempre consegue fazer.

Essa diferença explica o avanço das chamadas soluções baseadas na natureza. O conceito abrange a proteção, a recuperação e o manejo de ecossistemas para enfrentar problemas sociais e ambientais, produzindo benefícios para a população e para a biodiversidade. No espaço urbano, inclui parques lineares, jardins de chuva, biovaletas, arborização, recuperação de rios, corredores ecológicos e restauração de áreas úmidas. Fora das cidades, envolve a conservação de manguezais, florestas, restingas, dunas e nascentes. O termo é recente, mas muitas dessas práticas recuperam conhecimentos acumulados por comunidades que sempre compreenderam as dinâmicas da água e do território.

Proteção climática com várias funções públicas

O valor dessa infraestrutura torna-se mais evidente quando os riscos são examinados em conjunto. Parques e corredores arborizados ajudam a reduzir ilhas de calor, oferecem áreas de convivência e favorecem a circulação de espécies. Jardins de chuva recebem a água das ruas, retardam seu deslocamento e aliviam redes de drenagem. A restauração de cursos d’água pode recuperar margens, melhorar a qualidade ambiental e criar espaços públicos. Manguezais e restingas protegem zonas costeiras, sustentam a reprodução de espécies aquáticas e contribuem para atividades econômicas de comunidades tradicionais.

Em São Paulo, a expansão dos jardins de chuva mostra como dispositivos relativamente pequenos podem integrar uma estratégia maior de drenagem sustentável. A cidade informou, no final de 2025, que passaria de 427 para 530 unidades. As estruturas são distribuídas de acordo com a topografia, o histórico de alagamentos e a capacidade de infiltração do solo. Seu alcance, porém, depende da articulação com outras medidas. Centenas de jardins não compensam a impermeabilização contínua de uma metrópole, a ocupação inadequada de fundos de vale ou a insuficiência das redes de drenagem. Eles ganham relevância quando fazem parte de uma política territorial que combina prevenção, manutenção e redução das áreas impermeáveis.

No Recife, um edital federal destinou R$ 2,5 milhões, em 2025, à implantação de soluções como jardins de chuva, biovaletas, canteiros drenantes, sombreamento arbóreo e pequenas intervenções de microdrenagem em áreas periféricas. O caso é importante porque desloca a infraestrutura verde das regiões centrais, onde costuma acompanhar projetos de embelezamento, para territórios com maior vulnerabilidade social e climática. A experiência também evidencia que adaptação não se resume a plantar árvores. É necessário escolher espécies adequadas, assegurar espaço para seu desenvolvimento, cuidar do solo, garantir drenagem e prever recursos permanentes para manejo.

Em escala internacional, um projeto apoiado pelo Banco Mundial recuperou o rio Chiveve e manguezais na cidade de Beira, em Moçambique, integrando um parque urbano à função de retenção de cheias. A iniciativa passou a proteger cerca de 50 mil pessoas, além de criar áreas de lazer e oportunidades econômicas. O exemplo não oferece uma fórmula a ser copiada, mas demonstra que a recuperação ecológica pode ser concebida desde o início como parte de um sistema de segurança urbana, e não como decoração acrescentada depois da obra principal.
A desigualdade também determina quem recebe proteção

Os benefícios proporcionados pela natureza estão distribuídos de forma profundamente desigual nas cidades brasileiras. Bairros de maior renda costumam concentrar árvores, parques, praças bem cuidadas, solos mais permeáveis e melhores condições de drenagem, enquanto periferias densamente ocupadas convivem com pouca vegetação, cursos d’água poluídos, encostas instáveis e longos deslocamentos sob calor intenso. Nessas áreas, a ausência de infraestrutura verde se soma à precariedade do saneamento, da moradia e do transporte. Ondas de calor e chuvas extremas atingem, portanto, territórios nos quais a população já dispõe de menor capacidade de proteção e recuperação.

Essa desigualdade não resulta apenas de diferenças naturais entre os territórios. Ela foi construída por políticas urbanas que concentraram investimentos em determinadas regiões e permitiram que as populações de menor renda fossem empurradas para encostas, margens de rios, várzeas e outros espaços mais expostos. Em muitos desses locais, a ocupação ocorreu sem redes adequadas de esgoto, drenagem, coleta de resíduos e equipamentos públicos. Quando um evento extremo acontece, seus efeitos revelam uma estrutura urbana que distribui de maneira desigual tanto os riscos quanto os recursos necessários para enfrentá-los.

A implantação de parques, corredores arborizados, jardins de chuva e áreas de retenção hídrica deve, por isso, priorizar os territórios com maior vulnerabilidade social e climática. Essa prioridade não significa apenas levar vegetação às periferias, mas integrar a infraestrutura verde às políticas de habitação, saneamento, mobilidade, saúde e redução de riscos. Um parque linear implantado às margens de um rio, por exemplo, terá alcance limitado se o curso d’água continuar recebendo esgoto ou se as famílias residentes na área permanecerem ameaçadas por remoções sem alternativa habitacional adequada.

A participação dos moradores é igualmente necessária desde a identificação dos problemas até a definição dos usos e das formas de conservação dos espaços recuperados. O conhecimento local ajuda a reconhecer pontos de alagamento, trajetos cotidianos, áreas utilizadas pela comunidade e conflitos que nem sempre aparecem nos diagnósticos técnicos. Essa participação, entretanto, não pode servir para transferir às comunidades responsabilidades que pertencem ao Estado. Financiamento, assistência técnica, fiscalização, manejo da vegetação e manutenção das estruturas devem permanecer como obrigações do poder público.

A melhoria ambiental também pode produzir efeitos contraditórios. Parques, rios recuperados e corredores verdes valorizam o entorno, atraem investimentos imobiliários e podem elevar aluguéis e preços da terra. Quando esse processo não é acompanhado por políticas de habitação, regularização fundiária e proteção das comunidades tradicionais, os moradores que conviveram durante décadas com a degradação correm o risco de ser afastados justamente quando o território começa a receber investimentos. A adaptação climática pode, assim, criar uma nova forma de exclusão, na qual os benefícios ambientais são apropriados por grupos com maior poder econômico.

