quinta-feira, 9 de abril de 2026

O envelhecimento da população e o despreparo das cidades

O envelhecimento populacional rápido no Brasil, impulsionado pelo aumento da expectativa de vida e queda da natalidade, encontra cidades despreparadas, caracterizadas por calçadas precárias, transporte público inadequado e falta de acessibilidade. O urbanismo focado na produtividade gera exclusão, isolamento e insegurança para idosos, tornando urgente um planejamento urbano centrado no cuidado.

Principais Desafios do Despreparo Urbano:

Mobilidade e Segurança: Vias públicas com calçadas esburacadas e iluminação insuficiente aumentam o risco de quedas, vistas não como acidentes, mas como falhas estruturais.

Inacessibilidade: Dificuldade de acesso a edifícios, parques e transporte, limitando a autonomia e promovendo o confinamento doméstico.

Desigualdade Espacial: As periferias sofrem com menor infraestrutura e serviços, gerando disparidades extremas na qualidade de vida e longevidade.

Invisibilidade Social: O planejamento atual raramente reconhece o envelhecimento como questão central, resultando em solidão e dependência.

Necessidades para Cidades Amigas do Idoso:

Adaptação do Espaço: Adoção de calçadas amplas, rampas, faixas de pedestres acessíveis e iluminação reforçada.

Política Pública Inclusiva: Incorporação de diretrizes nos Planos Diretores focadas na terceira idade, com exemplos como as iniciativas da OMS.

Foco na Participação: Criação de espaços de convivência e participação social para evitar o isolamento.

Gestão da Saúde: Ações de saúde integradas ao ambiente urbano para promover envelhecimento ativo.

O envelhecimento não é um problema, mas a falta de preparo das cidades transforma a velhice em um desafio de dignidade.
A maneira como uma cidade trata sua população idosa diz muito sobre seu grau de justiça, inteligência social e maturidade democrática

Reinaldo Dias

Articulista do EcoDebate, é Doutor em Ciências Sociais – Unicamp; Especialista em Ciências Ambientais – USF; Pesquisador associado do CPDI do IBRACHINA/IBRAWORK; http://lattes.cnpq.br/5937396816014363; reinaldias@gmail.com

No Brasil, envelhecer ainda significa, para muitas pessoas, conviver com desrespeito, preconceito, invisibilidade e, em não poucos casos, violência. O etarismo, entendido como discriminação contra pessoas idosas, continua presente em diferentes dimensões da vida social. Ele aparece quando a palavra do idoso deixa de ser considerada dentro da própria família, quando sua autonomia é reduzida, quando seus direitos são tratados como incômodo e quando a violência física, patrimonial ou psicológica passa a fazer parte de sua rotina. Em muitos casos, as agressões ocorrem no ambiente familiar; em outros, surgem nas ruas, em roubos, ataques ou situações de extrema brutalidade que revelam o grau de vulnerabilidade a que essa parcela da população está exposta.

Problema também se expressa no cotidiano das cidades. Ele aparece no ônibus lotado em que o assento reservado não é cedido, na vaga de estacionamento ocupada indevidamente, na hostilidade enfrentada por quem reivindica um direito previsto em lei e na precariedade de políticas públicas que muitas vezes reduzem a velhice a iniciativas superficiais e insuficientes. Em vez de reconhecer que o envelhecimento da população representa uma das mudanças sociais mais importantes do nosso tempo, muitas cidades ainda respondem a essa realidade com improviso, desconhecimento ou simples omissão. É nesse contexto que o despreparo urbano diante da velhice deixa de ser um problema secundário e passa a revelar uma falha mais profunda na forma como a sociedade trata sua população idosa.
Introdução

O envelhecimento da população figura entre as transformações sociais mais importantes do século XXI, e no Brasil esse processo já se impõe como realidade concreta. O número de pessoas com 60 anos ou mais passou de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024, enquanto o Censo 2022 registrou forte crescimento do contingente idoso e expressiva elevação do índice de envelhecimento. Já a expectativa de vida ao nascer, de acordo com as Tábuas Completas de Mortalidade do IBGE, alcançou 76,6 anos em 2024. Está em curso, portanto, uma mudança profunda na estrutura social brasileira, com consequências diretas para a moradia, a mobilidade, os serviços públicos, os vínculos comunitários e o próprio desenho das cidades.

As cidades brasileiras, contudo, não acompanharam essa transformação com a mesma velocidade. Em grande medida, continuam organizadas segundo uma lógica que privilegia produtividade, rapidez, longos deslocamentos e elevada exigência física. O modelo urbano dominante parece ainda voltado a um cidadão idealizado, autônomo, saudável, permanentemente apto a suportar escadas, calçadas ruins, transporte precário e serviços distantes. Nesse quadro, a velhice deixa de ser reconhecida como dimensão central da vida urbana e passa a ser tratada como questão lateral, quase sempre remetida à família, à assistência social ou aos serviços de saúde.

A dificuldade central não está no envelhecimento em si, mas na forma como ele expõe os limites de um urbanismo que não incorporou a velhice como parte constitutiva do planejamento. À medida que a população envelhece, tornam-se mais visíveis carências já existentes, sobretudo quando a idade passa a exigir mais segurança, mais proximidade, mais tempo e mais apoio no cotidiano. O despreparo das cidades, por isso, não se resume a atraso administrativo ou deficiência técnica. Ele revela prioridades históricas que deixaram em segundo plano a autonomia, o cuidado, a acessibilidade e a dignidade de quem envelhece.

Onde os velhos não têm dinheiro: brasileiro está vivendo mais e poupando menos

A nova realidade demográfica e o atraso das cidades

O Brasil deixou para trás, em ritmo acelerado, o perfil de um país majoritariamente jovem. A queda da fecundidade, o aumento da longevidade e a ampliação do contingente idoso vêm redefinindo significativamente a composição etária da população. O Censo 2022 mostrou que o número de pessoas com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em doze anos, alcançando cerca de 22,2 milhões, o equivalente a 10,9% da população. Considerando a faixa de 60 anos ou mais, o índice de envelhecimento chegou a 80 idosos para cada 100 crianças de 0 a 14 anos, quando em 2010 esse índice era de 44,8. Em estados como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, o número de idosos já supera o de crianças.

As projeções oficiais indicam que esse movimento seguirá se aprofundando nas próximas décadas. Entre 2000 e 2023, a participação das pessoas com 60 anos ou mais quase dobrou no país, passando de 8,7% para 15,6%, e as estimativas apontam continuidade dessa tendência. Em escala global, a OMS também situa o envelhecimento como uma das marcas estruturantes do século, vinculando-o à urbanização e à necessidade de reorganizar ambientes e serviços para responder a essa nova realidade. Não se trata, portanto, de uma mudança marginal ou passageira, mas de um deslocamento de época que afeta profundamente a organização da vida coletiva.

Seria razoável esperar que um processo dessa magnitude já tivesse levado a uma revisão profunda das prioridades urbanas. O que se vê, no entanto, é a permanência de cidades desenhadas sob pressupostos de outra realidade demográfica. Persistem bairros dispersos, forte dependência de automóvel, transporte coletivo desconfortável, concentração de serviços em pontos distantes, calçadas inseguras, poucos espaços de descanso e moradias pouco adaptáveis. Em vez de reorganizar o território à luz da nova composição etária da população, o poder público responde de forma lenta, fragmentada e frequentemente superficial.

