Meio Ambiente
O entendimento vem de acordo com o nível cultural e intelectual de cada pessoa. A aprendizagem, o conhecimento e a sabedoria surgem da necessidade, da vontade e da perseverança de agregar novos valores aos antigos já existentes.
quinta-feira, 9 de julho de 2026
terça-feira, 7 de julho de 2026
Produtores rurais desconhecem impactos do descarte de painéis solares
Principais Riscos e Desafios
• Metais Pesados: Módulos
fotovoltaicos contêm elementos como chumbo e cádmio, que podem contaminar o
solo e a água se descartados incorretamente.
• Acúmulo de Resíduos: Com a
expansão da energia solar no agronegócio, o volume de placas atingindo o fim da
vida útil (cerca de 25 anos) aumentará significativamente nas próximas décadas.
• Desinformação: Muitos
proprietários de terras tratam esses equipamentos como lixo comum devido à
falta de clareza sobre as leis de logística reversa.
O que pode ser feito
1. Reciclagem de Componentes:
As placas solares são altamente recicláveis, permitindo um aproveitamento de
até 97% dos materiais quando processadas de forma correta.
2. Realocação e Reuso:
Módulos que perderam parte da eficiência ainda podem ser reaproveitados em
outras instalações com menor demanda energética.
3. Busca por especializadas:
É preciso acionar empresas de reciclagem ou fornecedores de energia solar para
garantir a destinação segura, mitigando impactos ambientais silenciosos.
O trabalho foi publicado na
revista Renewable Energy Focus e conduzido por pesquisadores da Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). O objetivo foi identificar estratégias
para a gestão de resíduos fotovoltaicos gerados em propriedades rurais,
utilizando como base a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e teorias
de formulação de políticas públicas.
A pesquisa adotou uma
abordagem qualitativa baseada em entrevistas com 12 atores considerados
estratégicos para o tema. Entre os participantes estavam produtores rurais,
pesquisadores, representantes de entidades do agronegócio, especialistas em
resíduos sólidos e gestores públicos envolvidos com logística reversa e
desenvolvimento regional.
Os entrevistados foram
selecionados por sua experiência em energia fotovoltaica, desenvolvimento
rural, sustentabilidade ou gestão de resíduos. As entrevistas ocorreram
virtualmente e abordaram temas como percepção sobre resíduos fotovoltaicos,
desafios para sua gestão, instrumentos regulatórios e mecanismos de
monitoramento.
O estudo teve como foco o Mato Grosso do Sul, estado que possui mais de 113 mil unidades consumidoras com sistemas fotovoltaicos instalados. A escolha da região se deve à relevância do agronegócio local e ao crescimento acelerado da adoção da tecnologia solar em propriedades rurais.
Falta de conscientização
Um dos principais resultados
do estudo foi a constatação de que os produtores rurais entrevistados ou
representados pelos participantes têm pouco conhecimento sobre os impactos
ambientais associados ao descarte inadequado de módulos fotovoltaicos.
Segundo os pesquisadores, a
decisão de investir em energia solar é normalmente motivada pela redução dos
custos de eletricidade, enquanto a destinação dos equipamentos ao final da vida
útil raramente é considerada. Além disso, os entrevistados apontaram que as
empresas do setor costumam enfatizar os benefícios ambientais da energia solar
durante a venda dos sistemas, mas fornecem poucas informações sobre a gestão
futura dos resíduos.
Outro fator apontado é a
longa vida útil dos módulos, normalmente entre 25 e 30 anos. Isso cria a
percepção de que o problema do descarte está distante, embora os equipamentos
também possam precisar ser substituídos precocemente devido a danos causados
por eventos climáticos, defeitos de fabricação ou falhas operacionais.
Obstáculos…
Os participantes
identificaram a logística reversa prevista na Política Nacional de Resíduos
Sólidos como o principal instrumento para a gestão dos resíduos fotovoltaicos.
A experiência do setor agropecuário com a devolução de embalagens de defensivos
agrícolas foi citada como referência para a construção de um sistema semelhante
para módulos solares.
Entretanto, os entrevistados
destacaram obstáculos importantes para a implementação desse modelo. Entre eles
estão os elevados custos de transporte, a falta de infraestrutura para coleta e
reciclagem, a distância entre propriedades rurais e centros urbanos, a
precariedade de estradas rurais e a escassez de instalações especializadas para
tratamento dos resíduos.
Os autores observam que esses
desafios são particularmente relevantes em regiões remotas, como áreas
pantaneiras e outras localidades de difícil acesso, onde a logística tende a
representar parcela significativa dos custos do processo.
…e soluções
Para superar essas barreiras,
a pesquisa propõe uma estrutura regulatória baseada na combinação de diferentes
instrumentos de política pública.
Entre as recomendações estão
a criação de mecanismos de fiscalização e rastreamento, aplicação de sanções
para descarte inadequado, incentivos financeiros para produtores e empresas,
programas de educação ambiental e expansão da infraestrutura de coleta.
Os pesquisadores sugerem
incentivos como linhas de crédito, descontos na aquisição de novos
equipamentos, benefícios tributários para produtores rurais e incentivos
fiscais para empresas que aderirem a sistemas de logística reversa.
Cooperativas de reciclagem também poderiam receber apoio financeiro,
capacitação técnica e subsídios para transporte.
Já no campo da fiscalização,
o estudo defende a aplicação gradual de penalidades, começando por advertências
e evoluindo para multas em casos de reincidência.
Uma das propostas mais
inovadoras apresentadas pelos entrevistados é a utilização de sistemas de
rastreamento baseados em blockchain.
