sábado, 19 de setembro de 2026

Mudanças climáticas expõem no Brasil 9 milhões de crianças

Mudanças climáticas já expõem 9 milhões de crianças no Brasil a um mês a mais de calor perigoso.
Estudo revela que 32% das crianças de até 9 anos no país vivem estresse térmico extremo; em cenário de aquecimento global de 2°C, esse número pode chegar a 49%.

Pesquisa da Vrije Universiteit Brussel (VUB) publicada na revista Science Advances mostra que o calor extremo, impulsionado pela queima de combustíveis fósseis, já multiplicou por dez a exposição prolongada de crianças brasileiras ao estresse térmico. Especialistas alertam para a urgência de adaptação climática nas cidades.

Estudo publicado na revista Science Advances aponta que 32% das crianças de até 9 anos no país enfrentam ao menos 30 dias adicionais de estresse térmico; em cenário de 2°C de aquecimento, proporção pode chegar a 49%.

Uma nova pesquisa da Vrije Universiteit Brussel (VUB) mostra que, globalmente, até 560 milhões de crianças de 0 a 9 anos — 43% das crianças dessa faixa etária — vivem pelo menos 30 dias adicionais de estresse térmico por ano devido às mudanças climáticas. A exposição supera a de qualquer outra faixa etária e é quase três vezes maior, em números absolutos, do que a registrada entre pessoas de 60 a 69 anos: 190 milhões, ou 30% dessa população, enfrentam essa ameaça adicional à saúde.

No Brasil, as mudanças climáticas causadas pela ação humana já expõem 9,2 milhões de crianças de 0 a 9 anos — 32% dessa população no país — a pelo menos um mês adicional de estresse térmico por ano. O impacto é ainda mais expressivo quando se considera a exposição prolongada ao calor: as mudanças climáticas multiplicaram por dez o número de crianças brasileiras dessa faixa etária expostas a pelo menos 5 meses de estresse térmico perigoso por ano, de 300 mil para 3,2 milhões, o equivalente a 11% dessa população.

“São os nossos filhos que serão mais atingidos pela crise climática. Como pais e mães que querem deixar como legado um mundo ainda com qualidade de vida para os nossos filhos, precisamos lutar pela adaptação climática nas cidades”, afirma o pediatra e sanitarista Daniel Becker. “Isso significa pressionar para que as cidades sejam muito mais arborizadas, que ofereçam sombra, inclusive nas áreas mais pobres e periféricas, com bons espaços para as crianças brincarem. São os mesmos investimentos que trazem qualidade de vida e adaptação climática, com soluções baseadas na natureza”.

O estudo é a primeira análise a quantificar como a exposição ao calor diretamente relacionada às mudanças climáticas afeta diferentes grupos etários globalmente, tanto no presente quanto em um futuro próximo. Os dados fazem parte da pesquisa publicada nesta semana na revista científica Science Advances.

“Nossos resultados indicam que, atualmente, quase um terço de todas as crianças brasileiras com menos de 10 anos está exposto a um mês adicional de estresse térmico por ano e que, se o aquecimento global chegar a 2°C, essa proporção aumentará para quase metade das crianças menores de 10 anos no Brasil”, destacou Rosa Pietroiusti, uma das autoras do estudo. “Os países precisam investir urgentemente em mitigação e adaptação, reduzir as emissões provenientes de fontes fósseis de energia, conter o aquecimento global e proteger os grupos mais vulneráveis das consequências do calor perigoso”.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores combinaram dados populacionais com modelos climáticos de ponta e métodos da ciência de atribuição, que permitem identificar o papel das mudanças climáticas em eventos climáticos extremos. Os dados mostram que os riscos das mudanças climáticas para a saúde já estão presentes e são distribuídos de forma desigual entre gerações e regiões do planeta.
 
Impactos na saúde

Segundo a pesquisa, o calor excessivo interfere no funcionamento normal do corpo humano, agrava doenças preexistentes e pode levar a complicações graves, como insolação, desidratação e falência de órgãos. As ondas de calor perigosas estão se tornando mais frequentes e intensas devido às mudanças climáticas, impulsionadas principalmente pela queima de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás.

O estudo concentra-se no calor úmido, mais perigoso do que o calor seco porque dificulta a evaporação do suor e, consequentemente, a capacidade do corpo de se resfriar, levando a níveis perigosos de estresse térmico.

As crianças são especialmente vulneráveis ao calor extremo porque seus corpos aquecem mais rapidamente do que os dos adultos, transpiram com menos eficiência e dependem dos cuidados de outras pessoas para se proteger. O superaquecimento pode causar riscos graves à saúde, incluindo desidratação e insolação, além de impactos na aprendizagem e no desenvolvimento cognitivo.

As descobertas chegam em um momento crítico para as políticas climáticas. A crise energética em curso evidenciou ainda mais os riscos da dependência de combustíveis fósseis, e 2026 já registrou algumas das ondas de calor mais severas já observadas, algumas delas virtualmente impossíveis sem a influência das mudanças climáticas.

Exposição das crianças brasileiras

No Brasil, quase metade das crianças pode enfrentar pelo menos um mês adicional de calor em um mundo 2°C mais quente. O estudo também projeta a exposição das crianças brasileiras em cenários de 1,5°C e 2°C de aquecimento global.

Em um mundo 1,5°C mais quente

9,5 milhões de crianças brasileiras de 0 a 9 anos, ou 38% dessa faixa etária, estarão expostas a pelo menos um mês adicional de estresse térmico por ano;

2,9 milhões de crianças, ou 11%, vivenciarão pelo menos cinco meses — 150 dias — de estresse térmico total por ano.

Em um mundo 2°C mais quente

8,7 milhões de crianças brasileiras de 0 a 9 anos, ou 49% dessa faixa etária, estarão expostas a pelo menos um mês adicional de estresse térmico por ano;

2,5 milhões de crianças, ou 14%, vivenciarão pelo menos cinco meses — 150 dias — de estresse térmico total por ano.

Embora o número absoluto de crianças seja menor no cenário de 2°C, a proporção exposta aumenta de 38% para 49%. Isso ocorre porque as projeções consideram não apenas as mudanças no clima, mas também mudanças demográficas: a população infantil projetada é menor nesse cenário. A exposição atual, por sua vez, é estimada com base em dados populacionais de 2023.

Principais conclusões do estudo:

● Impactos atuais:

As mudanças climáticas quase triplicaram o número de crianças expostas a pelo menos cinco meses (150 dias) de estresse térmico total globalmente: de 120 milhões — 9% das crianças atualmente — em um mundo sem mudanças climáticas para 350 milhões, ou 27%, hoje. Esse número é quase três vezes maior do que o de adultos de 60 a 69 anos expostos a pelo menos cinco meses de estresse térmico total: 120 milhões, ou 18% dessa população.

