quarta-feira, 17 de junho de 2026

El Niño deverá ser terrível

Neste ano, o El Niño deve ser terrível.
Um super El Niño num planeta em total desequilíbrio? O pior está para vir em 2026.

Imagem da NASA compara 2 momentos. À esquerda, o oceano Pacífico com uma zona de aquecimento a leste, típica do El Niño. À direita, o oceano em estado considerado neutro.

O perigo não está na probabilidade de um forte El Niño que se anuncia para 2026, mas no facto de este fenómeno natural atingir o planeta num momento crítico de crise climática, avisam os cientistas.

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Modelos meteorológicos da NOAA (agência climática dos Estados Unidos) apontam mais de 80% de chance de formação de um "super El Niño" este ano, com impactos severos esperados a partir do inverno e pico no verão. O fenômeno traz grande preocupação devido à sua potencial intensidade extrema.

Abaixo estão os principais impactos esperados para cada região do Brasil:

• Região Sul: Alto risco de chuvas excessivas, tempestades severas e enchentes, com a Defesa Civil de estados como Santa Catarina e Rio Grande do Sul já em estado de atenção para evitar tragédias.

• Regiões Norte e Nordeste: Expectativa de seca severa, impactos diretos na Amazônia e potencial elevação do risco de incêndios florestais e problemas na agricultura.

• Região Sudeste: Geralmente, o fenômeno provoca um aumento nas temperaturas médias e chuvas irregulares.

Para acompanhar em tempo real as projeções oficiais e alertas de emergência, você pode consultar as atualizações diárias no portal do INPE ou monitorar os avisos emitidos pela Defesa Civil do seu estado.

El Niño

O El Niño de 2026 chega quando já estão ocorrendo secas generalizadas, cadeias de suprimento fragilizadas e recordes sucessivos de aquecimento dos oceanos.

Como se não bastassem a escassez de petróleo, as guerras intermináveis e a insegurança gerada pelo crescimento da inteligência artificial, há um novo fator de tensão no horizonte: o El Niño, que deverá ser um dos mais severos em mais de um século.

O próximo El Niño, fenômeno caracterizado por temperaturas anormalmente elevadas nos oceanos e que ocorre a cada 2 a 7 anos, com duração média de 12 a 18 meses, pode, de acordo com diversos modelos climáticos, se tornar o mais intenso da era moderna.

Segundo o Wall Street Journal, o aquecimento pode elevar a temperatura das águas em até 3°C, provocando secas devastadoras em algumas regiões, enchentes em outras e, talvez o mais assustador, um colapso nas cadeias globais de abastecimento de alimentos.

Alerta! El Niño volta a se formar no Pacífico e tem mobilizado os estados em uma corrida desenfreada.

Para encontrar algo semelhante ao que se acredita deve ocorrer neste ano, cientistas voltaram a 1877, quando um El Niño implacável desencadeou uma catástrofe sem precedentes. A seca prolongada culminou em uma fome global que matou ao menos 50 milhões de pessoas; algumas estimativas falam em até 60 milhões, cerca de 3% da população mundial da época. Pesquisadores classificaram o episódio como o pior desastre ambiental já enfrentado pela humanidade e uma das maiores calamidades dos últimos 150 anos, comparável às Guerras Mundiais e à epidemia de gripe de 1918/19.

Especialistas veem eventos como o de 1877 como verdadeiros testes de estresse para a civilização, revelando fragilidades políticas e econômicas. No século XIX, a pobreza generalizada e a exploração colonial agravaram os efeitos da fome e a humanidade falhou nesse teste.

Hoje, apesar dos avanços tecnológicos e científicos, os desafios persistem. O El Niño de 2026 chega quando já estão ocorrendo secas generalizadas, cadeias de suprimento fragilizadas e recordes sucessivos de aquecimento dos oceanos.

No Brasil, os maiores riscos são de enchentes no Sul e secas no Norte e Nordeste; pessoal ligado ao agronegócio já vem se movimentando tentando limitar os danos, que também deverão ocorrer por aqui.

