sábado, 5 de setembro de 2026

Aquecimento global é uma emergência de saúde pública que bate à nossa porta

O aquecimento global é uma grave crise sanitária. Ele causa ondas de calor letais, acelera a propagação de vetores de doenças como a dengue, piora a poluição do ar e ameaça sistemas de saúde. Como aponta análises recentes sobre o tema no EcoDebate, o calor e as mudanças do clima alteram o comportamento de patógenos.

Impactos Diretos na Saúde

• Calor extremo: Provoca desidratação rápida, exaustão e sobrecarga cardiovascular.

• Doenças infecciosas: Temperaturas altas expandem as áreas de reprodução de mosquitos da dengue, zika e chikungunya.

• Problemas respiratórios: A poluição do ar agravada por queimadas afeta pulmões e vias aéreas.

• Segurança alimentar: Secas e tempestades reduzem a safra de alimentos e contaminam a água potável.

Grupos de Risco e Desafios

• Populações vulneráveis: Crianças, idosos e pessoas com males crônicos sofrem mais com as variações bruscas.

• Pressão hospitalar: Desastres climáticos geram picos de atendimento e risco de falhas estruturais em postos de atendimento.

• Ações locais: Especialistas cobram vigilância genômica e redes de atendimento preparadas para surtos repentinos.

Como as mudanças climáticas estão reescrevendo o mapa das doenças infecciosas e o que podemos fazer para nos preparar.

Relatório revela que o planeta em ebulição não transforma apenas o clima. Ele acelera a propagação de vírus, bactérias e fungos que antes estavam longe de nós. A boa notícia é que a ciência já sabe como agir.

A estação que não reconheço mais

Você já parou para reparar que o outono parece cada vez mais um verão prolongado? Que o inverno chega tarde e vai embora cedo, deixando um rastro de dias quentes onde antes era frio? Não é impressão sua. Eu também tenho sentido isso nas últimas temporadas e não estou falando apenas de desconforto térmico. Estou falando de algo muito mais silencioso e perigoso.

Essa virada no ritmo da natureza não está apenas bagunçando nossos calendários. Está reescrevendo, em tempo real, o mapa das doenças que nos cercam. O que antes era um problema de geleiras e ursos polares agora entrou pela porta da frente, no posto de saúde mais próximo, no boletim de dengue da sua cidade.

O relatório global “Role of Climate Change on Emerging and Reemerging Infectious Diseases: From Attribution to Action in Global Health Preparedness”, colocar isso em números e em palavras que não podemos mais ignorar: a mudança climática antropogênica, aquela que alimentamos a cada dia com nossa forma de produzir, consumir e viver, tornou-se uma ameaça fundamental à saúde pública. Não é uma ameaça futura. É atual, presente, e já está fazendo vítimas.

O motor invisível das epidemias

Quando falamos em aquecimento global, costumamos imaginar ondas de calor, secas, enchentes. Raramente pensamos em vírus. Mas a ciência hoje é categórica ao afirmar que o clima não é o cenário onde a vida acontece; ele é o motor principal da dinâmica das doenças infecciosas.

Microrganismos que antes estavam confinados a regiões tropicais, equilibrados por cadeias ecológicas estáveis, estão encontrando novos lares. Mosquitos migram para altitudes mais altas, pulgas sobrevivem a invernos mais curtos, fungos se adaptam a temperaturas que antes os inativariam. Não é ficção científica. É ecologia em movimento, impulsionada por nós.

O relatório me chamou a atenção para um campo que considero fascinante e ao mesmo tempo assustador: a Ciência da Atribuição. Diferente das afirmações vagas de que “o calor favorece doenças”, os cientistas estão agora quantificando com precisão o quanto de cada surto pode ser debitado diretamente à nossa interferência no clima.

Sabe aquela sensação de que todo ano a dengue chega mais forte? Ela tem lastro matemático. Os pesquisadores estimam que cerca de 18% da carga global de dengue entre 1995 e 2014 pode ser atribuída às mudanças climáticas. Não é um detalhe. É quase um quinto de todas as infecções. Em 2023, o Ciclone Yaku no Peru desencadeou chuvas extremas que tornaram o maior surto de dengue da história daquele país, 189% mais provável justamente por causa da interferência humana no clima.

Não são números frios. São leitos de UTI, famílias de luto, crianças com febre, idosos desidratados. Cada porcentagem ali tem um rosto.

Doenças que nunca pediram visto

O relatório elenca uma lista de velhos conhecidos que estão ganhando novo fôlego. O Vírus do Nilo Ocidental, que considerávamos um problema restrito a algumas regiões da África e Oriente Médio, agora se espalha pela Europa, aproveitando verões mais longos e invernos que não matam mais seus vetores. A própria peste, a mesma que dizimou populações na Idade Média, está reemergindo em focos pontuais porque roedores e pulgas encontram condições favoráveis em climas alterados.

Mas o que mais me impactou foi o alerta sobre infecções fúngicas invasivas, como a candidemia. Fungos sempre foram uma ameaça para pessoas imunossuprimidas, mas agora estão se adaptando ao calor do nosso planeta. E, como sabemos, fungos são particularmente difíceis de tratar. Há poucos medicamentos disponíveis e a resistência aumenta.

Parece um enredo de filme de suspense, mas é a realidade da pesquisa médica hoje. O calor ensina os patógenos a sobreviverem dentro de nós.

O que a COVID-19 nos ensinou e ainda não colocamos em prática

Se tem uma coisa que a pandemia de COVID-19 deixou muito clara é que sistemas de saúde frágeis e a desinformação matam tanto quanto o próprio vírus. Mas também nos mostrou o poder da ciência quando ela age rápido, de forma colaborativa e transparente.

O relatório sugere que o caminho para nos prepararmos para o que vem pela frente não é construir muros, mas sim pontes. Pontes entre laboratórios e comunidades, entre dados ambientais e registros médicos, entre governos e cidadãos.

Isso significa investir em diagnósticos acessíveis. Soa básico, mas muitas comunidades carecem dos testes mais simples para identificar um surto antes que ele se alastre. Significa também Vigilância Genômica, o monitoramento do material genético de patógenos, inclusive no esgoto das cidades, para detectar ameaças quando ainda são apenas um sinal fraco. E, acima de tudo, significa união global e local. O clima não respeita fronteiras e as doenças também não. Dados abertos, compartilhamento justo, cooperação entre países e entre vizinhos de bairro.