A infraestrutura verde somente cumpre uma função verdadeiramente pública quando reduz a exposição aos riscos, melhora as condições de vida e assegura à população o direito de permanecer no território. A justiça climática depende não apenas da quantidade de árvores plantadas ou de parques construídos, mas da escolha dos lugares que receberão os investimentos, das pessoas efetivamente protegidas e das condições sociais que permitem conservar os benefícios alcançados.
Os limites das soluções baseadas na natureza e a necessidade de infraestrutura híbrida

A incorporação da natureza ao planejamento não significa que todos os riscos climáticos possam ser enfrentados exclusivamente por meio da restauração ecológica. Cidades precisam de redes de saneamento e drenagem, contenção de encostas, sistemas de alerta, moradias seguras e, em determinadas situações, obras de engenharia de grande porte. Manguezais, matas ciliares, várzeas e áreas permeáveis reduzem a intensidade de muitos impactos, mas não eliminam os problemas produzidos por ocupações inadequadas, redes insuficientes e décadas de ausência de investimentos públicos.

A resposta mais consistente costuma combinar infraestrutura natural e infraestrutura construída. Jardins de chuva e solos permeáveis podem diminuir o volume de água que chega às galerias, mas dependem de um sistema de drenagem capaz de receber o fluxo restante. Matas ciliares estabilizam margens e reduzem a entrada de sedimentos nos rios, mas não substituem a coleta e o tratamento de esgoto. A vegetação de encostas contribui para a estabilidade do solo, porém não dispensa obras de contenção quando existem moradias ameaçadas por movimentos de massa. Cada intervenção precisa ser definida a partir das características da bacia hidrográfica, da encosta ou da faixa costeira e da intensidade dos riscos enfrentados.

Essa combinação, conhecida como infraestrutura híbrida, permite aproveitar as diferentes capacidades de proteção. Enquanto obras convencionais são projetadas para responder a determinados volumes de água ou níveis de pressão, os ecossistemas ajudam a desacelerar os fluxos, distribuir impactos e recuperar funções ambientais perdidas. A integração entre essas duas formas de infraestrutura pode reduzir a sobrecarga dos sistemas construídos e ampliar os benefícios oferecidos à população. Para funcionar, entretanto, ela exige planejamento territorial e coordenação entre órgãos responsáveis pelo meio ambiente, pelo saneamento, pela habitação, pelas obras públicas e pela defesa civil.

Também é necessário impedir que a expressão “solução baseada na natureza” seja utilizada como rótulo para projetos de paisagismo sem relação comprovada com os riscos locais. A criação de pequenos espaços verdes pode melhorar a paisagem, mas não deve ser apresentada como resposta suficiente para enchentes, erosão ou ondas de calor quando sua escala é incompatível com o problema. Sem diagnóstico, metas e avaliação, iniciativas pontuais podem produzir boas imagens institucionais e reduzida capacidade de proteção.

O conceito tampouco pode servir como compensação simbólica para novas degradações. Plantar mudas não substitui a conservação de uma floresta madura, cuja biodiversidade e cujas funções ecológicas resultam de processos formados ao longo de décadas. Criar um pequeno parque não neutraliza a ocupação de uma várzea, assim como recuperar um trecho de margem não justifica destruir manguezais em outro local. A primeira medida de adaptação baseada na natureza deve ser proteger os ecossistemas que permanecem preservados, pois sua recuperação posterior é lenta, incerta e, em alguns casos, incapaz de restabelecer integralmente as condições anteriores.

Projetos dessa natureza exigem acompanhamento permanente. É necessário avaliar a quantidade de água retida, a redução da temperatura, a melhoria da qualidade ambiental, a conectividade entre áreas verdes e o número de pessoas efetivamente protegidas. A análise também deve considerar a sobrevivência das árvores, a manutenção das estruturas, a segurança, o acesso público e os efeitos sobre a moradia e a renda. Esses critérios permitem distinguir intervenções capazes de ampliar a resiliência territorial de projetos que utilizam a natureza apenas como elemento decorativo ou argumento de promoção institucional.

Reconhecer os limites das soluções baseadas na natureza não diminui sua importância. Ao contrário, permite incorporá-las de maneira mais responsável às políticas públicas. A natureza oferece formas de proteção que a engenharia convencional, isoladamente, não consegue reproduzir, mas sua contribuição depende da escala das intervenções, da conservação contínua e da integração com outros sistemas urbanos. O objetivo não é escolher entre ecossistemas e obras construídas, mas organizar ambos dentro de uma política preventiva capaz de responder às características de cada território.
Do programa federal à política permanente

O Brasil começou a construir instrumentos capazes de levar essa abordagem a uma escala mais ampla. A Lei nº 14.904, de 2024, estabeleceu diretrizes para planos de adaptação climática, e o Programa Cidades Verdes Resilientes, instituído no mesmo ano, passou a articular políticas urbanas, ambientais e climáticas. Seu planejamento prevê apoiar o registro e a implementação de soluções baseadas na natureza em 487 municípios até 2030 e em 974 até 2035, com prioridade para regiões metropolitanas, localidades vulneráveis e municípios pequenos, que dispõem de menos recursos técnicos e financeiros.

As metas representam um avanço, mas seu cumprimento dependerá de orçamento estável, coordenação federativa e capacidade municipal. Muitas prefeituras não possuem equipes para mapear riscos, elaborar projetos, disputar financiamentos e acompanhar resultados. Programas federais e estaduais precisam oferecer assistência técnica continuada, bases de dados acessíveis e mecanismos de financiamento que não se limitem a editais isolados. O Plano Clima deve integrar essa agenda ao saneamento, à habitação, à mobilidade, à saúde e à proteção da biodiversidade, evitando que a adaptação permaneça confinada aos órgãos ambientais.

