terça-feira, 13 de outubro de 2026

Mais de 3.500 espécies já estão ameaçadas pelas mudanças climáticas

Um estudo publicado na revista científica BioScience aponta que pelo menos 3.585 espécies de animais já enfrentam risco direto de extinção devido às mudanças climáticas.

Detalhes da Pesquisa

• Grupos mais afetados: Invertebrados marinhos e animais com menor capacidade de locomoção rápida para escapar de condições extremas lideram a vulnerabilidade.

• Classes em risco: Pelo menos um quarto das espécies avaliadas em 6 classes de animais — incluindo aracnídeos, centopeias (quilópodes), antozoários e hidrozoários (como corais e águas-vivas) — estão sob ameaça direta do aquecimento global.

• Nova pressão: Embora a destruição de habitats e a exploração humana continuem sendo os principais vetores de perda de biodiversidade, a crise climática avança rapidamente como uma terceira grande força destrutiva.

• Eventos extremos: Ondas de calor marinhas, secas e domos de calor já provocam mortandades em massa na fauna global, gerando efeitos cascata nos ecossistemas.

Estudo liderado pela Oregon State University mostra que o aquecimento global se tornou a terceira grande ameaça à biodiversidade, ao lado da caça predatória e da destruição de habitats

Pesquisa reúne dados de mais de 70 mil espécies e revela que 94,5% da fauna descrita no planeta ainda não teve seus riscos climáticos avaliados, um ponto cego que pode custar caro para a conservação global.

Imagine um mar sem mexilhões nem mariscos, um recife sem cor e uma colônia inteira de aves que simplesmente desaparece de uma temporada para a outra. Não é ficção científica. É o retrato que uma nova pesquisa liderada pela Oregon State University (OSU) traça para o presente da vida selvagem no planeta.

O levantamento aponta que mais de 3.500 espécies animais já enfrentam ameaças diretas ligadas às mudanças climáticas. E o mais preocupante talvez não seja esse número isolado, mas o que ele representa: o clima deixou de ser um problema distante e se tornou, segundo os pesquisadores, a terceira grande força capaz de empurrar espécies inteiras para a extinção, ao lado de duas ameaças já bem conhecidas, a superexploração de recursos naturais e a destruição de habitats.

Uma nova fase na crise da biodiversidade

Durante décadas, quem estudava a perda de espécies olhava principalmente para dois vilões: a caça e a pesca predatórias, e o desmatamento ou a ocupação de áreas naturais. Esses dois fatores continuam presentes, mas os cientistas da OSU alertam que o aquecimento global já não é mais coadjuvante nessa história.

William Ripple, ecologista que lidera o estudo, resume a situação de forma direta: para ele, a fauna selvagem da Terra está entrando em uma fase que pode ser chamada de crise existencial. Não se trata mais de prever um risco futuro, e sim de descrever um processo que já está em curso, com espécies inteiras sendo atingidas neste exato momento.

Quem está mais vulnerável

Para chegar a essas conclusões, a equipe analisou dados de 70.814 espécies distribuídas em 35 classes diferentes, usando como referência as categorias de risco da União Internacional para a Conservação da Natureza, a IUCN.

O resultado mostra um padrão preocupante: em pelo menos seis classes de animais, mais de um quarto das espécies avaliadas já está ameaçado pelo clima. Aranhas, escorpiões e centopeias aparecem nessa lista, assim como corais, águas-vivas e outros invertebrados marinhos, considerados pelo estudo como o grupo mais vulnerável de todos.

A explicação para essa fragilidade está ligada a algo simples: esses animais têm pouca ou nenhuma capacidade de se mover rapidamente para escapar de condições adversas. Enquanto um pássaro pode migrar para uma região mais fria, um coral ou uma esponja no fundo do mar não tem para onde ir quando a temperatura da água sobe. E é justamente o oceano que vem absorvendo a maior parte do calor excedente gerado pelo aquecimento global, o que transforma os ambientes marinhos em um dos pontos mais críticos do planeta.

Quando o calor mata em massa

As mudanças climáticas são a principal ameaça às espécies em risco de extinção

Estudo mostra que o maior fator de risco para espécies em risco de extinção são as consequências das mudanças climáticas.

Um dos aspectos mais impactantes do estudo é a forma como ele descreve os efeitos dos eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas, incêndios florestais e inundações. Esses episódios não causam apenas mortes pontuais. Eles provocam mortandades em massa, capazes de reconfigurar ecossistemas inteiros em pouco tempo.

E os efeitos não param na perda direta de vidas. Quando um grande número de animais morre de uma só vez, a ciclagem de nutrientes e os processos ligados ao carbono no ambiente também são afetados. Interações essenciais para o equilíbrio da natureza, como predação, competição, polinização e parasitismo, deixam de funcionar como deveriam, gerando um efeito cascata que pode comprometer a saúde de todo um ecossistema.