Essa defasagem mostra que o envelhecimento ainda não alcançou a centralidade política que deveria ter. Continua a ser tratado como tema setorial, quando na verdade atravessa o funcionamento da cidade em sua totalidade. À medida que cresce a proporção de pessoas idosas, muda a relação entre a pessoa idosa e o espaço urbano, entre moradia e bairro, entre deslocamento e tempo, entre autonomia e cuidado. Quando a cidade ignora essa transformação, amplia dependências, riscos e formas de exclusão que poderiam ser atenuadas por meio de planejamento, regulação e investimento público.
O despreparo urbano no cotidiano, na moradia e na vida de bairro

A inadequação das cidades se manifesta com nitidez na experiência cotidiana. Ela se faz sentir na calçada quebrada, no degrau inesperado, no tempo de travessia insuficiente para quem caminha devagar, no ponto de ônibus sem proteção, na ausência de bancos, na iluminação insuficiente, na sinalização confusa e na distância excessiva entre os serviços básicos. À medida que a cidade é organizada sem levar em conta a diversidade das condições físicas, dos ritmos e das limitações funcionais, envelhecer passa a significar enfrentar uma sequência de obstáculos que podem parecer banais à primeira vista, mas que produzem desgaste real e contínuo

Os dados disponíveis mostram que essa inadequação está longe de ser pontual. O Censo 2022 identificou que, embora grande parte da população urbana more em vias com calçada, dois em cada três brasileiros vivem em ruas sem rampa para cadeirantes, e a presença de pontos de ônibus no trecho observado das vias também é reduzida. Esses números são importantes porque deixam claro que a existência formal de calçada não garante circulação segura. Buracos, desníveis, ausência de rampas, obstáculos e falta de continuidade transformam o deslocamento em experiência de risco para pessoas idosas e para todos aqueles que convivem com mobilidade reduzida.

O desenho dominante da cidade continua a favorecer velocidade, fluxo e compressão do tempo. A condição física implicitamente tomada como referência é a de quem corre, sobe escadas, atravessa rápido, suporta lotação e percorre distâncias longas sem grandes dificuldades. Quem depende de mais tempo, mais segurança e maior proximidade se vê progressivamente deslocado para uma condição de uso restrito da cidade. Sair de casa deixa de ser gesto banal e passa a exigir cálculo, energia e cautela, de modo que a autonomia se reduz não por escolha, mas pela acumulação de barreiras que tornam a vida urbana mais cansativa e mais insegura.

As dificuldades não se encerram, porém, no espaço da rua. A moradia e a relação com o bairro também se tornam decisivas na forma como a velhice é vivida. Para a população idosa, a casa deixa de ser apenas abrigo e passa a concentrar uma experiência cotidiana em que segurança, conforto e conexão com o entorno adquirem maior peso. Casas com escadas difíceis, pisos escorregadios, banheiros inseguros, iluminação insuficiente e barreiras internas transformam atividades simples em tarefas arriscadas ou exaustivas. Quando o bairro também falha, com ausência de comércio próximo, transporte inadequado, unidade de saúde distante e espaços públicos pouco acolhedores, a vida cotidiana se torna ainda mais limitada.

Nessas condições, a moradia deixa de funcionar como base de autonomia e passa a operar, muitas vezes, como confinamento silencioso. A pessoa sai menos, encontra menos gente, depende mais de familiares ou vizinhos e perde parte de sua participação na vida coletiva. A restrição não atinge apenas o deslocamento físico. Ela afeta o pertencimento, a sociabilidade e a própria experiência de habitar a cidade. O que se reduz não é só a mobilidade, mas o mundo vivido.

A transformação dos arranjos domiciliares no Brasil torna essa questão ainda mais sensível. O Censo 2022 mostrou que as unidades domésticas unipessoais triplicaram entre 2000 e 2022, passando de 4,1 milhões para 13,6 milhões. Entre as mulheres que moram sozinhas, a presença de idosas é particularmente expressiva. Isso significa que uma parte importante da velhice brasileira depende de forma ainda mais intensa da qualidade do bairro, das redes de vizinhança e da oferta pública de apoio. Quando esses elementos são frágeis, a solidão e a retração dos vínculos deixam de ser apenas condição subjetiva e passam a ser reforçadas pela própria organização da cidade.

Durante muito tempo, o bairro funcionou como extensão da moradia. Era o lugar do pequeno comércio, da ida à farmácia, da praça, da conversa cotidiana, da convivência difusa e do reconhecimento mútuo. Em muitas cidades, essa experiência foi se enfraquecendo em razão da dispersão urbana, da insegurança, da desigualdade espacial e da perda de vitalidade do espaço público. Para a velhice, as consequências são severas, porque envelhecer no próprio território depende em grande medida de um entorno caminhável, minimamente acolhedor e capaz de sustentar rotinas de proximidade.

O ordenamento jurídico brasileiro já reconhece parte dessas exigências. O Estatuto da Pessoa Idosa estabelece parâmetros importantes para a adaptação das cidades ao envelhecimento. No campo da habitação, o art. 38 prevê prioridade da pessoa idosa em programas habitacionais públicos ou subsidiados, além da implantação de equipamentos urbanos comunitários voltados a esse grupo e da eliminação de barreiras arquitetônicas e urbanísticas para garantir acessibilidade. No campo da mobilidade, os arts. 39 a 42 asseguram gratuidade no transporte coletivo urbano e semiurbano para maiores de 65 anos, reserva de assentos, prioridade e segurança no embarque e desembarque, além de vagas de estacionamento em condições de melhor comodidade. A distância entre esses direitos e a realidade concreta das cidades mostra que o despreparo urbano não contrasta apenas com uma demanda social crescente, mas também com garantias legais já estabelecidas.
Desigualdade social e territorial no envelhecimento urbano

A velhice urbana não pode ser tratada como experiência homogênea, porque as cidades são profundamente desiguais e o envelhecimento também o é. Envelhecer com renda estável, moradia adequada, acesso a serviços próximos e possibilidade de recorrer a soluções privadas é muito diferente de envelhecer em periferias mal servidas de infraestrutura, transporte e equipamentos públicos. O envelhecimento populacional precisa, por isso, ser compreendido à luz da desigualdade social e territorial que estrutura a vida urbana brasileira.

Esse ponto se torna ainda mais relevante porque o Brasil envelhece sendo um país amplamente urbanizado e profundamente desigual. A maior parte da população vive em áreas urbanas, mas o direito à cidade permanece distribuído de forma extremamente desigual. Em áreas mais valorizadas, costuma haver melhor conservação do espaço urbano, maior presença de serviços, maior segurança e trajetos mais confortáveis. Já em bairros populares e periferias, onde a precariedade da infraestrutura é mais intensa, uma rua mal iluminada, uma calçada ruim, a longa distância até o posto de saúde ou um transporte coletivo desconfortável produzem restrições muito maiores à autonomia cotidiana.

A situação se agrava quando se consideram a vulnerabilidade habitacional e os contextos de informalidade urbana. Milhões de brasileiros vivem em favelas e comunidades urbanas marcadas por infraestrutura insuficiente, maior exposição a riscos ambientais, acesso desigual a serviços e mobilidade difícil. Envelhecer nesses territórios tende a ser mais penoso, porque o corpo envelhecido precisa negociar diariamente com barreiras que já eram severas para a população em geral. A velhice, em tais condições, não se soma simplesmente à desigualdade existente. Ela a aprofunda e a torna mais visível.

A desigualdade de renda também não pode ser dissociada desse quadro. Quem passou a vida em ocupações precárias, com baixa remuneração, moradia inadequada e acesso limitado a direitos chega à velhice carregando os efeitos acumulados desse percurso. A velhice não começa subitamente aos 60 anos. Ela é moldada por condições materiais e sociais que se sedimentam ao longo da existência. As fragilidades associadas ao envelhecimento, portanto, não decorrem apenas da idade, mas da combinação entre trajetória de vida e organização desigual do espaço urbano. Cidades despreparadas, em vez de corrigirem essas desigualdades, frequentemente as reforçam.

