quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Taxa de mudança climática afeta a estabilidade da AMOC

Taxa de mudança climática afeta a estabilidade da AMOC – Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico.
Estudo alerta para possível colapso da AMOC até 2055

Um estudo da Universidade de Utrecht mostra que a estabilidade da AMOC depende da velocidade do aquecimento global, e não apenas de um limite fixo de temperatura. Sob um aumento rápido de CO2, a circulação pode entrar em colapso com +2°C, mas resiste a aumentos lentos mesmo acima de +5°C.

O Impacto da Taxa de Aquecimento

• Aquecimento rápido: Se o CO2 subir depressa, a superfície do oceano aquece antes que o calor se espalhe para o fundo. Isso impede o afundamento da água fria e desestabiliza a esteira de correntes.

• Aquecimento lento: Se a mudança climática ocorrer de forma gradual, o oceano tem tempo para se adaptar, mantendo a estabilidade da circulação por mais tempo.

• Previsão crítica: Cientistas alertam que o ponto de ruptura pode ser alcançado por volta de 2060 se o ritmo atual de emissões mantiver uma taxa de aquecimento acelerada.

Consequências do Enfraquecimento

• Clima regional: Mudanças severas nos regimes de chuva e queda relativa de temperatura em partes da Europa e do Atlântico Norte.

• Redistribuição de calor: Altera o balanço térmico global e intensifica eventos extremos em várias regiões do planeta.]

Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico: Um aquecimento mais rápido pode desencadear um ponto de inflexão que um aquecimento mais lento poderia evitar.

Há vários anos, cientistas do clima vêm demonstrando que a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) pode parar se o aquecimento global for excessivo. Uma nova pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade de Utrecht mostra que esse quadro está incompleto: o ritmo do aquecimento também determina se a AMOC permanecerá estável. O estudo foi publicado na revista científica Nature Climate Change.

A Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) é o sistema de correntes oceânicas que transporta água quente dos trópicos para o norte. Ela desempenha um papel fundamental na redistribuição do calor pelo planeta e ajuda a manter o clima relativamente ameno na Europa Ocidental.

Os cientistas há muito suspeitam que este “motor térmico” do Oceano Atlântico possa atingir um ponto de inflexão. Isso significa que o sistema passaria de seu estado forte atual para um estado muito mais fraco dentro de algumas décadas. Tal evento de inflexão poderia ser desencadeado por influências externas, como um aumento na quantidade de água de degelo das regiões polares ou o próprio aquecimento global.

As mudanças climáticas podem enfraquecer a AMOC

Limiar de temperatura

Até agora, acreditava-se que a AMOC (Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico) atingia seu ponto de inflexão e entrava em colapso em torno de um aumento de temperatura de +4°C. Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Marinha e Atmosférica de Utrecht mostram agora que a história é mais complexa. “Nossos resultados mostram que não existe necessariamente uma temperatura fixa a partir da qual a AMOC inevitavelmente entra em colapso”, afirma o autor principal, René van Westen. “A estabilidade da circulação depende da velocidade com que o clima está mudando”.

Nossos resultados mostram que não existe necessariamente uma temperatura fixa além da qual a AMOC inevitavelmente entra em colapso. A estabilidade da circulação depende da velocidade com que o clima está mudando.

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Aquecimento lento versus aquecimento rápido

Para investigar como a taxa de mudança climática afeta a intensidade da AMOC (Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico), Van Westen e seus colegas executaram um modelo climático duas vezes. Em suas simulações, eles usaram uma quantidade crescente de CO2 atmosférico, mas em velocidades diferentes. Em uma simulação, as concentrações de CO2 aumentaram lentamente (0,5 ppm por ano); na outra, muito mais rapidamente (2,5 ppm por ano), comparável à taxa atual.

Sob um aquecimento lento, a AMOC permaneceu estável bem acima de +4°C e não entrou em colapso nem mesmo com um aumento de +5°C. Sob um aquecimento rápido, a AMOC entrou em colapso já por volta de +2°C. “Deliberadamente, analisamos um cenário muito mais lento do que o que estamos vivenciando hoje”, explica o coautor Reyk Börner. “Isso nos permitiu isolar o efeito da taxa de aquecimento, independentemente de quão quente o planeta fique no final”.

Resiliência

A explicação reside na capacidade do oceano de se ajustar às mudanças. “Com um aquecimento lento, todo o oceano, da superfície até suas camadas mais profundas, tem tempo para se reorganizar gradualmente e se adaptar às condições em transformação”, afirma o coautor Henk Dijkstra, professor de Oceanografia Dinâmica. “Com um aquecimento mais rápido, o oceano simplesmente não consegue acompanhar”.

Com um aquecimento lento, todo o oceano tem tempo para se reorganizar gradualmente e se adaptar às mudanças. Com um aquecimento mais rápido, o oceano simplesmente não consegue acompanhar. Henk Dijkstra: Prof. Dr. Ir. Henk Dijkstra, professor de Oceanografia Dinâmica; Instituto de Pesquisa Marinha e Atmosférica de Utrecht

Voando para fora da estrada

Segundo os pesquisadores, a taxa crítica de aquecimento gira em torno de 0,3°C por década, um ritmo que o mundo já está atingindo. Van Westen compara a situação a dirigir um carro: “Se você está dirigindo em direção a uma parede, faz sentido contorná-la. Para isso, você precisa frear, caso contrário, você sai da estrada. Quando se trata de aquecimento global, o mundo ainda está pisando fundo no acelerador”.

Em perspectiva

Risco de colapso de correntes oceânicas acende alerta nacional na Islândia

O mesmo grupo de pesquisa publicou sobre a estabilidade do AMOC diversas vezes nos últimos anos, cada vez sob uma perspectiva ligeiramente diferente.

Em 2024, o grupo demonstrou que o aumento da quantidade de água de degelo no Atlântico Norte torna a AMOC mais instável. Esse mecanismo já era suspeito há tempos, mas este estudo foi o primeiro a demonstrá-lo em um modelo climático moderno e complexo. Os resultados confirmaram a existência de um limiar crítico de água de degelo a partir do qual a AMOC se torna instável. No entanto, esse limiar é irrealisticamente alto, o que significa que é improvável que a AMOC atual se torne instável apenas por essa contribuição. Esse estudo não levou em consideração o aquecimento global nem sua velocidade.

