quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O planeta vai ultrapassar 1,5°C

O planeta vai ultrapassar 1,5°C, mas ainda dá tempo de mudar o final dessa história.
Sim, ainda dá tempo de mudar o final dessa história, mas o roteiro agora mudou: o foco científico mudou de "evitar" para "corrigir" o aquecimento global. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) divulgou um relatório histórico confirmando que o planeta inevitavelmente vai ultrapassar o limite de 1,5°C nos próximos anos. No entanto, cientistas e a ONU enfatizam que o limite de 1,5°C não é um "precipício mágico" onde tudo acaba, mas sim um teto que precisaremos reduzir "vindo de cima" por meio de um processo chamado de overshoot (ultrapassagem temporária).

A Nova Estratégia: Pico e Declínio

A meta do Acordo de Paris continua viva, mas agora a humanidade precisa correr para garantir o cenário mais otimista possível:

• O Pico de 1,8°C: No melhor cenário projetado pela ONU, as temperaturas mundiais atingiriam um pico de até 1,8°C em meados do século antes de começarem a cair.

• Redução a Longo Prazo: Com ações drásticas, o planeta conseguiria voltar a ficar abaixo dos 1,5°C até o ano de 2100.

• Cada Décimo Importa: Permanecer acima de 1,5°C por muito tempo aumenta drasticamente os riscos de pontos de não retorno (como o colapso da Amazônia ou das correntes oceânicas). Por isso, cada fração de grau evitada poupa milhões de vidas e ecossistemas.

O que precisa ser feito imediatamente?

Para encurtar o tempo que passaremos nessa zona de perigo e mudar o desfecho do século, três pilares são urgentes:

• Corte massivo e rápido de emissões: Reduzir drasticamente o uso de combustíveis fósseis e zerar as emissões de metano.

• Remoção de Carbono em Larga Escala: Além de plantar florestas, o mundo precisará investir em tecnologias seguras de captura direta de CO2 da atmosfera para "resfriar" o planeta.

• Adaptação e Resiliência: Preparar as cidades, a agricultura e as populações vulneráveis para enfrentar os eventos extremos que já se tornaram realidade.

A COP30, realizada no Brasil, é considerada o palco definitivo para que os países assumam esses novos compromissos severos e coloquem o plano de recuperação em prática.
Novo relatório do PNUMA confirma que o limite do Acordo de Paris deve ser superado, mas mostra que ação rápida, tecnologia e justiça climática ainda podem evitar os cenários mais graves

Um relatório recém-publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) traz um alerta duro ao afirmar que ultrapassar 1,5°C de aquecimento global, em relação aos níveis pré-industriais, já é praticamente inevitável. Mas o documento também aponta um caminho possível de retorno, sustentado por corte de emissões, remoção de carbono, adaptação e cooperação internacional.

Tem notícia assusta ao ser lida, mas que precisa ser lida assim mesmo. É o caso do novo relatório do PNUMA, intitulado “Limiting Overshoot – Navigating exceedance of 1.5°C and pathways towards return”, que acaba de confirmar algo que cientistas já vinham gritando há anos: o mundo vai ultrapassar a marca de 1,5°C de aquecimento em relação à era pré-industrial, e isso deve acontecer em um horizonte de tempo curto.

Se você ficou seriamente preocupado com isto, saiba que não está sozinho. Mas o relatório não é só sobre o problema. Ele também é, em boa parte, sobre o que ainda podemos fazer diante dele. E é sobre isso que vale a pena conversar.

Por que 1,5°C importa tanto?

O número 1,5°C virou símbolo desde o Acordo de Paris, assinado em 2015. Ele representa o limite considerado mais seguro para evitar que o clima do planeta saia de um equilíbrio já bastante desafiador para um cenário de instabilidade profunda.

Cada fração de grau acima desse patamar aumenta o risco de eventos extremos, compromete a produção de alimentos, ameaça o abastecimento de água e pode empurrar sistemas naturais inteiros, como geleiras, correntes oceânicas e a floresta amazônica, para pontos de não retorno.

Isso não quer dizer que ultrapassar 1,5°C seja o fim da linha. Quer dizer que a margem de segurança está ficando mais estreita, e que cada ação conta em dobro a partir de agora.
A emergência climática não é um tema distante. É o tipo de coisa que já muda a rotina sem pedir licença.

Está no calor fora do normal, nas chuvas que viram tragédia, na água que falta, no ar pesado e nos impactos que sempre caem primeiro sobre quem tem menos.

O caminho do “excesso, pico e declínio”

Aqui entra a parte que carrega alguma esperança concreta. O relatório descreve uma trajetória chamada de “excesso, pico e declínio”, ou seja, a ideia de que é possível ultrapassar 1,5°C, atingir um pico de temperatura o mais baixo e o mais curto possível, e depois trazer o termômetro do planeta de volta para baixo desse limite até o fim do século.

Essa trajetória depende de três frentes que já estão em curso em diferentes partes do mundo:

Corte acelerado de emissões. Reduzir com urgência as emissões de gases de efeito estufa, incluindo o metano, continua sendo a base de tudo. Isso passa pela expansão da energia solar e eólica, pela eletrificação do transporte, pela eficiência energética em prédios e indústrias e pela transição das matrizes energéticas de países que ainda dependem fortemente de combustíveis fósseis. E, reforçando a ideia central, é urgente a efetiva redução do uso de combustíveis fósseis, como previsto no Acordo de Paris.

Remoção de carbono como complemento, não como desculpa. Tecnologias e práticas de remoção de dióxido de carbono, como reflorestamento em larga escala, recuperação de solos degradados e captura direta de carbono do ar, vão ser necessárias para tirar o excesso de CO2 já lançado na atmosfera. O relatório é claro ao afirmar que essas soluções só funcionam se vierem somadas a cortes reais de emissão, nunca no lugar deles.

Adaptação inteligente e permanente. Cidades costeiras, pequenas nações insulares e comunidades vulneráveis já precisam se preparar para impactos que não serão mais evitados. Isso inclui desde infraestrutura capaz de suportar eventos extremos até sistemas de alerta antecipado e realocação planejada da população em áreas de risco.

Soluções que já estão em movimento

O aquecimento global deve ultrapassar nos próximos anos o limite de 1,5°C acima dos níveis registrados na era pré-industrial, segundo relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Apesar da projeção, o documento aponta que ainda é possível reduzir as temperaturas posteriormente e manter os objetivos estabelecidos pelo Acordo de Paris.

Talvez a parte mais animadora da conversa sobre clima hoje seja perceber que boa parte da tecnologia e do conhecimento necessário já existe, e está sendo aplicada em escala crescente. Alguns exemplos ajudam a tornar isso mais palpável.