A tecnologia permitiria
registrar todo o ciclo de vida dos equipamentos, desde a fabricação ou
importação até a instalação, manutenção e descarte final. Segundo os autores,
isso facilitaria auditorias, fiscalização e comprovação do destino adequado dos
resíduos.
O estudo conclui que um único
modelo de coleta dificilmente atenderá às necessidades do meio rural
brasileiro. Por isso, propõe a adoção simultânea de diferentes mecanismos de
recolhimento.
Entre as alternativas
sugeridas estão pontos de entrega voluntária em municípios, cooperativas e
revendas; coleta domiciliar realizada por empresas especializadas; campanhas
periódicas de recolhimento; e programas de substituição em que a própria
empresa instaladora retira os módulos antigos ao vender novos equipamentos.
Segundo os pesquisadores, a
diversificação dos modelos de coleta é essencial para aumentar a adesão dos
produtores rurais e reduzir os custos logísticos associados ao descarte dos
equipamentos.
A pesquisa destaca que os
módulos fotovoltaicos contêm materiais valiosos, como alumínio, prata e silício,
que podem ser recuperados e reinseridos em cadeias produtivas. Além da
reciclagem, foram mencionadas possibilidades de reuso, remanufatura e
reaproveitamento dos materiais em novos produtos.
No entanto, os autores
afirmam que o desenvolvimento desse mercado dependerá de apoio governamental,
investimentos em pesquisa e criação de condições econômicas que tornem a
reciclagem viável em escala comercial.
Degradação dos oceanos avança mais rápido
Dados Alarmantes
• Elevação do Mar: A taxa de
aumento saltou para 4,3 mm por ano, quase o dobro das décadas anteriores,
impulsionada pelo aquecimento e expansão térmica.
• Estresse Térmico: Em junho
de 2025, ondas de calor marinhas severas atingiram 20% da superfície oceânica,
e 84% dos recifes de coral enfrentaram níveis de estresse capazes de causar
branqueamento.
• Poluição e Desoxigênio: O
oceano absorveu cerca de 30% das emissões de CO2, o que causa
acidificação e a expansão de "zonas mortas" hipóxicas (sem oxigênio
para a vida marinha).
• Poluentes Emergentes: Além
do plástico, cientistas alertam para a alta concentração de "poluentes
invisíveis", como antibióticos encontrados nas águas.
Impactos no Brasil
Com 8 mil quilômetros de
litoral, o país é altamente vulnerável. A costa brasileira perdeu 15% de sua
faixa de areia nos últimos 30 anos. O avanço do mar ameaça infraestruturas nas
capitais dos 17 estados costeiros, enquanto modelos apontam que no Rio de
Janeiro a subida do nível do mar pode superar a média global.
Para entender o panorama completo da Terceira Avaliação Global dos Oceanos ou conferir o detalhamento corporativo do Barômetro Starfish, o acesso aos relatórios na íntegra traz a dimensão exata do problema.
Oceanos em 2050 vão ter mais plástico do que peixes, alerta Fórum de Davos.
Com recordes de estresse
térmico em recifes de coral e avanço acelerado do nível do mar, pesquisadores
alertam para o aumento dos riscos ambientais, econômicos e sociais
A degradação dos oceanos
continua avançando em diversos indicadores ambientais, enquanto as respostas de
governos, instituições e mercados permanecem abaixo da escala considerada
necessária pelos especialistas. A conclusão é do Barômetro Starfish 2026,
relatório anual sobre a saúde dos oceanos, publicado na revista científica
State of the Planet, em 8 de junho, Dia Mundial dos Oceanos.
Produzido por 29
especialistas de 14 países, o estudo reúne dados recentes sobre aquecimento dos
oceanos, elevação do nível do mar, perda de biodiversidade, poluição e
governança oceânica. Segundo os autores, diversos indicadores seguem em
trajetória de deterioração, enquanto medidas de proteção, conservação e
financiamento avançam em ritmo mais lento.
“Nenhum ano como 2026 deixou
tão claro que o oceano está na interseção entre geopolítica, comércio e
finanças”, disse Peter Thomson, enviado especial do secretário-geral da ONU
para os Oceanos. “Este Dia Mundial dos Oceanos deve nos levar a refletir tanto
sobre os riscos quanto sobre as oportunidades à frente, porque não existe um
caminho crível para a ação climática, a segurança energética e a segurança
econômica sem colocar o oceano no centro”.
Segundo Thomson, clima,
biodiversidade e proteção dos oceanos estão cada vez mais interligados,
exigindo avanços mais rápidos na redução do uso de combustíveis fósseis e
maiores investimentos em resiliência oceânica e economias azuis.
Entre os resultados
apresentados, a taxa média de elevação do nível do mar atingiu 4,2 milímetros
por ano entre 2012 e 2025, quase o dobro da observada em décadas anteriores. Em
junho/2025, ondas de calor marinhas severas afetaram 20% da superfície oceânica
global, enquanto 84,4% dos recifes de coral foram expostos a níveis de estresse
térmico capazes de provocar branqueamento.
“Ao analisar aquecimento,
poluição e perda de biodiversidade como parte de um mesmo sistema, conseguimos
compreender não apenas o que está acontecendo, mas também como esses fenômenos
se relacionam”, diz Marina Lévy, presidente do comitê científico do Barômetro
Starfish.
Segundo o documento, as
emissões globais de dióxido de carbono (CO2) atingiram um recorde de
38,1 bilhões de toneladas em 2025, enquanto os avanços na descarbonização do
transporte marítimo seguem limitados. A poluição plástica também continua
crescendo, com cerca de 130 milhões de toneladas já acumuladas nos oceanos e
milhões de toneladas adicionais chegando ao ambiente marinho todos os anos.
