segunda-feira, 27 de abril de 2026

Região Sul tem a 2ª estrutura etária mais envelhecida do Brasil

A região Sul tem a segunda estrutura etária mais envelhecida do Brasil.
Sim, a Região Sul possui a segunda estrutura etária mais envelhecida do Brasil, com uma idade mediana de 36 anos, atrás apenas da região Sudeste (37 anos). Este envelhecimento é reflexo de uma queda precoce na taxa de fecundidade e maior esperança de vida, resultando em uma base estreita na pirâmide etária.

Principais destaques do envelhecimento no Sul:

Rio Grande do Sul é o estado mais velho do país, com a maior proporção de idosos (14,1% com 65 anos ou mais) e menor percentual de crianças.

A região Sul apresenta a segunda maior concentração de idosos (60+), com 17,3%, ficando atrás apenas do Sudeste, segundo dados recentes.

O envelhecimento populacional no Sul é rápido, com o número de idosos superando o de jovens em municípios como Porto Alegre.

O fenômeno, evidenciado pelo Censo 2022, representa um desafio para a previdência e sistema de saúde, mas também abre espaço para o desenvolvimento da economia prateada.

O envelhecimento populacional da região Sul não deve ser visto apenas como um problema, mas como um novo estágio do desenvolvimento

O Brasil está passando por uma rápida e profunda mudança da sua estrutura etária. No século XXI, pela primeira vez na história, haverá mais idosos (60 anos e +) do que crianças e adolescentes (0-14 anos). O envelhecimento populacional será a principal tendência demográfica dos anos 2000. Mas o ritmo de avanço tem sido diferenciado para as Grandes Regiões do país.

O gráfico abaixo, com dados dos Censos Demográficos de 1970 a 2022, do IBGE, mostra o Índice de Envelhecimento (IE) para o Brasil e as Grandes Regiões. O Brasil tinha um IE de 12 idosos de 60 anos e mais para cada 100 crianças e adolescentes de 0-14 anos, passando para 16 idosos para cada 100 jovens em 1980, para 29 em 2000, 45 em 2010 e 80 idosos 60+ para cada 100 jovens de 0-14 anos em 2022.

As regiões Sul e Sudeste possuem IE acima da média nacional e as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste possuem IE abaixo da média nacional. A região Norte apresenta a estrutura etária mais jovem, com um IE que passou de 8 idosos para cada 100 jovens em 1970 para 41 idosos para cada 100 jovens em 2022. A região Sudeste tem o maior Índice de Envelhecimento, passando de 15 idosos por 100 jovens em 1970 para 98 idosos de 60+ por 100 jovens de 0-14 anos em 2022. Portanto, até 2022, havia mais jovens do que idosos em todas as regiões, embora haja quase um empate na região Sudeste.

O gráfico abaixo, com dados dos censos demográficos do IBGE, mostra a evolução das percentagens de alguns grupos etários selecionados entre 1970 e 2022. O grupo etário de jovens 0-14 anos era de 42% da população brasileira em 1970 e caiu para menos da metade (19,8%) em 2022. O grupo etário de 15-59, que corresponde grosso modo à população em idade economicamente ativa, subiu de 52,7% em 1970 para 65,1% em 2010, significando que a janela de oportunidade demográfica estava se abrindo.

Porém, o percentual de pessoas entre 15-59 anos diminuiu para 64,4% em 2022, significando que a janela de oportunidade começou a se fechar. Não é o fim absoluto do 1º bônus demográfico, mas significa que o Brasil precisa investir nas outras janelas de oportunidade, ou seja, no 2º bônus (da produtividade) e o 3º bônus (da longevidade).

A população 50+ era de 10,7% em 1970, ultrapassou os jovens de 0-14 anos por volta de 2012 e chegou a 27,7% em 2022. A população 60+ era de 5,1% em 1970 e chegou a 15,8% em 2022, se aproximando do percentual da população jovem. A população 70+ era de 1,8% em 1970 e chegou a 7% da população total do Brasil em 2022.

O gráfico abaixo, com dados da região Sul, permite comparar com a média nacional do gráfico anterior. A proporção de jovens de 0-14 anos no Sul é menor do que a proporção brasileira. Era de 42,7% da população da região Sul em 1970 e caiu para 18,5% em 2022. O grupo etário de 15-59, que corresponde grosso modo à população em idade economicamente ativa, subiu de 52,5% em 1970 para 66,1% em 2010, proporção maior do que a média nacional e também significando que a janela de oportunidade demográfica estava se abrindo.

Porém, o percentual de pessoas 15-59 anos no Sul diminuiu para 63,9% em 2022, significando que a janela de oportunidade começou a se fechar. Não é o fim absoluto do 1º bônus demográfico, mas significa que a região precisa investir nas outras janelas de oportunidade, ou seja, no 2º bônus (da produtividade) e o 3º bônus (da longevidade).

A população dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul de 50+ era de 10,2% em 1970, ultrapassou os jovens de 0-14 anos em 2010 e chegou a 30,4% em 2022. A população 60+ era de 4,7% em 1970 e chegou a 17,6% em 2022, se aproximando do percentual da população jovem. A população do Sul de 70+ era de 1,6% em 1970 e chegou a 7,7% da população em 2022.

A região Sul do Brasil encontra-se em uma fase avançada da transição demográfica, com a segunda estrutura etária mais envelhecida do país e redução da população em idade ativa. Diferentemente de outras regiões, esse envelhecimento ocorre em um contexto de diversificação produtiva, elevada urbanização e bons indicadores sociais, o que confere ao Sul uma posição relativamente mais favorável para enfrentar essa nova etapa demográfica. Ainda assim, os desafios são relevantes — e as oportunidades, estratégicas.

Os principais desafios são:

Escassez relativa de força de trabalho. A diminuição da população em idade ativa tende a gerar dificuldades de reposição de mão de obra, especialmente em setores industriais, agroindustriais e de serviços intensivos em trabalho.

Pressão sobre sistemas previdenciários e de saúde. O envelhecimento rápido amplia a demanda por aposentadorias, cuidados de saúde, serviços de longa duração e políticas de cuidado, elevando os custos fiscais e sociais.

Risco de baixo dinamismo econômico. Sem ganhos expressivos de produtividade, a combinação de envelhecimento e redução da força de trabalho pode resultar em crescimento econômico mais lento.

Desigualdades intrarregionais. O envelhecimento não ocorre de forma homogênea: áreas rurais, pequenos municípios e regiões de emigração juvenil tendem a envelhecer mais rapidamente, com risco de esvaziamento populacional.

Adequação urbana e habitacional. Cidades e moradias nem sempre estão preparadas para uma população mais idosa, exigindo adaptações em mobilidade, acessibilidade e serviços públicos.

A expectativa de vida ao nascer, que estava em 71,1 anos, em 2000, chegará a 83,9 anos em 2070.

Um Brasil de cara nova, mas com estrutura etária mais envelhecida

As principais oportunidades são:

Elevação da produtividade do trabalho. Com menor oferta de mão de obra, cresce o incentivo à automação, à digitalização e à qualificação profissional, fortalecendo setores industriais e de serviços de maior valor agregado.

Expansão da economia prateada. O aumento da população idosa cria mercados dinâmicos em saúde, cuidados, turismo, lazer, tecnologia assistiva, habitação adaptada e serviços financeiros.

