sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Injustiça climática não é sobre o clima

Injustiça climática não é sobre o clima. É sobre quem consegue sobreviver a ele.
A injustiça climática expõe como a desigualdade social determina quem consegue se proteger e sobreviver aos eventos extremos do planeta.

Como discutido em análises sobre a crise climática e obras recentes destacadas pelo EcoDebate, o aquecimento global funciona como uma lupa que revela falhas estruturais e econômicas já existentes na sociedade.

O peso desigual da crise

• Populações vulneráveis: Comunidades periféricas, indígenas, quilombolas e pessoas em moradias precárias sofrem de forma mais severa com enchentes, deslizamentos e secas.

• Fatores de exposição: Idosos em residências sem isolamento adequado, trabalhadores braçais ao ar livre e pessoas sem acesso a sistemas de alerta rápido morrem mais durante ondas de calor ou tempestades.

• Escolhas sociais: Estar preparado para um desastre não depende apenas de tecnologia ou da força da natureza, mas de decisões políticas e investimentos voltados para a proteção coletiva.

O novo livro de Friederike Otto revela porque a mudança climática é, na verdade, uma crise de justiça disfarçada

Uma cientista climática de destaque passou 8 anos estudando desastres climáticos extremos e concluiu que a desigualdade, não a física, é o que transforma uma tempestade em catástrofe.

O novo livro de Friederike Otto,”Climate Injustice: Why We Need to Fight Global Inequality to Combat Climate Change“, argumenta que a verdadeira emergência climática é a desigualdade, e depois de ver por essa perspectiva, é impossível deixar de enxergar assim.

Uma cientista climática de destaque passou oito anos rastreando desastres climáticos extremos ao redor do mundo, apenas para descobrir que a força mais mortal em jogo não era o carbono na atmosfera. Era a pobreza, a história colonial e quem a sociedade decide que vale a pena proteger.
O livro “Climate Injustice: Why We Need to Fight Global Inequality to Combat Climate Change” esperando mais um relato baseado em dados sobre geleiras derretendo e o nível do mar subindo. O que encontrei, em vez disso, foi algo muito mais próximo de um acerto de contas, e isso enriqueceu a forma como penso e avalio sobre cada onda de calor, enchente e tempestade que leio depois disso.

Friederike Otto é física do Imperial College London e um dos fundadores da ciência da atribuição, a disciplina que calcula o quanto a mudança climática contribuiu para uma tempestade ou onda de calor específica. Ela poderia facilmente ter escrito um livro cheio de modelos e probabilidades. Em vez disso, caminhou por vilarejos inundados no Paquistão, por terras agrícolas escaldadas pelo sol na África Ocidental e pelos cantos silenciosos do mundo que raramente aparecem nas manchetes sobre o clima. O resultado se lê menos como um texto científico e mais como um argumento moral, e é ainda mais potente por isso.

A mesma onda de calor, dois impactos muito diferentes

A ideia central deste livro é enganosamente simples porque o clima extremo, por si só, não cria os impactos do desastre. O que decide quem vive e quem morre é o terreno social em que as pessoas se encontram quando o clima se volta contra elas.

Otto percorre a onda de calor de 2021 no noroeste do Pacífico, o evento que quebrou recordes de temperatura em Lytton, no Canadá, de forma tão brutal que a cidade depois pegou fogo. Ao ler seu relato, o que ficou comigo não foram os recordes quebrados no termômetro. Foi a observação de que as pessoas que morreram foram, em sua maioria esmagadora, as mesmas que sempre estão mais expostas: idosos em casas mal isoladas, trabalhadores braçais ao ar livre e comunidades sem sistemas de alerta antecipado. Como ela coloca, riqueza e privilégio compram proteção contra a realidade física de um planeta em aquecimento.

Essa única percepção reformula toda a conversa sobre o clima. Não se trata simplesmente de “quão quente ficou”, mas de “quem ficou sem abrigo diante do calor”.

As ondas de calor “desaparecidas” da África

Uma das seções mais devastadoras do livro não tem relação com nenhum desastre específico. Tem a ver com os dados que nunca foram coletados, para começo de conversa.

Otto descobriu que os bancos de dados globais registraram apenas um punhado de ondas de calor na África Subsaariana desde 1900. Não porque o calor extremo não aconteça ali, mas porque a maioria das nações africanas carece da infraestrutura necessária para monitorá-lo de forma sistemática. Ela traça essa lacuna diretamente até a história colonial: estações meteorológicas ausentes, instituições científicas subfinanciadas e uma cobertura da mídia internacional que simplesmente olha para o outro lado.

Especificamente em Gâmbia, ela encontrou sistemas de alerta antecipado praticamente inexistentes, recursos de cooperação internacional que financiam represas em vez do trabalho mais difícil e menos visível de fortalecer capacidades locais, e mulheres agricultoras, responsáveis por boa parte da produção de alimentos da região, deixadas para absorver o pior do calor com o menor suporte.

É um lembrete de que a crise climática tem um problema de registro tanto quanto tem um problema de carbono, e que o silêncio nos dados é, em si, uma forma de injustiça.

Aposentando a expressão “Ato de Deus”

Otto se posiciona firmemente contra o instinto de chamar desastres climáticos de fenômenos da natureza, ou pior, de tratar a frase “a mudança climática causou isso” como um encolher de ombros igualmente fatalista. Seu argumento não é que a mudança climática não torne tempestades e ondas de calor piores. É que se uma sociedade está preparada para enfrentá-las é uma escolha, não um acidente.

Ela contrasta as enchentes de 2021 na Alemanha, quando a ampla confiança na infraestrutura do país fez com que os alertas não fossem levados a sério o suficiente, custando vidas, com Bangladesh, onde alertas de ciclones chegam a quase todos os celulares do país em poucos minutos. A diferença não é tecnologia. A Alemanha tem de sobra. A diferença é se uma sociedade decidiu construir os sistemas que protegem suas pessoas mais vulneráveis.