O relatório também identifica
falhas persistentes na governança dos oceanos. Segundo os autores, 67% dos
navios pesqueiros industriais que operam em áreas marinhas protegidas não são
monitorados publicamente.
Além disso, 31 contratos ativos de exploração mineral em águas profundas seguem em vigor, levantando preocupações sobre potenciais impactos de longo prazo nos ecossistemas marinhos. O número de espécies marinhas ameaçadas já alcança 1.685 em escala global.
Impactos econômicos
Segundo o levantamento,
tempestades e inundações provocaram prejuízos estimados em US$ 212 bilhões em
2024, quase o dobro do registrado em 2023. As perdas associadas à pesca,
aquicultura, manguezais, recifes de coral e infraestrutura portuária já atingem
valores comparáveis aos custos sociais mais amplos relacionados às emissões de
carbono.
O estudo também aponta
aumento nos custos dos seguros marítimos em razão da combinação entre riscos
climáticos e geopolíticos. Em 2025, 8.260 pessoas perderam a vida no mar.
Os impactos econômicos dos
oceanos vão muito além das regiões costeiras. “Nem toda nação é definida por
sua costa, mas toda nação é moldada pelo comércio — e o comércio depende de um
oceano saudável”, disse Chantal Line Carpentier, chefe da área de Comércio,
Meio Ambiente e Mudança Climática da Divisão de Comércio Internacional e Commodities
da ONU Comércio e Desenvolvimento. “Mais de 80% do comércio mundial em volume é
transportado por via marítima, e os setores baseados nos oceanos movimentam
aproximadamente US$ 2,5 trilhões, perto de 7% do comércio global”.
Segundo ela, cerca de 600 milhões de pessoas dependem dos oceanos para sua subsistência, e essa resiliência está sob pressão crescente devido às mudanças climáticas, à poluição e à perda de biodiversidade.
Avanços em proteção
Apesar do cenário descrito
pelo relatório, a edição de 2026 também analisa alguns avanços institucionais.
Dois acordos internacionais entraram em vigor, entre eles o Tratado do Alto-Mar
(BBNJ). As áreas marinhas protegidas ultrapassaram pela primeira vez 10% da
superfície oceânica global. Novas medidas de proteção para tubarões e raias
também foram adotadas no âmbito do comércio internacional.
Os investimentos na chamada
economia oceânica continuam em expansão. O relatório contabiliza mais de 40
fundos dedicados ao setor e mais de 2.000 startups atuando em inovação marinha.
Ainda assim, os autores observam que apenas 3,2% do oceano é atualmente
considerado altamente ou totalmente protegido.
Para Angelique Pouponneau,
principal negociadora para Oceanos da Aliança dos Pequenos Estados Insulares
(AOSIS), os próximos anos serão decisivos para avaliar se os compromissos
assumidos pelos governos serão transformados em ações concretas.
“Os próximos 2 anos serão decisivos para determinar se os compromissos globais relacionados ao oceano serão convertidos em ação coordenada. A saúde do oceano sustenta a resiliência de comunidades e economias em todo o mundo, incluindo economias insulares cujo futuro está intimamente ligado a um oceano saudável e produtivo”.
Enfraquecimento do monitoramento
Pela primeira vez, o
Barômetro Starfish destaca o enfraquecimento dos sistemas de observação
oceânica como um risco relevante para a compreensão das mudanças em curso.
As observações oceânicas in
situ alcançaram cerca de 120 mil medições por dia em 2025. No entanto, redes
consideradas fundamentais para o monitoramento dos oceanos — como boias
ancoradas e observações realizadas por embarcações — vêm apresentando redução
desde a pandemia.
Segundo o relatório, fatores
como restrições orçamentárias, diminuição das atividades de campo e redução de
pessoal especializado têm contribuído para esse cenário. Os autores argumentam
que toda a base de conhecimento apresentada no relatório depende dessa
infraestrutura de monitoramento.
“Ao conectar observações oceânicas, ciência e impactos sociais, o Barômetro ajuda a identificar lacunas de conhecimento, orientar prioridades de pesquisa e investimento e apoiar ações mais coordenadas”, disse Pierre Bahurel, diretor-geral da Mercator Ocean International.
Segundo ele, os sistemas de observação oceânica devem ser considerados infraestrutura estratégica para resiliência climática, redução de riscos de desastres e cooperação científica internacional. (ecodebate)
domingo, 5 de julho de 2026
Poluição dos oceanos começa nos rios e efluentes
O Caminho dos Resíduos até o Mar
A contaminação dos ecossistemas aquáticos segue um ciclo urbano e geológico específico:
O Descarte nas Cidades: Resíduos plásticos descartados de forma irregular são levados pela chuva ou pelo vento para as galerias de águas pluviais. A falta de saneamento básico e o esgoto não tratado também são despejados diretamente em bacias hidrográficas.
O Transporte Fluvial: Os rios atuam como "corredores" naturais que carregam essa carga orgânica, química e plástica para as zonas costeiras.
O Impacto Profundo: Estima-se que milhões de toneladas de plástico cheguem aos mares anualmente, poluindo desde as praias até o mar profundo. O material se degrada em microplásticos, afetando milhares de espécies e entrando na cadeia alimentar.
Iniciativas e Ações
A proteção da vida marinha e do oceano está diretamente ligada ao tratamento de efluentes em áreas urbanas e industriais:
O Papel do Saneamento: Relatórios da ONU alertam que a melhora no tratamento de esgoto no Brasil é vital para reverter a poluição marinha.
