sábado, 15 de agosto de 2026

A crise climática já mudou minha rotina e a de milhões de brasileiros

Entre ônibus lotados, escolas sem ventilação e trabalhadores desmaiando nas ruas, o Brasil vive uma “epidemia de calor” que ainda trata como exceção

Um relato sobre viver e sobreviver em um país onde 92% dos municípios já enfrentaram desastres climáticos, e sobre por que essa crise não é mais sobre o futuro do planeta, mas sobre o presente de quem pega o ônibus lotado, trabalha na rua ou estuda numa sala sem ventilador.
Faz tempo que percebi que alguma coisa mudou. Não foi um dia específico, nem uma manchete que me fez virar a chave. Foi um acúmulo de pequenas cenas: o suor escorrendo dentro do ônibus às oito da manhã, o vizinho comentando que “esse ano o verão chegou cedo demais”, a notícia de mais uma enchente, mais um deslizamento, mais uma cidade em estado de emergência.

O clima deixou de ser assunto de conversa fiada sobre o tempo ‘lá fora’ e passou a ser algo que sinto no corpo, no bolso e na cabeça.

Se você também tem essa sensação, não é impressão sua. É a realidade.

Um país que já vive o “novo normal” do clima

Um levantamento recente, o relatório Brasil em Transformação, mostra algo que deveria estar estampado em qualquer conversa sobre o futuro do país: 92% dos municípios brasileiros já registraram algum tipo de desastre climático entre 1991 e 2023. Não é uma minoria de cidades no litoral ou no semiárido. É praticamente o Brasil inteiro.

E o preço disso é medido em números que doem: para cada 0,1°C a mais na temperatura média global, o país perde cerca de R$5,6 bilhões. Isso sem contar que nenhuma planilha consegue registrar o luto, o medo, a insônia, a ansiedade de quem perdeu a casa ou o sustento.

A tragédia do Rio Grande do Sul, em maio/2024, ainda está viva na memória de quem acompanhou, mais de 2,34 milhões de pessoas atingidas, vidas interrompidas, cidades inteiras debaixo d’água. Na mesma época em que o Sul enfrentava enchentes históricas, a Amazônia secava sob uma estiagem severa. Dois extremos, um só país, um só sistema climático em desequilíbrio.

E o alerta não é só retrospectivo porque os especialistas do Cemaden, diante do potencial de um “super” El Niño, já vêm chamando 2026 de um possível “desastre térmico”, com risco real do Brasil bater novos recordes de calor no segundo semestre.

Calor é uma ameaça além da previsão do tempo

Se enchentes e deslizamentos aparecem no noticiário com imagens fortes, o calor extremo age de um jeito bem mais silencioso e por isso, talvez, mais perigoso.

Estudos apontam que, em cerca de três décadas, aproximadamente 5 bilhões de pessoas no mundo estarão expostas a pelo menos um mês por ano de calor prejudicial à saúde. Hoje, o calor excessivo já é responsável por cerca de meio milhão de mortes por ano no planeta.

O que isso significa na prática? Mais gente com doenças cardíacas, mais crises de exaustão térmica, mais desidratação, mais pressão alta. E também mais sofrimento psíquico. Pesquisas mostram que a exposição contínua ao calor está associada a mais estresse, irritabilidade, fadiga e distúrbios do sono.

Um dado que me marcou especialmente foi que 62% das pessoas entrevistadas em um estudo relataram sentir medo só de saber que vai chover forte. Isso é a crise climática entrando na saúde mental de um jeito que a gente ainda mal nomeia.

E o pior porque calor, enchente e poluição do ar não vêm mais separados. Cada vez mais, esses eventos se sobrepõem, criando riscos compostos que os sistemas de saúde tradicionais não estão preparados para enfrentar.

Trabalhar sob 40°C ou quando o emprego vira risco de vida

Uma das partes que mais me tocou ao me aprofundar nesse tema foi entender o que o calor extremo faz com quem trabalha.

A Organização Internacional do Trabalho estima que 70,9% da força de trabalho mundial, cerca de 2,4 bilhões de pessoas, já convive com risco de calor excessivo na rotina profissional. E o impacto é objetivo porque acima de 34°C, a produtividade do trabalho pode cair pela metade.

No Brasil, mais de 20 milhões de pessoas trabalham ao ar livre na agropecuária, na limpeza urbana, na reciclagem, no transporte, etc. Só em 2024, o Ministério Público do Trabalho registrou um aumento de 35% nas denúncias sobre más condições térmicas em ambientes de trabalho.

Pensa no motorista de ônibus, dentro de um veículo sem climatização, com a cabine funcionando como uma verdadeira câmara de calor, passando dos 40°C internamente. Ou no cobrador, exposto horas a fio à radiação solar. Há relatos de trabalhadores passando mal, desmaiando, vomitando e tudo isso enquanto cumprem uma jornada que, para muitos passageiros, é só “mais um ônibus atrasado”.

Chegar exausto ao trabalho por causa do calor do trajeto não é frescura. É um fator real de risco à segurança, ao rendimento e à saúde de milhões de trabalhadores.

O clima não afeta todo mundo do mesmo jeito

Talvez a parte mais dura de entender essa crise seja perceber que ela não é distribuída de forma justa. O calor tende a bater com mais força exatamente em quem já tem menos recursos para se proteger.

Países mais pobres: estima-se que 80% da população mundial afetada pelo calor extremo esteja em regiões como o Sul da Ásia e a África Subsaariana que são locais com menos acesso a saúde de qualidade e climatização.

Trabalhadores informais e terceirizados: muitas vezes sem água potável disponível, sem áreas de descanso, sem pausas regulares, sem equipamentos de proteção e sem qualquer garantia de afastamento remunerado caso adoeçam por causa do calor.

Bairros periféricos: com menos árvores e infraestrutura inadequada, esses territórios sofrem mais com as chamadas ilhas de calor urbanas, áreas onde o concreto e o asfalto elevam a temperatura muito acima da média da cidade.

Estudantes de escolas públicas: apenas 34% das salas de aula em escolas públicas brasileiras têm climatização. Isso significa que boa parte dos (as) professores (as) e das crianças e adolescentes do país estuda em ambientes que prejudicam concentração, aprendizagem e saúde, enquanto quem pode pagar por uma escola particular climatizada segue estudando em outra realidade.

Populações em áreas de risco: a ausência histórica de políticas habitacionais empurra famílias para ocupações irregulares em encostas e margens de rios, tornando-as as principais vítimas de deslizamentos e enchentes.

Como resumiu bem um especialista sobre o cenário brasileiro: a verdadeira tragédia não é só o clima, é ser pobre e, ao mesmo tempo, invisível para quem decide as políticas públicas.