Os exemplos reunidos pelos pesquisadores dão uma dimensão concreta desse cenário:

Espécie ou local

Impacto registrado

Causa direta

Moluscos na costa de Israel

Queda 90% na população

Elevação temperatura d’água

Invertebrados interditais no Noroeste do Pacífico

Bilhões de mortes

Domo de calor de 2021

Recifes Grande Barreira de Corais

Perda 29% da cobertura de coral

Onda de calor marinha de 2016

Airos comuns na costa oeste da América do Norte

Cerca de 1 milhão de mortes por inanição

Alteração na teia alimentar (2015 a 2016)

Bacalhau do Pacífico

Declínio 71% da população

Maior demanda metabólica e menos presas disponíveis

Baleias jubarte no Pacífico Norte

Cerca de 7 mil mortes

Ondas de calor marinhas

São números que, colocados lado a lado, deixam de parecer eventos isolados e passam a contar uma história em comum: a de um sistema natural sob pressão crescente.

"Entre os anos de 2022 e 2025, o número de ocorrências de espécies no Brasil subiu 65,49%, atingindo 37,5 milhões.

O maior obstáculo pode ser a falta de dados

Se os números já assustam, o que os cientistas descrevem como ponto cego pode ser ainda mais preocupante. As 70.814 espécies analisadas no estudo representam apenas 5,5% de tudo o que já foi descrito pela ciência em termos de vida selvagem. Ou seja, mais de 94% das espécies conhecidas ainda não tiveram seus riscos climáticos sequer avaliados.

Esse déficit não é distribuído de forma equilibrada. Das 101 classes de seres vivos existentes, 66 nunca tiveram uma única espécie avaliada pela Lista Vermelha da IUCN, principal referência global sobre risco de extinção. E há outro detalhe revelador: a lista é fortemente concentrada em vertebrados, que representam menos de 6% de todas as espécies animais já nomeados no planeta. Isso significa que boa parte do que se sabe hoje sobre risco climático vem de um recorte pequeno e pouco representativo da biodiversidade real.

Na prática, isso quer dizer que grupos inteiros, como muitos invertebrados, artrópodes e organismos marinhos menos estudados, podem estar sob ameaça sem que ninguém tenha ainda documentado isso formalmente.

A partir de 05/03/2026 entrou em vigor novas regras internacionais que vão mudar o comércio de fauna e flora silvestres.

O que os cientistas propõem daqui para frente

Diante desse cenário, a equipe da OSU não se limita a diagnosticar o problema. O estudo apresenta um conjunto de recomendações que, segundo os autores, são necessárias para reduzir o risco de decisões políticas tomadas às cegas:

Criar um banco de dados global dedicado a registrar eventos de mortalidade em massa relacionados ao clima, cobrindo diferentes ecossistemas ao redor do mundo.

Acelerar a avaliação de espécies hoje ignoradas pelos sistemas de classificação de risco, especialmente fora do grupo dos vertebrados.

Implementar revisões periódicas de risco climático, levando em conta a capacidade de adaptação de cada espécie.

Integrar, de forma mais efetiva, as políticas de biodiversidade e as políticas climáticas, hoje tratadas com frequência como agendas separadas.

Por que isso importa para todos nós

É fácil olhar para números de espécies distantes, como corais em recifes do outro lado do mundo ou moluscos na costa de Israel, e sentir que o problema não toca a vida cotidiana. Mas cada uma dessas perdas está conectada a cadeias alimentares, à produção de alimentos, à regulação do clima e até a economia de comunidades inteiras que dependem da pesca ou do turismo ligado à natureza.

O recado central do estudo da Oregon State University não é apenas alertar sobre uma nova ameaça. É mostrar que, sem entender de verdade a extensão desse risco, especialmente nas espécies que ainda não foram avaliadas, será muito difícil construir políticas de conservação realmente eficazes. Entender o tamanho do problema, afinal, é o primeiro passo para conseguir enfrentá-lo. (ecodebate)

domingo, 11 de outubro de 2026

O que um estudo do MIT revela sobre comida, energia e desigualdade em 2050

Imagens de comida desperdiçada no Ceasa, em São Paulo/SP

Uma nova modelagem climática e econômica sugere que, em algumas décadas, sobreviver vai depender menos do clima em si e mais da renda e do endereço de cada família.

Pesquisadores do MIT simularam quase 4.000 futuros possíveis para 2050. Em boa parte deles, um mesmo padrão se repete: os mais pobres podem chegar a gastar metade do que ganham só para comer, enquanto os mais ricos, na mesma cidade, gastam uma fração disso.