● Disparidade geográfica:

Os maiores aumentos de calor úmido devido às mudanças climáticas estão ocorrendo em regiões tropicais e países mais pobres, onde as populações são mais jovens e, portanto, mais crianças são afetadas. Sul da Ásia, Sudeste Asiático e África Ocidental são as regiões com o maior número de crianças expostas ao estresse térmico perigoso atualmente.

● Cenários futuros:

As crianças continuarão desproporcionalmente expostas em comparação com todos os outros grupos etários, independentemente do envelhecimento da população global:

Em um mundo com +1,5°C: estima-se que 620 milhões de crianças de 0 a 9 anos (49%) vivenciem pelo menos um mês adicional de estresse térmico por ano, e 390 milhões (31%), pelo menos cinco meses de estresse térmico total.

Em um mundo com +2°C: estima-se que 650 milhões de crianças de 0 a 9 anos (59%) vivenciem pelo menos um mês adicional de estresse térmico por ano, e 420 milhões (37%), pelo menos cinco meses de estresse térmico total.


Sem adaptação urbana, calor extremo pode afetar vida de metade das crianças no país, aponta estudo

Estudo internacional revela que a queima de combustíveis fósseis multiplicou por dez a exposição prolongada ao estresse térmico entre menores de 9 anos no país.

Notas:

Como o estudo define estresse térmico

Os dias de estresse térmico são definidos como aqueles em que o índice WBGT (Wet Bulb Globe Temperature, ou temperatura de globo e bulbo úmido) à sombra supera 28°C. Nessas condições, medidas de proteção, como redução da atividade física ou períodos estruturados de descanso, são recomendadas para prevenir doenças relacionadas ao calor.

O que são “dias adicionais” de estresse térmico

Os dias adicionais correspondem ao número de dias de estresse térmico atribuíveis às mudanças climáticas causadas pela ação humana, ou seja, dias que não ocorreriam na ausência das mudanças climáticas antropogênicas.

Essa estimativa é feita utilizando métodos de atribuição aplicados a dados de reanálise baseados em observações ou a dados de modelos climáticos globais.

Criança brinca em águas rasas sob um céu azul. Certos patógenos aquáticos estão se tornando mais comuns com o aquecimento global.

Dados populacionais e projeções

A exposição atual da população ao estresse térmico é estimada utilizando dados populacionais de 2023.

As projeções para um mundo com 1,5°C e 2°C de aquecimento global consideram tanto as mudanças climáticas estimadas pelos modelos climáticos globais quanto mudanças demográficas sob um cenário intermediário de desenvolvimento socioeconômico.

Instituições participantes

O estudo foi conduzido por uma equipe internacional de pesquisadores liderada pelo Departamento de Água e Clima da Vrije Universiteit Brussel (VUB), em colaboração com pesquisadores da ETH Zurique, Universidade de Oxford, Universidade de Waikato e Instituto Potsdam para Pesquisa de Impactos Climáticos.

Outros estudos e relatórios

Os resultados deste estudo também contribuíram para um relatório recente do UNICEF, que mostrou que 550 milhões de crianças em todo o mundo estão expostas ao calor extremo atribuível às mudanças climáticas causadas pela ação humana.

O estudo acrescenta novas evidências aos impactos já documentados das mudanças climáticas sobre a saúde humana. O Lancet Countdown 2025 sobre Saúde e Mudanças Climáticas destaca danos à saúde em todo o mundo associados ao calor extremo, eventos climáticos extremos, secas e doenças infecciosas cada vez mais disseminadas, além da pressão crescente sobre os sistemas de saúde.

Os autores da VUB também contribuíram para um relatório recente da Save the Children, segundo o qual cerca de 100 milhões das 120 milhões de crianças nascidas em 2020 enfrentarão uma exposição sem precedentes a ondas de calor.

El Niño faz aumentar o aquecimento global, gerando mudanças climáticas cada vez muito mais catastróficas. (ecodebate)

Colapso de geleira no Nepal é um alerta para os Alpes e os Andes

Foto de área urbana parcialmente soterrada pelas inundações repentinas que devastaram os distritos de Rasuwa, Nuwakot e Dhading, no Nepal, em 26/08/2026.
Cientistas apontam que o aquecimento acelerado das montanhas aumenta o risco de rompimentos glaciais em cadeias como os Alpes e os Andes, regiões que já registraram eventos parecidos com o que atingiu comunidades no Himalaia

Investigações preliminares indicam que um grande bloco de geleira se desprendeu e represou temporariamente um rio no Nepal antes de liberar uma onda destrutiva. Especialistas alertam que o mesmo tipo de fenômeno ameaça vales povoados na Suíça e no Peru, à medida que o degelo se acelera em todo o planeta.

O desastre no Nepal

Colapso glacial: o fenômeno que causou a enchente repentina na fronteira entre Nepal e Tibete.

A enchente repentina que atingiu o Nepal provavelmente foi causada por um grande bloco de geleira que se desprendeu e represou temporariamente um rio, segundo investigações preliminares de cientistas. O acúmulo de água pode ter sido liberado horas depois, avançando rio abaixo com força destrutiva.

Equipes de pesquisa ainda reúnem dados de satélite e de campo para reconstituir com precisão o que ocorreu na tragédia, que deixou centenas de mortos e muitos desaparecidos, entre eles estrangeiros e peregrinos que visitavam a região.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) registrou nesta quarta-feira um evento de magnitude 5,2 associado ao colapso da geleira, que enviou detritos rio abaixo com impacto catastrófico sobre as comunidades. A conclusão se baseou em dados de estações sismológicas próximas, ondas sísmicas de longo período e imagens de satélite.

Para os cientistas, ainda é cedo para estabelecer uma relação direta entre o aquecimento global e a catástrofe desta semana. Ainda assim, eles reforçam que, à medida que a temperatura da Terra sobe por causa de atividades humanas como a queima de petróleo, gás e carvão, aumentam as chances de desastres desse tipo, sobretudo nas montanhas do Himalaia, que estão esquentando bem mais rápido do que a maior parte do planeta.

Centenas de famílias perderam suas casas na região do Himalaia, e autoridades relataram danos de grande escala em infraestruturas essenciais, incluindo hidrelétricas, estradas, edifícios e pontes.

