quinta-feira, 27 de agosto de 2026

El Niño: cidades não estão preparadas para o que está por vir

O governo do Rio Grande do Sul lançou, no mês de junho, o Programa Estadual de Preparação para Eventos Extremos (Prepara RS – El Niño), a fim de preparar os municípios para potenciais efeitos associados ao fenômeno El Niño entre 2026 e 2027. A iniciativa e suas ações foram regulamentadas por meio de decreto.

Especialistas avaliam riscos dos efeitos climáticos severos que são aguardados nos próximos meses; estados apontam ações de enfrentamento.

Seca, altas temperaturas e tempestades; o que esperar do El Niño até janeiro

Um dos episódios de El Niño mais intensos já registrados no século no Brasil está sendo previsto por especialistas para os próximos meses e nenhuma cidade do país está preparada para o que está por vir, sobretudo as grandes cidades. O alerta é da professora do Departamento de Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) e especialista em planejamento urbano, Rossana Brandão Tavares.

A probabilidade de o fenômeno atingir a categoria de “muito forte” entre outubro e dezembro, colocando o evento entre os mais intensos observados desde 1950, é de 81%, segundo o Centro de Previsão Climática (CPC) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).

Os efeitos climáticos já podem ser sentidos e vão continuar atuando no país até o início de 2027. Os impactos do El Niño são divididos por regiões; enquanto a região Sul concentra o maior risco de desastres climáticos ligados a temporais, vendavais e cheias de rios, devido ao bloqueio de frentes frias, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul devem enfrentar a situação hidrológica mais crítica, com seca de severa a extrema. As temperaturas, em geral, deverão ficar até 5°C acima da média.

Convivência com extremos climáticos

A professora Rossana Brandão Tavares aponta que a maioria dos municípios brasileiros, cerca de 90%, já precisou enfrentar casos concretos de desastres socioambientais nos últimos 30 anos, de acordo com dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Dessa forma, segundo ela, é possível considerar que a convivência com extremos climáticos já não é eventual ou concentrada em poucas regiões brasileiras. E outro ponto preocupante, na avaliação da professora, são os dados deste ano da Confederação Nacional dos Municípios, revelando que mais de 1.200 municípios não possuem defesa civil organizada.

Queda de árvores: população sofre com transtornos

Rossana defende a urgência de se lidar de forma estrutural com os problemas urbanos das cidades brasileiras. Para ela, cada vez mais, a população está submetida a uma governança urbana empresarial que tem deixado de lado um planejamento que promova investimentos, em especial em saneamento básico, além da articulação do ordenamento e controle do uso do solo com as características socioambientais de cada região, sobretudo em áreas de encostas, às margens de rios, lagoas, mares e oceanos.

O zoneamento e uso do solo não são questões técnicas neutras. A escolha é política e os desastres estão escancarando o que tem sido priorizado no planejamento. Temos que desconstruir a ideia de que nossas cidades não são planejadas, elas são, mas não para a população que cai junto com as tragédias que estão se tornando corriqueiras. Sou contra a ideia de “adaptação” das cidades, isso é enxugar gelo. (ultimosegundo)

Catadores, economia circular e o trabalho invisível que sustenta a reciclagem no Brasil

No Brasil, cerca de 800 mil catadores e catadoras de materiais recicláveis são responsáveis por manipular até 90% de todo o material que efetivamente retorna ao ciclo produtivo. Esse enorme contingente opera predominantemente na informalidade, sustentando o conceito corporativo de economia circular sem o devido reconhecimento financeiro, institucional ou previdenciário.

A Engrenagem Oculta da Reciclagem

• Protagonismo prático: Na ausência de redes de coleta seletiva estruturadas em centenas de municípios, a catação informal e organizada via cooperativas impede que toneladas de plásticos, papéis e metais terminem em lixões ou ecossistemas naturais.

• Perfil de vulnerabilidade: A base da cadeia é composta majoritariamente por mulheres, muitas vezes chefes de família, que lidam diretamente com insalubridade e riscos ocupacionais diários.

• Serviço ambiental não remunerado: O ganho dos catadores cinge-se estritamente ao peso comercializado do material triado, sem remuneração governamental ou privada pelo serviço público de saneamento e mitigação climática que entregam à coletividade.

Desafios para uma Transição Justa

• Falta de formalização: Apenas uma parcela minoritária da categoria integra associações ou cooperativas formalizadas, limitando o acesso a suporte técnico, de infraestrutura e de segurança jurídica.

• Responsabilidade corporativa: O modelo circular atual depende da precarização do elo mais fraco para compensar falhas estruturais na logística reversa das grandes empresas.

• Demanda por políticas públicas: Especialistas e acadêmicos — a exemplo de debates recentes repercutidos no EcoDebate e em estudos da USP — reforçam que a verdadeira sustentabilidade só existirá mediante o pagamento por serviços ambientais prestados por esses agentes.

Trabalhadores da cadeia de reciclagem seguem, em grande parte, na informalidade, sem remuneração pelos serviços ambientais que prestam e expostos a condições degradantes de trabalho.

Reinaldo Dias - Articulista do EcoDebate, é Doutor em Ciências Sociais –Unicamp; Especialista em Ciências Ambientais – USF; Pesquisador associado do CPDI do IBRACHINA/IBRAWORK; http://lattes.cnpq.br/5937396816014363; reinaldias@gmail.com.
Mulheres da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis da Ilha de Vitória (Amariv).

O Brasil gerou mais de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos em 2025, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, publicado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Desse total, a taxa de reciclagem efetiva calculada pelo Ministério das Cidades ficou em 4,5%, muito distante da meta de 20% que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) havia fixado para o ano de 2025. Quando se inclui a coleta informal realizada por catadores autônomos, o índice sobe para 8,7%. A diferença entre os dois números expõe um dado central e pouco debatido. Mais da metade do que é efetivamente reciclado no país resulta do trabalho de catadoras e catadores, e não de sistemas públicos estruturados de coleta seletiva.