Um livro que se recusa a ser desesperançoso

Dado o tema, Climate Injustice facilmente poderia ter sido uma leitura esmagadora. Não é. O tom de Otto ao longo de todo o livro é lúcido, não desesperado, e ela constrói um argumento genuinamente esperançoso: as soluções para a vulnerabilidade climática e as soluções para a desigualdade social são, em grande parte, as mesmas soluções. Melhores sistemas de alerta antecipado, redes de proteção social mais fortes, mais educação para mulheres e investimento real em resiliência comunitária cumprem uma dupla função, protegendo pessoas de desastres e, ao mesmo tempo, tornando a sociedade mais justa.

Ela também dedica espaço à litigância climática, incluindo o caso do agricultor peruano Saúl Luciano Lliuya, que processa a empresa alemã de energia RWE por uma parcela do custo de proteger sua comunidade contra o risco de enchentes causadas pelo derretimento de geleiras, proporcional à participação histórica da RWE nas emissões globais. É o próprio campo de atuação de Otto, a ciência da atribuição, que torna casos como esses possíveis, transformando uma culpa abstrata em algo que um tribunal consegue de fato avaliar.

Onde o livro deixa a desejar e porque isso não é um problema

Nenhum livro é perfeito, e alguns resenhistas apontam que o tratamento que Otto dá ao papel do capitalismo na crise climática permanece um tanto superficial, e que ela não desenvolve totalmente a questão de quem deve o quê em termos de responsabilidade global pelas emissões. São críticas justas. Mas, em vez de enfraquecer o livro, elas deixam espaço para o leitor continuar pensando depois da última página, o que talvez seja exatamente o que um livro como este deveria fazer.

Por que este livro importa agora?

Estamos afogados em conteúdo sobre o clima que ou sobrecarrega com dados ou anestesia com desesperança. Otto não faz nem uma coisa nem outra. Ela entrega ao leitor uma nova lente: a mudança climática não é um vilão externo chegando de fora da nossa sociedade. É uma lupa apontada para as desigualdades que já construímos. As tempestades e ondas de calor são o gatilho. A injustiça é a arma carregada.

Se você tem se sentido exausto com as notícias sobre o clima, este é o livro que pode realmente mudar a forma como você carrega esse sentimento. A mensagem final de Otto fica com o leitor: a mudança climática foi criada por todos nós, coletivamente, e cada um de nós também carrega um pedaço do caminho para sair dela.

Avaliação: altamente recomendado, especialmente para leitores que querem entender a mudança climática não como um problema ambiental distante, mas como uma questão presente de justiça. (ecodebate)

NASA mostra que calor extremo não tem mais estação para acontecer

Estudo da NASA mostra que calor extremo não tem mais estação certa para acontecer.
Estudo recente indica que os dias quentes poderão ter até 4 horas adicionais de calor extremo entre 2070 e 2099 em cenários de altas emissões.

O que diz a pesquisa

• Aumento da duração: A análise vai além das médias diárias e avalia as 24 horas do dia. Atualmente, um dia quente apresenta em média 16,4 horas de calor extremo, período que pode subir para 21 horas no fim do século.

• Foco noturno: Cerca de 70% dessas novas horas de calor intenso devem ocorrer durante a noite, o que reduz a capacidade de recuperação térmica do organismo humano.

• Impacto global: Países de baixa e média renda concentram mais de ¾ da exposição projetada a essas condições severas.

Mais detalhes sobre a pesquisa e o monitoramento climático global podem ser acompanhados na cobertura da G1 Meio Ambiente.

Pesquisa publicada na AGU Advances analisou 45 anos de dados e descobriu que estações de calor extremo cresceram até 50% em área global, fenômeno que já não pode ser explicado apenas pelo aquecimento médio do planeta

Phoenix teve calor recorde em outubro; Rio de Janeiro viveu onda letal na primavera de 2023. Cientistas da NASA explicam por que o risco térmico está escapando do calendário tradicional do verão e o que isso muda para saúde pública, agricultura e prevenção de incêndios.

Por que o calor extremo está “vazando” para outras estações?

Em 2024, a cidade de Phoenix, no Arizona, enfrentou um cenário que desafiou a lógica dos calendários climáticos: após 113 dias consecutivos de temperaturas acima de 38°C (100°F) durante o verão, o calor simplesmente se recusou a ir embora. Foram 21 dias recordes em pleno mês de outubro.

Pouco tempo depois, em março/2026, uma onda de calor prematura voltou a quebrar recordes na região, com nove dias superando os 38°C, algo que só havia ocorrido uma única vez em março em todo o registro histórico.

Essa expansão não é apenas uma curiosidade estatística; ela tem um custo humano palpável. No condado de Maricopa, onde fica Phoenix, os dados de mortalidade revelam a gravidade desse “vazamento” sazonal: em 2024, apenas 46% das mortes relacionadas ao calor ocorreram em julho (o mês historicamente mais quente), contra 64% no ano anterior. O perigo está se diluindo ao longo dos meses, tornando o calor extremo no verão uma ameaça que transborda seus limites.

A ideia de que o calor extremo é um risco restrito ao verão meteorológico tornou-se obsoleta. Uma nova pesquisa, “Extreme dry and humid heat seasons are changing asymmetrically”, conduzida por especialistas da NASA e publicada na AGU Advances mapeou esse fenômeno, revelando como as “estações de calor” estão se expandindo de forma agressiva e, crucialmente, assimétrica ao redor do globo.

O “vazamento” das estações

Clima fora de controle, declara ONU após dias mais quentes da história.

Calor extremo atinge novo recorde global de temperatura, com influência das mudanças no clima e do El Niño.

O estudo analisou dados dos últimos 45 anos e confirmou que as janelas de calor extremo, tanto seco quanto úmido, estão invadindo o que os climatologistas chamam de shoulder seasons (estações de transição), que compreendem os 2 meses imediatamente anteriores e posteriores ao pico histórico de calor.

Os dados revelam uma transformação de escala global:

Expansão Territorial: As estações de calor seco expandiram-se sobre aproximadamente 50% da área terrestre global, enquanto as de calor úmido cresceram em 48%.

Janela de Perigo: Atualmente, 94% das terras globais experimentam mais de 95% dos seus eventos de calor extremo dentro dessa nova janela expandida (verão tradicional somado às estações de transição).