Prolongamento da vida laboral. Os bons indicadores educacionais e de saúde permitem ampliar a permanência dos idosos no mercado de trabalho, em arranjos mais flexíveis e compatíveis com o envelhecimento ativo, aumentando o nível de escolaridade da população ativa.

Atração seletiva de migrantes. O Sul pode se tornar polo de atração para migrantes internos e internacionais, compensando parcialmente a perda da população em idade ativa e renovando o tecido produtivo.

Vantagem institucional e social. A região já dispõe de maior capacidade institucional para planejar políticas públicas de longo prazo, integrar saúde, assistência social e previdência e antecipar respostas ao envelhecimento.

O envelhecimento populacional da região Sul não deve ser visto apenas como um problema, mas como um novo estágio do desenvolvimento. Em um contexto de bons indicadores sociais e diversificação produtiva, o grande desafio é transformar a escassez demográfica em ganhos de produtividade, inovação e qualidade de vida.
Envelhecimento de uma população

Se conseguir articular políticas de envelhecimento ativo, economia prateada, atração migratória e modernização produtiva, o Sul pode se consolidar como um laboratório avançado de adaptação demográfica no Brasil do século XXI. (ecodebate)

Ondas de calor e secas serão cinco vezes mais frequentes até o final do século

Ondas extremas de calor e seca devem castigar bilhões de pessoas com uma frequência 5 vezes maior até o final do século!

Ondas de calor e secas simultâneas serão até 5 vezes mais frequentes até o final do século, afetando 28% da população global, com maior impacto nos países tropicais de baixa renda. Esse aumento severo na frequência e intensidade desses eventos extremos é impulsionado por políticas climáticas atuais que falham em limitar o aquecimento global, alertam pesquisadores.

Principais Impactos e Projeções:

Frequência: O que costumava ser um evento raro de 50 anos pode se tornar uma ocorrência quase anual ou ocorrer uma vez por década.

Impacto no Brasil: Estudos indicam que ondas de calor e secas estão se tornando mais comuns, com projeções de aumentos significativos no número de dias quentes até 2099. Bloqueios atmosféricos que prendem ar quente podem se tornar dez vezes mais potentes até 2071, agravando as temperaturas.

Vulnerabilidade: As regiões tropicais, onde vive grande parte da população mundial, enfrentarão condições "extremamente perigosas" com maior frequência.

Aceleração: Em um cenário de aquecimento global acelerado, os eventos climáticos extremos, como secas, tornam-se o "novo normal".

Esses eventos combinados geram danos que superam a soma dos impactos separados, colocando em risco a saúde humana, agricultura e infraestrutura.
Calor extremo ameaça quase metade da população mundial até 2050

O aumento pode atingir quase 30% da população global com eventos extremos mais perigosos do que o calor ou a seca sozinha, especialmente em nações tropicais de baixa renda.

Políticas climáticas em todo o mundo podem deixar uma parcela significativa da população global exposta a ondas de calor extremo e secas simultâneas com uma frequência 5 vezes maior até o final deste século do que em meados e no final do século XX.

Em um novo estudo, pesquisadores projetam que o aumento afetará 28% da população global, concentrando-se em países tropicais de baixa renda que contribuíram com apenas uma pequena fração das emissões de gases de efeito estufa da humanidade até o momento.

Extremos amplificados

Quando o calor e a seca ocorrem simultaneamente, os danos geralmente superam a soma dos danos que podem causar separadamente. O risco de incêndios florestais, as perdas agrícolas e a mortalidade relacionada ao calor podem aumentar drasticamente.

Essas combinações extremas já estão em ascensão. Quando os pesquisadores dividiram a superfície terrestre em células em uma grade e compararam a ocorrência de calor e seca em cada célula, descobriram que, em média geográfica, as áreas terrestres da Terra sofreram aproximadamente 4 eventos de calor e seca por ano, de 2001 a 2020. Segundo suas estimativas, isso representa cerca do dobro da frequência registrada no período pré-industrial, de 1850 a 1900.

Para entender como as condições podem evoluir até o final deste século, a equipe analisou 152 simulações existentes baseadas em 8 modelos climáticos, considerando vários cenários de crescimento populacional e aquecimento global descritos no Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

Para este estudo, eles definiram eventos quentes e secos como dias com temperatura elevada entre os 10% mais altos e seca pelo menos moderada, ambos em relação aos registros da linha de base de 1961 a 1990.

O esforço exigiu o processamento de terabytes de dados, um desafio significativo. “Quanto mais caótico o clima se torna, mais difícil fica a fazer previsões”, disse Monica Ionita, climatologista do Instituto Alfred Wegener e autora sênior do estudo. “É muito difícil acompanhar o que está acontecendo agora”.

No cenário de crescimento climático e populacional mais alinhado com nossa trajetória atual, a equipe descobriu que os extremos de calor e seca se tornam “intensificados” (mais de 5 vezes mais prováveis em qualquer dia do que durante o período de 1961 a 1990) para 28% da população global — quase 2,6 bilhões de pessoas — até a década de 2090. Para efeito de comparação, eles esperam que apenas cerca de 6,6% da população sofra esse nível de exposição na década de 2030.

Os que mais emitem provavelmente não sofrerão os maiores impactos

Globalmente, eventos extremos compostos de calor e seca podem ocorrer quase 10 vezes por ano, em média, até o final do século, com o mais longo durando cerca de 15 dias — aumentos de 2,4 e 2,7 vezes em relação às condições dos últimos 25 anos, respectivamente.

A emissão humana de gases de efeito estufa (GEE) impulsionam essas mudanças. Quando os pesquisadores analisaram simulações considerando apenas forças naturais, nenhuma tendência significativa na frequência ou duração de períodos extremos de calor e seca emergiu.

No entanto, aqueles que mais emitem provavelmente não sofrerão os maiores impactos. De acordo com a distribuição geográfica do risco nas simulações, as nações de baixa renda próximas ao equador e aos trópicos, incluindo ilhas como Maurício e Vanuatu, sentirão os extremos de calor e seca mais acentuados, apesar de contribuírem com muito menos emissões do que as nações mais ricas.

Para contextualizar, a equipe estimou que o impacto climático do carbono 1,2 emitido em média pelos cidadãos americanos ao longo de suas vidas poderia expor uma pessoa adicional a extremos de calor e seca mais intensos até o final do século.
Ondas de calor marinhas atingem até +5°C acima do normal, se espalham por oceanos inteiros e revelam um colapso silencioso que ameaça recifes, peixes e a estabilidade do clima global.

Os pesquisadores descobriram que limitar as emissões poderia evitar muitos riscos. Se todas as nações implementarem integralmente os planos de ação climática para os quais contribuíram no âmbito do Acordo de Paris, bem como compromissos de longo prazo mais vinculativos, cerca de 18% da população mundial enfrentará uma maior exposição a extremos de calor e seca até o final do século. Isso equivale a aproximadamente 1,7 bilhão de pessoas, quase um terço a menos do que o número previsto na trajetória atual. (ecodebate)

sábado, 25 de abril de 2026

Alertas para o impacto hídrico dos data centers

Cientistas alertam para o impacto hídrico dos data centers.
Cientistas alertam: data centers podem causar crise de água e energia

O rápido avanço dos data centers no Brasil, impulsionado pela IA, gera alertas sobre o alto consumo de água para resfriamento de servidores, especialmente em regiões com estresse hídrico como São Paulo e Ceará. A falta de transparência, o uso de água potável e a ausência de licenciamentos ambientais rigorosos ameaçam a segurança hídrica local.