O que isso tem a ver com o seu bolso e o pequeno negócio da esquina

A gente costuma pensar em mudanças climáticas como algo distante das contas do fim do mês, mas não é bem assim.

Embora as fontes não detalhem especificamente os “pequenos negócios”, os prejuízos econômicos diretos e indiretos dos desastres climáticos são significativos e generalizados.

A perda da “forma produtiva das pessoas” e a necessidade de redirecionar recursos públicos para a reconstrução, em vez de investimentos em educação e saúde, impactam a economia como um todo e, por consequência, a capacidade de subsistência de indivíduos e a resiliência de pequenos empreendimentos.

A agricultura sente isso na pele: menos água disponível e mais estresse térmico nas plantações aumentam o risco de perda de safra, o que pressiona preços de alimentos e ameaça a segurança alimentar. Comunidades que vivem da pesca ou do turismo também sofrem diretamente quando o clima muda o ritmo dos rios, do mar e das estações.

Não é exagero dizer que, para muita gente, o clima virou sócio invisível e nada generoso do próprio sustento.

O que dá para fazer e porque não é só sobre desespero

Reconheço que até aqui este texto pode parecer pesado. Mas acredito que entender a dimensão do problema é o primeiro passo para cobrar e construir soluções. Algumas medidas que especialistas defendem como urgentes:

Climatização de espaços públicos essenciais: tratar ar-condicionado em escolas, postos de saúde e transporte público como infraestrutura básica, não como luxo.

Mais infraestrutura verde nas cidades: arborização, telhados verdes, calçadas permeáveis e praças com sombra para reduzir as ilhas de calor.

Regras claras para o trabalho sob calor extremo: limites de temperatura para atividades ao ar livre, pausas obrigatórias, acesso garantido à água e proibição de trabalho externo em condições extremas.

Educação climática de verdade: campanhas que ajudem a população a reconhecer os sinais de risco e saber como agir.

Participação das comunidades locais: planos municipais de adaptação construídos com quem vive o problema todos os dias, não só nos gabinetes.

Brasileiro é um dos que mais se preocupam com crise climática, mas confiança em ações do governo cai.

Por que continuo escrevendo sobre isso?

Não tenho a pretensão de resolver a crise climática com um texto no EcoDebate. Mas percebi que, quanto mais eu entendia os dados, menos eu conseguia tratar o calor como “só mais um dia quente” ou a chuva forte como “azar do destino”. Existe uma engrenagem por trás disso ela tem nome, tem causa e, em boa parte, tem solução.

Se este texto te fez lembrar do calor dentro do ônibus, da escola sem ventilador ou de alguém que você conhece trabalhando sob sol forte sem parar, talvez seja hora de a gente parar de tratar isso como exceção.

Porque, goste-se ou não, essa já é a nossa nova normalidade e quanto antes encararmos assim, antes conseguimos, coletivamente, mudar o rumo dela. (ecodebate)

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

'Super El Niño' vem aí!!!

O "Super El Niño" é um aquecimento muito forte das águas do Oceano Pacífico que aumenta a chance de secas no Norte e enchentes no Sul do Brasil.

O que é o fenômeno

• Aquecimento das águas: O Pacífico Equatorial fica 2°C ou mais acima da média.

• Intensidade: Agências climáticas indicam alta probabilidade de eventos extremos associados a este aquecimento.

• Mudança global: O fenômeno natural interage com o aquecimento global para elevar as temperaturas da Terra.

Impactos esperados no Brasil

• Região Sul: Chuvas acima da média, temporais e risco de enchentes.

• Regiões Norte e Nordeste: Secas intensas, estiagens e maior risco de queimadas.

• Sudeste e Centro-Oeste: Ondas de calor mais fortes e períodos secos.

Para entender como as mudanças no clima afetam a intensidade do El Niño:

Assista ao vídeo “Porque o El Niño 2026/2027 pode ser diferente de todos”: https://www.youtube.com/watch?v=XeOYgEF2O Q

'Super El Niño' vem aí: probabilidade de evento extremo atinge 80%, segundo agência climática

No Brasil, o evento pode afetar o regime de chuvas, causando estiagens no Norte e Nordeste e enchentes no Sul.

O monitoramento mais recente da NOAA revela que o fenômeno conhecido como 'super El Niño' alcançou marcas históricas durante este mês de julho. A temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial central e oriental registrou anomalia semanal de 1,2 ºC acima da média histórica, indicando uma movimentação forte em favor de um evento de maior intensidade. Esse nível de aquecimento posiciona o evento atual entre os mais intensos observados para este período do ano desde o início das medições em 1950.

As projeções dos modelos climáticos da agência indicam uma probabilidade de 97% que o El Niño continue ativo até o início de 2027. O período entre outubro e dezembro/2026 deve concentrar o ápice de intensidade, existindo 81% de chance de o fenômeno se enquadrar na categoria de muito forte. A probabilidade de o evento perder força e permanecer em patamares moderados é de apenas uma em cinco. Essa duração prolongada deverá exigir um planejamento contínuo de médio e longo prazo por parte dos órgãos de monitoramento e de prevenção de desastres naturais.

No cenário brasileiro, o fortalecimento do fenômeno altera significativamente o regime de chuvas e temperaturas de norte a sul. O padrão observado no Pacífico costuma provocar estiagens severas e prolongadas nas regiões Norte e Nordeste, reduzindo a vazão dos rios e afetando o abastecimento. Em contrapartida, a Região Sul passa a enfrentar a passagem mais frequente de frentes frias e ciclones extratropicais. O resultado é o volume elevado de precipitação acumulada, que eleva o nível de rios e causa enchentes, alagamentos e transtornos urbanos e rurais na faixa sul do país.

O diferencial do evento atual está no contexto climático em que ele se desenvolve. Dados de séries históricas apontam uma tendência constante de elevação na temperatura média global, registrada com mais intensidade a partir de 2013. O super El Niño atua sobre uma base ambiental que já se encontra mais quente do que a observada em episódios das décadas de 1980 ou 1990. Para setores produtivos fortemente dependentes do tempo, como a agricultura e a pecuária leiteira, a combinação de calor pré-existente com alterações drásticas na chuva aumenta a vulnerabilidade do solo, afeta as pastagens e exige estratégias locais de adaptação para conter perdas de safra e de produtividade. (milkpoint)

El Niño deve elevar calor e risco de temporais em RJ

O fenômeno El Niño no estado do Rio de Janeiro provocará temperaturas acima da média, ondas de calor frequentes e maior risco de temporais e chuvas irregulares a partir da primavera, com efeitos intensificados no verão. Conforme destacado pelo G1, o cenário exige atenção preventiva dos órgãos de defesa.