Se este ano entrará para a história com mais um episódio de desastre evitável dependerá de como a sociedade utilizará os recursos, o conhecimento e a tecnologia disponíveis. (ecodebate)

O que a ciência revela sobre o elo entre clima e doenças

A ciência demonstra que o clima é um determinante central da saúde humana, influenciando a propagação de vetores, a qualidade do ar e a segurança da água. Mudanças nos padrões de chuva, elevação da temperatura média e desastres naturais agravam a incidência de doenças respiratórias, infecciosas, cardiovasculares e transtornos mentais.

O elo direto entre o clima e as enfermidades se manifesta em áreas críticas mapeadas por instituições de saúde:

• Doenças Infecciosas e Vetoriais: O aumento do calor e da umidade expande o habitat de vetores (como o mosquito Aedes aegypti), acelerando a transmissão de arboviroses como dengue, chikungunya e zika. Tempestades severas e enchentes aumentam os riscos de surtos de leptospirose e hepatites.

• Problemas Respiratórios e Alérgicos: Variações térmicas e inversões térmicas constantes afetam a qualidade do ar, piorando casos de asma, bronquite e alergias. O estresse térmico também eleva a concentração de partículas alergênicas das plantas.

• Saúde Mental: Desastres climáticos drásticos, como enchentes e secas severas, causam perdas materiais e forçam deslocamentos, expondo populações a um risco maior de desenvolver ansiedade, depressão e estresse pós-traumático.

• Condições Cardiovasculares: Ondas de calor extremo e picos de frio afetam a capacidade de termo regulação do corpo, sobrecarregando o sistema circulatório e aumentando os riscos de infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs).

Para monitorar alertas e entender os impactos regionais, consulte os relatórios e painéis fornecidos pelo Portal Fiocruz ou as diretrizes de emergências climáticas no Ministério da Saúde.

Um novo relatório global alerta que o aquecimento do planeta não é apenas uma crise ambiental, mas uma emergência de saúde pública que exige vigilância, ciência de ponta e, acima de tudo, humanidade.

O invisível à nossa porta

Você já sentiu que as estações não são mais as mesmas? Talvez tenha notado que as notícias sobre surtos de dengue ou novas viroses estão mais frequentes.

Não é apenas impressão sua. A mudança climática antropogênica, aquela causada por nós humanos, tornou-se uma ameaça fundamental à saúde global. Ela está alterando silenciosamente a ecologia, a evolução e a distribuição de microrganismos que, antes, estavam distantes de nós.

Como jornalista, que acompanha os avanços da ciência do clima e temas associados, vejo que o relatório “Role of Climate Change on Emerging and Reemerging Infectious Diseases“ nos traz um alerta de que o clima não é apenas um pano de fundo para a nossa vida; ele é o motor principal da dinâmica das doenças hoje.

A ciência de dar nome aos culpados

Muitas vezes, ouvimos que “tudo é culpa do clima”, mas a ciência agora quer ser mais precisa. Existe um campo fascinante chamado Ciência da Atribuição. Em vez de apenas dizer que o calor “combina” com doenças, os cientistas estão quantificando o quanto de uma enfermidade é diretamente causado pelo aquecimento global.

Por exemplo, você sabia que cerca de 18% da carga global de dengue entre 1995 e 2014 pode ser atribuída às mudanças climáticas? Ou que, em 2023, o Ciclone Yaku, no Peru, causou chuvas extremas que tornaram o maior surto de dengue da história daquele país 189% mais provável, devido à interferência humana no clima?

Esses números não são apenas estatísticas; eles representam vidas impactadas, hospitais lotados e famílias em risco.

Tudo está conectado: saiba como a crise climática já afeta sua saúde

Doenças que “viajam” com o calor

O relatório destaca que doenças que considerávamos sob controle ou restritas a certas regiões estão ganhando terreno. O Vírus do Nilo Ocidental está se expandindo pela Europa, aproveitando verões mais quentes e invernos mais curtos. Até a Peste, responsável por pandemias históricas, está reemergindo à medida que roedores e pulgas encontram condições favoráveis em climas alterados.