O que eu posso fazer?

É a pergunta que sempre faço quando o tema parece grande demais. Mudança climática, emergência sanitária, vigilância genômica, aparecem assuntos de cientistas em jalecos brancos e diplomatas em salas fechadas. Mas o relatório enfatiza que a transformação passa pelo engajamento comunitário.

E isso inclui você e eu

Profissionais de saúde precisam ser treinados para reconhecer essas “novas” doenças que estão ressurgindo e nós, como cidadãos, precisamos confiar na ciência, mas também cobrar políticas públicas de adaptação. Exigir que nosso posto de saúde tenha testes rápidos. Apoiar a ciência aberta. Entender que o ar que respiramos e a água que bebemos não são vetores de medo, mas de vida e que protegê-los é uma escolha coletiva.

A ciência da atribuição já nos mostra os números. A ciência da convergência nos mostra o caminho: integrar climatologia, medicina, ecologia e ciências sociais. Não dá mais para tratar cada área separadamente.

Um futuro que ainda podemos escrever

Fecho o relatório com uma mistura de inquietação e esperança. Inquietação porque os dados são incontornáveis. Esperança porque a ciência já sabe o que fazer. Diagnósticos acessíveis, vigilância genômica inteligente, sistemas de resposta rápida e, acima de tudo, humanidade.

Não é uma tarefa para laboratórios. É uma escolha de cada um de nós, todos os dias, ao votar, ao consumir, ao cobrar, ao cuidar do quintal e da saúde do vizinho.

O planeta está aquecendo, sim. Mas nosso coração e nossa razão também podem aquecer, no sentido de se mover, de agir, de se antecipar.

Porque, no fim, a maior vacina contra as doenças do amanhã é o conhecimento compartilhado hoje. E a melhor barreira contra o caos é a solidariedade. (ecodebate)

Super El Niño 2026: 10 fatos que você precisa saber

Saiba o que é o El Niño, sua relação com a crise climática e como se preparar para a seca, enchentes, queimadas e ondas de calor.
O El Niño é um fenômeno climático natural e recorrente que tem se tornado cada vez mais frequente e intenso. A queima de combustíveis fósseis, o desmatamento e o avanço da agropecuária contribuem para agravar seus efeitos, que são potencializados pela crise climática e pela desigualdade social. Como resultado, populações vulnerabilizadas e ecossistemas sensíveis ficam mais expostos a eventos extremos.

Os impactos do El Niño no Brasil costumam incluir o agravamento de secas, enchentes, ondas de calor, incêndios florestais, branqueamento de corais e aumento no preço de alimentos. Na última passagem do El Niño, em 2024, o país enfrentou a maior estiagem da história — com rios secos, queimadas intensas e muita fumaça na Amazônia e no Pantanal — e fortes chuvas, como as causadoras das enchentes no Rio Grande do Sul, o pior desastre climático do estado.

Quando esses eventos extremos se combinam com falta de planejamento público, os prejuízos sociais, econômicos e ambientais aumentam. 

1. Como o El Niño afeta as regiões do Brasil?

Os impactos do El Niño variam entre as regiões. No Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o fenômeno agrava a seca, o calor extremo e as queimadas. No Sudeste, favorece ondas de calor, baixa umidade e insegurança hídrica. No Sul, geralmente provoca chuvas acima da média, enchentes e deslizamentos. Em todo o Brasil, os preços dos alimentos, da água e da energia podem aumentar.

2. O que significa El Niño?

Segundo a agência científica NOAA, o nome El Niño surgiu há cerca de 200 anos, quando pescadores peruanos observaram que as águas do Oceano Pacífico ficavam mais quentes em determinados períodos, geralmente próximos ao Natal. Em homenagem ao Menino Jesus, eles passaram a chamar o fenômeno de “o menino” em espanhol.

3. Qual a relação entre El Niño e mudanças climáticas?

O El Niño está associado ao aquecimento das águas do oceano. Em um planeta mais quente devido às emissões de gases de efeito estufa (GEE), os oceanos absorvem cerca de 90% do excesso de calor gerado pela crise climática, influenciando regimes de chuva e vento, e potencializando eventos extremos.

4. Super El Niño não é alarme, é alerta

Ainda não é possível prever a intensidade do El Niño, mas os sistemas de monitoramento indicam que o fenômeno chegou e que precisamos de ação climática urgente, como mostram os efeitos das fortes chuvas, secas e ondas de calor nos últimos anos. De acordo com a plataforma Adapta Brasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), 65% dos municípios brasileiros têm baixa capacidade de adaptação climática, um alerta do quanto precisamos nos antecipar antes das tragédias acontecerem.

5. Risco de queimadas e fumaça

A maioria dos incêndios florestais tem origem humana. Em anos de El Niño, as queimadas tendem a se intensificar, como foi em 2024, quando a fumaça atingiu 10 estados da Amazônia e do Pantanal, aumentando problemas respiratórios, especialmente entre populações indígenas, ribeirinhas e periféricas. Relatório do Greenpeace mostra que a qualidade do ar violou as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS). O desmatamento e a degradação da floresta favorecem a propagação do fogo, que amplia as emissões, retroalimentando a crise climática.

Apoie o Greenpeace Brasil e faça a diferença!

6. Conta mais cara: comida, água e luz

A chuva intensa e a seca severa afetam a produção agrícola e pressionam o preço dos alimentos. No El Niño de 2015, por exemplo, gastos com comida subiram 12%. Seca prolongada também reduz a geração hidrelétrica e pode elevar as tarifas de energia. No Sudeste, há risco de insegurança hídrica semelhante ao cenário de São Paulo em 2015, com reservatórios em níveis baixos.

7. Seca severa e ondas de calor

O Brasil enfrentou a pior seca de sua história no último El Niño, que atingiu mais de 80% dos municípios do país em 2024. Para 2026 e 2027, especialistas alertam sobre a possibilidade de novos períodos de estiagem intensa e temperaturas acima da média. O calor extremo também tem se tornado cada vez mais frequente: há 60 anos, o Brasil registrava 7 dias de ondas de calor por ano; hoje, esse número chega a 52 dias. Mais de 48 mil brasileiros morreram em duas décadas em decorrência do calor extremo, principalmente idosos, mulheres, pessoas negras e de baixa escolaridade (Fiocruz, 2024).