A dimensão de gênero também pesa fortemente nesse processo. As mulheres vivem mais do que os homens no Brasil, o que faz da velhice uma experiência marcadamente feminina. Mas essa maior longevidade não significa maior proteção. Muitas mulheres chegam à velhice após trajetórias marcadas por informalidade, rendimentos mais baixos, trabalho doméstico não remunerado e forte sobrecarga de cuidado. A presença expressiva de mulheres idosas vivendo sozinhas torna esse quadro ainda mais sensível, sobretudo em territórios pobres, onde vulnerabilidade econômica, solidão e menor proteção material tendem a se combinar de forma mais intensa.

A cidade distribui proteção e exposição, conforto e desgaste, autonomia e dependência de modo profundamente desigual. Algumas pessoas envelhecem com mais liberdade e mais suporte, enquanto outras envelhecem em negociação permanente com a precariedade. Essa diferença não pode ser naturalizada, porque ela decorre de escolhas urbanas, de prioridades públicas e da forma como o espaço foi historicamente produzido.
Envelhecimento da população brasileira coloca em debate os desafios do cuidado

O cuidado como questão urbana e política

A compreensão do cuidado como assunto quase exclusivamente doméstico, familiar ou sanitário é insuficiente para enfrentar o envelhecimento urbano. O cuidado também se organiza na cidade, nas distâncias entre moradia e serviços, na qualidade das calçadas, na segurança das travessias, na oferta de transporte acessível, na existência de bancos para descanso, na proximidade entre comércio, saúde e residência, na presença de espaços públicos acolhedores e na possibilidade real de circular sem medo.

Quando a cidade é hostil, o cuidado se torna mais pesado, mais caro e mais desgastante. As famílias passam a compensar aquilo que o espaço urbano não oferece, acompanhando deslocamentos, contornando barreiras, reorganizando rotinas e assumindo tarefas de apoio contínuo. Essa transferência silenciosa de responsabilidades não é neutra, porque recai de forma desproporcional sobre mulheres, sobre famílias de menor renda e sobre redes informais já sobrecarregadas. Em vez de enfrentar estruturalmente o problema, o poder público frequentemente naturaliza a ideia de que a velhice será sustentada por arranjos privados, como se o território e a infraestrutura urbana fossem fatores secundários.

Uma abordagem mais consistente exige reconhecer que autonomia e dignidade não dependem apenas da condição física ou do apoio familiar, mas também do modo como a cidade reduz ou multiplica barreiras. Uma pessoa idosa pode manter independência por mais tempo quando vive em bairro com serviços próximos, transporte confiável, espaço público acessível e moradia minimamente adaptável. Quando esses elementos faltam, dependências que poderiam ser adiadas ou atenuadas se instalam mais cedo. O problema, portanto, não está apenas em responder à fragilidade já instalada, mas em organizar a cidade de modo a não ampliar vulnerabilidades que poderiam ser evitadas.

Essa mudança de perspectiva também altera o próprio sentido da política urbana. Durante muito tempo, planejar a cidade significou priorizar circulação de veículos, expansão imobiliária, grandes obras e fluxos econômicos. O envelhecimento da população mostra o quanto essa agenda é incompleta. Sem incorporar o cuidado em seu desenho, a cidade amplia desigualdades, restringe a presença de parte de seus moradores no espaço público e reforça formas de invisibilidade social. Incorporar o cuidado ao planejamento não significa adotar postura assistencialista, mas reconhecer a vida urbana real, atravessada por interdependência, fragilidade e necessidade de apoio em diferentes momentos da existência.
Cidades precisam se adaptar para garantir um envelhecimento ativo, saudável e independente.

As grandes cidades e o envelhecimento: desafios para a qualidade de vida dos idosos em um Brasil diverso.

Brasil, com sua urbanização desigual, é um exemplo de como a experiência de envelhecer varia drasticamente conforme o perfil socioeconômico e cultural.

Uma cidade preparada para envelhecer

Uma cidade preparada para envelhecer não é uma cidade desenhada apenas para idosos. Ela reconhece que a vida urbana real é feita de ritmos diversos, capacidades distintas e necessidades de apoio que atravessam todo o curso da vida. Essa compreensão foi sendo consolidada internacionalmente pela própria Organização Mundial da Saúde, que publicou, em 2007, o Guia Global das Cidades Amigas das Pessoas Idosas, associando urbanização e envelhecimento populacional e sistematizando princípios para tornar os ambientes urbanos mais adequados à longevidade. Em 2010, a OMS instituiu a Global Network for Age - friendly Cities and Communities (Rede Global de Cidades e Comunidades Amigas da Pessoa Idosa), criada para apoiar governos locais e comunidades na adaptação de seus territórios ao envelhecimento.

A dimensão que essa rede alcançou mostra que o tema já dispõe de um referencial internacional consolidado. Segundo a OPAS, em página vinculada à Década do Envelhecimento Saudável nas Américas, a rede reúne atualmente 1.500 cidades e comunidades em 51 países, abrangendo mais de 300 milhões de pessoas. A adaptação das cidades ao envelhecimento deixou, assim, de ser formulação marginal ou retórica. Trata-se de uma agenda internacional em expansão, com capilaridade territorial e crescente adesão institucional, o que torna ainda mais evidente o contraste com a lentidão de muitas cidades brasileiras diante desse desafio.

Os materiais da OMS que orientam essa agenda incluem entre suas dimensões centrais os espaços públicos e edifícios, o transporte, a moradia, a participação social, o respeito e a inclusão social, a participação cívica e o trabalho, a comunicação e informação e o apoio comunitário e os serviços de saúde. O envelhecimento urbano não é tratado, portanto, como questão restrita à assistência ou à medicina, mas como problema que atravessa o desenho do espaço urbano, a organização dos serviços e a qualidade dos vínculos sociais. Esse referencial reforça a necessidade de uma reorganização mais ampla das prioridades urbanas.

Uma cidade preparada para envelhecer precisa oferecer acessibilidade real, e não apenas formal, com calçadas seguras, travessias adequadas, mobiliário urbano suficiente, sinalização legível e edifícios públicos sem barreiras. Precisa também sustentar relações de proximidade, de modo que bairros sejam capazes de oferecer comércio, farmácia, unidade de saúde, áreas de convivência e serviços essenciais a distâncias razoáveis. Moradias mais adaptáveis, espaços públicos bem cuidados e políticas voltadas à redução do isolamento social também compõem esse esforço. O repertório formulado pela OMS e pela OPAS mostra que não se trata de uma lista arbitrária de boas intenções, mas de um conjunto de diretrizes já testado e difundido internacionalmente.

A participação das pessoas idosas também integra essa perspectiva. Uma cidade preparada para envelhecer não as trata apenas como destinatárias de proteção. Ela as reconhece como sujeitos de experiência, opinião e direito à presença, o que implica incluí-las nas decisões sobre mobilidade, segurança, bairro, serviços e uso do espaço público. O fortalecimento dos vínculos comunitários, da participação e do pertencimento aparece de forma consistente nos marcos internacionais dessa agenda, que associam envelhecimento saudável não apenas à redução de riscos, mas à possibilidade de continuar participando da vida urbana em condições dignas.