Tem um exercício simples que quase todo mundo já fez sem perceber. É aquele momento, no fim do mês, em que a conta de luz chega junto com a lista de compras do mercado e alguma coisa no orçamento precisa ceder. Para muitas famílias, essa conta nunca fecha de verdade: só se reorganiza, mês após mês, entre o que falta e o que pode esperar.

Um grupo de cientistas do MIT decidiu levar essa sensação cotidiana para dentro de um modelo matemático e projetá-la até 2050. O resultado, publicado na revista científica Earth’s Future, não é exatamente uma previsão sobre o clima. É uma radiografia de como o clima, a economia e a desigualdade vão se misturar na vida real, dentro da geladeira e no medidor de energia de cada casa.

Quase quatro mil futuros, testados um a um

Em vez de apostar em um único cenário, a equipe usou o GCAM, um dos modelos mais completos de simulação econômica e ambiental do mundo, para rodar 3.735 combinações diferentes de crescimento econômico, uso da terra, produção de energia e comércio de alimentos. A ideia não foi adivinhar o futuro, mas mapear todos os caminhos plausíveis até ele, do mais confortável ao mais duro.

Para que esse mapa tivesse alguma utilidade prática, o planeta foi fatiado em pedaços bem menores do que “países” ou “continentes”: 32 grandes regiões, 235 bacias hidrográficas e 384 áreas de uso da terra. É uma escala que se aproxima mais da vida real, porque ninguém paga a conta de luz de um continente inteiro. Cada família paga a sua, na sua rua, no seu clima local.

Metade do salário só para comer

O achado mais duro do estudo é também o mais simples de entender. Em determinadas regiões e cenários, famílias de baixa renda podem chegar a comprometer cerca de 50% de tudo o que ganham apenas com alimentação. No mesmo lugar, na mesma época, os grupos mais ricos gastariam perto de 5% para se alimentar igualmente bem.

Não é uma diferença de gosto ou de hábito de consumo. É uma diferença de margem de manobra. Quando metade do salário vai para o prato, sobra muito pouco para qualquer outra coisa: remédio, escola, conserto de casa, uma emergência qualquer.

Peso da alimentação na renda das famílias mais pobres

África Ocidental, 2015 25%

África Ocidental, projeção 2050 até 75%

África Austral, 2015 20%

África Austral, projeção 2050 até 65%

Faixas projetadas pelo estudo para os cenários mais severos entre as 3.735 combinações simuladas.

Comprometer metade da renda com uma única necessidade básica pode desorganizar uma vida inteira, porque sobra pouco espaço para lidar com qualquer outro imprevisto.

Ideia central atribuída a Jennifer Morris, cientista de pesquisa do MIT e uma das autoras do estudo

A média que esconde o abismo

Um dos pontos mais interessantes da pesquisa não é sobre o futuro, mas sobre como lemos dados no presente. É comum um governo comemorar uma média regional estável, como se isso já garantisse que está tudo bem. O pesquisador Gi Joo Kim, também autor do estudo, chama atenção justamente para essa armadilha: a média pode estar tranquila enquanto uma fatia inteira da população já está afundando por baixo dela.

É por isso que dividir o planeta em milhares de pedaços menores faz diferença. Na África Ocidental e na África Oriental, por exemplo, os 10% mais pobres podem enfrentar um peso alimentar de 48,4% e 42,5% da renda, respectivamente, mesmo em cenários nos quais a região, olhada de longe, parece estar progredindo. Na Ásia e no Leste Europeu, o aperto muda de forma: a fragilidade se desloca para a conta de energia, num contexto de invernos e verões cada vez mais extremos.

Não existe um único vilão nessa história

É tentador resumir tudo isso a uma frase de efeito sobre o aquecimento global. Mas o estudo evita esse atalho. Os pesquisadores analisaram 12 variáveis diferentes, entre elas o crescimento econômico, a forma como a renda é distribuída dentro de cada país, a produtividade da agricultura, o uso da terra, a intensidade de carbono da matriz energética e as regras do comércio internacional de alimentos.

Nenhuma dessas peças funciona isolada. O jeito como um país cresce economicamente influencia como a terra é usada, o que muda a disponibilidade de água, o que altera o preço da comida na prateleira. É uma cadeia longa, e o estudo argumenta que tentar resolver a crise futura com uma solução genérica, igual para todo mundo, tende a falhar. A vulnerabilidade é sempre local, quase sempre invisível na média, e exige respostas desenhadas para o contexto específico de cada bacia hidrográfica ou cidade.

A conta de luz que decide entre comer e se aquecer

No setor de energia, o contraste chega a ser desconfortável de ler. No Oriente Médio, as projeções indicam que as famílias mais ricas gastariam apenas 1,7% da renda com energia residencial em 2050, enquanto as famílias mais pobres poderiam comprometer 18,9%. No Leste Europeu, o padrão se repete em menor escala: mais de 11% da renda para os mais pobres, contra menos de 5% para os mais ricos.