Impactos Climáticos Esperados

• Calor intenso: O G1 detalhou que as temperaturas ficarão acima do normal, com ondas de calor recorrentes.

• Chuvas irregulares: Os temporais virão de forma isolada e concentrada em pontos específicos.

• Riscos associados: Há maior probabilidade de alagamentos rápidos, baixa umidade do ar e episódios de estiagem intercalados.

Medidas de Prevenção

• Monitoramento: Órgãos municipais e estaduais reforçam a vigilância em tempo real.

• Planos de contingência: Agências de defesa civil preparam protocolos para áreas de risco e encostas.

El Niño até 2027: alerta para seca, calor e riscos extremos

O El Niño deve provocar temperaturas acima da média e aumentar o risco de chuvas intensas no Rio de Janeiro durante a primavera e o verão. A Prefeitura do Rio anunciou ações de prevenção, como a aceleração de obras de contenção de encostas e combate a enchentes antes do verão.

El Niño vai aumentar riscos de temporais no RJ a partir da primavera; verão será mais quente que a média

O cenário começa a ser percebido a partir de setembro, informa a Climatempo. Chuva tem tendência irregular e localizada, informou a meteorologista Hana Silveira.

- O El Niño deve provocar temperaturas acima da média e aumentar o risco de chuvas intensas no Rio de Janeiro durante a primavera e o verão.

- A Prefeitura do Rio anunciou ações de prevenção, como a aceleração de obras de contenção de encostas e combate a enchentes antes do verão.

- O governo federal antecipou contratos de energia para garantir a segurança do sistema a partir de 1º de setembro, a decisão em 22/07/26.

Banhistas se refrescam no Leme, na Zona Sul do Rio

O El Niño deve trazer atenção redobrada para o calor no estado do Rio de Janeiro nos próximos meses. Segundo a Climatempo, a primavera e o verão serão caracterizados por temperaturas acima da média, cenário que pode começar a ser percebido já em setembro.

“No estado do Rio de Janeiro, onde a primavera e o verão já são caracterizados por temperaturas elevadas, a ocorrência de um El Niño pode contribuir para períodos com temperaturas acima do normal para a estação”, afirmou a meteorologista Hana Silveira.

A ocorrência de episódios de chuva intensa no RJ pode se tornar mais frequente ao longo desse período. Eles podem estar ligados à atuação de diferentes sistemas meteorológicos, como frentes frias, à Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) e principalmente aos eventos convectivos, conhecidos popularmente como tempestades de verão, típicos desta época.

Segundo Hana Silveira, em anos de El Niño, as precipitações costumam ocorrer de forma mais irregular e localizada.

“Os episódios de chuva intensa tendem a estar mais associados às passagens de frentes frias e aos eventos convectivos. Quando esses mecanismos predominam, a chuva ocorre de forma mais localizada e irregular, característica típica das tempestades convectivas. Isso significa que uma cidade pode registrar chuva intensa enquanto áreas vizinhas recebem pouca ou nenhuma precipitação”, explicou.

O que é o El Niño? O El Niño é caracterizado pelo aquecimento maior ou igual a 0,5°C das águas do Oceano Pacífico. Quando o fenômeno está ativo, o planeta costuma registrar calor acima da média. Ele acontece com frequência a cada dois a sete anos. No Brasil, os efeitos costumam ser desiguais: o Sul tende a ter mais chuva, enquanto áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar períodos mais secos.

El Niño terá calor acima da média no Rio de Janeiro

O fenômeno El Niño deve provocar no estado do Rio temperaturas acima da média histórica, ondas de calor mais frequentes, períodos de estiagem alternados com chuvas intensas, aumento do risco de incêndios.

Alerta internacional

Segundo alerta da Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência das Nações Unidas responsável por acompanhar o clima, a tendência é que o El Niño se intensifique ao longo do segundo semestre e atinja o pico entre novembro e fevereiro.

Ela alertou que o fenômeno eleva as chances de secas e chuvas intensas, além de ondas de calor tanto em áreas continentais quanto nos oceanos.

El Niño e La Niña

Medidas de prevenção

Diante da possibilidade de intensificação dos efeitos do El Niño, a Prefeitura do Rio anunciou, na última semana, um conjunto de ações voltadas à prevenção, ao monitoramento e à resposta a eventuais impactos climáticos.

Entre as medidas estão a aceleração de obras de contenção de encostas e combate a enchentes, com a antecipação de cronogramas para que as intervenções estejam concluídas antes do verão.

O município também informou que irá reforçar a divulgação dos protocolos de enfrentamento ao calor extremo, com o objetivo de orientar a população e minimizar os impactos das altas temperaturas previstas para os próximos meses.

Obra de contenção de encostas no Complexo de São Carlos (Secretaria Municipal de Infraestrutura do Rio de Janeiro)

O governo federal decidiu antecipar o início do fornecimento de energia de 5 contratos de leilões de reserva de capacidade na modalidade energia e de um contrato na modalidade potência, diante dos efeitos do fenômeno El Niño.

A medida acrescentará 1,8 gigawatt (GW) ao Sistema Interligado Nacional (SIN) a partir de 1º de setembro. A decisão foi tomada em 22/07/26 pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE).

Em nota, o comitê afirmou que a antecipação dos contratos é "fundamental para garantir a segurança do sistema elétrico brasileiro em 2026 e no início de 2027", especialmente em razão dos possíveis impactos do El Niño. (g1)

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Seca e colapso hídrico revelam a desigualdade da água no Brasil

A seca e o colapso hídrico no Brasil escancaram uma forte desigualdade social e geográfica, impulsionados pelas mudanças climáticas, pela falta de saneamento básico e pela concentração do uso da água em grandes setores econômicos. Mais detalhes podem ser conferidos no artigo do EcoDebate.

Disparidade Geográfica e Social

• Cerca de 80% da água do país fica na Região Hidrográfica Amazônica, onde vivem apenas 5% dos brasileiros, segundo dados divulgados pela Confederação Nacional de Municípios - CNM.

• Biomas como a Caatinga abrigam dezenas de milhões de pessoas com uma parcela mínima dos recursos hídricos naturais disponíveis.

• Populações vulneráveis e rurais dependem de caminhões-pipa enquanto o acesso regular falha.

Concentração Econômica

• Poucos grupos empresariais ligados ao agronegócio e à indústria detêm outorgas para captar trilhões de litros de água anualmente.

• O custo da escassez recai sobre a população de menor renda, que sofre com a qualidade e a regularidade do abastecimento.