O resfriamento passivo em construções, por meio de telhados reflexivos, ventilação natural e arquitetura bioclimática, reduz o consumo de energia e ao mesmo tempo protege populações do calor extremo, unindo mitigação e adaptação em uma única solução.

A restauração de manguezais e recifes de coral funciona como barreira natural contra tempestades e elevação do nível do mar, ao mesmo tempo em que armazena carbono e protege a biodiversidade marinha.

A agricultura regenerativa, que recupera a saúde do solo e reduz o uso de insumos químicos, ajuda a proteger a segurança alimentar justamente no cenário em que ela está mais ameaçada.

Nada disso resolve o problema sozinho. Mas cada uma dessas frentes, multiplicada por milhares de cidades, empresas e comunidades ao redor do mundo, começa a formar um caminho real de saída.

Justiça climática não é detalhe, é condição

Um dos pontos mais fortes do relatório é lembrar que essa transição só vai funcionar se for justa. Os países que mais contribuíram historicamente para o aquecimento global têm a responsabilidade de agir com mais força e mais rapidez.

Ao mesmo tempo, as nações e comunidades mais afetadas, muitas vezes as que menos contribuíram para o problema, precisam ter voz ativa nas decisões que vão definir o futuro do planeta.

Isso inclui financiamento climático acessível para países em desenvolvimento, transferência de tecnologia e mecanismos concretos para lidar com perdas e danos que já são irreversíveis em algumas regiões, como pequenas nações insulares que enfrentam risco real de desaparecimento territorial.
O que ainda depende de nós

Ultrapassar 1,5°C não é o fim de uma meta, é o início de outra fase dela. O relatório do PNUMA deixa claro que quanto menor for o pico de aquecimento e quanto mais curto for o período acima do limite, menores serão os danos, e maiores as chances de reverter o quadro ao longo das próximas décadas.

Isso depende de vontade política, de investimento em soluções que já conhecemos e de uma cooperação internacional que coloque a urgência climática acima de interesses de curto prazo. Depende também de escolhas cotidianas, de pressão social, de cobrança sobre governos e empresas.

A ciência já entregou os diagnósticos possíveis. O que vem a seguir é decisão humana, coletiva e urgente. (ecodebate)

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Diretrizes e riscos climáticos associados ao limite de 1,5°C

Diretrizes e riscos climáticos associados ao limite de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.
O limite de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais é a meta de segurança do Acordo de Paris para evitar os piores impactos das mudanças climáticas.

Riscos Climáticos

• Eventos extremos: Aumento drástico na frequência e intensidade de ondas de calor, secas severas, tempestades e inundações.

• Pontos de inflexão: Risco de mudanças irreversíveis, como a desestabilização de mantos de gelo e a degradação da Floresta Amazônica.

• Impactos socioeconômicos: Prejuízos severos à segurança alimentar, à produção agrícola e deslocamento de comunidades vulneráveis.

Diretrizes de Ação

• Corte de emissões: Redução urgente e profunda de gases de efeito estufa, com transição energética para fontes renováveis e fim dos combustíveis fósseis.

• Mitigação e adaptação: Integrar ações de redução de carbono com estratégias de resiliência e manejo de água em áreas afetadas.

• Governança global: Fortalecer a cooperação internacional, a justiça climática e o apoio a países e populações vulneráveis.

O relatório do PNUMA, intitulado “Limiting Overshoot – Navigating exceedance of 1.5°C and pathways towards return”, examina as implicações de entrar em uma era de ultrapassagem do limite de 1,5°C e as opções que ainda estão disponíveis.

Conheça a síntese do relatório e as propostas apresentadas:

À medida que o aumento da temperatura global se prepara para ultrapassar 1,5°C acima dos níveis pré-industriais nos próximos anos, os riscos e impactos climáticos atingirão patamares perigosos e inéditos. O mundo deve se esforçar para minimizar as temperaturas de pico, retornar a 1,5°C ou menos o mais rápido possível e reduzir a vulnerabilidade das sociedades, comunidades e economias aos impactos que não podem ser evitados.

1. Consequências de ultrapassar o limite de 1,5°C

Apesar de algum progresso no enfrentamento das mudanças climáticas, o aumento da temperatura global está prestes a ultrapassar 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, provavelmente nos próximos anos. Não há resultados favoráveis em permanecer acima de 1,5°C.

Os riscos e impactos acima de 1,5°C se intensificam com cada fração de grau. Eles podem crescer com o tempo ou surgir repentinamente, incluindo:

Clima extremo e submersão costeira: Clima extremo intensificado, perda de ecossistemas e submersão de Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS) e cidades costeiras de baixa altitude. Para um aquecimento de até menos de 3°C, os glaciares podem perder mais de um quarto de sua massa até 2100, elevando o nível do mar em 12,5 cm, enquanto ecossistemas danificados ou fragmentados podem acelerar as mudanças climáticas.

Danos à saúde e à segurança alimentar: Danos graves à saúde humana, segurança alimentar, abastecimento de água, natureza, cidades, infraestrutura e economias. Por exemplo, a produção global de alimentos pode diminuir em até 14% até 2050 na ausência de uma adaptação eficaz.

Ultrapassagem de limiares irreversíveis: Ultrapassagem de limiares (pontos de não retorno) que se tornam difíceis ou impossíveis de reverter em escalas de tempo humanas. Os pontos de inflexão potenciais incluem mudanças irreversíveis nas calotas polares, na Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC) e na floresta amazônica.

2. A trajetória de “excesso, pico e declínio” (overshoot, peak and decline)

Seguir uma trajetória de “excesso, pico e declínio” (overshoot, peak and decline) é a melhor opção restante para trazer as temperaturas de volta a 1,5°C ou menos até o final do século — o que continua sendo a meta — e para se adaptar aos impactos inevitáveis.

Essa trajetória segue três fases que podem coexistir no tempo e no espaço geográfico: resposta imediata, enfrentamento e contenção, e resiliência a longo prazo.

Minimização do pico de aquecimento: Essas fases visam minimizar o aumento da temperatura de pico por meio de cortes rápidos e sustentados nas emissões de gases de efeito estufa, incluindo o metano, no caminho rumo às emissões líquidas zero (net-zero) — um marco essencial que não pode ser ignorado — e trazê-las para abaixo de 1,5°C até o final do século por meio de emissões líquidas negativas a longo prazo.

Remoção complementar de carbono: Atingir emissões líquidas negativas exigirá a Remoção de Dióxido de Carbono (CDR) além de reduções rápidas de emissões, e não como um substituto para o fracasso na redução das emissões.

Redução de vulnerabilidades: Ao mesmo tempo, as fases preveem ações evolutivas e crescentes para reduzir a vulnerabilidade aos impactos atuais, esperados ou inesperados das mudanças climáticas — incluindo adaptações permanentes onde os limites irreversíveis já foram atingidos.