Um estudo posterior examinou diferentes cenários de aquecimento global e concluiu que a AMOC atingiria um ponto de inflexão por volta de 2060, tanto em um cenário de emissões intermediárias quanto em um de altas emissões. Nessas simulações, o ponto de inflexão foi atingido com um aquecimento global de aproximadamente 2,5°C.

O novo estudo explica por que os resultados de tais estudos podem divergir e por que os limiares de temperatura estimados variam entre os modelos climáticos e os cenários de emissões.  Embora a AMOC (Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico) possua um limiar crítico para a água de degelo, não existe um limiar de temperatura universal. Em vez disso, a estabilidade da AMOC depende da taxa de aquecimento: quanto mais rápido o clima aquece, mais vulnerável a AMOC se torna, enquanto um aquecimento mais lento permite que ela permaneça estável sob níveis substancialmente mais altos de aquecimento global.

Política climática

Quanto mais lento o aquecimento, mais tempo o Oceano Atlântico terá para se adaptar e menor será o risco de um colapso da AMOC (Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico) a curto prazo. Isso tem implicações para a forma como pensamos sobre as políticas climáticas: muitas das políticas atuais, incluindo o Acordo de Paris, visam limitar o pico de temperatura. Isso às vezes se baseia em trajetórias de “ultrapassagem”: aquecimento global temporário além desse limite, partindo do pressuposto de que tecnologias futuras poderão, posteriormente, reduzir a temperatura.

Segundo Van Westen, essa suposição é arriscada. “Um ponto de inflexão que induza um colapso da AMOC (Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico) pode ser desencadeado já durante um pico temporário como esse. Uma vez que isso aconteça, não pode ser simplesmente revertido. É comparável aos recifes de coral: uma vez que morrem devido ao aquecimento dos oceanos, eles não voltar a crescer, mesmo que a temperatura caia novamente mais tarde”. Se as políticas públicas se concentrarem apenas no pico de aquecimento final, pode já ser tarde demais. Os pesquisadores argumentam, portanto, que as reduções de emissões destinadas a limitar a taxa de aquecimento global merecem seu próprio espaço na agenda política. (ecodebate)

Relatório global confirma recordes de calor, gases e elevação dos oceanos em 2025

Documento da Sociedade Meteorológica Americana, com dados de 60 países, revela que indicadores vitais da Terra atingiram marcas históricas, ecoando um pedido de atenção para o futuro

O novo relatório Estado do Clima 2025 mostra concentrações inéditas de gases de efeito estufa, calor oceânico sem precedentes e o degelo acelerado do Ártico e da Antártida. Cientistas comparam o documento a um check-up de saúde do planeta, cujos resultados acendem um sinal de alerta para governos e comunidades.
O check-up da Terra em 2025 não foi nada bom

Imagine fazer um exame médico anual e descobrir que todos os seus indicadores vitais, como pressão e colesterol, não apenas estão ruins, mas pioraram significativamente em relação ao último check-up.

É com essa analogia que os cientistas apresentam o mais completo diagnóstico de saúde do nosso planeta. A 36ª edição do relatório Estado do Clima (State of the Climate), publicada pela Sociedade Meteorológica Americana (AMS), confirma que a Terra nunca esteve tão debilitada em indicadores fundamentais.

A análise, que reúne o trabalho meticuloso de 625 cientistas de 60 países, não deixa espaço para dúvidas. Em 2025, as concentrações de gases de efeito estufa, o conteúdo de calor dos oceanos e o nível global do mar atingiram patamares recordes. É como se o planeta estivesse emitindo sinais claros de estresse extremo, e o prontuário médico, infelizmente, está repleto de marcas históricas preocupantes.

Concentração de gases estufa como nunca antes

O principal motor dessa febre planetária está na atmosfera. O relatório aponta que as concentrações de dióxido de carbono (CO2), metano e óxido nitroso, os principais gases que retêm calor, foram as mais altas já registradas. O nível médio global de CO2 chegou a 425,6 partes por milhão, um aumento de 53% em relação aos níveis pré-industriais.

Para se ter uma ideia da pressão adicional que estamos colocando no sistema, as emissões de combustíveis fósseis em 2025 também foram recordistas, mais que triplicando o volume emitido anualmente na década de 1960.

‘Febre’ global sem El Niño

A temperatura dos oceanos não para de subir: 2025 foi o ano mais quente da história nas águas, superando todos os registros desde o início das observações modernas.

Mesmo sem a influência do El Niño, fenômeno que naturalmente aquece as águas do Pacífico e eleva as temperaturas globais, 2025 entrou para a história como um dos três anos mais quentes já documentados desde meados do século 19.

A Europa experimentou seu ano mais escaldante, enquanto países como Rússia, China e Argentina enfrentaram seu segundo ano mais quente. A febre é planetária e persistente: todos os últimos onze anos, de 2015 a 2025, figuram na lista dos mais quentes da história.

Oceanos no limite

As consequências do desequilíbrio atmosférico são absorvidas em grande parte pelos oceanos, e eles estão no limite. Quase 90% do excesso de energia aprisionada pelo efeito estufa nas últimas décadas foi parar nas águas.

O resultado é que o conteúdo de calor dos oceanos, medido da superfície até 2000 metros de profundidade, bateu um novo recorde em 2025. Apenas 26% da superfície oceânica experimentou um evento de frio, enquanto alarmantes 87% enfrentaram ao menos uma onda de calor marinho.

Este aquecimento, combinado com o degelo, empurrou o nível do mar para uma nova máxima histórica pelo 14º ano seguido, alcançando cerca de 111,2 milímetros acima da média de 1993. É a inércia de um sistema em desequilíbrio, com impactos diretos na vida de milhões de pessoas que vivem em zonas costeiras.

Recordes de calor nos 2 polos

Gases de efeito estufa e calor nos oceanos: novos recordes

O sinal de alerta também ecoa com força nas regiões polares. O Ártico registrou seu segundo ano mais quente, com as temperaturas do ar subindo a uma taxa quase três vezes maior que a média global. O gelo marinho mais antigo e espesso está praticamente extinto, uma perda de resiliência que transforma a paisagem da região.