Esse trabalho, no entanto, permanece em larga medida invisível. O discurso da economia circular ganhou espaço nas estratégias empresariais e nas políticas públicas brasileiras, consolidado no Plano Nacional de Economia Circular 2025-2034, elaborado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A indústria da reciclagem processa mais de 15 milhões de toneladas de materiais por ano, movimentando cerca de R$ 80,7 bilhões, conforme levantamento da Mastersenso Consultoria Industrial divulgado pela FecomercioSP. O contraste entre a dimensão econômica do setor e a condição de quem o sustenta na base é evidente. Enquanto a cadeia gera bilhões, os trabalhadores que alimentam sua matéria-prima seguem, em grande parte, na informalidade, sem remuneração pelos serviços ambientais que prestam e expostos a condições degradantes de trabalho.

O cenário internacional agrava a urgência do debate. O Circularity Gap Report 2026, produzido pela Circle Economy em parceria com a Deloitte, estima que o modelo linear de produção, baseado em extrair, produzir, usar e descartar, gera perdas anuais de 25,4 trilhões, o equivalente a 31% do PIB global. A taxa de circularidade mundial, em vez de avançar, recuou de 7,2% em 2023 para 6,9% em 2024. O Brasil apresenta um caso emblemático dessa contradição. O país é referência mundial na reciclagem de latas de alumínio, com índice de 97,3% em 2024 segundo a associação Recicla Latas, mas esse desempenho excepcional depende fortemente da coleta informal realizada por catadores de rua, que dominam historicamente esse mercado. A excelência estatística de um material específico convive com a precariedade estrutural de quem a produz.
A dimensão mais concreta dessa precariedade foi revelada pela segunda edição da pesquisa Catadores por Menos Plástico, conduzida pelo Instituto de Direito Coletivo (IDC) em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), por meio da Incubadora Tecnológica de Empreendimentos de Economia Solidária do Médio Paraíba (InTECSOL). O levantamento, realizado entre julho e dezembro/2025, acompanhou 20 associações e cooperativas de catadores na capital e no interior do estado do Rio de Janeiro, mantendo o mesmo recorte territorial da primeira edição para permitir a comparação dos dados. Os resultados confirmam e aprofundam o quadro identificado em 2024, quando a pesquisa apontou que 64% dos resíduos plásticos que chegavam às cooperativas eram, na prática, não recicláveis.

Os números da nova edição são contundentes. Cada catador perde, em média, 15,59 horas de trabalho por mês na triagem de plásticos que não têm valor de mercado, o equivalente a 9,38% do tempo mensal de trabalho, ou aproximadamente dois dias completos dedicados a resíduos que não geram qualquer retorno financeiro. Considerando a jornada média observada, de sete horas e meia diárias ao longo de 22 dias por mês, trata-se de uma perda recorrente e estrutural. Em termos econômicos, as cooperativas incluídas no cálculo deixam de arrecadar, mensalmente, entre R$ 1.179,03 e R$ 3.771,72, valores expressivos para organizações que já operam no limite da viabilidade. O plástico segue como principal categoria entre os rejeitos, representando cerca de 45% de todo o material descartado pelas cooperativas por falta de viabilidade de reciclagem, seja pela mistura de materiais, pela pigmentação inadequada ou pela ausência de comprador.

A origem desses materiais tem endereço conhecido. Segundo o estudo, quase 82% dos plásticos não recicláveis provêm da indústria alimentícia, com destaque para embalagens do tipo BOPP, o plástico metalizado que envolve biscoitos e salgadinhos, e para o chamado PET bandeja, plástico transparente usado em embalagens de bolos e ovos que, embora tecnicamente reciclável, raramente encontra canal de comercialização. A pesquisa realizou ainda uma auditoria de marcas e identificou quase 200 empresas entre os resíduos analisados, com um grupo reduzido de grandes companhias aparecendo com frequência desproporcional nas embalagens descartadas. O estudo aponta também práticas de greenwashing, em que produtos são comercializados como sustentáveis ou recicláveis sem qualquer possibilidade real de reaproveitamento. Como sintetiza Tatiana Bastos, presidente do IDC, o sistema atual transfere custo, tempo e desgaste físico para os catadores, que trabalham mais para ganhar menos, enquanto o empresariado continua colocando no mercado embalagens inviáveis do ponto de vista técnico ou econômico.
A pesquisa evidencia uma distorção que o vocabulário corrente da sustentabilidade tende a encobrir. O selo de reciclável estampado nas embalagens sugere ao consumidor que o descarte correto garante o retorno do material ao ciclo produtivo. Na realidade das cooperativas, boa parte desse material nasce como rejeito, pois não há viabilidade econômica ou tecnológica para seu reaproveitamento. O custo dessa ficção não é distribuído de forma equitativa. Ele recai sobre os elos mais vulneráveis da cadeia, que arcam com o tempo de triagem não remunerado, com a exposição a resíduos orgânicos contaminantes misturados aos recicláveis e com a redução da renda ao final do mês. A responsabilidade pela concepção das embalagens, que caberia ao capital industrial, é convertida em prejuízo cotidiano de trabalhadores que já operam em condições de vulnerabilidade.