Coexistência e efeitos dinâmicos: Na prática, múltiplas fases coexistirão ao longo do tempo e entre diferentes regiões (e dentro delas). Espera-se que os impactos se acumulem dinamicamente ao longo da trajetória de excesso, pico e declínio, com cada fase herdando o legado das que a precederam.

3. A urgência de uma ação rápida, coletiva e global

Ação rápida, coletiva e global é vital: um aquecimento de pico menor e uma duração mais curta de superação do limite reduzirão os riscos e impactos, tornarão os esforços para ajudar as comunidades a lidar com a situação menos difíceis e onerosos, e aumentarão as chances de trazer as temperaturas de volta para baixo.

Mitigação de pontos de inflexão: Os riscos de pontos de inflexão aumentam com cada fração de aquecimento; reduzir o aquecimento de pico por meio de ações precoces e do avanço rumo ao net-zero continua sendo uma das formas mais eficazes de mitigar esses riscos.

Condições facilitadoras essenciais: Forte vontade política e multilateralismo, políticas eficazes, governança inclusiva e financiamento são condições essenciais para a ação. A rapidez e a força com que essa ação ocorrerá definirão a trajetória desse caminho.

Geração de co-benefícios: As intervenções climáticas também geram co-benefícios significativos, como melhoria da qualidade do ar, melhor saúde pública, menores custos de energia, acesso seguro à eletricidade, maior equidade e menor pressão sobre os sistemas energéticos.

4. Centralidade da equidade e justiça nas estratégias

A equidade e a justiça devem constituir o cerne das estratégias para proteger os vulneráveis, criar uma transição justa e garantir um futuro habitável para as próximas gerações.

Responsabilidade histórica diferenciada: Os países com maior responsabilidade histórica pelas mudanças climáticas devem agir de forma mais firme e rápida. Os países desproporcionalmente afetados pelas mudanças climáticas devem ser parte integrante das decisões e ações globais. Esta geração precisa agir, não apenas a próxima.

5. Interconexão e reforço mútuo entre mitigação e adaptação

A mitigação e a adaptação estão interconectadas e se reforçam mutuamente. Elas devem avançar juntas, ao mesmo tempo em que respondem aos riscos emergentes.

Priorização de sinergias: Intervenções que alcancem metas tanto de mitigação quanto de adaptação — como o resfriamento passivo — devem ser priorizadas.

Risco de vulnerabilidade cruzada: Uma mitigação fraca aumentará os impactos e poderá desviar recursos para respostas de emergência, enquanto os esforços de mitigação que não forem adaptados de forma robusta estarão severamente vulneráveis.

Adaptação transformacional: A adaptação estabelecida agora forma a base para os esforços futuros, mas deve se tornar transformacional e altamente responsiva a riscos em evolução, não lineares e de surgimento abrupto.

6. Remoção de dióxido de carbono (cdr): Necessária, mas com limites e riscos

A Remoção de Dióxido de Carbono (CDR) — o processo de remover o carbono do ar e armazená-lo por meio de reflorestamento ou outros métodos — será necessária de forma complementar, e não como substituta, às reduções contínuas nas emissões de gases de efeito estufa; contudo, esses métodos trazem riscos e compensações (trade-offs) que limitam seu potencial e exigem uma governança cuidadosa.

Contribuição crível limitada: A CDR só pode contribuir de forma crível para o retorno a menos de 1,5°C se o aquecimento de pico permanecer bem abaixo de 2°C e todas as emissões restantes forem reduzidas de forma drástica. Mesmo uma expansão extremamente otimista da CDR dificilmente reduzirá as temperaturas em mais de alguns décimos de grau neste século.

Governança rigorosa e salvaguardas: Estruturas robustas de governança sobre a CDR são extremamente necessárias para gerenciar as implicações para a equidade, escala e adoção — e para fornecer salvaguardas rigorosas à exploração de tecnologias novas e incertas que possam acarretar consequências negativas colaterais e imprevistas.

7. Incerteza do retorno e perdas irreversíveis

O retorno a 1,5°C ou menos é incerto. Mesmo que o retorno a menos de 1,5°C seja garantido, muitas nações e comunidades enfrentarão perdas irreversíveis e condições permanentemente alteradas.

Isso levanta questões cruciais de justiça, poder e legitimidade política, o que exigirá novos arranjos de governança verdadeiramente inclusivos.

Deslocamentos e reajuste social: Como resultado de mudanças climáticas permanentes, muitas comunidades podem ter se deslocado ou alterado permanentemente seus meios de subsistência, enquanto as sociedades enfrentarão o imenso desafio do reajuste social.

Evolução e demandas da governança global: Os arranjos de governança terão de evoluir substancialmente para resolver questões difíceis e sensíveis, tais como decidir o que será reconstruído, como os meios de subsistência serão reconfigurados, como perdas e danos históricos serão formalmente tratados, e como a soberania e os direitos de Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS) e de seus povos serão respeitados, mesmo diante do risco de desaparecimento iminente de seus territórios físicos. (ecodebate)

sábado, 19 de setembro de 2026

Mudanças climáticas expõem no Brasil 9 milhões de crianças

Mudanças climáticas já expõem 9 milhões de crianças no Brasil a um mês a mais de calor perigoso.
Estudo revela que 32% das crianças de até 9 anos no país vivem estresse térmico extremo; em cenário de aquecimento global de 2°C, esse número pode chegar a 49%.

Pesquisa da Vrije Universiteit Brussel (VUB) publicada na revista Science Advances mostra que o calor extremo, impulsionado pela queima de combustíveis fósseis, já multiplicou por dez a exposição prolongada de crianças brasileiras ao estresse térmico. Especialistas alertam para a urgência de adaptação climática nas cidades.

Estudo publicado na revista Science Advances aponta que 32% das crianças de até 9 anos no país enfrentam ao menos 30 dias adicionais de estresse térmico; em cenário de 2°C de aquecimento, proporção pode chegar a 49%.

Uma nova pesquisa da Vrije Universiteit Brussel (VUB) mostra que, globalmente, até 560 milhões de crianças de 0 a 9 anos — 43% das crianças dessa faixa etária — vivem pelo menos 30 dias adicionais de estresse térmico por ano devido às mudanças climáticas. A exposição supera a de qualquer outra faixa etária e é quase três vezes maior, em números absolutos, do que a registrada entre pessoas de 60 a 69 anos: 190 milhões, ou 30% dessa população, enfrentam essa ameaça adicional à saúde.