Na Antártida, a situação é igualmente grave. O continente gelado observou seu ano mais quente desde o início dos registros, em 1979, enquanto a extensão do gelo marinho ao seu redor permaneceu abaixo da média, seguindo uma tendência de quase uma década.

As geleiras terrestres, grandes reservatórios de água doce, perderam massa pelo 38º ano consecutivo, e cerca de 41% de toda a perda desde 1976 ocorreu apenas nos últimos dez anos.

Ciclones mais intensos

A energia extra acumulada no sistema climático também se manifesta na intensificação de tempestades. A temporada de ciclones tropicais em 2025 foi acima da média, com 97 tempestades nomeadas. Cinco delas atingiram a temível Categoria 5.

O furacão Melissa, um dos mais fortes já registrados no Atlântico, deixou um rastro de devastação ao atingir a Jamaica com ventos de impressionantes 305 km/h, causando 95 mortes e bilhões de dólares em prejuízos. São eventos que deixam de ser apenas estatísticas e se transformam em tragédias humanas e perdas irreparáveis.

Oceanos em alerta: conteúdo de calor oceânico recorde; mudanças climáticas elevam temperatura da superfície do mar por emissões de gases de efeito estufa.

Alerta máximo: em 2025, os oceanos absorveram calor como 12 bombas de Hiroshima explodindo por segundo, bateram o maior recorde desde 1960, saltaram para 23 zettajoules e acenderam o sinal vermelho em áreas-chave como Atlântico Tropical e Sul, Mediterrâneo e Oceano Antártico.

Um diagnóstico para o planejamento do futuro

Alan Sealls, presidente da AMS, reforça que este relatório não é um mero conjunto de números. “O Estado do Clima conecta-se à saúde de todos os ecossistemas. Ele apresenta medições e tendências críticas que informam agências, comunidades, empresas e indivíduos para o planejamento de longo prazo“, afirma.

O check-up anual da Terra é, acima de tudo, uma ferramenta vital. Ele nos mostra, com clareza e rigor científico, a velocidade das mudanças e a urgência de ações que vão desde a forma como geramos energia até o modo como construímos nossas cidades.

O diagnóstico está dado e as condições tendem a piorar. O plano de tratamento, contudo, ainda está engatinhando. (ecodebate)

Calor extremo de 2026 colocou a Europa em chamas

O verão de 2026 na Europa é marcado por sucessivas ondas de calor extremo e secas severas que alimentam grandes incêndios florestais em países como França, Espanha, Portugal e Reino Unido, resultando em milhares de mortes, evacuações em massa e forte impacto na agricultura.

Impactos Principais

• Temperaturas recordes: Mercúrio ultrapassou 37°C em alertas emitidos pelo Met Office na Inglaterra, com picos próximos de 40°C no sul do continente.

• Incêndios e evacuações: Focos de fogo intensos forçaram a retirada de mais de 200 mil pessoas em várias regiões afetadas.

• Crise hídrica e alimentar: O Copernicus registrou níveis críticos em rios como o Reno e o Danúbio, gerando perdas bilionárias na agricultura e pressão inflacionária.

(Esquerda) Mapa mostrando anomalias e extremos na temperatura do ar à superfície em junho de 2026. As categorias de cores referem-se aos percentis das distribuições de temperatura para o período de referência de 1991–2020. As categorias extremas (“mais fria” e “mais quente”) são baseadas nas classificações de junho para o período de 1979–2026. (Direita) Gráfico de barras mostrando as anomalias mensais da temperatura do ar à superfície em junho, com média sobre a Europa Ocidental (11°O–15°L, 37°–55°N). As anomalias são relativas à média de junho para o período de 1991-2020.

Ondas de calor recordes na França, no Reino Unido e na Espanha já deixaram milhares de mortos, forçaram a evacuação de mais de 200 mil pessoas e ameaçam a segurança alimentar do continente

Enquanto 2026 caminha para ser o ano mais quente da história, secas, incêndios e colapso de infraestrutura expõem a fragilidade da Europa diante da crise climática

A Europa Ocidental atravessa, em 2026, uma das crises climáticas mais severas de sua história recente. Ondas de calor sucessivas e secas prolongadas atingem com força especial o Reino Unido, a França e a Espanha, sendo que neste último país o calor tem alimentado incêndios florestais de grandes proporções.

Os números que começam a se consolidar são alarmantes: milhares de mortes associadas ao calor, plantações destruídas, cidades inteiras sob risco de desabastecimento de água e uma infraestrutura pública que simplesmente não foi projetada para o clima que agora se impõe.

Especialistas apontam que o ano caminha para se tornar o mais quente já registrado, em um cenário no qual o aquecimento global se combina com o fenômeno El Niño para elevar ainda mais as temperaturas. O resultado é um efeito em cadeia: o calor resseca o solo, o solo seco perde a capacidade de resfriar o ar, e essa combinação intensifica ainda mais as próximas ondas de calor. Trata-se de um ciclo que autoridades meteorológicas e sanitárias tentam, com urgência, conter.

Recordes de temperatura se acumulam pela Europa

A lista de recordes quebrados neste ano é extensa. Na França, mais da metade do território registrou, em maio, as temperaturas mais altas já medidas para o mês. Pouco depois, em 23 de junho, o instituto meteorológico Météo-France classificou o dia como o mais quente da história do país, com termômetros chegando a 44,3°C no Sudoeste.

O Reino Unido, por sua vez, enfrentou duas ondas de calor recordes entre maio e junho, um padrão que, segundo meteorologistas, deixou de ser exceção para se tornar um traço recorrente do verão britânico. Já quando observada como um todo, a Europa Ocidental registrou a temperatura média mais alta já medida para o período entre junho e julho, alcançando 21,62°C e superando a marca anterior, estabelecida em 2022.

Milhares de mortes e um sistema de saúde sob pressão

O impacto mais dramático da crise recai sobre a saúde da população, sobretudo entre idosos e outros grupos vulneráveis, apontados pelas autoridades como os que correm maior risco de morte durante períodos de calor extremo.

Na França, a agência de saúde pública contabilizou pelo menos 5.700 mortes excedentes só em junho. No Reino Unido, as duas ondas de calor entre maio e junho já são responsáveis por mais de 2.800 mortes acima do esperado para o período. Os serviços de saúde dos dois países relatam dificuldade para absorver o aumento repentino de atendimentos, em um cenário que testa os limites de hospitais e equipes médicas.