Peso da energia residencial na renda, projeção 2050

Oriente Médio, renda mais alta 1,7%

Oriente Médio, renda mais baixa 18,9%

Leste Europeu, renda mais alta abaixo de 5%

Leste Europeu, renda mais baixa acima de 11%

Quando quase ⅕ da renda vira conta de luz, o consumo de energia deixa de ser uma escolha de conforto. Vira uma escolha entre esquentar a casa no inverno, ou refrescá-la num verão cada vez mais extremo, e colocar comida na mesa. Esse tipo de aperto, replicado em milhões de famílias, é o tipo de pressão que corrói a paciência das pessoas com as próprias instituições.

Um mapa, não uma sentença

Vale reforçar algo que o próprio estudo faz questão de deixar claro: essas 3.735 simulações não são uma previsão fechada sobre 2050. São um mapa de riscos.

O objetivo não é dizer qual futuro vai acontecer, mas mostrar quais combinações de política econômica, uso da terra e matriz energética empurram o mundo para os cenários mais duros, e quais combinações abrem caminho para algo mais justo.

Dito de outro modo: se sabemos hoje quais decisões levam ao abismo, ainda temos tempo de tomar decisões diferentes.

A pesquisa não é uma sentença sobre 2050. É um convite para decidir, agora, que tipo de progresso realmente queremos construir.

Fica então a pergunta que o próprio estudo deixa no ar é se faz sentido chamar alguma coisa de “progresso” se, em 2050, comer e se manter aquecido continuarem sendo privilégio de uns e fardo insuportável para tantos outros? (ecodebate)

Guerra contra o Irã acelera políticas de energia limpa

Guerra contra o Irã acelera políticas de energia limpa, mas emissões globais ainda sobem.

Apesar de novos compromissos investimentos apresentaram retração em relação ao ano anterior.
Guerra contra o Irã acelera políticas de energia limpa, mas emissões globais ainda sobem evidencia que o conflito no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz geraram um choque de preços histórico nos combustíveis fósseis, impulsionando investimentos em fontes renováveis por motivos de segurança energética, embora a dependência estrutural ainda mantenha as emissões globais em alta.

📊 Impactos do Conflito Energético

• Choque de preços: Países importadores gastaram US$ 330 bilhões a mais com fósseis.

• Economia com renováveis: Investimentos passados pouparam US$ 36 bilhões em importações.

• Vulnerabilidade: O Estreito de Ormuz restringe expressiva fatia do petróleo mundial.

• Emissões globais: Continuam subindo devido ao peso estrutural do carvão e gás.

💡 Perspectivas da Transição

• Segurança em primeiro lugar: A energia limpa passa a ser vista como escudo geopolítico.

• Caminho incerto: Especialistas divergem se o saldo final beneficiará apenas as renováveis.

• Ação de longo prazo: Mudanças exigem esforço contínuo por décadas para surtir efeito climático.

Agência Estado

Países vêm adotando energia mais limpa e medidas para reduzir consumo diante da guerra contra o Irã e do choque de preços de petróleo e gás, mas o movimento ainda não é suficiente para frear a mudança do clima.

Desde o início do conflito, em fevereiro, mais de 30 governos anunciaram ou implementaram políticas para se afastar de combustíveis fósseis e ampliar eficiência energética. Apesar disso, as emissões globais de gases de efeito estufa subiram levemente e o investimento em energia limpa caiu em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo reportagem da Associated Press.

A apuração ouviu cerca de uma dúzia de especialistas que afirmam que o conflito parece acelerar a adoção de renováveis e eletrificação, mas o mundo permanece fortemente dependente de carvão, petróleo e gás – e os efeitos de políticas recém-adotadas levam tempo para aparecer.

Para a pesquisadora Pauline Heinrichs, do Kings College London, governos “dançam” entre reconhecer a importância de energia limpa e, ao mesmo tempo, sustentar a expansão fóssil, com “um mundo antigo e um novo” convivendo em contradição.

O texto cita exemplos dessa ambivalência: no Reino Unido, houve aumento de instalações solares, enquanto o governo considera expandir a produção de gás. Na Ásia, Indonésia troca parte de usinas a diesel por solar, mas reforça o carvão para indústrias pesadas.

Segundo o Clean Investment Monitor, do Rhodium Group, o investimento global em implantação de solar e eólica caiu no primeiro semestre de 2026 ante igual período de 2025, após anos de crescimento – com a China respondendo pela maior parte da queda.

Nos Estados Unidos, na Europa e na Índia, mais expostos a preços de petróleo e gás, o investimento em solar avançou e o de eólica se manteve estável ou cresceu, segundo a diretora Hannah Pitt.