8. Fim dos combustíveis fósseis

Reduzir o uso de petróleo, carvão e gás e frear novas explorações, como na Foz do Amazonas, ajudam a conter a intensificação da crise climática. A queima de combustíveis fósseis é a principal causa do aquecimento global e grande parte desse calor é absorvida pelos oceanos, agravando fenômenos climáticos como o El Niño. Ecossistemas marinhos, como os recifes de coral, ajudam a proteger o litoral — onde mora a maioria dos brasileiros — contra tempestades e erosões, mas o aumento de temperatura do oceano pode causar seu branqueamento, como ocorreu em 2024, gerando um impacto em cadeia: prejudica a renda de pequenos pescadores e a segurança alimentar da população, já que a pesca artesanal é responsável por mais de 60% dos pescados no país.

9. Agronegócio: vilão e vítima

A agricultura está entre os setores mais afetados pelos eventos climáticos extremos. Ao mesmo tempo, o avanço da agropecuária sobre os biomas brasileiros impulsiona o desmatamento, principal fonte de emissões do país, agravando os impactos do El Niño. Em vez de fortalecer ações de adaptação e mitigação, a bancada ruralista tem promovido medidas que enfraquecem a proteção ambiental, como mudanças no licenciamento ambiental e ameaças à Moratória da Soja.

10. Saiba o que fazer diante do El Niño

Em ano de eleição, devemos lembrar que o El Niño é natural, mas a gravidade de seus impactos não. União, estados e municípios têm responsabilidade de agir antes do pior acontecer, investindo em ciência, infraestrutura, defesa civil e proteção ambiental para reduzir danos e perdas humanas. Além de acompanhar alertas meteorológicos, cobre da prefeitura, da escola e dos órgãos públicos a existência de planos de adaptação climática e prevenção a desastres, principalmente para as famílias vulnerabilizadas.

Lembre-se: seu voto vale e faz a diferença! Escolha candidaturas que se preocupam em salvar vidas e que têm propostas por moradias dignas e seguras, arborização e permeabilidade nas cidades, combate ao desmatamento e fiscalização contra crimes ambientais.
Ativistas do Greenpeace Brasil na Marcha pelo Clima em 2024, ano sob influência de forte El Niño, com pior seca da história e de fortes enchentes, como o desastre climático no Rio Grande do Sul.

A chegada do El Niño foi confirmada pela agência climática dos Estados Unidos. A dúvida agora é se o fenômeno terá força recorde, conforme os cálculos e projeções.

O anúncio era aguardado por meteorologistas, já que os principais indicadores vinham apontando, há semanas, a consolidação do fenômeno.

O El Niño nasce do aquecimento anormal das águas do Pacífico e pode alterar o padrão de chuva e calor em diferentes partes do mundo.

Agência dos EUA prevê fortalecimento do fenômeno nos próximos meses. No Sul do Brasil, evento irá aumentar o risco de extremos climáticos. As projeções climáticas apontam que o El Niño deve continuar ganhando força ao longo dos próximos meses. Segundo a NOAA, há 63% de probabilidade de que o episódio alcance intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.

Caso o cenário se confirme, o fenômeno poderá figurar entre os mais intensos registrados desde o início das medições modernas, em 1950.

A confirmação do fenômeno reacende a atenção no Rio Grande do Sul após a enchente histórica registrada em maio de 2024. O desastre ocorreu durante o último episódio de El Niño, que se desenvolveu entre 2023 e 2024 e provocou impactos em centenas de municípios gaúchos. (greenpeace)

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Taxa de mudança climática afeta a estabilidade da AMOC

Taxa de mudança climática afeta a estabilidade da AMOC – Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico.
Estudo alerta para possível colapso da AMOC até 2055

Um estudo da Universidade de Utrecht mostra que a estabilidade da AMOC depende da velocidade do aquecimento global, e não apenas de um limite fixo de temperatura. Sob um aumento rápido de CO2, a circulação pode entrar em colapso com +2°C, mas resiste a aumentos lentos mesmo acima de +5°C.

O Impacto da Taxa de Aquecimento

• Aquecimento rápido: Se o CO2 subir depressa, a superfície do oceano aquece antes que o calor se espalhe para o fundo. Isso impede o afundamento da água fria e desestabiliza a esteira de correntes.

• Aquecimento lento: Se a mudança climática ocorrer de forma gradual, o oceano tem tempo para se adaptar, mantendo a estabilidade da circulação por mais tempo.

• Previsão crítica: Cientistas alertam que o ponto de ruptura pode ser alcançado por volta de 2060 se o ritmo atual de emissões mantiver uma taxa de aquecimento acelerada.

Consequências do Enfraquecimento

• Clima regional: Mudanças severas nos regimes de chuva e queda relativa de temperatura em partes da Europa e do Atlântico Norte.

• Redistribuição de calor: Altera o balanço térmico global e intensifica eventos extremos em várias regiões do planeta.]

Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico: Um aquecimento mais rápido pode desencadear um ponto de inflexão que um aquecimento mais lento poderia evitar.

Há vários anos, cientistas do clima vêm demonstrando que a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) pode parar se o aquecimento global for excessivo. Uma nova pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade de Utrecht mostra que esse quadro está incompleto: o ritmo do aquecimento também determina se a AMOC permanecerá estável. O estudo foi publicado na revista científica Nature Climate Change.

A Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) é o sistema de correntes oceânicas que transporta água quente dos trópicos para o norte. Ela desempenha um papel fundamental na redistribuição do calor pelo planeta e ajuda a manter o clima relativamente ameno na Europa Ocidental.

Os cientistas há muito suspeitam que este “motor térmico” do Oceano Atlântico possa atingir um ponto de inflexão. Isso significa que o sistema passaria de seu estado forte atual para um estado muito mais fraco dentro de algumas décadas. Tal evento de inflexão poderia ser desencadeado por influências externas, como um aumento na quantidade de água de degelo das regiões polares ou o próprio aquecimento global.

As mudanças climáticas podem enfraquecer a AMOC

Limiar de temperatura

Até agora, acreditava-se que a AMOC (Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico) atingia seu ponto de inflexão e entrava em colapso em torno de um aumento de temperatura de +4°C. Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Marinha e Atmosférica de Utrecht mostram agora que a história é mais complexa. “Nossos resultados mostram que não existe necessariamente uma temperatura fixa a partir da qual a AMOC inevitavelmente entra em colapso”, afirma o autor principal, René van Westen. “A estabilidade da circulação depende da velocidade com que o clima está mudando”.

