terça-feira, 7 de julho de 2026

Produtores rurais desconhecem impactos do descarte de painéis solares

Produtores rurais desconhecem impactos do descarte de painéis solares, aponta pesquisa.
Pesquisas indicam que muitos produtores rurais desconhecem os procedimentos adequados e os riscos ambientais associados ao descarte de painéis solares. A falta de regulamentação específica no campo dificulta a gestão correta desses resíduos, que contêm metais pesados e exigem ações de reciclagem adequadas.

Principais Riscos e Desafios

• Metais Pesados: Módulos fotovoltaicos contêm elementos como chumbo e cádmio, que podem contaminar o solo e a água se descartados incorretamente.

• Acúmulo de Resíduos: Com a expansão da energia solar no agronegócio, o volume de placas atingindo o fim da vida útil (cerca de 25 anos) aumentará significativamente nas próximas décadas.

• Desinformação: Muitos proprietários de terras tratam esses equipamentos como lixo comum devido à falta de clareza sobre as leis de logística reversa.

O que pode ser feito

1. Reciclagem de Componentes: As placas solares são altamente recicláveis, permitindo um aproveitamento de até 97% dos materiais quando processadas de forma correta.

2. Realocação e Reuso: Módulos que perderam parte da eficiência ainda podem ser reaproveitados em outras instalações com menor demanda energética.

3. Busca por especializadas: É preciso acionar empresas de reciclagem ou fornecedores de energia solar para garantir a destinação segura, mitigando impactos ambientais silenciosos.

Pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul identificaram estratégias para a gestão de resíduos fotovoltaicos gerados em propriedades rurais, utilizando como base a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).
Um estudo realizado no Mato Grosso do Sul concluiu que a ausência de regulamentação específica para o descarte de resíduos fotovoltaicos em áreas rurais pode se tornar um obstáculo para a sustentabilidade da energia solar no agronegócio brasileiro. A pesquisa identificou baixa conscientização dos produtores rurais sobre os impactos ambientais do descarte inadequado de equipamentos fotovoltaicos e propôs diretrizes para a criação de um modelo regulatório baseado em logística reversa, incentivos econômicos, fiscalização e educação ambiental.

O trabalho foi publicado na revista Renewable Energy Focus e conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). O objetivo foi identificar estratégias para a gestão de resíduos fotovoltaicos gerados em propriedades rurais, utilizando como base a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e teorias de formulação de políticas públicas.

A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa baseada em entrevistas com 12 atores considerados estratégicos para o tema. Entre os participantes estavam produtores rurais, pesquisadores, representantes de entidades do agronegócio, especialistas em resíduos sólidos e gestores públicos envolvidos com logística reversa e desenvolvimento regional.

Os entrevistados foram selecionados por sua experiência em energia fotovoltaica, desenvolvimento rural, sustentabilidade ou gestão de resíduos. As entrevistas ocorreram virtualmente e abordaram temas como percepção sobre resíduos fotovoltaicos, desafios para sua gestão, instrumentos regulatórios e mecanismos de monitoramento.

O estudo teve como foco o Mato Grosso do Sul, estado que possui mais de 113 mil unidades consumidoras com sistemas fotovoltaicos instalados. A escolha da região se deve à relevância do agronegócio local e ao crescimento acelerado da adoção da tecnologia solar em propriedades rurais.

Falta de conscientização

Um dos principais resultados do estudo foi a constatação de que os produtores rurais entrevistados ou representados pelos participantes têm pouco conhecimento sobre os impactos ambientais associados ao descarte inadequado de módulos fotovoltaicos.

Segundo os pesquisadores, a decisão de investir em energia solar é normalmente motivada pela redução dos custos de eletricidade, enquanto a destinação dos equipamentos ao final da vida útil raramente é considerada. Além disso, os entrevistados apontaram que as empresas do setor costumam enfatizar os benefícios ambientais da energia solar durante a venda dos sistemas, mas fornecem poucas informações sobre a gestão futura dos resíduos.

Outro fator apontado é a longa vida útil dos módulos, normalmente entre 25 e 30 anos. Isso cria a percepção de que o problema do descarte está distante, embora os equipamentos também possam precisar ser substituídos precocemente devido a danos causados por eventos climáticos, defeitos de fabricação ou falhas operacionais.

Obstáculos…

Os participantes identificaram a logística reversa prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos como o principal instrumento para a gestão dos resíduos fotovoltaicos. A experiência do setor agropecuário com a devolução de embalagens de defensivos agrícolas foi citada como referência para a construção de um sistema semelhante para módulos solares.

Entretanto, os entrevistados destacaram obstáculos importantes para a implementação desse modelo. Entre eles estão os elevados custos de transporte, a falta de infraestrutura para coleta e reciclagem, a distância entre propriedades rurais e centros urbanos, a precariedade de estradas rurais e a escassez de instalações especializadas para tratamento dos resíduos.

Os autores observam que esses desafios são particularmente relevantes em regiões remotas, como áreas pantaneiras e outras localidades de difícil acesso, onde a logística tende a representar parcela significativa dos custos do processo.

…e soluções

Para superar essas barreiras, a pesquisa propõe uma estrutura regulatória baseada na combinação de diferentes instrumentos de política pública.

Entre as recomendações estão a criação de mecanismos de fiscalização e rastreamento, aplicação de sanções para descarte inadequado, incentivos financeiros para produtores e empresas, programas de educação ambiental e expansão da infraestrutura de coleta.

Os pesquisadores sugerem incentivos como linhas de crédito, descontos na aquisição de novos equipamentos, benefícios tributários para produtores rurais e incentivos fiscais para empresas que aderirem a sistemas de logística reversa. Cooperativas de reciclagem também poderiam receber apoio financeiro, capacitação técnica e subsídios para transporte.

Já no campo da fiscalização, o estudo defende a aplicação gradual de penalidades, começando por advertências e evoluindo para multas em casos de reincidência.

Uma das propostas mais inovadoras apresentadas pelos entrevistados é a utilização de sistemas de rastreamento baseados em blockchain.

A tecnologia permitiria registrar todo o ciclo de vida dos equipamentos, desde a fabricação ou importação até a instalação, manutenção e descarte final. Segundo os autores, isso facilitaria auditorias, fiscalização e comprovação do destino adequado dos resíduos.