A Agência Internacional de Energia (IEA) contabilizou, até 9 de setembro, 33 governos com políticas reativas ao conflito, incluindo incentivos a veículos elétricos, infraestrutura de recarga, expansão de renováveis, substituição de caldeiras a gás por bombas de calor e retrofit de edifícios para reduzir consumo.

A China busca eficiência em indústria pesada e eletrificar veículos pesados. Já Índia e Indonésia promovem fogões elétricos para substituir gás importado, enquanto o Laos suspendeu importações de carros a gasolina e diesel até 2026 para estimular elétricos.

Ainda assim, o “ponteiro” pouco mudou. O banco de dados Climate Trace aponta que as emissões globais subiram 0,2% no primeiro semestre de 2026 ante o mesmo período de 2025. Houve alta em transporte rodoviário, enquanto emissões do setor elétrico caíram, e as de navegação recuaram, possivelmente influenciadas pelo fechamento do Estreito de Ormuz.

O conflito elevou a conta de importadores de combustíveis fósseis. Pesquisa do Centre for Research on Energy and Clean Air estima que esses países pagaram US$ 330 bilhões a mais do que o esperado antes da guerra – o maior choque sustentado desde a Guerra do Golfo de 1990 –, com União Europeia, China e Índia entre os mais afetados.

O estudo indica, porém, que investimentos em energia limpa após crises anteriores evitaram US$ 36 bilhões em importações fósseis nos primeiros 5 meses do conflito.

Especialistas ouvidos pela AP dizem ser cedo para concluir se o saldo final favorecerá renováveis ou fósseis, mas avaliam que o choque de preços e a insegurança energética ampliam o apelo da transição – não só por clima, mas por segurança.
O texto destaca que, embora o governo Trump tenha deslocado os EUA para longe das renováveis, a alta de preços e a incerteza geradas pela guerra podem empurrar outros países na direção oposta, reduzindo dependência de combustíveis fósseis. (biodieselbr)

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Injustiça climática não é sobre o clima

Injustiça climática não é sobre o clima. É sobre quem consegue sobreviver a ele.
A injustiça climática expõe como a desigualdade social determina quem consegue se proteger e sobreviver aos eventos extremos do planeta.

Como discutido em análises sobre a crise climática e obras recentes destacadas pelo EcoDebate, o aquecimento global funciona como uma lupa que revela falhas estruturais e econômicas já existentes na sociedade.

O peso desigual da crise

• Populações vulneráveis: Comunidades periféricas, indígenas, quilombolas e pessoas em moradias precárias sofrem de forma mais severa com enchentes, deslizamentos e secas.

• Fatores de exposição: Idosos em residências sem isolamento adequado, trabalhadores braçais ao ar livre e pessoas sem acesso a sistemas de alerta rápido morrem mais durante ondas de calor ou tempestades.

• Escolhas sociais: Estar preparado para um desastre não depende apenas de tecnologia ou da força da natureza, mas de decisões políticas e investimentos voltados para a proteção coletiva.

O novo livro de Friederike Otto revela porque a mudança climática é, na verdade, uma crise de justiça disfarçada

Uma cientista climática de destaque passou 8 anos estudando desastres climáticos extremos e concluiu que a desigualdade, não a física, é o que transforma uma tempestade em catástrofe.

O novo livro de Friederike Otto,”Climate Injustice: Why We Need to Fight Global Inequality to Combat Climate Change“, argumenta que a verdadeira emergência climática é a desigualdade, e depois de ver por essa perspectiva, é impossível deixar de enxergar assim.

Uma cientista climática de destaque passou oito anos rastreando desastres climáticos extremos ao redor do mundo, apenas para descobrir que a força mais mortal em jogo não era o carbono na atmosfera. Era a pobreza, a história colonial e quem a sociedade decide que vale a pena proteger.
O livro “Climate Injustice: Why We Need to Fight Global Inequality to Combat Climate Change” esperando mais um relato baseado em dados sobre geleiras derretendo e o nível do mar subindo. O que encontrei, em vez disso, foi algo muito mais próximo de um acerto de contas, e isso enriqueceu a forma como penso e avalio sobre cada onda de calor, enchente e tempestade que leio depois disso.

Friederike Otto é física do Imperial College London e um dos fundadores da ciência da atribuição, a disciplina que calcula o quanto a mudança climática contribuiu para uma tempestade ou onda de calor específica. Ela poderia facilmente ter escrito um livro cheio de modelos e probabilidades. Em vez disso, caminhou por vilarejos inundados no Paquistão, por terras agrícolas escaldadas pelo sol na África Ocidental e pelos cantos silenciosos do mundo que raramente aparecem nas manchetes sobre o clima. O resultado se lê menos como um texto científico e mais como um argumento moral, e é ainda mais potente por isso.

A mesma onda de calor, dois impactos muito diferentes

A ideia central deste livro é enganosamente simples porque o clima extremo, por si só, não cria os impactos do desastre. O que decide quem vive e quem morre é o terreno social em que as pessoas se encontram quando o clima se volta contra elas.