Os benefícios de uma cidade mais preparada para o envelhecimento não se restringem à população idosa. Crianças, pessoas com deficiência, gestantes, doentes e qualquer pessoa que, em algum momento da vida, precise de mais segurança, mais apoio, mais tempo e mais proximidade também são favorecidos. Adaptar a cidade ao envelhecimento significa, em última instância, rever a própria ideia de cidade e ajustá-la a uma transformação demográfica que já está em curso.
Conclusão

O envelhecimento da população não representa, por si só, um problema. O problema está no fato de que as cidades continuam, em larga medida, despreparadas para acolher essa nova realidade. Ao privilegiar velocidade, produtividade e circulação intensa, o urbanismo dominante deixa em segundo plano a autonomia, a convivência, a proximidade e o cuidado. Desse modo, a velhice é frequentemente empurrada para a invisibilidade, para o confinamento doméstico ou para formas evitáveis de dependência.

As insuficiências urbanas não aparecem apenas na ausência de adaptações pontuais. Elas se expressam na desigualdade do espaço urbano, na precariedade das periferias, na perda da vida de bairro, na sobrecarga das famílias e na dificuldade de reconhecer o envelhecimento como questão central de planejamento. A maneira como uma cidade trata sua população idosa diz muito sobre seu grau de justiça, inteligência social e maturidade democrática.

Preparar a cidade para envelhecer não significa responder a uma demanda lateral ou setorial. Significa reconhecer que o direito à cidade só se realiza de forma plena quando alcança também aqueles que precisam de mais tempo, mais apoio, mais segurança e mais dignidade para viver. (ecodebate)

terça-feira, 7 de abril de 2026

Crise climática está acelerando

A crise climática está acelerando. E daí?
Crise climática: ciência busca soluções para um futuro sustentável

A crise climática está acelerando rapidamente, com 2025 registrando recordes de temperatura e concentração de CO2. Especialistas alertam que o aquecimento global superou a meta de 1,5°C do Acordo de Paris, com riscos de atingir 2°C ou mais até 2045, causando eventos extremos mais frequentes e severos, derretimento acelerado de geleiras e desequilíbrio energético oceânico.

Pontos-chave da aceleração:

Emissões e Gases: A concentração de CO2 atingiu 422,8 ppm em 2024, com um salto recorde anual de 3,4 ppm, impulsionado por combustíveis fósseis.

Calor Extremo: A última década (2015-2025) foi a mais quente já registrada, e 2025 atingiu 1,43°C acima dos níveis pré-industriais.

Oceanos e Gelo: Mais de 90% do excesso de calor é absorvido pelos oceanos, resultando em branqueamento de corais e elevação do nível do mar.

Impacto no Brasil: Aumento da vulnerabilidade econômica, com riscos para agricultura e geração hidrelétrica devido a mudanças no regime de chuvas e erosão costeira.

Consequências Imediatas e Futuras:

Eventos Extremos: Secas, enchentes, furacões e ondas de calor ocorrem com maior intensidade.

Insegurança: Milhões de pessoas enfrentam riscos de fome e deslocamento populacional.

Ação Urgente: A ONU reforça que a demora em reduzir emissões é fatal e os efeitos serão sentidos por séculos.

ONU alerta que a crise climática se acelera após redução nos confinamentos da pandemia

Recordes de temperatura, oceanos superaquecidos, geleiras desaparecendo e enchentes ao lado de secas. Os ‘termômetros’ não mentem e os números têm um recado urgente para todos nós

Existe uma cena fácil de lembrar. Em abril de 2024, Dubai, uma cidade construída no deserto, onde a média anual de chuva não passa de 90 milímetros, afogou. Em menos de 24 horas, caiu o equivalente a quase três anos de precipitação. Ruas viram rios. O maior aeroporto do Oriente Médio parou.

No mesmo ano, do outro lado do Atlântico, os rios da bacia amazônica registravam a pior seca em 122 anos. Barcos encalhados, comunidades isoladas, peixes mortos boiando em lagos que estavam evaporando.

Dois extremos. O mesmo planeta. O mesmo problema.

Esses episódios não são coincidências e tampouco são anomalias passageiras. Eles são sintomas e os dados científicos de 2024 e 2025 deixaram isso mais claro do que nunca.

Se você ainda tem dúvidas sobre o que está acontecendo com o clima da Terra, este texto pode ser útil. Vou tentar explicar sem catastrofismo paralisante, mas também sem suavizar o que precisa ser dito.

O ‘cobertor’ que engrossou demais

Antes de qualquer dado, um conceito básico que faz tudo se encaixar: o efeito estufa.

Certos gases na atmosfera funcionam como um ‘cobertor’ ao redor da Terra. Deixam entrar a energia do Sol, mas retêm parte do calor que seria irradiado de volta para o espaço. Sem esse mecanismo, nosso planeta seria cerca de 30°C mais frio e inabitável como o conhecemos. O efeito estufa, em si, é um presente da natureza.

O problema é o que estamos fazendo com esse cobertor desde a Revolução Industrial: engrossando-o em uma velocidade sem precedentes na história geológica do planeta.

Queima de petróleo, carvão e gás. Desmatamento em larga escala. Criação industrial de gado. Aterros sanitários. Cada uma dessas atividades despeja na atmosfera quantidades crescentes de dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxido nitroso (N₂O), os chamados gases de efeito estufa.

O resultado aparece nos números com uma clareza que intimida. Antes da industrialização, a concentração de CO₂ na atmosfera era de 278 partes por milhão. Em 2024, chegou a 422,8 ppm, um aumento de 52% em menos de três séculos. E o ritmo não está desacelerando: está acelerando. Na década de 1960, essa concentração subia 0,6 ppm por ano. Entre 2011 e 2020, a média foi de 2,4 ppm. De 2023 para 2024, o salto foi de 3,4 ppm, o maior já registrado em toda a série histórica.

Pense numa banheira. As emissões humanas são a torneira aberta. As florestas e os oceanos são o ralo. Hoje, estamos colocando água muito mais rápido do que o ralo consegue escoar e a banheira está transbordando.
Gráfico: Concentrações mensais de CO2 de observações até 2024 (preto) e um cenário consistente com a limitação do aquecimento global a 1,5°C (roxo). Também é mostrada a previsão do Met Office para 2025. Observações são o recorde de Keeling Curve em Mauna Loa, da Scripps Institution for Oceanography, UC San Diego, que começou em março de 1958. A partir de 2024, os valores mensais são calculados a partir das concentrações médias anuais no cenário C1-IMP-SP, com um ciclo sazonal ilustrativo imposto que continua a amplitude observada nos últimos anos.

2024, o ano em que cruzamos a linha vermelha

O Acordo de Paris, firmado em 2015, estabeleceu como meta crítica limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Era o limite a partir do qual os cientistas projetavam consequências difíceis de reverter.

Em 2024, esse limite foi ultrapassado pela primeira vez em um único ano. O aquecimento registrado foi de 1,52°C, sendo 1,36°C diretamente atribuído às atividades humanas.

Tecnicamente, a meta do Acordo de Paris se refere a uma média de longo prazo, não a um ano isolado. Então não, ainda não “falhamos” formalmente. Mas a analogia que me parece mais honesta é a do painel do carro no vermelho: o motor não fundiu ainda, mas está operando no limite perigoso e o ponteiro não para de subir.

A narrativa de que “vai esfriar quando o El Niño acabar” não se sustentou. Mesmo com sinais de transição para a La Niña, fenômeno que normalmente resfria os oceanos, janeiro de 2025 foi o mês mais quente já registrado na história, com temperaturas 1,75°C acima das do final do século XIX.