Incêndios, evacuações e secas históricas

Na Espanha, o calor extremo tem se traduzido em incêndios florestais de grandes proporções. Na França, um incêndio histórico no sudoeste do país obrigou a evacuação de 220 mil pessoas, um dos maiores deslocamentos populacionais no continente desde a Segunda Guerra Mundial.

No Reino Unido, a combinação de calor e ausência de chuvas colocou metade do território da Inglaterra e a totalidade do País de Gales em situação oficial de seca, com autoridades alertando para riscos econômicos e para o setor de energia. Segundo especialistas, o solo ressecado perde sua função natural de resfriamento do ambiente, criando um círculo vicioso, no qual quanto mais seco o solo, mais intenso é o calor, e quanto mais calor, mais seco fica o solo.

Transporte público no limite

A infraestrutura de transportes tem sido uma das mais afetadas pelo calor extremo no Reino Unido. Motoristas de ônibus em Londres relataram temperaturas de quase 40°C dentro das cabines, já que grande parte da frota conta apenas com sistema de ventilação, sem ar-condicionado. Nas rodovias, o número de panes mecânicas cresceu 20%, provocadas principalmente por superaquecimento de motores e estouros de pneus em pistas escaldantes.

Nos trilhos, o calor pode literalmente deformar as ferrovias, obrigando operadores a reduzir a velocidade dos trens por segurança. A seca agrava o problema: ao encolher o solo, ela desestabiliza os taludes ferroviários e pode deslocar os dormentes das linhas. No metrô de Londres, a situação chegou a um ponto simbólico, já que passageiros enfrentaram temperaturas superiores ao limite legal estabelecido para o transporte de animais, como o gado.
Onda de calor na Europa em 2026

Agricultura sob risco de colapso

O setor agrícola é apontado por especialistas como um dos mais expostos à crise climática, correndo o risco de entrar no que chamam de “ciclo de destruição” climático. No Reino Unido, a combinação de solo seco com plantações danificadas pode resultar na pior colheita já registrada no país: as estimativas apontam queda de 2,5 milhões de toneladas na produção de cereais e oleaginosas, o equivalente a uma perda de £390 milhões em receita para os agricultores.

Na pecuária, o crescimento da grama caiu pela metade por falta de umidade, forçando produtores a recorrer antecipadamente a estoques de ração que seriam usados no inverno. O impacto já chega à mesa do consumidor: o preço de atacado da alface americana subiu 90%, o do tomate mais de 60% e o da batata mais de 40%. Produtores rurais alertam que o país pode enfrentar escassez generalizada de alimentos caso as secas se prolonguem.

Apesar de técnicas de agricultura regenerativa poderem amenizar parte dos danos, a maior parte das propriedades rurais ainda não tem infraestrutura adequada para armazenar água, e proprietários de terra cobram, há tempos, reformas que facilitem a construção de pequenos reservatórios.

Um alerta para o futuro

Diante desse cenário, especialistas e autoridades de saúde e meteorologia têm defendido reformas estruturais: novas leis sobre temperatura máxima em ambientes de trabalho e estudo, investimentos em infraestrutura resiliente ao calor e políticas de longo prazo para lidar com a escassez de água.

Está em jogo, segundo eles, não é apenas o desconforto de um verão mais quente, mas a capacidade dos países europeus de manter funcionando serviços essenciais, como saúde, transporte e produção de alimentos, em um clima que já não é mais o mesmo. (ecodebate)

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Artista cria ilha flutuante feita com 150 mil garrafas plásticas num projeto sustentável

Artista cria ilha flutuante feita com mais de 150 mil garrafas plásticas em um dos projetos sustentáveis mais curiosos, deixando o mundo todo surpreso.
Além de servir como moradia, a ilha atrai peixes e outras espécies marinhas, formando um pequeno ecossistema.

O artista e ambientalista britânico Richart “Rishi” Sowa construiu a Joyxee Island, uma ilha flutuante feita com mais de 150 mil garrafas plásticas recicladas. A estrutura fica ancorada na costa de Isla Mujeres, perto de Cancun, no México, e serve como moradia ecológica e santuário sustentável.

Como a Ilha Funciona

• Base flutuante: Sacos cheios de garrafas PET vazias sustentam todo o peso da estrutura sobre a água.

• Camadas de solo: O artista usa uma técnica com camadas de paletes, areia, terra orgânica e lixo reciclável para formar o solo.

• Vegetação nativa: Plantas e mangues crescem na superfície, e suas raízes ajudam a travar e fortalecer a base da ilha.

• Ecossistema próprio: A estrutura atrai peixes e pequenos animais marinhos para o seu entorno.

Estrutura e Recursos

• Habitação: A construção incluiu uma casa de múltiplos andares com comodidades básicas.

• Energia e autonomia: O local conta com uso de painéis solares, plantas alimentícias cultivadas no próprio solo e praias artificiais.

Se quiser, posso detalhar mais sobre:

• A técnica de construção camada por camada

• Os desafios que ele enfrentou com tempestades no Caribe

A criação de Rishi Sowa funciona como uma enorme experiência de reaproveitamento

As garrafas plásticas descartadas normalmente são associadas a um dos maiores problemas ambientais dos oceanos. No México, porém, milhares delas ganharam uma função completamente diferente: tornaram-se a base de uma ilha artificial capaz de flutuar, receber vegetação e até servir de moradia.

O responsável pelo projeto é o artista e ambientalista britânico Richart "Rishi" Sowa. Instalado em Isla Mujeres, próximo à costa de Cancun, ele desenvolveu uma estrutura conhecida como Joyxee Island, construída a partir de mais de 150 mil garrafas plásticas reutilizadas.

Mais de 150 mil garrafas ajudam a manter a ilha flutuando

A lógica utilizada por Rishi é relativamente simples. Garrafas PET vazias e fechadas contêm ar e, quando reunidas em grande quantidade, fornecem flutuabilidade suficiente para sustentar uma estrutura sobre a água. Para construir a ilha, milhares delas foram agrupadas e colocadas dentro de redes.