Além disso, estamos vendo o aumento de infecções fúngicas invasivas, como a candidemia, que são especialmente difíceis de tratar e estão se adaptando ao calor do nosso planeta.

Aprendendo com o passado para proteger o futuro

A pandemia de COVID-19 nos deixou cicatrizes, mas também lições valiosas. Aprendemos que sistemas de saúde frágeis e a desinformação podem ser tão letais quanto o próprio vírus. Para enfrentar o que vem pela frente, o relatório sugere que precisamos de Sistemas de Resposta Rápida e Resilientes.

Isso significa:

• Investir em diagnósticos acessíveis: Muitas comunidades não têm testes básicos para identificar surtos antes que eles se espalhem.

• Vigilância Genômica: Monitorar o “DNA” dos patógenos, inclusive através do esgoto das nossas cidades, para detectar ameaças precocemente.

• União Global e Local: O clima não respeita fronteiras e as doenças também não. Precisamos que cientistas, governos e comunidades locais trabalhem juntos, compartilhando dados de forma aberta e justa.

Da pesquisa à ação

A mudança climática pode parecer um problema grande demais para um indivíduo resolver. No entanto, o relatório enfatiza que o caminho passa pela ciência convergente e pelo engajamento comunitário. Precisamos de profissionais de saúde treinados para reconhecer essas “novas” doenças e de cidadãos que confiem na ciência e exijam políticas públicas de adaptação.

Proteger a nossa saúde em um planeta em aquecimento não é apenas uma tarefa para laboratórios; é uma escolha coletiva por um futuro, onde o ar que respiramos e a água que bebemos não sejam vetores de medo, mas de vida.

O relatório “Role of Climate Change on Emerging and Reemerging Infectious Diseases: From Attribution to Action in Global Health Preparedness” detalha como a mudança climática antropogênica atua como um motor crítico na emergência e redistribuição de doenças infecciosas, afetando a ecologia de patógenos e vetores. Especialistas enfatizam a necessidade de avançar na ciência de atribuição, um método estatístico que isola o impacto do aquecimento global frente à variabilidade natural para orientar decisões de saúde pública. O texto propõe um modelo de preparação global baseado no fortalecimento da vigilância sanitária, criação de diagnósticos acessíveis e integração de dados ambientais com registros médicos. Além disso, destaca-se a urgência de estudos longitudinais e investimentos em infraestrutura para enfrentar ameaças crescentes, como malária, dengue e infecções fúngicas. Por fim, o documento recomenda a ciência de convergência e a cooperação internacional para construir sistemas de saúde resilientes e restaurar a confiança pública em instituições científicas. (ecodebate)

segunda-feira, 15 de junho de 2026

2°C de aquecimento global é mais perigoso do que imaginamos

Um aquecimento global de 2°C é muito mais perigoso do que se imaginava, ameaçando o futuro da humanidade. Esse cenário aumenta drasticamente o risco de colapso de ecossistemas vitais, ameaça a segurança alimentar e projeta tornar áreas do tamanho do Brasil inabitáveis devido ao calor extremo.

O consenso científico detalha riscos alarmantes caso o limite de temperatura global seja superado:

• Calor Extremo e Sobrevivência Humana: Um aumento de 2°C pode triplicar a área do planeta onde o calor extremo e a umidade tornam a sobrevivência humana inviável, mesmo para jovens saudáveis.

• Colapso da Biodiversidade: Este limiar decretará a morte de mais de 99% dos recifes de coral do mundo. Além disso, a perda de habitat para milhares de espécies será severamente agravada.

• Escassez de Alimentos: As mudanças climáticas associadas aumentam em mais de 50% a frequência de secas severas em regiões produtoras cruciais para o trigo, milho, arroz e soja, desestabilizando a cadeia alimentar e a economia global.

• Eventos Climáticos: O agravamento do clima eleva o derretimento de geleiras (Antártica e Groenlândia), o que acelera o aumento do nível do mar e ameaça cidades costeiras.