No Brasil, as mudanças climáticas causadas pela ação humana já expõem 9,2 milhões de crianças de 0 a 9 anos — 32% dessa população no país — a pelo menos um mês adicional de estresse térmico por ano. O impacto é ainda mais expressivo quando se considera a exposição prolongada ao calor: as mudanças climáticas multiplicaram por dez o número de crianças brasileiras dessa faixa etária expostas a pelo menos 5 meses de estresse térmico perigoso por ano, de 300 mil para 3,2 milhões, o equivalente a 11% dessa população.

“São os nossos filhos que serão mais atingidos pela crise climática. Como pais e mães que querem deixar como legado um mundo ainda com qualidade de vida para os nossos filhos, precisamos lutar pela adaptação climática nas cidades”, afirma o pediatra e sanitarista Daniel Becker. “Isso significa pressionar para que as cidades sejam muito mais arborizadas, que ofereçam sombra, inclusive nas áreas mais pobres e periféricas, com bons espaços para as crianças brincarem. São os mesmos investimentos que trazem qualidade de vida e adaptação climática, com soluções baseadas na natureza”.

O estudo é a primeira análise a quantificar como a exposição ao calor diretamente relacionada às mudanças climáticas afeta diferentes grupos etários globalmente, tanto no presente quanto em um futuro próximo. Os dados fazem parte da pesquisa publicada nesta semana na revista científica Science Advances.

“Nossos resultados indicam que, atualmente, quase um terço de todas as crianças brasileiras com menos de 10 anos está exposto a um mês adicional de estresse térmico por ano e que, se o aquecimento global chegar a 2°C, essa proporção aumentará para quase metade das crianças menores de 10 anos no Brasil”, destacou Rosa Pietroiusti, uma das autoras do estudo. “Os países precisam investir urgentemente em mitigação e adaptação, reduzir as emissões provenientes de fontes fósseis de energia, conter o aquecimento global e proteger os grupos mais vulneráveis das consequências do calor perigoso”.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores combinaram dados populacionais com modelos climáticos de ponta e métodos da ciência de atribuição, que permitem identificar o papel das mudanças climáticas em eventos climáticos extremos. Os dados mostram que os riscos das mudanças climáticas para a saúde já estão presentes e são distribuídos de forma desigual entre gerações e regiões do planeta.
 
Impactos na saúde

Segundo a pesquisa, o calor excessivo interfere no funcionamento normal do corpo humano, agrava doenças preexistentes e pode levar a complicações graves, como insolação, desidratação e falência de órgãos. As ondas de calor perigosas estão se tornando mais frequentes e intensas devido às mudanças climáticas, impulsionadas principalmente pela queima de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás.

O estudo concentra-se no calor úmido, mais perigoso do que o calor seco porque dificulta a evaporação do suor e, consequentemente, a capacidade do corpo de se resfriar, levando a níveis perigosos de estresse térmico.

As crianças são especialmente vulneráveis ao calor extremo porque seus corpos aquecem mais rapidamente do que os dos adultos, transpiram com menos eficiência e dependem dos cuidados de outras pessoas para se proteger. O superaquecimento pode causar riscos graves à saúde, incluindo desidratação e insolação, além de impactos na aprendizagem e no desenvolvimento cognitivo.

As descobertas chegam em um momento crítico para as políticas climáticas. A crise energética em curso evidenciou ainda mais os riscos da dependência de combustíveis fósseis, e 2026 já registrou algumas das ondas de calor mais severas já observadas, algumas delas virtualmente impossíveis sem a influência das mudanças climáticas.

Exposição das crianças brasileiras

No Brasil, quase metade das crianças pode enfrentar pelo menos um mês adicional de calor em um mundo 2°C mais quente. O estudo também projeta a exposição das crianças brasileiras em cenários de 1,5°C e 2°C de aquecimento global.

Em um mundo 1,5°C mais quente

9,5 milhões de crianças brasileiras de 0 a 9 anos, ou 38% dessa faixa etária, estarão expostas a pelo menos um mês adicional de estresse térmico por ano;

2,9 milhões de crianças, ou 11%, vivenciarão pelo menos cinco meses — 150 dias — de estresse térmico total por ano.

Em um mundo 2°C mais quente

8,7 milhões de crianças brasileiras de 0 a 9 anos, ou 49% dessa faixa etária, estarão expostas a pelo menos um mês adicional de estresse térmico por ano;

2,5 milhões de crianças, ou 14%, vivenciarão pelo menos cinco meses — 150 dias — de estresse térmico total por ano.

Embora o número absoluto de crianças seja menor no cenário de 2°C, a proporção exposta aumenta de 38% para 49%. Isso ocorre porque as projeções consideram não apenas as mudanças no clima, mas também mudanças demográficas: a população infantil projetada é menor nesse cenário. A exposição atual, por sua vez, é estimada com base em dados populacionais de 2023.

Principais conclusões do estudo:

● Impactos atuais:

As mudanças climáticas quase triplicaram o número de crianças expostas a pelo menos cinco meses (150 dias) de estresse térmico total globalmente: de 120 milhões — 9% das crianças atualmente — em um mundo sem mudanças climáticas para 350 milhões, ou 27%, hoje. Esse número é quase três vezes maior do que o de adultos de 60 a 69 anos expostos a pelo menos cinco meses de estresse térmico total: 120 milhões, ou 18% dessa população.

● Disparidade geográfica:

Os maiores aumentos de calor úmido devido às mudanças climáticas estão ocorrendo em regiões tropicais e países mais pobres, onde as populações são mais jovens e, portanto, mais crianças são afetadas. Sul da Ásia, Sudeste Asiático e África Ocidental são as regiões com o maior número de crianças expostas ao estresse térmico perigoso atualmente.

● Cenários futuros:

As crianças continuarão desproporcionalmente expostas em comparação com todos os outros grupos etários, independentemente do envelhecimento da população global:

Em um mundo com +1,5°C: estima-se que 620 milhões de crianças de 0 a 9 anos (49%) vivenciem pelo menos um mês adicional de estresse térmico por ano, e 390 milhões (31%), pelo menos cinco meses de estresse térmico total.

Em um mundo com +2°C: estima-se que 650 milhões de crianças de 0 a 9 anos (59%) vivenciem pelo menos um mês adicional de estresse térmico por ano, e 420 milhões (37%), pelo menos cinco meses de estresse térmico total.


Sem adaptação urbana, calor extremo pode afetar vida de metade das crianças no país, aponta estudo

Estudo internacional revela que a queima de combustíveis fósseis multiplicou por dez a exposição prolongada ao estresse térmico entre menores de 9 anos no país.

Notas:

Como o estudo define estresse térmico

Os dias de estresse térmico são definidos como aqueles em que o índice WBGT (Wet Bulb Globe Temperature, ou temperatura de globo e bulbo úmido) à sombra supera 28°C. Nessas condições, medidas de proteção, como redução da atividade física ou períodos estruturados de descanso, são recomendadas para prevenir doenças relacionadas ao calor.

