quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Seca simultânea em vários continentes pode triplicar o preço do trigo

Seca em vários continentes ao mesmo tempo pode triplicar o preço do trigo, aponta estudo.
Trigo

Estudo internacional mostra que secas simultâneas em grandes regiões produtoras de trigo explicam quase ¾ das variações no preço global do grão.

Pão, massa e cereal do café da manhã parecem estar muito longe de um campo seco e rachado em algum lugar do mundo. Mas uma nova pesquisa mostra que, quando a falta d’água atinge ao mesmo tempo várias das principais regiões produtoras de trigo do planeta, o efeito chega direto à prateleira do supermercado e à mesa de casa.

Pode parecer estranho pensar que uma seca na Ásia central, somada a outra na Europa e a mais uma na América do Norte, tenha alguma relação com o preço do pão francês na padaria da esquina. Mas é exatamente essa conexão que um grupo de pesquisadores decidiu investigar, e os resultados surpreenderam até os próprios cientistas.

O estudo, intitulado “Climate‐Induced Severe Water Scarcity Events as Harbingers of Global Wheat Price” e publicado na revista científica Earth’s Future, cruzou dados climáticos, mapas de áreas cultivadas e preços internacionais de commodities agrícolas ao longo de mais de 2 décadas. A conclusão é impressionante: a extensão de eventos severos de escassez hídrica ao redor do mundo consegue explicar sozinha cerca de 74% das oscilações anuais no preço global do trigo entre os anos 2000 e 2021.

Entre os autores da pesquisa está Jørgen E. Olesen, professor e chefe do Departamento de Agroecologia da Universidade de Aarhus, na Dinamarca. Para ele, a novidade do estudo não está em provar que as mudanças climáticas afetam a produção agrícola, algo já bastante conhecido, mas em mostrar com clareza como secas espalhadas pelo globo se traduzem em preços mais altos para quem está no mercado e na ponta do consumo.

O problema não é uma seca isolada, é várias secas ao mesmo tempo

A grande sacada dos pesquisadores foi criar um novo indicador, batizado de Severe Water Scarcity, ou Escassez Hídrica Severa. Em vez de olhar apenas para o que acontece numa única região agrícola, esse indicador mede qual proporção da área de plantio de trigo em todo o mundo está enfrentando seca justamente nos meses em que a planta mais precisa de água.

A lógica por trás disso é simples de entender. Uma seca localizada costuma ser absorvida pelo mercado global sem grandes traumas, porque outras regiões produtoras compensam a perda. O problema real surge quando vários “celeiros do mundo” secam ao mesmo tempo, ou em sequência muito próxima, e o sistema global de abastecimento fica sem alternativas para equilibrar a oferta. Segundo os cientistas, esse tipo de evento combinado tende a se tornar cada vez mais frequente num planeta mais quente.

Um dos achados do estudo é que o trigo se comporta de um jeito bem particular entre os grãos. A relação entre escassez de água e alta de preço se mostrou muito mais forte no trigo do que no milho, e os pesquisadores nem sequer encontraram uma relação parecida no caso do arroz.

Quanto mais quente o planeta, mais caro o pão

Olhando para o histórico, os dados mostram que, em média, cerca de 5% da área mundial de cultivo de trigo passou por escassez hídrica severa em um ano típico. Só que essa fatia não é fixa, ela vem crescendo junto com o avanço das mudanças climáticas. Em anos particularmente secos, como 2000, 2010, 2012 e 2020, a proporção de área afetada ultrapassou 15%.

Com base nesse padrão, a equipe de pesquisa usou modelos climáticos para projetar cenários futuros, e os números acendem um sinal de alerta. Em um mundo com cerca de 2°C de aquecimento global, a estimativa é de que o trigo chegue a custar em torno de US$ 273 por tonelada. Se o aquecimento avançar para 3°C, esse valor pode subir para cerca de US$ 364 por tonelada, praticamente o triplo do preço global do trigo registrado em 2010, já corrigido pela inflação.

Para Olesen, o recado é direto: o trigo é uma das culturas alimentares mais importantes do planeta, o que significa que qualquer problema climático na sua produção tende a se espalhar rapidamente para o resto do mundo. Por isso, ele defende que a seca deixe de ser tratada como uma série de episódios locais isolados e passe a ser encarada como um desafio internacional e conectado.