Nossos resultados mostram que não existe necessariamente uma temperatura fixa além da qual a AMOC inevitavelmente entra em colapso. A estabilidade da circulação depende da velocidade com que o clima está mudando.

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Aquecimento lento versus aquecimento rápido

Para investigar como a taxa de mudança climática afeta a intensidade da AMOC (Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico), Van Westen e seus colegas executaram um modelo climático duas vezes. Em suas simulações, eles usaram uma quantidade crescente de CO2 atmosférico, mas em velocidades diferentes. Em uma simulação, as concentrações de CO2 aumentaram lentamente (0,5 ppm por ano); na outra, muito mais rapidamente (2,5 ppm por ano), comparável à taxa atual.

Sob um aquecimento lento, a AMOC permaneceu estável bem acima de +4°C e não entrou em colapso nem mesmo com um aumento de +5°C. Sob um aquecimento rápido, a AMOC entrou em colapso já por volta de +2°C. “Deliberadamente, analisamos um cenário muito mais lento do que o que estamos vivenciando hoje”, explica o coautor Reyk Börner. “Isso nos permitiu isolar o efeito da taxa de aquecimento, independentemente de quão quente o planeta fique no final”.

Resiliência

A explicação reside na capacidade do oceano de se ajustar às mudanças. “Com um aquecimento lento, todo o oceano, da superfície até suas camadas mais profundas, tem tempo para se reorganizar gradualmente e se adaptar às condições em transformação”, afirma o coautor Henk Dijkstra, professor de Oceanografia Dinâmica. “Com um aquecimento mais rápido, o oceano simplesmente não consegue acompanhar”.

Com um aquecimento lento, todo o oceano tem tempo para se reorganizar gradualmente e se adaptar às mudanças. Com um aquecimento mais rápido, o oceano simplesmente não consegue acompanhar. Henk Dijkstra: Prof. Dr. Ir. Henk Dijkstra, professor de Oceanografia Dinâmica; Instituto de Pesquisa Marinha e Atmosférica de Utrecht

Voando para fora da estrada

Segundo os pesquisadores, a taxa crítica de aquecimento gira em torno de 0,3°C por década, um ritmo que o mundo já está atingindo. Van Westen compara a situação a dirigir um carro: “Se você está dirigindo em direção a uma parede, faz sentido contorná-la. Para isso, você precisa frear, caso contrário, você sai da estrada. Quando se trata de aquecimento global, o mundo ainda está pisando fundo no acelerador”.

Em perspectiva

Risco de colapso de correntes oceânicas acende alerta nacional na Islândia

O mesmo grupo de pesquisa publicou sobre a estabilidade do AMOC diversas vezes nos últimos anos, cada vez sob uma perspectiva ligeiramente diferente.

Em 2024, o grupo demonstrou que o aumento da quantidade de água de degelo no Atlântico Norte torna a AMOC mais instável. Esse mecanismo já era suspeito há tempos, mas este estudo foi o primeiro a demonstrá-lo em um modelo climático moderno e complexo. Os resultados confirmaram a existência de um limiar crítico de água de degelo a partir do qual a AMOC se torna instável. No entanto, esse limiar é irrealisticamente alto, o que significa que é improvável que a AMOC atual se torne instável apenas por essa contribuição. Esse estudo não levou em consideração o aquecimento global nem sua velocidade.

Um estudo posterior examinou diferentes cenários de aquecimento global e concluiu que a AMOC atingiria um ponto de inflexão por volta de 2060, tanto em um cenário de emissões intermediárias quanto em um de altas emissões. Nessas simulações, o ponto de inflexão foi atingido com um aquecimento global de aproximadamente 2,5°C.

O novo estudo explica por que os resultados de tais estudos podem divergir e por que os limiares de temperatura estimados variam entre os modelos climáticos e os cenários de emissões.  Embora a AMOC (Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico) possua um limiar crítico para a água de degelo, não existe um limiar de temperatura universal. Em vez disso, a estabilidade da AMOC depende da taxa de aquecimento: quanto mais rápido o clima aquece, mais vulnerável a AMOC se torna, enquanto um aquecimento mais lento permite que ela permaneça estável sob níveis substancialmente mais altos de aquecimento global.

Política climática

Quanto mais lento o aquecimento, mais tempo o Oceano Atlântico terá para se adaptar e menor será o risco de um colapso da AMOC (Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico) a curto prazo. Isso tem implicações para a forma como pensamos sobre as políticas climáticas: muitas das políticas atuais, incluindo o Acordo de Paris, visam limitar o pico de temperatura. Isso às vezes se baseia em trajetórias de “ultrapassagem”: aquecimento global temporário além desse limite, partindo do pressuposto de que tecnologias futuras poderão, posteriormente, reduzir a temperatura.

Segundo Van Westen, essa suposição é arriscada. “Um ponto de inflexão que induza um colapso da AMOC (Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico) pode ser desencadeado já durante um pico temporário como esse. Uma vez que isso aconteça, não pode ser simplesmente revertido. É comparável aos recifes de coral: uma vez que morrem devido ao aquecimento dos oceanos, eles não voltar a crescer, mesmo que a temperatura caia novamente mais tarde”. Se as políticas públicas se concentrarem apenas no pico de aquecimento final, pode já ser tarde demais. Os pesquisadores argumentam, portanto, que as reduções de emissões destinadas a limitar a taxa de aquecimento global merecem seu próprio espaço na agenda política. (ecodebate)

Relatório global confirma recordes de calor, gases e elevação dos oceanos em 2025

Documento da Sociedade Meteorológica Americana, com dados de 60 países, revela que indicadores vitais da Terra atingiram marcas históricas, ecoando um pedido de atenção para o futuro

O novo relatório Estado do Clima 2025 mostra concentrações inéditas de gases de efeito estufa, calor oceânico sem precedentes e o degelo acelerado do Ártico e da Antártida. Cientistas comparam o documento a um check-up de saúde do planeta, cujos resultados acendem um sinal de alerta para governos e comunidades.
O check-up da Terra em 2025 não foi nada bom

Imagine fazer um exame médico anual e descobrir que todos os seus indicadores vitais, como pressão e colesterol, não apenas estão ruins, mas pioraram significativamente em relação ao último check-up.