O que são “dias adicionais” de estresse térmico

Os dias adicionais correspondem ao número de dias de estresse térmico atribuíveis às mudanças climáticas causadas pela ação humana, ou seja, dias que não ocorreriam na ausência das mudanças climáticas antropogênicas.

Essa estimativa é feita utilizando métodos de atribuição aplicados a dados de reanálise baseados em observações ou a dados de modelos climáticos globais.

Criança brinca em águas rasas sob um céu azul. Certos patógenos aquáticos estão se tornando mais comuns com o aquecimento global.

Dados populacionais e projeções

A exposição atual da população ao estresse térmico é estimada utilizando dados populacionais de 2023.

As projeções para um mundo com 1,5°C e 2°C de aquecimento global consideram tanto as mudanças climáticas estimadas pelos modelos climáticos globais quanto mudanças demográficas sob um cenário intermediário de desenvolvimento socioeconômico.

Instituições participantes

O estudo foi conduzido por uma equipe internacional de pesquisadores liderada pelo Departamento de Água e Clima da Vrije Universiteit Brussel (VUB), em colaboração com pesquisadores da ETH Zurique, Universidade de Oxford, Universidade de Waikato e Instituto Potsdam para Pesquisa de Impactos Climáticos.

Outros estudos e relatórios

Os resultados deste estudo também contribuíram para um relatório recente do UNICEF, que mostrou que 550 milhões de crianças em todo o mundo estão expostas ao calor extremo atribuível às mudanças climáticas causadas pela ação humana.

O estudo acrescenta novas evidências aos impactos já documentados das mudanças climáticas sobre a saúde humana. O Lancet Countdown 2025 sobre Saúde e Mudanças Climáticas destaca danos à saúde em todo o mundo associados ao calor extremo, eventos climáticos extremos, secas e doenças infecciosas cada vez mais disseminadas, além da pressão crescente sobre os sistemas de saúde.

Os autores da VUB também contribuíram para um relatório recente da Save the Children, segundo o qual cerca de 100 milhões das 120 milhões de crianças nascidas em 2020 enfrentarão uma exposição sem precedentes a ondas de calor.

El Niño faz aumentar o aquecimento global, gerando mudanças climáticas cada vez muito mais catastróficas. (ecodebate)

Colapso de geleira no Nepal é um alerta para os Alpes e os Andes

Foto de área urbana parcialmente soterrada pelas inundações repentinas que devastaram os distritos de Rasuwa, Nuwakot e Dhading, no Nepal, em 26/08/2026.
Cientistas apontam que o aquecimento acelerado das montanhas aumenta o risco de rompimentos glaciais em cadeias como os Alpes e os Andes, regiões que já registraram eventos parecidos com o que atingiu comunidades no Himalaia

Investigações preliminares indicam que um grande bloco de geleira se desprendeu e represou temporariamente um rio no Nepal antes de liberar uma onda destrutiva. Especialistas alertam que o mesmo tipo de fenômeno ameaça vales povoados na Suíça e no Peru, à medida que o degelo se acelera em todo o planeta.

O desastre no Nepal

Colapso glacial: o fenômeno que causou a enchente repentina na fronteira entre Nepal e Tibete.

A enchente repentina que atingiu o Nepal provavelmente foi causada por um grande bloco de geleira que se desprendeu e represou temporariamente um rio, segundo investigações preliminares de cientistas. O acúmulo de água pode ter sido liberado horas depois, avançando rio abaixo com força destrutiva.

Equipes de pesquisa ainda reúnem dados de satélite e de campo para reconstituir com precisão o que ocorreu na tragédia, que deixou centenas de mortos e muitos desaparecidos, entre eles estrangeiros e peregrinos que visitavam a região.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) registrou nesta quarta-feira um evento de magnitude 5,2 associado ao colapso da geleira, que enviou detritos rio abaixo com impacto catastrófico sobre as comunidades. A conclusão se baseou em dados de estações sismológicas próximas, ondas sísmicas de longo período e imagens de satélite.

Para os cientistas, ainda é cedo para estabelecer uma relação direta entre o aquecimento global e a catástrofe desta semana. Ainda assim, eles reforçam que, à medida que a temperatura da Terra sobe por causa de atividades humanas como a queima de petróleo, gás e carvão, aumentam as chances de desastres desse tipo, sobretudo nas montanhas do Himalaia, que estão esquentando bem mais rápido do que a maior parte do planeta.

Centenas de famílias perderam suas casas na região do Himalaia, e autoridades relataram danos de grande escala em infraestruturas essenciais, incluindo hidrelétricas, estradas, edifícios e pontes.

A água subiu antes que houvesse tempo de fugir

Funcionário de hidrelétrica registra fuga desesperada durante avalanche de lama no Nepal

Vivek Shrestha trabalha em um projeto hidrelétrico no rio Trishuli, na região de Mailung. Ele foi resgatado de helicóptero e compartilhou relato nas redes sociais.

Em alguns pontos da região atingida, o nível dos rios subiu até 9 metros em apenas 30 minutos, resultado da onda provocada pelo desprendimento da geleira nas partes mais altas, segundo pesquisadores de um centro de estudos climáticos com sede em Katmandu.

Evidências preliminares sugerem que um grande volume de gelo e rocha caiu no rio Lhende Khola, um afluente do Bhote Koshi. Segundo os pesquisadores, o colapso pode ter deslocado a água e arrastado sedimentos soltos e pedregulhos, formando uma onda poderosa rio abaixo. Os especialistas também investigam se os detritos chegaram a represar o rio antes que a água acumulada rompesse a barreira, potencializando ainda mais a enchente.

O Himalaia esquenta rápido demais

A cordilheira do Hindu Kush Himalaia está entre as regiões que mais aquecem no planeta, o que provoca mudanças profundas em geleiras, cobertura de neve, permafrost e encostas montanhosas.

As montanhas concentram o maior volume de neve e gelo fora das regiões polares. Mais de 63 mil geleiras na área alimentam ao menos 10 grandes sistemas fluviais da Ásia e sustentam a segurança alimentar, hídrica e energética de bilhões de pessoas.

Ainda assim, cerca de 78% da área de geleiras da região, situada entre 4.500 e 6.000 metros de altitude, está altamente exposta ao aquecimento.

A última década foi o período mais quente já registrado globalmente, e 2024 foi o ano mais quente da história. Relatórios da ONU apontam que, entre 2000 e 2019, as geleiras perderam 267 gigatoneladas de gelo por ano, um volume equivalente à massa de 46,5 mil pirâmides de Gizé.

Em um cenário de aquecimento contínuo, projeções indicam a perda de até metade de todas as geleiras do mundo (excluindo Groenlândia e Antártida) até 2100, mesmo que o aquecimento global seja limitado a 1,5°C. As políticas climáticas atuais, porém, colocam o planeta em uma trajetória de aquecimento de cerca de 2,8°C até o fim do século.