Alertas Principais sobre o Impacto Hídrico:

Alto Consumo em Áreas de Risco: Data centers operam intensamente em regiões com crises de abastecimento, como Vinhedo (SP), intensificando a disputa pelo recurso.

Ameaça à Segurança Hídrica: No Ceará, um projeto teve o uso de água autorizado aumentado em sete vezes durante o licenciamento, gerando preocupações sobre o consumo de água potável.

Falta de Transparência e Regulação: Muitas empresas subestimam ou não divulgam seus consumos hídricos reais, operando sem regras nacionais claras de licenciamento ambiental.

Risco de Justiça Ambiental: A instalação desses centros, frequentemente com apoio governamental, pode sobrecarregar comunidades locais, quilombolas e pequenos produtores.

Necessidade de Alternativas: Especialistas e ambientalistas pressionam por tecnologias de resfriamento mais eficientes, que não dependam excessivamente da água, para evitar que o progresso digital comprometa o futuro hídrico.

A expansão dos data centers avança sem estudos aprofundados de impacto ambiental, criando um cenário de "injustiça ambiental" e riscos de racionamento, alertam especialistas.

Data centers crescem com IA e levantam alerta sobre consumo de água

Cientistas apontam que, para além do uso de energia renovável, políticas públicas que tenham em seu escopo grandes centros de dados devem considerar de forma ampla o impacto hídrico dessas estruturas.

Especialistas alertam para alto consumo de água por data centers em meio a incentivos do governo para atração de projetos.

Estruturas são essenciais para aplicações em inteligência artificial e para o desenvolvimento da economia digital. Pesquisadores apontam que, para além do uso de energia renovável, políticas públicas devem considerar condições locais para a segurança hídrica e transparência nas informações.

Com a ampla popularização dos recursos de inteligência artificial, cresce também a demanda pelo armazenamento e processamento de quantidades massivas de dados necessários para essas atividades. Nesse cenário, grandes projetos de data centers têm se expandido pelo mundo, frequentemente vinculados a importantes empresas de tecnologia, as big techs.

Por serem estruturas com consumo intensivo de energia, o Brasil desponta como um potencial destino para esses projetos, principalmente em virtude da sua matriz elétrica predominantemente renovável. De olho na expansão da economia digital no país, o governo federal se mobiliza para elaborar incentivos e atrair esses investimentos. Especialistas alertam que, se por um lado o alto consumo energético dos data centers seja conhecido e amplamente discutido pela opinião pública, o impacto hídrico dessas estruturas não tem recebido a mesma atenção, mas é igualmente preocupante.

Na visão de alguns desses especialistas ouvidos pelo Jornal da Unesp, debater as condições e as consequências da instalação dessas estruturas é essencial para orientar a atração de investimentos, especialmente em um contexto de incertezas climáticas e de recorrentes períodos de estiagem e crises hídricas observadas em diferentes regiões do Brasil, nos últimos anos.

De fato, estimativas sobre o consumo hídrico de grandes servidores apresentadas por pesquisadores em diferentes regiões do mundo impressionam. Em um artigo publicado na revista Applied Energy, no ano passado, cientistas da Beijing Normal University calcularam que os data centers da China consumiram, em 2022, o equivalente a 15,7 bilhões de litros de água, o que representou 2,7% do total da água consumida no país naquele ano. Para fins de comparação, esse volume equivale a aproximadamente metade do reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu.

Na mesma linha, a Agência Internacional de Energia aponta que o consumo global de água por data centers está atualmente em 560 bilhões de litros por ano. O relatório do órgão internacional publicado no ano passado vai além, prevendo que, em virtude da crescente demanda pelos recursos de IA, essa cifra deve alcançar 1,2 trilhões de litros até 2030.

Incentivos para atração de data centers

O Brasil ainda aparece como um mercado discreto para esses projetos. De acordo com o Data Center Map, plataforma que mapeia essas instalações em todo o mundo, o país possui cerca de 200 data centers, mas a maior parte de pequeno e médio porte, que costumam atender às necessidades internas de uma empresa ou fornecer serviços de processamento e armazenagem para clientes externos. As estruturas de grande porte, chamados hyperscale, estão presentes em menor número, e costumam estar vinculados a projetos de processamento de dados para a inteligência artificial e serviços de armazenamento em nuvem oferecidos pelas big techs.

Este cenário, entretanto, pode mudar em breve. Os data centers hyperscale estão no foco dos esforços do governo federal para criar um ambiente mais favorável para o desenvolvimento da economia digital no país, o que inclui incentivos para a atração de empresas multinacionais do setor. No final de 2025, foi assinada uma medida provisória que concedia isenção de impostos (PIS/Pasep, Cofins e IPI) para a aquisição de equipamentos destinados à implantação, ampliação e manutenção de data centers, chamada Redata.

Como contrapartida, o texto exigia a adoção de medidas que garantissem a soberania digital, como o armazenamento dos dados no território brasileiro, bem como a destinação de 2% dos investimentos no país em pesquisa e desenvolvimento das cadeias produtivas digitais brasileiras. Após ser aprovada pela Câmara dos Deputados, a MP não foi votada pelo Senado, perdendo sua validade. Agora, o mesmo texto tramita na forma do Projeto de Lei 278/2026.
Data center pertencente à empresa China Telecom, o maior do país asiático, que ocupa uma área equivalente a 130 campos de futebol.

Avaliar apenas a eficiência não é o suficiente

“As atividades de processamento desses data centers geram muito calor, ao mesmo tempo, esses dispositivos são extremamente sensíveis à alta temperatura. O recurso hídrico aparece como a principal estratégia de resfriamento para a maioria dessas estruturas”, explica Leopoldo Lusquino, cientista da computação e professor do Departamento de Engenharia de Controle e Automação da Unesp, no câmpus de Sorocaba. Entre suas áreas de atuação, o docente elabora modelos para tornar a IA mais eficiente e, portanto, mais “verde”. Segundo ele, as empresas estão atentas ao impacto das suas atividades sobre os recursos naturais e têm investido no desenvolvimento de tecnologias de resfriamento mais eficientes, mas atualmente as principais opções envolvem o resfriamento a seco, com o uso de ar condicionado, por exemplo. “Isso pode ser útil em países frios, mas em países mais quentes, como o Brasil, isso aumentaria ainda mais o consumo energético”, explica.

A proposta do Redata elaborada pelo governo federal não ignora a pegada hídrica dos data centers. Segundo o texto, para ser elegível aos benefícios fiscais, a empresa deve apresentar um Índice de Eficiência Hídrica (WUE) igual ou inferior a 0,05 L/kWh por ano, além de apresentar esses dados em seus respectivos relatórios de sustentabilidade. O cálculo do volume de água dividido pelo consumo de energia é a principal métrica usada pela indústria para quantificar a eficiência hídrica de um data center. A exigência apresentada pelo governo federal, entretanto, parece fora dos padrões praticados pelas principais empresas do setor, atualmente. Em 2025, a Microsoft reportou uma média anual de 0,3 L/kWh em suas estruturas de processamento e armazenamento de dados, enquanto a Amazon publicou que seu WUE foi de 0,15 L/kWh, em 2024. A Meta, por sua vez, reportou que em 2023 obteve um WUE de 0,18 L/kWh. Nos três casos, o índice foi celebrado como uma melhora em relação aos resultados dos anos anteriores, um objetivo alcançado devido à adoção de novas tecnologias de resfriamento.