Mais do que um problema do campo

Os próprios autores fazem questão de reforçar que a seca não é a única variável no tabuleiro dos preços do trigo. Custos de energia e de fertilizantes, o tamanho dos estoques mundiais de grãos, políticas de comércio internacional e conflitos geopolíticos também pesam bastante na equação. Ainda assim, o estudo consegue isolar um fator climático que, até então, era difícil de medir com precisão, e que já parece estar deixando marcas visíveis nos mercados globais. É justamente isso que torna a descoberta relevante para muito além do universo da agricultura.

O trigo é alimento básico para bilhões de pessoas ao redor do mundo. Quando a seca atinge simultaneamente várias das grandes regiões produtoras, o abalo se propaga pelas cadeias internacionais de comércio e pode chegar a países e famílias que nunca chegaram perto de um campo de trigo seco.

Por isso, os pesquisadores defendem que as próximas avaliações sobre segurança alimentar não olhem apenas para mudanças graduais na produtividade das lavouras ao longo dos anos. É preciso também levar em conta esses grandes eventos de seca que se repetem e que, cada vez mais, atingem várias regiões produtoras estratégicas ao mesmo tempo ou em um curto intervalo de tempo.

Tensões geopolíticas e clima elevam cotações do trigo no mercado internacional

Enquanto contratos avançam na Bolsa de Chicago, mercado brasileiro segue com negociações limitadas pela entressafra, aponta Cepea.  (ecodebate)

O veredito da NASA sobre El Niño

O veredito da NASA sobre o El Niño: imagens de satélite revelam como o fenômeno já começou a sufocar a vida marinha no Pacífico.
O veredito da NASA confirma que o El Niño está ativo e em processo de intensificação no Oceano Pacífico equatorial. Imagens de satélite mostram o aquecimento das águas, elevação do nível do mar e uma queda expressiva nos níveis de clorofila, sinalizando impactos diretos na base da cadeia alimentar marinha.

O que os satélites da NASA revelam

• Monitoramento do Pacífico: O satélite PACE registrou o avanço de águas mais quentes e redução do fitoplâncton na região equatorial em comparação ao ano anterior.

• Impacto ecológico: A diminuição de nutrientes interrompe a proliferação da vida marinha na área central do oceano.

• Confirmação científica: Os dados orbitais corroboram os alertas de agências climáticas sobre a força do atual episódio do fenômeno.

O veredito da NASA sobre o El Niño: imagens de satélite revelam como o fenômeno já começou a sufocar a vida marinha no Pacífico

Imagens captadas pelo satélite PACE mostram como o aquecimento das águas está reduzindo o fitoplâncton no Pacífico e pode provocar efeitos em cascata sobre peixes, aves e mamíferos marinhos.
O El Niño é um fenômeno climático natural, conhecido desde a época das grandes navegações e caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial. Ele ocorre principalmente nas regiões central e leste, e as águas ficam mais quentes do que o normal, provocando mudanças na circulação do oceano e da atmosfera.

Em junho/2026, o El Niño foi oficialmente declarado e já começou a provocar mudanças para além das temperaturas do oceano. Imagens captadas pela NASA no ano passado mostram uma queda significativa na concentração de clorofila no Pacífico central, um dos primeiros sinais de que o El Niño já está afetando a vida marinha. A redução indica uma menor presença de fitoplâncton, organismos microscópicos que estão na base da cadeia alimentar dos oceanos. Segundo os pesquisadores, essas alterações podem ficar ainda mais evidentes nos próximos meses, conforme o fenômeno vai se fortalecendo.

Imagens da NASA mostram o impacto do El Niño no oceano em apenas um ano

Antes e depois do El Niño: imagens do satélite PACE, da NASA, mostram a concentração média de clorofila no Pacífico equatorial em junho/2025, quando as condições eram neutras, e junho/2026, durante o fortalecimento do fenômeno.

A diferença fica evidente quando os pesquisadores colocam lado a lado os registros de junho/2025 e junho/2026. No primeiro período, as condições do Pacífico equatorial eram consideradas neutras; no segundo, o El Niño já estava em processo de intensificação. Os dados foram obtidos pelo PACE, satélite da NASA lançado em fevereiro/2024, por meio do instrumento OCI (Ocean Color Instrument). O equipamento analisa a luz refletida pelo oceano e permite acompanhar a distribuição dos diferentes componentes presentes na água, incluindo a clorofila.

Mas qual a importância desse pigmento para a vida marinha? A clorofila está presente na maioria dos organismos que compõem o fitoplâncton, um conjunto de seres microscópicos que vive próximo à superfície do oceano. Esses organismos realizam fotossíntese e formam uma das principais bases da cadeia alimentar marinha.