Levantamentos do centro de pesquisa de Katmandu mostram que as geleiras dessas cordilheiras derretem em ritmo cada vez mais acelerado, com a perda de gelo dobrando desde os anos 2000.

O derretimento acelerado alimenta e amplia lagos glaciais, aumentando o potencial de enchentes repentinas. Ao mesmo tempo, quando as geleiras recuam, rochas antes protegidas pelo gelo ficam expostas a temperaturas mais altas, chuva e ciclos de congelamento e degelo. O permafrost, solo que permanece congelado por longos períodos, também derrete, o que enfraquece encostas inteiras.
Os Alpes já viveram um desastre parecido

Os ALPES estão DERRETENDO

Desde 1850, as geleiras dos Alpes perderam mais de 60% do seu volume de gelo.

Só entre 2000 e 2020, mais de 40% das geleiras da região desapareceram, incluindo algumas que existiam há milhares de anos (não estamos falando da cobertura de neve).

O risco de colapsos glaciais não é exclusividade do Himalaia. Em maio, o colapso da geleira Birch, nos Alpes suíços, soterrou boa parte da vila de Blatten, no cantão de Valais. O episódio começou com sinais de instabilidade na encosta do Petit Nesthorn, monitorada havia semanas por causa de deslizamentos de rocha. Blocos de pedra se desprenderam e caíram sobre a geleira, que passou a receber uma carga enorme de detritos até entrar em colapso.

O resultado foi uma sequência de desastres em cadeia: soterramento quase total da vila por gelo, lama e rochas; interrupção do curso do rio Lonza, com represamento da água; e formação rápida de um lago que passou a submergir as estruturas restantes. Autoridades suíças mantiveram o vale de Lötschental em estado de alerta, já que um rompimento repentino da barreira natural formada pelos sedimentos poderia provocar novas enchentes em outras aldeias rio abaixo.

O caso de Blatten expôs um problema que preocupa cientistas em toda a cadeia dos Alpes: o degelo do permafrost enfraquece encostas inteiras e aumenta o risco de grandes deslizamentos de rocha. Em outras localidades suíças, como Kandersteg, no cantão de Berna, autoridades também monitoram encostas instáveis associadas ao degelo do permafrost, com risco de deslizamentos capazes de ameaçar vilarejos inteiros.

Um levantamento recente estima em cerca de 2,2 milhões o número de pessoas expostas ao risco de enchentes provocadas por rompimento de lagos glaciais na região dos Alpes.

Nos Andes, o Peru já viveu a pior tragédia do tipo

O corpo do fotógrafo brasileiro Edson Vandeira foi resgatado da montanha onde desapareceu, no Peru. A equipe de resgate precisou subir mais de 5.000 metros de altitude. Um helicóptero foi utilizado na operação.

Do outro lado do planeta, os Andes enfrentam um risco semelhante, com destaque para o Peru, país que concentra a maior parte das geleiras tropicais do mundo. Estudos recentes estimam em cerca de 2,5 milhões o número de pessoas expostas a enchentes por rompimento de lagos glaciais na cordilheira andina, a maioria delas no Peru e na Bolívia.

O país já viveu o pior cenário possível. Em 1941, uma avalanche de neve e gelo caiu na Laguna Palcacocha, um lago glacial nos Andes peruanos, e provocou uma onda que rompeu a barreira natural de sedimentos que continha as águas. O desastre matou milhares de pessoas na cidade de Huaraz. Desde então, o Peru já registrou mais de 140 eventos do tipo, e a tendência é de alta.

Assim como no Himalaia e nos Alpes, o degelo constante no país andino não apenas forma novos lagos glaciais, como também desestabiliza montanhas inteiras. O derretimento do permafrost, que funciona como uma espécie de cola natural nas encostas, provoca um efeito em cadeia de instabilidade que pode culminar em deslizamentos, avalanches e rompimentos de barragens naturais, ameaçando vales densamente povoados.
Um problema global que exige respostas rápidas

O planeta mandou o recado de novo.

E a natureza não avisa antes de agir.

Essa tragédia no Nepal é a prova escancarada do que acontece quando o ser humano ignora os limites da terra.

Sustentabilidade não é conversa bonita.

É a única barreira entre a nossa existência e o colapso do meio ambiente.

Quando a gente ocupa o planeta de qualquer jeito, o resultado aparece rápido:

A vegetação arrancada deixa a terra solta para desabar;

O leito do rio invadido cobra o espaço dele de volta;

As mudanças climáticas transformam a falta de respeito ambiental em tragédia.

A terra não negocia com a ignorância humana.

Ou a gente aprende a respeitar o solo que pisa, ou vamos continuar assistindo a essas cenas até ser tarde demais.

Você acha que a humanidade ainda vai aprender a respeitar a força da natureza ou a gente já passou do ponto de retorno? Me conta o que você pensa disso.

Desprendimento de geleira no Nepal causa terremoto de magnitude 5,2.

Um estudo publicado na revista científica Nature Communications, conduzido por pesquisadores das universidades britânicas de Newcastle e Northumbria, mapeou a partir de dados de satélite as áreas de maior risco e vulnerabilidade a esse tipo de desastre em todo o planeta.

O levantamento concluiu que ao menos 15 milhões de pessoas vivem em áreas expostas ao risco de enchentes por rompimento de lagos glaciais, sendo que mais da metade desse total está concentrada em apenas quatro países: Índia, Paquistão, Peru e China.

Segundo o cálculo dos autores, cerca de 9 milhões de pessoas estão ameaçadas nas proximidades do Himalaia, 2,5 milhões nos Andes e 2,2 milhões nos Alpes. Um dos coordenadores da pesquisa, o professor Thomas Robinson, da Escola de Terra e Meio Ambiente da Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia, destaca que os Andes, embora recebam menos estudos científicos do que o Himalaia, apresentam potencial de impacto comparável para desastres desse tipo, o que reforça a necessidade de monitoramento mais próximo em países como Peru e Bolívia.

Cientistas defendem que sistemas de alerta antecipado mais eficientes, monitoramento constante e troca rápida de informações entre países vizinhos serão cada vez mais importantes à medida que as temperaturas sobem e as paisagens de montanha se tornam menos estáveis.

O desafio, porém, é enorme porque monitorar milhares de geleiras, encostas íngremes e vales fluviais ao longo de cordilheiras inteiras é uma tarefa extremamente difícil.

Tragédia no Nepal: os sinais da mudança climática diante dos nossos olhos

As causas ainda estão sendo investigadas, mas as primeiras análises apontam para o colapso de parte de uma geleira.