Embora seja a métrica mais usada pela indústria, especialistas apontam que o WUE, isoladamente, não deve ser o único instrumento regulatório para se determinar a pegada hídrica de um data center, sob o risco de subestimar os verdadeiros riscos sobre a água e direcionar políticas de forma inadequada. Isso porque outros fatores como uma redução esporádica no consumo de energia ou o funcionamento durante as estações mais frias do ano (que demandam menos resfriamento) podem ajudar a mascarar este índice.

Soma-se a isso o fato de que a divulgação desses dados não é uma prática comum entre todas as big techs. A Open AI, responsável pelo assistente de inteligência artificial Chat GPT, não apresenta dados do consumo de água do seu principal produto desde a versão 3, lançada em 2020. Essa falta de transparência da empresa tem despertado a curiosidade dos pesquisadores. Um artigo publicado por cientistas da Universidade da Califórnia estimou que apenas o treinamento da versão 3 da ferramenta utilizou 700 mil litros de água, e que a ferramenta consome 500 mil (equivalente a uma garrafa plástica) para cada 20 a 50 interações. Segundo os autores, essa variação se deve às condições geográficas e climáticas em que o data center é instalado.
Data centers viram vilões – e a indústria tenta mudar essa imagem

Disputa por imagem: como o setor de data center tenta reconquistar a opinião pública diante da resistência das comunidades.

Alto consumo em uma região em estresse hídrico

Atualmente, dos cerca de 200 data centers em funcionamento no Brasil, mais de 80 estão em um eixo entre São Paulo e Campinas. A proximidade dessas estruturas a grandes empresas e indústrias e a disponibilidade de mão de obra qualificada ajudam a entender a escolha desses projetos pela região. Ao mesmo tempo, com 59% de sua energia produzida a partir de fontes renováveis, o estado de São Paulo atende às exigências do Redata que demandam fontes de energia limpas para abastecer os projetos.

Ainda assim, a presença de novos empreendimentos em regiões localizadas nas bacias hidrográficas do Alto-Tietê e Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) pode ser preocupante. As duas bacias estão entre as mais populosas e mais pressionadas do Brasil em termos de recursos hídricos, e viveram episódios de restrição de consumo nos últimos anos em virtudes de períodos de estiagem. “No caso da bacia do PCJ, ela já é naturalmente uma bacia deficitária porque ela transfere água para o sistema Cantareira, que abastece boa parte da população da cidade de São Paulo”, explica o hidrólogo Rodrigo Manzione.

Docente no Departamento de Geografia e Planejamento da Unesp, no câmpus de Ourinhos, Manzione chama a atenção ainda para o perfil de consumo desses data centers, que precisam do fornecimento contínuo de água para o resfriamento dos processadores. “Como seria possível, numa região de intenso consumo de água, garantir a segurança hídrica para um empreendimento como esse? Somente por meio da exploração de água subterrânea”, afirma. “Nesse contexto, retirar do solo uma água de altíssima qualidade que foi naturalmente filtrada ao longo de 15 mil anos para resfriar um data center não me parece um fim muito nobre para esse recurso”, questiona.

Diante do estímulo governamental e da popularização do uso de ferramentas baseadas em inteligência artificial, o aumento no número de data centers no país parece inevitável. Os especialistas, entretanto, concordam que as formulações das políticas de incentivo devem ir além da oferta de fontes renováveis ou de métricas de consumo de água e precisam contemplar particularidades territoriais, segurança hídrica e a transparência de dados para que o crescimento da economia digital no país não se torne mais uma atividade econômica de alto impacto em nossos recursos naturais.
Por que data centers consomem tanta energia e água?

Se pedir para ele gerar uma foto, uma pesquisa realizada pelo MIT Technology Review em 2023 estimou que o gasto de recursos pode ser 30 vezes maior do que isso nos data centers da inteligência artificial. É o mesmo tanto de água que gastamos para dar uma carga completa em nossos celulares. (jornal.unesp)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O que Cubatão ensina ao Brasil!!!

De Vale da Morte a referência ambiental, o que Cubatão ensina ao Brasil.
Ex Vale da Morte'

Na década de 1980, indústrias de Cubatão descarregavam aproximadamente mil toneladas de poluentes atmosféricos por dia. Hoje, a região é símbolo de recuperação ambiental, prova disso é que dados de qualidade do ar da Cetesb atestam a qualidade do ar na cidade.

Cubatão ensina que é possível reverter a degradação ambiental extrema, transformando um polo industrial poluente (ex “Vale da Morte") em referência de sustentabilidade. A lição central é a conciliação entre desenvolvimento econômico, fiscalização rígida e recuperação ecológica, provando que industrialização e preservação podem coexistir com planejamento e investimentos em tecnologia.

Principais Lições de Cubatão para o Brasil:

Recuperação Ambiental é Possível: Após ser conhecida mundialmente nos anos 80 como a cidade mais poluída do mundo, Cubatão reduziu drasticamente a emissão de poluentes de suas 300 indústrias em 78%.

Recuperação de Ecossistemas: A cidade demonstrou sucesso no reflorestamento de encostas da Serra do Mar e na recuperação de manguezais, com destaque para a volta de espécies da fauna, como o Guará Vermelho.

Ação Conjunta e Fiscalização: O "renascimento" não foi isolado, mas sim fruto de um monitoramento contínuo da CETESB, com US$ 3 bilhões investidos em sistemas de controle entre 1983 e 2015.

Cidade Verde e Sustentabilidade: O município reconhecido como "Cidade Árvore do Mundo" pela ONU/FAO exemplifica a transição energética e o foco em ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), alinhando-se com agendas globais como a COP30.

Educação e Resiliência: Cubatão também se destaca na educação, com escolas premiadas internacionalmente pela superação de adversidades, inspirando o país.

Embora ainda enfrente desafios, especialmente em saneamento básico (apenas 60% da população coberta) e moradias precárias, Cubatão é um exemplo de que políticas públicas efetivas podem mudar o destino de um local.
Cubatão agora faz parte do ‘Tree Cities of the World’, seleta lista de ‘Cidades Verdes do Mundo’. A cidade integra o grupo formado por apenas 34 municípios brasileiros. Foto: Município de Cubatão

Cubatão lembra que recuperação ambiental exige mais do que discursos. Exige presença do Estado, regulação, tempo e escolha política

Reinaldo Dias - Articulista do EcoDebate, é Doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP - Especialista em Ciências Ambientais – USF

Pesquisador associado do CPDI do IBRACHINA/IBRAWORK - http://lattes.cnpq.br/5937396816014363 - reinaldias@gmail.com.

Em um país onde a implementação de políticas ambientais urbanas costuma esbarrar na força de interesses econômicos consolidados, casos de transformação real merecem atenção redobrada. Isso é ainda mais verdadeiro quando se trata da poluição, um problema que frequentemente nasce de atividades altamente lucrativas, mas distribui seus danos sobre toda a sociedade, degradando o ar, a água, a paisagem e a saúde coletiva. Cubatão se tornou um dos exemplos mais extremos dessa lógica. Durante muito tempo, a cidade foi sinônimo de poluição intensa, destruição ambiental e sofrimento humano, resultado de uma industrialização concentrada e mal controlada, ligada ao refino de petróleo, à siderurgia, à petroquímica e à produção de fertilizantes. Não por acaso, seu nome ficou associado a expressões como “Vale da Morte” e “cidade mais poluída do mundo”. Justamente por isso, sua trajetória posterior merece atenção. Não porque autorize discursos fáceis de redenção, mas porque mostra, de forma rara e concreta, que até mesmo um quadro de devastação profunda pode começar a ser revertido quando há controle público, continuidade institucional e decisão política de enfrentar a degradação em vez de normalizá-la.