A água subiu antes que houvesse tempo de fugir

Funcionário de hidrelétrica registra fuga desesperada durante avalanche de lama no Nepal

Vivek Shrestha trabalha em um projeto hidrelétrico no rio Trishuli, na região de Mailung. Ele foi resgatado de helicóptero e compartilhou relato nas redes sociais.

Em alguns pontos da região atingida, o nível dos rios subiu até 9 metros em apenas 30 minutos, resultado da onda provocada pelo desprendimento da geleira nas partes mais altas, segundo pesquisadores de um centro de estudos climáticos com sede em Katmandu.

Evidências preliminares sugerem que um grande volume de gelo e rocha caiu no rio Lhende Khola, um afluente do Bhote Koshi. Segundo os pesquisadores, o colapso pode ter deslocado a água e arrastado sedimentos soltos e pedregulhos, formando uma onda poderosa rio abaixo. Os especialistas também investigam se os detritos chegaram a represar o rio antes que a água acumulada rompesse a barreira, potencializando ainda mais a enchente.

O Himalaia esquenta rápido demais

A cordilheira do Hindu Kush Himalaia está entre as regiões que mais aquecem no planeta, o que provoca mudanças profundas em geleiras, cobertura de neve, permafrost e encostas montanhosas.

As montanhas concentram o maior volume de neve e gelo fora das regiões polares. Mais de 63 mil geleiras na área alimentam ao menos 10 grandes sistemas fluviais da Ásia e sustentam a segurança alimentar, hídrica e energética de bilhões de pessoas.

Ainda assim, cerca de 78% da área de geleiras da região, situada entre 4.500 e 6.000 metros de altitude, está altamente exposta ao aquecimento.

A última década foi o período mais quente já registrado globalmente, e 2024 foi o ano mais quente da história. Relatórios da ONU apontam que, entre 2000 e 2019, as geleiras perderam 267 gigatoneladas de gelo por ano, um volume equivalente à massa de 46,5 mil pirâmides de Gizé.

Em um cenário de aquecimento contínuo, projeções indicam a perda de até metade de todas as geleiras do mundo (excluindo Groenlândia e Antártida) até 2100, mesmo que o aquecimento global seja limitado a 1,5°C. As políticas climáticas atuais, porém, colocam o planeta em uma trajetória de aquecimento de cerca de 2,8°C até o fim do século.

Levantamentos do centro de pesquisa de Katmandu mostram que as geleiras dessas cordilheiras derretem em ritmo cada vez mais acelerado, com a perda de gelo dobrando desde os anos 2000.

O derretimento acelerado alimenta e amplia lagos glaciais, aumentando o potencial de enchentes repentinas. Ao mesmo tempo, quando as geleiras recuam, rochas antes protegidas pelo gelo ficam expostas a temperaturas mais altas, chuva e ciclos de congelamento e degelo. O permafrost, solo que permanece congelado por longos períodos, também derrete, o que enfraquece encostas inteiras.
Os Alpes já viveram um desastre parecido

Os ALPES estão DERRETENDO

Desde 1850, as geleiras dos Alpes perderam mais de 60% do seu volume de gelo.

Só entre 2000 e 2020, mais de 40% das geleiras da região desapareceram, incluindo algumas que existiam há milhares de anos (não estamos falando da cobertura de neve).

O risco de colapsos glaciais não é exclusividade do Himalaia. Em maio, o colapso da geleira Birch, nos Alpes suíços, soterrou boa parte da vila de Blatten, no cantão de Valais. O episódio começou com sinais de instabilidade na encosta do Petit Nesthorn, monitorada havia semanas por causa de deslizamentos de rocha. Blocos de pedra se desprenderam e caíram sobre a geleira, que passou a receber uma carga enorme de detritos até entrar em colapso.

O resultado foi uma sequência de desastres em cadeia: soterramento quase total da vila por gelo, lama e rochas; interrupção do curso do rio Lonza, com represamento da água; e formação rápida de um lago que passou a submergir as estruturas restantes. Autoridades suíças mantiveram o vale de Lötschental em estado de alerta, já que um rompimento repentino da barreira natural formada pelos sedimentos poderia provocar novas enchentes em outras aldeias rio abaixo.

O caso de Blatten expôs um problema que preocupa cientistas em toda a cadeia dos Alpes: o degelo do permafrost enfraquece encostas inteiras e aumenta o risco de grandes deslizamentos de rocha. Em outras localidades suíças, como Kandersteg, no cantão de Berna, autoridades também monitoram encostas instáveis associadas ao degelo do permafrost, com risco de deslizamentos capazes de ameaçar vilarejos inteiros.

Um levantamento recente estima em cerca de 2,2 milhões o número de pessoas expostas ao risco de enchentes provocadas por rompimento de lagos glaciais na região dos Alpes.

Nos Andes, o Peru já viveu a pior tragédia do tipo

O corpo do fotógrafo brasileiro Edson Vandeira foi resgatado da montanha onde desapareceu, no Peru. A equipe de resgate precisou subir mais de 5.000 metros de altitude. Um helicóptero foi utilizado na operação.

Do outro lado do planeta, os Andes enfrentam um risco semelhante, com destaque para o Peru, país que concentra a maior parte das geleiras tropicais do mundo. Estudos recentes estimam em cerca de 2,5 milhões o número de pessoas expostas a enchentes por rompimento de lagos glaciais na cordilheira andina, a maioria delas no Peru e na Bolívia.

O país já viveu o pior cenário possível. Em 1941, uma avalanche de neve e gelo caiu na Laguna Palcacocha, um lago glacial nos Andes peruanos, e provocou uma onda que rompeu a barreira natural de sedimentos que continha as águas. O desastre matou milhares de pessoas na cidade de Huaraz. Desde então, o Peru já registrou mais de 140 eventos do tipo, e a tendência é de alta.

Assim como no Himalaia e nos Alpes, o degelo constante no país andino não apenas forma novos lagos glaciais, como também desestabiliza montanhas inteiras. O derretimento do permafrost, que funciona como uma espécie de cola natural nas encostas, provoca um efeito em cadeia de instabilidade que pode culminar em deslizamentos, avalanches e rompimentos de barragens naturais, ameaçando vales densamente povoados.
Um problema global que exige respostas rápidas

O planeta mandou o recado de novo.

E a natureza não avisa antes de agir.

Essa tragédia no Nepal é a prova escancarada do que acontece quando o ser humano ignora os limites da terra.

Sustentabilidade não é conversa bonita.

É a única barreira entre a nossa existência e o colapso do meio ambiente.

Quando a gente ocupa o planeta de qualquer jeito, o resultado aparece rápido:

A vegetação arrancada deixa a terra solta para desabar;

O leito do rio invadido cobra o espaço dele de volta;

As mudanças climáticas transformam a falta de respeito ambiental em tragédia.