Os participantes também defenderam a criação de bases de dados atualizadas para acompanhar a quantidade de equipamentos instalados e estimar os volumes futuros de resíduos fotovoltaicos.
Diferentes modelos de coleta

O estudo conclui que um único modelo de coleta dificilmente atenderá às necessidades do meio rural brasileiro. Por isso, propõe a adoção simultânea de diferentes mecanismos de recolhimento.

Entre as alternativas sugeridas estão pontos de entrega voluntária em municípios, cooperativas e revendas; coleta domiciliar realizada por empresas especializadas; campanhas periódicas de recolhimento; e programas de substituição em que a própria empresa instaladora retira os módulos antigos ao vender novos equipamentos.

Segundo os pesquisadores, a diversificação dos modelos de coleta é essencial para aumentar a adesão dos produtores rurais e reduzir os custos logísticos associados ao descarte dos equipamentos.

A pesquisa destaca que os módulos fotovoltaicos contêm materiais valiosos, como alumínio, prata e silício, que podem ser recuperados e reinseridos em cadeias produtivas. Além da reciclagem, foram mencionadas possibilidades de reuso, remanufatura e reaproveitamento dos materiais em novos produtos.

No entanto, os autores afirmam que o desenvolvimento desse mercado dependerá de apoio governamental, investimentos em pesquisa e criação de condições econômicas que tornem a reciclagem viável em escala comercial.

O estudo ressalta que projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional já começam a abordar a logística reversa de módulos fotovoltaicos, mas ainda não oferecem respostas suficientes para os desafios específicos do setor rural.
Para os autores, o crescimento acelerado da energia solar exige que a discussão sobre resíduos acompanhe a expansão do mercado. Caso contrário, uma tecnologia promovida como solução ambiental poderá gerar novos passivos ao final de sua vida útil. (pv-magazine-brasil)

Degradação dos oceanos avança mais rápido

A degradação dos oceanos está avançando mais rápido que as respostas globais, segundo a Terceira Avaliação Global dos Oceanos da ONU e o Barômetro Starfish 2026. Impactos como o aumento do nível do mar, poluição química e branqueamento de corais ameaçam economias costeiras e a biodiversidade global de forma sem precedentes.

Dados Alarmantes

• Elevação do Mar: A taxa de aumento saltou para 4,3 mm por ano, quase o dobro das décadas anteriores, impulsionada pelo aquecimento e expansão térmica.

• Estresse Térmico: Em junho de 2025, ondas de calor marinhas severas atingiram 20% da superfície oceânica, e 84% dos recifes de coral enfrentaram níveis de estresse capazes de causar branqueamento.

• Poluição e Desoxigênio: O oceano absorveu cerca de 30% das emissões de CO2, o que causa acidificação e a expansão de "zonas mortas" hipóxicas (sem oxigênio para a vida marinha).

• Poluentes Emergentes: Além do plástico, cientistas alertam para a alta concentração de "poluentes invisíveis", como antibióticos encontrados nas águas.

Impactos no Brasil

Com 8 mil quilômetros de litoral, o país é altamente vulnerável. A costa brasileira perdeu 15% de sua faixa de areia nos últimos 30 anos. O avanço do mar ameaça infraestruturas nas capitais dos 17 estados costeiros, enquanto modelos apontam que no Rio de Janeiro a subida do nível do mar pode superar a média global.

Para entender o panorama completo da Terceira Avaliação Global dos Oceanos ou conferir o detalhamento corporativo do Barômetro Starfish, o acesso aos relatórios na íntegra traz a dimensão exata do problema.

Oceanos em 2050 vão ter mais plástico do que peixes, alerta Fórum de Davos.

Com recordes de estresse térmico em recifes de coral e avanço acelerado do nível do mar, pesquisadores alertam para o aumento dos riscos ambientais, econômicos e sociais

A degradação dos oceanos continua avançando em diversos indicadores ambientais, enquanto as respostas de governos, instituições e mercados permanecem abaixo da escala considerada necessária pelos especialistas. A conclusão é do Barômetro Starfish 2026, relatório anual sobre a saúde dos oceanos, publicado na revista científica State of the Planet, em 8 de junho, Dia Mundial dos Oceanos.

Produzido por 29 especialistas de 14 países, o estudo reúne dados recentes sobre aquecimento dos oceanos, elevação do nível do mar, perda de biodiversidade, poluição e governança oceânica. Segundo os autores, diversos indicadores seguem em trajetória de deterioração, enquanto medidas de proteção, conservação e financiamento avançam em ritmo mais lento.

“Nenhum ano como 2026 deixou tão claro que o oceano está na interseção entre geopolítica, comércio e finanças”, disse Peter Thomson, enviado especial do secretário-geral da ONU para os Oceanos. “Este Dia Mundial dos Oceanos deve nos levar a refletir tanto sobre os riscos quanto sobre as oportunidades à frente, porque não existe um caminho crível para a ação climática, a segurança energética e a segurança econômica sem colocar o oceano no centro”.

Segundo Thomson, clima, biodiversidade e proteção dos oceanos estão cada vez mais interligados, exigindo avanços mais rápidos na redução do uso de combustíveis fósseis e maiores investimentos em resiliência oceânica e economias azuis.

Entre os resultados apresentados, a taxa média de elevação do nível do mar atingiu 4,2 milímetros por ano entre 2012 e 2025, quase o dobro da observada em décadas anteriores. Em junho/2025, ondas de calor marinhas severas afetaram 20% da superfície oceânica global, enquanto 84,4% dos recifes de coral foram expostos a níveis de estresse térmico capazes de provocar branqueamento.

“Ao analisar aquecimento, poluição e perda de biodiversidade como parte de um mesmo sistema, conseguimos compreender não apenas o que está acontecendo, mas também como esses fenômenos se relacionam”, diz Marina Lévy, presidente do comitê científico do Barômetro Starfish.