A crise hídrica brasileira não decorre de uma causa isolada. Resulta da combinação entre mudanças climáticas, degradação ambiental, infraestrutura insuficiente, concentração dos usos e desigualdade social

Reinaldo Dias: Articulista do EcoDebate, é Doutor em Ciências Sociais –Unicamp, Especialista em Ciências Ambientais – USF, Pesquisador associado do CPDI do IBRACHINA/IBRAWORK, http://lattes.cnpq.br/5937396816014363, reinaldias@gmail.com.

A atualização de junho/2026 do Monitor de Secas, divulgada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, mostrou que algum grau de seca atingia 45% do território brasileiro, percentual inferior aos 50% registrados em maio, embora o fenômeno permanecesse presente em todas as regiões. O Sudeste apresentava a maior proporção territorial afetada, com 76% de sua área sob algum grau de seca, enquanto, no Rio de Janeiro, a área atingida havia aumentado de 52% para 68% do estado. A oscilação mensal não indica o encerramento da crise. Mostra uma seca extensa, móvel e capaz de alcançar, em diferentes momentos, áreas amazônicas, zonas agrícolas, regiões metropolitanas e territórios antes considerados menos vulneráveis.

A expansão geográfica das estiagens modifica a compreensão tradicional do problema. A escassez já não pode ser atribuída apenas às condições naturais do semiárido, pois também resulta da alteração do regime de chuvas, do aumento das temperaturas, da supressão da vegetação, da degradação dos solos e da ocupação de mananciais. Enchentes intensas e secas prolongadas passam a ocorrer dentro de um mesmo sistema hídrico desorganizado, no qual a água escoa rapidamente durante as chuvas e deixa de ser armazenada nos solos, nas áreas úmidas e nos aquíferos.

Os efeitos desse processo dependem das condições de cada grupo social. Famílias com renda elevada podem ampliar reservatórios, perfurar poços, comprar água ou absorver o aumento das tarifas. Moradores de periferias, comunidades rurais, povos indígenas e populações tradicionais dependem com maior frequência de redes incompletas, cisternas insuficientes, poços rasos ou rios sujeitos à contaminação. A crise hídrica revela, portanto, não apenas quanto de água existe, mas quem controla seu acesso, quem recebe investimentos públicos e quem suporta as consequências da escassez.
Uma crise que ultrapassou a escassez temporária

O relatório Global Water Bankruptcy, divulgado em 20/01/2026 pelo Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, propõe uma mudança na maneira de interpretar a situação mundial. Em várias regiões, já não seria adequado falar apenas em crise hídrica, expressão que sugere uma dificuldade temporária seguida pela recuperação dos sistemas naturais. Décadas de retirada excessiva, poluição, desmatamento, degradação dos solos e destruição de áreas úmidas produziram perdas que não podem ser rapidamente revertidas.

A noção de falência hídrica descreve territórios nos quais o consumo ultrapassa de forma persistente a capacidade de reposição de rios, aquíferos, solos e áreas úmidas. Estoques naturais formados ao longo de décadas ou séculos passam a sustentar demandas que já não podem ser atendidas apenas pelos fluxos renováveis. A perfuração de poços mais profundos, a construção de barragens ou a transferência de água entre bacias pode prolongar a oferta, mas não recompõe automaticamente os sistemas degradados.

O relatório não afirma que toda a água do planeta esteja prestes a desaparecer. Seu argumento central é que numerosas bacias e reservas subterrâneas perderam a capacidade de retornar às condições históricas que orientaram o planejamento agrícola, urbano e industrial. A escassez deixa de representar um episódio excepcional e passa a integrar o funcionamento habitual dos territórios, agravada pelo aquecimento global e por demandas econômicas incompatíveis com os limites hidrológicos.

Aplicado ao Brasil, o conceito exige abandonar a ideia de que a existência de grandes rios e aquíferos assegura proteção permanente. Um país pode possuir enorme disponibilidade hídrica no conjunto de seu território e, ao mesmo tempo, enfrentar colapsos locais e regionais. A distribuição desigual da água, a concentração populacional, a degradação dos mananciais e o crescimento de usos intensivos tornam a abundância nacional insuficiente para garantir segurança às comunidades.
A redução da superfície de água expõe a fragilidade da abundância

O levantamento do MapBiomas divulgado em março de 2025 identificou 17,9 milhões de hectares de superfície de água no Brasil em 2024. Essa extensão era 2% inferior à observada em 2023 e 4% menor do que a média da série histórica iniciada em 1985. O Pantanal apresentou a situação mais grave entre os biomas, com superfície hídrica 61% abaixo de sua média histórica.

A perda registrada no Pantanal não decorre apenas da falta de chuva sobre a planície. O funcionamento hídrico do bioma depende das águas provenientes do planalto, das áreas de nascente, dos solos, da vegetação e dos pulsos regulares de inundação. Desmatamento, erosão, assoreamento, incêndios e alterações climáticas afetam o percurso da água antes que ela alcance as áreas inundáveis. A diminuição da superfície hídrica expressa, assim, a degradação de um sistema territorial mais amplo.

Na Amazônia, a redução dos níveis dos rios compromete a mobilidade, a pesca, o abastecimento e o acesso a serviços públicos. Comunidades que utilizam os cursos d’água como principal via de transporte podem ficar isoladas quando embarcações deixam de circular. A seca também aumenta a concentração de contaminantes, favorece incêndios e reduz a disponibilidade de peixes, mostrando que a crise hídrica possui consequências econômicas, sanitárias e alimentares.

O estudo Impactos da mudança climática nos recursos hídricos das diferentes regiões do Brasil, publicado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico em 2024, projeta reduções superiores a 40% na disponibilidade hídrica de determinadas bacias até 2040. O estudo, publicado originalmente em 2024, considera os impactos das mudanças climáticas sobre diferentes regiões hidrográficas e aponta o aumento da intermitência de rios e da vulnerabilidade de reservatórios. A projeção não deve ser interpretada como uma redução uniforme em todas as regiões políticas brasileiras, mas como um alerta para bacias específicas que poderão enfrentar perdas acentuadas.

A impermeabilização urbana e a degradação dos solos rurais ampliam essa vulnerabilidade. Chuvas concentradas sobre superfícies impermeáveis produzem inundações, mas pouco contribuem para a recarga subterrânea. A água escoa rapidamente, carrega sedimentos e poluentes e deixa de permanecer no território durante o período necessário para alimentar nascentes e aquíferos. A mesma forma de ocupação que agrava enchentes reduz a disponibilidade nos meses secos.
A exclusão hídrica começa onde a infraestrutura não chega

Uma análise do Fundo das Nações Unidas para a Infância, elaborada com dados do Censo Escolar de 2025, identificou 1.203 escolas públicas que declararam não possuir nenhuma forma de acesso à água, das quais 1.149, o equivalente a 96%, estavam localizadas em áreas rurais. O número representa apenas as unidades em situação mais extrema. Não inclui todas as escolas que possuem alguma fonte cadastrada, mas convivem com intermitência, quantidade insuficiente, falta de canalização ou ausência de garantia sobre a potabilidade.