A terra não negocia com a ignorância humana.

Ou a gente aprende a respeitar o solo que pisa, ou vamos continuar assistindo a essas cenas até ser tarde demais.

Você acha que a humanidade ainda vai aprender a respeitar a força da natureza ou a gente já passou do ponto de retorno? Me conta o que você pensa disso.

Desprendimento de geleira no Nepal causa terremoto de magnitude 5,2.

Um estudo publicado na revista científica Nature Communications, conduzido por pesquisadores das universidades britânicas de Newcastle e Northumbria, mapeou a partir de dados de satélite as áreas de maior risco e vulnerabilidade a esse tipo de desastre em todo o planeta.

O levantamento concluiu que ao menos 15 milhões de pessoas vivem em áreas expostas ao risco de enchentes por rompimento de lagos glaciais, sendo que mais da metade desse total está concentrada em apenas quatro países: Índia, Paquistão, Peru e China.

Segundo o cálculo dos autores, cerca de 9 milhões de pessoas estão ameaçadas nas proximidades do Himalaia, 2,5 milhões nos Andes e 2,2 milhões nos Alpes. Um dos coordenadores da pesquisa, o professor Thomas Robinson, da Escola de Terra e Meio Ambiente da Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia, destaca que os Andes, embora recebam menos estudos científicos do que o Himalaia, apresentam potencial de impacto comparável para desastres desse tipo, o que reforça a necessidade de monitoramento mais próximo em países como Peru e Bolívia.

Cientistas defendem que sistemas de alerta antecipado mais eficientes, monitoramento constante e troca rápida de informações entre países vizinhos serão cada vez mais importantes à medida que as temperaturas sobem e as paisagens de montanha se tornam menos estáveis.

O desafio, porém, é enorme porque monitorar milhares de geleiras, encostas íngremes e vales fluviais ao longo de cordilheiras inteiras é uma tarefa extremamente difícil.

Tragédia no Nepal: os sinais da mudança climática diante dos nossos olhos

As causas ainda estão sendo investigadas, mas as primeiras análises apontam para o colapso de parte de uma geleira.

Quando desastres em cadeia começam, muitas vezes, restam apenas alguns minutos para tentar sobreviver. (ecodebate)

terça-feira, 15 de setembro de 2026

El Niño leva aquecimento dos oceanos a território desconhecido

El Niño excepcionalmente forte impulsiona aquecimento global dos oceanos e leva temperatura média da superfície do mar ao maior valor já registrado no planeta.

Os oceanos do planeta atingiram um novo recorde de temperatura agora em agosto em um sinal de que o aquecimento do sistema climático global continua avançando com o fenômeno El Niño agravando ainda mais o aquecimento.
A temperatura média da superfície do mar chegou a 21,10°C em 22/08/2026, segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S), da União Europeia. O valor supera o recorde anterior de 21,09°C, registrado em março/2024.

Os dados fazem parte da série do ERA5, produzida pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), que utiliza registros desde 1979 para o acompanhamento diário no Climate Pulse.

O novo recorde chama atenção principalmente pela época do ano. As temperaturas médias globais da superfície do mar normalmente atingem os maiores valores em março e abril, depois do verão no Hemisfério Sul.

Ainda assim, em pleno mês de agosto, o planeta registrou uma temperatura superior ao recorde absoluto anterior. O valor também ficou acima do maior registro para agosto, de 20,98°C, observado em 2023.

Para os cientistas, o resultado não representa uma surpresa isolada. Ele ocorre dentro de uma tendência de longo prazo de aquecimento dos oceanos associada ao aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.

“O recorde é outro sinal claro de um oceano sob crescente estresse”, afirmou Samantha Burgess, líder estratégica para o clima do ECMWF.

Segundo Burgess, o atual El Niño está acrescentando calor ao sistema climático. O fenômeno, porém, atua sobre um oceano que já apresenta temperaturas cada vez mais elevadas devido ao aquecimento observado ao longo das últimas décadas.

O momento também é marcado pelo desenvolvimento de um El Niño excepcionalmente forte no Pacífico tropical. O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial e provoca alterações na circulação atmosférica em escala global.

As mudanças podem modificar os padrões de chuva e temperatura em diferentes continentes. Também podem alterar a distribuição e a intensidade de determinados eventos extremos.

O aquecimento do oceano, entretanto, não depende exclusivamente do El Niño. O fenômeno climático atua como um fator adicional sobre uma tendência de aquecimento que já vinha sendo observada antes de sua formação.

Essa combinação ajuda a explicar por que um recorde global de temperatura da superfície do mar foi alcançado em agosto, um mês que normalmente está distante do período de maior aquecimento médio anual dos oceanos.

O comportamento das águas oceânicas tem consequências importantes para os ecossistemas marinhos. Temperaturas mais elevadas aumentam o risco de ondas de calor marinhas, que podem persistir durante períodos prolongados e provocar impactos sobre espécies e habitats.

Recifes de coral estão entre os ambientes mais vulneráveis. O calor excessivo pode provocar branqueamento e aumentar o estresse sobre organismos que formam esses ecossistemas.

Pradarias marinhas e outras áreas costeiras também podem sofrer impactos. Alterações nesses ambientes podem afetar cadeias alimentares e espécies que dependem deles para alimentação, reprodução ou abrigo.

As consequências chegam também à atividade econômica. Pesca e aquicultura podem ser afetadas por mudanças na distribuição das espécies e pelas alterações nas condições ambientais do oceano.

Outro problema é o aumento do nível do mar. A água se expande quando fica mais quente, contribuindo para a elevação do nível dos oceanos. O processo ocorre simultaneamente ao derretimento de geleiras e mantos de gelo continentais. O resultado aumenta a vulnerabilidade de cidades costeiras e regiões de baixa altitude.

O oceano também desempenha um papel fundamental na regulação do clima porque absorve grande quantidade do excesso de calor e parte do dióxido de carbono presente na atmosfera.

Com o aumento da temperatura da água, entretanto, sua capacidade de absorver dióxido de carbono pode diminuir. Isso representa uma preocupação adicional para o equilíbrio climático.

O aquecimento oceânico também pode fornecer mais energia e umidade para a atmosfera. Em determinadas circunstâncias, isso pode favorecer chuvas mais intensas e contribuir para o fortalecimento de alguns sistemas de tempestades.

Outro indicador da mudança é o aumento das ondas de calor marinhas. De acordo com Burgess, o número de dias com ondas de calor marinhas em escala global mais que triplicou desde o início da década de 1990.