O perfil social desses trabalhadores acrescenta uma camada de injustiça ao problema. A pesquisa do IDC e da UFF identificou que 68,56% dos catadores nas organizações estudadas são mulheres e que quase 90% se declaram pardos ou pretos, sendo 58,75% pardos e 30,82% pretos. O trabalho invisível que sustenta a reciclagem brasileira é, portanto, majoritariamente feminino e negro, o que insere a questão no campo da justiça ambiental e do racismo ambiental. As externalidades negativas de um sistema de embalagens concebido sem compromisso com a reciclabilidade real são absorvidas precisamente pelos grupos sociais historicamente mais penalizados pela desigualdade brasileira.

Há, contudo, movimentos institucionais relevantes em curso. Os resultados da pesquisa fluminense embasaram o Projeto de Lei 5.392/2025, apresentado pelo deputado estadual Carlos Minc e em tramitação na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. A proposta estabelece que embalagens comercializadas no estado sejam 100% recicláveis e adequadamente rotuladas, garante remuneração direta às cooperativas pelos serviços ambientais prestados, como triagem, coleta seletiva e educação ambiental, e fixa prazo de cinco anos para o banimento de plásticos não recicláveis do mercado estadual. No plano federal, a Lei 15.088/2025 proibiu a importação de resíduos sólidos e rejeitos, medida que protege o mercado interno de materiais recicláveis e beneficia diretamente os catadores. Quando o Decreto 12.438/2025 flexibilizou essa proibição, a reação do movimento de catadores levou o governo federal a revogá-lo poucas semanas depois, substituindo-o por regulamentação com limites e cotas. Em outubro de 2025, o Decreto 12.688 instituiu o Sistema de Logística Reversa para embalagens plásticas, com previsão expressa de inclusão socioprodutiva de catadoras e catadores.

O governo federal também assumiu meta ambiciosa de elevar a taxa de reciclagem para 34,5% até 2035, no âmbito do plano para cidades sustentáveis, apostando na ampliação da coleta seletiva e no fortalecimento das cooperativas. A distância entre os 4,5% atuais e esse horizonte indica o tamanho do esforço necessário. A experiência acumulada desde 2010 mostra que metas legais sem instrumentos de financiamento, fiscalização e remuneração dos trabalhadores tendem a permanecer no papel. A meta de 20% prevista para 2025 não foi cumprida, e os lixões que a lei mandou encerrar seguem recebendo 40% dos resíduos com destinação incorreta no país.
Um salto para os catadores e a economia circular no Brasil

A reivindicação central do movimento de catadores aponta o caminho mais consistente. Como argumenta Tatiana Bastos, esses trabalhadores precisam ser pagos pelo serviço ambiental que prestam, e não apenas pelo peso do material vendido. Cada tonelada de PET triada é plástico que deixa de chegar aos rios, e cada fardo de papelão recuperado é árvore que deixa de ser derrubada. Trata-se de serviço público ambiental prestado à sociedade, com benefícios climáticos, sanitários e econômicos mensuráveis, executado hoje de forma gratuita por quem menos pode subsidiar o sistema. A economia circular brasileira só será efetiva, e só será justa, quando reconhecer institucionalmente essa contribuição, remunerar quem a realiza e responsabilizar o empresariado pela reciclabilidade real daquilo que coloca no mercado. Enquanto isso não ocorrer, a circularidade seguirá sendo sustentada pelo trabalho invisível e mal pago de mulheres e homens que o país insiste em não enxergar. (ecodebate)

terça-feira, 25 de agosto de 2026

El Niño pode elevar curtailment para 25% no Brasil em 2026

Um evento intenso de El Niño no final de 2026 pode elevar o curtailment (corte de geração) de energias renováveis no Brasil de 17% para 25%, segundo projeções da Aurora Energy Research. Isso pode gerar prejuízos superiores a R$ 8 bilhões para o setor e reduzir a entrega de energia solar em até 40%.

Impactos por Fonte Renovável

• Energia Solar Fotovoltaica: Redução de até 40% na energia efetivamente entregue ao Sistema Interligado Nacional (SIN).

• Energia Eólica Onshore: Queda estimada em 21% na geração escoada.

• O corte total de 25% representa um aumento de 47% em relação ao cenário-base previsto para o ano.

Fatores de Agravamento

• Dinâmica Climática: O El Niño reduz as afluências dos reservatórios hidrelétricos no Nordeste, mas eleva o fator de capacidade das usinas renováveis, gerando volume de energia acima da capacidade de escoamento da rede.

• Despacho Termelétrico: O acionamento de usinas térmicas fora da ordem de mérito devido à seca pode adicionar até 6 pontos percentuais extras de corte na energia solar, elevando o índice de curtailment para patamares próximos a 47% em situações críticas.

Aurora estima cortes de até 40% para a geração solar e alerta que despacho térmico fora da ordem de mérito pode elevar ainda mais os cortes.

Um El Niño forte no final de 2026 pode elevar para 25% o curtailment da geração renovável no Brasil, ante 17% no cenário de referência da Aurora Energy Research. A geração solar fotovoltaica pode ter até 40% de sua produção cortada, enquanto o curtailment da geração eólica onshore pode chegar a 21%, segundo modelagem nodal da consultoria.

O cenário considera apenas cortes associados a restrições energéticas e de confiabilidade do sistema.

A combinação de condições climáticas e de despacho pode aumentar a pressão sobre a geração renovável. No cenário de El Niño, o fator de capacidade da eólica onshore no Nordeste passaria de 47% para 52%, enquanto as afluências hidrológicas de médio e longo prazo na região cairiam de 53% para 40% da média histórica.

A maior produção renovável ocorreria, portanto, simultaneamente a uma menor disponibilidade hídrica, aumentando a necessidade de cortes de geração.

Segundo a Aurora, o custo total do curtailment poderia superar R$ 8 bilhões em 2026, mais que o dobro do estimado no cenário de referência. A elevação dos cortes representa um risco para os fluxos de caixa dos projetos e para a capacidade de pagamento da dívida de ativos contratados.