Fim da Trégua: Onde antes havia meses de temperaturas amenas (primavera e outono), agora encontramos extensões do verão que pegam populações e infraestruturas desprevenidas.

Calor seco X Calor úmido

Para o gestor público e para o cidadão, é vital diferenciar os dois tipos de calor abordados no estudo, pois cada um impõe um desafio distinto à sobrevivência:

Calor Seco (Bulbo Seco): É o principal motor de estresse em ecossistemas e na agricultura. Ele desseca o solo, compromete safras e prepara o terreno para incêndios florestais devastadores.

Calor Úmido (WBGT): Medido pela Temperatura de Globo de Bulbo Úmido (Wet Bulb Globe Temperature). Este é o índice crítico para a saúde humana, pois a alta umidade limita a capacidade do corpo de se resfriar através do suor. Quando o WBGT sobe, protocolos de trabalho ao ar livre e segurança esportiva tornam-se inválidos, exigindo a interrupção de atividades para evitar mortes.

“Diferenciar entre esses 2 tipos de calor é essencial porque eles exigem estratégias de adaptação distintas para reduzir a exposição e porque seu tempo e sazonalidade são frequentemente diferentes”.

A geografia da assimetria

NASA capta imagem do El Niño – fenômeno meteorológico que eleva as temperaturas

Um dos pontos mais reveladores da pesquisa da NASA é que o calor não está aumentando de forma uniforme nos dois lados do verão. Existe uma assimetria regional marcante que redesenha o mapa de riscos:

Aumento no Pós-Temporada (Outono): O calor está “esticando” o verão em regiões como o Oeste dos EUA, o Leste da China, o Norte da África e o Leste Europeu.

Aumento no Pré-Temporada (Primavera): O calor está chegando muito mais cedo na Europa Ocidental, na África do Sul e no Noroeste da Índia.

Essa desordem sazonal é perigosa porque o corpo humano e a infraestrutura urbana, como centros de resfriamento e hidratação, não estão em “alerta máximo” fora dos meses tradicionais. Mesmo em locais onde a tendência aponta para um outono mais quente, eventos isolados e letais podem ocorrer no sentido oposto. O Brasil sentiu isso na pele em novembro/2023, quando o Rio de Janeiro enfrentou uma onda de calor histórica e mortal em plena primavera, ilustrando que a “nova normalidade” não exclui picos extremos fora de época.

A falha dos modelos simplistas

Bolha de ar quente ganharão força no Brasil: Temperaturas poderão passar dos 40°C.

O Brasil enfrentará calor intenso, ar seco e umidade em níveis críticos. A bolha de ar quente ganhará força primeiro sobre o Centro-Norte do país e podendo elevar as temperaturas para acima dos 40°C em várias áreas.

Poderia se supor que as estações mudaram simplesmente porque a temperatura média global subiu, “subindo a régua” para todos os meses. No entanto, os pesquisadores da NASA aplicaram um teste de “série temporal sintética” para isolar o aquecimento médio anual. O resultado foi surpreendente: para 80% das terras globais, o aquecimento médio não explica a assimetria observada.

Isso significa que o clima não está apenas ficando mais quente; ele está mudando sua dinâmica interna. O “vazamento” para as estações de transição é impulsionado por tendências de circulação atmosférica e variações na umidade do solo. No outono, por exemplo, solos mais secos intensificam a transferência de calor para a atmosfera, criando um ciclo de retroalimentação que prolonga as temperaturas extremas de forma independente do aquecimento global médio.

Riscos compostos

A expansão das estações térmicas cria o que os analistas de risco chamam de “eventos compostos”, onde o calor extremo começa a sobrepor-se cronologicamente a outros desastres sazonais, multiplicando os danos:

Conflito de Estações - Impacto Observado

Calor + Incêndios Florestais - O prolongamento do calor seco no outono estende a temporada de fogo, dificultando o controle de incêndios florestais (comum no Oeste dos EUA).

Calor + Furacões - No Sudeste dos EUA, o calor prolongado coincide com o pico da temporada de furacões. Em casos de queda de energia após tempestades, a população fica presa em casas sem climatização sob calor letal.

O impacto social também invade as instituições. Escolas, que antes podiam gerenciar o conforto térmico apenas com ventilação natural fora do verão, agora enfrentam o desafio de resfriar salas de aula durante o ano letivo completo, pressionando orçamentos de energia e infraestrutura.

O desafio da adaptação

O estudo da NASA e da AGU deixa um alerta claro: entender quando o calor ocorre é tão vital para a sobrevivência quanto saber quão quente ficará. Os sistemas de alerta de calor, as políticas de saúde pública e a gestão de desastres precisam ser estendidos para além dos limites convencionais do verão meteorológico.

A gestão de riscos moderna não pode mais ser balizada por calendários da década de 80, do século passado. O cronômetro do clima mudou e as estações de transição foram invadidas por extremos que desafiam nossa resiliência.

Se o calendário térmico já não é o mesmo, por que nossas cidades e políticas públicas ainda agem como se estivéssemos vivendo no século passado? (ecodebate)

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Dissociação coletiva é barreira invisível na crise climática

A dissociação coletiva é um mecanismo subconsciente de defesa que paralisa a ação humana frente à gravidade da crise climática.

De acordo com estudos recentes publicados na área de saúde mental global, o excesso de informações sobre desastres e a complexidade do aquecimento global geram sentimento de impotência e futilidade. Em vez de engajamento, a mente humana recorre ao distanciamento emocional como forma de processar o trauma, o que acaba ameaçando a cooperação global necessária para salvar o planeta. Mais detalhes e reflexões sobre esse fenômeno podem ser conferidos no artigo do EcoDebate.

Principais impactos do trauma climático

• Paralisia social: A escala avassaladora da emergência faz com que indivíduos duvidem de sua capacidade de gerar mudanças reais.

• Danos à saúde mental: Desastres frequentes aumentam os índices de estresse pós-traumático, depressão e ansiedade, especialmente em populações deslocadas pelo clima.

• Aprofundamento de desigualdades: Comunidades vulneráveis sofrem de forma desproporcional com a perda de segurança alimentar e infraestrutura precária.