Nas imagens da NASA, a mudança mais evidente aparece no Pacífico central, próximo à Linha do Equador e ao norte da Nova Zelândia. Em junho/2026, a concentração de clorofila nessa região estava consideravelmente menor do que no mesmo período do ano anterior. Isso significa:

- Menos clorofila na superfície;

- Menor presença de fitoplâncton;

- Redução da quantidade de alimento disponível para o zooplâncton;

- Possíveis impactos sobre peixes, aves marinhas e mamíferos marinhos.

Segundo os oceanógrafos Matthew Kehrli e Graham Trolley, do Centro de Voos Espaciais Goddard, da NASA, a alteração era esperada. Durante um episódio de El Niño, os ventos alísios que normalmente sopram de leste para oeste perto do Equador enfraquecem. Esse enfraquecimento altera a circulação do oceano, fazendo com que a camada superficial quente se torne mais profunda e, consequentemente, reduzindo a chamada ressurgência oceânica, responsável por trazer águas frias e ricas em nutrientes essenciais para a vida marinha. Com menos nutrientes chegando à superfície, o fitoplâncton encontra condições menos favoráveis para crescer. E quando a quantidade desses organismos cai, o efeito pode se espalhar para os demais níveis da cadeia alimentar.

El Niño pode afetar a pesca e toda a cadeia alimentar do Pacífico

Atualmente, a atuação de um forte episódio de El Niño no Oceano Pacífico já está começando a produzir efeitos que preocupam especialistas. O fenômeno altera os padrões climáticos em diferentes partes do mundo, favorecendo ondas de calor, períodos de seca e chuvas intensas, enquanto também modifica as condições do próprio Pacífico. No Brasil, as consequências variam conforme a região e podem se somar ao aquecimento global, contribuindo para temperaturas mais elevadas. No oceano, porém, as mudanças também podem atingir diretamente a vida marinha, começando pela base da cadeia alimentar.

O El Niño pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões, favorecendo secas, ondas de calor e condições mais propícias para incêndios florestais.

É nesse ponto que a redução do fitoplâncton observada pela NASA ganha importância. Com menos desses organismos disponíveis, diminui também a oferta de alimento para outras espécies, o que pode provocar efeitos em cadeia. Um dos exemplos aparece no Peru, onde episódios anteriores de El Niño foram associados a fortes quedas na pesca de anchoveta. O aquecimento das águas, combinado à menor ressurgência e à redução do fitoplâncton, diminui a disponibilidade de alimento para esses peixes.

A Expectativa dos cientistas é que as mudanças observadas no Pacífico central se tornem ainda mais claras conforme o El Niño avance. A diferença pode aparecer tanto em uma redução ainda maior dos níveis de clorofila quanto na expansão da área afetada.  Toda essa situação, porém, não significa que a queda da vida microscópica seja necessariamente permanente. Depois de um episódio de El Niño, pode ocorrer uma recuperação da clorofila, com concentrações até superiores ao normal no Pacífico equatorial. Correntes oceânicas que transportam mais ferro e a poeira proveniente de regiões mais secas da América Central e da América do Sul podem ajudar nesse processo.

O La Niña, fenômeno que costuma aparecer depois do El Niño, também pode favorecer a recuperação da vida marinha. Em episódios anteriores, o aumento da ressurgência de águas profundas ajudou a elevar novamente a concentração de nutrientes e fitoplâncton no Pacífico. Para entender melhor essas transformações e acompanhar como o oceano reage ao longo de todo o ciclo do fenômeno, os cientistas agora contam com uma ferramenta inédita.

Lançado em fevereiro/2024, o PACE, da NASA, poderá acompanhar pela primeira vez um ciclo completo de El Niño com medições hiperespectrais globais quase diárias. O satélite consegue analisar o oceano em mais comprimentos de onda de luz do que as missões anteriores, permitindo observar com mais detalhes as mudanças na concentração e na composição do fitoplâncton à medida que o fenômeno avança.

Isso permite analisar o oceano em mais comprimentos de onda de luz do que em observações anteriores e acompanhar com maior precisão como diferentes comunidades de fitoplâncton respondem ao El Niño. Os sensores também podem observar pigmentos de plantas em terra, além de nuvens e aerossóis na atmosfera, ajudando os pesquisadores a entender como os efeitos do El Niño se espalham por diferentes partes do mundo.
O El Niño de 1877 dizimou 4% da população mundial; o que já está começando a se formar promete ser pior, mas o que isso significa em 2027? (xataka)

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Poluição provoca uma morte a cada 45 segundos

Poluição provoca uma morte a cada 45 segundos e novo caso de asma infantil a cada 2 minutos.
A poluição do ar gerada por veículos rodoviários causa uma morte prematura a cada 45 segundos e um novo caso de asma infantil a cada dois minutos no mundo. O dado faz parte de um estudo do Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT) que aponta quase 700 mil mortes prematuras globais em um único ano associadas a essas emissões.