O recorde de agosto ocorre, portanto, dentro de uma sequência mais ampla de temperaturas oceânicas excepcionalmente elevadas. Ao longo de 2026, diferentes regiões dos oceanos fora das áreas polares permaneceram muito quentes, mantendo os valores globais em níveis elevados.

O histórico recente mostra que os recordes oceânicos têm sido superados com rapidez. O recorde anterior havia sido estabelecido em março/2024 e agora já foi ultrapassado.

Ainda não é possível afirmar quanto tempo o novo recorde permanecerá vigente. O cientista climático Zachary Labe, da Climate Central, avalia que é possível que a marca seja superada novamente nos próximos meses.

Para os pesquisadores, porém, o significado mais importante não está apenas no valor de 21,1°C. O dado representa mais um indicador de um sistema climático que vem acumulando calor.

El Niño começa a interferir na vida marinha, anuncia a NASA

El Niño já provoca redução do fitoplâncton no Pacífico, afetando a cadeia alimentar marinha e ameaçando a pesca em áreas como o litoral do Peru. (metsul)

O verão que incendiou a Europa e mudou a relação do continente com o clima

O verão de 2026 na Europa ficou marcado por ondas de calor extremas, secas históricas e incêndios devastadores que destruíram mais de 600 mil hectares e transformaram a percepção pública sobre a crise climática no continente.

Impactos Principais

• Temperaturas Recordes: Os termômetros chegaram a marcas inéditas para o século, como 48,4°C na Sardenha (Itália) e 37°C na Dinamarca.

• Crise de Mortalidade: O calor intenso resultou em dezenas de milhares de mortes adicionais em países como França, Alemanha e Espanha.

• Seca nos Rios: Rios essenciais para o transporte e energia, como o Reno e o Danúbio, registraram níveis mínimos históricos que paralisaram portos e afetaram usinas nucleares.

• Incêndios Incomuns: O fogo atingiu regiões tradicionalmente frias ou úmidas, como a Bélgica e a Escócia.

A Mudança de Relação com o Clima

• Fim da Ilusão de Refúgio: Países do norte e centros urbanos antigos, que não contavam com infraestrutura para o calor (como ar-condicionado generalizado), viram o clima extremo virar rotina.

• Ecoansiedade: Cresceu de forma drástica o número de cidadãos que sofrem de angústia psicológica e preocupação com o futuro ambiental do planeta.

• Revisão de Políticas: Governos locais passaram a tratar o calor não mais como um incômodo sazonal, mas como uma emergência de saúde pública e segurança nacional.

Entre recordes de calor, rios secos e quase 600 mil hectares em chamas, o continente descobriu que o verão dourado da infância de gerações virou coisa do passado

Enquanto termômetros bateram 42°C e milhares de pessoas fugiram de casa por causa do fogo, a Europa também enfrenta uma epidemia silenciosa: a ecoansiedade que já afeta milhões e muda para sempre a relação do continente com suas próprias estações.

(Esquerda) Anomalias e extremos na temperatura do ar superficial em junho-julho/2026. As categorias de cores referem-se aos percentis das distribuições de temperatura para o período de referência de 1991-2020. As categorias “mais frias” e “mais quentes” identificam áreas onde as temperaturas foram as mais baixas ou mais altas para junho-julho durante 1979-2026. (À direita) Anomalias de temperatura média do ar da superfície de junho a julho para a Europa Ocidental (11°W–15°E, 37°S–55°N). As anomalias são relativas à média de junho a julho para o período 1991-2020.

Eu ouvi meus avós contarem sobre os verões europeus, como quem descreve um quadro pintado a óleo. Dias compridos, brisa suave, tardes agradáveis e o som distante de cigarras cantando ao entardecer. Essa imagem romântica, que alimentou gerações de viajantes, poetas e cineastas, parecia eterna, quase intocável pelo tempo. Mas 2026 chegou e rasgou a tela.

Maio ainda não tinha acabado quando as primeiras ondas de calor começaram a assar o continente. E não era aquele calor “gostoso” de praia, o tipo que convida para um mergulho e um sorvete. Era um ar sufocante, dos que grudam a roupa na pele e fazem o asfalto parecer que treme diante dos olhos. Os termômetros dispararam para 40°C, e não apenas na Espanha ou na Itália, países já acostumados com altas temperaturas no verão.

Nações que sempre foram sinônimos de frescor e céu nublado, como a Dinamarca, viram os termômetros baterem 37°C. Já a Eslováquia chegou a impressionantes 42,2°C. Recordes que ninguém queria comemorar, mas que entraram para a história mesmo assim.

Um verão sem trégua

E o pior é que esse sufoco não dava descanso. Até meados de agosto, a França já tinha vivido 52 dias em condições de onda de calor desde junho. Para se ter uma ideia da gravidade, os dias mais amenos foram tão raros que dava para contar nos dedos de uma mão. Em Paris, onde o ar-condicionado ainda é considerado um luxo em muitos lares antigos, moradores passaram a cobrir as janelas com mantas térmicas de sobrevivência, como se estivessem se preparando para enfrentar um cerco. E, de certa forma, era mesmo uma guerra, só que travada contra a temperatura.

Mas o problema não era apenas o desconforto do dia. O calor noturno, que se recusava a baixar mesmo depois da meia-noite, transformou o verão num pesadelo silencioso para milhões de pessoas. Entre junho e agosto/2026, estima-se que 32 mil mortes em excesso tenham ocorrido na Europa em razão das temperaturas extremas. São números frios no papel, mas que escondem histórias muito humanas: idosos que morreram sozinhos em apartamentos sem ventilação, famílias que não conseguiram proteger os mais frágeis a tempo, vizinhos que só perceberam a ausência dias depois.

As cicatrizes que não aparecem no termômetro

E mesmo quem sobreviveu fisicamente ao calor carregou marcas invisíveis. Um estudo francês revelou que 2,6 milhões de pessoas no país sofrem hoje de “ecoansiedade”, um misto de pessimismo, angústia existencial e isolamento social diante da certeza cada vez mais concreta de que o planeta está mudando para pior.

Não é exagero, é diagnóstico. E é um retrato de como o clima extremo já não afeta só o corpo, mas também a mente e o modo como as pessoas imaginam o próprio futuro.

Quando a terra pega fogo

Quando a natureza já parece estar de mau humor, ela não para por aí. O calor implacável secou rios, rachou o solo e forneceu combustível de sobra para incêndios devastadores. Até 12/08/2026, o fogo já tinha consumido quase 600 mil hectares em todo o continente, uma área maior do que o estado brasileiro de Sergipe inteiro.