Sobre essa base, foram acrescentados paletes e outros materiais capazes de formar uma superfície mais firme. O artista então adicionou areia, terra e vegetação. Aos poucos, aquilo que inicialmente parecia apenas uma grande plataforma passou a se aproximar visualmente de uma pequena ilha.

Entre os principais elementos utilizados estão:

Mais de 150 mil garrafas plásticas reaproveitadas

Redes utilizadas para manter as garrafas agrupadas

Paletes e estruturas de madeira

Terra e areia formando parte da superfície

Árvores e outras plantas cultivadas sobre a estrutura

A lógica utilizada por Rishi é relativamente simples. Garrafas PET vazias e fechadas contêm ar e, quando reunidas em grande quantidade, fornecem flutuabilidade suficiente para sustentar uma estrutura sobre a água. Para construir a ilha, milhares delas foram agrupadas e colocadas dentro de redes.

Sobre essa base, foram acrescentados paletes e outros materiais capazes de formar uma superfície mais firme. O artista então adicionou areia, terra e vegetação. Aos poucos, aquilo que inicialmente parecia apenas uma grande plataforma passou a se aproximar visualmente de uma pequena ilha.

Entre os principais elementos utilizados estão:

Mais de 150 mil garrafas plásticas reaproveitadas

Redes utilizadas para manter as garrafas agrupadas

Paletes e estruturas de madeira

Terra e areia formando parte da superfície

Árvores e outras plantas cultivadas sobre a estrutura
Rishi transformou a estrutura em um lugar onde é possível realizar diferentes atividades da rotina. Entre as soluções adotadas está o aproveitamento da energia solar. Painéis instalados na ilha ajudam a fornecer eletricidade sem depender exclusivamente de uma ligação convencional com a rede elétrica.

A água da chuva também pode ser coletada e aproveitada, enquanto parte do espaço disponível é utilizada para cultivar alimentos. Há ainda equipamentos que utilizam a própria luz solar para auxiliar no preparo das refeições. Com isso, o projeto reúne diferentes conceitos relacionados à sustentabilidade em um único lugar.

Projeto transforma lixo em material de construção

A iniciativa também é um exemplo bastante incomum de upcycling. Diferentemente da reciclagem convencional, que geralmente envolve transformar um material usado em matéria-prima para fabricar outro produto, o conceito busca reaproveitar objetos atribuindo a eles uma nova função e, muitas vezes, maior valor.

Na ilha, as garrafas continuam praticamente intactas. Em vez de serem trituradas ou derretidas, elas aproveitam justamente uma característica de sua forma original: a capacidade de aprisionar ar quando estão fechadas. É essa simplicidade que torna a Joyxee Island tão curiosa.

Um objeto produzido aos bilhões e normalmente descartado após poucos minutos de uso acabou servindo como elemento básico para uma construção que permanece flutuando sobre o mar. (tudogostoso)

O mundo já sofre quase o dobro de dias de estresse térmico extremo

Um levantamento científico recente publicado na revista Nature Climate Change mostra que 70% da população mundial enfrenta agora pelo menos 90 dias por ano de estresse térmico forte, um salto significativo em relação aos 55% registrados na década de 1970. O aquecimento global tem tornado o calor não apenas mais intenso, mas também mais longo e persistente.

Fatores do Estresse Térmico

• Sensação térmica real: O índice avalia umidade, vento, radiação e a reação do corpo.

• Noites tropicais: As madrugadas mantêm sensações acima de 20°C, impedindo o corpo de esfriar.

• Expansão geográfica: Regiões antes amenas, como parte da Europa e América do Norte, sofrem com picos de 38°C.

• Impacto na saúde: Grupos vulneráveis enfrentam riscos cardiovasculares e respiratórios ampliados.

Pesquisa publicada na Nature Climate Change mostra que a parcela da população global exposta a calor perigoso saltou de 16% para 22% entre as décadas de 1970 e 2024 e as noites, quando o corpo deveria descansar, estão cada vez mais sufocantes.

Enquanto a Europa enfrenta mais uma onda de calor implacável, cientistas confirmam o que muita gente já sente na pele: dormir, trabalhar e simplesmente existir sob calor extremo se tornou mais difícil e mais perigoso em praticamente todo o planeta.

Estudo publicado na revista científica Nature Climate Change acaba de confirmar, com dados e método, algo que o corpo de milhões de pessoas já vinha denunciando: o planeta está ficando perigosamente mais quente para se viver.

A pesquisa, intitulada “Global heat stress intensification and its expanding footprint on the human population“, rastreou meio século de dados, entre as décadas de 1970 e 2024, para medir a exposição da humanidade ao chamado estresse térmico: o acúmulo perigoso de calor no corpo humano, provocado pela combinação de temperatura alta, umidade, vento e radiação solar. É essa combinação e não apenas o número que aparece no termômetro, que decide se um dia será apenas quente ou verdadeiramente perigoso para a saúde.

O resultado é alarmante. Na década de 1970, 16% da população mundial enfrentava pelo menos um dia de estresse térmico extremo por ano, quando a sensação térmica atingia 46°C ou mais. Cinco décadas depois, esse número subiu para 22%.

Em termos práticos, significa que dezenas de milhões de pessoas a mais, todos os anos, estão sendo empurradas para uma zona de risco real à saúde e, em muitos casos, à vida.
O que é, afinal, o estresse térmico

Para medir esse fenômeno com precisão, os pesquisadores utilizaram o Índice Universal de Clima Térmico (UTCI, na sigla em inglês), um indicador que vai além da temperatura do ar. Ele leva em conta como o corpo humano de fato reage ao calor, somando fatores como umidade do ar, velocidade do vento e radiação solar para calcular a chamada “temperatura sentida”.

É essa métrica mais completa que explica por que dois lugares com a mesma temperatura no termômetro podem representar riscos completamente diferentes: um dia seco de 38°C pode ser suportável, enquanto o mesmo número, em ambiente úmido e sem vento, pode significar uma ameaça real ao organismo.

Segundo o levantamento, a média diária do UTCI vem subindo de forma consistente porque os episódios de calor estão se tornando, ao mesmo tempo, mais frequentes, mais intensos e mais longos, um reflexo direto do aquecimento global provocado pela ação humana.

