Poluição reduz a capacidade
das calotas polares de refletir a radiação solar, contribuindo para o aumento
de temperaturas. Processo é considerado por cientistas um 'ciclo vicioso
irreversível'.
As calotas polares da
Groenlândia e da Antártida perderam cerca de 12,5 trilhões de toneladas de gelo
(aproximadamente 11,3 trilhões de toneladas métricas) entre 1979 e 2023, de
acordo com um estudo publicado na revista Scientific Data.
Detalhes da Pesquisa
• Aceleração: Dois terços de
todo o derretimento ocorreram apenas nas últimas duas décadas, com aceleração
marcante a partir de 2010.
• O verdadeiro vilão: 5/6 do
degelo foram causados por águas oceânicas mais quentes que corroem as geleiras
por baixo e pelas laterais, e não pelo ar quente da atmosfera.
• Impacto no nível do mar: A
água derretida elevou o nível global dos oceanos em cerca de 3,1 centímetros
desde 1979.
• Volume: A quantidade de
gelo perdida equivale a um volume capaz de cobrir todo o território continental
dos Estados Unidos com uma camada de 1,5 metro de espessura.
• Dados de satélite: O levantamento internacional reuniu informações de 27 missões de satélite para avaliar o balanço de massa das regiões polares.
Um estudo internacional revela que o degelo na Groenlândia e na Antártida saiu do controle nos últimos anos, e a água que já derreteu seria suficiente para cobrir todos os Estados Unidos com uma camada de gelo de 1,5 metro.
Pesquisa publicada na revista
Scientific Data mostra que dois terços do derretimento das calotas polares
aconteceram apenas nas últimas duas décadas, puxados principalmente por oceanos
mais quentes e não pelo ar.
Existem números que a gente
lê e esquece no minuto seguinte. E existem números que fazem a gente parar,
reler e sentir um frio (talvez irônico, considerando o tema) na espinha. Os
12,5 trilhões de toneladas de gelo que a Groenlândia e a Antártida perderam
desde 1979 estão na segunda categoria.
Para colocar em perspectiva, essa quantidade de gelo derretido daria para cobrir todo o território continental dos Estados Unidos com uma camada de 1,5 metro de espessura. É o tipo de comparação que parece exagero de roteiro de filme catástrofe, mas vem de um estudo sério, publicado na revista científica Scientific Data, conduzido por uma colaboração internacional de cientistas liderada pela Agência Espacial Europeia (ESA).
O gelo polar desempenha um papel fundamental na reflexão da radiação solar.
Poluição reduz a capacidade
das calotas polares de refletir a radiação solar, contribuindo para o aumento
de temperaturas. Processo é considerado por cientistas um 'ciclo vicioso
irreversível'.
Um oceano de água que já
mudou o nível do mar
Toda essa água, cerca de 11,3
quadrilhões de litros, não desapareceu. Ela foi parar nos oceanos e já empurrou
o nível global do mar para cima em aproximadamente 3,1 centímetros desde 1979.
Pode parecer pouco diante de
um número tão gigantesco quanto 12,5 trilhões de toneladas, mas a cientista de
gelo Ines Otosaka, da Northumbria University, na Inglaterra e autora principal
do estudo, explica por que cada centímetro conta tanto: a cada terço de
centímetro de aumento no nível do mar, entre 2 e 3 milhões de pessoas passam a
sofrer com inundações costeiras pelo menos uma vez por ano.
Ou seja, não estamos falando de um problema distante, guardado em algum lugar gelado do planeta. Estamos falando de comunidades inteiras, muitas vezes as mais vulneráveis, que vão sentir esse aumento na prática, com água invadindo ruas, casas e plantações.
A temperatura na península Antártica, ao Sul do planeta, aumentou 2,5°C nos últimos 50 anos. Mas a região que mais esquentou no mundo é o Ártico, no hemisfério Norte.
Aquecimento global: por que é
preocupante que os polos da Terra estejam cada vez menos brancos
O vilão inesperado: não é o
ar, é a água
Um dos achados mais
interessantes da pesquisa desafia uma ideia bastante intuitiva. A gente costuma
imaginar o degelo como resultado direto do ar mais quente derretendo o gelo por
cima, como um sorvete no sol. Mas o estudo mostra que cinco sextos de todo esse
derretimento vêm de outro processo, menos visível e mais silencioso: águas
oceânicas mais quentes corroendo as geleiras por baixo e pelas laterais,
fazendo com que blocos inteiros de gelo se soltem e escorreguem para o mar.
É um mecanismo mais difícil de enxergar do que o gelo derretendo ao sol, mas com um poder de destruição enorme. Um exemplo concreto disso é a geleira Jakobshavn, na Groenlândia, que hoje recua até 50 metros por dia. Para quem já visitou geleiras e viu de perto essas paredes de gelo que parecem eternas, é difícil não sentir um aperto ao imaginar essa velocidade de retração.
A Groenlândia está cheia de corpos d'água como esse, e o gelo reflete cada vez menos.
Décadas de estabilidade que
já ficaram para trás
Até pouco tempo atrás, os
cientistas conseguiam medir o derretimento das calotas polares apenas a partir
dos anos 1990, usando dados de satélites europeus. Ao incorporar também
satélites da Nasa, a equipe conseguiu reconstruir o histórico do volume de gelo
na Antártida desde 1979 e na Groenlândia desde 1972, ganhando quase duas
décadas extras de perspectiva.
E o que essa linha do tempo
mais longa revela é justamente o que mais preocupa os pesquisadores, o ritmo do
derretimento não é constante, ele está acelerando. Nas décadas de 1970, 1980 e
ainda parte dos anos 1990, as calotas de gelo se mantinham relativamente
estáveis. A virada começou a aparecer depois disso, e ganhou força de verdade
na década de 2010.
Entre 2020 e 2023, os números pareceram desacelerar, o que poderia soar como uma notícia positiva. Otosaka, porém, faz questão de esclarecer que essa pausa reflete apenas variações climáticas de curto prazo, não uma mudança de tendência. Segundo ela, dados mais recentes, coletados depois do fechamento oficial do estudo, mostram que a aceleração do degelo já voltou a ganhar força.
O papel curioso da neve no Leste Antártico
Outro ponto que chama atenção
é que boa parte da estabilidade observada na Antártida como um todo, nos
últimos anos, se deve a um fator específico: nevascas recordes no Leste
Antártico. Esse acúmulo extra de neve ajudou a compensar, ao menos
parcialmente, o derretimento acelerado que já acontece na região menos estável
do continente, a Camada de Gelo do Oeste Antártico.
É como se uma parte do gelo
estivesse, por ora, segurando as pontas por outra que já está em colapso mais
avançado. Um equilíbrio frágil, que os próprios cientistas fazem questão de não
confundir com uma solução de longo prazo.
No fim das contas, o que esse estudo entrega não é apenas um número impressionante para abrir uma reportagem. É um retrato cada vez mais nítido de como o aquecimento global está reconfigurando, de baixo para cima e de dentro para fora, dois dos maiores reservatórios de água doce congelada do planeta, com consequências que já chegam à porta de milhões de pessoas ao redor do mundo.
O que mais se perdeu é o gelo marinho do Ártico, mas essa mudança é reversível se agirmos logo, alerta Lucas Ruiz, do Instituto Argentino de Nivologia, Glaciologia e Ciências Ambientais. (ecodebate)



