Como a dissociação coletiva impede ações efetivas contra a emergência climática

Estudo publicado na Cambridge Prisms: Global Mental Health revelou que a dissociação coletiva está impedindo as pessoas de agirem de forma eficaz diante da esmagadora emergência climática.

A pesquisa aponta que a escala e a complexidade da crise climática frequentemente deixam os indivíduos sentindo-se impotentes, levando a um sentimento de futilidade em relação à sua capacidade de promover mudanças significativas.

A dissociação coletiva, uma forma de processamento de trauma, ameaça a cooperação necessária para enfrentar a crise climática. Em vez de unir esforços, esse mecanismo reforça o isolamento e impede uma avaliação objetiva da realidade destrutiva que o planeta enfrenta.

Consequentemente, desastres relacionados ao clima têm impactos profundos e duradouros na saúde mental, desencadeando respostas traumáticas e dissociativas como mecanismos subconscientes.

A necessidade de um ativismo climático empático

O estudo destaca a importância de reconhecer como a emergência climática afeta as pessoas emocional e psicologicamente. Compreender esses impactos pode ajudar formuladores de políticas e indivíduos a desenvolver respostas mais eficazes. O ativismo climático empático, focado na proteção da saúde planetária e populacional, é essencial para combater a inação e a negação.

Além disso, comunidades vulneráveis são desproporcionalmente afetadas pela crise climática, especialmente em termos de segurança alimentar. Eventos climáticos extremos, agravados pelo aquecimento global, podem desencadear uma série de respostas psicopatológicas, incluindo distúrbios de humor, ansiedade e sintomas físicos. Pessoas deslocadas por fatores ambientais, por exemplo, estão em maior risco de desenvolver problemas de saúde mental, como depressão, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), aumento nas taxas de suicídio e abuso de substâncias.

Como combater a dissociação coletiva

Diante dessas descobertas, os pesquisadores propõem quatro recomendações principais para combater a dissociação coletiva:

Transparência e responsabilidade: Formuladores de políticas devem buscar maior transparência e prestação de contas no financiamento político, alinhando ações ao apoio público por medidas climáticas eficazes.

Práticas sustentáveis: Priorizar práticas sustentáveis, monitorar rigorosamente o progresso e permanecer adaptável a avanços tecnológicos e científicos.

Educação e conscientização: Campanhas de educação e conscientização sobre as consequências da mudança climática para a saúde mental são essenciais. Ao promover uma compreensão mais profunda do trauma climático, essas iniciativas podem mobilizar apoio público e fortalecer a resiliência coletiva.

Foco nas populações vulneráveis: Políticas devem priorizar as necessidades das comunidades mais afetadas, construindo sociedades inclusivas e resilientes.

Além dos efeitos ambientais tangíveis, a pesquisa demonstra que a mudança climática representa um desafio significativo para a saúde mental, tanto no curto quanto no longo prazo.

Combater a dissociação humana em relação à emergência climática, em escalas grandes e pequenas, é, portanto, crucial para evitar que a natureza humana permaneça enraizada em práticas ambientais prejudiciais, minando a saúde do planeta mesmo quando a ação climática é vital.

A mudança começa com a compreensão. Ao reconhecer e abordar os impactos psicológicos da crise climática, podemos construir um caminho mais resiliente e coletivo para um futuro sustentável. (ecodebate)

sábado, 3 de outubro de 2026

El Niño acelera e ameaça bater intensidade histórica

O fenômeno climático El Niño de 2026 está se acelerando rapidamente e apresenta mais de 90% de chance de atingir uma intensidade muito forte (super El Niño) entre a primavera e o verão, com potencial para se tornar o mais intenso já registrado em décadas.

Pontos Principais sobre o Super El Niño

• Previsão e Intensidade: Atualizações da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA) apontam 75% de probabilidade de este ser o evento mais forte desde o início dos registros em 1950, com anomalias de temperatura na superfície do mar podendo alcançar ou superar os +4°C.

• Pico do Fenômeno: O ápice do aquecimento do Oceano Pacífico Equatorial é projetado para ocorrer entre os meses de outubro, novembro e dezembro/2026, com o evento persistindo pelo menos até fevereiro/2027, conforme alertas da ONU e da OMM.

• Impactos no Brasil:

- Norte e Nordeste: Elevado risco de secas severas e maior propensão a queimadas.

- Região Sul: Probabilidade alta de excesso de chuvas, tempestades e enchentes durante o período da primavera e do verão.

• Consequências Globais: O aquecimento extremo das águas profundas e superficiais também afeta a vida marinha, altera rotas de furacões no Pacífico e acende alertas na economia mundial devido ao risco de alta nos preços dos alimentos.

Aquecimento do Pacífico ocorre mais cedo e mais rápido que nos grandes episódios registrados nas últimas décadas; pico do fenômeno será no fim do ano.

Mapas climáticos revelam rapidez do aquecimento das águas do Pacífico

O El Niño de 2026-2027 está se fortalecendo muito rapidamente e pode se tornar um dos mais intensos já registrados. O alerta é da MetSul Meteorologia, com base nas atualizações mensais dos modelos climáticos divulgadas na primeira semana de setembro, indicando que o El Niño deve atingir seu pico entre novembro e dezembro, com anomalias de temperatura da superfície do mar próximas de +4°C.

O fenômeno ocorre quando as águas da superfície do Pacífico Equatorial ficam mais quentes que o normal, alterando os padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do mundo.

No início de setembro, de acordo com o boletim semanal da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), dos Estados Unidos, a região do Pacífico usada para medir a intensidade do fenômeno, chamada Niño 3.4, apresentava uma anomalia de +2,7°C pelo índice ONI, que é a medida utilizada para determinar a intensidade de fenômenos como El Niño e La Niña.

A temperatura de +2,7°C caracteriza um El Niño muito forte, popularmente conhecido como Super El Niño.

Velocidade do aquecimento

O que chama a atenção dos especialistas é a velocidade desse aquecimento: em 2026, o nível de +2°C foi alcançado já em julho, enquanto nos grandes episódios de 1997, 2015 e 1982 isso ocorreu somente em setembro ou novembro.