Tratar a natureza como infraestrutura pública também modifica as prioridades orçamentárias. A conservação de uma várzea, a restauração de uma mata ciliar e o manejo de uma floresta urbana devem ser reconhecidos como investimentos em prevenção, com custos de implantação, equipes responsáveis e manutenção assegurada. Isso exige revisar critérios de obras públicas, incluir serviços ecossistêmicos nas análises de custo e benefício e impedir que recursos para adaptação sejam consumidos apenas pela reconstrução posterior aos desastres.

A mudança decisiva ocorre quando florestas, rios e manguezais deixam de ser vistos como espaços disponíveis para ocupação ou obstáculos ao crescimento urbano. Eles formam sistemas de proteção que sustentam a vida coletiva e reduzem riscos que o concreto, sozinho, não consegue controlar. Preservá-los e recuperá-los não dispensa engenharia, planejamento ou política social. Ao contrário, exige que esses campos atuem de forma integrada e reconheçam que a segurança climática começa antes da emergência, no modo como o território é ocupado, protegido e compartilhado.

Infraestrutura verde – Soluções Sustentáveis para Cidades do Futuro. Soluções baseadas na natureza e infraestrutura verde no estatuto da cidade. (ecodebate)

Estudo coloca litoral brasileiro na mira da elevação do mar

Pesquisa da Universidade McGill revela que capitais como Rio, Recife e Florianópolis estão entre as áreas mais vulneráveis das Américas; cenário exige planejamento urbano urgente

O aumento do nível do mar pode inundar mais de 100 milhões de imóveis no Sul Global até o fim do século, alerta estudo da McGill. Com um litoral extenso e cidades densamente povoadas ao nível do mar, o Brasil figura como um dos epicentros da crise climática, colocando em risco milhões de pessoas e infraestruturas essenciais.

O aumento do nível do mar pode colocar mais de 100 milhões de edifícios em todo o Sul Global em risco de inundações regulares se as emissões de combustíveis fósseis não forem reduzidas rapidamente, de acordo com um novo estudo liderado pela McGill publicado na npj Urban Sustainability.

O estudo trouxe um alerta global que soa com especial urgência para o Brasil. A pesquisa, uma das mais abrangentes já realizadas sobre o tema, mapeou quantos edifícios em todo o mundo estarão expostos a inundações anuais e crônicas no futuro devido à elevação do nível do mar.

As conclusões apontam para um risco iminente para cidades costeiras e o extenso litoral brasileiro, com capitais densamente povoadas praticamente ao nível do mar, aparece como uma das áreas mais vulneráveis das Américas.

O estudo considerou cenários entre 0,5 e 20 metros de elevação do nível do mar. Descobriu que, com um aumento de apenas 0,5 metros, um nível projetado para ocorrer mesmo sob cortes ambiciosos de emissões, aproximadamente três milhões de edifícios poderiam ser inundados.

Em cenários com cinco metros ou mais de ascensão, como poderia ser esperado dentro de algumas centenas de anos se as emissões não terminarem em breve, a exposição aumenta acentuadamente, com mais de 100 milhões de edifícios em risco.

Muitos desses edifícios estão em áreas densamente povoadas e baixas, o que significa que bairros inteiros e infraestrutura crítica, incluindo portos, refinarias e patrimônios culturais, seriam afetados.

De acordo com a modelagem da McGill, o Brasil possui milhões de metros quadrados de área construída e inúmeros edifícios localizados em zonas costeiras de baixa altitude. A situação é particularmente crítica para cidades como:

Rio de Janeiro: A icônica orla da Zona Sul, bairros como a Urca e partes da região portuária, áreas de alto valor imobiliário e simbólico, estão na linha de frente da ameaça.

Recife: Conhecida como a “Veneza Brasileira” por sua geografia cortada por rios e canais, a capital pernambucana é frequentemente citada como uma das mais vulneráveis do mundo. Bairros baixos e a própria estrutura urbana da cidade a colocam em risco extremo.

Florianópolis: A ilha, que depende fortemente do turismo, vê suas praias, restingas e a região central da capital ameaçadas, o que pode impactar diretamente a economia local e a segurança da população.

Além das praias: Ameaça a infraestruturas vitais

O risco, no entanto, vai muito além da inundação de residências. O estudo ressalta que infraestruturas críticas – como usinas de energia, redes de água e esgoto, hospitais e rodovias costeiras – também estão na zona de perigo. A interrupção desses serviços essenciais em eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes, pode paralisar cidades inteiras e gerar custos econômicos e sociais incalculáveis.

“A elevação do nível do mar não é mais uma projeção distante. É uma realidade que já está moldando riscos reais para as economias costeiras, e o Brasil, com sua forte dependência do litoral, precisa encarar isso com a máxima seriedade”, analisa um especialista em climatologia urbana, ecoando a urgência transmitida pelo relatório canadense.

Estudo aponta vulnerabilidades na costa brasileira

Um futuro que depende das emissões

A pesquisa da McGill apresenta diferentes cenários, que dependem diretamente das ações globais para reduzir a emissão de gases de efeito estufa. Em um cenário mais pessimista, com altas emissões, o número de edifícios afetados globalmente pode ser o dobro daquele em um cenário de baixas emissões. Isso significa que as políticas climáticas adotadas hoje pelo Brasil e pelo mundo serão decisivas para determinar a magnitude do prejuízo nas próximas décadas.

A necessidade de uma resposta urgente

O estudo serve como um aviso claro para que o planejamento urbano e as políticas públicas no Brasil incorporem, de forma imediata, a variável climática.

Medidas como a criação de zonas de amortecimento costeiro, a restrição de novas construções em áreas de risco muito alto, o investimento em infraestrutura verde e a elaboração de planos robustos de adaptação e resposta a desastres deixaram de ser opcionais.

A beleza e a prosperidade das cidades litorâneas brasileiras, que atraem milhões de turistas e concentram uma parcela significativa do PIB nacional, estão sob ameaça.

A janela para agir e evitar os piores cenários, conforme demonstrado pela ciência da Universidade McGill, está se fechando rapidamente.