Os oceanos estão pagando nossa conta

Se a Terra ainda não está ainda mais quente, você pode agradecer aos oceanos. Eles absorvem mais de 90% do excesso de calor gerado pelos gases de efeito estufa e capturam cerca de 30% de todo o CO2 que emitimos. São o maior amortecedor climático do planeta.

E estão exaustos.

Em 2024, o conteúdo de calor dos oceanos atingiu níveis recordes. A temperatura média da superfície oceânica chegou ao inédito de 20,87°C. Em 2023, cerca de 91% da superfície dos mares sofreu pelo menos uma onda de calor marinha, destruindo recifes de coral e perturbando ecossistemas inteiros, que levaram milênios para se formar.

O nível do mar, por sua vez, bateu recorde pelo 13º ano consecutivo. A taxa de elevação quase dobrou nas últimas décadas: de 2,1 mm por ano no início dos anos 1990 para 4,1 mm ao ano entre 2016 e 2025. Isso acontece por dois motivos simultâneos: a água se expande quando aquece e as geleiras estão derretendo, acrescentando volume ao mar.

Há ainda um terceiro problema, mais silencioso e talvez mais assustador a longo prazo: a acidificação. O CO₂ absorvido pelos oceanos se transforma em ácido carbônico, tornando a água progressivamente mais ácida. Isso corrói as conchas de moluscos, os esqueletos dos corais e desequilibra toda a cadeia alimentar marinha. É o tipo de mudança que não vira manchete, mas pode reconfigurar a vida no mar por séculos ou milênios.
As temperaturas dos oceanos também estavam entre as mais altas já registradas em 2025, refletindo o acúmulo de calor a longo prazo dentro do sistema climático.

De 2024-2025, o teor global de calor oceânico de 2000 m (OHC) aumentou em 23 ± 8 Zettajoules em relação a 2024, de acordo com o estudo liderado por Lijing Cheng com o Instituto de Física Atmosférica da Academia Chinesa de Ciências. Isso é cerca de 200 vezes a geração total de eletricidade do mundo em 2024.

Regionalmente, cerca de 33% da área oceânica global ficou entre suas condições históricas (1958-2025) entre as três condições mais quentes, enquanto cerca de 57% caíram entre as cinco principais, incluindo o Oceano Atlântico tropical e sul, o Mar Mediterrâneo, o Oceano Índico do Norte e os Oceanos Antárticos, ressaltando o amplo aquecimento oceânico através das bacias.

O estudo descobriu que a temperatura média global da superfície do mar (SST) em 2025 foi de 0,49°C acima da linha de base de 1981-2010 e 0,12 ± 0,03°C menor do que em 2024, consistente com o desenvolvimento das condições de La Niña, mas ainda classificando como o terceiro ano mais quente já registrado.

As geleiras que não voltam mais

Há algo profundamente perturbador em perder uma geleira. Essas formações de gelo levaram dezenas de milhares de anos para se constituir. Em 2024, a Venezuela e a Colômbia viram as suas últimas desaparecerem.

No mesmo ano, todas as 58 geleiras monitoradas no mundo perderam massa, a maior perda registrada em 55 anos. No ártico, 2024 foi o segundo ano mais quente em 125 anos de registros.

Além do impacto simbólico, há uma consequência física muito concreta: cada pedaço de gelo que desaparece acelera o aquecimento. O gelo branco reflete a energia solar de volta para o espaço, é o chamado efeito albedo. Sem ele, o oceano escuro absorve mais calor, que derrete mais gelo, que absorve mais calor. Um ciclo que, uma vez iniciado, não tem botão de pausa.

Chuva demais e água de menos, ao mesmo tempo

Esse é, talvez, o paradoxo mais difícil de comunicar sobre a crise climática: ela pode criar seca e enchente no mesmo país, quase ao mesmo tempo.

Um planeta mais quente evapora mais água. Uma atmosfera mais quente retém mais vapor. O ciclo hidrológico fica supercarregado e profundamente irregular. Em 2024, a atmosfera continha a maior quantidade de vapor d’água já registrada. As chuvas se tornaram mais intensas, mas também mais concentradas em eventos extremos.

No Brasil, isso ficou dolorosamente evidente: enquanto os rios amazônicos viviam a pior seca em mais de um século, o Rio Grande do Sul enfrentava enchentes históricas que deixaram rastros de destruição e luto. Dois extremos do mesmo problema, no mesmo país, separados por poucos meses.

A água, elemento mais fundamental à vida, se tornou um claro exemplo dos efeitos da crise climática.

E agora, o que fazemos?

Aqui chego ao ponto que mais me incomoda escrever, porque a resposta honesta é que precisamos fazer muito mais do que estamos fazendo.

Na COP30, realizada em Belém, os governos não conseguiram chegar a um acordo vinculante sobre novas medidas para reduzir emissões. A geopolítica estava tensa. Os Estados Unidos, sob nova liderança, reverteram seus compromissos climáticos e saíram novamente do Acordo de Paris no primeiro dia do novo governo.

Com base nos planos climáticos nacionais atualmente em vigor, o aquecimento global pode atingir cerca de 3,2°C até o final deste século. Mais que o dobro do limite considerado seguro.

A única saída física é fechar a torneira e atingir emissões líquidas zero de CO2. Não em 2100. Não em 2070. O quanto antes.
Metano: o gás invisível que acelera a crise climática

Isso não é catastrofismo. É o que os dados repetem, com paciência científica, há décadas.

Mas também não é uma sentença de morte. Cada decisão importa agora, de governos, de empresas, de indivíduos, de uma forma que não importava há cinquenta anos. Nunca tantas escolhas de tantas pessoas, tomadas agora, tiveram tanto peso sobre o futuro.

A Terra tem febre. Os termômetros estão aí. A questão que fica é o que escolhemos fazer enquanto ainda há tempo. (ecodebate)

domingo, 5 de abril de 2026

Determinantes da transição da fecundidade no Brasil

A transição da fecundidade no Brasil, caracterizada pela queda rápida do número de filhos por mulher desde os anos 60, é impulsionada principalmente pela maior inserção feminina no mercado de trabalho, urbanização acelerada, aumento da escolaridade e acesso a métodos contraceptivos. O alto custo de vida urbano e o planejamento familiar também são fatores chave.

Principais Determinantes da Queda da Fecundidade no Brasil:

Participação Feminina no Mercado de Trabalho: É apontada como o fator mais determinante. A busca por carreira profissional e independência financeira fez com que muitas mulheres adiassem ou decidissem ter menos filhos.

Urbanização e Custo de Vida: A transferência da população rural para as cidades modificou o papel dos filhos, que deixaram de ser mão de obra familiar e passaram a representar um alto custo de criação (habitação, educação).

Avanço da Escolaridade Feminina: Mulheres mais escolarizadas tendem a se casar mais tarde e a planejar melhor o tamanho da família, optando por menos descendentes.

Acesso a Métodos Contraceptivos e Informação: A difusão de anticoncepcionais, avanços científicos e o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) no planejamento familiar permitiram maior controle sobre a reprodução.

Mudanças Culturais e Sociais: Valorização da autonomia pessoal, estabilidade emocional e a redefinição do conceito tradicional de família, focando mais na qualidade de vida.

Dinâmica da Transição:

Velocidade: O Brasil passou por essa transição de forma muito mais rápida que a média mundial, assemelhando-se atualmente a padrões de países desenvolvidos.

Perfil da Queda: A fecundidade de mulheres mais jovens diminuiu, enquanto o número de nascimentos entre mulheres mais velhas (postergação) e casos de gravidez na adolescência, embora caindo no geral, ainda mostram disparidades.