Iniciativas Litorâneas: Campanhas locais, como as promovidas pelo Orla Rio, demonstram como as ações de limpeza costeira e o gerenciamento de resíduos terrestres previnem o dano ambiental.
O Dia Mundial dos Oceanos, celebrado em 8 de junho, costuma chamar atenção para imagens de praias sujas, ilhas de plástico e animais marinhos afetados por resíduos. No entanto, parte importante desse problema começa longe da faixa de areia.
A poluição que chega ao mar percorre um caminho anterior, formado por rios, córregos, redes de drenagem, estações de tratamento e efluentes lançados de forma inadequada.
Essa conexão é essencial para entender por que a proteção dos oceanos depende também da qualidade da água tratada em áreas urbanas, rurais e industriais. Quando resíduos domésticos, químicos, orgânicos ou industriais chegam aos rios sem tratamento adequado, eles seguem o fluxo natural das bacias hidrográficas até alcançar represas, estuários e zonas costeiras.
O resultado aparece em diferentes formas: aumento da carga orgânica, proliferação de algas, redução do oxigênio na água, contaminação por metais, presença de microplásticos e degradação de habitats marinhos. Por isso, discutir oceanos também exige falar sobre saneamento, controle de efluentes e tecnologias usadas para tornar a água mais segura antes do descarte ou do reuso.
O papel do tratamento de água no controle da poluição
O tratamento de água e efluentes é uma das etapas mais importantes para reduzir a pressão sobre rios e mares. Em sistemas bem estruturados, a água passa por processos físicos, químicos e biológicos capazes de remover partículas, matéria orgânica, microrganismos e substâncias que poderiam comprometer o ambiente.
No caso do abastecimento público, o tratamento busca tornar a água própria para consumo, seguindo padrões de potabilidade definidos pelas autoridades sanitárias. Já no tratamento de efluentes, o objetivo é reduzir a carga poluidora antes que a água retorne ao meio ambiente ou seja reaproveitada em atividades industriais, agrícolas ou operacionais.
Nesse contexto, produtos químicos coagulantes têm papel relevante. Eles ajudam a agrupar partículas muito pequenas que ficariam dispersas na água, facilitando sua remoção nas etapas seguintes, como decantação e filtração. Essa etapa é decisiva para melhorar a turbidez, reduzir impurezas e aumentar a eficiência do processo.
É nesse ponto que pode ser citado o policloreto de alumínio 10, utilizado em determinados sistemas de tratamento como agente coagulante. Sua aplicação deve ocorrer com controle técnico, dosagem adequada e acompanhamento de parâmetros como pH, turbidez, alcalinidade e características do efluente. O uso correto contribui para a remoção de sólidos suspensos e para a melhoria da qualidade da água tratada.
Efluentes industriais exigem controle rigoroso
A indústria tem participação
importante nesse debate porque diversos segmentos geram efluentes com
características específicas. Alimentos, bebidas, papel e celulose, mineração,
química, têxtil, metalurgia e construção civil podem produzir águas residuais
com alta carga orgânica, cor, óleos, graxas, sedimentos ou compostos químicos.
Quando esses efluentes não
passam por tratamento adequado, o impacto ambiental pode ser expressivo. Rios
contaminados perdem capacidade de autodepuração, a biodiversidade aquática é
prejudicada e comunidades que dependem da água para pesca, lazer ou
abastecimento ficam mais vulneráveis.
Por isso, o controle começa dentro das empresas. É necessário mapear os pontos de geração de efluentes, monitorar a qualidade da água descartada, manter estações de tratamento em funcionamento adequado e cumprir as normas ambientais aplicáveis. A adoção de tecnologias mais eficientes não deve ser vista apenas como obrigação regulatória, mas como parte da responsabilidade ambiental do negócio.
A prevenção começa antes do descarte
Reduzir a poluição dos
oceanos exige uma abordagem preventiva. Isso significa evitar que resíduos
cheguem aos rios, ampliar a coleta e o tratamento de esgoto, fiscalizar
descartes irregulares, melhorar a gestão de resíduos sólidos e incentivar o
reúso de água sempre que tecnicamente viável.
O tratamento não corrige
todos os danos quando a contaminação já se espalhou pelo ambiente. Por isso, a
prevenção é mais eficiente e menos custosa do que a recuperação de rios
degradados ou ecossistemas marinhos afetados.
Também é importante considerar que a qualidade da água depende de decisões integradas. Poder público, empresas, produtores rurais e população têm responsabilidades diferentes, mas complementares. A destinação correta de resíduos, a manutenção de redes de esgoto, o controle de produtos químicos e a escolha de insumos adequados para tratamento fazem parte da mesma cadeia de proteção.
Proteger os oceanos é cuidar da água desde a origem
O Dia Mundial dos Oceanos
reforça que o mar não começa apenas na praia. Ele recebe o reflexo do que
acontece nas cidades, nas indústrias, nos rios e nos sistemas de saneamento.
Cada efluente tratado corretamente representa menos carga poluidora seguindo em
direção aos ecossistemas aquáticos.
Ao incluir o tratamento de água no centro dessa discussão, a data ganha um sentido mais amplo e prático. Cuidar dos oceanos passa por melhorar a infraestrutura de saneamento, modernizar processos industriais, adotar insumos adequados e ampliar o compromisso com a qualidade da água em todas as etapas do seu ciclo.
A proteção marinha, portanto, começa antes da chegada ao litoral. Ela começa na forma como a água é captada, usada, tratada e devolvida ao ambiente. (ecodebate)
Perda de água na distribuição abasteceria 77 milhões de pessoas no Brasil
Os dados fazem parte do
“Estudo de Perdas de Água” elaborado pelo Instituto Trata Brasil em parceria
com a consultoria GO Associados.