“Um forte evento de El Niño pode alterar de forma significativa a trajetória do curtailment no Brasil. Nossas modelagens indicam que o curtailment total das fontes renováveis pode alcançar 25% em 2026, muito acima das expectativas atuais”, afirma Rodrigo Borges, diretor executivo da Aurora Energy Research no Brasil.

Impacto do despacho térmico

A situação pode se agravar caso condições hidrológicas desfavoráveis levem à contratação ou ao despacho de usinas térmicas fora da ordem de mérito. A geração obrigatória dessas usinas reduz o espaço disponível para a geração renovável e pode aumentar os cortes.

A Aurora cita como referência a crise hídrica de 2021, quando os reservatórios do Sudeste caíram de aproximadamente 69% para 29% de armazenamento em cinco meses. Naquele ano, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) autorizou 37 TWh de geração térmica emergencial, equivalente a 32% da produção térmica total.

Em um cenário de El Niño acompanhado por uma seca severa, uma dinâmica semelhante poderia ocorrer. A modelagem da consultoria indica que 3 GW adicionais de geração térmica fora da ordem de mérito poderiam acrescentar até 6 pontos percentuais ao curtailment da geração solar. Nesse caso, o corte da geração fotovoltaica poderia chegar a 47% em 2026.

“O que torna 2026 particularmente complexo é a potencial interação entre o clima e a dinâmica de despacho. O El Niño reduz as afluências hidrelétricas no Nordeste ao mesmo tempo em que aumenta os fatores de capacidade das fontes renováveis, elevando o curtailment”, afirma Rodrigo Longo, senior associate da Aurora Energy Research.

O aumento das temperaturas associado ao El Niño também pode elevar a demanda por eletricidade para refrigeração, especialmente no Sudeste. O maior consumo tende a absorver parte da geração excedente e, consequentemente, reduzir a necessidade de cortes.

O efeito, contudo, seria apenas parcial. De acordo com a Aurora, mesmo considerando o aumento da demanda, o curtailment permanece acima do cenário central. O crescimento dos fatores de capacidade das fontes renováveis supera o efeito de mitigação proporcionado pelo aumento do consumo.

Para a consultoria, o cenário reforça a necessidade de investidores, desenvolvedores e financiadores incorporarem o risco de curtailment, incluindo seus componentes climáticos e de despacho, às avaliações financeiras e estratégias de gestão de risco dos projetos renováveis.

El Niño pode gerar perdas acima de R$ 8 bilhões para renováveis no Brasil. (pv-magazine-brasil)

domingo, 23 de agosto de 2026

Pesquisa global reafirma que arborização urbana salva vidas

Estudos científicos globais recentes reforçam que a arborização urbana reduz o calor extremo, melhora a saúde pública e salva vidas. Aumentar a cobertura vegetal nas cidades diminui a temperatura do ar e evita mortes associadas a ondas de calor.

Impacto na Temperatura e Vidas Salvas

• 10% a mais de verde: Reduz a temperatura em 0,08°C e pode evitar cerca de 860 mil mortes globais em estações quentes.

• 20% a mais de verde: Baixa a temperatura em 0,14°C e previne cerca de 1,02 milhão de mortes.

• 30% a mais de verde: Reduz a temperatura em 0,19°C e evita até 1,16 milhão de mortes (cerca de 37% dos óbitos ligados ao calor).

Como as Árvores Protegem

• Sombra e reflexão: Bloqueiam a radiação solar direta no asfalto e no concreto, impedindo o acúmulo de calor.

• Evapotranspiração: A água que evapora das folhas resfria o ar de forma natural, agindo como um ventilador.

• Bem-estar mental e físico: Estimulam a prática de exercícios, reduzem o estresse e diminuem os níveis de poluição do ar.

Um estudo com dados de 20 anos e mais de 11 mil cidades mostra que plantar mais verde nas ruas poderia ter evitado 1,16 milhão de mortes por calor e isso muda a forma como eu olho para a árvore da minha esquina

Pesquisadores da Universidade Monash cruzaram duas décadas de dados climáticos e de mortalidade em 53 países e chegaram a um número que ainda me deixa sem fôlego: aumentar a vegetação urbana em 30% poderia ter reduzido em mais de um terço as mortes relacionadas ao calor no mundo. Eis o que esse dado significa na prática e por que ele me fez repensar o valor de uma simples árvore de calçada.

Uma manhã quente demais para ser normal

Tem dias, no meio do verão, em que a gente sai de casa e o calor bate diferente. Não é só desconforto, é como se o ar tivesse peso. Eu senti isso de novo há pouco tempo, andando por uma rua sem sombra nenhuma, com o sol batendo direto no asfalto. Por que essa rua é tão mais quente do que a de duas quadras atrás, cheia de árvores?

O estudo que coloca números onde havia só intuição

Um grupo de pesquisadores liderado pelo professor Yuming Guo, da Universidade Monash, na Austrália, decidiu medir algo que muita gente já suspeitava, mas ninguém tinha calculado em escala global: quanto de vegetação a mais nas cidades seria necessário para reduzir as mortes causadas pelo calor extremo.

O trabalho, publicado na revista científica The Lancet Planetary Health, analisou duas décadas de dados, de 2000 a 2019, em mais de 11 mil áreas urbanas espalhadas por 53 países.

Para chegar a esses resultados, a equipe cruzou registros diários de mortalidade e de clima de 830 localidades com imagens de satélite da NASA, que permitem medir o nível de vegetação de uma região com precisão, o chamado Índice de Vegetação Aprimorado, ou EVI. É esse índice que mostra, quase como uma fotografia do verde, quanto uma cidade está coberta por folhas, copas e áreas plantadas.