O relatório também aponta que ¼ dos primeiros mil metros da coluna d’água dos oceanos já está submetido a múltiplas pressões ambientais simultâneas, resultado da combinação de fatores como aquecimento, acidificação, perda de oxigênio e outras alterações associadas às mudanças climáticas.
Emissões, plástico e pesca continuam pressionando os oceanos

Segundo o documento, as emissões globais de dióxido de carbono (CO2) atingiram um recorde de 38,1 bilhões de toneladas em 2025, enquanto os avanços na descarbonização do transporte marítimo seguem limitados. A poluição plástica também continua crescendo, com cerca de 130 milhões de toneladas já acumuladas nos oceanos e milhões de toneladas adicionais chegando ao ambiente marinho todos os anos.

O relatório também identifica falhas persistentes na governança dos oceanos. Segundo os autores, 67% dos navios pesqueiros industriais que operam em áreas marinhas protegidas não são monitorados publicamente.

Além disso, 31 contratos ativos de exploração mineral em águas profundas seguem em vigor, levantando preocupações sobre potenciais impactos de longo prazo nos ecossistemas marinhos. O número de espécies marinhas ameaçadas já alcança 1.685 em escala global.

Impactos econômicos

Segundo o levantamento, tempestades e inundações provocaram prejuízos estimados em US$ 212 bilhões em 2024, quase o dobro do registrado em 2023. As perdas associadas à pesca, aquicultura, manguezais, recifes de coral e infraestrutura portuária já atingem valores comparáveis aos custos sociais mais amplos relacionados às emissões de carbono.

O estudo também aponta aumento nos custos dos seguros marítimos em razão da combinação entre riscos climáticos e geopolíticos. Em 2025, 8.260 pessoas perderam a vida no mar.

Os impactos econômicos dos oceanos vão muito além das regiões costeiras. “Nem toda nação é definida por sua costa, mas toda nação é moldada pelo comércio — e o comércio depende de um oceano saudável”, disse Chantal Line Carpentier, chefe da área de Comércio, Meio Ambiente e Mudança Climática da Divisão de Comércio Internacional e Commodities da ONU Comércio e Desenvolvimento. “Mais de 80% do comércio mundial em volume é transportado por via marítima, e os setores baseados nos oceanos movimentam aproximadamente US$ 2,5 trilhões, perto de 7% do comércio global”.

Segundo ela, cerca de 600 milhões de pessoas dependem dos oceanos para sua subsistência, e essa resiliência está sob pressão crescente devido às mudanças climáticas, à poluição e à perda de biodiversidade.

Avanços em proteção

Apesar do cenário descrito pelo relatório, a edição de 2026 também analisa alguns avanços institucionais. Dois acordos internacionais entraram em vigor, entre eles o Tratado do Alto-Mar (BBNJ). As áreas marinhas protegidas ultrapassaram pela primeira vez 10% da superfície oceânica global. Novas medidas de proteção para tubarões e raias também foram adotadas no âmbito do comércio internacional.

Os investimentos na chamada economia oceânica continuam em expansão. O relatório contabiliza mais de 40 fundos dedicados ao setor e mais de 2.000 startups atuando em inovação marinha. Ainda assim, os autores observam que apenas 3,2% do oceano é atualmente considerado altamente ou totalmente protegido.

Para Angelique Pouponneau, principal negociadora para Oceanos da Aliança dos Pequenos Estados Insulares (AOSIS), os próximos anos serão decisivos para avaliar se os compromissos assumidos pelos governos serão transformados em ações concretas.

“Os próximos 2 anos serão decisivos para determinar se os compromissos globais relacionados ao oceano serão convertidos em ação coordenada. A saúde do oceano sustenta a resiliência de comunidades e economias em todo o mundo, incluindo economias insulares cujo futuro está intimamente ligado a um oceano saudável e produtivo”.

Enfraquecimento do monitoramento

Pela primeira vez, o Barômetro Starfish destaca o enfraquecimento dos sistemas de observação oceânica como um risco relevante para a compreensão das mudanças em curso.

As observações oceânicas in situ alcançaram cerca de 120 mil medições por dia em 2025. No entanto, redes consideradas fundamentais para o monitoramento dos oceanos — como boias ancoradas e observações realizadas por embarcações — vêm apresentando redução desde a pandemia.

Segundo o relatório, fatores como restrições orçamentárias, diminuição das atividades de campo e redução de pessoal especializado têm contribuído para esse cenário. Os autores argumentam que toda a base de conhecimento apresentada no relatório depende dessa infraestrutura de monitoramento.

“Ao conectar observações oceânicas, ciência e impactos sociais, o Barômetro ajuda a identificar lacunas de conhecimento, orientar prioridades de pesquisa e investimento e apoiar ações mais coordenadas”, disse Pierre Bahurel, diretor-geral da Mercator Ocean International.

Segundo ele, os sistemas de observação oceânica devem ser considerados infraestrutura estratégica para resiliência climática, redução de riscos de desastres e cooperação científica internacional. (ecodebate)

domingo, 5 de julho de 2026

Poluição dos oceanos começa nos rios e efluentes

A poluição marinha tem origem no continente, impulsionada pelo descarte inadequado de resíduos sólidos e esgoto. Mais de 80% dos detritos nos oceanos chegam até lá através do escoamento por rios, córregos e redes de drenagem urbana.

O Caminho dos Resíduos até o Mar

A contaminação dos ecossistemas aquáticos segue um ciclo urbano e geológico específico:

O Descarte nas Cidades: Resíduos plásticos descartados de forma irregular são levados pela chuva ou pelo vento para as galerias de águas pluviais. A falta de saneamento básico e o esgoto não tratado também são despejados diretamente em bacias hidrográficas.

O Transporte Fluvial: Os rios atuam como "corredores" naturais que carregam essa carga orgânica, química e plástica para as zonas costeiras.

O Impacto Profundo: Estima-se que milhões de toneladas de plástico cheguem aos mares anualmente, poluindo desde as praias até o mar profundo. O material se degrada em microplásticos, afetando milhares de espécies e entrando na cadeia alimentar.

Iniciativas e Ações

A proteção da vida marinha e do oceano está diretamente ligada ao tratamento de efluentes em áreas urbanas e industriais:

O Papel do Saneamento: Relatórios da ONU alertam que a melhora no tratamento de esgoto no Brasil é vital para reverter a poluição marinha.