É com essa analogia que os cientistas apresentam o mais completo diagnóstico de saúde do nosso planeta. A 36ª edição do relatório Estado do Clima (State of the Climate), publicada pela Sociedade Meteorológica Americana (AMS), confirma que a Terra nunca esteve tão debilitada em indicadores fundamentais.

A análise, que reúne o trabalho meticuloso de 625 cientistas de 60 países, não deixa espaço para dúvidas. Em 2025, as concentrações de gases de efeito estufa, o conteúdo de calor dos oceanos e o nível global do mar atingiram patamares recordes. É como se o planeta estivesse emitindo sinais claros de estresse extremo, e o prontuário médico, infelizmente, está repleto de marcas históricas preocupantes.

Concentração de gases estufa como nunca antes

O principal motor dessa febre planetária está na atmosfera. O relatório aponta que as concentrações de dióxido de carbono (CO2), metano e óxido nitroso, os principais gases que retêm calor, foram as mais altas já registradas. O nível médio global de CO2 chegou a 425,6 partes por milhão, um aumento de 53% em relação aos níveis pré-industriais.

Para se ter uma ideia da pressão adicional que estamos colocando no sistema, as emissões de combustíveis fósseis em 2025 também foram recordistas, mais que triplicando o volume emitido anualmente na década de 1960.

‘Febre’ global sem El Niño

A temperatura dos oceanos não para de subir: 2025 foi o ano mais quente da história nas águas, superando todos os registros desde o início das observações modernas.

Mesmo sem a influência do El Niño, fenômeno que naturalmente aquece as águas do Pacífico e eleva as temperaturas globais, 2025 entrou para a história como um dos três anos mais quentes já documentados desde meados do século 19.

A Europa experimentou seu ano mais escaldante, enquanto países como Rússia, China e Argentina enfrentaram seu segundo ano mais quente. A febre é planetária e persistente: todos os últimos onze anos, de 2015 a 2025, figuram na lista dos mais quentes da história.

Oceanos no limite

As consequências do desequilíbrio atmosférico são absorvidas em grande parte pelos oceanos, e eles estão no limite. Quase 90% do excesso de energia aprisionada pelo efeito estufa nas últimas décadas foi parar nas águas.

O resultado é que o conteúdo de calor dos oceanos, medido da superfície até 2000 metros de profundidade, bateu um novo recorde em 2025. Apenas 26% da superfície oceânica experimentou um evento de frio, enquanto alarmantes 87% enfrentaram ao menos uma onda de calor marinho.

Este aquecimento, combinado com o degelo, empurrou o nível do mar para uma nova máxima histórica pelo 14º ano seguido, alcançando cerca de 111,2 milímetros acima da média de 1993. É a inércia de um sistema em desequilíbrio, com impactos diretos na vida de milhões de pessoas que vivem em zonas costeiras.

Recordes de calor nos 2 polos

Gases de efeito estufa e calor nos oceanos: novos recordes

O sinal de alerta também ecoa com força nas regiões polares. O Ártico registrou seu segundo ano mais quente, com as temperaturas do ar subindo a uma taxa quase três vezes maior que a média global. O gelo marinho mais antigo e espesso está praticamente extinto, uma perda de resiliência que transforma a paisagem da região.

Na Antártida, a situação é igualmente grave. O continente gelado observou seu ano mais quente desde o início dos registros, em 1979, enquanto a extensão do gelo marinho ao seu redor permaneceu abaixo da média, seguindo uma tendência de quase uma década.

As geleiras terrestres, grandes reservatórios de água doce, perderam massa pelo 38º ano consecutivo, e cerca de 41% de toda a perda desde 1976 ocorreu apenas nos últimos dez anos.

Ciclones mais intensos

A energia extra acumulada no sistema climático também se manifesta na intensificação de tempestades. A temporada de ciclones tropicais em 2025 foi acima da média, com 97 tempestades nomeadas. Cinco delas atingiram a temível Categoria 5.

O furacão Melissa, um dos mais fortes já registrados no Atlântico, deixou um rastro de devastação ao atingir a Jamaica com ventos de impressionantes 305 km/h, causando 95 mortes e bilhões de dólares em prejuízos. São eventos que deixam de ser apenas estatísticas e se transformam em tragédias humanas e perdas irreparáveis.

Oceanos em alerta: conteúdo de calor oceânico recorde; mudanças climáticas elevam temperatura da superfície do mar por emissões de gases de efeito estufa.

Alerta máximo: em 2025, os oceanos absorveram calor como 12 bombas de Hiroshima explodindo por segundo, bateram o maior recorde desde 1960, saltaram para 23 zettajoules e acenderam o sinal vermelho em áreas-chave como Atlântico Tropical e Sul, Mediterrâneo e Oceano Antártico.

Um diagnóstico para o planejamento do futuro

Alan Sealls, presidente da AMS, reforça que este relatório não é um mero conjunto de números. “O Estado do Clima conecta-se à saúde de todos os ecossistemas. Ele apresenta medições e tendências críticas que informam agências, comunidades, empresas e indivíduos para o planejamento de longo prazo“, afirma.

O check-up anual da Terra é, acima de tudo, uma ferramenta vital. Ele nos mostra, com clareza e rigor científico, a velocidade das mudanças e a urgência de ações que vão desde a forma como geramos energia até o modo como construímos nossas cidades.

O diagnóstico está dado e as condições tendem a piorar. O plano de tratamento, contudo, ainda está engatinhando. (ecodebate)

Calor extremo de 2026 colocou a Europa em chamas

O verão de 2026 na Europa é marcado por sucessivas ondas de calor extremo e secas severas que alimentam grandes incêndios florestais em países como França, Espanha, Portugal e Reino Unido, resultando em milhares de mortes, evacuações em massa e forte impacto na agricultura.

Impactos Principais

• Temperaturas recordes: Mercúrio ultrapassou 37°C em alertas emitidos pelo Met Office na Inglaterra, com picos próximos de 40°C no sul do continente.

• Incêndios e evacuações: Focos de fogo intensos forçaram a retirada de mais de 200 mil pessoas em várias regiões afetadas.

• Crise hídrica e alimentar: O Copernicus registrou níveis críticos em rios como o Reno e o Danúbio, gerando perdas bilionárias na agricultura e pressão inflacionária.