O resultado do cruzamento desses dados é impressionante. Aumentar em 30% a cobertura vegetal das cidades poderia ter evitado mais de  de todas as mortes relacionadas ao calor no mundo, entre 2000 e 2019, o equivalente a até 1,16 milhão de vidas.
O que 10%, 20% e 30% a mais de verde significam de verdade

Os pesquisadores testaram três cenários de aumento de vegetação e observaram efeitos muito concretos:

• 10% a mais de verde reduziria a temperatura média das estações quentes em 0,08°C e evitaria cerca de 860 mil mortes (27% do total relacionado ao calor).

• 20% a mais de verde baixaria a temperatura em 0,14°C e preveniria cerca de 1,02 milhão de mortes (32% do total).

• 30% a mais de verde, o cenário mais ambicioso, chegaria a 0,19°C de redução na temperatura média e evitaria 1,16 milhão de mortes, cerca de 37% de tudo o que o calor tira de nós.

Pode parecer pouco, uma fração de grau. Mas quando multiplicamos esse número por milhões de pessoas expostas ao calor todos os dias do verão, em milhares de cidades, ele se transforma em algo muito maior do que um dado de termômetro: vira tempo de vida.

Porque uma árvore esfria mais do que parece

Eu sempre soube que ficar embaixo de uma árvore é mais fresco do que ficar no sol. Eu sei, você sabe e todos sabemos. O que eu não sabia é porque isso acontece em tantas camadas ao mesmo tempo.

A vegetação urbana esfria o ambiente de, pelo menos, três formas simultâneas:

• faz sombra sobre superfícies que, sem ela, ficariam expostas e acumulariam calor;

• reflete parte da radiação solar antes que ela vire calor armazenado no concreto e no asfalto;

• e realiza evapotranspiração (a água que evapora do solo e das folhas) o que resfria o ar ao redor e ajuda a circulação, como um ventilador natural e silencioso.

Só isso já explicaria a diferença de temperatura entre a rua arborizada e a rua pelada que atravessei naquela manhã. Mas há mais.

O estudo aponta que o verde urbano também parece proteger a saúde por caminhos menos óbvios: áreas com mais vegetação estão associadas a menos estresse e mais bem-estar mental, mais interação social, porque as pessoas usam mais as ruas e praças arborizadas, mais disposição para caminhar ou se exercitar ao ar livre, e até menos poluição do ar. Tudo isso, somado, reduz o risco de morrer por causas ligadas ao calor.
Arborização urbana e qualidade de vida: por que as árvores são essenciais nas cidades

Onde o verde salva mais vidas

Um dos pontos que mais me chamou atenção é que o benefício da vegetação não é igual em todo lugar. As regiões do sul da Ásia, do leste europeu e do leste asiático são as que mais se beneficiariam de mais árvores e áreas verdes, segundo as projeções do estudo.

Em números absolutos de vidas salvas com um aumento de 30% na vegetação, entre 2000 e 2019, a distribuição por região seria:

Região

1. Ásia

2. Europa

3. América Latina e Caribe

4. América do Norte

5. África

6. Austrália e Nova Zelândia

7.  Oceania

Vidas potencialmente salvas em cada região

1. 527.989

2. 396.955

3. 123.085

4. 69.306

5. 35.853

6. 2.759

7. 2.733

Esses números não são iguais porque as cidades nas diversas regiões não são iguais. Clima, nível socioeconômico, densidade populacional e características demográficas moldam o quanto cada lugar sofre com o calor e o quanto pode se beneficiar de mais verde.

Um problema que só vai crescer

Entre 2000 e 2019, a exposição ao calor já foi associada a cerca de meio milhão de mortes por ano no mundo, um número que tende a aumentar com o avanço das mudanças climáticas. As projeções mais extremas indicam que, entre 2090 e 2099, a fatia de mortes relacionadas ao calor pode variar de 2,5% no norte da Europa a quase 17% no sudeste asiático, dependendo de quanto o planeta continuar aquecendo.

É um número que assusta, mas também é, ao mesmo tempo, uma janela: se o calor mata mais quando a cidade tem menos verde, então plantar é, literalmente, uma forma de cuidado coletivo.

Arborização urbana melhora saúde da população

O que eu levo dessa pesquisa?

Não sou urbanista, nem médico, nem pesquisador. Sou jornalista e, como muita gente, sinto o calor da cidade na pele todos os dias. Mas depois de ler esse estudo, não consigo mais olhar para uma árvore de calçada do mesmo jeito. Ela não é só paisagem. Não é só sombra bonita para tirar foto. Ela é, de acordo com a ciência, parte de uma engrenagem que decide quem sobrevive ao verão e quem não sobrevive.

O professor Guo resume isso de um jeito que eu acho bonito e direto: preservar e expandir as áreas verdes das cidades pode ser uma das estratégias mais potentes para reduzir a temperatura urbana e proteger a saúde das pessoas diante do calor extremo.

Talvez a próxima vez que alguém propuser cortar uma árvore para abrir uma vaga de carro, ou que uma prefeitura anunciar mais um canteiro de concreto no lugar de um jardim, valha a pena lembrar desse número: 1,16 milhão. É quanto o verde pode valer, em vidas, quando a gente decide plantar em vez de pavimentar. (ecodebate)

Aquecimento global está acelerando

Aquecimento global está acelerando: taxa quase dobra em dez anos.
O aquecimento global acelerou e a taxa de aumento da temperatura quase dobrou na última década, saltando de menos de 0,2°C para cerca de 0,35°C por década, conforme divulgado em estudos recentes.

Dados do Novo Ritmo Climático

• O ritmo anterior de aquecimento era estável em cerca de 0,2°C por década entre 1970 e 2015.

• A taxa recente subiu para aproximadamente 0,35°C por década na última década.