Iniciativas Litorâneas: Campanhas locais, como as promovidas pelo Orla Rio, demonstram como as ações de limpeza costeira e o gerenciamento de resíduos terrestres previnem o dano ambiental.

Educação Ambiental: Discussões de especialistas enfatizam que o combate à poluição exige a conscientização sobre o destino final do lixo urbano e o impacto nos rios.
Antes de chegar ao mar, a poluição percorre cidades, indústrias e sistemas de saneamento que nem sempre conseguem tratar corretamente a água descartada

O Dia Mundial dos Oceanos, celebrado em 8 de junho, costuma chamar atenção para imagens de praias sujas, ilhas de plástico e animais marinhos afetados por resíduos. No entanto, parte importante desse problema começa longe da faixa de areia.

A poluição que chega ao mar percorre um caminho anterior, formado por rios, córregos, redes de drenagem, estações de tratamento e efluentes lançados de forma inadequada.

Essa conexão é essencial para entender por que a proteção dos oceanos depende também da qualidade da água tratada em áreas urbanas, rurais e industriais. Quando resíduos domésticos, químicos, orgânicos ou industriais chegam aos rios sem tratamento adequado, eles seguem o fluxo natural das bacias hidrográficas até alcançar represas, estuários e zonas costeiras.

O resultado aparece em diferentes formas: aumento da carga orgânica, proliferação de algas, redução do oxigênio na água, contaminação por metais, presença de microplásticos e degradação de habitats marinhos. Por isso, discutir oceanos também exige falar sobre saneamento, controle de efluentes e tecnologias usadas para tornar a água mais segura antes do descarte ou do reuso.

O papel do tratamento de água no controle da poluição

O tratamento de água e efluentes é uma das etapas mais importantes para reduzir a pressão sobre rios e mares. Em sistemas bem estruturados, a água passa por processos físicos, químicos e biológicos capazes de remover partículas, matéria orgânica, microrganismos e substâncias que poderiam comprometer o ambiente.

No caso do abastecimento público, o tratamento busca tornar a água própria para consumo, seguindo padrões de potabilidade definidos pelas autoridades sanitárias. Já no tratamento de efluentes, o objetivo é reduzir a carga poluidora antes que a água retorne ao meio ambiente ou seja reaproveitada em atividades industriais, agrícolas ou operacionais.

Nesse contexto, produtos químicos coagulantes têm papel relevante. Eles ajudam a agrupar partículas muito pequenas que ficariam dispersas na água, facilitando sua remoção nas etapas seguintes, como decantação e filtração. Essa etapa é decisiva para melhorar a turbidez, reduzir impurezas e aumentar a eficiência do processo.

É nesse ponto que pode ser citado o policloreto de alumínio 10, utilizado em determinados sistemas de tratamento como agente coagulante. Sua aplicação deve ocorrer com controle técnico, dosagem adequada e acompanhamento de parâmetros como pH, turbidez, alcalinidade e características do efluente. O uso correto contribui para a remoção de sólidos suspensos e para a melhoria da qualidade da água tratada.

Efluentes industriais exigem controle rigoroso

A indústria tem participação importante nesse debate porque diversos segmentos geram efluentes com características específicas. Alimentos, bebidas, papel e celulose, mineração, química, têxtil, metalurgia e construção civil podem produzir águas residuais com alta carga orgânica, cor, óleos, graxas, sedimentos ou compostos químicos.

Quando esses efluentes não passam por tratamento adequado, o impacto ambiental pode ser expressivo. Rios contaminados perdem capacidade de autodepuração, a biodiversidade aquática é prejudicada e comunidades que dependem da água para pesca, lazer ou abastecimento ficam mais vulneráveis.

Por isso, o controle começa dentro das empresas. É necessário mapear os pontos de geração de efluentes, monitorar a qualidade da água descartada, manter estações de tratamento em funcionamento adequado e cumprir as normas ambientais aplicáveis. A adoção de tecnologias mais eficientes não deve ser vista apenas como obrigação regulatória, mas como parte da responsabilidade ambiental do negócio.

A prevenção começa antes do descarte

Reduzir a poluição dos oceanos exige uma abordagem preventiva. Isso significa evitar que resíduos cheguem aos rios, ampliar a coleta e o tratamento de esgoto, fiscalizar descartes irregulares, melhorar a gestão de resíduos sólidos e incentivar o reúso de água sempre que tecnicamente viável.

O tratamento não corrige todos os danos quando a contaminação já se espalhou pelo ambiente. Por isso, a prevenção é mais eficiente e menos custosa do que a recuperação de rios degradados ou ecossistemas marinhos afetados.

Também é importante considerar que a qualidade da água depende de decisões integradas. Poder público, empresas, produtores rurais e população têm responsabilidades diferentes, mas complementares. A destinação correta de resíduos, a manutenção de redes de esgoto, o controle de produtos químicos e a escolha de insumos adequados para tratamento fazem parte da mesma cadeia de proteção.

Proteger os oceanos é cuidar da água desde a origem

O Dia Mundial dos Oceanos reforça que o mar não começa apenas na praia. Ele recebe o reflexo do que acontece nas cidades, nas indústrias, nos rios e nos sistemas de saneamento. Cada efluente tratado corretamente representa menos carga poluidora seguindo em direção aos ecossistemas aquáticos.

Ao incluir o tratamento de água no centro dessa discussão, a data ganha um sentido mais amplo e prático. Cuidar dos oceanos passa por melhorar a infraestrutura de saneamento, modernizar processos industriais, adotar insumos adequados e ampliar o compromisso com a qualidade da água em todas as etapas do seu ciclo.

A proteção marinha, portanto, começa antes da chegada ao litoral. Ela começa na forma como a água é captada, usada, tratada e devolvida ao ambiente. (ecodebate)

Perda de água na distribuição abasteceria 77 milhões de pessoas no Brasil

O Brasil desperdiça cerca de 39,53% da água tratada durante a distribuição. Esse volume jogado fora equivale a abastecer 77 milhões de pessoas por ano, superando em mais de duas vezes a população brasileira que hoje vive sem acesso à água potável.

Os dados fazem parte do “Estudo de Perdas de Água” elaborado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a consultoria GO Associados.