Principais pontos do cenário
de perdas:
• O Volume Desperdiçado: O
desperdício diário equivale a cerca de 4,8 mil piscinas olímpicas ou 16,2
milhões de caixas d'água.
• Causas Principais: As
perdas ocorrem por vazamentos nos canos, fraudes (os chamados
"gatos") e erros de medição nos hidrômetros.
• Disparidade Regional: Os
piores índices estão nas regiões Norte e Nordeste, onde o desperdício supera a
marca de 55%.
• Metas de Melhoria: A meta oficial é reduzir o índice nacional de perdas para 25%. Se o país conseguir alcançar esse patamar economizará 2,8 bilhões de metros cúbicos de água, gerando uma grande economia de recursos.
Volume de água desperdiçado no Brasil seria suficiente para abastecer 77 milhões de pessoas, aponta estudo
Estudo do Instituto Trata
Brasil aponta que, por dia, o país perde o equivalente a 16,2 milhões de caixas
d’água.
• Esse volume perdido
corresponde a mais de duas vezes o total de brasileiros sem acesso ao
abastecimento de água (cerca de 33 milhões de pessoas) e a mais de um quarto da
população do país em 2024;
• Reduzir as perdas totais
dos atuais 39,53% para 25% economizaria 2,8 bilhões de m³ de água por ano,
volume capaz de abastecer 17,2 milhões de brasileiros que vivem em comunidades
vulneráveis por dois anos;
• O volume total de água
referente às perdas físicas em 2024 (cerca de 4,4 bilhões de m³) é equivalente
a 4,8 mil piscinas olímpicas de água desperdiçadas diariamente ou ao conteúdo
de 16,2 milhões de caixas d’água para uma família de cinco pessoas
desperdiçadas por dia;
• 12 dos 100 municípios mais
populosos do Brasil atendem às metas de 25% em perdas na distribuição e 216
L/ligação/dia em perdas por ligação, entre eles as capitais Goiânia (GO),
Teresina (PI) e Campo Grande (MS);
• Redução de perdas de água
de 39,53% para 25% resultaria em ganhos de R$ 47,3 bilhões até 2033;
• A eficiência no controle é
uma medida de adaptação climática que aumenta a disponibilidade hídrica e reduz
a pressão sobre os mananciais;
O Instituto Trata Brasil
(ITB), em parceria com a consultoria GO Associados, publica o “Estudo de Perdas
de Água 2026 (SINISA, 2024): Desafios na Eficiência do Saneamento Básico no
Brasil”, que traz o panorama do problema ambiental, econômico e social da
ineficiência no controle de perdas de água em nosso país.
Em meio ao agravamento das
mudanças climáticas e cerca de 33 milhões de habitantes sem acesso à água
potável, o país desperdiça 39,53% da água tratada antes mesmo que ela chegue às
torneiras das famílias. O estudo aponta que o volume de perdas físicas em 2024
(cerca de 4,4 bilhões de m³) equivale a 4,8 mil piscinas olímpicas
desperdiçadas por dia. Para ter uma ideia do que isso representa, esse mesmo
volume corresponde a 16,2 milhões de caixas d’água para uma família de cinco
pessoas por dia ou a 4,5 vezes o volume do Sistema Cantareira ao longo de um
ano.
O levantamento foi elaborado
a partir de dados públicos do Sistema Nacional de Informações em Saneamento
Básico (SINISA, ano-base 2024) e compreende uma análise do Brasil, de suas
cinco macrorregiões, das 27 Unidades da Federação e dos 100 municípios mais
populosos do país (incluindo as capitais dos estados), que figuraram no Ranking
do Saneamento de 2026.
O que é perda de água?
No processo de abastecimento
de água, podem ocorrer perdas por vários motivos, como vazamentos, erros de medição
e consumos não autorizados. Esses desperdícios trazem impactos negativos ao
meio ambiente, à receita e aos custos de produção das empresas, o que deixa
mais caro o sistema como um todo, prejudicando, em última instância, todos os
usuários.
Então o ideal seria termos
zero de perdas de água? Apesar da resposta ser sim, de acordo com a literatura
sobre o tema, não ter perdas no sistema é algo inviável por limites econômicos
(em determinado ponto, o custo fica superior ao do volume recuperado) e limites
técnicos (existe um volume mínimo de perdas dadas as tecnologias atuais de
materiais, ferramentas e logística).
No Brasil, o Ministério das
Cidades editou a Portaria MCID nº 788, de 1º de agosto de 2024 (Portaria
788/2024), revogando e substituindo a Portaria nº 490, de 22 de março de 2021
(Portaria 490/2021), anteriormente editada pelo então Ministério do
Desenvolvimento Regional. A Portaria 788/2024 passou a estabelecer metas para
os indicadores de perdas na distribuição e perdas por ligação. Segundo o
normativo, os municípios beneficiados por recursos públicos federais ou
financiamentos com recursos da União deverão apresentar indicadores iguais ou
inferiores a:
1. 35% e 303,0 L/ligação/dia
até 2025;
2. 30% e 263,0 L/ligação/dia
entre 2026 e 2032;
3. 25% e 216,0 L/ligação/dia
a partir de 2033.
Impacto das perdas de água no
Brasil
Para entender o impacto do
controle de perdas, considerando-se somente as perdas físicas (como, por exemplo,
os vazamentos), o volume (cerca de 4,4 bilhões de m³) seria suficiente para
abastecer aproximadamente 77 milhões de brasileiros em um ano. Esta quantidade
não somente equivale a mais de um quarto da população do país em 2024, como
também corresponde a mais de duas vezes o número de habitantes sem acesso ao
abastecimento de água nesse ano, cuja grandeza situa-se em torno de 33 milhões.