De acordo com os meteorologistas da MetSul, em uma comparação histórica feita com dados do índice ONI dos principais eventos de El Niño dos últimos 50 anos, na primeira semana de setembro, a anomalia era de 1,6°C em 2023; 1,7°C em 2015; 2,1°C em 1997; e 0,6°C em 1982.

Para os especialistas, o El Niño já está entre os mais intensos da história, superando episódios marcantes das últimas décadas.

Levantamento detalha intensidade do fenômeno

Com base em dados semanais da NOAA, calculados pelo índice ONI, foi feito um levantamento mostrando que o maior pico de temperatura registrado em um episódio de Super El Niño ocorreu em 2015-2016, quando a anomalia na região Niño 3.4 chegou a 3°C em 18/11/2015. O segundo maior valor foi registrado no episódio de 1982-1983, com 2,6°C em 29/12/1982.

O levantamento também mostra que nenhum dos grandes episódios de El Niño dos tempos modernos atingiu a categoria de Super El Niño tão cedo quanto o atual.

Em 2026, a anomalia chegou a +2°C já na semana de 8 de julho. Em comparação, o El Niño de 1982-1983 alcançou esse patamar apenas em 24 de novembro; o de 1997-1998, em 3 de setembro; e o de 2015-2016, em 16 de setembro.

Pico no fim do ano

Os modelos numéricos apresentam consenso de que o pico deste evento, como normalmente ocorre, deve se dar no final do ano. Algumas simulações apontam a intensidade máxima em novembro, e outras, em dezembro.

A mediana dos dados, hoje, aponta que o atual evento pode atingir, no pico de intensidade, no final deste ano, valores próximos ou ao redor de +4°C de anomalia na principal região de monitoramento.

Caso se confirme, será um valor muito acima do patamar de +2°C utilizado para caracterizar informalmente um Super El Niño, o que, pelo índice ONI, já foi atingido ainda em julho.

O valor não apenas superaria por larga margem os picos de todos os eventos do fenômeno no século 20, como também colocaria o episódio atual em um território excepcional e jamais constatado em 170 anos de observação. (ig)

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Desertificação no Brasil e o aprofundamento das desigualdades sociais

A desertificação no Brasil degrada cerca de 1,51 milhão de km2 de terras e aprofunda as desigualdades sociais ao ameaçar diretamente a sobrevivência de 39 milhões de pessoas.

O Impacto nas Comunidades Vulneráveis

• Populações afetadas: Agricultores familiares, povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais sofrem primeiro com a perda de fertilidade do solo.

• Insegurança alimentar e hídrica: A escassez de água e a quebra de safras reduzem a produção de alimentos e comprometem a renda local.

• Perda cultural: Povos tradicionais enfrentam o esgotamento de plantas medicinais, caça e cursos d'água essenciais para seus modos de vida.

Migração e Pobreza Urbana

• Êxodo rural: A falha repetida das colheitas força moradores a abandonarem o campo.

• Pressão nas cidades: Esse deslocamento alimenta a expansão urbana precária nas periferias, transferindo as vulnerabilidades rurais para os centros urbanos.

Iniciativas e Desafios

• Contexto político e global: O Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação busca articular políticas públicas para conter o problema, e o país apresentou metas de neutralidade de degradação da terra em fóruns internacionais.

• Ações locais: Sistemas agroflorestais na Caatinga demonstram alta capacidade de retenção de solo e aumento de biomassa, unindo a recuperação ambiental ao saber tradicional.

Imagem de satélite demonstra umidade no Semiárido.

Em 25/08/2026 durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, realizada em Ulan Bator, na Mongólia, o Brasil apresentou sua primeira Meta Voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra. O compromisso reúne 17 submetas e alcança cerca de 3,67 milhões km2, equivalentes a 43,1% do território nacional. A dimensão impressiona, mas precisa ser compreendida corretamente. Aproximadamente 95,5% dessa extensão correspondem a áreas nas quais se pretende evitar o surgimento ou o agravamento da degradação. A recuperação ou restauração propriamente dita deverá abranger cerca de 163 mil km2 até 2030.

O anúncio ocorre em um momento no qual a degradação dos solos deixa de ser vista como um problema restrito ao interior do Nordeste e passa a ocupar uma posição estratégica nas discussões sobre clima, água, biodiversidade e produção de alimentos. Essa mudança já estava presente no Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca 2025–2043, lançado em março/2026. O plano procura articular políticas ambientais, agrícolas, hídricas e sociais, reconhecendo que a perda da capacidade produtiva da terra amplia vulnerabilidades que atingem milhões de pessoas.

A desertificação não transforma necessariamente uma região em um deserto coberto por areia. Trata-se da degradação das terras secas provocada pela combinação entre variações climáticas e atividades humanas.

Quando a vegetação é retirada, o solo é utilizado além de sua capacidade de recuperação e as chuvas se tornam mais irregulares, diminuem a fertilidade, a retenção de água e a biodiversidade. A terra continua existindo, mas perde progressivamente sua capacidade de produzir alimentos, sustentar animais, armazenar carbono e garantir a sobrevivência das comunidades. É nesse sentido que a desertificação constitui também um processo social. Seus efeitos não se distribuem igualmente e recaem primeiro sobre aqueles que dependem diretamente dos recursos naturais para viver.

Um problema que ultrapassa o Semiárido

Seca, aridização, degradação da terra e desertificação são fenômenos relacionados, mas não equivalentes. A seca corresponde a um período de chuvas abaixo do esperado e pode ocorrer em diferentes regiões. A aridização representa uma mudança mais duradoura das condições climáticas, com redução da disponibilidade de água. A degradação envolve a perda de qualidade do solo e da vegetação, inclusive em regiões úmidas. A desertificação, por sua vez, ocorre nas terras secas e resulta da interação entre condições climáticas adversas e formas insustentáveis de utilização do território.