Principais pontos do cenário de perdas:

• O Volume Desperdiçado: O desperdício diário equivale a cerca de 4,8 mil piscinas olímpicas ou 16,2 milhões de caixas d'água.

• Causas Principais: As perdas ocorrem por vazamentos nos canos, fraudes (os chamados "gatos") e erros de medição nos hidrômetros.

• Disparidade Regional: Os piores índices estão nas regiões Norte e Nordeste, onde o desperdício supera a marca de 55%.

• Metas de Melhoria: A meta oficial é reduzir o índice nacional de perdas para 25%. Se o país conseguir alcançar esse patamar economizará 2,8 bilhões de metros cúbicos de água, gerando uma grande economia de recursos.

Volume de água desperdiçado no Brasil seria suficiente para abastecer 77 milhões de pessoas, aponta estudo

Estudo do Instituto Trata Brasil aponta que, por dia, o país perde o equivalente a 16,2 milhões de caixas d’água.

• Esse volume perdido corresponde a mais de duas vezes o total de brasileiros sem acesso ao abastecimento de água (cerca de 33 milhões de pessoas) e a mais de um quarto da população do país em 2024;

• Reduzir as perdas totais dos atuais 39,53% para 25% economizaria 2,8 bilhões de m³ de água por ano, volume capaz de abastecer 17,2 milhões de brasileiros que vivem em comunidades vulneráveis por dois anos;

• O volume total de água referente às perdas físicas em 2024 (cerca de 4,4 bilhões de m³) é equivalente a 4,8 mil piscinas olímpicas de água desperdiçadas diariamente ou ao conteúdo de 16,2 milhões de caixas d’água para uma família de cinco pessoas desperdiçadas por dia;

• 12 dos 100 municípios mais populosos do Brasil atendem às metas de 25% em perdas na distribuição e 216 L/ligação/dia em perdas por ligação, entre eles as capitais Goiânia (GO), Teresina (PI) e Campo Grande (MS);

• Redução de perdas de água de 39,53% para 25% resultaria em ganhos de R$ 47,3 bilhões até 2033;

• A eficiência no controle é uma medida de adaptação climática que aumenta a disponibilidade hídrica e reduz a pressão sobre os mananciais;

O Instituto Trata Brasil (ITB), em parceria com a consultoria GO Associados, publica o “Estudo de Perdas de Água 2026 (SINISA, 2024): Desafios na Eficiência do Saneamento Básico no Brasil”, que traz o panorama do problema ambiental, econômico e social da ineficiência no controle de perdas de água em nosso país.

Em meio ao agravamento das mudanças climáticas e cerca de 33 milhões de habitantes sem acesso à água potável, o país desperdiça 39,53% da água tratada antes mesmo que ela chegue às torneiras das famílias. O estudo aponta que o volume de perdas físicas em 2024 (cerca de 4,4 bilhões de m³) equivale a 4,8 mil piscinas olímpicas desperdiçadas por dia. Para ter uma ideia do que isso representa, esse mesmo volume corresponde a 16,2 milhões de caixas d’água para uma família de cinco pessoas por dia ou a 4,5 vezes o volume do Sistema Cantareira ao longo de um ano.

O levantamento foi elaborado a partir de dados públicos do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA, ano-base 2024) e compreende uma análise do Brasil, de suas cinco macrorregiões, das 27 Unidades da Federação e dos 100 municípios mais populosos do país (incluindo as capitais dos estados), que figuraram no Ranking do Saneamento de 2026.

O que é perda de água?

No processo de abastecimento de água, podem ocorrer perdas por vários motivos, como vazamentos, erros de medição e consumos não autorizados. Esses desperdícios trazem impactos negativos ao meio ambiente, à receita e aos custos de produção das empresas, o que deixa mais caro o sistema como um todo, prejudicando, em última instância, todos os usuários.

Quadro 1 – Características dos Indicadores Analisados
GO Associados

Então o ideal seria termos zero de perdas de água? Apesar da resposta ser sim, de acordo com a literatura sobre o tema, não ter perdas no sistema é algo inviável por limites econômicos (em determinado ponto, o custo fica superior ao do volume recuperado) e limites técnicos (existe um volume mínimo de perdas dadas as tecnologias atuais de materiais, ferramentas e logística).

No Brasil, o Ministério das Cidades editou a Portaria MCID nº 788, de 1º de agosto de 2024 (Portaria 788/2024), revogando e substituindo a Portaria nº 490, de 22 de março de 2021 (Portaria 490/2021), anteriormente editada pelo então Ministério do Desenvolvimento Regional. A Portaria 788/2024 passou a estabelecer metas para os indicadores de perdas na distribuição e perdas por ligação. Segundo o normativo, os municípios beneficiados por recursos públicos federais ou financiamentos com recursos da União deverão apresentar indicadores iguais ou inferiores a:

1. 35% e 303,0 L/ligação/dia até 2025;

2. 30% e 263,0 L/ligação/dia entre 2026 e 2032;

3. 25% e 216,0 L/ligação/dia a partir de 2033.

Impacto das perdas de água no Brasil

Para entender o impacto do controle de perdas, considerando-se somente as perdas físicas (como, por exemplo, os vazamentos), o volume (cerca de 4,4 bilhões de m³) seria suficiente para abastecer aproximadamente 77 milhões de brasileiros em um ano. Esta quantidade não somente equivale a mais de um quarto da população do país em 2024, como também corresponde a mais de duas vezes o número de habitantes sem acesso ao abastecimento de água nesse ano, cuja grandeza situa-se em torno de 33 milhões.

Além disso, com esse mesmo volume, seria possível abastecer os 17,2 milhões de brasileiros que vivem em comunidades vulneráveis por dois anos. Ao meio ambiente, a redução dessas perdas implicaria a disponibilidade de mais recurso hídrico para a população sem a necessidade de captação de água em novos mananciais.