Para compreender detalhadamente a diferença entre os cenários de controle de temperatura, a WRI Brasil disponibiliza análises sobre os impactos entre 1,5/C à 2°C de aquecimento. Se você quiser verificar as atualizações mais recentes sobre as metas globais de emissões, o portal da ONU Meio Ambiente acompanha de perto o progresso das ações climáticas.

Um novo estudo revela que a “meta segura” pode esconder desastres climáticos extremos na agricultura e nas nossas cidades.

Sempre que ouvimos falar sobre o aquecimento global, os números 1,5°C ou 2°C surgem como “metas” ou limites de segurança. No entanto, um estudo recente do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental (UFZ) acende um sinal vermelho de que essa ideia, de um aquecimento moderado “sob controle”, pode ser uma armadilha perigosa.

Em geral, pensamos que o pior cenário estaria reservado para quando atingíssemos 3°C ou 4°C, mas a ciência agora mostra que o perigo pode bater à nossa porta muito antes, e de forma muito mais agressiva do que as médias sugerem.

O problema das “médias” climáticas

Muitas vezes, as projeções que vemos são baseadas em médias de vários modelos. O Dr. Emanuele Bevacqua, autor principal do estudo, alerta que essa abordagem ignora os “piores cenários” que podem ocorrer em regiões específicas, mesmo com um aquecimento global de apenas 2°C.

Não podemos confundir aquecimento global moderado com impactos moderados. O clima não funciona de forma linear em todo o planeta; enquanto uma região pode estar dentro da média, outra pode estar enfrentando um colapso agrícola.

Ameaça real ao que comemos

Um dos pontos mais alarmantes do estudo, publicado na revista Nature, é o impacto na segurança alimentar global. Os pesquisadores focaram em regiões produtoras de milho, trigo, soja e arroz.

Os dados são assustadores: em alguns modelos climáticos, a frequência de secas com um aquecimento de 2°C pode aumentar em mais de 50%.

Para se ter uma ideia, 10 dos modelos analisados mostraram que, com 2°C, o risco de seca em regiões agrícolas cruciais é maior do que a média esperada para um mundo 4°C mais quente. Isso afeta diretamente os preços nos supermercados e as cadeias de abastecimento globais.

Cidades e florestas sob pressão

Além da comida, o estudo identificou outros dois grandes riscos em um cenário de 2°C:

• Chuvas intensas: Regiões densamente povoadas podem enfrentar inundações severas que superam as projeções de aquecimentos maiores.

• Incêndios florestais: O clima extremo pode criar condições perfeitas para incêndios devastadores em nossas florestas, ocorrendo com mais frequência do que o esperado.

Por que isso importa?

Essa dependência das “médias” nos dá uma falsa sensação de segurança. O risco é real e está mais próximo do que as políticas públicas atuais costumam prever.

O estudo deixa claro que não podemos esperar o pior cenário de aquecimento para agir. A mitigação climática precisa ser ambiciosa o suficiente para manter o aquecimento bem abaixo de 2°C, protegendo os setores que sustentam a nossa sociedade.

Precisamos olhar além dos números confortáveis e encarar a realidade, porque mesmo o “moderado” pode ser extremo para quem vive o impacto na pele.

Resumo

O estudo “Moderate global warming does not rule out extreme global climate outcomes”, liderado pelo Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental, revela que o aquecimento global moderado de 2°C pode desencadear consequências muito mais severas do que as previsões baseadas em médias estatísticas sugerem. Ao analisar modelos climáticos individuais em vez de consensos gerais, os pesquisadores descobriram que setores vitais, como a agricultura, florestas e zonas urbanas, enfrentam riscos extremos de secas e chuvas intensas mesmo em níveis baixos de aquecimento. A pesquisa destaca que focar apenas nas tendências prováveis cria uma falsa sensação de segurança, ignorando cenários de pior caso que superam os impactos esperados para um aquecimento de 4°C. Os autores enfatizam que a segurança alimentar global está sob ameaça significativa devido à possibilidade de secas severas em diversas regiões produtoras simultaneamente. Diante dessas incertezas, o artigo defende a necessidade urgente de medidas de mitigação ambiciosas e um planejamento de adaptação que considere os riscos climáticos mais drásticos. (ecodebate)