No Brasil, o problema está historicamente associado ao Semiárido, mas não permanece confinado a ele. Estudos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais indicam que as áreas semiáridas vêm se expandindo em direção a partes da Bahia e do norte de Minas Gerais. Ao mesmo tempo, secas prolongadas e temperaturas mais altas aumentam a pressão sobre áreas do Cerrado, da Amazônia e do Pantanal. Isso não significa que todos esses territórios estejam se convertendo em desertos, mas revela que a perda de umidade e a degradação ambiental podem ampliar consideravelmente as áreas suscetíveis.

A situação de Gilbués, no sul do Piauí, ajuda a compreender essa complexidade. O município não está situado no centro do Semiárido tradicional, mas em uma região de transição ambiental com chuvas relativamente concentradas. A retirada da vegetação, a mineração praticada no passado, a pecuária e a vulnerabilidade natural dos solos contribuíram para a formação de sulcos profundos e extensas áreas atingidas pela erosão. Em certos pontos, a água das chuvas escoa rapidamente sobre terrenos desprotegidos, remove a camada superficial e abre grandes voçorocas. O problema não nasce simplesmente da ausência de chuva. Paradoxalmente, chuvas intensas sobre um solo degradado podem acelerar a destruição.

Gilbués também demonstra que a degradação não é irreversível. Técnicas de terraceamento, barragens de contenção, revegetação e correção do solo conseguiram recuperar áreas produtivas. Entretanto, a descontinuidade institucional comprometeu parte das iniciativas. Depois de um período de abandono, o Núcleo de Pesquisa de Recuperação de Áreas Degradadas voltou a ser mobilizado, com a previsão de recuperar 1.600 hectares até 2029. Em 2025, um projeto piloto iniciou uma nova etapa de pesquisa em dez hectares, utilizando tecnologias destinadas a favorecer a retenção de umidade e o desenvolvimento da vegetação. O caso reúne, portanto, as duas dimensões do problema brasileiro, a existência de conhecimento técnico e a dificuldade de assegurar continuidade política e financiamento.
A perda do solo chega à produção de alimentos

A erosão não retira apenas terra. Ela carrega nutrientes, reduz a infiltração da água e diminui a matéria orgânica indispensável à produção agrícola. À medida que o solo perde fertilidade, a família rural precisa investir mais para obter uma colheita menor. Quando não dispõe de crédito, assistência técnica ou acesso regular à água, passa a reduzir a área plantada, abandonar determinados cultivos ou vender animais que já não consegue alimentar.

Essa transformação pode ser observada em Cabrobó, no sertão pernambucano, um dos núcleos históricos de desertificação do país. O desmatamento da Caatinga, o pastoreio excessivo, as queimadas e o uso continuado de solos frágeis comprometeram áreas destinadas à agricultura e à criação de animais. Em áreas irrigadas, o manejo inadequado também pode favorecer a salinização. A água evapora rapidamente sob temperaturas elevadas e deixa sais acumulados na superfície. Com o tempo, a terra irrigada para produzir pode perder sua capacidade de sustentar as mesmas plantações.

A desertificação altera a alimentação antes mesmo de provocar o abandono completo de uma propriedade. Desaparecem primeiro os cultivos mais sensíveis ou aqueles destinados ao consumo familiar. A produção pode ficar restrita a poucas espécies resistentes, reduzindo a diversidade dos alimentos disponíveis. O leite, os ovos, a carne e os vegetais cultivados nos quintais também diminuem quando falta água para os animais e para as pequenas plantações. A família que antes obtinha parte significativa de seus alimentos na própria terra passa a depender mais do mercado justamente quando sua renda agrícola está em queda.

Os efeitos ultrapassam os limites das propriedades rurais. A agricultura familiar responde por uma parcela importante dos alimentos frescos consumidos internamente e abastece feiras, pequenos mercados, programas de alimentação escolar e equipamentos públicos. Quando secas sucessivas e solos degradados reduzem essa produção, diminuem a oferta local e aumentam a dependência de alimentos transportados de outras regiões. O encarecimento atinge de forma mais intensa as famílias pobres, que destinam uma proporção maior de sua renda à alimentação.
As cadeias econômicas por trás da terra degradada

A desertificação costuma ser atribuída genericamente à ação humana, uma formulação que esconde diferenças de responsabilidade. Nem todos retiram a vegetação, consomem água ou exploram o solo com a mesma intensidade. Em muitos territórios, famílias pobres participam da retirada de lenha ou do pastoreio excessivo porque dispõem de poucas alternativas econômicas. Os recursos extraídos, entretanto, podem abastecer cadeias produtivas que ultrapassam as comunidades locais.

O Seridó, entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, apresenta um exemplo concreto. A região foi marcada historicamente pelo cultivo do algodão, pela criação de animais, pelas queimadas e pela exploração de lenha. Parte da madeira retirada da Caatinga alimentou fornos de atividades cerâmicas, responsáveis pela fabricação de tijolos e telhas utilizados na construção civil. A vegetação nativa foi transformada em energia barata, enquanto os custos ambientais permaneceram no território.

A retirada continuada da cobertura vegetal deixa o solo exposto ao sol e à erosão. A regeneração da Caatinga torna-se mais lenta quando bovinos, caprinos e ovinos consomem os brotos que surgem após as chuvas. Forma-se, assim, um ciclo no qual a necessidade imediata de gerar renda compromete as bases ecológicas das atividades futuras. Responsabilizar exclusivamente os pequenos produtores ignora que a degradação está vinculada à demanda urbana por energia, alimentos, minérios e materiais de construção.

Irauçuba, no Ceará, apresenta outra combinação entre fragilidade ambiental e pressão econômica. O município está localizado em uma região de chuvas escassas e irregulares, mas as condições climáticas não explicam sozinhas a intensidade da degradação. O desmatamento, o sobre pastoreio e práticas agropecuárias inadequadas reduziram a cobertura vegetal e aumentaram a exposição do solo. A experiência local mostra que a vulnerabilidade natural se converte em desertificação quando o uso da terra ultrapassa os limites de regeneração do ambiente.