(Esquerda) Mapa mostrando anomalias e extremos na temperatura do ar à superfície em junho de 2026. As categorias de cores referem-se aos percentis das distribuições de temperatura para o período de referência de 1991–2020. As categorias extremas (“mais fria” e “mais quente”) são baseadas nas classificações de junho para o período de 1979–2026. (Direita) Gráfico de barras mostrando as anomalias mensais da temperatura do ar à superfície em junho, com média sobre a Europa Ocidental (11°O–15°L, 37°–55°N). As anomalias são relativas à média de junho para o período de 1991-2020.

Ondas de calor recordes na França, no Reino Unido e na Espanha já deixaram milhares de mortos, forçaram a evacuação de mais de 200 mil pessoas e ameaçam a segurança alimentar do continente

Enquanto 2026 caminha para ser o ano mais quente da história, secas, incêndios e colapso de infraestrutura expõem a fragilidade da Europa diante da crise climática

A Europa Ocidental atravessa, em 2026, uma das crises climáticas mais severas de sua história recente. Ondas de calor sucessivas e secas prolongadas atingem com força especial o Reino Unido, a França e a Espanha, sendo que neste último país o calor tem alimentado incêndios florestais de grandes proporções.

Os números que começam a se consolidar são alarmantes: milhares de mortes associadas ao calor, plantações destruídas, cidades inteiras sob risco de desabastecimento de água e uma infraestrutura pública que simplesmente não foi projetada para o clima que agora se impõe.

Especialistas apontam que o ano caminha para se tornar o mais quente já registrado, em um cenário no qual o aquecimento global se combina com o fenômeno El Niño para elevar ainda mais as temperaturas. O resultado é um efeito em cadeia: o calor resseca o solo, o solo seco perde a capacidade de resfriar o ar, e essa combinação intensifica ainda mais as próximas ondas de calor. Trata-se de um ciclo que autoridades meteorológicas e sanitárias tentam, com urgência, conter.

Recordes de temperatura se acumulam pela Europa

A lista de recordes quebrados neste ano é extensa. Na França, mais da metade do território registrou, em maio, as temperaturas mais altas já medidas para o mês. Pouco depois, em 23 de junho, o instituto meteorológico Météo-France classificou o dia como o mais quente da história do país, com termômetros chegando a 44,3°C no Sudoeste.

O Reino Unido, por sua vez, enfrentou duas ondas de calor recordes entre maio e junho, um padrão que, segundo meteorologistas, deixou de ser exceção para se tornar um traço recorrente do verão britânico. Já quando observada como um todo, a Europa Ocidental registrou a temperatura média mais alta já medida para o período entre junho e julho, alcançando 21,62°C e superando a marca anterior, estabelecida em 2022.

Milhares de mortes e um sistema de saúde sob pressão

O impacto mais dramático da crise recai sobre a saúde da população, sobretudo entre idosos e outros grupos vulneráveis, apontados pelas autoridades como os que correm maior risco de morte durante períodos de calor extremo.

Na França, a agência de saúde pública contabilizou pelo menos 5.700 mortes excedentes só em junho. No Reino Unido, as duas ondas de calor entre maio e junho já são responsáveis por mais de 2.800 mortes acima do esperado para o período. Os serviços de saúde dos dois países relatam dificuldade para absorver o aumento repentino de atendimentos, em um cenário que testa os limites de hospitais e equipes médicas.

Incêndios, evacuações e secas históricas

Na Espanha, o calor extremo tem se traduzido em incêndios florestais de grandes proporções. Na França, um incêndio histórico no sudoeste do país obrigou a evacuação de 220 mil pessoas, um dos maiores deslocamentos populacionais no continente desde a Segunda Guerra Mundial.

No Reino Unido, a combinação de calor e ausência de chuvas colocou metade do território da Inglaterra e a totalidade do País de Gales em situação oficial de seca, com autoridades alertando para riscos econômicos e para o setor de energia. Segundo especialistas, o solo ressecado perde sua função natural de resfriamento do ambiente, criando um círculo vicioso, no qual quanto mais seco o solo, mais intenso é o calor, e quanto mais calor, mais seco fica o solo.

Transporte público no limite

A infraestrutura de transportes tem sido uma das mais afetadas pelo calor extremo no Reino Unido. Motoristas de ônibus em Londres relataram temperaturas de quase 40°C dentro das cabines, já que grande parte da frota conta apenas com sistema de ventilação, sem ar-condicionado. Nas rodovias, o número de panes mecânicas cresceu 20%, provocadas principalmente por superaquecimento de motores e estouros de pneus em pistas escaldantes.

Nos trilhos, o calor pode literalmente deformar as ferrovias, obrigando operadores a reduzir a velocidade dos trens por segurança. A seca agrava o problema: ao encolher o solo, ela desestabiliza os taludes ferroviários e pode deslocar os dormentes das linhas. No metrô de Londres, a situação chegou a um ponto simbólico, já que passageiros enfrentaram temperaturas superiores ao limite legal estabelecido para o transporte de animais, como o gado.
Onda de calor na Europa em 2026

Agricultura sob risco de colapso

O setor agrícola é apontado por especialistas como um dos mais expostos à crise climática, correndo o risco de entrar no que chamam de “ciclo de destruição” climático. No Reino Unido, a combinação de solo seco com plantações danificadas pode resultar na pior colheita já registrada no país: as estimativas apontam queda de 2,5 milhões de toneladas na produção de cereais e oleaginosas, o equivalente a uma perda de £390 milhões em receita para os agricultores.

Na pecuária, o crescimento da grama caiu pela metade por falta de umidade, forçando produtores a recorrer antecipadamente a estoques de ração que seriam usados no inverno. O impacto já chega à mesa do consumidor: o preço de atacado da alface americana subiu 90%, o do tomate mais de 60% e o da batata mais de 40%. Produtores rurais alertam que o país pode enfrentar escassez generalizada de alimentos caso as secas se prolonguem.

Apesar de técnicas de agricultura regenerativa poderem amenizar parte dos danos, a maior parte das propriedades rurais ainda não tem infraestrutura adequada para armazenar água, e proprietários de terra cobram, há tempos, reformas que facilitem a construção de pequenos reservatórios.

Um alerta para o futuro

Diante desse cenário, especialistas e autoridades de saúde e meteorologia têm defendido reformas estruturais: novas leis sobre temperatura máxima em ambientes de trabalho e estudo, investimentos em infraestrutura resiliente ao calor e políticas de longo prazo para lidar com a escassez de água.