Impactos da Poluição do Tráfego

• Veículos pesados: Ônibus e caminhões a diesel formam a principal fonte de fuligem nas cidades.

• Crianças: O ar sujo inflama os brônquios e gera milhares de diagnósticos de asma todos os dias.

• Projeção futura: Sem limites rígidos de emissão, os danos à saúde podem subir drasticamente até a metade do século.

Caminhos para a Solução

• Eletrificação: A troca rápida por uma frota de veículos com emissão zero é apontada como a principal forma de reverter o quadro.

• Combustíveis limpos: Reduzir a dependência de motores a diesel em áreas urbanas densas.

Veículos pesados são os principais responsáveis pela poluição rodoviária

A poluição causada pelos veículos rodoviários é responsável por uma morte prematura a cada 45 segundos e por um novo caso de asma infantil a cada dois minutos. O alerta é do Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT), que acaba de divulgar o estudo "Benefícios para a saúde do transporte de emissões zero até 2050".

Segundo o levantamento, somente em 2024 a poluição do transporte rodoviário contribuiu para quase 700 mil mortes prematuras e 250 mil novos casos de asma infantil em todo o mundo.

"O que torna isso especialmente preocupante é a trajetória: à medida que países de alta renda limpam suas frotas de veículos, países de baixa e média renda estão no caminho para suportar uma parcela crescente dos danos, ampliando, e não reduzindo, a desigualdade global em saúde", disse o autor principal, Lingzhi Jin.

Nos países de renda mais alta, a previsão é de uma redução de 48% nas mortes prematuras até 2050. Já nos países de renda média e baixa, a estimativa é de um aumento de 50% e 200%, respectivamente.

O Brasil também deve enfrentar um agravamento desse cenário. Segundo estimativa do ICCT, o número de mortes prematuras causadas pela poluição dos veículos rodoviários no país deverá crescer 47% até 2050.

Só em 2024, o Brasil registrou 8 mil mortes prematuras relacionadas à exposição à poluição do transporte rodoviário e cerca de 9,2 mil casos de asma pediátrica.

Para o ICCT, apenas uma eletrificação ampla da frota seria capaz de reduzir drasticamente novos óbitos e casos de asma infantil nas próximas décadas.

"O crescimento populacional, o envelhecimento demográfico e uma frota de veículos em crescimento exercem uma pressão crescente e implacável sobre o impacto do transporte rodoviário na saúde. Sob as políticas atuais, essas forças prevalecem. O que este estudo mostra é que uma eletrificação ambiciosa é forte o suficiente para romper essa ligação, evitando que quase 9 milhões de vidas sejam interrompidas entre agora e 2050", afirmou Josh Miller, diretor sênior do ICCT e coautor do estudo.
Segundo o estudo, a única forma de reduzir as mortes prematuras é atingir 100% de vendas de elétricos mundialmente até 2050.

Dois cenários para 2050

Para projetar o impacto da eletrificação na saúde pública, o estudo trabalhou com dois cenários distintos.

O primeiro, chamado Momentum, considera todas as metas atuais de eletrificação, inclusive aquelas que ainda não são obrigatórias. Nesse cenário, o Brasil teria 57% das vendas de veículos leves novos compostas por veículos elétricos até 2050.

Já os pesados, responsáveis por cerca de 60% de toda a emissão global de poluentes entre os veículos rodoviários, teriam apenas 12% das suas vendas compostas por modelos elétricos em 2050.

O segundo cenário, denominado Ambicioso, prevê que praticamente 100% das vendas globais de veículos leves e pesados sejam compostas por modelos de emissão zero. Segundo o instituto, esse é o único cenário capaz de reduzir de forma significativa as mortes prematuras e os casos de asma infantil.

Globalmente, esse cenário poderia reduzir em até 80% os óbitos prematuros, o equivalente a 8,8 milhões de mortes evitadas, além de diminuir em 63% os casos de asma infantil.

A meta oficial da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) é que veículos elétricos e híbridos representem 30% do mercado nacional em 2030. Ainda assim, segundo o ICCT, esse ritmo de eletrificação não seria suficiente, em escala global, para reduzir de forma relevante os impactos da poluição sobre a saúde.

Para alcançar o cenário mais otimista, o Brasil precisaria ter 61% das vendas de veículos leves compostas por modelos de emissão zero já em 2035 e atingir 100% em 2045. Entre os veículos pesados, essa participação deveria chegar a 64% em 2035 e, também, alcançar 100% em 2045.