Na França e na Espanha, dezenas de milhares de pessoas tiveram que abandonar suas casas às pressas, levando apenas o que conseguiam carregar nos braços. Até países como a Bélgica e a Escócia, conhecidos historicamente pela chuva constante e pelo céu cinza, viram chamas como nunca antes. A Bélgica, inclusive, viveu seu maior incêndio florestal em um século, um recorde triste para um país que raramente associava o verão ao medo do fogo.

A seca que ninguém via chegar

Enquanto colunas de fumaça subiam aos céus como sinistros sinais de alerta, outra catástrofe se espalhava devagar, quase invisível aos olhos de quem não presta atenção: a seca. No fim de julho, metade do continente já estava em estado de alerta hídrico. França, Suíça, Áustria e Eslovênia registraram os níveis mais baixos de umidade no solo já vistos em décadas.

A terra pedia água, e a água, ironicamente, também esquentava. O Mar Mediterrâneo bateu recordes de temperatura superficial em julho, chegando a 27°C. Em algumas áreas, durante as duas semanas mais quentes do verão, a água ficou até seis graus acima do normal histórico. Quem entrava no mar em busca de um refresco sentia menos um mergulho revigorante e mais um banho morno, quase incômodo.

Cientistas já sabiam, mas muitas pessoas ainda não queriam acreditar

E o que dizer dos cientistas que acompanham tudo isso com a calma de quem já previa o roteiro há tempos? Para eles, não houve surpresa alguma. Os modelos climáticos já desenhavam um verão como esse há anos, quase como um aviso ignorado.

A verdadeira surpresa, talvez, tenha a de quem ainda insistia em acreditar que o verão europeu seria sempre aquela tela dourada e serena, pintada por Van Gogh e reforçada por décadas de cartões-postais.

O que fica depois das cinzas

Agora, enquanto o continente tenta se reerguer entre cinzas e racionamento de água, fica a pergunta que ecoa em cada conversa de bar, em cada olhar perdido no metrô, em cada família que precisou recomeçar longe de casa: o que vem depois do verão que queimou a Europa?

Porque se 2026 nos mostrou alguma coisa, é que o sonho de um verão ameno e romântico chegou ao fim. E a realidade, essa sim, veio para ficar.

Área de incêndios florestais na Europa pode triplicar com mudança climática. (ecodebate)

domingo, 13 de setembro de 2026

A infraestrutura verde que o planejamento urbano deixou de reconhecer

A infraestrutura verde que o planejamento urbano frequentemente deixa de reconhecer abrange a vegetação espontânea, os quintais particulares e os vazios urbanos que prestam serviços ecossistêmicos vitais.

O que o planejamento tradicional ignora

Vegetação espontânea (plantas ruderais):

Nascem sem plantio em frestas de calçadas, muros e beiradas de ruas.

Resistem a solos secos e reduzem o calor local.

São tratadas como mato ou sujeira pelos órgãos de limpeza.

Quintais e jardins privados:

Formam grandes manchas verdes contínuas nos bairros residenciais.

Infiltram a água da chuva no solo e abrigam pássaros e insetos.

Ficam fora dos mapas oficiais de áreas verdes públicas.

Terrenos vazios ou baldios:

Funcionam como esponjas naturais que evitam enchentes.

Permitem a troca de calor e o resfriamento do ar na vizinhança.

Sofrem com a pressão para receber construções de concreto.

Córregos canalizados e soterrados:

Rios escondidos sob o asfalto que ainda mantêm umidade no subsolo.

Poderiam ser abertos para criar corredores de vento e biodiversidade.

Continuam invisíveis nos planos de drenagem que priorizam tubos de cimento.

Por que isso importa

Serviços invisíveis: Essas áreas regulam a temperatura e a água sem custo para a prefeitura.

Visão cinza: O urbanismo clássico valoriza apenas parques desenhados e praças limpas.

Perda gradual: A eliminação desses espaços aumenta os alagamentos e o calor nas cidades.

Soluções baseadas na natureza abrangem a proteção, a recuperação e o manejo de ecossistemas para enfrentar problemas sociais e ambientais, produzindo benefícios para a população e para a biodiversidade

Em julho/2026, ao discutir a preparação do Estado brasileiro para um novo ciclo de eventos climáticos extremos, o Tribunal de Contas da União reuniu órgãos públicos, instituições científicas e representantes municipais diante de uma sequência já conhecida de ameaças: secas prolongadas, enchentes, ondas de calor e incêndios florestais. O encontro expôs uma realidade que ultrapassa a capacidade de resposta da defesa civil. O país ainda administra grande parte dos desastres depois que eles acontecem, enquanto ocupa várzeas, canaliza rios, remove vegetação, impermeabiliza o solo e reduz justamente os sistemas naturais que poderiam diminuir a intensidade dos danos.

Florestas urbanas, matas ciliares, manguezais, áreas úmidas, dunas, várzeas e solos permeáveis cumprem funções coletivas comparáveis às de obras construídas pelo poder público. Retêm água, estabilizam encostas e margens, reduzem temperaturas, protegem a costa, filtram poluentes e oferecem abrigo à biodiversidade. Essas funções não transformam a natureza em uma máquina nem autorizam reduzir seu valor a cálculos econômicos. Reconhecê-las como infraestrutura pública significa admitir que a segurança de uma cidade ou de uma região depende tanto de pontes, galerias e reservatórios quanto da integridade dos ecossistemas que regulam a água, o clima e o solo.

O significado e a importância das soluções baseadas na natureza

A urbanização brasileira consolidou uma concepção de infraestrutura associada quase exclusivamente ao concreto, ao asfalto e à canalização. Rios foram retificados e confinados, áreas alagáveis receberam avenidas e empreendimentos, encostas perderam vegetação e extensas superfícies passaram a impedir a infiltração da chuva. Esse modelo ampliou a circulação de pessoas e mercadorias, mas também acelerou o escoamento da água, transferiu alagamentos para outros pontos das bacias hidrográficas e elevou a temperatura dos bairros mais densamente ocupados.

A natureza opera por conexões. Uma mata ciliar protegida reduz erosão, retém sedimentos e contribui para a qualidade da água. Uma várzea preservada recebe temporariamente o excesso de chuva que, em uma área inteiramente ocupada, alcançaria ruas e moradias. Árvores maduras proporcionam sombra e liberam umidade, amenizando o calor; solos vegetados absorvem parte da precipitação; manguezais dissipam a energia das ondas e reduzem a erosão costeira. Cada elemento oferece mais de um serviço ao mesmo tempo, algo que a obra convencional, geralmente desenhada para uma finalidade específica, nem sempre consegue fazer.