Está em jogo, segundo eles, não é apenas o desconforto de um verão mais quente, mas a capacidade dos países europeus de manter funcionando serviços essenciais, como saúde, transporte e produção de alimentos, em um clima que já não é mais o mesmo. (ecodebate)

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Artista cria ilha flutuante feita com 150 mil garrafas plásticas num projeto sustentável

Artista cria ilha flutuante feita com mais de 150 mil garrafas plásticas em um dos projetos sustentáveis mais curiosos, deixando o mundo todo surpreso.
Além de servir como moradia, a ilha atrai peixes e outras espécies marinhas, formando um pequeno ecossistema.

O artista e ambientalista britânico Richart “Rishi” Sowa construiu a Joyxee Island, uma ilha flutuante feita com mais de 150 mil garrafas plásticas recicladas. A estrutura fica ancorada na costa de Isla Mujeres, perto de Cancun, no México, e serve como moradia ecológica e santuário sustentável.

Como a Ilha Funciona

• Base flutuante: Sacos cheios de garrafas PET vazias sustentam todo o peso da estrutura sobre a água.

• Camadas de solo: O artista usa uma técnica com camadas de paletes, areia, terra orgânica e lixo reciclável para formar o solo.

• Vegetação nativa: Plantas e mangues crescem na superfície, e suas raízes ajudam a travar e fortalecer a base da ilha.

• Ecossistema próprio: A estrutura atrai peixes e pequenos animais marinhos para o seu entorno.

Estrutura e Recursos

• Habitação: A construção incluiu uma casa de múltiplos andares com comodidades básicas.

• Energia e autonomia: O local conta com uso de painéis solares, plantas alimentícias cultivadas no próprio solo e praias artificiais.

Se quiser, posso detalhar mais sobre:

• A técnica de construção camada por camada

• Os desafios que ele enfrentou com tempestades no Caribe

A criação de Rishi Sowa funciona como uma enorme experiência de reaproveitamento

As garrafas plásticas descartadas normalmente são associadas a um dos maiores problemas ambientais dos oceanos. No México, porém, milhares delas ganharam uma função completamente diferente: tornaram-se a base de uma ilha artificial capaz de flutuar, receber vegetação e até servir de moradia.

O responsável pelo projeto é o artista e ambientalista britânico Richart "Rishi" Sowa. Instalado em Isla Mujeres, próximo à costa de Cancun, ele desenvolveu uma estrutura conhecida como Joyxee Island, construída a partir de mais de 150 mil garrafas plásticas reutilizadas.

Mais de 150 mil garrafas ajudam a manter a ilha flutuando

A lógica utilizada por Rishi é relativamente simples. Garrafas PET vazias e fechadas contêm ar e, quando reunidas em grande quantidade, fornecem flutuabilidade suficiente para sustentar uma estrutura sobre a água. Para construir a ilha, milhares delas foram agrupadas e colocadas dentro de redes.

Sobre essa base, foram acrescentados paletes e outros materiais capazes de formar uma superfície mais firme. O artista então adicionou areia, terra e vegetação. Aos poucos, aquilo que inicialmente parecia apenas uma grande plataforma passou a se aproximar visualmente de uma pequena ilha.

Entre os principais elementos utilizados estão:

Mais de 150 mil garrafas plásticas reaproveitadas

Redes utilizadas para manter as garrafas agrupadas

Paletes e estruturas de madeira

Terra e areia formando parte da superfície

Árvores e outras plantas cultivadas sobre a estrutura

A lógica utilizada por Rishi é relativamente simples. Garrafas PET vazias e fechadas contêm ar e, quando reunidas em grande quantidade, fornecem flutuabilidade suficiente para sustentar uma estrutura sobre a água. Para construir a ilha, milhares delas foram agrupadas e colocadas dentro de redes.

Sobre essa base, foram acrescentados paletes e outros materiais capazes de formar uma superfície mais firme. O artista então adicionou areia, terra e vegetação. Aos poucos, aquilo que inicialmente parecia apenas uma grande plataforma passou a se aproximar visualmente de uma pequena ilha.

Entre os principais elementos utilizados estão:

Mais de 150 mil garrafas plásticas reaproveitadas

Redes utilizadas para manter as garrafas agrupadas

Paletes e estruturas de madeira

Terra e areia formando parte da superfície

Árvores e outras plantas cultivadas sobre a estrutura
Rishi transformou a estrutura em um lugar onde é possível realizar diferentes atividades da rotina. Entre as soluções adotadas está o aproveitamento da energia solar. Painéis instalados na ilha ajudam a fornecer eletricidade sem depender exclusivamente de uma ligação convencional com a rede elétrica.

A água da chuva também pode ser coletada e aproveitada, enquanto parte do espaço disponível é utilizada para cultivar alimentos. Há ainda equipamentos que utilizam a própria luz solar para auxiliar no preparo das refeições. Com isso, o projeto reúne diferentes conceitos relacionados à sustentabilidade em um único lugar.

Projeto transforma lixo em material de construção

A iniciativa também é um exemplo bastante incomum de upcycling. Diferentemente da reciclagem convencional, que geralmente envolve transformar um material usado em matéria-prima para fabricar outro produto, o conceito busca reaproveitar objetos atribuindo a eles uma nova função e, muitas vezes, maior valor.

Na ilha, as garrafas continuam praticamente intactas. Em vez de serem trituradas ou derretidas, elas aproveitam justamente uma característica de sua forma original: a capacidade de aprisionar ar quando estão fechadas. É essa simplicidade que torna a Joyxee Island tão curiosa.

Um objeto produzido aos bilhões e normalmente descartado após poucos minutos de uso acabou servindo como elemento básico para uma construção que permanece flutuando sobre o mar. (tudogostoso)

O mundo já sofre quase o dobro de dias de estresse térmico extremo

Um levantamento científico recente publicado na revista Nature Climate Change mostra que 70% da população mundial enfrenta agora pelo menos 90 dias por ano de estresse térmico forte, um salto significativo em relação aos 55% registrados na década de 1970. O aquecimento global tem tornado o calor não apenas mais intenso, mas também mais longo e persistente.

Fatores do Estresse Térmico

• Sensação térmica real: O índice avalia umidade, vento, radiação e a reação do corpo.

• Noites tropicais: As madrugadas mantêm sensações acima de 20°C, impedindo o corpo de esfriar.

• Expansão geográfica: Regiões antes amenas, como parte da Europa e América do Norte, sofrem com picos de 38°C.