Quando desastres em cadeia começam, muitas vezes, restam apenas alguns minutos para tentar sobreviver. (ecodebate)

terça-feira, 15 de setembro de 2026

El Niño leva aquecimento dos oceanos a território desconhecido

El Niño excepcionalmente forte impulsiona aquecimento global dos oceanos e leva temperatura média da superfície do mar ao maior valor já registrado no planeta.

Os oceanos do planeta atingiram um novo recorde de temperatura agora em agosto em um sinal de que o aquecimento do sistema climático global continua avançando com o fenômeno El Niño agravando ainda mais o aquecimento.
A temperatura média da superfície do mar chegou a 21,10°C em 22/08/2026, segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S), da União Europeia. O valor supera o recorde anterior de 21,09°C, registrado em março/2024.

Os dados fazem parte da série do ERA5, produzida pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), que utiliza registros desde 1979 para o acompanhamento diário no Climate Pulse.

O novo recorde chama atenção principalmente pela época do ano. As temperaturas médias globais da superfície do mar normalmente atingem os maiores valores em março e abril, depois do verão no Hemisfério Sul.

Ainda assim, em pleno mês de agosto, o planeta registrou uma temperatura superior ao recorde absoluto anterior. O valor também ficou acima do maior registro para agosto, de 20,98°C, observado em 2023.

Para os cientistas, o resultado não representa uma surpresa isolada. Ele ocorre dentro de uma tendência de longo prazo de aquecimento dos oceanos associada ao aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.

“O recorde é outro sinal claro de um oceano sob crescente estresse”, afirmou Samantha Burgess, líder estratégica para o clima do ECMWF.

Segundo Burgess, o atual El Niño está acrescentando calor ao sistema climático. O fenômeno, porém, atua sobre um oceano que já apresenta temperaturas cada vez mais elevadas devido ao aquecimento observado ao longo das últimas décadas.

O momento também é marcado pelo desenvolvimento de um El Niño excepcionalmente forte no Pacífico tropical. O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial e provoca alterações na circulação atmosférica em escala global.

As mudanças podem modificar os padrões de chuva e temperatura em diferentes continentes. Também podem alterar a distribuição e a intensidade de determinados eventos extremos.

O aquecimento do oceano, entretanto, não depende exclusivamente do El Niño. O fenômeno climático atua como um fator adicional sobre uma tendência de aquecimento que já vinha sendo observada antes de sua formação.

Essa combinação ajuda a explicar por que um recorde global de temperatura da superfície do mar foi alcançado em agosto, um mês que normalmente está distante do período de maior aquecimento médio anual dos oceanos.

O comportamento das águas oceânicas tem consequências importantes para os ecossistemas marinhos. Temperaturas mais elevadas aumentam o risco de ondas de calor marinhas, que podem persistir durante períodos prolongados e provocar impactos sobre espécies e habitats.

Recifes de coral estão entre os ambientes mais vulneráveis. O calor excessivo pode provocar branqueamento e aumentar o estresse sobre organismos que formam esses ecossistemas.

Pradarias marinhas e outras áreas costeiras também podem sofrer impactos. Alterações nesses ambientes podem afetar cadeias alimentares e espécies que dependem deles para alimentação, reprodução ou abrigo.

As consequências chegam também à atividade econômica. Pesca e aquicultura podem ser afetadas por mudanças na distribuição das espécies e pelas alterações nas condições ambientais do oceano.

Outro problema é o aumento do nível do mar. A água se expande quando fica mais quente, contribuindo para a elevação do nível dos oceanos. O processo ocorre simultaneamente ao derretimento de geleiras e mantos de gelo continentais. O resultado aumenta a vulnerabilidade de cidades costeiras e regiões de baixa altitude.

O oceano também desempenha um papel fundamental na regulação do clima porque absorve grande quantidade do excesso de calor e parte do dióxido de carbono presente na atmosfera.

Com o aumento da temperatura da água, entretanto, sua capacidade de absorver dióxido de carbono pode diminuir. Isso representa uma preocupação adicional para o equilíbrio climático.

O aquecimento oceânico também pode fornecer mais energia e umidade para a atmosfera. Em determinadas circunstâncias, isso pode favorecer chuvas mais intensas e contribuir para o fortalecimento de alguns sistemas de tempestades.

Outro indicador da mudança é o aumento das ondas de calor marinhas. De acordo com Burgess, o número de dias com ondas de calor marinhas em escala global mais que triplicou desde o início da década de 1990.

O recorde de agosto ocorre, portanto, dentro de uma sequência mais ampla de temperaturas oceânicas excepcionalmente elevadas. Ao longo de 2026, diferentes regiões dos oceanos fora das áreas polares permaneceram muito quentes, mantendo os valores globais em níveis elevados.

O histórico recente mostra que os recordes oceânicos têm sido superados com rapidez. O recorde anterior havia sido estabelecido em março/2024 e agora já foi ultrapassado.

Ainda não é possível afirmar quanto tempo o novo recorde permanecerá vigente. O cientista climático Zachary Labe, da Climate Central, avalia que é possível que a marca seja superada novamente nos próximos meses.

Para os pesquisadores, porém, o significado mais importante não está apenas no valor de 21,1°C. O dado representa mais um indicador de um sistema climático que vem acumulando calor.

El Niño começa a interferir na vida marinha, anuncia a NASA

El Niño já provoca redução do fitoplâncton no Pacífico, afetando a cadeia alimentar marinha e ameaçando a pesca em áreas como o litoral do Peru. (metsul)

O verão que incendiou a Europa e mudou a relação do continente com o clima

O verão de 2026 na Europa ficou marcado por ondas de calor extremas, secas históricas e incêndios devastadores que destruíram mais de 600 mil hectares e transformaram a percepção pública sobre a crise climática no continente.

Impactos Principais

• Temperaturas Recordes: Os termômetros chegaram a marcas inéditas para o século, como 48,4°C na Sardenha (Itália) e 37°C na Dinamarca.

• Crise de Mortalidade: O calor intenso resultou em dezenas de milhares de mortes adicionais em países como França, Alemanha e Espanha.

• Seca nos Rios: Rios essenciais para o transporte e energia, como o Reno e o Danúbio, registraram níveis mínimos históricos que paralisaram portos e afetaram usinas nucleares.

• Incêndios Incomuns: O fogo atingiu regiões tradicionalmente frias ou úmidas, como a Bélgica e a Escócia.

A Mudança de Relação com o Clima

• Fim da Ilusão de Refúgio: Países do norte e centros urbanos antigos, que não contavam com infraestrutura para o calor (como ar-condicionado generalizado), viram o clima extremo virar rotina.

• Ecoansiedade: Cresceu de forma drástica o número de cidadãos que sofrem de angústia psicológica e preocupação com o futuro ambiental do planeta.