Cubatão: de cidade mais poluída a exemplo de sustentabilidade

1. O tempo em que Cubatão se tornou sinônimo de devastação

A cidade, que concentrava um dos mais importantes polos industriais do país durante as décadas de 1970 e 1980, tornou-se também o retrato mais brutal de uma industrialização sem controle efetivo sobre seus impactos. O município reunia atividades de refino de petróleo, siderurgia, petroquímica, fertilizantes, cimento e química pesada, com destaque histórico para a Refinaria Presidente Bernardes, a Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa) e grandes unidades do setor químico e de fertilizantes. Esse parque industrial altamente concentrado operava, além disso, em uma área cercada pela Serra do Mar e sujeita a condições que dificultavam a dispersão dos poluentes, o que agravava ainda mais os efeitos da contaminação atmosférica sobre a cidade e seu entorno. Foi da combinação entre esse complexo industrial, o controle ambiental insuficiente e essas condições geográficas que emergiu o quadro extremo de poluição que marcaria Cubatão.

Não foi por acaso que se espalharam expressões como “Vale da Morte”, “cidade mais poluída do mundo” e outras formulações semelhantes que procuravam dar conta da gravidade do quadro. Décadas depois, essa memória continuaria tão forte que uma reportagem da BBC News Brasil, publicada em 2017, ainda retomaria esses epítetos para lembrar como Cubatão se tornou referência internacional de degradação ambiental antes de iniciar sua lenta recuperação. A própria memória oficial recente do município reconhece que Cubatão ficou conhecida como uma das regiões mais poluídas do planeta e que sua reversão começou apenas a partir de rigorosos programas de controle ambiental implantados nos anos 1980.

A situação era tão severa que o problema não podia ser reduzido a fumaça visível ou mau cheiro. Tratava-se de um sistema de contaminação disseminado, alimentado por emissões atmosféricas, despejos industriais e resíduos oriundos de um complexo produtivo altamente concentrado, que atingia o ar, os rios, a vegetação e a saúde humana ao mesmo tempo. Trabalhos acadêmicos sobre a degradação e a recuperação ambiental de Cubatão mostram que, até julho de 1984, o Rio Cubatão recebia cerca de 64 toneladas por dia de poluentes, o que ajuda a dimensionar a violência da degradação hídrica. Ao mesmo tempo, dados da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) registram que, nos anos mais críticos, as indústrias lançavam diariamente quase mil toneladas de poluentes na atmosfera, produzindo níveis considerados absolutamente críticos.

As características geográficas de Cubatão também contribuíam para agravar esse quadro. Cercada pela Serra do Mar e sujeita a condições desfavoráveis à dispersão dos poluentes, Cubatão funcionava, em larga medida, como uma espécie de armadilha atmosférica. O material tóxico permanecia concentrado sobre a cidade e suas áreas vizinhas, intensificando a exposição da população e multiplicando os danos ambientais. Não se tratava, portanto, apenas de uma cidade industrial com problemas ambientais relevantes, mas de um território em que a combinação entre concentração produtiva, localização geográfica e fragilidade do controle público produziu uma situação excepcionalmente destrutiva.

Os efeitos sobre a saúde pública foram decisivos para transformar o caso de Cubatão em escândalo nacional e internacional. Relatos e estudos da época associaram a poluição intensa ao aumento de internações e mortes por doenças respiratórias, a lesões dermatológicas ligadas à chuva ácida e a uma alta prevalência de câncer de pulmão. Mas foi sobretudo a repercussão dos casos de anencefalia e outras malformações congênitas que chocou a opinião pública. Um texto memorialístico de Paulo César Naoum, recuperando aquele contexto, recorda que a cidade passou a ser conhecida pela mídia nacional e internacional como “vale da morte” e menciona o episódio em que um coveiro, após sucessivos enterros de recém-nascidos com deformações, denunciou a situação, contribuindo para ampliar a visibilidade da tragédia ambiental. Mesmo levando em conta o estilo narrativo desse testemunho, ele ajuda a compreender o grau de comoção produzido pelo caso Cubatão.

Também a vegetação da Serra do Mar foi severamente atingida. Pesquisas e reconstituições históricas sobre Cubatão mostram que a poluição atmosférica contribuiu para a degradação de extensas áreas de cobertura vegetal, tornando visível, nas encostas, o impacto cumulativo das emissões industriais. O desastre ambiental de Cubatão não se expressava apenas em indicadores técnicos. Ele era perceptível na paisagem, na saúde da população, nos rios e no cotidiano da cidade. Seus efeitos atingiam simultaneamente os ecossistemas locais e as condições de vida da população.

Por isso, quando Cubatão recebeu aqueles epítetos tão duros, não se tratava apenas de sensacionalismo jornalístico. Havia exageros em algumas formulações, como costuma ocorrer em situações-limite, mas o núcleo do diagnóstico era verdadeiro. Cubatão havia se transformado em símbolo do que acontece quando crescimento econômico, concentração industrial e omissão regulatória avançam sem contenção. O município se tornou, naquele momento, a demonstração mais contundente de que o desenvolvimento pode produzir riqueza e, ao mesmo tempo, destruir as condições mínimas de vida de uma cidade inteira.

Cubatão: cidade da Baixada Santista vista do alto

2. A recuperação não foi instantânea, foi construída

A reversão do quadro de Cubatão não ocorreu de forma súbita, nem pode ser atribuída a um gesto isolado de governo ou de empresa. Ela começou a ser construída quando a gravidade do problema deixou de poder ser ignorada e passou a exigir resposta institucional contínua. A partir dos anos 1980, a atuação da CETESB, a pressão pública, a maior visibilidade nacional e internacional do desastre e a necessidade de impor controles ao polo industrial abriram caminho para um processo longo de enfrentamento da poluição. O ponto central dessa mudança foi simples de enunciar, mas difícil de executar, reduzir emissões, controlar efluentes, monitorar fontes poluidoras e restaurar áreas degradadas. Isso significou impor mudanças reais ao funcionamento das grandes fontes emissoras do polo industrial, inclusive refinaria, siderúrgica e unidades químicas, rompendo com uma longa fase em que a atividade econômica operava com custos ambientais amplamente externalizados para o território e para a população.

Esse processo, porém, não foi obra exclusiva dos órgãos de controle e da burocracia ambiental. Estudos sobre a trajetória de Cubatão mostram que, ao lado da CETESB, a sociedade civil teve papel central na evolução do enfrentamento da poluição. A pressão de moradores, entidades locais e grupos organizados ajudou a impedir que o desastre fosse tratado como custo normal da industrialização. Entre essas organizações, merece destaque a Associação das Vítimas da Poluição e das Más Condições de Vida de Cubatão, cuja atuação deu visibilidade pública ao sofrimento social produzido pela degradação ambiental e contribuiu para sustentar a cobrança por mudanças concretas.