Com o cenário de mudanças climáticas, os desafios para a disponibilidade hídrica nos mananciais se tornam cada vez mais evidentes. As perdas reais afetam diretamente os custos de produção e a demanda por água. Neste sentido, um elevado nível destas perdas equivale a uma captação e a uma produção superior ao volume efetivamente demandado, gerando as seguintes ineficiências:

Quadro 2 – Impactos na produção de água e no meio ambiente das perdas de água

Desequilíbrios na produção de água

Desequilíbrios ambientais

- Maior custo dos insumos químicos, energia para bombeamento, entre outros fatores de produção

- Maior custo de manutenção da rede e de equipamentos

- Uso excessivo da capacidade de produção e de distribuição existente

- Maior custo oriundo da possível utilização de fontes de abastecimento alternativas de menor qualidade ou de difícil acesso

- Pressão excessiva sobre as fontes de abastecimento do recurso hídrico, uma vez que se capta mais água do que efetivamente chega à população

- Maior custo posterior para mitigação dos impactos negativos dessa atividade (externalidades)


Reduzir as perdas totais dos atuais 39,53% para 25% economizaria volume capaz de abastecer 17,2 milhões de brasileiros

Instituto Trata Brasil

Benefícios sociais com a redução de perdas

Quadro 3 a seguir aponta as principais estatísticas descritivas a partir da redução de perdas, desagregadas por estado. Ao se admitir não uma eliminação total das perdas, mas uma redução dos atuais 39,5% aos 25% previstos pela Portaria 788/2024, o volume economizado seria da ordem de 2,8 bilhão de m3. Isso equivale ao consumo médio de aproximadamente 48 milhões de brasileiros em um ano.

Cenário nacional de perdas nos últimos 5 anos

O indicador mais comumente utilizado para a análise geral de perdas no país é o Índice de Perdas na Distribuição, que busca estabelecer uma relação entre a água produzida e a água efetivamente consumida nas residências. Considerando os últimos cinco anos, o valor de 2024, de 39,53%, é ligeiramente menor que o de 2020, de 40,14%, ambos significativamente superior à meta de 25%.

Recorte por região

A situação de perdas no Brasil apresenta significativas diferenças quando se comparam suas diversas macrorregiões. É possível concluir que Norte e Nordeste são as mais carentes e que devem enfrentar os maiores desafios para reduzirem seus índices de perdas. Além disso, essas regiões também são aquelas que possuem os piores indicadores de atendimento de água, de coleta e de tratamento de esgotos.

De 2020 a 2024, a macrorregião que mais apresentou piora foi a Nordeste, com aumento de 0,46 ponto percentual. Por outro lado, observa-se melhora na macrorregião Norte, com redução de 1,79 pontos percentuais no mesmo período.

Recorte de indicadores por estado

A análise comparativa dos indicadores estaduais de perdas na distribuição evidencia a variação do desempenho entre as unidades federativas, identificando padrões regionais, diferenças estruturais entre os sistemas de abastecimento e potenciais implicações para a eficiência operacional dos prestadores. A leitura do indicador permite uma compreensão mais abrangente do estágio de controle de perdas no país.

A análise evidencia um padrão de maior ineficiência concentrado principalmente nas regiões Norte e Nordeste do país. Estados como Alagoas (66,90%), Roraima (65,97%), Pará (57,33%), Maranhão (56,68%), Acre (56,48%) e Sergipe (55,10%), apresentam níveis de perdas superiores a 55% do volume distribuído, significativamente acima da média nacional (39,53%).

Por outro lado, estados das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país, como Goiás (27,61%), Mato Grosso do Sul (30,60%), Distrito Federal (31,55%), São Paulo (32,15%), e Paraná (33,11%) registram indicadores inferiores a 35%. Neste indicador, merece destaque o estado do Piauí, que possui a menor média entre os estados (24,61%), e Tocantins, com a quinta menor média entre as unidades da federação para este indicador (31,58%).
Recorte para os 100 maiores municípios brasileiros

O indicador médio computado na amostra foi de 35,56% em 2024, o que representa uma piora em relação aos 31,09% computados em 2023. Dos 99 municípios considerados, apenas 20 possuem níveis de perdas na distribuição menores que 25%. Os dados mostram ainda que 14 municípios têm perdas na distribuição superiores a 50%.

É possível observar uma forte concentração dos melhores desempenhos nos estados do Sudeste, que concentram 12 dos 20 municípios com menores índices de perdas na distribuição. Municípios como Suzano (1,27%) e Santos (5,35%), apresentam níveis significativamente inferiores à média nacional.

Por outro lado, os municípios com piores resultados estão majoritariamente localizados nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para Parauapebas (PA), com 70,68%, e Maceió, com 64,05%. Além disso, outras cidades de diferentes regiões também apresentam perdas significativas, com destaque para Belo Horizonte, com 68,29% e Várzea Grande (MT), com 59,03%.

Municípios nos padrões de excelência

Conforme a já mencionada Portaria 788/2024, são considerados excelentes os municípios que contam com até 25% em perdas na distribuição e de 216 L/ligação/dia em perdas por ligação.

Somente doze dentre os 100 municípios mais populosos do Brasil atendiam às metas da Portaria 788/2024 simultaneamente em 2024, indicando haver um longo caminho a ser percorrido na busca pela redução das perdas de água.

Recorte para as capitais brasileiras

Apenas quatro das 27 capitais, Goiânia, São Paulo, Campo Grande e Teresina, apresentaram valores inferiores à meta de 25% estabelecida pela Portaria 788/2024. A média das capitais foi de 39,30%.

Estima-se que as capitais brasileiras percam anualmente cerca de 2,3 bilhões de m³ de água, dos quais aproximadamente 0,9 bilhão de m³ (40%) correspondam a perdas aparentes (comerciais), enquanto 1,4 bilhão de m³ (60%) refiram-se a perdas reais (físicas). Considerando-se apenas estas últimas, o v

Ganhos econômicos com a redução das perdas de água portável

Para calcular os ganhos econômicos ao país pela redução de perdas, o estudo apresentou uma análise de três cenários: o otimista, o realista e o pessimista. Cada um deles responde à média nacional do nível de perdas a ser alcançada em 2033: 15% (cenário otimista), 25% (cenário realista) e 35% (cenário pessimista).