Impactos: Essa queda resulta em um envelhecimento populacional acelerado e traz desafios para os sistemas previdenciários e a força de trabalho.
A transição da fecundidade é um fenômeno que veio para ficar. Isto significou famílias menores, menor crescimento demográfico e mudança da estrutura etária

Na maior parte da história brasileira, as taxas de mortalidade e fecundidade eram elevadas. Mas diversos desenvolvimentos na produção de bens e serviços, no avanço da medicina e saneamento básico, aumento da urbanização e dos níveis de escolaridade possibilitaram que as taxas de mortalidade começassem a cair no final do século XIX e continuassem caindo no século XX. Contudo, a Taxa de Fecundidade Total (TFT), na média nacional, só começou a cair a partir da década de 1970.

O gráfico abaixo, mostra que a TFT do Brasil estava acima de 6 filhos por mulher entre 1940 e 1960, caiu para 5,8 filhos em 1970, para 4,4 filhos em 1980, para 2,9 filhos em 1991, para 2,3 filhos em 2000, para 1,9 filho em 2010 e 1,55 filho por mulher em 2022. As regiões Norte e Nordeste tinham TFT acima da média nacional e as regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste abaixo da média nacional.

Entre 1940 e 1970, havia divergência nas taxas de fecundidade regionais, pois a diferença na TFT das regiões Norte e Nordeste era de 1,5 filho em 1940, passou para 2,5 filhos em 1950, para 2,3 filhos em 1960 e para 3,6 filhos em 1970. Mas a partir da década de 1970 passou a haver convergência na transição da fecundidade entre as diversas regiões brasileiras. Como mostra o gráfico, todas as regiões convergiram para taxas próximas de 1,55 filhos, sendo que as diferenças regionais em 2022 ficaram no máximo em 0,5 filho. Isto quer dizer que a transição da fecundidade no Brasil é um fenômeno comum em todo o território nacional.

De fato, a transição da fecundidade no Brasil ocorreu em um quadro de profundas transformações econômicas, sociais e institucionais que tiveram efeito no século passado, mas especialmente na segunda metade do século XX. Em 1930 houve uma Revolução que rompeu com o modelo econômico primário-exportador, característico da República Velha (1889-1930). No primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945) foram implementadas as primeiras políticas sociais e trabalhistas brasileiras. Depois de um breve interregno fora do poder, Getúlio Vargas ganhou as eleições de 1950 e deu início a uma política nacionalista visando a acelerar o desenvolvimento econômico do Brasil.

Mas foi no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), com o Plano de Metas, que o Brasil entrou em uma fase de acelerada urbanização e industrialização. O golpe militar de 1964 deu início a uma série de governos autoritários que aprofundaram o processo de integração internacional da economia brasileira, reforçando as tendências rumo a uma economia urbano-industrial, mas com profundas desigualdades sociais e regionais. A junção das mudanças estruturais, que já vinham ocorrendo desde 1930, com as mudanças institucionais implantadas na segunda metade dos anos 60, foi decisiva para a transição da fecundidade no Brasil.

Existem várias abordagens teóricas para explicar este processo. A abordagem da proletarização dá ênfase ao efeito das mudanças estruturais sobre o tamanho da família. Segundo Carvalho, Paiva e Sawyer (1981) e Paiva (1985) o tipo de estrutura produtiva do sistema primário-exportador e da economia de subsistência estimulavam as altas taxas de fecundidade que eram viabilizadas por um padrão de casamento precoce sem o uso generalizado de métodos contraceptivos. O processo de proletarização provocou a desestabilização do regime de alta fecundidade no Brasil através de mudanças que ocorreram em três níveis: 1) monetarização da economia; 2) ampliação e diversificação do cesto de consumo através da inclusão de bens industrializados; 3) destruição da economia de base familiar (subsistência) e expansão e homogeneização do mercado de trabalho assalariado.

A abordagem de Faria (1989) busca relacionar o declínio da fecundidade a processos de mudança institucional associados às políticas públicas promovidas pelo Governo Federal depois de 1964. Quatro políticas foram estratégicas para o aumento da demanda por regulação e a consequente redução da fecundidade no Brasil: 1) política de crédito ao consumidor; 2) política de telecomunicações; 3) política de previdência social; 4) política de atenção à saúde. Usando um arcabouço próprio dos enfoques culturais, o autor considera que as políticas públicas influenciaram na queda da fecundidade agindo como vetores institucionais (difusão) portadores de novos conteúdos de consciência (inovação). A queda da fecundidade foi uma consequência não antecipada da ação governamental. O efeito perverso desse processo foi que, apesar das pressões para uma maior regulação da fecundidade incidir sobre a população pobre, a oferta de meios contraceptivos se deu através do mercado, isto é, a altos custos monetários, portanto, fora do alcance do poder aquisitivo das camadas populares.
A abordagem de Merrick e Berquó (1983) considera que o declínio da fecundidade que já vinha ocorrendo entre as camadas sociais com maiores níveis de renda e educação se aprofundou nos anos 70, com a difusão dos meios de limitação da família para grupos e regiões de baixa renda. Os autores relacionam os seguintes fatores socioeconômicos que contribuíram com a queda da fecundidade: 1) aumento dos níveis educacionais e redução do analfabetismo, principalmente entre as mulheres; 2) aumento da taxa de participação feminina no mercado de trabalho; 3) mudança no padrão de consumo através da inclusão de bens de consumo duráveis e crescimento das expectativas de consumo entre os grupos de baixa renda.

A abordagem de Alves (1994) mostra que os determinantes estruturais e institucionais afetam os níveis de fecundidade na medida em que influenciam a relação entre as gerações e entre os gêneros, considera, também, que as abordagens anteriores não são excludentes, mas apontam para diversas facetas de um processo complexo e multifacetado de mudança no padrão reprodutivo. Com base em Caldwell (1982), o autor argumenta que houve uma reversão do fluxo intergeracional de riqueza entre pais e filhos no Brasil. Concomitantemente, as mudanças nas relações de gênero reforçaram a transição de altos a baixos níveis de fecundidade. Particularmente importantes foram o crescimento dos níveis educacionais das mulheres e o aumento da participação feminina no mercado de trabalho, especialmente em empregos formais, com contribuição à previdência social.

Estas quatro abordagens fornecem os instrumentos teóricos capazes de explicar os dados empíricos da transição da fecundidade no Brasil, na região Sudeste e no Estado do Rio de Janeiro. Não é de se estranhar que a região Sudeste tenha apresentado as menores taxas de fecundidade, pois foi também a região que liderou o processo de transformações estruturais e institucionais do país, apresentando maiores níveis de urbanização, industrialização, assalariamento, diversificação do consumo e incorporação da mulher na escola e no mercado de trabalho formal.

Dentro da região Sudeste, o estado do Rio de Janeiro esteve à frente do chamado processo de modernização e, consequentemente, esteve à frente do processo de transição da fecundidade. Até 1960, as TFTs do Rio de Janeiro eram cerca de 10% menores que as de São Paulo e estavam bastante abaixo das taxas de Minas Gerais e Espírito Santo. A partir dos anos 60, começou um processo geral de redução do número de filhos e as taxas de fecundidade dos quatro estados convergiram para o nível de reposição (2,1 filhos por mulher) no ano 2000. Entre 2000 e 2010 a convergência foi geral e todas as regiões apresentam taxas abaixo do nível de reposição

A transição da fecundidade é um fenômeno que veio para ficar. Isto significou famílias menores, menor crescimento demográfico e mudança da estrutura etária. Entre as décadas de 1970 e 2020 o Brasil viveu o 1º bônus demográfico que foi fundamental para o aumento da renda per capita e para a redução da pobreza no país.
Brasil atinge a menor taxa de fecundidade da história, diz IBGE.