• Revisão de Políticas: Governos locais passaram a tratar o calor não mais como um incômodo sazonal, mas como uma emergência de saúde pública e segurança nacional.

Entre recordes de calor, rios secos e quase 600 mil hectares em chamas, o continente descobriu que o verão dourado da infância de gerações virou coisa do passado

Enquanto termômetros bateram 42°C e milhares de pessoas fugiram de casa por causa do fogo, a Europa também enfrenta uma epidemia silenciosa: a ecoansiedade que já afeta milhões e muda para sempre a relação do continente com suas próprias estações.

(Esquerda) Anomalias e extremos na temperatura do ar superficial em junho-julho/2026. As categorias de cores referem-se aos percentis das distribuições de temperatura para o período de referência de 1991-2020. As categorias “mais frias” e “mais quentes” identificam áreas onde as temperaturas foram as mais baixas ou mais altas para junho-julho durante 1979-2026. (À direita) Anomalias de temperatura média do ar da superfície de junho a julho para a Europa Ocidental (11°W–15°E, 37°S–55°N). As anomalias são relativas à média de junho a julho para o período 1991-2020.

Eu ouvi meus avós contarem sobre os verões europeus, como quem descreve um quadro pintado a óleo. Dias compridos, brisa suave, tardes agradáveis e o som distante de cigarras cantando ao entardecer. Essa imagem romântica, que alimentou gerações de viajantes, poetas e cineastas, parecia eterna, quase intocável pelo tempo. Mas 2026 chegou e rasgou a tela.

Maio ainda não tinha acabado quando as primeiras ondas de calor começaram a assar o continente. E não era aquele calor “gostoso” de praia, o tipo que convida para um mergulho e um sorvete. Era um ar sufocante, dos que grudam a roupa na pele e fazem o asfalto parecer que treme diante dos olhos. Os termômetros dispararam para 40°C, e não apenas na Espanha ou na Itália, países já acostumados com altas temperaturas no verão.

Nações que sempre foram sinônimos de frescor e céu nublado, como a Dinamarca, viram os termômetros baterem 37°C. Já a Eslováquia chegou a impressionantes 42,2°C. Recordes que ninguém queria comemorar, mas que entraram para a história mesmo assim.

Um verão sem trégua

E o pior é que esse sufoco não dava descanso. Até meados de agosto, a França já tinha vivido 52 dias em condições de onda de calor desde junho. Para se ter uma ideia da gravidade, os dias mais amenos foram tão raros que dava para contar nos dedos de uma mão. Em Paris, onde o ar-condicionado ainda é considerado um luxo em muitos lares antigos, moradores passaram a cobrir as janelas com mantas térmicas de sobrevivência, como se estivessem se preparando para enfrentar um cerco. E, de certa forma, era mesmo uma guerra, só que travada contra a temperatura.

Mas o problema não era apenas o desconforto do dia. O calor noturno, que se recusava a baixar mesmo depois da meia-noite, transformou o verão num pesadelo silencioso para milhões de pessoas. Entre junho e agosto/2026, estima-se que 32 mil mortes em excesso tenham ocorrido na Europa em razão das temperaturas extremas. São números frios no papel, mas que escondem histórias muito humanas: idosos que morreram sozinhos em apartamentos sem ventilação, famílias que não conseguiram proteger os mais frágeis a tempo, vizinhos que só perceberam a ausência dias depois.

As cicatrizes que não aparecem no termômetro

E mesmo quem sobreviveu fisicamente ao calor carregou marcas invisíveis. Um estudo francês revelou que 2,6 milhões de pessoas no país sofrem hoje de “ecoansiedade”, um misto de pessimismo, angústia existencial e isolamento social diante da certeza cada vez mais concreta de que o planeta está mudando para pior.

Não é exagero, é diagnóstico. E é um retrato de como o clima extremo já não afeta só o corpo, mas também a mente e o modo como as pessoas imaginam o próprio futuro.

Quando a terra pega fogo

Quando a natureza já parece estar de mau humor, ela não para por aí. O calor implacável secou rios, rachou o solo e forneceu combustível de sobra para incêndios devastadores. Até 12/08/2026, o fogo já tinha consumido quase 600 mil hectares em todo o continente, uma área maior do que o estado brasileiro de Sergipe inteiro.

Na França e na Espanha, dezenas de milhares de pessoas tiveram que abandonar suas casas às pressas, levando apenas o que conseguiam carregar nos braços. Até países como a Bélgica e a Escócia, conhecidos historicamente pela chuva constante e pelo céu cinza, viram chamas como nunca antes. A Bélgica, inclusive, viveu seu maior incêndio florestal em um século, um recorde triste para um país que raramente associava o verão ao medo do fogo.

A seca que ninguém via chegar

Enquanto colunas de fumaça subiam aos céus como sinistros sinais de alerta, outra catástrofe se espalhava devagar, quase invisível aos olhos de quem não presta atenção: a seca. No fim de julho, metade do continente já estava em estado de alerta hídrico. França, Suíça, Áustria e Eslovênia registraram os níveis mais baixos de umidade no solo já vistos em décadas.

A terra pedia água, e a água, ironicamente, também esquentava. O Mar Mediterrâneo bateu recordes de temperatura superficial em julho, chegando a 27°C. Em algumas áreas, durante as duas semanas mais quentes do verão, a água ficou até seis graus acima do normal histórico. Quem entrava no mar em busca de um refresco sentia menos um mergulho revigorante e mais um banho morno, quase incômodo.

Cientistas já sabiam, mas muitas pessoas ainda não queriam acreditar

E o que dizer dos cientistas que acompanham tudo isso com a calma de quem já previa o roteiro há tempos? Para eles, não houve surpresa alguma. Os modelos climáticos já desenhavam um verão como esse há anos, quase como um aviso ignorado.

A verdadeira surpresa, talvez, tenha a de quem ainda insistia em acreditar que o verão europeu seria sempre aquela tela dourada e serena, pintada por Van Gogh e reforçada por décadas de cartões-postais.

O que fica depois das cinzas

Agora, enquanto o continente tenta se reerguer entre cinzas e racionamento de água, fica a pergunta que ecoa em cada conversa de bar, em cada olhar perdido no metrô, em cada família que precisou recomeçar longe de casa: o que vem depois do verão que queimou a Europa?

Porque se 2026 nos mostrou alguma coisa, é que o sonho de um verão ameno e romântico chegou ao fim. E a realidade, essa sim, veio para ficar.

Área de incêndios florestais na Europa pode triplicar com mudança climática. (ecodebate)

O planeta vai ultrapassar 1,5°C

O planeta vai ultrapassar 1,5°C, mas ainda dá tempo de mudar o final dessa história. Sim, ainda dá tempo de mudar o final dessa história, ma...