Da Europa à Escandinávia: o calor extremo muda de endereço

Um dos achados mais expressivos do estudo é geográfico. Países como Espanha, Portugal, Itália e França já registram sensações térmicas até cinco graus mais altas do que registravam na década de 1970. Uma mudança silenciosa, mas profunda, na relação dessas regiões com o verão.

Mais preocupante ainda é a expansão do fenômeno para territórios onde ele historicamente não era um problema. De acordo com os pesquisadores, o estresse térmico está “se expandindo para áreas do globo onde historicamente não era experimentado”. Hoje, episódios de estresse térmico “muito forte”, com sensação térmica de pelo menos 38°C, já atingem partes da América do Norte, do Reino Unido e até da Escandinávia, regiões conhecidas justamente por seus climas amenos ou frios.

As noites que não dão descanso

Se o calor do dia já é motivo de alerta, o estudo aponta um problema tão ou mais grave: o aumento das chamadas noites tropicais, quando a sensação térmica não cai abaixo dos 20°C nem durante a madrugada. Na maior parte do planeta, esse tipo de noite vem se tornando mais comum e isso muda tudo do ponto de vista da saúde.

É durante o sono que o corpo humano se recupera do desgaste térmico acumulado ao longo do dia. Quando essa pausa não acontece, “não se consegue nenhum alívio e o corpo não consegue esfriar, isso se torna muito perigoso para a saúde das pessoas, principalmente para as pessoas vulneráveis”, alertam os pesquisadores.

Idosos, crianças, gestantes e pessoas com doenças crônicas são os grupos mais expostos a esse tipo de risco silencioso, que muitas vezes não aparece nas estatísticas oficiais como “morte por calor”, mas como complicações cardiovasculares, renais ou respiratórias agravadas pelo calor.

Um retrato que ainda pode piorar

O levantamento analisou dados até 2024, mas os próprios pesquisadores fazem questão de destacar: a tendência não parece ter parado por aí. As ondas de calor que já atingiram a Europa neste ano sugerem que a trajetória de aumento identificada pelo estudo continua em curso, reforçando que o que antes era exceção climática caminha para se tornar rotina em boa parte do mundo, inclusive em regiões que, até pouco tempo atrás, se consideravam a salvo desse tipo de extremo.

Para quem vive em países tropicais, como o Brasil, os achados soam menos como uma novidade distante e mais como a confirmação científica de um verão que, ano após ano, parece começar mais cedo, durar mais e dar cada vez menos trégua de dia e, principalmente, de noite.

Mudanças em temperaturas, dias de estresse térmico e noites tropicais ao longo do tempo.

Mapas mostram a diferença entre a década de 1970 e os últimos 10 anos (2015-2024) para indicadores de estresse térmico, com base em médias decadal de: os 10 maiores valores máximos de temperatura de feltros-como por ano (UTCI, °C), os 10 maiores valores mínimos de temperatura por ano (UTCI, °C), o número anual de dias com pelo menos forte (UTCI ≥32°C), muito forte (UTCI °C) Gráficos de linha mostram a média global para cada indicador para cada ano de 1950 a 2024. As tendências por década desde a década de 1970 (1970-2024) são indicadas acima de cada gráfico, com intervalos de confiança de 95%. Todas as tendências são estatisticamente significativas (P < 0,001). As tendências foram estimadas usando regressão de mínimos quadrados ordinários com erros de HAC; os valores de P são baseados em testes de dois lados da inclinação. Não foi aplicado ajuste para múltiplas comparações. Dados do mapa base da Natural Earth (https://www.naturalearthdata.com). (ecodebate)

sábado, 29 de agosto de 2026

IA está superaquecendo cidades dos EUA

O rápido crescimento dos data centers de inteligência artificial nos Estados Unidos gera ilhas de calor urbanas locais, elevando as temperaturas dos bairros próximos em até 2,2°C, e pressiona fortemente a rede elétrica durante ondas de calor, aumentando o risco de apagões e o custo de energia.

O Impacto Térmico e Ambiental

• Ilhas de Calor: O calor dissipado pelos servidores e potentes sistemas de exaustão altera o microclima ao redor das instalações.

• Sobrecarga de Energia: O ar-condicionado e os sistemas de refrigeração exigem eletricidade extra justamente quando a rede está no limite máximo devido ao uso residencial.

• Consumo de Água: Grandes volumes hídricos são direcionados para resfriar os chips de processamento contínuo.

• Reação Local: Moradores e comunidades cobram moratórias e restrições para frear a construção de novos complexos tecnológicos perto de áreas habitadas.

Um panorama visual sobre o crescimento acelerado dos polos de data centers e seus impactos nos Estados Unidos (O Lado Sombrio da Explosão dos Data Centers de IA nos Estados Unidos): https://www.youtube.com/watch?v=in9edgvFaC0&t=1s.

Data center localizado na cidade de Barueri, na Grande São Paulo

Mais de 1.500 instalações em construção consomem energia de cidades inteiras e elevam a temperatura em um raio de até 10 km, enquanto moradores pressionam por moratórias

Enquanto gigantes da tecnologia correm para expandir a infraestrutura de inteligência artificial, comunidades nos Estados Unidos enfrentam contas de luz mais caras, risco de apagões em ondas de calor e bairros inteiros transformados em ilhas de calor, formando um retrato do custo invisível do boom da IA.

Por trás de cada resposta gerada por um chatbot, de cada imagem criada em segundos por um modelo de inteligência artificial, existe uma estrutura física devorando eletricidade em algum lugar dos Estados Unidos. E essa estrutura está, literalmente, esquentando o país.

Os data centers (os galpões repletos de servidores que processam e treinam os sistemas de IA) deixaram de ser um detalhe técnico da economia digital para se tornar um problema de infraestrutura elétrica, de saúde pública e de justiça climática. O crescimento é tão acelerado que já divide opinião em cidades norte-americanas, onde moradores organizam campanhas e pedem moratórias para frear novas construções.

O apetite elétrico da inteligência artificial

Hoje, os data centers já respondem por cerca de 4,5% de todo o consumo de eletricidade nos Estados Unidos. A projeção é que essa fatia dobre ou mais até 2030, podendo ultrapassar 10% da matriz elétrica americana. Para se ter ideia da escala, uma única instalação de grande porte pode consumir tanta energia quanto 100 mil residências somadas.