Apesar do avanço recente, o país ainda está distante dessas metas. No primeiro semestre de 2026, segundo a ABVE, foram vendidos 215.023 veículos eletrificados. Desse total, 42% (90.626 unidades) eram modelos 100% elétricos.
Poluição veicular causa quase 700 mil mortes prematuras por ano

Embora os números representem um crescimento expressivo do mercado brasileiro de eletrificados, eles mostram que o ritmo atual ainda está longe do necessário para atingir o cenário mais ambicioso traçado pelo ICCT e reduzir de forma significativa os impactos da poluição veicular sobre a saúde pública até 2050. (biodieselbr)

Onda de calor extrema pressiona economia europeia e força medidas drásticas

Onda de calor extrema pressiona economia europeia: impactos em trabalho, energia, turismo e alimentos.

A sucessão de ondas de calor extrema na Europa em 2026 — após os meses de junho e julho mais quentes já documentados pelo observatório Copernicus — ameaça custar cerca de €$ 180 bilhões à economia regional, o equivalente a 1% do PIB, forçando governos e indústrias a adotarem restrições severas de consumo e de infraestrutura.

Impactos Setoriais e Econômicos

• Produtividade e Indústria: Queda acentuada no rendimento do trabalho ao ar livre e em fábricas sem refrigeração adequada.

• Energia e Logística: Níveis críticos em rios importantes, como o Reno, dificultam o transporte de matérias-primas e comprometem a refrigeração de usinas nucleares.

• Turismo e Agricultura: Cancelamentos de viagens e perdas drásticas em lavouras devido à seca severa que assola o sul e o centro do continente.

Medidas de Adaptação

• Emergência Energética: Estados de alerta declarados e pedidos de redução voluntária ou obrigatória de eletricidade e gás.

• Infraestrutura Urbana: Fechamento temporário de escolas, restrições de velocidade em ferrovias devido à dilatação dos trilhos e alertas vermelhos em grandes cidades.

Já tensionada por tarifas dos EUA e guerra no Oriente Médio, temperaturas escaldantes podem custar à economia €$ 180 bilhões.

Pessoas se refrescam perto da fonte da Trafalgar Square

As temperaturas escaldantes estão forçando medidas drásticas na Europa, onde ondas de calor sucessivas pressionam uma economia já sob pressão das tarifas dos EUA, da concorrência chinesa e dos preços mais altos de energia em razão da guerra no Irã.

A Nuclearelectrica, produtora nuclear estatal da Romênia, começou a desconectar seu único reator operacional da rede elétrica devido aos níveis recordes de baixa das águas do Danúbio, essenciais para o resfriamento de seus equipamentos, confirmou a empresa à CNN.

O país declarou estado de emergência energética durante todo o mês de agosto e pediu a empresas e residências que reduzissem voluntariamente o consumo, informou a Reuters.

Em outros países, França e Hungria tiveram de reduzir a produção nuclear devido aos baixos níveis dos rios e às altas temperaturas. As condições de seca também estão alimentando incêndios florestais devastadores e custosos, além de reduzir a produtividade das colheitas, ameaçando elevar os preços dos alimentos.

O verão escaldante da Europa pode custar à economia €$180 bilhões (US$208 bilhões) neste ano, ou 1% do PIB (Produto Interno Bruto, aproximadamente o crescimento econômico total esperado para a União Europeia, segundo estimativa do Triodos Bank, com sede nos Países Baixos.

"A queda na produtividade do trabalho provavelmente terá o maior impacto econômico, ao lado das perturbações na agricultura, energia e transporte", afirmou o banco em relatório divulgado.

Grandes extensões da Europa enfrentam sua 5ª onda de calor do ano nesta semana, com partes da Grã-Bretanha, França, Espanha e Itália sob alertas de calor extremo.

A mais recente onda de calor ocorre após a Europa Ocidental registrar o junho e julho mais quentes já documentados, de acordo com o Copernicus, o monitor climático da União Europeia. Em Paris, o calor extremo levou a Torre Eiffel e o Louvre a fecharem mais cedo em alguns dias.

Embora alguns analistas duvidem que o calor terá um impacto significativo no crescimento econômico neste ano, apontando para a melhora na confiança empresarial em julho e o aumento do PIB no primeiro semestre, o clima quente não é a única ameaça econômica.

Os europeus também enfrentam a perspectiva de aumento nas contas de energia neste inverno, à medida que os preços do gás natural O preço dos contratos futuros de referência de gás natural foi negociado próximo aos níveis mais altos desde o início da guerra no Irã nesta semana, e quase o dobro do registrado no mesmo período do ano passado.