Otto percorre a onda de calor de 2021 no noroeste do Pacífico, o evento que quebrou recordes de temperatura em Lytton, no Canadá, de forma tão brutal que a cidade depois pegou fogo. Ao ler seu relato, o que ficou comigo não foram os recordes quebrados no termômetro. Foi a observação de que as pessoas que morreram foram, em sua maioria esmagadora, as mesmas que sempre estão mais expostas: idosos em casas mal isoladas, trabalhadores braçais ao ar livre e comunidades sem sistemas de alerta antecipado. Como ela coloca, riqueza e privilégio compram proteção contra a realidade física de um planeta em aquecimento.

Essa única percepção reformula toda a conversa sobre o clima. Não se trata simplesmente de “quão quente ficou”, mas de “quem ficou sem abrigo diante do calor”.

As ondas de calor “desaparecidas” da África

Uma das seções mais devastadoras do livro não tem relação com nenhum desastre específico. Tem a ver com os dados que nunca foram coletados, para começo de conversa.

Otto descobriu que os bancos de dados globais registraram apenas um punhado de ondas de calor na África Subsaariana desde 1900. Não porque o calor extremo não aconteça ali, mas porque a maioria das nações africanas carece da infraestrutura necessária para monitorá-lo de forma sistemática. Ela traça essa lacuna diretamente até a história colonial: estações meteorológicas ausentes, instituições científicas subfinanciadas e uma cobertura da mídia internacional que simplesmente olha para o outro lado.

Especificamente em Gâmbia, ela encontrou sistemas de alerta antecipado praticamente inexistentes, recursos de cooperação internacional que financiam represas em vez do trabalho mais difícil e menos visível de fortalecer capacidades locais, e mulheres agricultoras, responsáveis por boa parte da produção de alimentos da região, deixadas para absorver o pior do calor com o menor suporte.

É um lembrete de que a crise climática tem um problema de registro tanto quanto tem um problema de carbono, e que o silêncio nos dados é, em si, uma forma de injustiça.

Aposentando a expressão “Ato de Deus”

Otto se posiciona firmemente contra o instinto de chamar desastres climáticos de fenômenos da natureza, ou pior, de tratar a frase “a mudança climática causou isso” como um encolher de ombros igualmente fatalista. Seu argumento não é que a mudança climática não torne tempestades e ondas de calor piores. É que se uma sociedade está preparada para enfrentá-las é uma escolha, não um acidente.

Ela contrasta as enchentes de 2021 na Alemanha, quando a ampla confiança na infraestrutura do país fez com que os alertas não fossem levados a sério o suficiente, custando vidas, com Bangladesh, onde alertas de ciclones chegam a quase todos os celulares do país em poucos minutos. A diferença não é tecnologia. A Alemanha tem de sobra. A diferença é se uma sociedade decidiu construir os sistemas que protegem suas pessoas mais vulneráveis.

Um livro que se recusa a ser desesperançoso

Dado o tema, Climate Injustice facilmente poderia ter sido uma leitura esmagadora. Não é. O tom de Otto ao longo de todo o livro é lúcido, não desesperado, e ela constrói um argumento genuinamente esperançoso: as soluções para a vulnerabilidade climática e as soluções para a desigualdade social são, em grande parte, as mesmas soluções. Melhores sistemas de alerta antecipado, redes de proteção social mais fortes, mais educação para mulheres e investimento real em resiliência comunitária cumprem uma dupla função, protegendo pessoas de desastres e, ao mesmo tempo, tornando a sociedade mais justa.

Ela também dedica espaço à litigância climática, incluindo o caso do agricultor peruano Saúl Luciano Lliuya, que processa a empresa alemã de energia RWE por uma parcela do custo de proteger sua comunidade contra o risco de enchentes causadas pelo derretimento de geleiras, proporcional à participação histórica da RWE nas emissões globais. É o próprio campo de atuação de Otto, a ciência da atribuição, que torna casos como esses possíveis, transformando uma culpa abstrata em algo que um tribunal consegue de fato avaliar.

Onde o livro deixa a desejar e porque isso não é um problema

Nenhum livro é perfeito, e alguns resenhistas apontam que o tratamento que Otto dá ao papel do capitalismo na crise climática permanece um tanto superficial, e que ela não desenvolve totalmente a questão de quem deve o quê em termos de responsabilidade global pelas emissões. São críticas justas. Mas, em vez de enfraquecer o livro, elas deixam espaço para o leitor continuar pensando depois da última página, o que talvez seja exatamente o que um livro como este deveria fazer.

Por que este livro importa agora?