O ritmo de expansão impressiona: projeções apontam que a demanda mundial por energia em data centers deve atingir 132 gigawatts em 2026, ante 104 gigawatts em 2025, com estimativa de avanço para 290 gigawatts até 2030.

Nos Estados Unidos, já existem mais de 1.500 data centers em desenvolvimento para atender à corrida da IA e o estado da Virgínia concentra sozinha mais de 600 dessas instalações, a maior densidade do país, justamente em uma região que vem batendo recordes de temperatura.

Energia extra justo quando a rede menos aguenta

O problema não é só o volume de energia consumido, mas o momento em que essa energia é exigida. Os servidores de IA precisam de refrigeração constante para não superaquecer, e esse resfriamento já representa cerca de 40% do consumo elétrico de um data center em condições normais.

Quando as temperaturas externas sobem, os sistemas de resfriamento trabalham ainda mais e puxam ainda mais energia da rede, exatamente no momento em que ares-condicionados residenciais e comerciais também estão no limite.

É um efeito cascata perigoso: o pico de consumo dos data centers coincide com o pico de consumo das cidades durante ondas de calor, pressionando uma rede elétrica que, em muitos estados americanos, já opera perto da capacidade máxima.

O risco real de apagões

Essa sobreposição de demandas eleva o risco de blackouts justamente nos dias mais quentes do ano, quando faltar energia é mais perigoso. Estudos sobre o tema mostram que apagões durante ondas de calor podem mais do que dobrar a taxa de mortalidade relacionada ao clima, já que a perda de refrigeração em residências, hospitais e comércios se torna uma ameaça direta à vida, especialmente para idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.

Não é um cenário hipotético. Reportagens recentes mostram que a disputa pela capacidade da rede elétrica já afeta outros setores da economia americana: indústrias tradicionais, da siderurgia ao vidro, relatam que o avanço da infraestrutura de IA pressiona tarifas e disputa espaço com investimentos que antes seriam destinados a outros segmentos.

Ilhas de calor: o efeito colateral que se espalha pela cidade

Além da pressão sobre a rede elétrica, os data centers alteram o microclima ao seu redor. O calor liberado pelos servidores e pelos sistemas de refrigeração cria as chamadas “ilhas de calor”, áreas onde a temperatura local fica visivelmente mais alta do que nos arredores por causa da atividade humana e da infraestrutura concentrada.

Cientistas identificaram que esse efeito de aquecimento pode se estender por mais de 9,6 quilômetros ao redor de uma única instalação. Isso significa que bairros inteiros, distantes do próprio data center, sentem na pele o calor extra, gerado por uma tecnologia que, para o usuário final, parece completamente intangível.

Some-se a isso o consumo intensivo de água usada para resfriar os equipamentos, e o resultado é uma pressão ambiental que vai muito além da conta de luz, porque afeta o abastecimento hídrico e o conforto térmico de comunidades inteiras.

Comunidades dizem “chega” e moratórias entram no debate

Diante desse conjunto de riscos, contas mais caras, maior chance de apagão em dias críticos e bairros mais quentes, cresce nos Estados Unidos um movimento de resistência à instalação de novos data centers de hiperescala. Grupos comunitários, ambientalistas e até setores industriais tradicionais vêm pressionando autoridades locais por moratórias, isto é, pausas temporárias na aprovação de novos projetos até que existam garantias mais claras sobre o impacto na rede elétrica e no meio ambiente.

O debate expõe uma tensão que tende a se repetir em outros países à medida que a corrida pela inteligência artificial avança: como equilibrar o apetite quase ilimitado por poder computacional com a capacidade real e os limites físicos da infraestrutura elétrica, hídrica e climática que sustenta a vida nas cidades.

De um lado, big techs e provedores de nuvem correm para não ficar para trás na disputa global por IA. De outro, moradores e especialistas alertam que o custo dessa corrida pode ser pago, literalmente, em calor e em falta de luz.

No entanto, como tudo que envolve o grande capital, as big techs e provedores de nuvem estão, com grande apoio político, impondo seus interesses sobre os interesses e direitos das comunidades impactadas, direta ou indiretamente.

A inteligência artificial pode estar esquentando bairros inteiros? Estudo aponta que data centers de IA liberam calor suficiente para elevar temperaturas próximas em até 2,2ºC e acender alerta sobre a nova poluição térmica das cidades. (ecodebate)

300 bilhões de toneladas de carbono: o preço oculto do que comemos

Um estudo global recente detalha como a produção de alimentos impacta o clima e a natureza, revelando que grande parte da perda de carbono e biodiversidade do planeta está concentrada em uma pequena fração das terras agrícolas e impulsionada fortemente pelo consumo de carne.

O Impacto dos Alimentos

• Alimentos de origem animal: Causam 59% da perda de carbono ligada à alimentação e 71% da perda de biodiversidade.

• Carne bovina e leite: Representam 29% das perdas de carbono e 41% da biodiversidade perdida.

• Concentração do dano: Metade da perda global de carbono na agricultura ocorre em apenas 12% das terras produtivas.

O Papel do Comércio

• O maior exportador líquido: O EcoDebate destaca que o Brasil lidera as exportações associadas à perda de carbono e biodiversidade.

• O maior importador: A China aparece como a principal compradora desses fluxos ambientais intensos.

• Caminho de esperança: Focar a restauração ecológica em apenas 30% das áreas agrícolas mais afetadas pode recuperar 170 bilhões de toneladas de carbono.
O prato que está comendo a floresta. O que um novo estudo revela sobre carbono, biodiversidade e aquilo que colocamos à mesa

Um estudo de Oxford, Leiden e da Universidade Agrícola da China mapeou onde a agricultura mais destrói carbono e biodiversidade e descobriu que um punhado de alimentos e regiões concentra quase todo o estrago. A boa notícia é que isso também significa que restaurar pouco já pode valer muito.

O jornalismo ambiental é baseado em ciência e, por isto, é necessário acompanhar os estudos e pesquisas mais recentes. É a parte importante de conhecer para comunicar.