Além disso, com esse mesmo
volume, seria possível abastecer os 17,2 milhões de brasileiros que vivem em
comunidades vulneráveis por dois anos. Ao meio ambiente, a redução dessas
perdas implicaria a disponibilidade de mais recurso hídrico para a população
sem a necessidade de captação de água em novos mananciais.
Com o cenário de mudanças
climáticas, os desafios para a disponibilidade hídrica nos mananciais se tornam
cada vez mais evidentes. As perdas reais afetam diretamente os custos de
produção e a demanda por água. Neste sentido, um elevado nível destas perdas
equivale a uma captação e a uma produção superior ao volume efetivamente
demandado, gerando as seguintes ineficiências:
Quadro 2 – Impactos na
produção de água e no meio ambiente das perdas de água
|
Desequilíbrios na
produção de água |
Desequilíbrios
ambientais |
|
- Maior custo dos insumos químicos, energia para bombeamento,
entre outros fatores de produção - Maior custo de manutenção da rede e de equipamentos - Uso excessivo da capacidade de produção e de distribuição
existente - Maior custo oriundo da possível utilização de fontes de
abastecimento alternativas de menor qualidade ou de difícil acesso |
- Pressão excessiva sobre as fontes de abastecimento do recurso
hídrico, uma vez que se capta mais água do que efetivamente chega à população - Maior custo posterior para mitigação dos impactos negativos
dessa atividade (externalidades) |
Instituto Trata Brasil
Benefícios sociais com a
redução de perdas
Quadro 3 a seguir aponta as
principais estatísticas descritivas a partir da redução de perdas, desagregadas
por estado. Ao se admitir não uma eliminação total das perdas, mas uma redução
dos atuais 39,5% aos 25% previstos pela Portaria 788/2024, o volume economizado
seria da ordem de 2,8 bilhão de m3. Isso equivale ao consumo médio
de aproximadamente 48 milhões de brasileiros em um ano.
Cenário nacional de perdas
nos últimos 5 anos
O indicador mais comumente
utilizado para a análise geral de perdas no país é o Índice de Perdas na
Distribuição, que busca estabelecer uma relação entre a água produzida e a água
efetivamente consumida nas residências. Considerando os últimos cinco anos, o
valor de 2024, de 39,53%, é ligeiramente menor que o de 2020, de 40,14%, ambos
significativamente superior à meta de 25%.
Recorte por região
A situação de perdas no
Brasil apresenta significativas diferenças quando se comparam suas diversas
macrorregiões. É possível concluir que Norte e Nordeste são as mais carentes e
que devem enfrentar os maiores desafios para reduzirem seus índices de perdas.
Além disso, essas regiões também são aquelas que possuem os piores indicadores
de atendimento de água, de coleta e de tratamento de esgotos.
De 2020 a 2024, a
macrorregião que mais apresentou piora foi a Nordeste, com aumento de 0,46 ponto
percentual. Por outro lado, observa-se melhora na macrorregião Norte, com
redução de 1,79 pontos percentuais no mesmo período.
Recorte de indicadores por
estado
A análise comparativa dos
indicadores estaduais de perdas na distribuição evidencia a variação do
desempenho entre as unidades federativas, identificando padrões regionais,
diferenças estruturais entre os sistemas de abastecimento e potenciais
implicações para a eficiência operacional dos prestadores. A leitura do
indicador permite uma compreensão mais abrangente do estágio de controle de
perdas no país.
A análise evidencia um padrão
de maior ineficiência concentrado principalmente nas regiões Norte e Nordeste
do país. Estados como Alagoas (66,90%), Roraima (65,97%), Pará (57,33%),
Maranhão (56,68%), Acre (56,48%) e Sergipe (55,10%), apresentam níveis de
perdas superiores a 55% do volume distribuído, significativamente acima da
média nacional (39,53%).
O indicador médio computado
na amostra foi de 35,56% em 2024, o que representa uma piora em relação aos
31,09% computados em 2023. Dos 99 municípios considerados, apenas 20 possuem
níveis de perdas na distribuição menores que 25%. Os dados mostram ainda que 14
municípios têm perdas na distribuição superiores a 50%.
É possível observar uma forte
concentração dos melhores desempenhos nos estados do Sudeste, que concentram 12
dos 20 municípios com menores índices de perdas na distribuição. Municípios
como Suzano (1,27%) e Santos (5,35%), apresentam níveis significativamente
inferiores à média nacional.
Por outro lado, os municípios
com piores resultados estão majoritariamente localizados nas regiões Norte e
Nordeste, com destaque para Parauapebas (PA), com 70,68%, e Maceió, com 64,05%.
Além disso, outras cidades de diferentes regiões também apresentam perdas
significativas, com destaque para Belo Horizonte, com 68,29% e Várzea Grande
(MT), com 59,03%.
Municípios nos padrões de
excelência
Conforme a já mencionada
Portaria 788/2024, são considerados excelentes os municípios que contam com até
25% em perdas na distribuição e de 216 L/ligação/dia em perdas por ligação.
Somente doze dentre os 100
municípios mais populosos do Brasil atendiam às metas da Portaria 788/2024
simultaneamente em 2024, indicando haver um longo caminho a ser percorrido na
busca pela redução das perdas de água.
Recorte para as capitais
brasileiras
Apenas quatro das 27
capitais, Goiânia, São Paulo, Campo Grande e Teresina, apresentaram valores
inferiores à meta de 25% estabelecida pela Portaria 788/2024. A média das
capitais foi de 39,30%.