Estamos afogados em conteúdo sobre o clima que ou sobrecarrega com dados ou anestesia com desesperança. Otto não faz nem uma coisa nem outra. Ela entrega ao leitor uma nova lente: a mudança climática não é um vilão externo chegando de fora da nossa sociedade. É uma lupa apontada para as desigualdades que já construímos. As tempestades e ondas de calor são o gatilho. A injustiça é a arma carregada.

Se você tem se sentido exausto com as notícias sobre o clima, este é o livro que pode realmente mudar a forma como você carrega esse sentimento. A mensagem final de Otto fica com o leitor: a mudança climática foi criada por todos nós, coletivamente, e cada um de nós também carrega um pedaço do caminho para sair dela.

Avaliação: altamente recomendado, especialmente para leitores que querem entender a mudança climática não como um problema ambiental distante, mas como uma questão presente de justiça. (ecodebate)

NASA mostra que calor extremo não tem mais estação para acontecer

Estudo da NASA mostra que calor extremo não tem mais estação certa para acontecer.
Estudo recente indica que os dias quentes poderão ter até 4 horas adicionais de calor extremo entre 2070 e 2099 em cenários de altas emissões.

O que diz a pesquisa

• Aumento da duração: A análise vai além das médias diárias e avalia as 24 horas do dia. Atualmente, um dia quente apresenta em média 16,4 horas de calor extremo, período que pode subir para 21 horas no fim do século.

• Foco noturno: Cerca de 70% dessas novas horas de calor intenso devem ocorrer durante a noite, o que reduz a capacidade de recuperação térmica do organismo humano.

• Impacto global: Países de baixa e média renda concentram mais de ¾ da exposição projetada a essas condições severas.

Mais detalhes sobre a pesquisa e o monitoramento climático global podem ser acompanhados na cobertura da G1 Meio Ambiente.

Pesquisa publicada na AGU Advances analisou 45 anos de dados e descobriu que estações de calor extremo cresceram até 50% em área global, fenômeno que já não pode ser explicado apenas pelo aquecimento médio do planeta

Phoenix teve calor recorde em outubro; Rio de Janeiro viveu onda letal na primavera de 2023. Cientistas da NASA explicam por que o risco térmico está escapando do calendário tradicional do verão e o que isso muda para saúde pública, agricultura e prevenção de incêndios.

Por que o calor extremo está “vazando” para outras estações?

Em 2024, a cidade de Phoenix, no Arizona, enfrentou um cenário que desafiou a lógica dos calendários climáticos: após 113 dias consecutivos de temperaturas acima de 38°C (100°F) durante o verão, o calor simplesmente se recusou a ir embora. Foram 21 dias recordes em pleno mês de outubro.

Pouco tempo depois, em março/2026, uma onda de calor prematura voltou a quebrar recordes na região, com nove dias superando os 38°C, algo que só havia ocorrido uma única vez em março em todo o registro histórico.

Essa expansão não é apenas uma curiosidade estatística; ela tem um custo humano palpável. No condado de Maricopa, onde fica Phoenix, os dados de mortalidade revelam a gravidade desse “vazamento” sazonal: em 2024, apenas 46% das mortes relacionadas ao calor ocorreram em julho (o mês historicamente mais quente), contra 64% no ano anterior. O perigo está se diluindo ao longo dos meses, tornando o calor extremo no verão uma ameaça que transborda seus limites.

A ideia de que o calor extremo é um risco restrito ao verão meteorológico tornou-se obsoleta. Uma nova pesquisa, “Extreme dry and humid heat seasons are changing asymmetrically”, conduzida por especialistas da NASA e publicada na AGU Advances mapeou esse fenômeno, revelando como as “estações de calor” estão se expandindo de forma agressiva e, crucialmente, assimétrica ao redor do globo.

O “vazamento” das estações

Clima fora de controle, declara ONU após dias mais quentes da história.

Calor extremo atinge novo recorde global de temperatura, com influência das mudanças no clima e do El Niño.

O estudo analisou dados dos últimos 45 anos e confirmou que as janelas de calor extremo, tanto seco quanto úmido, estão invadindo o que os climatologistas chamam de shoulder seasons (estações de transição), que compreendem os 2 meses imediatamente anteriores e posteriores ao pico histórico de calor.

Os dados revelam uma transformação de escala global:

Expansão Territorial: As estações de calor seco expandiram-se sobre aproximadamente 50% da área terrestre global, enquanto as de calor úmido cresceram em 48%.

Janela de Perigo: Atualmente, 94% das terras globais experimentam mais de 95% dos seus eventos de calor extremo dentro dessa nova janela expandida (verão tradicional somado às estações de transição).

Fim da Trégua: Onde antes havia meses de temperaturas amenas (primavera e outono), agora encontramos extensões do verão que pegam populações e infraestruturas desprevenidas.