O estudo “High-resolution carbon and biodiversity mapping shows correlated losses across space and agricultural products”, publicado na Nature Food, feito por pesquisadores de Oxford, da Universidade de Leiden e da Universidade Agrícola da China, é um exemplo importante e resolvi que precisava escrever sobre ele, não como resumo técnico, mas como alguém tentando digerir (com perdão do trocadilho) o tamanho do que está em jogo.

O ponto de partida é brutal ao calcular que a agricultura já provocou a perda de cerca de 300 bilhões de toneladas de carbono, que estavam guardadas em solos, florestas e vegetação nativa. E não para por aí, porque cerca de 14% das espécies do planeta estão hoje em risco de extinção, por causa do uso da terra para produzir alimentos.

Um mapa que mostra onde a comida machuca mais

O que torna esse estudo diferente de tantos outros é a resolução. Em vez de olhar o mundo em grandes blocos, os pesquisadores desceram ao nível de ‘células’ de cerca de 5,6 km, quase um zoom em Google Maps, e cruzaram isso com o rastro de 123 commodities agrícolas ao redor do globo.

O resultado é um retrato incomum e dá para ver exatamente onde a produção de determinado alimento, em determinado pedaço de terra, está corroendo carbono e biodiversidade ao mesmo tempo.

E o que aparece nesse mapa é concentrado, quase cirúrgico, que dois terços de toda a perda está espremida em apenas um terço das terras agrícolas do planeta, principalmente em partes da América do Sul, da África Subsaariana e do Sudeste Asiático. Mais impressionante ainda é que metade da perda de carbono do mundo acontece em apenas 12% das terras agrícolas.

Isso muda a forma como penso em “salvar o planeta”. Enquanto não mudamos tudo o que é necessário, também precisamos mexer no lugar certo.

O que está realmente no prato

Os alimentos de origem animal respondem por 59% da perda de carbono ligada à comida e por 71% da perda de biodiversidade, enquanto fornecem menos de 15% das calorias que o mundo consome (sem contar peixe).

Calorias por calorias, um alimento de origem animal causa, em média, oito vezes mais perda de carbono e catorze vezes mais perda de biodiversidade do que um alimento de origem vegetal.

E dois itens, sozinhos, carregam boa parte dessa conta: carne bovina e laticínios juntos representam 29% de toda a perda de carbono e 41% de toda a perda de biodiversidade das terras agrícolas do mundo. O motivo é simples de entender e difícil de digerir: é a quantidade de terra que essa produção exige para existir.

Não é uma questão de demonizar quem come carne e eu mesmo não larguei totalmente a carne. É perceber que, entre todas as escolhas alimentares que fazemos sem pensar duas vezes, algumas pesam ordens de grandeza mais do que outras no que sobra de floresta, de solo vivo, de espécie que ainda respira.

Quando a comida atravessa o oceano

Tem outra camada nessa história que eu não esperava: o comércio internacional. Cerca de 18% de todo o impacto ambiental das terras agrícolas está ligado a alimentos que cruzam fronteiras e a maior parte desse fluxo é de produtos de origem animal.

O Brasil aparece como o maior exportador líquido de perda de carbono e biodiversidade do planeta. A China, do outro lado, é a maior importadora líquida. E um dos maiores corredores de dano ambiental do mundo tem nome e endereço: as exportações de carne bovina e suína do Brasil para a China.

Isso me pegou de um jeito diferente, porque moro num país onde essa conversa não é abstrata. É sobre a nossa própria paisagem, o nosso próprio agronegócio, as nossas próprias exportações. O prato de alguém do outro lado do mundo pode estar, literalmente, comendo um pedaço do Cerrado ou da Amazônia.

A parte que me deu esperança

Depois de tanto número pesado, o estudo termina com algo raro: uma conta que dá para levar para casa com otimismo.

Os pesquisadores modelaram o que aconteceria se restaurássemos apenas os 30% das terras agrícolas que concentram as duas maiores perdas, de carbono e de biodiversidade juntas.

O resultado: seria possível sequestrar cerca de 170 bilhões de toneladas de carbono, o equivalente a cerca de 15 anos de todas as emissões globais de combustíveis fósseis, e evitar até 60% do risco de extinção que hoje é causado pela agricultura.

Repito porque vale a pena repetir: restaurar o mundo inteiro é a meta final, mas, até lá, é preciso restaurar o pedaço certo.

E agora, o que fazemos?

Não escrevo isso para dizer que a solução é simples ou que caiba inteira nas mãos do consumidor, porque não cabe. Tem política pública, tem cadeia produtiva, tem investimento em recuperação de pastagem, tem acordo internacional.

Mas também tem, sim, um espaço pequeno e real na escolha de quem senta à mesa todo dia, como comer um menos de carne e laticínios, valorizar quem produz de forma regenerativa, prestar atenção em de onde vem o que a gente compra.

O estudo tem limitações e os próprios autores avisam que os dados globais envolvem incertezas e que leituras muito locais pedem cautela. Mas o retrato geral, concentrado e correlacionado entre carbono e biodiversidade, é sólido o bastante para mudar prioridades.

Fechei a leitura do estudo pensando que talvez a pergunta certa não seja só “o que estou comendo”, mas, também, “de onde essa comida tirou o que ela é”. É uma pergunta desconfortável. Mas, pelo visto, é também uma pergunta com resposta e com solução ao alcance, se a gente mirar no lugar certo.

O armazenamento de carbono e a biodiversidade são fortemente impactados pelos sistemas alimentares. Aqui mapeamos e traçamos o armazenamento de carbono a longo prazo e a perda de biodiversidade do uso da terra em cadeias de suprimentos agrícolas globais em uma alta resolução espacial e de produtos. Mostramos que, embora o Hemisfério Norte experimente maior perda de carbono e o Hemisfério Sul maior perda de biodiversidade, áreas com altas perdas de carbono e biodiversidade são frequentemente co-localizados, com das perdas totais ocorrendo dentro de um terço da área total. O consumo de alimentos gera 83% das perdas, das quais os alimentos de origem animal impulsionam 59% do carbono e 71% das perdas de biodiversidade. A carne bovina e o leite representam 29% do carbono e 41% das perdas de biodiversidade. O Brasil é o maior exportador líquido para ambas as perdas, e a China é o maior importador líquido, com produtos de origem animal como fluxos dominantes em ambos os casos. (ecodebate)

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