A distinção é importante porque impede que o indicador seja interpretado como medida de todo o déficit hídrico escolar. Uma escola pode ser abastecida por poço, cisterna ou outra fonte e ainda enfrentar dificuldades para preparar refeições, manter banheiros, realizar a limpeza ou garantir água segura aos estudantes. A existência formal de uma fonte não assegura continuidade nem qualidade.

O problema escolar integra uma desigualdade mais ampla. Dados analisados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância com base no Censo de 2022 indicaram que 2,1 milhões de crianças e adolescentes viviam sem acesso adequado à água no Brasil. A mesma publicação mostrou que 25% das crianças e dos adolescentes indígenas viviam sem acesso adequado à água, proporção significativamente superior à registrada entre crianças e adolescentes brancos. A diferença evidencia como as desigualdades territoriais, raciais e de infraestrutura se sobrepõem no acesso a um serviço básico.

Nas cidades, a conexão à rede também não garante condições iguais. O Relatório de Abastecimento de Água do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico, com dados de 2024, registrou atendimento de 92,3% da população urbana, mas apenas 22,9% da população rural por redes de abastecimento. A diferença não significa que toda a população rural restante esteja completamente sem água, pois parte utiliza soluções individuais ou comunitárias. Mostra, porém, o alcance muito limitado das redes públicas fora dos centros urbanos.

Mesmo dentro das áreas atendidas, bairros periféricos, localidades elevadas e ocupações distantes dos reservatórios tendem a sofrer mais com interrupções e baixa pressão. Residências maiores e edifícios equipados com reservatórios conseguem atravessar períodos de suspensão sem perda imediata do abastecimento. Famílias que vivem em moradias pequenas, sem caixas-d’água adequadas, sentem os efeitos poucas horas depois da interrupção.

A falta de água transfere para os domicílios os custos da deficiência pública. A compra de galões, o armazenamento improvisado e o deslocamento até fontes alternativas consomem parte da renda e do tempo familiar. Em comunidades rurais, o transporte de água pode reduzir as horas destinadas ao estudo, ao trabalho remunerado e à produção agrícola. A desigualdade hídrica não se resume, portanto, ao volume disponível, pois também envolve o esforço necessário para obtê-lo.
Os usos econômicos revelam a distribuição desigual do poder

O relatório Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2025: relatório síntese, publicado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico em março de 2026, estimou que as retiradas de água no país alcançaram 2.098,7 metros cúbicos por segundo em 2024. A irrigação respondeu por 50,3% desse volume, seguida pelo abastecimento humano, com 22,3%, e pela indústria, com 9,9%. Os demais usos incluíram a criação animal, com 8,3%, as termelétricas, com 6,3%, o abastecimento rural, com 1,5%, e a mineração, com 1,4%.

Esses percentuais não autorizam a conclusão de que toda agricultura irrigada deva ser tratada da mesma forma. Grandes empreendimentos voltados a cadeias de exportação possuem escala, capacidade financeira e acesso institucional muito diferentes dos pequenos produtores que utilizam água para manter cultivos alimentares e animais. Políticas de restrição indiferenciadas podem atingir com maior intensidade quem dispõe de menos recursos para adaptar sistemas de produção.

A desigualdade também aparece na possibilidade de construir infraestrutura própria. Grandes usuários podem instalar reservatórios, perfurar poços, contratar equipes técnicas e participar dos processos de obtenção de outorgas. Pequenos agricultores e comunidades dependentes de nascentes ou açudes locais possuem menor capacidade de reação. Quando uma fonte diminui, podem perder colheitas, vender animais ou abandonar atividades que garantem sua subsistência.

As decisões sobre novos empreendimentos precisam considerar a soma dos usos existentes, e não apenas a disponibilidade observada no momento do licenciamento. Uma captação pode parecer tecnicamente viável quando analisada isoladamente, mas tornar-se insustentável ao lado de outras retiradas autorizadas na mesma bacia. As projeções climáticas aumentam a importância desse cálculo, pois médias históricas de chuva e vazão podem deixar de representar as condições futuras.

A Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997, que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos, estabelece que, em situações de escassez, o uso prioritário da água deve ser destinado ao consumo humano e à dessedentação de animais. Essa salvaguarda, embora indispensável, não elimina as desigualdades que se formam antes do reconhecimento oficial da emergência. Quando a crise é oficialmente reconhecida, parte dos usuários economicamente mais fortes já construiu meios privados de proteção. Comunidades vulneráveis chegam ao período crítico com menos armazenamento, redes precárias e fontes ambientais degradadas.
Saneamento precário transforma água disponível em perda e contaminação

Os resultados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico referentes a 2024 mostram que a expansão das redes convive com grandes diferenças entre áreas urbanas e rurais. O relatório também evidencia que a gestão do abastecimento não depende apenas da existência de mananciais, mas da capacidade de captar, tratar, armazenar e distribuir a água. Redes antigas, vazamentos, falhas de medição e operação inadequada retiram dos rios um volume que não chega integralmente aos usuários.

A busca por novas fontes costuma receber mais atenção política do que a recuperação da infraestrutura existente. Barragens, adutoras e transposições são visíveis e podem ser apresentadas como grandes respostas públicas. A substituição de tubulações, a redução de vazamentos e a manutenção preventiva produzem menos impacto político imediato, embora possam recuperar volumes importantes sem ampliar a retirada dos mananciais.

A deficiência do esgotamento sanitário agrava a escassez ao comprometer a qualidade da água. Rios próximos a centros urbanos podem possuir vazão suficiente e, ainda assim, exigir tratamentos caros devido ao lançamento de esgoto e resíduos. Municípios com menor capacidade financeira enfrentam maiores dificuldades para recuperar essas fontes, perpetuando a dependência de captações distantes ou de soluções emergenciais.

A separação administrativa entre saneamento, gestão de recursos hídricos, planejamento urbano, agricultura e proteção ambiental reduz a eficácia das políticas. Um município pode ampliar loteamentos e impermeabilizar áreas de recarga enquanto outro órgão investe na proteção do manancial. Pode autorizar ocupações próximas a cursos d’água e, posteriormente, financiar obras para corrigir inundações e falta de abastecimento produzidas pelo próprio modelo de expansão urbana.