Calor seco X Calor úmido

Para o gestor público e para o cidadão, é vital diferenciar os dois tipos de calor abordados no estudo, pois cada um impõe um desafio distinto à sobrevivência:

Calor Seco (Bulbo Seco): É o principal motor de estresse em ecossistemas e na agricultura. Ele desseca o solo, compromete safras e prepara o terreno para incêndios florestais devastadores.

Calor Úmido (WBGT): Medido pela Temperatura de Globo de Bulbo Úmido (Wet Bulb Globe Temperature). Este é o índice crítico para a saúde humana, pois a alta umidade limita a capacidade do corpo de se resfriar através do suor. Quando o WBGT sobe, protocolos de trabalho ao ar livre e segurança esportiva tornam-se inválidos, exigindo a interrupção de atividades para evitar mortes.

“Diferenciar entre esses 2 tipos de calor é essencial porque eles exigem estratégias de adaptação distintas para reduzir a exposição e porque seu tempo e sazonalidade são frequentemente diferentes”.

A geografia da assimetria

NASA capta imagem do El Niño – fenômeno meteorológico que eleva as temperaturas

Um dos pontos mais reveladores da pesquisa da NASA é que o calor não está aumentando de forma uniforme nos dois lados do verão. Existe uma assimetria regional marcante que redesenha o mapa de riscos:

Aumento no Pós-Temporada (Outono): O calor está “esticando” o verão em regiões como o Oeste dos EUA, o Leste da China, o Norte da África e o Leste Europeu.

Aumento no Pré-Temporada (Primavera): O calor está chegando muito mais cedo na Europa Ocidental, na África do Sul e no Noroeste da Índia.

Essa desordem sazonal é perigosa porque o corpo humano e a infraestrutura urbana, como centros de resfriamento e hidratação, não estão em “alerta máximo” fora dos meses tradicionais. Mesmo em locais onde a tendência aponta para um outono mais quente, eventos isolados e letais podem ocorrer no sentido oposto. O Brasil sentiu isso na pele em novembro/2023, quando o Rio de Janeiro enfrentou uma onda de calor histórica e mortal em plena primavera, ilustrando que a “nova normalidade” não exclui picos extremos fora de época.

A falha dos modelos simplistas

Bolha de ar quente ganharão força no Brasil: Temperaturas poderão passar dos 40°C.

O Brasil enfrentará calor intenso, ar seco e umidade em níveis críticos. A bolha de ar quente ganhará força primeiro sobre o Centro-Norte do país e podendo elevar as temperaturas para acima dos 40°C em várias áreas.

Poderia se supor que as estações mudaram simplesmente porque a temperatura média global subiu, “subindo a régua” para todos os meses. No entanto, os pesquisadores da NASA aplicaram um teste de “série temporal sintética” para isolar o aquecimento médio anual. O resultado foi surpreendente: para 80% das terras globais, o aquecimento médio não explica a assimetria observada.

Isso significa que o clima não está apenas ficando mais quente; ele está mudando sua dinâmica interna. O “vazamento” para as estações de transição é impulsionado por tendências de circulação atmosférica e variações na umidade do solo. No outono, por exemplo, solos mais secos intensificam a transferência de calor para a atmosfera, criando um ciclo de retroalimentação que prolonga as temperaturas extremas de forma independente do aquecimento global médio.

Riscos compostos

A expansão das estações térmicas cria o que os analistas de risco chamam de “eventos compostos”, onde o calor extremo começa a sobrepor-se cronologicamente a outros desastres sazonais, multiplicando os danos:

Conflito de Estações - Impacto Observado

Calor + Incêndios Florestais - O prolongamento do calor seco no outono estende a temporada de fogo, dificultando o controle de incêndios florestais (comum no Oeste dos EUA).

Calor + Furacões - No Sudeste dos EUA, o calor prolongado coincide com o pico da temporada de furacões. Em casos de queda de energia após tempestades, a população fica presa em casas sem climatização sob calor letal.

O impacto social também invade as instituições. Escolas, que antes podiam gerenciar o conforto térmico apenas com ventilação natural fora do verão, agora enfrentam o desafio de resfriar salas de aula durante o ano letivo completo, pressionando orçamentos de energia e infraestrutura.

O desafio da adaptação

O estudo da NASA e da AGU deixa um alerta claro: entender quando o calor ocorre é tão vital para a sobrevivência quanto saber quão quente ficará. Os sistemas de alerta de calor, as políticas de saúde pública e a gestão de desastres precisam ser estendidos para além dos limites convencionais do verão meteorológico.

A gestão de riscos moderna não pode mais ser balizada por calendários da década de 80, do século passado. O cronômetro do clima mudou e as estações de transição foram invadidas por extremos que desafiam nossa resiliência.

Se o calendário térmico já não é o mesmo, por que nossas cidades e políticas públicas ainda agem como se estivéssemos vivendo no século passado? (ecodebate)

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