Essa diferença explica o avanço das chamadas soluções baseadas na natureza. O conceito abrange a proteção, a recuperação e o manejo de ecossistemas para enfrentar problemas sociais e ambientais, produzindo benefícios para a população e para a biodiversidade. No espaço urbano, inclui parques lineares, jardins de chuva, biovaletas, arborização, recuperação de rios, corredores ecológicos e restauração de áreas úmidas. Fora das cidades, envolve a conservação de manguezais, florestas, restingas, dunas e nascentes. O termo é recente, mas muitas dessas práticas recuperam conhecimentos acumulados por comunidades que sempre compreenderam as dinâmicas da água e do território.

Proteção climática com várias funções públicas

O valor dessa infraestrutura torna-se mais evidente quando os riscos são examinados em conjunto. Parques e corredores arborizados ajudam a reduzir ilhas de calor, oferecem áreas de convivência e favorecem a circulação de espécies. Jardins de chuva recebem a água das ruas, retardam seu deslocamento e aliviam redes de drenagem. A restauração de cursos d’água pode recuperar margens, melhorar a qualidade ambiental e criar espaços públicos. Manguezais e restingas protegem zonas costeiras, sustentam a reprodução de espécies aquáticas e contribuem para atividades econômicas de comunidades tradicionais.

Em São Paulo, a expansão dos jardins de chuva mostra como dispositivos relativamente pequenos podem integrar uma estratégia maior de drenagem sustentável. A cidade informou, no final de 2025, que passaria de 427 para 530 unidades. As estruturas são distribuídas de acordo com a topografia, o histórico de alagamentos e a capacidade de infiltração do solo. Seu alcance, porém, depende da articulação com outras medidas. Centenas de jardins não compensam a impermeabilização contínua de uma metrópole, a ocupação inadequada de fundos de vale ou a insuficiência das redes de drenagem. Eles ganham relevância quando fazem parte de uma política territorial que combina prevenção, manutenção e redução das áreas impermeáveis.

No Recife, um edital federal destinou R$ 2,5 milhões, em 2025, à implantação de soluções como jardins de chuva, biovaletas, canteiros drenantes, sombreamento arbóreo e pequenas intervenções de microdrenagem em áreas periféricas. O caso é importante porque desloca a infraestrutura verde das regiões centrais, onde costuma acompanhar projetos de embelezamento, para territórios com maior vulnerabilidade social e climática. A experiência também evidencia que adaptação não se resume a plantar árvores. É necessário escolher espécies adequadas, assegurar espaço para seu desenvolvimento, cuidar do solo, garantir drenagem e prever recursos permanentes para manejo.

Em escala internacional, um projeto apoiado pelo Banco Mundial recuperou o rio Chiveve e manguezais na cidade de Beira, em Moçambique, integrando um parque urbano à função de retenção de cheias. A iniciativa passou a proteger cerca de 50 mil pessoas, além de criar áreas de lazer e oportunidades econômicas. O exemplo não oferece uma fórmula a ser copiada, mas demonstra que a recuperação ecológica pode ser concebida desde o início como parte de um sistema de segurança urbana, e não como decoração acrescentada depois da obra principal.
A desigualdade também determina quem recebe proteção

Os benefícios proporcionados pela natureza estão distribuídos de forma profundamente desigual nas cidades brasileiras. Bairros de maior renda costumam concentrar árvores, parques, praças bem cuidadas, solos mais permeáveis e melhores condições de drenagem, enquanto periferias densamente ocupadas convivem com pouca vegetação, cursos d’água poluídos, encostas instáveis e longos deslocamentos sob calor intenso. Nessas áreas, a ausência de infraestrutura verde se soma à precariedade do saneamento, da moradia e do transporte. Ondas de calor e chuvas extremas atingem, portanto, territórios nos quais a população já dispõe de menor capacidade de proteção e recuperação.

Essa desigualdade não resulta apenas de diferenças naturais entre os territórios. Ela foi construída por políticas urbanas que concentraram investimentos em determinadas regiões e permitiram que as populações de menor renda fossem empurradas para encostas, margens de rios, várzeas e outros espaços mais expostos. Em muitos desses locais, a ocupação ocorreu sem redes adequadas de esgoto, drenagem, coleta de resíduos e equipamentos públicos. Quando um evento extremo acontece, seus efeitos revelam uma estrutura urbana que distribui de maneira desigual tanto os riscos quanto os recursos necessários para enfrentá-los.

A implantação de parques, corredores arborizados, jardins de chuva e áreas de retenção hídrica deve, por isso, priorizar os territórios com maior vulnerabilidade social e climática. Essa prioridade não significa apenas levar vegetação às periferias, mas integrar a infraestrutura verde às políticas de habitação, saneamento, mobilidade, saúde e redução de riscos. Um parque linear implantado às margens de um rio, por exemplo, terá alcance limitado se o curso d’água continuar recebendo esgoto ou se as famílias residentes na área permanecerem ameaçadas por remoções sem alternativa habitacional adequada.

A participação dos moradores é igualmente necessária desde a identificação dos problemas até a definição dos usos e das formas de conservação dos espaços recuperados. O conhecimento local ajuda a reconhecer pontos de alagamento, trajetos cotidianos, áreas utilizadas pela comunidade e conflitos que nem sempre aparecem nos diagnósticos técnicos. Essa participação, entretanto, não pode servir para transferir às comunidades responsabilidades que pertencem ao Estado. Financiamento, assistência técnica, fiscalização, manejo da vegetação e manutenção das estruturas devem permanecer como obrigações do poder público.

A melhoria ambiental também pode produzir efeitos contraditórios. Parques, rios recuperados e corredores verdes valorizam o entorno, atraem investimentos imobiliários e podem elevar aluguéis e preços da terra. Quando esse processo não é acompanhado por políticas de habitação, regularização fundiária e proteção das comunidades tradicionais, os moradores que conviveram durante décadas com a degradação correm o risco de ser afastados justamente quando o território começa a receber investimentos. A adaptação climática pode, assim, criar uma nova forma de exclusão, na qual os benefícios ambientais são apropriados por grupos com maior poder econômico.