Aumento no nível dos oceanos coloca 5 áreas costeiras do Brasil em estado de alerta. Segundo pesquisa realizada pela Climate Central, organização focada na análise e comunicação dos impactos da crise climática global, nas próximas décadas as seguintes áreas podem ficar embaixo d’água:

1. Rio de Janeiro e região: além da capital, outras cidades podem ser atingidas, chegando até Cabo Frio.

2. Belém e região: além da capital do Pará, também pode ficar submersa a maior parte da Ilha do Marajó.

3. Macapá, Oiapoque e Ilha do Maracá: costeiro, o estado do Amapá tem dois grandes corpos de água, sendo limitado pelo Oceano Atlântico a nordeste e pela foz do Rio Amazonas a leste.

4. São Luís e as Ilhas de Santana, no Maranhão, assim como o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, podem ficar parcialmente encobertos pelo aumento do nível do oceano.

5. Rio Grande do Sul: conforme já estamos presenciando na atual crise, a área costeira de Porto Alegre até Pelotas pode ficar submersa nas próximas décadas.

Exposição à inundação de edifícios

Em (a), a cor de cada célula de grade de 50 km representa a quantidade de SLR que faz com que > 25% da contagem total de edifícios da célula seja inundada na maré alta. Exibição de painéis de inserção (b) ~ 3 km e (c) ~ 250 m regiões. Em (b) e (c), os edifícios individuais são coloridos de acordo com o valor da LSLR em que o nível do solo do edifício está em contato com a água na maré alta. Esses painéis esclarecem que, embora o resultado geral da grade em (a) seja bastante grosseiro, a variabilidade dentro de uma célula de grade pode ser alta e bem capturada pelo conjunto de dados. (ecodebate)

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Projetamos casas, escritórios e fábricas para um clima que já se foi

Esta frase reflete a urgência de adaptar a arquitetura e a engenharia ao aquecimento global, pois grande parte dos edifícios modernos ainda é concebida com base em dados climáticos do século passado.

O impacto nas construções

• Calor e energia: O aumento das temperaturas sobrecarrega sistemas de refrigeração, elevando o consumo de energia e os custos operacionais.

• Conforto e saúde: Ambientes mal ventilados ou sem isolamento térmico adequado afetam a produtividade em escritórios e a saúde de moradores e trabalhadores.

• Eventos extremos: Tempestades severas e ondas de calor exigem estruturas mais resistentes e resilientes.

O caminho para a adaptação

• Arquitetura bioclimática: Priorizar a ventilação cruzada, a iluminação natural e o sombreamento adequado.

• Saberes tradicionais: Resgatar soluções da arquitetura vernacular, como beirais amplos e materiais que mantêm o frescor interno.

• Materiais eficientes: Utilizar blocos de solo-cimento, isolantes térmicos e telhados verdes.

Construção civil.

Do apartamento ao galpão industrial, a conta do aquecimento global chega em forma de energia, produtividade e saúde. E o tempo para corrigir a rota está se esgotando.

Residências, torres comerciais e plantas industriais foram erguidos com base em conceitos e arquivos meteorológicos do século passado. Hoje, isto ameaça trabalhadores, moradores e a própria economia.

Quando entrei em casa naquela tarde, o termômetro marcava 38°C lá fora. Dentro, parecia mais quente ainda. As paredes, que deveriam me proteger, devolviam o calor acumulado durante o dia. O ventilador trabalhava sem parar e eu sabia que, no fim do mês, a conta de luz viria como um lembrete amargo: meu apartamento não foi feito para o clima que estou vivendo.

Mas essa sensação de impotência diante do termômetro não é um privilégio exclusivo dos lares. Ela se repete no escritório onde passo oito horas por dia, com o vidro da fachada transformando o ambiente numa estufa. E se agrava ainda mais nas visitas que faço a galpões industriais, onde o calor gerado pelas máquinas encontra nas telhas metálicas um aliado perverso para tornar o ambiente hostil, muitas vezes com temperaturas internas superiores em até 10°C em relação ao lado de fora.

Em quase todo o planeta, todos os tipos de edificação foram projetados para um clima que já não existe mais. E essa é uma crise silenciosa que atravessa paredes, fachadas e estruturas de aço.

Engenheiros e arquitetos sempre usaram arquivos meteorológicos elaborados a partir de décadas de medições históricas, muitas vezes com dados de mais de 30 anos. O problema é que um prédio projetado hoje precisa ter um bom desempenho em 2080 e, idealmente, além disso. Projetar para o clima do passado é como navegar olhando para trás, enquanto a tempestade já está sobre nós.

Os efeitos já são sentidos em toda a cadeia. Estudos mostram que 37% dos imóveis residenciais em cidades como Florianópolis podem sofrer superaquecimento já em 2050. Nos escritórios, a realidade é igualmente alarmante. Fachadas totalmente envidraçadas, ausência de brises e sistemas de ventilação ineficientes transformam torres comerciais em verdadeiras fornalhas urbanas, agravando o fenômeno das ilhas de calor.

Nas indústrias, o cenário é ainda mais crítico. Galpões logísticos e fábricas, muitas vezes construídos com coberturas metálicas escuras e sem isolamento térmico, acumulam calor de forma avassaladora, colocando em risco não apenas a integridade dos equipamentos sensíveis, mas principalmente a saúde dos trabalhadores da linha de produção.

O preço vai muito além do desconforto

Essa inadequação não é apenas uma questão de conforto. Ela ameaça nossa saúde, nossa produtividade e o próprio planeta.

A demanda global por resfriamento deve triplicar até 2050, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Mais ar-condicionado significa mais consumo de energia e mais emissões de gases de efeito estufa, num ciclo vicioso que aquece ainda mais o planeta. Nas residências, o impacto recai sobre as contas familiares.

Nos escritórios, o consumo excessivo de energia para climatização já representa, em média, mais da metade dos gastos operacionais de um edifício comercial. Nas indústrias, o custo é exponencial, pois além da refrigeração dos ambientes, muitos processos fabris exigem controle térmico rigoroso para não comprometer a qualidade dos produtos.