Os resultados começaram a aparecer de maneira gradual. Reconstituições históricas baseadas em dados da CETESB indicam que o programa de controle implantado em Cubatão levou, ao longo do tempo, a uma redução próxima de 98% das cargas poluidoras atmosféricas industriais monitoradas. No caso da água, também houve queda expressiva da carga orgânica lançada no Rio Cubatão em comparação com o período mais crítico. Esses números não significam que os problemas tenham desaparecido por completo, mas mostram que houve transformação concreta, mensurável e sustentada ao longo de décadas.

Essa mudança foi importante também porque alterou a relação entre indústria e território. Durante o período mais grave, o parque industrial funcionava como vetor de prosperidade econômica e, ao mesmo tempo, como fonte permanente de adoecimento e destruição ecológica. O processo de recuperação exigiu justamente quebrar essa lógica de impunidade ambiental. Essa mudança também foi favorecida pelo fato de que a degradação deixará de ser um problema silencioso e passara a gerar reação pública organizada, com participação de grupos da sociedade civil que denunciavam seus efeitos sobre a vida cotidiana da população. Não se tratava apenas de reconhecer danos, mas de obrigar empresas e poder público a assumir padrões mínimos de controle, tratamento e responsabilidade. Cubatão passou então a representar, ainda que de forma imperfeita, um caso em que a regulação ambiental deixou de ser obstáculo ao desenvolvimento e passou a ser condição para tornar a vida urbana minimamente compatível com a atividade econômica.

Outro aspecto importante é que a recuperação não pode ser lida apenas como uma história de engenharia ambiental ou de eficiência técnica. Ela foi também uma reconstrução lenta da capacidade de o território voltar a sustentar vida em melhores condições. A redução de emissões e de despejos poluentes abriu espaço para a regeneração parcial de áreas naturais, para a diminuição de alguns impactos mais agudos sobre a saúde e para a própria mudança da imagem pública da cidade. O que antes aparecia como exemplo extremo de degradação começou, pouco a pouco, a oferecer sinais de que a reversão não era impossível.

É justamente aí que reside uma das lições mais fortes do caso de Cubatão. A recuperação ambiental real não se confunde com melhora cosmética, propaganda institucional ou mudança de linguagem. Ela depende de tempo, investimento, fiscalização, produção de dados e continuidade administrativa. No caso cubatense, o que se consolidou foi um processo cumulativo, com avanços que só se tornaram mais visíveis porque houve persistência. É esse caráter construído, gradual e politicamente sustentado que torna a trajetória da cidade relevante para além de sua história local.
Passeio de 7,66 km leva a cachoeira de água cristalina em Cubatão (SP), seja de dia ou de noite

Cidade brasileira que já foi a mais poluída do mundo virou símbolo de recuperação ambiental após tragédia que matou 93 pessoas na década de 80.

3. O retorno do guará e os sinais visíveis da recuperação

A recuperação ambiental de Cubatão começou a adquirir outro significado quando deixou de aparecer apenas em relatórios técnicos e passou a se tornar visível na própria paisagem. Nenhum sinal teve força simbólica maior do que o retorno do guará-vermelho (Eudocimus ruber) aos manguezais da região. Ausente por décadas, a ave passou a representar, para além da dimensão biológica, a possibilidade concreta de que um território historicamente associado à devastação voltasse a sustentar formas visíveis de vida silvestre. Em Cubatão, esse significado foi tão forte que o guará acabou incorporado à imagem pública do município, sendo tratado oficialmente como ave-símbolo da cidade e como emblema de sua recuperação ambiental.

Esse retorno não deve ser lido como detalhe ornamental nem como simples curiosidade da fauna. O guará-vermelho é uma espécie profundamente ligada à saúde dos ecossistemas de mangue e estuário, ambientes decisivos para a reprodução de espécies, para a dinâmica costeira e para o equilíbrio ecológico da Baixada Santista. Quando uma ave com esse perfil volta a ocupar um território de forma perceptível, ela sinaliza que processos ecológicos fundamentais voltaram a operar em algum grau. Isso não significa restauração plena nem equilíbrio definitivo, mas indica mudança real de trajetória. Em uma cidade marcada por décadas de poluição atmosférica, degradação hídrica e comprometimento dos manguezais, a presença do guará passou a funcionar como evidência concreta de que a vida começava a reencontrar espaço.

A força simbólica desse reaparecimento foi ampliada pelo modo como a cidade passou a incorporá-lo em sua identidade pública. O guará deixou de ser apenas um indicador ecológico e se converteu em linguagem urbana, marca cultural e referência visual da nova imagem de Cubatão. A prefeitura passou a tratá-lo como símbolo da identidade ecológica cubatense e da recuperação ambiental do município. Essa escolha aparece em diferentes iniciativas recentes, como selo comemorativo oficial com a ave estampada, projetos urbanos que destacam sua figura e até uma grande escultura do guará na entrada da cidade, reforçando sua presença na paisagem e no imaginário local. Em uma cidade por muito tempo associada à fumaça, ao adoecimento e à destruição, a adoção do guará como imagem pública da nova Cubatão tem um significado político e cultural que não deve ser subestimado.

Esse processo também ajuda a entender por que a recuperação ambiental de Cubatão passou a ser percebida de forma mais ampla pela população. Enquanto gráficos de emissão e índices de qualidade do ar falam sobretudo ao mundo técnico, o retorno do guará fala à cidade inteira. Ele torna visível uma mudança que antes parecia restrita a tabelas e laudos. Ao mesmo tempo, o caso mostra que a reconstrução ambiental não ocorre apenas quando os danos diminuem, mas também quando a sociedade passa a reconhecer sinais concretos de regeneração e a incorporá-los como parte de sua memória e de sua identidade. O guará-vermelho, nesse sentido, não é apenas consequência da recuperação. Ele se tornou também um dos meios pelos quais essa recuperação passou a ser compreendida publicamente.

Esse retorno, porém, não deve ser entendido de forma triunfalista. O retorno da ave não significa que os manguezais de Cubatão estejam livres de ameaças nem que a agenda ambiental do município esteja concluída. Pelo contrário, pesquisas e reportagens recentes mostram que o lixo acumulado, a contaminação e outros impactos ainda afetam o ecossistema e interferem no comportamento e na sobrevivência do guará-vermelho. A retomada de ações do Projeto Guará-Vermelho e os estudos sobre os efeitos dos resíduos nos manguezais mostram que a recuperação precisa ser continuamente protegida e aprofundada. Isso reforça a leitura mais séria do caso, o guará não é prova de perfeição ambiental, mas sinal poderoso de que a cidade mudou o rumo e de que essa mudança precisa ser defendida.

É justamente por isso que o guará-vermelho ocupa um lugar tão importante na trajetória recente de Cubatão. Durante décadas, a cidade foi conhecida sobretudo por aquilo que destruía. Agora, parte de sua imagem pública começa a ser reconstruída também por aquilo que voltou a abrigar. Em termos ambientais, esse é um dado expressivo. Em termos políticos e simbólicos, é ainda mais forte. Ele mostra que a recuperação deixa marcas na paisagem, na biodiversidade e no modo como uma cidade passa a contar a sua própria história.
Vista parcial de Cubatão a partir da Serra do Mar

4. Dos selos recentes à lição política que Cubatão oferece

Os reconhecimentos recebidos por Cubatão nos últimos anos ajudam a dar forma pública a uma transformação que vinha sendo construída há décadas. Em março de 2025, o município passou a integrar o programa internacional Tree Cities of the World, criado pela Arbor Day Foundation em parceria com a FAO, agência das Nações Unidas para alimentação e agricultura. Em abril daquele ano, recebeu oficialmente o selo. Já em março de 2026, Cubatão voltou a ser reconhecida no mesmo programa, consolidando sua presença entre as cidades destacadas por políticas de arborização urbana e áreas verdes. A prefeitura também registra que a cidade conquistou, pela primeira vez, a certificação no Programa Município Verde Azul, do governo paulista, alcançando 80 pontos no ciclo 2025 após ter registrado nota negativa em 2023.