Tomando como referência o Cenário Realista, é possível constatar que existe um potencial de ganhos brutos com a redução de perdas de água de R$ 47,3 bilhões até 2033. Caso sejam considerados os investimentos necessários para a redução de perdas, o benefício líquido gerado pela redução de perdas é da ordem de R$ 23,6 bilhões em 10 anos.
A melhor gestão e eficiência nos sistemas de distribuição estão diretamente ligadas à universalização do saneamento básico. Combater as perdas é, antes de tudo, garantir o acesso pleno à água para todos os brasileiros, proteger os mananciais e responder aos efeitos das mudanças climáticas com a infraestrutura que o país já tem, mas ainda desperdiça.

O estudo evidencia que as perdas de água permanecem em níveis elevados no país. Em 2024, as perdas na distribuição foram de 39,53%, enquanto as perdas por ligação foram de 349,09 L/dia/ligação, valores significativamente superior aos parâmetros de eficiência estabelecidos pela Portaria 788/2024, de 25% e 216 L/ligação/dia, respectivamente. As desigualdades regionais permanecem como um dos principais desafios para a universalização dos serviços de saneamento básico no Brasil, e as regiões Norte e Nordeste seguem concentrando os indicadores mais elevados de perdas de água.

Em uma realidade que já se faz presente, os efeitos das mudanças climáticas refletem em impactos diretos no acesso à água potável. A redução das perdas contribui para mitigar a necessidade de expansão de mananciais e aumenta a resiliência dos sistemas de abastecimento em um contexto de crescente pressão sobre os recursos hídricos. Além disso, menores níveis de perdas tendem a ampliar a sustentabilidade econômico-financeira dos prestadores, reduzindo pressões sobre tarifas futuras e liberando recursos para investimentos em expansão, manutenção e melhoria dos serviços.

Para tanto, é necessário priorizar essa agenda com a implementação de programas que unam eficiência e inovação e, consequentemente, acelerar o ritmo dos investimentos para que o Brasil atinja a meta de 25% em perdas na distribuição até 2033, conforme previsto pela Portaria 788/2024.

“Seguimos perdendo, a cada ano, água suficiente para abastecer populações inteiras, enquanto milhões de brasileiros ainda não têm acesso a esse recurso básico e essencial para a vida. Estamos falando de um volume capaz de atender 77 milhões de habitantes, número que representa mais de duas vezes a quantidade de pessoas sem acesso ao abastecimento de água no país. São casas que ficam sem abastecimento, rios que secam uma sobrecarga em todo o sistema de distribuição que recai, inevitavelmente, sobre os habitantes. Reduzir perdas de água é uma escolha de gestão que impacta diretamente a qualidade de vida da população e a saúde dos nossos mananciais, especialmente em um cenário em que as mudanças climáticas já pressionam a disponibilidade hídrica e tornam a eficiência no uso da água ainda mais urgente. Em um ano eleitoral, esse debate precisa chegar às propostas de saneamento integrado, porque não há universalização possível sem eficiência na distribuição da água que já produzimos”. – Analisa Luana Pretto, Presidente-Executiva do Trata Brasil.

“A redução das perdas de água deixou de ser apenas uma agenda de eficiência operacional no setor de saneamento básico e passou a ocupar um papel estratégico na adaptação climática dos municípios. Em um contexto internacional em que parte do setor privado e de governos tem abandonado compromissos ambientais, torna-se ainda mais importante fortalecer políticas públicas capazes de conciliar a expansão do atendimento às populações ainda sem acesso ao abastecimento de água e aos serviços de coleta e tratamento de esgotos com segurança hídrica e preservação ambiental. Nesse sentido, reduzir perdas significa utilizar de forma mais racional a água já captada e tratada, diminuindo a pressão sobre os mananciais, reduzindo custos operacionais e aumentando a resiliência dos sistemas de abastecimento frente a eventos climáticos extremos”. – Declara Gesner Oliveira, Sócio Executivo da GO Associados. (ecodebate)

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Não existe plano B e a Terra é única casa que temos

Enquanto multibilionários deliram com rotas de fuga para o espaço, os ecossistemas que sustentam toda a vida na Terra estão sendo destruídos em tempo real. E não há resgate chegando.
A ideia de colonizar Marte como plano B para o colapso ambiental é uma fantasia perigosa. O nosso único futuro ainda é e sempre será aqui na Terra.

Deixa eu te fazer uma pergunta simples, dessas que a gente evita fazer em voz alta porque a resposta incomoda demais: para onde você acha que vai quando a Terra não puder mais nos sustentar?

Marte? A Lua? Uma estação espacial flutuando no vácuo?

Se essa ideia passou pela sua cabeça ou se você já viu alguém defender isso com seriedade preciso que a gente tenha uma conversa honesta. Porque tem uma narrativa perigosa, embalada em otimismo tecnológico e financiada por fortunas inimagináveis, que merece ser desmontada com calma, mas sem rodeios.

O espaço não é um plano B. É só espaço.

O espaço é vácuo. Radiação. Temperaturas que variam de -270°C a +120°C dependendo de onde você está e se tem sol ou não. Não tem ar. Não tem água. Não tem solo. Não tem absolutamente nada do que qualquer forma de vida conhecida precisa para existir.

A Lua, nossa vizinha mais próxima, a apenas 384 mil quilômetros de distância, não tem atmosfera, não tem campo magnético para proteger da radiação solar e tem uma temperatura superficial que pode chegar a +127°C durante o dia e -173°C à noite.

Marte, o grande sonho dos bilionários do momento, é um deserto gelado com uma atmosfera tão fina que equivale a menos de 1% da pressão que temos aqui em baixo. É composta principalmente de dióxido de carbono. O solo marciano está saturado de percloratos, compostos tóxicos que destruiriam células humanas. A radiação cósmica chega à superfície sem filtro. Tempestades de poeira duram meses e cobrem o planeta inteiro.

Não existe um único ecossistema funcionando em nenhum desses lugares. Não existe um único organismo vivo confirmado. Não existe água líquida acessível. Não existe nada que nos receba.

E alguém quer ir para lá fugindo de um planeta que ainda tem florestas, rios, oceanos e ar respirável. Não é apenas um delírio, mas a mais absoluta insanidade.

A lógica ilógica

Pense bem na lógica que está embutida na ideia de “colonizar Marte como alternativa ao colapso da Terra”.