Mas o impacto mais imediato e doloroso recai sobre as pessoas. Crianças e idosos são especialmente vulneráveis ao estresse térmico dentro de casa. Nos ambientes corporativos, a chamada síndrome do edifício doente provoca queda de produtividade, aumento de faltas e erros operacionais. Já nos chãos de fábrica, o calor extremo combinado ao esforço físico eleva drasticamente o risco de acidentes de trabalho, desmaios e problemas cardiovasculares graves entre os operários, que muitas vezes não contam com pausas regulamentadas para hidratação em dias de pico térmico.

O que fazer com o que já está de pé e o que ainda vai ser construído?

Para construções com mais de dez anos, seja uma casa, um edifício corporativo ou uma planta fabril, as soluções passam por reformas e adaptações pontuais, ainda que custosas. Nos lares, isso significa investir em isolamento de paredes e telhados. Nos escritórios, a aplicação de películas reflexivas nos vidros, a instalação de brises externos e o uso de sensores de presença para otimizar o ar condicionado já trazem alívio significativo. Nas indústrias, a aposta em telhas termo acústicas, exaustores eólicos e sistemas de resfriamento evaporativo pode reduzir a temperatura interna em até 8°C, sem o custo proibitivo de grandes sistemas de refrigeração artificial.

Para os projetos de hoje, no entanto, o momento é de repensar tudo. O Brasil tem um déficit habitacional estimado em 6 milhões de domicílios, além de um avanço contínuo na construção de novos centros logísticos e parques fabris. Cada uma dessas novas unidades, se erguida com os padrões de ontem, será mais um problema para o amanhã.

É preciso incorporar critérios de adaptação climática desde a concepção dos projetos. Isso significa optar por cores claras em todas as fachadas e coberturas, que absorvem menos radiação. Significa evitar o excesso de vidros sem sombreamento em torres comerciais e priorizar o resfriamento passivo em galpões, com ventilação cruzada e grandes aberturas estrategicamente posicionadas. Significa, acima de tudo, entender que a arquitetura e a engenharia precisam dialogar com o clima real, e não com as médias amenas do século passado.

A sobrevivência passa pelas paredes, sejam elas de alvenaria, vidro ou aço

Mesmo que o cenário pareça desalentador, há esperança. Arquitetos e engenheiros já testam técnicas construtivas inovadoras e resgatam ensinamentos da arquitetura vernacular, que por séculos soube lidar com o clima local sem depender de energia elétrica.

O que está em jogo não é apenas o conforto térmico de um morador, de um funcionário ou de um operário. É a saúde de nossas crianças, a dignidade dos trabalhadores que mantêm a economia girando e a sobrevivência de nossas cidades.

Projetar e adaptar residências, escritórios e instalações industriais às mudanças climáticas não é mais uma opção de mercado ou uma tendência sustentável. É uma questão de sobrevivência coletiva, de resiliência econômica e de humanidade.

E o tempo para agir é agora. Porque, daqui a algumas décadas, quando olharmos para trás, não queremos descobrir que construímos todos os nossos ambientes para um mundo que já se foi, enquanto o mundo real, lá fora, seguia em frente, mais quente e mais hostil a cada verão. (ecodebate)

Impactos socioambientais e econômicos dos eventos climáticos extremos

Os eventos climáticos extremos causam perdas humanas severas, destruição de infraestruturas e prejuízos bilionários à economia global.

Impactos Sociais e Humanos

• Deslocamentos e Refugiados: Enchentes, tempestades e incêndios forçam famílias a abandonar suas casas para sobreviver.

• Saúde Física e Mental: Ondas de calor e poluição do ar por queimadas geram problemas respiratórios, estresse térmico e aumento da ansiedade ou adoecimento mental.

• Fome e Desigualdade: A desestabilização da agricultura agrava a pobreza e a insegurança alimentar, atingindo com mais força populações marginalizadas, periferias, idosos e povos indígenas.

Impactos Ambientais

• Colapso de Ecossistemas: Secas e calor excessivo reduzem áreas de pastagem, secam rios e aceleram a desertificação de regiões inteiras.

• Perda de Biodiversidade: Mudanças drásticas na temperatura e a acidificação dos oceanos ameaçam fauna, flora e recursos pesqueiros fundamentais.

• Eventos Hidrometeorológicos: O ciclo da água fica desregulado, alternando períodos de estiagem severa com chuvas intensas e enxurradas.

Impactos Econômicos

• Quebra na Produção de Alimentos: A destruição de lavouras e a morte de gado reduzem a oferta e elevam os preços dos alimentos no mercado.

• Gastos Públicos Emergenciais: Governos precisam direcionar verbas bilionárias para reconstruir estradas, cidades destruídas e atender desabrigados.

• Prejuízos Empresariais: Cortes de energia, paralisação de comércios e danos materiais aumentam a busca por seguros patrimoniais e elevam os custos operacionais.

Neste artigo, vamos sintetizar quais são os principais tipos de eventos climáticos extremos, como eles são influenciados pelas mudanças climáticas e quais são os seus impactos.

Resumo: Este artigo aborda os impactos dos eventos climáticos extremos na população e na economia, considerando os principais tipos de eventos, a influência das mudanças climáticas e as consequências diretas e indiretas desses fenômenos. São apresentados exemplos de como os eventos extremos podem causar mortes, ferimentos, deslocamentos, migrações, prejuízos econômicos, problemas de saúde e conflitos sociais e, também, discute as possíveis formas de prevenção e adaptação aos eventos extremos, bem como as políticas públicas necessárias para enfrentar esse desafio global.

Tipos de eventos climáticos extremos

Os eventos climáticos extremos podem ser classificados em quatro categorias, de acordo com a sua origem:

– Hidrológicos: são aqueles relacionados à água, como inundações, alagamentos, enchentes, deslizamentos e secas.

– Geológicos ou geofísicos: são aqueles relacionados à terra, como processos erosivos, movimentação de massa e terremotos.

– Meteorológicos: são aqueles relacionados ao ar, como raios, ciclones, tornados, vendavais e granizo.