Mas no restante do século XXI, o Brasil vai aprofundar o fenômeno do envelhecimento populacional e do decrescimento do número de habitantes. Esta nova dinâmica demográfica trará desafios e oportunidades. Se o Brasil souber aproveitar o 2º bônus demográfico (da produtividade) e o 3º bônus demográfico (da longevidade) poderá garantir uma maior qualidade de vida social e ambiental para as gerações futuras. (ecodebate)

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Restauração de 1,67 milhão de hectares na Mata Atlântica na última década

Pesquisa revela restauração de 1,67 milhão de hectares na Mata Atlântica na última década.
Uma pesquisa recente revelou a restauração de 1,67 milhão de hectares de floresta nativa na Mata Atlântica entre os anos de 2011 e 2021, representando cerca de 4% da cobertura atual do bioma. A regeneração, impulsionada por processos naturais e conservação, concentrou-se em Minas Gerais, Paraná, Bahia e São Paulo, frequentemente em "mosaicos de uso" (áreas mistas de lavoura e floresta).

Destaques da Pesquisa:

Regeneração Natural: O estudo aponta que boa parte desse ganho ocorreu por regeneração espontânea, evidenciando a capacidade de resiliência da Mata Atlântica.

Papel dos Pequenos Produtores: 45% da área total recuperada está em terras privadas, com pequenos produtores rurais tendo um papel fundamental na recuperação, especialmente em áreas de encostas e bordas de rios, informa o SOS Mata Atlântica.

Principais Estados: Os estados de Minas Gerais (26,4%), Paraná (18,6%), Bahia (12,9%) e São Paulo (12,7%) concentraram o maior índice de restauração, afirma o EcoDebate.

Risco e Desafio: Apesar da área restaurada, o estudo alerta que a "perda de áreas jovens" — onde a vegetação volta a ser desmatada após iniciar a regeneração — ameaça os resultados, exigindo proteção permanente.

Impacto Econômico e Ambiental: A restauração é considerada uma estratégia de baixo custo e alta eficiência para o sequestro de carbono e conservação da biodiversidade, destaca o VEJA.

O estudo foi conduzido por pesquisadores do Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) da Estratégia Mata Atlântica, em parceria com a UFSCar, TNC e Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, utilizando dados do MapBiomas, aponta a Agência FAPESP e o nossacidade.online.

Um estudo publicado no periódico científico Perspectives in Ecology and Conservation revela que a Mata Atlântica registrou avanço significativo na restauração florestal na última década.

Entre 2011 e 2021, cerca de 1,67 milhão de hectares de florestas nativas foram recuperados no bioma, segundo análise baseada em dados da iniciativa MapBiomas.

O processo de recuperação foi muito mais intenso nos estados de Minas Gerais (26,4%), Paraná (18,6%), Bahia (12,9%) e São Paulo (12,7%). Embora o mapeamento não diferencie áreas que passaram por regeneração natural daquelas que receberam ações de restauração ativa, os pesquisadores indicam que a maior parte do crescimento da cobertura florestal ocorreu por processos naturais.

Segundo Vinicius Tonetti, primeiro autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado no Centro de Ciência para o Desenvolvimento “Estratégia Mata Atlântica”, os resultados demonstram que a recuperação da Mata Atlântica em larga escala é possível. “Os dados mostram que restaurar a Mata Atlântica é um caminho viável e necessário para proteger a biodiversidade e enfrentar as mudanças climáticas, mesmo em paisagens com intensa atividade produtiva”, afirma. O Centro recebe apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp; processo nº 2021/11940-0), está sediado no Campus Lagoa do Sino da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e tem o professor Paulo Guilherme Molin, do Centro de Ciências da Natureza (CCN), como pesquisador responsável.

A pesquisa também aponta que 75,2% do aumento da cobertura florestal ocorreu em áreas classificadas como “mosaicos de uso”, regiões onde há mistura de pequenas lavouras, pastagens e vegetação em regeneração. Esses locais frequentemente incluem pastagens abandonadas ou pouco produtivas, que podem se recuperar naturalmente quando as condições ambientais são favoráveis.

Apesar dos avanços, os pesquisadores alertam que nem toda floresta regenerada permanece preservada ao longo do tempo. A análise mostra que 568 mil hectares de áreas que haviam se recuperado deixaram de existir até 2023, último ano considerado no levantamento. Para Tonetti, o dado reforça a necessidade de políticas públicas e incentivos para garantir a permanência dessas áreas. “O trabalho de restauração não termina quando a floresta começa a crescer. É fundamental proteger as florestas jovens para que elas se consolidem e continuem oferecendo benefícios ambientais”, explica.

Entre as medidas apontadas como estratégicas estão pagamentos por serviços ambientais, fiscalização ambiental e políticas específicas para a proteção de florestas secundárias, que são áreas importantes para a conservação da biodiversidade, o armazenamento de carbono e a regulação do ciclo da água.
O estudo também destaca o papel da regeneração natural como uma estratégia eficiente e de menor custo para recuperar grandes áreas.

Segundo Tonetti, esse processo depende fortemente da atuação da fauna. “Muitas espécies de árvores tropicais têm sementes dispersas por aves e mamíferos frugívoros. Esses animais transportam e espalham as sementes pela paisagem, favorecendo a regeneração das florestas”, afirma. Em pesquisa anterior desenvolvida durante seu doutorado, Tonetti já havia demonstrado a importância desses animais para a recuperação em larga escala da Mata Atlântica.

Ao todo, a pesquisa reuniu 16 cientistas de 14 instituições, entre universidades, organizações não governamentais e coletivos de restauração. Todos os autores integram o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, iniciativa que articula diferentes atores para promover a recuperação do bioma em larga escala, com benefícios ambientais, sociais e econômicos. O estudo está disponível para leitura na íntegra na plataforma ScienceDirect (em https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2530064425000598). (ecodebate)

Mudanças climáticas reduzem a produção de alimentos

As mudanças climáticas reduzem a produção global de alimentos através de secas, inundações e calor extremo, comprometendo safras de grãos e a pecuária. Estudo indica que um aumento de 1ºC na temperatura global reduz a produção em cerca de 120 kcal por pessoa/dia. Essa queda na oferta aumenta a inflação de alimentos e a insegurança alimentar global.

Principais Impactos na Produção de Alimentos:

Eventos Extremos: Secas severas e inundações devastam plantações, como milho e arroz, além de secar rios importantes para a agricultura.

Perda de Produtividade: O calor excessivo diminui a eficiência produtiva do rebanho em até 15% e o aumento da acidez dos oceanos coloca em risco a produção de alimentos marinhos.

Impacto Econômico: A menor oferta de alimentos resulta no aumento dos preços, elevando o custo de vida e gerando inflação na cesta básica.

Qualidade Nutricional: Concentrações elevadas de CO2 podem reduzir o teor de ferro e zinco em grãos e vegetais, como batata e mandioca.

Áreas de Cultivo: A mudança no regime de chuvas torna inaptas algumas regiões tradicionais de cultivo, forçando a busca por novas áreas adaptáveis.

Contexto Brasileiro:

A agropecuária brasileira é um dos setores mais afetados, enfrentando secas no Rio Grande do Sul e na Amazônia. A crise climática é um dos principais fatores para o aumento da insegurança alimentar, com 20 países da América Latina em risco. Estudo da Embrapa sugere que a mandioca é uma das culturas mais resilientes a esses estresses.