Soluções descentralizadas são necessárias em áreas onde as redes convencionais não constituem a alternativa mais adequada. Cisternas, sistemas comunitários, captação de chuva, pequenas estações de tratamento e redes locais podem atender comunidades rurais e isoladas, desde que recebam manutenção, controle de qualidade e assistência técnica. A instalação de equipamentos sem estrutura permanente transfere aos moradores a responsabilidade por um serviço que deveria permanecer sob acompanhamento público.
Emergência Climática e Perdas de Água

Uma política hídrica orientada pela justiça social

A Lei nº 15.276, de 28/11/2025, alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e a legislação do Programa Nacional de Alimentação Escolar para incluir o acesso à água potável e a infraestrutura sanitária adequada entre as garantias da educação. A norma foi publicada no Diário Oficial da União em 01/12/2025. Sua aplicação exige que a obrigação legal seja convertida em diagnóstico, financiamento, execução e manutenção, sobretudo nas escolas rurais que concentram os casos de ausência total de água.

O exemplo das escolas mostra por que a justiça hídrica precisa ser traduzida em metas concretas. O reconhecimento formal do direito não elimina as diferenças entre municípios capazes de financiar obras e aqueles dependentes de transferências federais. Também não resolve, por si só, os obstáculos técnicos de territórios remotos, onde sistemas convencionais podem ser inadequados e a manutenção exige apoio permanente.

O relatório Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era, publicado pela Universidade das Nações Unidas em janeiro/2026, recomenda substituir a administração contínua de emergências por uma gestão baseada nos limites reais das bacias hidrográficas e dos aquíferos. Essa orientação envolve conhecer com maior precisão os volumes disponíveis, reduzir retiradas incompatíveis com a capacidade de reposição, proteger solos e áreas úmidas, recuperar sistemas degradados e distribuir de maneira socialmente justa os custos da adaptação. Em vez de aceitar a escassez como inevitável, a proposta exige abandonar políticas apoiadas na expectativa de que novas obras poderão ampliar indefinidamente a oferta de água.

No Brasil, planos de bacia, outorgas e licenciamentos precisam incorporar cenários climáticos mais severos. Autorizações fundamentadas apenas em séries históricas podem permitir retiradas superiores à capacidade futura dos mananciais. Também é necessário preservar vazões suficientes para o funcionamento dos ecossistemas, pois rios, áreas úmidas e aquíferos não constituem estoques independentes das florestas, dos solos e da biodiversidade.

A redução da demanda deve distinguir necessidades básicas, atividades de subsistência e usos econômicos de grande escala. Restrições uniformes podem penalizar famílias sem reservatórios e pequenos produtores, enquanto grandes consumidores mantêm estruturas próprias. Tarifas sociais, garantia de volumes mínimos, fiscalização das maiores captações, redução das perdas e apoio às comunidades rurais permitem distribuir com maior equilíbrio as responsabilidades.

A participação nos comitês de bacia exige condições que não estão igualmente disponíveis a todos os grupos envolvidos. O acompanhamento de reuniões, a interpretação de estudos técnicos, o deslocamento até os locais de decisão e a disponibilidade de tempo podem dificultar a presença de comunidades periféricas, rurais e tradicionais. Para que a gestão participativa não permaneça apenas formal, é necessário assegurar acesso à informação, apoio técnico, condições de deslocamento e representação efetiva das populações mais atingidas pelas decisões sobre o uso da água.

A crise hídrica brasileira não decorre de uma causa isolada. Resulta da combinação entre mudanças climáticas, degradação ambiental, infraestrutura insuficiente, concentração dos usos e desigualdade social. A água pode continuar presente em grandes volumes no conjunto do país e faltar justamente nos locais onde as populações possuem menos capacidade de buscar alternativas.

As escolas sem abastecimento, as redes rurais restritas, os rios degradados e as perdas enfrentadas por pequenos produtores mostram que o colapso já possui uma distribuição social. O problema não se expressa somente em reservatórios vazios, mas na regularidade, na qualidade e no custo do acesso. Enquanto alguns usuários puderem proteger seu abastecimento por meios privados e outros dependerem de caminhões-pipa e medidas emergenciais, a escassez continuará sendo administrada segundo a renda e o poder.

Evitar a falência hídrica exige recuperar mananciais, reduzir perdas, ampliar o saneamento, controlar a contaminação e rever atividades incompatíveis com os limites das bacias. Exige também definir quem deve ser protegido primeiro quando a água diminui. Tratar esse recurso como direito e bem comum significa impedir que a segurança de alguns seja construída sobre a insegurança permanente de outros. (ecodebate)

domingo, 9 de agosto de 2026

Aquecimento global 2026

Temperatura global atingirá níveis próximos de recorde nos próximos 5 anos

Em 2026, a temperatura global deve atingir níveis recordes, com média estimada de 1,46°C acima dos níveis pré-industriais, mantendo o planeta em um cenário crítico de aquecimento global.

Projeções de Temperatura

Segundo o Met Office, a temperatura média global em 2026 deve ficar 1,46°C acima dos níveis pré-industriais (1850–1900), dentro de uma faixa estimada entre 1,34°C e 1,58°C, posicionando o ano entre os mais quentes já registrados, apenas abaixo do recorde de 1,55°C de 2024. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) alerta que entre 2026 e 2030 há 75% de probabilidade de que a média anual ultrapasse 1,5°C, com 91% de chance de que pelo menos um ano exceda temporariamente esse limite.

Fatores Contribuintes

O aumento contínuo das temperaturas está diretamente ligado às atividades humanas, principalmente à emissão de gases de efeito estufa como dióxido de carbono (CO2) e metano, provenientes da queima de combustíveis fósseis, desmatamento e agricultura intensiva. Além disso, fenômenos climáticos como o El Niño, previsto para o final de 2026, podem intensificar ainda mais o aquecimento global e aumentar a frequência de eventos extremos.

Impactos e Riscos

O aquecimento global já ultrapassou temporariamente o limite de 1,5°C, entrando em um cenário de “overshoot”, o que aumenta o risco de colapso de sistemas naturais como calotas polares, Amazônia, recifes de coral e circulação oceânica do Atlântico Norte. Eventos climáticos extremos, como ondas de calor, incêndios florestais, enchentes e secas, têm se tornado mais frequentes e intensos, causando mortes, prejuízos econômicos e impactos na saúde pública, incluindo aumento de doenças transmitidas por mosquitos.