– Climatológicos: são aqueles relacionados à temperatura, como ondas de calor, ondas de frio, geadas e incêndios florestais.

Influência das mudanças climáticas

As mudanças climáticas são alterações no clima da Terra causadas principalmente pela emissão de gases de efeito estufa provenientes das atividades humanas. Essas alterações afetam o equilíbrio do sistema climático e podem aumentar a frequência, a intensidade e a duração dos eventos climáticos extremos.

Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), há evidências científicas de que as mudanças climáticas já estão influenciando alguns tipos de eventos extremos, como ondas de calor, secas, chuvas intensas e ciclones tropicais. Além disso, o IPCC projeta que esses eventos se tornarão mais frequentes e severos com o aumento do aquecimento global.

Impactos dos eventos climáticos extremos na população

Os eventos climáticos extremos podem causar diversos impactos na população, como:

– Mortes e ferimentos: muitas pessoas podem perder a vida ou ficar feridas por causa dos eventos extremos, seja por afogamento, soterramento, choque elétrico, hipotermia ou hipertermia.

– Deslocamentos e migrações: muitas pessoas podem ser obrigadas a deixar suas casas ou regiões por causa dos eventos extremos, seja por perda de moradia, infraestrutura, serviços ou meios de subsistência.

– Prejuízos econômicos: muitas pessoas podem perder seus bens ou fontes de renda por causa dos eventos extremos, seja por danos à agricultura, indústria, comércio ou turismo.

– Problemas de saúde: muitas pessoas podem desenvolver ou agravar problemas de saúde por causa dos eventos extremos, seja por doenças infecciosas, respiratórias, cardiovasculares ou mentais.

– Conflitos sociais: muitas pessoas podem entrar em conflito por causa dos eventos extremos, seja por disputa de recursos naturais, territórios ou direitos humanos.

Impactos dos eventos climáticos extremos na economia

Esses eventos têm causado não apenas danos ambientais e humanos, mas também impactos econômicos significativos em diversas regiões do mundo.

Segundo um relatório da ONG Christian Aid, em 2021 ocorreram 10 eventos climáticos extremos que provocaram mortes, deslocamentos e prejuízos bilionários em vários países. O furacão Ida, que atingiu os Estados Unidos em agosto, foi o mais destrutivo em termos financeiros, causando cerca de US$ 95 bilhões em danos. As enchentes na Europa em julho também foram devastadoras, com um custo estimado de US$ 30 bilhões. Outros eventos citados no relatório foram o ciclone Yaas na Índia e Bangladesh, a onda de calor na América do Norte, as inundações na China e as queimadas na Sibéria.

Além desses casos, a América Latina também sofreu com os efeitos das mudanças climáticas em 2021. A seca do Rio Paraná, que atinge Argentina, Brasil e Paraguai, afetou a navegação, a agricultura, a geração de energia e o abastecimento de água. As enchentes na Bahia deixaram milhares de desabrigados e provocaram deslizamentos de terra. Os incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal continuaram a consumir a biodiversidade e a liberar mais carbono na atmosfera.

Os eventos climáticos extremos têm consequências econômicas diretas e indiretas. Os danos diretos são aqueles que afetam a infraestrutura, os bens e os serviços essenciais. Os danos indiretos são aqueles que afetam a produção, o consumo, o emprego, a renda e o bem-estar das populações. Ambos os tipos de danos podem gerar efeitos multiplicadores negativos na economia, reduzindo o crescimento potencial e aumentando a pobreza e a desigualdade.

Para evitar ou minimizar esses impactos, é preciso adotar medidas de adaptação e mitigação às mudanças climáticas. A adaptação consiste em aumentar a resiliência dos sistemas naturais e humanos aos eventos climáticos extremos, por meio de planejamento, prevenção, proteção e recuperação. A mitigação consiste em reduzir as emissões de gases de efeito estufa e aumentar os sumidouros de carbono, por meio de transição energética, eficiência, inovação e cooperação.

A recuperação verde é uma oportunidade para aliar essas medidas com a retomada econômica pós-pandemia. Investir em setores baixos ou neutros em carbono pode gerar empregos, renda e desenvolvimento sustentável. Além disso, é preciso integrar os riscos climáticos nas decisões financeiras públicas e privadas, para evitar perdas futuras e incentivar a transição para uma economia de baixo carbono.

Os eventos climáticos extremos são fenômenos que podem trazer graves consequências para a sociedade. Por isso, é importante entender as suas causas e efeitos, bem como buscar formas de prevenção, adaptação e mitigação. A ação conjunta dos governos, das empresas e da sociedade civil é fundamental para enfrentar esse desafio global.

Ocorrência de eventos climáticos extremos se multiplicou por 5 nos últimos 50 anos. (ecodebate)

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Seca simultânea em vários continentes pode triplicar o preço do trigo

Seca em vários continentes ao mesmo tempo pode triplicar o preço do trigo, aponta estudo.
Trigo

Estudo internacional mostra que secas simultâneas em grandes regiões produtoras de trigo explicam quase ¾ das variações no preço global do grão.

Pão, massa e cereal do café da manhã parecem estar muito longe de um campo seco e rachado em algum lugar do mundo. Mas uma nova pesquisa mostra que, quando a falta d’água atinge ao mesmo tempo várias das principais regiões produtoras de trigo do planeta, o efeito chega direto à prateleira do supermercado e à mesa de casa.

Pode parecer estranho pensar que uma seca na Ásia central, somada a outra na Europa e a mais uma na América do Norte, tenha alguma relação com o preço do pão francês na padaria da esquina. Mas é exatamente essa conexão que um grupo de pesquisadores decidiu investigar, e os resultados surpreenderam até os próprios cientistas.

O estudo, intitulado “Climate‐Induced Severe Water Scarcity Events as Harbingers of Global Wheat Price” e publicado na revista científica Earth’s Future, cruzou dados climáticos, mapas de áreas cultivadas e preços internacionais de commodities agrícolas ao longo de mais de 2 décadas. A conclusão é impressionante: a extensão de eventos severos de escassez hídrica ao redor do mundo consegue explicar sozinha cerca de 74% das oscilações anuais no preço global do trigo entre os anos 2000 e 2021.

