Entender a crise climática é
só o começo. Os dois pilares da ação, mitigação e adaptação, podem transformar
o medo em movimento, do nível global até a sua rua.
No meu último texto no
EcoDebate, eu não fui gentil. Trouxe os dados, os alertas, os cenários. Foi
pesado e precisava ser. Mas fiquei pensando, nos dias que se seguiram, e agora?
O que se faz com esse peso?
Porque tem uma coisa que o
medo climático faz com a gente quando não vem acompanhado de saída: paralisa. E
paralisia, nesse momento, é o pior caminho possível.
Em novembro/2025, Belém, no
coração da Amazônia, recebeu a COP30. Para mim, foi impossível não acompanhar
aquilo com uma mistura de esperança e frustração, sentimento, aliás, que
pareceu ser o mesmo de quem esteve lá.
A conferência encerrou com o
“Pacote de Belém” de 29 decisões aprovadas por 195 países, com avanços em
adaptação, transição justa e financiamento climático, incluindo o compromisso
de triplicar os recursos destinados à adaptação até 2035.
Ao mesmo tempo, temas
centrais como a saída dos combustíveis fósseis ficaram de fora do texto final.
A declaração principal da conferência não mencionou os combustíveis fósseis em
nenhum momento, nem mesmo para reafirmar acordos anteriores.
Mas sabe o que ficou para
mim? A fala do presidente da COP30, André Corrêa do Lago: “Quando saímos
Belém/PA, esse momento não deve ser lembrado como o fim de uma conferência, mas
como o início de uma década de mudança”.
Isso me parece a chave. Não a chegada. O começo.
2 pilares, uma só estratégia
A ciência climática organiza
a resposta em dois grandes movimentos e entender essa distinção mudou a forma
como eu penso no problema.
Mitigação é atacar a causa:
reduzir as emissões de gases que estão aquecendo o planeta. É desligar o fogão
antes que a casa pegue fogo de vez.
Adaptação é aprender a viver
com as mudanças já em curso porque, mesmo que zerássemos as emissões hoje, os
efeitos já acumulados continuariam se desdobrando por décadas.
Não é uma escolha entre os dois. São os 2, ao mesmo tempo, com urgência.
Mitigação no nosso cotidiano
O Brasil tem metas de redução
de emissões de gases de efeito estufa de 48% até 2025 e 53% até 2030, em
relação aos níveis de 2005, além do compromisso de atingir a neutralidade
climática até 2050. São números que parecem distantes da nossa vida, mas não
são.
Energia limpa: o Brasil tem
uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, e o potencial solar e
eólico ainda está longe de ser aproveitado por completo. Cada painel solar
instalado em um telhado, cada cooperativa de energia comunitária, conta.
Transporte: substituir
viagens de carro por transporte público, bicicleta ou caminhada não é só
questão de saúde pessoal — é escolha climática. E cobrar dos candidatos nas
eleições municipais que ciclovias e metrô sejam prioridades, também.
Alimentação: a pecuária é uma das maiores fontes de metano no Brasil. Reduzir o consumo de carne. Não necessariamente eliminar, mas reduzir e combater o desperdício alimentar em casa já fazem diferença mensurável.
Adaptação como inteligência, não derrota
Investir em adaptação não é
desistir. É ser estratégico. Eventos extremos como secas, enchentes e ondas de
calor já estão impactando desde a produtividade agrícola até a logística de
transportes e a segurança hídrica das cidades. Ignorar isso tem custo e esse
custo cresce a cada ano de inação.
Cidades resilientes são
aquelas que planejam o território pensando no clima: parques que absorvem
enchentes, sistemas de alerta precoce para desastres, habitação em áreas
seguras. No Brasil, a articulação entre governo federal, estados e municípios
deve colocar em marcha, ainda em 2026, planos locais de adaptação em 581
municípios considerados críticos.
E aqui entra algo que aprendi a valorizar mais: a infraestrutura verde. Manguezais que amortecem tempestades. Florestas que regulam o regime de chuvas. Rios que dependem de mata ciliar para não virar esgoto. Proteger e restaurar esses ecossistemas não é romantismo, é engenharia climática do mais alto nível.
A ciência é o mapa e as comunidades são o território
Navegar essa crise sem dados
é tentar cruzar o oceano sem bússola. Os relatórios do IPCC, os satélites de
monitoramento, os modelos climáticos, tudo isso é nossa cartografia. Mas existe
outra forma de conhecimento que a gente ainda subestima muito: o saber das
comunidades que vivem no território há gerações.
Povos indígenas da Amazônia
sabem ler o comportamento da floresta de formas que os instrumentos científicos
ainda estão aprendendo a traduzir. Comunidades quilombolas têm práticas de
manejo que preservam biodiversidade sem nome em inglês. A COP30 deu alguns
passos nessa direção e o Mecanismo de Ação de Belém foi criado para ampliar a
participação de povos indígenas, mulheres, comunidades locais e grupos
vulnerabilizados como atores da transição justa.
Ainda é pouco. Mas é um começo que precisa crescer e essa pressão pode vir de nós.
O que eu e você podemos fazer, sem esperar por ninguém
Existe uma armadilha
confortável chamada “esperar que os grandes façam algo”. Governos precisam
agir. Empresas precisam mudar. Isso é real. Mas enquanto a gente aguarda, o que
está ao alcance das nossas mãos?
Como cidadão: vote com
consciência climática. Questione candidatos sobre planos concretos para o
clima. Participe de audiências públicas. Assine petições que pressionem por
políticas de adaptação no seu município.
Como consumidor: reduza o
desperdício de comida, de energia, de produtos descartáveis. Escolha empresas
que tenham compromissos climáticos verificáveis, não apenas slogans verdes.
Como vizinho: apoie hortas comunitárias, pressione por áreas verdes no bairro, participe de mutirões de limpeza de rios. O clima se resolve também na escala da rua.
A esperança como verbo
Saí da COP30 (acompanhando de
longe, como a maioria de nós) com uma sensação ambígua. Avanços reais
coexistindo com lacunas enormes. Mas também com algo que não esperava sentir
tão forte: a certeza de que há pessoas, cientistas, ativistas, líderes
comunitários, jovens, que não desistiram.
Em 2025, a agenda climática
deixou de ser discurso para impressionar stakeholders e se tornou um imperativo
real. Não porque as pessoas ficaram mais boazinhas. Mas porque os custos de não
agir estão ficando impossíveis de ignorar.
As soluções existem. São
economicamente viáveis. São tecnicamente possíveis. O que falta é velocidade e
a velocidade depende de quantas pessoas decidem que isso também é problema
delas.
Esperança, aprendi, não é
esperar sentado que o mundo melhore. Esperança é um verbo. É a coragem de agir
sem garantia de resultado. É a teimosia de plantar árvore mesmo sabendo que a
sombra demora.
Os caminhos existem. Vamos
juntos? (ecodebate)








