A guerra no Oriente Médio tornou as cargas mais escassas e, consequentemente, mais caras, aumentando as perspectivas de uma nova crise energética.

O calor intenso também elevou a demanda por ar-condicionado, impulsionando o consumo de gás natural em um momento em que os estoques precisam ser reabastecidos antes do inverno.

"O mercado de gás natural da UE está vulnerável diante do pico de demanda no inverno", escreveu Kieran Tompkins, economista sênior de clima e commodities da Capital Economics, em uma nota publicada no início deste mês. "Os níveis de armazenamento são os mais baixos para este período do ano em mais de uma década".
Rios secos, agricultura noturna

O Danúbio não é a única hidrovia europeia crítica que está secando em consequência de uma seca prolongada.

Na Alemanha, maior economia da Europa, os níveis recordes de baixa do Rio Reno — uma importante rota de transporte para produtos industriais como aço e produtos químicos — podem reduzir em 0,3 ponto percentual o crescimento do PIB do país neste ano, segundo economistas do banco pan-europeu ING.

Isso seria um golpe pesado para uma economia que cresce menos de 1% ao ano.

A BASF, gigante alemã do setor químico, afirmou que pode ser incapaz de cumprir pedidos de alguns compostos químicos porque os baixos níveis de água do Reno restringiram o fornecimento de certas matérias-primas essenciais.

"Estamos… transferindo volumes para modais alternativos de transporte, como caminhões e ferrovias", disse a empresa à CNN, observando que também está utilizando um número maior de embarcações especificamente projetadas para navegar em águas rasas.

Vários estados alemães suspenderam temporariamente as proibições de circulação de caminhões aos domingos em um esforço emergencial para mitigar a perturbação na cadeia de suprimentos.

A Comissão Europeia afirmou no início deste ano que os estados-membros da UE deveriam investir cerca de €$ 70 bilhões (US$ 81 bilhões) por ano até 2050 em adaptação climática — gastos que poderiam impulsionar as economias, mas que também exerceriam pressão sobre os orçamentos governamentais já sobrecarregados.

Algumas empresas já começaram a se adaptar de maneiras inovadoras. Na Inglaterra, uma região notoriamente chuvosa, a Rookery Farm, de propriedade familiar, está colhendo sua safra às 3hs para garantir que ela tenha teor de umidade suficiente.

"A colheita não é mais apenas uma questão de escapar da chuva — agora estamos nos adaptando a culturas que podem ficar secas demais, o que significa mais colheitas noturnas para atender aos padrões de qualidade exigidos pelos nossos clientes", disse a agricultora Eleanor Gilbert em um vídeo publicado no Instagram.

Altos preços de energia à frente

Enquanto a Europa enfrenta sucessivas ondas de calor, ela também se depara com a perspectiva de uma crise energética no inverno.

Os níveis de armazenamento de gás em toda a UE estavam 59% cheios, de acordo com dados do Gas Infrastructure Europe — bem abaixo da média para esta época do ano e em linha com os níveis observados durante o verão de 2021, quando a Rússia havia começado a restringir as exportações para o continente.

"Estou muito preocupada", disse Anne-Sophie Corbeau, pesquisadora do Center on Global Energy Policy da Columbia University, sobre a capacidade da UE de repor os estoques reduzidos.

"Houve muito poucos carregamentos… saindo pelo Estreito de Hormuz. Todos eles estão indo para a Ásia", ela disse à CNN.

O verão é a época de pico na Europa para o abastecimento de gás antes dos meses mais frios do inverno, quando os preços costumam ser consideravelmente mais altos. No entanto, o Estreito de Hormuz ainda está efetivamente fechado, bloqueando  do fornecimento mundial de gás natural liquefeito — uma forma líquida do combustível transportada por navios-tanque.

Os carregamentos restantes, como os provenientes dos Estados Unidos, também têm maior probabilidade de se dirigir à Ásia do que à Europa, dizem analistas, porque a demanda lá é particularmente forte e os compradores estão pagando mais.

Mas isso "não é uma crise de '22'", disse Christoph Halser, analista sênior de pesquisa de gás e GNL da Rystad Energy, referindo-se aos históricos picos de preços naquele ano na Europa após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia.

Desde então, o continente reduziu significativamente suas importações do gás de Moscou — a maior parte das quais chegava por gasodutos — além de ter reduzido seu consumo geral.

"A demanda de gás na Europa hoje é aproximadamente 20% menor do que, digamos, em 2021", disse Halser à CNN.