Essas situações exigem políticas que não se restrinjam a recomendar mudanças individuais de comportamento. O manejo sustentável da vegetação precisa estar associado a fontes alternativas de energia, assistência técnica, crédito adequado, regularização fundiária e garantia de renda. Caso contrário, exige-se que as famílias preservem os recursos naturais sem lhes oferecer condições materiais para abandonar práticas das quais dependem.
A desertificação amplia desigualdades antigas

Os efeitos da degradação não começam quando a terra se torna inteiramente improdutiva. Eles aparecem no tempo gasto para buscar água, na diminuição dos alimentos cultivados, no endividamento, na perda dos animais e na necessidade de procurar trabalho temporário fora da comunidade. A desertificação aprofunda desigualdades já existentes porque reduz as possibilidades econômicas dos territórios que dispõem de menos infraestrutura e proteção pública.

As mulheres rurais costumam ocupar uma posição central na produção de alimentos para o consumo doméstico, no cuidado com pequenos animais, no cultivo dos quintais e na administração da água. Quando as fontes próximas diminuem ou os reservatórios deixam de atender às necessidades familiares, aumenta o trabalho necessário para manter a casa e a produção. A perda ambiental transforma-se em sobrecarga cotidiana, embora essa dimensão raramente apareça nos cálculos econômicos sobre os prejuízos da seca.

Povos indígenas, comunidades quilombolas e outras populações tradicionais também enfrentam riscos específicos. A degradação ameaça plantas utilizadas na alimentação e na medicina, reduz a disponibilidade de caça, compromete cursos d’água e enfraquece práticas culturais vinculadas ao território. Para esses grupos, recuperar o solo não significa apenas aumentar a produtividade agrícola. Significa conservar relações sociais, conhecimentos e formas coletivas de manejo construídas ao longo de gerações.

A migração constitui uma das consequências mais duradouras. Diante da perda repetida das colheitas e da falta de oportunidades, parte dos moradores procura trabalho nas cidades ou em outras regiões agrícolas. Nem todo deslocamento é definitivo, mas a saída dos jovens, a separação temporária das famílias e o envelhecimento da população rural enfraquecem a capacidade das comunidades de manter sua produção e sua organização social. A desertificação passa, assim, a alimentar a expansão urbana precária, transferindo vulnerabilidades do campo para as periferias.
Conviver com o Semiárido

Durante muito tempo, as políticas públicas trataram a seca como um inimigo a ser vencido por meio de grandes obras hidráulicas e medidas emergenciais. Essa perspectiva frequentemente concentrou água e poder, sem alterar a insegurança vivida pelas comunidades rurais. A ideia de convivência com o Semiárido parte de outra compreensão. A escassez e a irregularidade das chuvas fazem parte das características regionais, mas não precisam produzir fome, dependência e deslocamento quando existem infraestrutura, conhecimento e políticas adequadas.

A atuação da Articulação Semiárido Brasileiro tornou-se uma das principais referências dessa abordagem. As cisternas construídas próximas às moradias armazenam água das chuvas para o consumo familiar. Outras estruturas permitem reservar água destinada à criação de animais e à produção de alimentos. Os bancos comunitários de sementes ajudam a conservar variedades adaptadas às condições locais, enquanto quintais produtivos, sistemas agroflorestais e práticas agroecológicas diversificam a produção e reduzem a exposição das famílias à perda de um único cultivo.

Essas tecnologias são simples apenas na aparência. Uma cisterna modifica a organização do trabalho doméstico, reduz o tempo dedicado à obtenção de água e permite atravessar períodos secos com maior autonomia. Um banco de sementes diminui a dependência de variedades comerciais pouco adaptadas. Um sistema agroflorestal protege o solo, conserva umidade e combina recuperação ambiental com produção de frutas, forragem, mel e outros alimentos.

A participação da Articulação Semiárido Brasileiro na formulação da nova meta brasileira apresentada na COP17 indica que conhecimentos acumulados pelas comunidades começam a ser reconhecidos na política nacional. O Programa Recaatingar segue a mesma direção ao estabelecer a meta de recuperar dez milhões de hectares da Caatinga até 2045. A proposta inclui adubação verde, compostagem, plantio direto e sistemas agroflorestais, procurando associar restauração ecológica, geração de renda e fortalecimento das comunidades.
Entre a extensão anunciada e a transformação dos territórios

A Meta Voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra representa um avanço porque oferece referências para evitar, reduzir e reverter a degradação. Sua abrangência nacional também reconhece que o problema não se limita aos núcleos históricos de desertificação. Entretanto, a extensão territorial anunciada não pode substituir a avaliação dos resultados efetivamente alcançados.

A recuperação de 163 mil km2 será insuficiente se novas áreas de vegetação nativa continuarem sendo desmatadas ou degradadas. Neutralidade não significa autorização para destruir em um lugar e compensar em outro. Solos, ecossistemas e comunidades não são peças intercambiáveis. Uma área restaurada ao longo de alguns anos não recompõe imediatamente a biodiversidade e as funções ecológicas de uma vegetação madura eliminada.

O cumprimento da meta dependerá ainda de recursos permanentes, coordenação entre diferentes níveis de governo e continuidade das instituições responsáveis. A experiência de Gilbués demonstra como projetos promissores podem perder capacidade quando centros de pesquisa são abandonados. Também será necessário estabelecer indicadores que mostrem não somente quantos hectares receberam alguma intervenção, mas se o solo recuperou fertilidade, se a vegetação permaneceu, se a água voltou a infiltrar e se as famílias conseguiram ampliar sua produção e sua renda.

As populações atingidas precisam participar da definição, execução e fiscalização das ações. Agricultores, povos indígenas, comunidades quilombolas e organizações locais conhecem as limitações e possibilidades dos territórios onde vivem. Sem essa participação, projetos de recuperação podem privilegiar o plantio de poucas espécies, desconsiderar formas tradicionais de uso da terra ou beneficiar propriedades que já dispõem de maior capacidade econômica.

A desertificação avança lentamente, mas seus resultados permanecem por muito tempo. Ela começa com a retirada da vegetação, a erosão de uma encosta, o desaparecimento de uma nascente ou a redução de uma colheita. Quando esses sinais são tratados como acontecimentos isolados, perde-se a oportunidade de impedir que a degradação alcance um estágio mais difícil e caro de reverter.