Entre os autores da pesquisa está Jørgen E. Olesen, professor e chefe do Departamento de Agroecologia da Universidade de Aarhus, na Dinamarca. Para ele, a novidade do estudo não está em provar que as mudanças climáticas afetam a produção agrícola, algo já bastante conhecido, mas em mostrar com clareza como secas espalhadas pelo globo se traduzem em preços mais altos para quem está no mercado e na ponta do consumo.

O problema não é uma seca isolada, é várias secas ao mesmo tempo

A grande sacada dos pesquisadores foi criar um novo indicador, batizado de Severe Water Scarcity, ou Escassez Hídrica Severa. Em vez de olhar apenas para o que acontece numa única região agrícola, esse indicador mede qual proporção da área de plantio de trigo em todo o mundo está enfrentando seca justamente nos meses em que a planta mais precisa de água.

A lógica por trás disso é simples de entender. Uma seca localizada costuma ser absorvida pelo mercado global sem grandes traumas, porque outras regiões produtoras compensam a perda. O problema real surge quando vários “celeiros do mundo” secam ao mesmo tempo, ou em sequência muito próxima, e o sistema global de abastecimento fica sem alternativas para equilibrar a oferta. Segundo os cientistas, esse tipo de evento combinado tende a se tornar cada vez mais frequente num planeta mais quente.

Um dos achados do estudo é que o trigo se comporta de um jeito bem particular entre os grãos. A relação entre escassez de água e alta de preço se mostrou muito mais forte no trigo do que no milho, e os pesquisadores nem sequer encontraram uma relação parecida no caso do arroz.

Quanto mais quente o planeta, mais caro o pão

Olhando para o histórico, os dados mostram que, em média, cerca de 5% da área mundial de cultivo de trigo passou por escassez hídrica severa em um ano típico. Só que essa fatia não é fixa, ela vem crescendo junto com o avanço das mudanças climáticas. Em anos particularmente secos, como 2000, 2010, 2012 e 2020, a proporção de área afetada ultrapassou 15%.

Com base nesse padrão, a equipe de pesquisa usou modelos climáticos para projetar cenários futuros, e os números acendem um sinal de alerta. Em um mundo com cerca de 2°C de aquecimento global, a estimativa é de que o trigo chegue a custar em torno de US$ 273 por tonelada. Se o aquecimento avançar para 3°C, esse valor pode subir para cerca de US$ 364 por tonelada, praticamente o triplo do preço global do trigo registrado em 2010, já corrigido pela inflação.

Para Olesen, o recado é direto: o trigo é uma das culturas alimentares mais importantes do planeta, o que significa que qualquer problema climático na sua produção tende a se espalhar rapidamente para o resto do mundo. Por isso, ele defende que a seca deixe de ser tratada como uma série de episódios locais isolados e passe a ser encarada como um desafio internacional e conectado.

Mais do que um problema do campo

Os próprios autores fazem questão de reforçar que a seca não é a única variável no tabuleiro dos preços do trigo. Custos de energia e de fertilizantes, o tamanho dos estoques mundiais de grãos, políticas de comércio internacional e conflitos geopolíticos também pesam bastante na equação. Ainda assim, o estudo consegue isolar um fator climático que, até então, era difícil de medir com precisão, e que já parece estar deixando marcas visíveis nos mercados globais. É justamente isso que torna a descoberta relevante para muito além do universo da agricultura.

O trigo é alimento básico para bilhões de pessoas ao redor do mundo. Quando a seca atinge simultaneamente várias das grandes regiões produtoras, o abalo se propaga pelas cadeias internacionais de comércio e pode chegar a países e famílias que nunca chegaram perto de um campo de trigo seco.

Por isso, os pesquisadores defendem que as próximas avaliações sobre segurança alimentar não olhem apenas para mudanças graduais na produtividade das lavouras ao longo dos anos. É preciso também levar em conta esses grandes eventos de seca que se repetem e que, cada vez mais, atingem várias regiões produtoras estratégicas ao mesmo tempo ou em um curto intervalo de tempo.

Tensões geopolíticas e clima elevam cotações do trigo no mercado internacional

Enquanto contratos avançam na Bolsa de Chicago, mercado brasileiro segue com negociações limitadas pela entressafra, aponta Cepea.  (ecodebate)

O veredito da NASA sobre El Niño

O veredito da NASA sobre o El Niño: imagens de satélite revelam como o fenômeno já começou a sufocar a vida marinha no Pacífico.
O veredito da NASA confirma que o El Niño está ativo e em processo de intensificação no Oceano Pacífico equatorial. Imagens de satélite mostram o aquecimento das águas, elevação do nível do mar e uma queda expressiva nos níveis de clorofila, sinalizando impactos diretos na base da cadeia alimentar marinha.

O que os satélites da NASA revelam

• Monitoramento do Pacífico: O satélite PACE registrou o avanço de águas mais quentes e redução do fitoplâncton na região equatorial em comparação ao ano anterior.

• Impacto ecológico: A diminuição de nutrientes interrompe a proliferação da vida marinha na área central do oceano.

• Confirmação científica: Os dados orbitais corroboram os alertas de agências climáticas sobre a força do atual episódio do fenômeno.

O veredito da NASA sobre o El Niño: imagens de satélite revelam como o fenômeno já começou a sufocar a vida marinha no Pacífico

Imagens captadas pelo satélite PACE mostram como o aquecimento das águas está reduzindo o fitoplâncton no Pacífico e pode provocar efeitos em cascata sobre peixes, aves e mamíferos marinhos.
O El Niño é um fenômeno climático natural, conhecido desde a época das grandes navegações e caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial. Ele ocorre principalmente nas regiões central e leste, e as águas ficam mais quentes do que o normal, provocando mudanças na circulação do oceano e da atmosfera.