sábado, 13 de junho de 2026

Região Centro-Oeste tem a 2ª estrutura etária mais rejuvenescida

A região Centro-Oeste tem a segunda estrutura etária mais rejuvenescida.
Com base nos dados do Censo 2022, a região Centro-Oeste possui uma das estruturas etárias mais jovens do Brasil, situando-se geralmente como a 2ª mais rejuvenescida, atrás apenas da região Norte. Embora o país esteja envelhecendo, o Centro-Oeste mantém uma idade mediana abaixo da média nacional.

Pontos-chave sobre o Centro-Oeste (Censo 2022/2023):

• A 2ª mais jovem: A região Norte é a mais jovem, enquanto o Centro-Oeste apresenta maior proporção de jovens e adultos ativos em comparação com o Sul e Sudeste, que são mais envelhecidos.

• Transição demográfica: A região ainda possui uma estrutura etária "rejuvenescida", com o envelhecimento populacional ocorrendo em ritmo moderado em certas áreas, mas crescendo na média nacional.

• Influência da migração: O crescimento populacional impulsionado pela atração de trabalhadores (especialmente no setor agropecuário e serviços urbanos) contribui para manter a estrutura etária mais jovem em relação a regiões tradicionais.

Enquanto Sul e Sudeste lideram o envelhecimento, o Centro-Oeste atua como uma região de transição, com estrutura intermediária, mas ainda com rejuvenescimento considerável.

A região Centro-Oeste, embora ainda apresente a segunda estrutura etária mais rejuvenescida do país, já iniciou a fase de declínio da população em idade ativa.

O Brasil está passando por uma rápida e profunda mudança da sua estrutura etária. No século XXI, pela primeira vez na história, haverá mais idosos (60 anos e +) do que crianças e adolescentes (0-14 anos). O envelhecimento populacional será a principal tendência demográfica dos anos 2000. Mas o ritmo de avanço tem sido diferenciado para as Grandes Regiões do país.

O gráfico abaixo, com dados dos Censos Demográficos de 1970 a 2022, do IBGE, mostra o Índice de Envelhecimento (IE) para o Brasil e as Grandes Regiões. O Brasil tinha um IE de 12 idosos de 60 anos e mais para cada 100 crianças e adolescentes de 0-14 anos, passando para 16 idosos para cada 100 jovens em 1980, para 29 em 2000, 45 em 2010 e 80 idosos 60+ para cada 100 jovens de 0-14 anos em 2022.

As regiões Sul e Sudeste possuem IE acima da média nacional e as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste possuem IE abaixo da média nacional. A região Norte apresenta a estrutura etária mais jovem, com um IE que passou de 8 idosos para cada 100 jovens em 1970 para 41 idosos para cada 100 jovens em 2022. A região Sudeste tem o maior Índice de Envelhecimento, passando de 15 idosos por 100 jovens em 1970 para 98 idosos de 60+ por 100 jovens de 0-14 anos em 2022. Portanto, até 2022, havia mais jovens do que idosos em todas as regiões, embora haja quase um empate na região Sudeste.

O gráfico abaixo, com dados dos censos demográficos do IBGE, mostra a evolução das percentagens de alguns grupos etários selecionados entre 1970 e 2022. O grupo etário de jovens 0-14 anos era de 42% da população brasileira em 1970 e caiu para menos da metade (19,8%) em 2022. O grupo etário de 15-59, que corresponde grosso modo à população em idade economicamente ativa, subiu de 52,7% em 1970 para 65,1% em 2010, significando que a janela de oportunidade demográfica estava se abrindo.

Porém, o percentual de pessoas entre 15-59 anos diminuiu para 64,4% em 2022, significando que a janela de oportunidade começou a se fechar. Não é o fim absoluto do 1º bônus demográfico, mas significa que o Brasil precisa investir nas outras janelas de oportunidade, ou seja, no 2º bônus (da produtividade) e o 3º bônus (da longevidade).