• Este é o maior índice registrado desde o início das medições modernas em 1880.

Consequências e Alertas

• O período de 2015 a 2025 foi o mais quente já registrado na história do planeta.

• O desequilíbrio energético da Terra atingiu níveis recordes, acumulando mais calor do que o dissipado.

• O limite crítico de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris pode ser ultrapassado antes de 2030.

Pesquisa publicada na Geophysical Research Letters mostra alta de 0,35°C por década na última década, contra 0,2°C entre 1970 e 2015

Após filtrar El Niño, vulcões e ciclos solares, cientistas encontraram com 98% de certeza estatística que a Terra está esquentando mais rápido e o limite de 1,5°C do Acordo de Paris pode ser ultrapassado antes de 2030.

O aquecimento global parece ter acelerado. Após remover os efeitos do El Niño, erupções vulcânicas e ciclos solares, pesquisadores descobriram que o planeta aqueceu a uma taxa de aproximadamente 0,35°C por década nos últimos dez anos, em comparação com pouco menos de 0,2°C por década entre 1970 e 2015. A aceleração, que se tornou visível por volta de 2013 a 2015, foi observada em cinco grandes conjuntos de dados de temperatura global com mais de 98% de certeza estatística.

O aquecimento global acelerou desde aproximadamente 2015, de acordo com a nova análise “Global warming has accelerated significantly“, do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (PIK). Após remover os efeitos das oscilações naturais de temperatura, os pesquisadores encontraram a primeira evidência estatisticamente significativa de que a taxa de aquecimento de longo prazo do planeta está se acelerando.

Na última década, as temperaturas globais aumentaram a uma taxa estimada de cerca de 0,35 °C por década, dependendo do conjunto de dados utilizado. Em comparação, a taxa média de aquecimento entre 1970 e 2015 foi de pouco menos de 0,2°C por década. O ritmo recente é superior ao de qualquer década anterior desde o início dos registros instrumentais de temperatura, em 1880.

Cientistas isolam o sinal de aquecimento de longo prazo

“Agora podemos demonstrar uma forte e estatisticamente significativa aceleração do aquecimento global desde cerca de 2015”, afirma Grant Foster, especialista em estatística dos EUA e coautor do estudo, publicado hoje na revista científica Geophysical Research Letters.

“Filtramos as influências naturais conhecidas nos dados observacionais, de modo que o ‘ruído’ seja reduzido, tornando o sinal subjacente de aquecimento a longo prazo mais claramente visível”, acrescentou Foster.

Em dados climáticos, “ruído” refere-se a mudanças de temperatura de curto prazo que podem mascarar ou exagerar temporariamente a tendência subjacente. O El Niño, por exemplo, pode elevar as temperaturas globais por um período limitado, liberando calor do Oceano Pacífico tropical para a atmosfera. Erupções vulcânicas podem ter o efeito oposto, lançando partículas na atmosfera que refletem a luz solar, enquanto mudanças na atividade solar também podem produzir variações de temperatura menores.

Para separar essas influências temporárias da tendência de aquecimento mais ampla, os pesquisadores analisaram medições de cinco conjuntos de dados de temperatura global amplamente utilizados (NASA, NOAA, HadCRUT, Berkeley Earth, ERA5).

“Os dados ajustados mostram uma aceleração do aquecimento global desde 2015 com uma certeza estatística superior a 98%, consistente em todos os conjuntos de dados examinados e independentemente do método de análise escolhido”, explica Stefan Rahmstorf, pesquisador do PIK e principal autor do estudo.

A aceleração do aquecimento global aparece em cinco conjuntos de dados diferentes.

Uma certeza estatística superior a 98% significa que os pesquisadores encontraram fortes evidências de que a mudança na taxa de aquecimento é real, e não resultado de variações aleatórias nos dados. O mesmo padrão geral apareceu em todos os cinco registros de temperatura, embora os conjuntos de dados sejam produzidos por diferentes organizações científicas e utilizem métodos ligeiramente diferentes.

Após os pesquisadores ajustarem os dados para o El Niño e o máximo solar, o calor extremo de 2023 e 2024 foi ligeiramente reduzido na análise. Mesmo assim, ambos os anos permaneceram entre os 2 mais quentes desde o início dos registros instrumentais.

Em todos os conjuntos de dados, a aceleração começou a ficar visível em 2013 ou 2014. Os pesquisadores descrevem a mudança mais ampla como tendo começado por volta de 2015, quando as evidências se tornaram mais claras.

Dois métodos estatísticos apontam para a mesma mudança.

Para determinar se a taxa de aquecimento havia mudado desde a década de 1970, a equipe utilizou duas abordagens estatísticas. A primeira foi uma análise de tendência quadrática, que testa se a curva de temperatura está se inclinando para cima ao longo do tempo, em vez de subir a uma taxa constante.

O segundo foi um modelo linear por partes. Esse método divide o registro de temperatura em períodos separados e identifica objetivamente quando a taxa de aquecimento parece mudar. Ambas as abordagens corroboraram a conclusão de que o aquecimento global acelerou.

Estudo não identifica a causa.

A tecnologia que promete resfriar o planeta inspirada na erupção do vulcão Krakatoa pode reduzir a temperatura global com injeção de aerossóis estratosféricos, mas levanta riscos climáticos, políticos e energéticos imprevisíveis.

A pesquisa foi concebida para detectar e medir a aceleração estatística, não para determinar exatamente por que ela ocorreu.

No entanto, os autores observaram que os modelos climáticos podem produzir períodos em que o aquecimento se acelera. Em outras palavras, uma taxa crescente de aquecimento é consistente com a gama de comportamentos representados na modelagem climática atual.