Massimo Di Odoardo, vice-presidente de pesquisa de gás e GNL da Wood Mackenzie, também está confiante de que a Europa evitará um cenário grave de escassez de energia e apagões.

O risco de escassez é "exagerado", disse ele, acrescentando que a região tem condições de "se livrar" de qualquer situação desse tipo por meio de compras.
Ainda assim, os preços estão em níveis preocupantemente elevados.

O preço do contrato de referência de gás natural da Europa fechou a €$61 ($70) por megawatt-hora, bem acima dos €$32 ($37) registrados no mesmo dia em 2025, de acordo com dados da Intercontinental Exchange.

Durante o inverno, "a Europa deveria estar realmente preocupada com uma situação em que o Estreito de Hormuz não seja aberto, pois isso certamente poderia resultar em preços extremamente altos", disse Di Odoardo. (cnnbrasil)

sábado, 5 de setembro de 2026

Aquecimento global é uma emergência de saúde pública que bate à nossa porta

O aquecimento global é uma grave crise sanitária. Ele causa ondas de calor letais, acelera a propagação de vetores de doenças como a dengue, piora a poluição do ar e ameaça sistemas de saúde. Como aponta análises recentes sobre o tema no EcoDebate, o calor e as mudanças do clima alteram o comportamento de patógenos.

Impactos Diretos na Saúde

• Calor extremo: Provoca desidratação rápida, exaustão e sobrecarga cardiovascular.

• Doenças infecciosas: Temperaturas altas expandem as áreas de reprodução de mosquitos da dengue, zika e chikungunya.

• Problemas respiratórios: A poluição do ar agravada por queimadas afeta pulmões e vias aéreas.

• Segurança alimentar: Secas e tempestades reduzem a safra de alimentos e contaminam a água potável.

Grupos de Risco e Desafios

• Populações vulneráveis: Crianças, idosos e pessoas com males crônicos sofrem mais com as variações bruscas.

• Pressão hospitalar: Desastres climáticos geram picos de atendimento e risco de falhas estruturais em postos de atendimento.

• Ações locais: Especialistas cobram vigilância genômica e redes de atendimento preparadas para surtos repentinos.

Como as mudanças climáticas estão reescrevendo o mapa das doenças infecciosas e o que podemos fazer para nos preparar.

Relatório revela que o planeta em ebulição não transforma apenas o clima. Ele acelera a propagação de vírus, bactérias e fungos que antes estavam longe de nós. A boa notícia é que a ciência já sabe como agir.

A estação que não reconheço mais

Você já parou para reparar que o outono parece cada vez mais um verão prolongado? Que o inverno chega tarde e vai embora cedo, deixando um rastro de dias quentes onde antes era frio? Não é impressão sua. Eu também tenho sentido isso nas últimas temporadas e não estou falando apenas de desconforto térmico. Estou falando de algo muito mais silencioso e perigoso.

Essa virada no ritmo da natureza não está apenas bagunçando nossos calendários. Está reescrevendo, em tempo real, o mapa das doenças que nos cercam. O que antes era um problema de geleiras e ursos polares agora entrou pela porta da frente, no posto de saúde mais próximo, no boletim de dengue da sua cidade.

O relatório global “Role of Climate Change on Emerging and Reemerging Infectious Diseases: From Attribution to Action in Global Health Preparedness”, colocar isso em números e em palavras que não podemos mais ignorar: a mudança climática antropogênica, aquela que alimentamos a cada dia com nossa forma de produzir, consumir e viver, tornou-se uma ameaça fundamental à saúde pública. Não é uma ameaça futura. É atual, presente, e já está fazendo vítimas.

O motor invisível das epidemias

Quando falamos em aquecimento global, costumamos imaginar ondas de calor, secas, enchentes. Raramente pensamos em vírus. Mas a ciência hoje é categórica ao afirmar que o clima não é o cenário onde a vida acontece; ele é o motor principal da dinâmica das doenças infecciosas.

Microrganismos que antes estavam confinados a regiões tropicais, equilibrados por cadeias ecológicas estáveis, estão encontrando novos lares. Mosquitos migram para altitudes mais altas, pulgas sobrevivem a invernos mais curtos, fungos se adaptam a temperaturas que antes os inativariam. Não é ficção científica. É ecologia em movimento, impulsionada por nós.

O relatório me chamou a atenção para um campo que considero fascinante e ao mesmo tempo assustador: a Ciência da Atribuição. Diferente das afirmações vagas de que “o calor favorece doenças”, os cientistas estão agora quantificando com precisão o quanto de cada surto pode ser debitado diretamente à nossa interferência no clima.

