75% dos municípios perderam
superfície de água em corpos hídricos naturais e 71% viram áreas de
reservatórios aumentarem; mudança foi mais acentuada no sul do bioma e no
Matopiba.
A área de corpos hídricos
naturais do Cerrado, como rios e lagoas, diminuiu 38% desde 1985, uma redução
de cerca de 348 mil hectares, aponta levantamento coordenado por pesquisadores
do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) para a quinta coleção do
MapBiomas Água. No mesmo período, corpos hídricos antrópicos, como
reservatórios e barragens hidrelétricas, passaram a ocupar uma área 87% maior,
com um acréscimo de 496 mil hectares.
Segundo os pesquisadores, a
crescente concentração da superfície de água em áreas artificiais representa um
risco para o funcionamento dos ecossistemas da região e para o reabastecimento
das reservas do bioma, fundamentais para a segurança hídrica de todo o país.
Ainda, a expansão das hidrelétricas entre 1985 e 2025 resultou no alagamento de
312 mil hectares de vegetação nativa, área mais de duas vezes maior que a da
cidade de São Paulo.
“Quando a água se concentra
em estruturas antrópicas, a paisagem fica menos resiliente a eventos climáticos
extremos, perdendo a capacidade de regular naturalmente o ciclo da água,
tornando-se mais dependente de infraestrutura e mais vulnerável a secas. Os
corpos hídricos antrópicos são importantes para o abastecimento de populações
humanas, para produção agrícola e de energia elétrica, mas não substituem a
função ecológica e os serviços ecossistêmicos da água em corpos hídricos
naturais”, destaca Joaquim Pereira, pesquisador do IPAM que atuou na coleta e
produção dos dados.
A tendência de redução da
área de água em corpos hídricos naturais no Cerrado é observada desde o início
da década de 1990. Desde então, o bioma acumula 25 anos consecutivos com corpos
hídricos naturais abaixo da média histórica, estimada em cerca de 680 mil
hectares. Em 2025, a área registrada foi de 559 mil hectares, valor 17%
inferior à média.
A tendência de redução da
área de água em corpos hídricos naturais no Cerrado é observada desde o início
da década de 1990.
Regiões hidrográficas
A perda de água em corpos
hídricos naturais afeta 77% das regiões hidrográficas do Cerrado. Entre os
casos mais expressivos estão as regiões hidrográficas do Paraguai, Paraná e
Tocantins-Araguaia, que perderam, respectivamente, 894 mil, 82 mil e 61 mil
hectares de superfície de água natural entre 1985 e 2025. Destacam-se pela
redução proporcional em corpos hídricos naturais as regiões Paraguai, Paraná e
São Francisco, com quedas de 56%, 29% e 12%, respectivamente.
“Para esses ecossistemas,
isso pode significar perda de habitat, degradação de áreas úmidas, menor
conectividade entre ambientes aquáticos e impactos sobre espécies que dependem
dos corpos hídricos naturais. Para as populações humanas, a redução pode
amplificar a insegurança hídrica, afetar o abastecimento, ameaçar a produção
agropecuária no médio e longo prazo e afetar drasticamente os modos de vida
tradicionais e a pesca de subsistência, além de intensificar as disputas pelo
uso da água”, alerta Pereira.
Já as regiões hidrográficas
que registraram os maiores aumentos de superfície de água em corpos hídricos
antrópicos foram a Amazônica, que possui nascentes no Cerrado, com expansão de
177 mil hectares em reservatórios e barragens; do Tocantins-Araguaia, com
acréscimo de 171 mil hectares; e do Paraná, que ganhou mais 166 mil hectares.
Juntas, as três regiões concentram 82% de toda a superfície de água antrópica
do bioma.
De acordo com o pesquisador, esse crescimento acentuado está relacionado, principalmente, à intensificação do uso da terra nessas áreas, além do crescimento populacional e à maior demanda por energia elétrica. Apesar dessa transição entre superfícies de água naturais e antrópicas aumentar a disponibilidade hídrica em algumas regiões, a dinâmica também perturba os ecossistemas aquáticos do bioma e pode acelerar a perda de superfície de água natural em outras regiões.
Cerrado perdeu 38% da área ocupada por rios, lagoas e outros corpos hídricos naturais
“No geral, esse crescimento
de corpos hídricos antrópicos acompanha a intensificação do uso da terra, como
o aumento da agropecuária, causando maior demanda pelo uso da água,
especialmente em regiões com forte sazonalidade e períodos de seca bem
marcados. Essas estruturas podem ampliar a disponibilidade de água para usos
específicos, mas também podem alterar a dinâmica natural das bacias
hidrográficas. Reservatórios e barramentos, por exemplo, modificam o fluxo dos
rios, retêm sedimentos, reduzem a conectividade entre ambientes aquáticos e
podem afetar a disponibilidade de água a jusante”, completa Pereira.
(ecodebate)


