Esses marcos recentes ajudam a dimensionar publicamente uma transformação construída ao longo de décadas. Quando uma cidade que durante tanto tempo figurou como emblema da devastação passa a ser mencionada em programas de referência ambiental, isso sinaliza que a recuperação deixou de ser apenas uma aspiração ou um discurso administrativo. Passou a ser algo reconhecível, medido e suficientemente consistente para alterar a imagem pública do município. Em Cubatão, o peso desses selos decorre justamente do contraste com o passado. Não se trata de um município que sempre preservou bem suas áreas verdes e agora recebe mais uma distinção. Trata-se de uma cidade que já foi apresentada como retrato extremo da degradação e que hoje consegue demonstrar avanços reais em gestão ambiental.

A trajetória recente de Cubatão também permite extrair uma lição política mais ampla. O caso mostra que degradação ambiental extrema não deve ser tratada como destino irreversível. Mostra também que a reversão não nasce de espontaneidade, marketing verde ou simples troca de narrativa. Ela depende de regulação, fiscalização, monitoramento, investimento, planejamento, restauração ecológica e continuidade institucional. Em outras palavras, a cidade não ensina que tudo se resolve facilmente; ensina que a recuperação ambiental exige persistência e presença do Estado. É justamente isso que dá força ao seu exemplo em um país que tantas vezes oscila entre o negacionismo dos danos e o improviso das respostas.

Há, portanto, uma diferença importante entre usar Cubatão como peça de propaganda e lê-la como experiência histórica. O caso cubatense não permite leituras simplistas. Ele não apaga o sofrimento ambiental acumulado, não elimina a necessidade de vigilância permanente e não permite supor que bastem alguns prêmios para considerar encerrada a agenda ecológica local. O que ele faz, e isso já é muito, é desmontar a ideia de impossibilidade. Em tempos de devastação naturalizada,

Cubatão lembra que até mesmo os cenários mais críticos podem ser alterados quando a sociedade e o poder público deixam de aceitar a destruição como custo inevitável do progresso.
Ex- cidade mais poluída do mundo hoje tem uma das melhores qualidades de ar de SP.

Conclusão

Cubatão interessa hoje menos como exceção milagrosa e mais como demonstração histórica. Seu passado mostra até onde pode chegar a devastação quando industrialização, omissão regulatória e desprezo pelo território caminham juntos. Seu presente, por outro lado, mostra que a recuperação ambiental não é fantasia, desde que haja controle público, monitoramento, pressão social, investimento e continuidade institucional. Essa é talvez a lição mais importante do caso cubatense, a destruição pode ser extrema, mas não precisa ser aceita como destino.

Ao mesmo tempo, a trajetória de Cubatão também adverte contra leituras simplificadoras. Os prêmios recentes, o retorno do guará-vermelho e a melhora de indicadores ambientais não permitem tratar essa trajetória como processo concluído. Essa cautela é importante porque, mesmo após a recuperação expressiva iniciada nos anos 1980, reportagens posteriores ainda registraram momentos de preocupação com a qualidade do ar e com a necessidade de vigilância contínua, lembrando que a trajetória de Cubatão é notável, mas não deve ser tratada como história definitivamente encerrada. O que eles mostram é que uma cidade marcada por um dos mais graves desastres ambientais urbanos do país conseguiu alterar sua trajetória de forma concreta, sem apagar a memória do que ocorreu nem dispensar vigilância permanente. O valor público desse caso está justamente aí, Cubatão oferece uma lição de persistência política e de reconstrução ecológica lenta, difícil e documentada.

Num país que ainda convive com a naturalização de rios degradados, ar poluído, áreas verdes destruídas e cidades tratadas como espaços sacrificáveis, Cubatão lembra que recuperação ambiental exige mais do que discursos. Exige presença do Estado, regulação, tempo e escolha política. Talvez seja por isso que sua história continue tão atual. Ela não prova que tudo pode ser resolvido com facilidade. Prova algo mais importante, que mesmo os cenários mais sombrios podem começar a mudar quando a devastação deixa de ser tratada como preço inevitável do progresso.
Recuperação ambiental de Cubatão: de Vale da Morte a case. (ecodebate)

terça-feira, 21 de abril de 2026

Pontos de não retorno climáticos

Aquecimento de 1,5°C já levaria 5 regiões a ponto de não retorno climático

Pontos de não retorno (tipping points) climáticos são limites críticos onde o aquecimento global causa mudanças irreversíveis em ecossistemas, autoperpetuando danos mesmo se a temperatura baixar. Principais riscos incluem a savanização da Amazônia, degelo da Groenlândia/Antártida e o colapso de corais, com efeitos em cascata.

Principais Pontos de Não Retorno

Savanização da Amazônia: A perda de 20% da floresta, combinada com aquecimento de 1,5°C a 2°C, pode transformar a floresta tropical em savana, liberando grandes quantidades de CO2.

Degelo Polar: Derretimento acelerado da Groenlândia e do Oeste da Antártida, causando aumento significativo do nível do mar.

Recifes de Coral: A mortalidade em massa de corais devido ao aquecimento oceânico já é considerada um ponto de não retorno em andamento.

Circulação Meridional do Atlântico (AMOC): Risco de colapso abaixo de 2°C de aquecimento, o que mudaria drasticamente o clima europeu e padrões de monções.

Permafrost: O degelo do solo congelado no Ártico libera metano e CO2, criando um ciclo de retroalimentação que acelera o aquecimento.

Implicações e Urgência

Irreversibilidade: Uma vez superados, os sistemas naturais mudam para um novo estado, incapazes de retornar ao equilíbrio anterior.

Efeito Cascata: O colapso de um sistema pode gatilhar outros, acelerando a crise climática global.

Ação Imediata: Estudos indicam que vários desses pontos podem ser atingidos com um aquecimento entre 1,5°C e 2°C, exigindo redução drástica de emissões.
Cientistas da USP tocam alarme! A Terra queima, o clima atinge o limite e planeta pode ter passado do ‘ponto sem retorno’

Como o aquecimento global pode acionar mecanismos irreversíveis e porque cada décimo de grau importa mais do que você imagina.

A ciência já identificou os limiares que, uma vez cruzados, levam o planeta a um novo estado. O que são, porque assustam e o que ainda podemos fazer?

Existe uma pergunta que me persegue desde que comecei a estudar mais a fundo a crise climática. Não é “vai esquentar quanto?”, nem “quando as praias vão desaparecer?”. É uma pergunta mais inquietante:

E se já tivermos ido longe demais?

Porque a maioria das conversas sobre mudanças climáticas pressupõe, ainda que implicitamente, que o problema é reversível. Que se a gente parar de poluir, o planeta para de esquentar, a situação estabiliza, a humanidade respira aliviada. Isso é verdade em teoria.

Mas existe uma camada mais sombria da história que raramente chega ao noticiário: a dos pontos de não retorno, ou tipping points, como a comunidade científica os chama.

E essa camada muda tudo.