Os modelos climáticos são simulações computacionais que utilizam as leis da física para estimar como a atmosfera, os oceanos, o gelo e a terra respondem aos gases de efeito estufa e a outras influências. Eles não preveem perfeitamente todas as flutuações de curto prazo, mas ajudam os cientistas a avaliar padrões climáticos de longo prazo e possíveis mudanças futuras.

O limite de 1,5°C poderá ser ultrapassado antes de 2030.

“Se o ritmo de aquecimento dos últimos 10 anos continuar, isso levará a uma ultrapassagem a longo prazo do limite de 1,5°C do Acordo de Paris antes de 2030”, afirma Stefan Rahmstorf. “A rapidez com que a Terra continuará a aquecer depende, em última análise, da rapidez com que reduzirmos a zero as emissões globais de CO2 provenientes de combustíveis fósseis”.

O limite de 1,5°C refere-se à meta de restringir o aquecimento global a longo prazo a 1,5°C acima das temperaturas pré-industriais. Um único ano acima desse nível não significa, por si só, que o limite do Acordo de Paris tenha sido ultrapassado permanentemente. Os cientistas geralmente se concentram no aquecimento sustentado ao longo de um período mais longo.

Os resultados sugerem que a Terra pode estar aquecendo consideravelmente mais rápido do que nas últimas décadas do século XX. A continuidade dessa aceleração dependerá fortemente das futuras emissões de dióxido de carbono provenientes do carvão, petróleo e gás natural.
Indicadores de Mudanças Climáticas Globais: O aquecimento causado pelo homem atingiu 1,37°C acima dos níveis pré-industriais em 2025 e deverá exceder 1,5°C em cerca de quatro anos. (ecodebate)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

El Niño pode gerar impactos fortes e o mundo

El Niño pode gerar impactos fortes e o mundo tem que se preparar a partir de agosto/26.
Sim, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou que o El Niño está se intensificando e deve atingir uma intensidade forte entre agosto e outubro de 2026, com riscos de temperaturas acima da média e chuvas desreguladas globalmente.

Mudanças no Clima Mundial

• Calor global: Temperaturas acima da média em grande parte dos continentes.

• Chuvas alteradas: Secas e temporais mal distribuídos em várias regiões.

• Riscos extras: Maiores chances de incêndios florestais e enchentes.

Efeitos no Brasil

• Norte e Nordeste: Secas e estiagens mais intensas.

• Sul: Excesso de chuva e tempestades volumosas.

• Sudeste e Centro-Oeste: Ondas de calor mais frequentes.

Um bombeiro observa os restos fumegantes de um incêndio florestal no sul da França

Fenômeno climático deve causar temperaturas acima da média e chuvas desreguladas; líder da ONU pede fim dos combustíveis fósseis para impedir futuro “ainda mais inflamável”.

O fenômeno climático El Niño está se intensificando de forma constante e deve dominar os padrões climáticos globais durante a estação de agosto a outubro de 2026, segundo a Organização Meteorológica Mundial, OMM.

Como resultado, as temperaturas devem ficar acima da média em grande parte do globo e o regime de chuvas vai sofrer alterações.

Uma mulher coleta água em Satkhira, região afetada pela seca em Bangladesh

Combustíveis fósseis alimentam crise

O secretário-geral das Nações Unidas afirmou que o fortalecimento do El Niño “adiciona combustível em um planeta que já está em chamas, com ondas de calor escaldantes, incêndios florestais apocalípticos e mares em temperaturas recordes”.

António Guterres ressaltou que “os combustíveis fósseis estão alimentando as chamas desta crise”. Para ele, a continuidade da exploração de carvão, petróleo e gás resultarão em um futuro “ainda mais inflamável”.

As previsões indicam que este será um El Niño forte, que pode causar impactos sérios na agricultura, na saúde e em comunidades vulneráveis.

O fenômeno está se desenvolvendo em um contexto de calor oceânico sem precedentes. As anomalias de temperatura da superfície do mar podem ultrapassar 2,9°C nas principais regiões de monitoramento.

Regiões mais afetadas pelo calor e pelas chuvas

A última Atualização Climática Global da OMM prevê uma probabilidade extremamente elevada de temperaturas acima da média na maior parte das áreas continentais.

Os sinais mais fortes dessa tendência se estendem pela África, pelo sul da Europa, Península Arábica, subcontinente indiano, leste da Ásia, América Central, Caribe, África Austral, grande parte da América do Sul e Nova Zelândia.

Previsão de chuvas entre agosto a outubro/2026 são padrões típicos de forte e clássico de El Niño

A previsão de chuvas para agosto a outubro/2026 apresenta padrões típicos de um evento forte e clássico de El Niño.

Esperam-se condições mais úmidas do que a média no Grande Chifre da África; em partes da Ásia Central; no sul da Europa; no oeste da América do Norte e no sudeste da América do Sul.

Em contraste, condições mais secas do que a média são mais prováveis no subcontinente indiano; no sul e leste da Austrália; no sul da América Central e em partes do Caribe; no noroeste da América do Sul; e no norte da Europa.

Riscos agravados no Oceano Índico

Além do fortalecimento do El Niño, prevê-se também um Dipolo Positivo do Oceano Índico, um padrão climático em que o oeste do Oceano Índico se torna, em média, mais quente, enquanto o leste fica mais frio do que a média.

Juntos, esses fatores oceânicos podem intensificar impactos climáticos regionais, incluindo secas, enchentes e risco de incêndios florestais, especialmente ao redor da bacia do Oceano Índico.

A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, afirmou que “previsões, por si só, não evitam desastres”. Ela destacou que as decisões tomadas hoje definirão os impactos de amanhã.

A OMM e seus membros estão comprometidos em garantir que informações climáticas confiáveis e relevantes cheguem àqueles que mais precisam dela.