O ciclo de retroalimentação climática já reduz as colheitas, aumentando os preços e agravando a fome global

A agricultura é simultaneamente causa e vítima da crise climática

A relação da humanidade com a terra tornou-se perigosamente autodestrutiva. O setor agroalimentar é responsável por quase um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, o que o torna um dos principais contribuintes para a crise que agora ameaça o seu futuro.

Calor extremo, inundações catastróficas e secas prolongadas, intensificados por décadas de emissões agrícolas, estão agora afetando os campos que produzem nossos alimentos. O ciclo vicioso está completo e suas consequências já são sentidas nos números das colheitas, nos preços dos alimentos e nas estatísticas de fome em todo o mundo.

Queda na produtividade está acontecendo agora

Isso não é mais um alerta sobre um futuro distante. Um estudo publicado na revista Nature, baseado em observações de mais de 12.000 regiões em 55 países e analisando culturas que fornecem dois terços das calorias da humanidade, oferece o panorama mais abrangente até o momento sobre a dimensão do problema.

Levando em conta a adaptação realista por parte dos agricultores, os pesquisadores estimam que a produção global de calorias provenientes de culturas básicas, em um futuro com altas emissões, será 24% menor em 2100 do que seria sem as mudanças climáticas.

Essa trajetória já está em curso. As mudanças climáticas já representam um impacto negativo líquido na produção agrícola e estima-se que, entre 1980 e 2008, a produção global de milho tenha diminuído em 3,8% e a de trigo em 5,5%. Cada fração de um ponto percentual representa milhões de toneladas de alimentos e riscos para incontáveis vidas.

Em um mundo 3º mais quente, a matemática se torna alarmante. Perder um quarto da capacidade de produção de culturas básicas equivale, em termos nutricionais, a retirar uma refeição por dia de cada pessoa no planeta.

Quem perde mais?

Os danos não são distribuídos igualmente e aí reside um desafio moral. Regiões do Canadá, da China e da Rússia podem se beneficiar do aquecimento global em termos de produtividade agrícola, enquanto as perdas mais acentuadas são projetadas nos principais celeiros agrícolas e nas comunidades de agricultura de subsistência, com perdas de produtividade que podem chegar a uma média de 41% nas regiões agrícolas mais ricas e 28% nas regiões de menor renda até 2100.

Os países de baixa e média renda suportarão grande parte do fardo, com a maior parte do aumento da fome concentrada na África Subsaariana. Os pequenos produtores, que constituem a maioria dos produtores agrícolas nessas nações, enfrentam redução na produção agrícola, com graves consequências para seus meios de subsistência.

Na África, os níveis de fome aumentaram em todo o continente, exceto na África Oriental, com mais de uma em cada cinco pessoas enfrentando agora fome crônica, um número que acarreta graves implicações para a estabilidade regional.

Além das calorias, a qualidade nutricional também está em declínio, com reduções documentadas no teor de proteínas e minerais essenciais em culturas básicas cultivadas sob níveis elevados de CO2 atmosférico.

Água, solo e o ciclo de retroalimentação

A escassez de água agrava todos os outros desafios. Prevê-se que a seca se alastre por mais de 80% das terras agrícolas do mundo até 2050. O calor extremo acelera a degradação do solo por meio da erosão e da perda de nutrientes, e as consequências vão além da perda de produtividade.

Solos degradados armazenam menos carbono e exigem mais fertilizantes químicos, cuja aplicação libera óxido nitroso, que é um gás de efeito estufa aproximadamente 300 vezes mais potente que o CO2. A crise do solo não apenas reduz a produtividade; ela agrava ativamente o aquecimento que causa a crise em primeiro lugar.

O que antes eram choques climáticos isolados agora se tornaram rotina, colocando em risco as colheitas agrícolas e, em última análise, elevando os preços dos alimentos. Prevê-se que, até 2050, as mudanças climáticas aumentarão os preços globais das commodities em até 18%, e até 78 milhões de pessoas a mais poderão enfrentar a fome crônica como consequência.

Ciência, políticas públicas e inclusão

As soluções existem. O que falta é a velocidade e a escala da sua implementação.

Redução da emissão de gases estufa e descarbonização da economia. Além da transição energética, justa e inclusiva, também são prioritárias a redução do consumo de combustíveis fósseis, a eliminação do desmatamento e a recuperação e renaturalização de áreas degradadas

Adoção da agroecologia em substituição da produção agroindustrial. A agroecologia é uma abordagem integrada simultaneamente que aplica conceitos e princípios ecológicos e sociais ao design e manejo de sistemas alimentares e agrícolas, agindo para otimizar as interações entre plantas, animais, seres humanos e meio ambiente, levando em conta os aspectos sociais que devem ser abordados para um sistema alimentar sustentável e equitativo.

A agricultura de precisão está entre as fronteiras mais promissoras. Variedades de culturas resistentes ao clima já estão sendo testadas em regiões propensas à seca. A produção agrivoltaica, definida como o uso duplo da terra para agricultura e geração de energia solar, oferece um modelo para produzir alimentos e energia limpa simultaneamente, reduzindo tanto a pressão sobre a terra quanto as emissões.

Modelos sustentáveis de manejo da água e do solo, incluindo o plantio direto e a cobertura morta direcionada para reduzir a evaporação, podem preservar a estrutura do solo e reduzir drasticamente o consumo de água. A melhoria da infraestrutura de irrigação, principalmente no Sul Global, é essencial para que os pequenos agricultores se mantenham produtivos em uma era de chuvas cada vez mais imprevisíveis.

A diversificação de culturas e a fixação de nitrogênio, integrando culturas perenes e plantas fixadoras de nitrogênio em rotações de culturas, reduzem a dependência de fertilizantes químicos e aumentam a resiliência do solo a longo prazo, diminuindo as emissões que causam o problema e, ao mesmo tempo, melhorando a produtividade.

Políticas públicas e inclusão são igualmente indispensáveis. Políticas agrícolas resilientes ao clima precisam ser direcionadas para abordar os contextos políticos locais e nacionais, os fatores culturais e sociais e as condições agroecológicas, a fim de serem eficazes e inclusivas. Os governos devem desmantelar ativamente as barreiras socioeconômicas que impedem os pequenos agricultores e, em particular, as mulheres, as comunidades indígenas e os produtores de subsistência, de acessar tecnologias resilientes ao clima. O conhecimento ecológico tradicional, acumulado ao longo de gerações, deve ser valorizado e integrado às estratégias de adaptação, em vez de ser ignorado.

Os gastos globais com agricultura aumentaram em 2024, mas os gastos em outros setores aumentaram proporcionalmente, o que significa que a participação da agricultura no investimento permaneceu estagnada em 2,3%. Isso é insuficiente para a escala de transformação necessária.

A urgência não pode ser subestimada

O abastecimento de alimentos já está sendo afetado. Uma perda de 5% ou 10% na produtividade agrícola pode parecer abstrata em uma planilha, mas, na prática, se traduz em centenas de milhões de pessoas enfrentando fome, preços mais altos dos alimentos e pobreza ainda mais profunda.

A adaptação não é mais uma opção a ser ponderada em relação ao custo da ação; é uma condição essencial para a sobrevivência.

Decisões e ações atuais definirão os resultados nos próximos anos, determinando se as gerações futuras ainda terão comida suficiente. (ecodebate)

O envelhecimento da população e o despreparo das cidades

O envelhecimento populacional rápido no Brasil, impulsionado pelo aumento da expectativa de vida e queda da natalidade, encontra cidades des...