Em junho/2026, o El Niño foi oficialmente declarado e já começou a provocar mudanças para além das temperaturas do oceano. Imagens captadas pela NASA no ano passado mostram uma queda significativa na concentração de clorofila no Pacífico central, um dos primeiros sinais de que o El Niño já está afetando a vida marinha. A redução indica uma menor presença de fitoplâncton, organismos microscópicos que estão na base da cadeia alimentar dos oceanos. Segundo os pesquisadores, essas alterações podem ficar ainda mais evidentes nos próximos meses, conforme o fenômeno vai se fortalecendo.

Imagens da NASA mostram o impacto do El Niño no oceano em apenas um ano

Antes e depois do El Niño: imagens do satélite PACE, da NASA, mostram a concentração média de clorofila no Pacífico equatorial em junho/2025, quando as condições eram neutras, e junho/2026, durante o fortalecimento do fenômeno.

A diferença fica evidente quando os pesquisadores colocam lado a lado os registros de junho/2025 e junho/2026. No primeiro período, as condições do Pacífico equatorial eram consideradas neutras; no segundo, o El Niño já estava em processo de intensificação. Os dados foram obtidos pelo PACE, satélite da NASA lançado em fevereiro/2024, por meio do instrumento OCI (Ocean Color Instrument). O equipamento analisa a luz refletida pelo oceano e permite acompanhar a distribuição dos diferentes componentes presentes na água, incluindo a clorofila.

Mas qual a importância desse pigmento para a vida marinha? A clorofila está presente na maioria dos organismos que compõem o fitoplâncton, um conjunto de seres microscópicos que vive próximo à superfície do oceano. Esses organismos realizam fotossíntese e formam uma das principais bases da cadeia alimentar marinha.

Nas imagens da NASA, a mudança mais evidente aparece no Pacífico central, próximo à Linha do Equador e ao norte da Nova Zelândia. Em junho/2026, a concentração de clorofila nessa região estava consideravelmente menor do que no mesmo período do ano anterior. Isso significa:

- Menos clorofila na superfície;

- Menor presença de fitoplâncton;

- Redução da quantidade de alimento disponível para o zooplâncton;

- Possíveis impactos sobre peixes, aves marinhas e mamíferos marinhos.

Segundo os oceanógrafos Matthew Kehrli e Graham Trolley, do Centro de Voos Espaciais Goddard, da NASA, a alteração era esperada. Durante um episódio de El Niño, os ventos alísios que normalmente sopram de leste para oeste perto do Equador enfraquecem. Esse enfraquecimento altera a circulação do oceano, fazendo com que a camada superficial quente se torne mais profunda e, consequentemente, reduzindo a chamada ressurgência oceânica, responsável por trazer águas frias e ricas em nutrientes essenciais para a vida marinha. Com menos nutrientes chegando à superfície, o fitoplâncton encontra condições menos favoráveis para crescer. E quando a quantidade desses organismos cai, o efeito pode se espalhar para os demais níveis da cadeia alimentar.

El Niño pode afetar a pesca e toda a cadeia alimentar do Pacífico

Atualmente, a atuação de um forte episódio de El Niño no Oceano Pacífico já está começando a produzir efeitos que preocupam especialistas. O fenômeno altera os padrões climáticos em diferentes partes do mundo, favorecendo ondas de calor, períodos de seca e chuvas intensas, enquanto também modifica as condições do próprio Pacífico. No Brasil, as consequências variam conforme a região e podem se somar ao aquecimento global, contribuindo para temperaturas mais elevadas. No oceano, porém, as mudanças também podem atingir diretamente a vida marinha, começando pela base da cadeia alimentar.

O El Niño pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões, favorecendo secas, ondas de calor e condições mais propícias para incêndios florestais.

É nesse ponto que a redução do fitoplâncton observada pela NASA ganha importância. Com menos desses organismos disponíveis, diminui também a oferta de alimento para outras espécies, o que pode provocar efeitos em cadeia. Um dos exemplos aparece no Peru, onde episódios anteriores de El Niño foram associados a fortes quedas na pesca de anchoveta. O aquecimento das águas, combinado à menor ressurgência e à redução do fitoplâncton, diminui a disponibilidade de alimento para esses peixes.

A Expectativa dos cientistas é que as mudanças observadas no Pacífico central se tornem ainda mais claras conforme o El Niño avance. A diferença pode aparecer tanto em uma redução ainda maior dos níveis de clorofila quanto na expansão da área afetada.  Toda essa situação, porém, não significa que a queda da vida microscópica seja necessariamente permanente. Depois de um episódio de El Niño, pode ocorrer uma recuperação da clorofila, com concentrações até superiores ao normal no Pacífico equatorial. Correntes oceânicas que transportam mais ferro e a poeira proveniente de regiões mais secas da América Central e da América do Sul podem ajudar nesse processo.

O La Niña, fenômeno que costuma aparecer depois do El Niño, também pode favorecer a recuperação da vida marinha. Em episódios anteriores, o aumento da ressurgência de águas profundas ajudou a elevar novamente a concentração de nutrientes e fitoplâncton no Pacífico. Para entender melhor essas transformações e acompanhar como o oceano reage ao longo de todo o ciclo do fenômeno, os cientistas agora contam com uma ferramenta inédita.

Lançado em fevereiro/2024, o PACE, da NASA, poderá acompanhar pela primeira vez um ciclo completo de El Niño com medições hiperespectrais globais quase diárias. O satélite consegue analisar o oceano em mais comprimentos de onda de luz do que as missões anteriores, permitindo observar com mais detalhes as mudanças na concentração e na composição do fitoplâncton à medida que o fenômeno avança.

Isso permite analisar o oceano em mais comprimentos de onda de luz do que em observações anteriores e acompanhar com maior precisão como diferentes comunidades de fitoplâncton respondem ao El Niño. Os sensores também podem observar pigmentos de plantas em terra, além de nuvens e aerossóis na atmosfera, ajudando os pesquisadores a entender como os efeitos do El Niño se espalham por diferentes partes do mundo.
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