O Brasil dispõe agora de uma meta nacional, um plano de longo prazo, experiências comunitárias consolidadas e conhecimento científico suficiente para enfrentar o problema. O verdadeiro significado desses instrumentos será definido nos territórios. Combater a desertificação exige conservar a Caatinga e os demais biomas, recuperar os solos e modificar atividades econômicas que transferem seus custos ambientais às populações mais vulneráveis. Acima de tudo, exige garantir que a terra continue capaz de produzir alimentos e sustentar comunidades, em vez de transformar a permanência no campo em uma luta cada vez mais desigual.
No Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca (é celebrado anualmente em 17 de junho, a data foi criada em 1994 pela ONU), eu quero lembrar da importância de uma política de combate à crise climática em um ano que se mostra um marco importante pelo enfrentamento do fenômeno El Niño. A desertificação, que já é um processo em curso, será acelerada pela chegada do El Niño.

Enquanto o mundo marca essa data, o Congresso brasileiro segue em silêncio. Nenhum projeto estruturante de adaptação climática nem política séria de proteção ao semiárido.

E o que está por vir é grave: a NOAA, principal agência climática dos Estados Unidos, confirmou o retorno do El Niño, com 60% de chance de atingir intensidade forte ainda este ano. No Nordeste, o fenômeno significa uma coisa: Uma seca que pode colocar em risco cidades inteiras.

Mais de 8,5 milhões de pessoas vivem hoje em áreas de risco no Brasil. E enquanto essas famílias estão expostas, o Congresso debate outras prioridades.

O Brasil precisa de políticas públicas reais, financiamento para adaptação e um Congresso que encare a emergência climática como o que ela é: uma questão de sobrevivência. (ecodebate)

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Emissões da indústria petroquímica podem subir 50% até 2050

Uma nova pesquisa da Universidade de Sheffield revelou que as emissões de gases de efeito estufa provenientes da produção petroquímica podem aumentar em cerca de 50% até 2050, caso as práticas atuais sejam mantidas.

O estudo é o primeiro a mapear as emissões petroquímicas globais, revelando os níveis de gases de efeito estufa emitidos por mais de 37.000 instalações de produção e unidades de processo em todo o mundo.

Os resultados mostram que 10% das instalações de produção do setor são responsáveis ​​por mais da metade das emissões da indústria, sendo a fabricação de etileno e amônia as que mais produzem gases de efeito estufa.

Ao revelar as emissões a nível de instalações, produtos, processos e países, o estudo mostra não só o quanto o setor emite, mas também onde essas emissões estão concentradas. Isso pode ajudar a indústria e os formuladores de políticas a priorizar intervenções, como a captura e o armazenamento de carbono ou mudanças nos processos, que possam ter o maior impacto.

Segundo uma nova pesquisa da Universidade de Sheffield, as emissões de carbono da indústria petroquímica podem aumentar em 50% até 2050.

O estudo, publicado na revista Nature Sustainability, fornece os dados mais detalhados até o momento sobre as emissões de um dos maiores emissores de dióxido de carbono do mundo.

Liderada pela Dra. Fanran Meng, da Escola de Engenharia Química, de Materiais e Biológica, da Universidade de Sheffield, a pesquisa é a primeira a mapear as emissões petroquímicas globais, revelando os níveis de gases de efeito estufa emitidos por mais de 37.000 instalações de produção e unidades de processo em todo o mundo.

Ao revelar as emissões em nível de instalação, produto, processo e país, o estudo mostra não apenas o quanto o setor emite, mas também onde essas emissões estão concentradas. Isso pode ajudar a indústria e os formuladores de políticas a priorizar intervenções, como eficiência, eletrificação, mudanças nas matérias-primas, captura e armazenamento de carbono ou alterações nos processos, que possam ter o maior impacto. 

Emissões de gases afetam o meio ambiente e impactam diretamente nas mudanças climáticas.

Empresas criam metas voluntárias de redução de emissões de gases de efeito estufa.

Com esforços de empresas com sede no Brasil, Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental calcula que a redução de poluentes seja significativa para a próxima década.

O estudo revelou que as emissões de carbono da indústria são altamente concentradas, com 53% das emissões provenientes de apenas 10% das instalações estudadas.

Os resultados da pesquisa mostram que o etileno e a amônia foram os maiores emissores entre os principais produtos químicos primários analisados. Esses produtos químicos são normalmente usados ​​na fabricação de plásticos, embalagens de alimentos, fertilizantes e produtos de limpeza doméstica.

Com base nesses dados, os pesquisadores desenvolveram um painel de controle de acesso aberto que a indústria, os formuladores de políticas e os pesquisadores podem usar para ver facilmente de onde vêm as emissões de carbono, auxiliando assim na elaboração de intervenções para tornar o setor mais sustentável.

A Dra. Fanran Meng, professora sênior de Engenharia Química Sustentável na Universidade de Sheffield, disse: “As emissões da indústria petroquímica já são enormes e, no entanto, nossa pesquisa descobriu que elas estão a caminho de aumentar em 50% até 2050, em um cenário de manutenção do status quo.

“Infelizmente, dadas as complexidades da indústria petroquímica e o papel crucial que ela desempenha na base de muitos dos produtos do dia a dia que sustentam a sociedade moderna, não existe uma solução mágica.

“Mesmo um cenário extremamente otimista, que combine uma descarbonização substancial da rede elétrica, a implantação completa de sistemas elegíveis de captura e armazenamento de carbono e matérias-primas de base biológica suficientes, ainda não leva o setor a emissões líquidas zero até 2050. A redução da demanda por produtos petroquímicos deve fazer parte da solução, juntamente com uma produção mais limpa, para a qual os dados deste estudo podem contribuir”.

O estudo, intitulado “Emissions and system-level decarbonization pathways for global petrochemical production” (Emissões e Caminhos de Descarbonização em Nível de Sistema para a Produção Petroquímica Global) foi liderado pelo Dr. Meng em colaboração com pesquisadores da Universidade de Cambridge, da Universidade de Bath e da Universidade da Califórnia. (ecodebate)

Injustiça climática não é sobre o clima

Injustiça climática não é sobre o clima. É sobre quem consegue sobreviver a ele. A injustiça climática expõe como a desigualdade social dete...