Sabe aquela sensação de que todo ano a dengue chega mais forte? Ela tem lastro matemático. Os pesquisadores estimam que cerca de 18% da carga global de dengue entre 1995 e 2014 pode ser atribuída às mudanças climáticas. Não é um detalhe. É quase um quinto de todas as infecções. Em 2023, o Ciclone Yaku no Peru desencadeou chuvas extremas que tornaram o maior surto de dengue da história daquele país, 189% mais provável justamente por causa da interferência humana no clima.

Não são números frios. São leitos de UTI, famílias de luto, crianças com febre, idosos desidratados. Cada porcentagem ali tem um rosto.

Doenças que nunca pediram visto

O relatório elenca uma lista de velhos conhecidos que estão ganhando novo fôlego. O Vírus do Nilo Ocidental, que considerávamos um problema restrito a algumas regiões da África e Oriente Médio, agora se espalha pela Europa, aproveitando verões mais longos e invernos que não matam mais seus vetores. A própria peste, a mesma que dizimou populações na Idade Média, está reemergindo em focos pontuais porque roedores e pulgas encontram condições favoráveis em climas alterados.

Mas o que mais me impactou foi o alerta sobre infecções fúngicas invasivas, como a candidemia. Fungos sempre foram uma ameaça para pessoas imunossuprimidas, mas agora estão se adaptando ao calor do nosso planeta. E, como sabemos, fungos são particularmente difíceis de tratar. Há poucos medicamentos disponíveis e a resistência aumenta.

Parece um enredo de filme de suspense, mas é a realidade da pesquisa médica hoje. O calor ensina os patógenos a sobreviverem dentro de nós.

O que a COVID-19 nos ensinou e ainda não colocamos em prática

Se tem uma coisa que a pandemia de COVID-19 deixou muito clara é que sistemas de saúde frágeis e a desinformação matam tanto quanto o próprio vírus. Mas também nos mostrou o poder da ciência quando ela age rápido, de forma colaborativa e transparente.

O relatório sugere que o caminho para nos prepararmos para o que vem pela frente não é construir muros, mas sim pontes. Pontes entre laboratórios e comunidades, entre dados ambientais e registros médicos, entre governos e cidadãos.

Isso significa investir em diagnósticos acessíveis. Soa básico, mas muitas comunidades carecem dos testes mais simples para identificar um surto antes que ele se alastre. Significa também Vigilância Genômica, o monitoramento do material genético de patógenos, inclusive no esgoto das cidades, para detectar ameaças quando ainda são apenas um sinal fraco. E, acima de tudo, significa união global e local. O clima não respeita fronteiras e as doenças também não. Dados abertos, compartilhamento justo, cooperação entre países e entre vizinhos de bairro.

O que eu posso fazer?

É a pergunta que sempre faço quando o tema parece grande demais. Mudança climática, emergência sanitária, vigilância genômica, aparecem assuntos de cientistas em jalecos brancos e diplomatas em salas fechadas. Mas o relatório enfatiza que a transformação passa pelo engajamento comunitário.

E isso inclui você e eu

Profissionais de saúde precisam ser treinados para reconhecer essas “novas” doenças que estão ressurgindo e nós, como cidadãos, precisamos confiar na ciência, mas também cobrar políticas públicas de adaptação. Exigir que nosso posto de saúde tenha testes rápidos. Apoiar a ciência aberta. Entender que o ar que respiramos e a água que bebemos não são vetores de medo, mas de vida e que protegê-los é uma escolha coletiva.

A ciência da atribuição já nos mostra os números. A ciência da convergência nos mostra o caminho: integrar climatologia, medicina, ecologia e ciências sociais. Não dá mais para tratar cada área separadamente.

Um futuro que ainda podemos escrever

Fecho o relatório com uma mistura de inquietação e esperança. Inquietação porque os dados são incontornáveis. Esperança porque a ciência já sabe o que fazer. Diagnósticos acessíveis, vigilância genômica inteligente, sistemas de resposta rápida e, acima de tudo, humanidade.

Não é uma tarefa para laboratórios. É uma escolha de cada um de nós, todos os dias, ao votar, ao consumir, ao cobrar, ao cuidar do quintal e da saúde do vizinho.

O planeta está aquecendo, sim. Mas nosso coração e nossa razão também podem aquecer, no sentido de se mover, de agir, de se antecipar.

Porque, no fim, a maior vacina contra as doenças do amanhã é o conhecimento compartilhado hoje. E a melhor barreira contra o caos é a solidariedade. (ecodebate)

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