Estima-se que as capitais
brasileiras percam anualmente cerca de 2,3 bilhões de m³ de água, dos quais
aproximadamente 0,9 bilhão de m³ (40%) correspondam a perdas aparentes
(comerciais), enquanto 1,4 bilhão de m³ (60%) refiram-se a perdas reais
(físicas). Considerando-se apenas estas últimas, o v
Ganhos econômicos com a
redução das perdas de água portável
Para calcular os ganhos
econômicos ao país pela redução de perdas, o estudo apresentou uma análise de
três cenários: o otimista, o realista e o pessimista. Cada um deles responde à
média nacional do nível de perdas a ser alcançada em 2033: 15% (cenário
otimista), 25% (cenário realista) e 35% (cenário pessimista).
O estudo evidencia que as
perdas de água permanecem em níveis elevados no país. Em 2024, as perdas na
distribuição foram de 39,53%, enquanto as perdas por ligação foram de 349,09
L/dia/ligação, valores significativamente superior aos parâmetros de eficiência
estabelecidos pela Portaria 788/2024, de 25% e 216 L/ligação/dia,
respectivamente. As desigualdades regionais permanecem como um dos principais
desafios para a universalização dos serviços de saneamento básico no Brasil, e
as regiões Norte e Nordeste seguem concentrando os indicadores mais elevados de
perdas de água.
Em uma realidade que já se
faz presente, os efeitos das mudanças climáticas refletem em impactos diretos
no acesso à água potável. A redução das perdas contribui para mitigar a
necessidade de expansão de mananciais e aumenta a resiliência dos sistemas de
abastecimento em um contexto de crescente pressão sobre os recursos hídricos.
Além disso, menores níveis de perdas tendem a ampliar a sustentabilidade
econômico-financeira dos prestadores, reduzindo pressões sobre tarifas futuras
e liberando recursos para investimentos em expansão, manutenção e melhoria dos
serviços.
Para tanto, é necessário
priorizar essa agenda com a implementação de programas que unam eficiência e
inovação e, consequentemente, acelerar o ritmo dos investimentos para que o
Brasil atinja a meta de 25% em perdas na distribuição até 2033, conforme
previsto pela Portaria 788/2024.
“A redução das perdas de água
deixou de ser apenas uma agenda de eficiência operacional no setor de
saneamento básico e passou a ocupar um papel estratégico na adaptação climática
dos municípios. Em um contexto internacional em que parte do setor privado e de
governos tem abandonado compromissos ambientais, torna-se ainda mais importante
fortalecer políticas públicas capazes de conciliar a expansão do atendimento às
populações ainda sem acesso ao abastecimento de água e aos serviços de coleta e
tratamento de esgotos com segurança hídrica e preservação ambiental. Nesse
sentido, reduzir perdas significa utilizar de forma mais racional a água já
captada e tratada, diminuindo a pressão sobre os mananciais, reduzindo custos
operacionais e aumentando a resiliência dos sistemas de abastecimento frente a
eventos climáticos extremos”. – Declara Gesner Oliveira, Sócio Executivo da GO
Associados. (ecodebate)
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Não existe plano B e a Terra é única casa que temos
Deixa eu te fazer uma
pergunta simples, dessas que a gente evita fazer em voz alta porque a resposta
incomoda demais: para onde você acha que vai quando a Terra não puder mais nos
sustentar?
Marte? A Lua? Uma estação espacial
flutuando no vácuo?
Se essa ideia passou pela sua
cabeça ou se você já viu alguém defender isso com seriedade preciso que a gente
tenha uma conversa honesta. Porque tem uma narrativa perigosa, embalada em
otimismo tecnológico e financiada por fortunas inimagináveis, que merece ser
desmontada com calma, mas sem rodeios.
O espaço não é um plano B. É
só espaço.
O espaço é vácuo. Radiação.
Temperaturas que variam de -270°C a +120°C dependendo de onde você está e se
tem sol ou não. Não tem ar. Não tem água. Não tem solo. Não tem absolutamente
nada do que qualquer forma de vida conhecida precisa para existir.
A Lua, nossa vizinha mais
próxima, a apenas 384 mil quilômetros de distância, não tem atmosfera, não tem
campo magnético para proteger da radiação solar e tem uma temperatura
superficial que pode chegar a +127°C durante o dia e -173°C à noite.
Marte, o grande sonho dos
bilionários do momento, é um deserto gelado com uma atmosfera tão fina que
equivale a menos de 1% da pressão que temos aqui em baixo. É composta
principalmente de dióxido de carbono. O solo marciano está saturado de
percloratos, compostos tóxicos que destruiriam células humanas. A radiação
cósmica chega à superfície sem filtro. Tempestades de poeira duram meses e
cobrem o planeta inteiro.
Não existe um único
ecossistema funcionando em nenhum desses lugares. Não existe um único organismo
vivo confirmado. Não existe água líquida acessível. Não existe nada que nos
receba.
E alguém quer ir para lá fugindo de um planeta que ainda tem florestas, rios, oceanos e ar respirável. Não é apenas um delírio, mas a mais absoluta insanidade.
A lógica ilógica
Pense bem na lógica que está
embutida na ideia de “colonizar Marte como alternativa ao colapso da Terra”.
Primeiro, ela pressupõe que
haverá transporte. Que foguetes, que hoje ainda explodem com regularidade nos
testes, vão escalar a ponto de transportar populações inteiras para outro
planeta. Só em 2025, 3s voos da Starship terminaram em explosão. Três. E cada
missão bem-sucedida a Marte leva cerca de sete meses de viagem em micro
gravidade, com exposição à radiação que compromete ossos, músculos e sistema
imunológico.