A infraestrutura verde somente cumpre uma função verdadeiramente pública quando reduz a exposição aos riscos, melhora as condições de vida e assegura à população o direito de permanecer no território. A justiça climática depende não apenas da quantidade de árvores plantadas ou de parques construídos, mas da escolha dos lugares que receberão os investimentos, das pessoas efetivamente protegidas e das condições sociais que permitem conservar os benefícios alcançados.
Os limites das soluções baseadas na natureza e a necessidade de infraestrutura híbrida

A incorporação da natureza ao planejamento não significa que todos os riscos climáticos possam ser enfrentados exclusivamente por meio da restauração ecológica. Cidades precisam de redes de saneamento e drenagem, contenção de encostas, sistemas de alerta, moradias seguras e, em determinadas situações, obras de engenharia de grande porte. Manguezais, matas ciliares, várzeas e áreas permeáveis reduzem a intensidade de muitos impactos, mas não eliminam os problemas produzidos por ocupações inadequadas, redes insuficientes e décadas de ausência de investimentos públicos.

A resposta mais consistente costuma combinar infraestrutura natural e infraestrutura construída. Jardins de chuva e solos permeáveis podem diminuir o volume de água que chega às galerias, mas dependem de um sistema de drenagem capaz de receber o fluxo restante. Matas ciliares estabilizam margens e reduzem a entrada de sedimentos nos rios, mas não substituem a coleta e o tratamento de esgoto. A vegetação de encostas contribui para a estabilidade do solo, porém não dispensa obras de contenção quando existem moradias ameaçadas por movimentos de massa. Cada intervenção precisa ser definida a partir das características da bacia hidrográfica, da encosta ou da faixa costeira e da intensidade dos riscos enfrentados.

Essa combinação, conhecida como infraestrutura híbrida, permite aproveitar as diferentes capacidades de proteção. Enquanto obras convencionais são projetadas para responder a determinados volumes de água ou níveis de pressão, os ecossistemas ajudam a desacelerar os fluxos, distribuir impactos e recuperar funções ambientais perdidas. A integração entre essas duas formas de infraestrutura pode reduzir a sobrecarga dos sistemas construídos e ampliar os benefícios oferecidos à população. Para funcionar, entretanto, ela exige planejamento territorial e coordenação entre órgãos responsáveis pelo meio ambiente, pelo saneamento, pela habitação, pelas obras públicas e pela defesa civil.

Também é necessário impedir que a expressão “solução baseada na natureza” seja utilizada como rótulo para projetos de paisagismo sem relação comprovada com os riscos locais. A criação de pequenos espaços verdes pode melhorar a paisagem, mas não deve ser apresentada como resposta suficiente para enchentes, erosão ou ondas de calor quando sua escala é incompatível com o problema. Sem diagnóstico, metas e avaliação, iniciativas pontuais podem produzir boas imagens institucionais e reduzida capacidade de proteção.

O conceito tampouco pode servir como compensação simbólica para novas degradações. Plantar mudas não substitui a conservação de uma floresta madura, cuja biodiversidade e cujas funções ecológicas resultam de processos formados ao longo de décadas. Criar um pequeno parque não neutraliza a ocupação de uma várzea, assim como recuperar um trecho de margem não justifica destruir manguezais em outro local. A primeira medida de adaptação baseada na natureza deve ser proteger os ecossistemas que permanecem preservados, pois sua recuperação posterior é lenta, incerta e, em alguns casos, incapaz de restabelecer integralmente as condições anteriores.

Projetos dessa natureza exigem acompanhamento permanente. É necessário avaliar a quantidade de água retida, a redução da temperatura, a melhoria da qualidade ambiental, a conectividade entre áreas verdes e o número de pessoas efetivamente protegidas. A análise também deve considerar a sobrevivência das árvores, a manutenção das estruturas, a segurança, o acesso público e os efeitos sobre a moradia e a renda. Esses critérios permitem distinguir intervenções capazes de ampliar a resiliência territorial de projetos que utilizam a natureza apenas como elemento decorativo ou argumento de promoção institucional.

Reconhecer os limites das soluções baseadas na natureza não diminui sua importância. Ao contrário, permite incorporá-las de maneira mais responsável às políticas públicas. A natureza oferece formas de proteção que a engenharia convencional, isoladamente, não consegue reproduzir, mas sua contribuição depende da escala das intervenções, da conservação contínua e da integração com outros sistemas urbanos. O objetivo não é escolher entre ecossistemas e obras construídas, mas organizar ambos dentro de uma política preventiva capaz de responder às características de cada território.
Do programa federal à política permanente

O Brasil começou a construir instrumentos capazes de levar essa abordagem a uma escala mais ampla. A Lei nº 14.904, de 2024, estabeleceu diretrizes para planos de adaptação climática, e o Programa Cidades Verdes Resilientes, instituído no mesmo ano, passou a articular políticas urbanas, ambientais e climáticas. Seu planejamento prevê apoiar o registro e a implementação de soluções baseadas na natureza em 487 municípios até 2030 e em 974 até 2035, com prioridade para regiões metropolitanas, localidades vulneráveis e municípios pequenos, que dispõem de menos recursos técnicos e financeiros.

As metas representam um avanço, mas seu cumprimento dependerá de orçamento estável, coordenação federativa e capacidade municipal. Muitas prefeituras não possuem equipes para mapear riscos, elaborar projetos, disputar financiamentos e acompanhar resultados. Programas federais e estaduais precisam oferecer assistência técnica continuada, bases de dados acessíveis e mecanismos de financiamento que não se limitem a editais isolados. O Plano Clima deve integrar essa agenda ao saneamento, à habitação, à mobilidade, à saúde e à proteção da biodiversidade, evitando que a adaptação permaneça confinada aos órgãos ambientais.

Tratar a natureza como infraestrutura pública também modifica as prioridades orçamentárias. A conservação de uma várzea, a restauração de uma mata ciliar e o manejo de uma floresta urbana devem ser reconhecidos como investimentos em prevenção, com custos de implantação, equipes responsáveis e manutenção assegurada. Isso exige revisar critérios de obras públicas, incluir serviços ecossistêmicos nas análises de custo e benefício e impedir que recursos para adaptação sejam consumidos apenas pela reconstrução posterior aos desastres.

A mudança decisiva ocorre quando florestas, rios e manguezais deixam de ser vistos como espaços disponíveis para ocupação ou obstáculos ao crescimento urbano. Eles formam sistemas de proteção que sustentam a vida coletiva e reduzem riscos que o concreto, sozinho, não consegue controlar. Preservá-los e recuperá-los não dispensa engenharia, planejamento ou política social. Ao contrário, exige que esses campos atuem de forma integrada e reconheçam que a segurança climática começa antes da emergência, no modo como o território é ocupado, protegido e compartilhado.

Infraestrutura verde – Soluções Sustentáveis para Cidades do Futuro. Soluções baseadas na natureza e infraestrutura verde no estatuto da cidade. (ecodebate)

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