Uma tempestade com raios atinge a cidade de Županja, na Croácia

Entenda o El Niño

O El Niño é um padrão climático natural caracterizado por temperaturas da superfície do mar acima da média no Pacífico Equatorial Central e Oriental.

Os eventos de El Niño normalmente ocorrem a cada dois a sete anos e costumam durar entre nove e doze meses.

Geralmente começam a se desenvolver entre março e junho, atingem seu pico de intensidade entre novembro e fevereiro e exercem sua influência mais forte sobre as temperaturas globais no ano seguinte ao seu início.

A OMM classifica os eventos como fracos, moderados, fortes ou muito fortes. O termo “super El Niño” não faz parte do sistema operacional de classificação da agência. (news.un.org)

Perda de oxigênio aquático coloca limites planetários em risco

Cientistas propõem que a desoxigenação seja incluída no framework de Limites Planetários como um processo crítico para a resiliência global.

Impulsionada pelo aquecimento global e pela poluição por nutrientes, a rápida redução de oxigênio em oceanos e rios ameaça a vida marinha e pode levar o planeta a um estado de instabilidade irreversível em escalas de tempo humanas

Cientistas alertam que essa desoxigenação generalizada está intimamente ligada a outras grandes ameaças planetárias, incluindo aquecimento, poluição, perda de biodiversidade e acidificação dos oceanos.

Um novo estudo de revisão liderado por cientistas da Scripps Institution of Oceanography da UC San Diego alerta que a rápida perda de oxigênio dos oceanos e de outros ecossistemas aquáticos está levando a Terra a um “espaço inseguro”, com consequências que podem ser irreversíveis em escalas de tempo humanas.

O estudo analisa as interações generalizadas entre a desoxigenação aquática — a diminuição do oxigênio dissolvido no oceano (desoxigenação oceânica), águas costeiras, rios, lagos e córregos — e os nove processos descritos pela estrutura dos Limites Planetários.  Introduzida em 2009, essa estrutura identifica processos críticos do sistema terrestre e as maneiras pelas quais as atividades humanas os estão levando além das condições necessárias para manter o planeta estável e resiliente.

Os nove limites planetários são: mudanças climáticas, acidificação dos oceanos, perda de biodiversidade, concentração de aerossóis na atmosfera, depleção da camada de ozônio estratosférico, alterações nos níveis de água doce, mudanças no uso da terra, poluição química e fluxos biogeoquímicos (incluindo o ciclo do nitrogênio). Os autores propõem a inclusão das condições de oxigênio dissolvido nessa estrutura.

Humanidade avança a passos largos sobre os 'limites planetários'

“A saúde e a estabilidade do nosso planeta dependem da saúde e da estabilidade dos ecossistemas aquáticos, que precisam de oxigênio para funcionar normalmente”, disse a autora principal, Erica Ferrer, ex-aluna do programa de Oceanografia do Scripps Institute e atual pesquisadora de pós-doutorado no Centro Nacional de Análise e Síntese Ecológica da Universidade da Califórnia, Santa Bárbara. “Este estudo foi concebido para dar mais visibilidade à desoxigenação aquática como uma ameaça global e mostrar que ela não ocorre isoladamente”.

A desoxigenação aquática é impulsionada principalmente pelo aquecimento causado pelo homem, pelo excesso de poluição por nutrientes e por alterações na ventilação das águas interiores. A perda de oxigênio interrompe os processos biológicos e químicos que ajudam a regular o clima da Terra e ameaça a vida aquática, desde organismos microscópicos até peixes e tubarões. Embora os mamíferos marinhos respirem ar na superfície, eles ainda podem ser afetados, pois a perda de oxigênio altera suas presas, habitats e cadeias alimentares.

Ferrer e a oceanógrafa biológica Lisa Levin, do Scripps Institute, autora sênior do estudo, conceberam a ideia para o artigo após participarem da COP25, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2019, realizada em Madri. Eles esperam que a revisão incentive cientistas e formuladores de políticas a considerarem os fatores e impactos da desoxigenação aquática em combinação com outros estressores planetários.

“A inclusão da desoxigenação aquática na estrutura dos Limites Planetários nos ajudará a compreender seus impactos na estabilidade do sistema terrestre”, disse Ferrer. “Mitigar esses impactos representa um componente crítico para a manutenção da biodiversidade e do clima”.

Ferrer realizou esta revisão como parte de sua pesquisa de doutorado no Scripps, com o apoio do Programa de Bolsas de Pesquisa para Pós-Graduados da Fundação Nacional de Ciência (NSF) e de fundos de pós-graduação do Scripps e da UC San Diego, seguida de apoio pós-doutoral da UC Santa Cruz e da UC Santa Barbara.
Um diagrama que mostra algumas das principais interações existentes entre a desoxigenação aquática e os outros limites planetários, incluindo os fatores e efeitos primários e secundários. Aqui, a ênfase é colocada nas interações que ocorrem no ambiente marinho; no entanto, interações semelhantes também ocorrem em sistemas de água doce.

O estudo foi publicado em 30/06/2026 na revista Limnology and Oceanography. Entre os autores adicionais estão quatro ex-alunos de doutorado do Scripps — Shailja Gangrade, Lillian McCormick, Ariel Pezner e Yassir Eddebbar, que agora é cientista climático do Scripps — juntamente com De’Marcus Robinson da UCLA, Véronique Carcon do Institut de Physique du Globe de Paris e Kevin Rose do Rensselaer Polytechnic Institute. (ecodebate)

El Niño: cidades não estão preparadas para o que está por vir

O governo do Rio Grande do Sul lançou, no mês de junho, o Programa Estadual de Preparação para Eventos Extremos (Prepara RS – El Niño), a fi...