Segundo, ela pressupõe que
haverá infraestrutura lá. Que alguém terá construído, antes da chegada dos
refugiados planetários, estruturas capazes de gerar ar, água, alimento e calor
suficientes para sustentar vida humana em larga escala. Em Marte. Com os
recursos disponíveis em Marte, que são basicamente areia tóxica e CO2.
Terceiro e aqui está o ponto mais honesto de todos, ela pressupõe que você estará nessa lista. Você, eu, as oito bilhões de pessoas que vivem no planeta hoje. Os quilombolas do Pará. Os pescadores do Nordeste. Os agricultores familiares do Sul. Os povos indígenas da Amazônia.
Se alguma coisa dessa fantasia bilionária se materializasse, seria uma saída para um grupo minúsculo e ultra seleto. Uma colônia de elite num bunker vermelho a 225 milhões de quilômetros de distância, enquanto o resto da humanidade ficaria aqui tentando sobreviver num planeta degradado.
O filme “Não Olhe Para Cima”
(Don’t Look Up, 2021), por enquanto de ficção, ilustra muito bem como
funcionaria uma ‘evacuação’ dos ricos e poderosos.
Riqueza não existe num
planeta morto
Tem uma contradição no
coração de toda essa conversa que raramente é colocada de forma direta: de nada
adianta ter bilhões de dólares se não há um planeta funcionando para sustentar
a cadeia produtiva que gera esses bilhões.
Riqueza é uma abstração
social. Ela existe enquanto existem pessoas, trabalho, recursos naturais,
alimentos, infraestrutura. Um planeta com ecossistemas em colapso não produz
safras. Não produz água potável. Não produz o oxigênio que você respira. Não
produz nada que possa ser convertido em moeda ou ativo financeiro.
A riqueza dos mais ricos do
mundo depende, em última instância, da mesma biosfera que os mais pobres
dependem. A diferença é que os ricos têm mais tempo, mais acesso a soluções
paliativas, como bunkers, filtros de ar, água engarrafada, propriedades em
altitudes seguras. Mas é um adiamento, não uma solução.
Aqui é importante ser preciso
para não cair no alarmismo vazio, que paralisa tanto quanto a negação.
Ainda não chegamos ao ponto
de colapso. Ainda não ultrapassamos todos os pontos de não retorno. Ainda
existem florestas. Ainda existem rios. Ainda existem ecossistemas funcionando.
E isso importa porque significa que ainda há margem para agir.
Mas estamos nos aproximando
de limiares críticos com uma velocidade que os dados mais recentes tornam cada
vez mais difícil de ignorar. A perda de biodiversidade deixou de ser um
fenômeno localizado para se tornar um processo sistêmico. Anfíbios, os animais
mais sensíveis às alterações ambientais, uma espécie de termômetro da saúde dos
ecossistemas, estão apresentando quedas populacionais rápidas e contínuas em
todo o mundo. Aquíferos estão sendo esgotados. O solo agrícola está sendo
degradado. A temperatura média do planeta segue subindo.
O cientista Carlos Nobre, um
dos maiores especialistas mundiais no clima da Amazônia, tem repetido que o
planeta está “quase em colapso”. Não é catastrofismo. É leitura de dados.
E enquanto isso, a conversa
pública em muitos espaços ainda gira em torno de se as mudanças climáticas são
reais. Estamos, coletivamente, perdendo um tempo que não temos.
O delírio que custa muito
caro
Não é inocente a narrativa de
que existe um plano B espacial. Ela tem consequências reais.
Ela desloca atenção e
recursos. Cada bilhão investido em foguetes que explodem poderia financiar
reflorestamento, transição energética, pesquisa em regeneração de solos,
proteção de aquíferos, desenvolvimento de tecnologias de adaptação para
populações vulneráveis.
Ela cria uma ilusão de saída
que desobriga. Se existe uma solução tecnológica mágica no horizonte, seja
colonizar Marte, seja alguma geoengenharia mirabolante, fica psicologicamente
mais fácil não mudar o presente. É o mesmo mecanismo cognitivo que leva pessoas
a não fazer checkups médicos porque “a medicina vai avançar”. Só que aqui as
apostas são a biosfera inteira.
O que precisamos não é de
foguetes
Precisamos de algo muito mais
difícil e muito menos cinematográfico do que colonizar outro planeta.
Precisamos de decisões
políticas que efetivamente limitem a destruição dos ecossistemas. De sistemas
econômicos que não dependam do consumo infinito de recursos finitos. De
distribuição mais justa dos recursos existentes, o que reduziria a pressão
sobre os mais vulneráveis e sobre a própria natureza. De ciência aplicada à
regeneração de florestas, de solos, de populações de espécies ameaçadas. De
cidades que funcionem de forma mais integrada com os ciclos naturais ao redor
delas.
Isso não é poesia. É
engenharia. É política. É economia. É o tipo de trabalho que não rende manchete
de capa com foguete em chamas ao fundo, mas que é o único que efetivamente muda
alguma coisa.
Nosso futuro continua aqui.
Não como resignação, mas como o reconhecimento mais lúcido que a gente pode
ter: este é o único planeta com as condições para nos sustentar, e ele ainda
tem condições de seguir fazendo isso se a gente parar, agora, de fazer o que
estamos fazendo.
Não existe evacuação
planejada. Não existe frota de resgate vindo. Não existe Planeta B.
Existe este aqui, ainda vivo,
ainda possível. E existe o que a gente decide fazer com ele. (ecodebate)
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