Perspectiva Global

A tendência indica que os próximos anos continuarão a registrar temperaturas próximas ou acima dos recordes históricos, reforçando a urgência de ações globais para reduzir emissões e limitar o aquecimento a longo prazo, conforme estabelecido pelo Acordo de Paris. Cientistas alertam que a janela para evitar impactos irreversíveis está se fechando rapidamente, e que medidas imediatas são essenciais para mitigar os efeitos mais graves da crise climática.

Imagem de satélite da NOAA mostra as condições da superfície do Oceano Pacífico Equatorial, região monitorada para acompanhar a evolução do fenômeno El Niño.

O aquecimento global em 2026 segue batendo recordes históricos, com temperaturas mundiais superando limites críticos próximos de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais. Esse cenário é impulsionado por concentrações recordes de gases de efeito estufa e pela intensificação de fenômenos climáticos, resultando em secas severas, temporais e ondas de calor letais em várias partes do globo.

O Cenário Atual e Impactos

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou que o sistema climático da Terra está em um desequilíbrio sem precedentes. Os oceanos registraram aquecimento recorde e o derretimento do gelo acelerou, o que compromete o nível do mar global. No Brasil e na América do Sul, a previsão indica alternância entre chuvas extremas na região Sul e secas severas no Norte e Nordeste, acompanhadas por ondas de calor que afetam a saúde pública e a economia.

O impacto nos oceanos e na elevação do nível do mar é particularmente preocupante para regiões costeiras. Para detalhes sobre o estudo da NASA e as cidades brasileiras mais vulneráveis a inundações nas próximas décadas, confira o artigo sobre as Cidades Brasileiras e o Nível do mar.

Ações Climáticas

Para mitigar os danos que a ONU alerta que poderão durar séculos, cientistas e líderes globais reforçam a urgência da descarbonização e transição energética rápida. Ações de adaptação e investimentos em resiliência são vistos como indispensáveis para proteger a população.

"Super El Niño": pesquisadores alertam para efeitos climáticos extremos

Especialistas afirmam que fenômeno climático pode intensificar eventos extremos em um planeta já aquecido, elevando riscos principalmente em cidades costeiras e na Amazônia.

Temperaturas do oceano em 08/07/2026

O risco de formação de um super El Niño em 2026 levou pesquisadores brasileiros a reforçarem o alerta sobre a necessidade de preparar o país para uma nova rodada de eventos climáticos extremos.

Segundo especialistas ligados ao Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), a combinação entre o fenômeno natural e o aquecimento global pode aumentar a intensidade de chuvas torrenciais, ondas de calor, estiagens prolongadas e processos de erosão costeira, afetando diferentes regiões do Brasil.

Os cientistas destacam que o maior desafio está nas áreas costeiras, onde vivem milhões de brasileiros em regiões sujeitas a alagamentos, deslizamentos de terra e ressacas. Além da elevada concentração populacional, essas localidades perderam parte de suas defesas naturais ao longo das últimas décadas, tornando-se mais vulneráveis aos efeitos da elevação do nível do mar e de tempestades mais intensas.

Marcus Polette, professor da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e integrante da rede INPO, afirma que o cenário exige medidas preventivas antes mesmo da confirmação do fenômeno. Segundo ele, o Brasil já vem registrando um crescimento expressivo dos desastres hidrometeorológicos, impulsionado pelas mudanças climáticas.

"O El Niño não representa apenas uma mudança na temperatura do Oceano Pacífico. Em um planeta já aquecido, ele amplia a frequência, a intensidade e a duração de ondas de calor, secas e chuvas extremas", afirma.

O alerta ocorre após um relatório do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) apontar que 2025 foi marcado por uma sucessão de eventos climáticos severos em praticamente todas as regiões do país.
Impactos do fenômeno El Niño na América do Sul para os períodos de verão (dezembro a fevereiro) e inverno (junho a agosto)

Costa brasileira perdeu parte da proteção natural

Além do aumento da frequência dos eventos extremos, pesquisadores chamam atenção para outro fator que amplia os riscos no litoral brasileiro: a redução dos estoques naturais de sedimentos.

Segundo o professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), Nils Edvin Asp, praias, dunas e outros ambientes costeiros dependem da reposição contínua de areia e sedimentos para manter sua estabilidade. Em grande parte do litoral brasileiro, porém, esse equilíbrio foi comprometido, deixando a costa mais suscetível à erosão e ao avanço do mar.

A situação preocupa especialmente em áreas urbanizadas, onde a ocupação intensa reduziu a capacidade natural de absorver os impactos provocados por tempestades e ressacas.

Na região Norte, os pesquisadores apontam outro fator de vulnerabilidade: a combinação entre extensos manguezais, grandes variações de maré e relevo plano. Nessas áreas, pequenas elevações do nível do mar podem provocar o avanço da água por longas distâncias, alterando ecossistemas e afetando comunidades inteiras.

Sul pode enfrentar excesso de chuva; Amazônia deve sofrer com seca

Caso o El Niño se consolide, seus efeitos não deverão ser sentidos da mesma forma em todo o país.

Os pesquisadores lembram que episódios anteriores do fenômeno provocaram aumento das chuvas no Sul e em parte do Sudeste, favorecendo enchentes, deslizamentos e alagamentos.

Já na Amazônia, o comportamento costuma ser oposto. A redução das chuvas favorece secas severas, diminuição do nível dos rios, dificuldades para transporte fluvial, problemas no abastecimento de água e isolamento de comunidades ribeirinhas.

Segundo dados, o relatório mais recente da Organização Meteorológica Mundial (OMM) aponta cerca de 80% de probabilidade de desenvolvimento do El Niño entre julho e agosto/2026, com chances superiores a 90% de permanência até novembro.

Preparação deve começar antes da chegada do fenômeno

Para reduzir os impactos, os pesquisadores defendem uma estratégia baseada tanto em obras de infraestrutura quanto na recuperação dos próprios ecossistemas naturais.

Entre as prioridades estão o fortalecimento dos sistemas de monitoramento meteorológico e oceanográfico, a atualização dos planos de contingência da Defesa Civil, o mapeamento das áreas de maior risco e investimentos em drenagem urbana.

Também ganham destaque soluções baseadas na natureza, como a recuperação de manguezais, restingas, áreas úmidas e matas ciliares, que ajudam a conter enchentes, estabilizar o solo e reduzir a erosão costeira.

Na Amazônia, uma das medidas apontadas como alternativa para enfrentar períodos de estiagem é ampliar a utilização de cisternas para armazenamento de água da chuva, modelo já empregado em regiões do semiárido brasileiro.
O aquecimento global acelerou mais do que o esperado.

Um estudo publicado em março/2026 na Geophysical Research Letters confirma que o ritmo do aquecimento global aumentou desde 2015 para quase o dobro da taxa registada nas décadas anteriores.