• Impacto na saúde: Grupos vulneráveis enfrentam riscos cardiovasculares e respiratórios ampliados.

Pesquisa publicada na Nature Climate Change mostra que a parcela da população global exposta a calor perigoso saltou de 16% para 22% entre as décadas de 1970 e 2024 e as noites, quando o corpo deveria descansar, estão cada vez mais sufocantes.

Enquanto a Europa enfrenta mais uma onda de calor implacável, cientistas confirmam o que muita gente já sente na pele: dormir, trabalhar e simplesmente existir sob calor extremo se tornou mais difícil e mais perigoso em praticamente todo o planeta.

Estudo publicado na revista científica Nature Climate Change acaba de confirmar, com dados e método, algo que o corpo de milhões de pessoas já vinha denunciando: o planeta está ficando perigosamente mais quente para se viver.

A pesquisa, intitulada “Global heat stress intensification and its expanding footprint on the human population“, rastreou meio século de dados, entre as décadas de 1970 e 2024, para medir a exposição da humanidade ao chamado estresse térmico: o acúmulo perigoso de calor no corpo humano, provocado pela combinação de temperatura alta, umidade, vento e radiação solar. É essa combinação e não apenas o número que aparece no termômetro, que decide se um dia será apenas quente ou verdadeiramente perigoso para a saúde.

O resultado é alarmante. Na década de 1970, 16% da população mundial enfrentava pelo menos um dia de estresse térmico extremo por ano, quando a sensação térmica atingia 46°C ou mais. Cinco décadas depois, esse número subiu para 22%.

Em termos práticos, significa que dezenas de milhões de pessoas a mais, todos os anos, estão sendo empurradas para uma zona de risco real à saúde e, em muitos casos, à vida.
O que é, afinal, o estresse térmico

Para medir esse fenômeno com precisão, os pesquisadores utilizaram o Índice Universal de Clima Térmico (UTCI, na sigla em inglês), um indicador que vai além da temperatura do ar. Ele leva em conta como o corpo humano de fato reage ao calor, somando fatores como umidade do ar, velocidade do vento e radiação solar para calcular a chamada “temperatura sentida”.

É essa métrica mais completa que explica por que dois lugares com a mesma temperatura no termômetro podem representar riscos completamente diferentes: um dia seco de 38°C pode ser suportável, enquanto o mesmo número, em ambiente úmido e sem vento, pode significar uma ameaça real ao organismo.

Segundo o levantamento, a média diária do UTCI vem subindo de forma consistente porque os episódios de calor estão se tornando, ao mesmo tempo, mais frequentes, mais intensos e mais longos, um reflexo direto do aquecimento global provocado pela ação humana.

Da Europa à Escandinávia: o calor extremo muda de endereço

Um dos achados mais expressivos do estudo é geográfico. Países como Espanha, Portugal, Itália e França já registram sensações térmicas até cinco graus mais altas do que registravam na década de 1970. Uma mudança silenciosa, mas profunda, na relação dessas regiões com o verão.

Mais preocupante ainda é a expansão do fenômeno para territórios onde ele historicamente não era um problema. De acordo com os pesquisadores, o estresse térmico está “se expandindo para áreas do globo onde historicamente não era experimentado”. Hoje, episódios de estresse térmico “muito forte”, com sensação térmica de pelo menos 38°C, já atingem partes da América do Norte, do Reino Unido e até da Escandinávia, regiões conhecidas justamente por seus climas amenos ou frios.

As noites que não dão descanso

Se o calor do dia já é motivo de alerta, o estudo aponta um problema tão ou mais grave: o aumento das chamadas noites tropicais, quando a sensação térmica não cai abaixo dos 20°C nem durante a madrugada. Na maior parte do planeta, esse tipo de noite vem se tornando mais comum e isso muda tudo do ponto de vista da saúde.

É durante o sono que o corpo humano se recupera do desgaste térmico acumulado ao longo do dia. Quando essa pausa não acontece, “não se consegue nenhum alívio e o corpo não consegue esfriar, isso se torna muito perigoso para a saúde das pessoas, principalmente para as pessoas vulneráveis”, alertam os pesquisadores.

Idosos, crianças, gestantes e pessoas com doenças crônicas são os grupos mais expostos a esse tipo de risco silencioso, que muitas vezes não aparece nas estatísticas oficiais como “morte por calor”, mas como complicações cardiovasculares, renais ou respiratórias agravadas pelo calor.

Um retrato que ainda pode piorar

O levantamento analisou dados até 2024, mas os próprios pesquisadores fazem questão de destacar: a tendência não parece ter parado por aí. As ondas de calor que já atingiram a Europa neste ano sugerem que a trajetória de aumento identificada pelo estudo continua em curso, reforçando que o que antes era exceção climática caminha para se tornar rotina em boa parte do mundo, inclusive em regiões que, até pouco tempo atrás, se consideravam a salvo desse tipo de extremo.

Para quem vive em países tropicais, como o Brasil, os achados soam menos como uma novidade distante e mais como a confirmação científica de um verão que, ano após ano, parece começar mais cedo, durar mais e dar cada vez menos trégua de dia e, principalmente, de noite.

Mudanças em temperaturas, dias de estresse térmico e noites tropicais ao longo do tempo.

Mapas mostram a diferença entre a década de 1970 e os últimos 10 anos (2015-2024) para indicadores de estresse térmico, com base em médias decadal de: os 10 maiores valores máximos de temperatura de feltros-como por ano (UTCI, °C), os 10 maiores valores mínimos de temperatura por ano (UTCI, °C), o número anual de dias com pelo menos forte (UTCI ≥32°C), muito forte (UTCI °C) Gráficos de linha mostram a média global para cada indicador para cada ano de 1950 a 2024. As tendências por década desde a década de 1970 (1970-2024) são indicadas acima de cada gráfico, com intervalos de confiança de 95%. Todas as tendências são estatisticamente significativas (P < 0,001). As tendências foram estimadas usando regressão de mínimos quadrados ordinários com erros de HAC; os valores de P são baseados em testes de dois lados da inclinação. Não foi aplicado ajuste para múltiplas comparações. Dados do mapa base da Natural Earth (https://www.naturalearthdata.com). (ecodebate)

Aquecimento global é uma emergência de saúde pública que bate à nossa porta

O aquecimento global é uma grave crise sanitária. Ele causa ondas de calor letais, acelera a propagação de vetores de doenças como a dengue,...