Primeiro, ela pressupõe que haverá transporte. Que foguetes, que hoje ainda explodem com regularidade nos testes, vão escalar a ponto de transportar populações inteiras para outro planeta. Só em 2025, 3s voos da Starship terminaram em explosão. Três. E cada missão bem-sucedida a Marte leva cerca de sete meses de viagem em micro gravidade, com exposição à radiação que compromete ossos, músculos e sistema imunológico.

Segundo, ela pressupõe que haverá infraestrutura lá. Que alguém terá construído, antes da chegada dos refugiados planetários, estruturas capazes de gerar ar, água, alimento e calor suficientes para sustentar vida humana em larga escala. Em Marte. Com os recursos disponíveis em Marte, que são basicamente areia tóxica e CO2.

Terceiro e aqui está o ponto mais honesto de todos, ela pressupõe que você estará nessa lista. Você, eu, as oito bilhões de pessoas que vivem no planeta hoje. Os quilombolas do Pará. Os pescadores do Nordeste. Os agricultores familiares do Sul. Os povos indígenas da Amazônia.

Se alguma coisa dessa fantasia bilionária se materializasse, seria uma saída para um grupo minúsculo e ultra seleto. Uma colônia de elite num bunker vermelho a 225 milhões de quilômetros de distância, enquanto o resto da humanidade ficaria aqui tentando sobreviver num planeta degradado.

O filme “Não Olhe Para Cima” (Don’t Look Up, 2021), por enquanto de ficção, ilustra muito bem como funcionaria uma ‘evacuação’ dos ricos e poderosos.

Riqueza não existe num planeta morto

Tem uma contradição no coração de toda essa conversa que raramente é colocada de forma direta: de nada adianta ter bilhões de dólares se não há um planeta funcionando para sustentar a cadeia produtiva que gera esses bilhões.

Riqueza é uma abstração social. Ela existe enquanto existem pessoas, trabalho, recursos naturais, alimentos, infraestrutura. Um planeta com ecossistemas em colapso não produz safras. Não produz água potável. Não produz o oxigênio que você respira. Não produz nada que possa ser convertido em moeda ou ativo financeiro.

A riqueza dos mais ricos do mundo depende, em última instância, da mesma biosfera que os mais pobres dependem. A diferença é que os ricos têm mais tempo, mais acesso a soluções paliativas, como bunkers, filtros de ar, água engarrafada, propriedades em altitudes seguras. Mas é um adiamento, não uma solução.

Num planeta morto, nenhuma conta bancária tem valor. Nenhuma ação na bolsa tem valor. Nenhuma propriedade tem valor. É o colapso do único sistema que importa, o ecológico.
Onde estamos de verdade?

Aqui é importante ser preciso para não cair no alarmismo vazio, que paralisa tanto quanto a negação.

Ainda não chegamos ao ponto de colapso. Ainda não ultrapassamos todos os pontos de não retorno. Ainda existem florestas. Ainda existem rios. Ainda existem ecossistemas funcionando. E isso importa porque significa que ainda há margem para agir.

Mas estamos nos aproximando de limiares críticos com uma velocidade que os dados mais recentes tornam cada vez mais difícil de ignorar. A perda de biodiversidade deixou de ser um fenômeno localizado para se tornar um processo sistêmico. Anfíbios, os animais mais sensíveis às alterações ambientais, uma espécie de termômetro da saúde dos ecossistemas, estão apresentando quedas populacionais rápidas e contínuas em todo o mundo. Aquíferos estão sendo esgotados. O solo agrícola está sendo degradado. A temperatura média do planeta segue subindo.

O cientista Carlos Nobre, um dos maiores especialistas mundiais no clima da Amazônia, tem repetido que o planeta está “quase em colapso”. Não é catastrofismo. É leitura de dados.

E enquanto isso, a conversa pública em muitos espaços ainda gira em torno de se as mudanças climáticas são reais. Estamos, coletivamente, perdendo um tempo que não temos.

O delírio que custa muito caro

Não é inocente a narrativa de que existe um plano B espacial. Ela tem consequências reais.

Ela desloca atenção e recursos. Cada bilhão investido em foguetes que explodem poderia financiar reflorestamento, transição energética, pesquisa em regeneração de solos, proteção de aquíferos, desenvolvimento de tecnologias de adaptação para populações vulneráveis.

Ela cria uma ilusão de saída que desobriga. Se existe uma solução tecnológica mágica no horizonte, seja colonizar Marte, seja alguma geoengenharia mirabolante, fica psicologicamente mais fácil não mudar o presente. É o mesmo mecanismo cognitivo que leva pessoas a não fazer checkups médicos porque “a medicina vai avançar”. Só que aqui as apostas são a biosfera inteira.

E ela concentra poder e narrativa. Quando o debate sobre o futuro da humanidade é travado nos termos propostos por um punhado de multibilionários, cujo interesse imediato não é necessariamente alinhar com o do restante dos 8 bilhões de nós, alguma coisa no processo democrático de decidir coletivamente esse futuro está profundamente quebrada.
Não existe um “plano B” para o planeta Terra

O que precisamos não é de foguetes

Precisamos de algo muito mais difícil e muito menos cinematográfico do que colonizar outro planeta.

Precisamos de decisões políticas que efetivamente limitem a destruição dos ecossistemas. De sistemas econômicos que não dependam do consumo infinito de recursos finitos. De distribuição mais justa dos recursos existentes, o que reduziria a pressão sobre os mais vulneráveis e sobre a própria natureza. De ciência aplicada à regeneração de florestas, de solos, de populações de espécies ameaçadas. De cidades que funcionem de forma mais integrada com os ciclos naturais ao redor delas.

Isso não é poesia. É engenharia. É política. É economia. É o tipo de trabalho que não rende manchete de capa com foguete em chamas ao fundo, mas que é o único que efetivamente muda alguma coisa.

Nosso futuro continua aqui. Não como resignação, mas como o reconhecimento mais lúcido que a gente pode ter: este é o único planeta com as condições para nos sustentar, e ele ainda tem condições de seguir fazendo isso se a gente parar, agora, de fazer o que estamos fazendo.

Não existe evacuação planejada. Não existe frota de resgate vindo. Não existe Planeta B.

Existe este aqui, ainda vivo, ainda possível. E existe o que a gente decide fazer com ele. (ecodebate)

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