A taxa atual: entre 0,34°C e 0,42°C por década.

A projeção: o limite de 1,5°C do Acordo de Paris pode ser ultrapassado antes de 2030.

A boa notícia? O aquecimento pode ser travado se chegarmos a emissões nulas. A má? O momento de agir é agora.

Calor extremo ameaça quase metade da população mundial até 2050

Os pesquisadores também defendem ampliar o monitoramento do litoral brasileiro. Atualmente, o país ainda possui lacunas na coleta contínua de informações sobre nível do mar, ondas, marés e transporte de sedimentos, dados considerados essenciais para prever impactos e orientar políticas públicas.

Para Polette, adaptar cidades e comunidades aos novos padrões climáticos deixou de ser uma discussão de longo prazo e passou a ser uma necessidade imediata.

"A integração entre ciência, planejamento territorial, governança e adaptação climática será determinante para aumentar a capacidade de resposta dos territórios diante de eventos extremos que tendem a se tornar mais frequentes e intensos", afirma. (cnnbrasil)

Reciclagem de módulos solares no fim da vida é inviável

Reciclagem de módulos solares no fim da vida é inviável se a diversidade de materiais não for considerada.

Pesquisadores da Austrália e da Polônia colaboraram em um estudo para determinar o valor do upcycling de materiais-chave de painéis em fim de vida útil, como alumínio, vidro e células solares, com o propósito específico para reutilização dos componentes na fabricação de painéis solares.
Pesquisadores da Universidade de New South Wales (UNSW), Universidade de Tecnologia de Gdansk e Academia de Ciências da Polônia colaboraram para estudar o valor de purificar componentes-chave de painéis solares em fim de vida útil, idealmente para reutilização na fabricação de novos painéis solares.

Os cientistas Olivia Bowen, Anna Kuczynska-Lazewska, Rong Deng e Jacek Kluska examinaram as diferenças na composição dos painéis solares entre diferentes modelos e fabricantes para avaliar inicialmente a capacidade dos módulos de serem reciclados.

“Painéis solares de silício desativados foram coletados de toda a Austrália. Alguns dos módulos foram retirados do campo devido a falhas técnicas ou atualizações do sistema, enquanto os painéis restantes eram novos painéis doados ao estudo por fabricantes de energia solar”, disseram os cientistas.

Os doze módulos fabricados por fabricantes alemães, chineses, sul-coreanos e americanos foram desmontados para coletar amostras da estrutura de alumínio, vidro e célula solar da análise composicional.

Os resultados do estudo, publicados em um artigo intitulado “Beyond assumptions: Experimental characterisation of end-of-life photovoltaic panels composition for recycling in Australia“, revelam que, apesar da variabilidade na composição dos materiais entre os diferentes painéis, os componentes-chave são todos recicláveis, embora com considerações importantes.

Eles descobriram que as estruturas de alumínio são adequadas para reciclagem, potencialmente economizando custos significativos de energia primária, porém, revestimentos superficiais contendo grandes quantidades de enxofre diminuem a pureza e o valor econômico.

Os componentes de vidro atendem aos critérios de matéria-prima na nova fabricação de vidro, apesar da presença de traços de antimônio, chumbo, cromo e ferro.

“O antimônio, adicionado ao vidro dos painéis solares para melhorar a transmissão de luz, é classificada como uma substância perigosa sujeita a limites regulatórios. O estudo constatou que os níveis de antimônio nos módulos fotovoltaicos podem exceder os limites estabelecidos e, consequentemente, as empresas de reciclagem podem precisar de licenças específicas e processos de monitoramento para manusear com segurança o vidro que contém esse elemento”, conclui o estudo.

A análise do laminado também revelou um elevado grau de reticulação do etileno-acetato de vinila (EVA), com baixos níveis de cristalinidade (inferiores a 17%), indicando que o material mantém sua função de proteção mesmo em módulos fotovoltaicos em fim de vida útil.

“Compreender a estrutura do EVA e seu grau de reticulação também é fundamental para otimizar os métodos de deslaminação em pesquisas futuras. A realização da análise do EVA previamente permitiria definir a abordagem de deslaminação mais adequada”, afirmaram os pesquisadores.

Por fim, a composição das células solares apresentou variações significativas entre os fabricantes, refletindo uma tendência da indústria de reduzir o teor de prata nos módulos mais recentes.

“O teor de cobre também variou de acordo com a tecnologia da célula utilizada no módulo. Essa tendência alerta as empresas de reciclagem para uma possível redução das receitas futuras, já que a prata pode representar até 47% do valor recuperável de um módulo”, disseram.

A presença de chumbo e estanho em todas as amostras também evidenciou a necessidade de cuidados no manuseio de materiais perigosos, especialmente no descarte de águas residuais.
Barreiras

O estudo concluiu que a variabilidade entre módulos produzidos por diferentes fabricantes pode representar um obstáculo para o desenvolvimento de processos comerciais de reciclagem eficientes.

“A reciclabilidade de cada um dos componentes depende fortemente de sua composição, sendo que tanto o alumínio quanto o vidro perdem valor devido à contaminação por diversas impurezas”, afirmaram os pesquisadores. “A tendência observada de redução do teor de prata nos módulos mais novos afetará a receita obtida com a reciclagem. Por isso, as empresas do setor precisam estar atentas à mudança no potencial econômico desse processo à medida que aumenta o volume de módulos com baixo teor de prata”.

Os pesquisadores também observaram que a reciclagem do vidro depende fortemente de que o material não seja contaminado por outros metais. Eles alertam que processos como trituração ou moagem dos módulos tendem a contaminar o vidro com prata e cobre, reduzindo seu valor e podendo tornar não reciclável o principal componente do módulo.

Apesar da variabilidade entre os diferentes módulos, os pesquisadores destacam que a simples remoção mecânica desses componentes, “mesmo desconsiderando o laminado das células”, já evitaria que grandes volumes de resíduos fossem destinados a aterros sanitários.

A equipe espera que o conjunto abrangente de dados obtidos experimentalmente possa orientar pesquisadores, empresas que desenvolvem processos de reciclagem e também a formulação de políticas públicas, área em que, segundo os autores, ainda há uma lacuna em nível federal na Austrália.

Segundo os pesquisadores, essas informações podem contribuir para otimizar estratégias de reciclagem e avaliar a viabilidade econômica dos processos destinados ao crescente volume de resíduos fotovoltaicos na Austrália e em outros mercados com características semelhantes. (pv-magazine-brasil)

A crise climática já mudou minha rotina e a de milhões de brasileiros

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