O risco de mudanças irreversíveis

Imagine uma cadeira de balanço. Você pode empurrá-la para frente, para trás, ela balança, mas sempre volta. Agora imagine empurrá-la além de um certo ângulo. Ela tomba. E não volta sozinha.

A cadeira de balanço à esquerda está em movimento e em equilíbrio. A cadeira da direita ultrapassou o limite do ponto de não retorno e está em queda.

Os pontos de não retorno climáticos funcionam assim. São limiares críticos dentro de grandes sistemas do planeta: as calotas polares, a Floresta Amazônica, as correntes oceânicas, o solo congelado do Ártico.

Quando o aquecimento global empurra um desses sistemas além do seu limite, ele “tomba”, entra em colapso de forma autossustentada, que continua mesmo que todas as emissões de carbono parem amanhã.

O processo pode levar décadas ou séculos para se completar. Mas o gatilho é puxado agora.

Isso não é ficção científica. O Global Tipping Points Report 2025, elaborado por mais de 160 cientistas de mais de 20 países, confirmou algo que já causava arrepios nos bastidores da ciência, que a Terra pode ter ultrapassado seu primeiro ponto de não retorno relacionado às mudanças climáticas, o branqueamento dos recifes de coral, à medida que a água dos oceanos esquenta.

O primeiro. Não o último.

Os gigantes que estamos acordando

Deixa eu te apresentar os sistemas que estão em risco e o que pode acontecer quando cada um deles cede.

As calotas polares da Groenlândia e da Antártida Ocidental

O gelo que derrete na superfície escorre para baixo das geleiras, lubrifica sua base e acelera o deslizamento para o mar. Uma vez iniciado esse processo, ele se alimenta sozinho. Somente a perda de gelo da Groenlândia foi responsável por cerca de 17% da elevação do nível do mar entre 2006 e 2018. E o processo está acelerando. A consequência de longo prazo é uma elevação no nível dos oceanos, lenta demais para assustar o noticiário, rápida demais para ignorar.

Os recifes de coral

Já com um aquecimento global de 1,4°C, os recifes de corais de águas quentes estão ultrapassando seu ponto de inflexão térmico e sofrendo uma perda sem precedentes, prejudicando os meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas que dependem deles. Os recifes abrigam 25% de toda a vida marinha. Sua morte não é apenas uma tragédia ecológica, é a demolição de uma barreira natural que protege o litoral de tempestades e garante alimento para populações inteiras.

A Amazônia

A floresta cria sua própria chuva. Árvores absorvem água do solo e a liberam na atmosfera, gerando nuvens e precipitação num ciclo virtuoso que mantém o maior bioma tropical do mundo vivo. O desmatamento combinado com o aquecimento está rompendo esse ciclo. Árvores morrem de sede e são substituídas por vegetação rasteira. A floresta vai virando savana. E quando isso acontece em escala suficiente, ela para de se sustentar e libera de uma vez todo o carbono acumulado por séculos.

Isso não seria apenas uma catástrofe para o Brasil. Seria uma catástrofe para o planeta.
Catastróficos gatilhos climáticos podem mudar completamente o nosso planeta TERRA e de maneira irreversível!!!

A AMOC (Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico) é uma espécie de esteira rolante gigante que redistribui calor entre os hemisférios. Ela funciona porque a água salgada é mais densa e afunda, criando um fluxo contínuo. O problema é que o derretimento do gelo da Groenlândia está despejando água doce no Atlântico Norte, diluindo a salinidade e freando o motor da corrente.

A desestabilização da AMOC numa região pode repercutir-se através de oceanos e continentes, já que o degelo acelera o aquecimento ao reduzir o albedo e alterar a circulação oceânica, provocando mudanças nas faixas de chuva tropicais. Na prática: Europa esfria, trópicos superaquecem, monções falham, fome aumenta.

O permafrost

O solo permanentemente congelado do Ártico guarda quantidades astronômicas de metano, um gás de efeito estufa com poder de aquecimento mais de 80 vezes maior que o CO₂ em 20 anos. À medida que o Ártico esquenta, esse solo descongela e libera o gás. Mais metano aquece mais o planeta. Mais aquecimento descongela mais solo. Um ciclo que se alimenta sozinho.

Foi identificado que mesmo que houvesse a interrupção global e imediata de todas as emissões de gases de efeito estufa pela humanidade, o degelo autossustentado do permafrost ainda seria observado por centenas de anos.

Isso é o que significa “irreversível”.

O efeito dominó

O que mantém os cientistas acordados à noite não é o colapso de um sistema isolado. É a possibilidade de que a queda de um acione a queda do seguinte, numa cascata global.

O derretimento do Ártico acelera a perda de gelo da Groenlândia. A água doce da Groenlândia freia a AMOC. A AMOC alterada muda os padrões de chuva e seca a Amazônia. A Amazônia savanizada libera gigatoneladas de CO₂. O CO₂ aquece ainda mais o planeta. O aquecimento derrete mais gelo na Antártida. O nível do mar sobe catastroficamente.

Estas mudanças abruptas podem desencadear uma cascata de interações entre subsistemas que empurrará o planeta para uma trajetória de aquecimento extremo e subida do nível do mar, condições que poderão ser difíceis de reverter à escala de tempo humana, mesmo com fortes reduções de emissões.

Os cientistas chamam esse cenário de Terra Estufa (Hothouse Earth). Um planeta radicalmente diferente do que a civilização humana conheceu — e para o qual não fomos construídos.

O que os números dizem

Não estou aqui para ser catastrofista além do que a ciência suporta. Mas os números são sérios e merecem ser ditos com clareza:

Com base nas políticas atuais e no aquecimento global resultante, a estimativa mais conservadora dos pesquisadores aponta para um risco médio de 62% de ultrapassagem desses pontos críticos.

Sessenta e dois por cento. Com as políticas que temos hoje.

As médias globais de 2023 e 2024 ficaram em 1,45°C e 1,55°C, respectivamente, com os primeiros meses de 2025 continuando a bater recordes — um padrão que persiste mesmo após o fim do El Niño.

Estamos cruzando limiares que achávamos que teríamos mais tempo para discutir.
Ainda há saída!!!

Acredito que só se age com urgência real quando se entende a urgência real. E a urgência real não é “vai fazer mais calor”. É que estamos nos aproximando de interruptores que, uma vez acionados, nossos (as) netos (as) não conseguirão desligar.

A boa notícia é que ainda temos o poder de evitar esses pontos de inflexão climáticos. Ao avançarmos rumo a um futuro mais sustentável, com emissões mais baixas, reduzimos consideravelmente os riscos.

Os cientistas também falam em pontos de não retorno positivos: os limiares para a expansão de energia solar, baterias, mudanças de comportamento em escala que, uma vez cruzados, também se tornam autossustentados. A transição energética tem sua própria física de cascata. Precisamos acionar esses interruptores antes que os outros nos alcancem.

Cada décimo de grau de aquecimento que evitamos não é uma conquista estatística. É um interruptor que deixamos de acionar. É uma opção que preservamos para as próximas gerações. É a diferença entre um planeta difícil e um planeta inviável.

Não dá para jogar na roleta com o sistema terrestre. A casa sempre vence. (ecodebate)

Região Sul tem a 2ª estrutura etária mais envelhecida do Brasil

A região Sul tem a segunda estrutura etária mais envelhecida do Brasil. Sim, a Região Sul possui a segunda estrutura etária mais envelhecida...