A população 50+ era de 10,7% em 1970, ultrapassou os jovens de 0-14 anos por volta de 2012 e chegou a 27,7% em 2022. A população 60+ era de 5,1% em 1970 e chegou a 15,8% em 2022, se aproximando do percentual da população jovem. A população 70+ era de 1,8% em 1970 e chegou a 7% da população total do Brasil em 2022.

O gráfico abaixo, com dados da região Centro-Oeste permite comparar com a média nacional do gráfico anterior. A proporção de jovens de 0-14 anos no Centro-Oeste é maior do que a proporção brasileira. Era de 45,1% da população do Centro-Oeste em 1970 e caiu para 20,9% em 2022. O grupo etário de 15-59, que corresponde grosso modo à população em idade economicamente ativa, subiu de 51,3% em 1970 para 66,7% em 2010, proporção maior do que a média nacional e também significando que a janela de oportunidade demográfica estava se abrindo.

Porém, o percentual de pessoas 15-59 anos diminuiu para 65,9% em 2022, significando que a janela de oportunidade começou a se fechar. Não é o fim absoluto do 1º bônus demográfico, mas significa que o Brasil precisa investir nas outras janelas de oportunidade, ou seja, no 2º bônus (da produtividade) e o 3º bônus (da longevidade).

A população do Centro-Oeste de 50+ era de 7,9% em 1970, ultrapassou os jovens de 0-14 anos em 2019 e chegou a 24,7% em 2022. A população 60+ era de 3,4% em 1970 e chegou a 13,2% em 2022, se aproximando do percentual da população jovem. A população do Centro-Oeste de 70+ era de 1,1% em 1970 e chegou a 5,6% da população em 2022.

A região Centro-Oeste ocupa uma posição singular na dinâmica demográfica brasileira. Embora ainda apresente a segunda estrutura etária mais rejuvenescida do país, já iniciou a fase de declínio da população em idade ativa, sinalizando o avanço da transição demográfica. Ao mesmo tempo, por ser o principal polo produtor de commodities agropecuárias e minerais, continua atraindo imigrantes jovens de outras regiões. Essa combinação de envelhecimento incipiente com forte migração seletiva cria um quadro híbrido, repleto de desafios estruturais e oportunidades estratégicas.

Os principais desafios são:

Esgotamento gradual do bônus demográfico. A queda da população em idade ativa indica que o bônus demográfico está se aproximando do fim. Se a produtividade não crescer suficientemente, o dinamismo econômico pode desacelerar nas próximas décadas.

Dependência de setores intensivos em capital e pouco intensivos em trabalho. A produção de commodities, especialmente no agronegócio moderno, é altamente mecanizada. Isso limita a absorção de mão de obra e pode gerar um descompasso entre o volume de migrantes jovens e as oportunidades de emprego de qualidade.

Urbanização acelerada e pressão sobre cidades médias. O fluxo migratório pressiona infraestrutura urbana, habitação, saneamento, mobilidade e serviços públicos, especialmente em cidades médias que crescem rapidamente, muitas vezes sem planejamento adequado.

Desigualdades sociais e territoriais. O crescimento econômico baseado em commodities não garante, automaticamente, distribuição de renda. Persistem bolsões de informalidade, trabalho precário e exclusão social, sobretudo entre migrantes recentes.

Vulnerabilidade às oscilações do mercado internacional. A forte especialização produtiva torna a região sensível a choques externos, variações de preços e mudanças climáticas, o que pode afetar emprego e arrecadação.
O Brasil envelheceu: você está pronto para o mercado de 2026-2030?

As principais oportunidades são:

Renovação demográfica via migração interna. A atração contínua de jovens atenua os efeitos do envelhecimento e do declínio da população ativa, funcionando como um “amortecedor demográfico” frente à transição em curso.

Aumento da produtividade e inovação no agronegócio. A presença de trabalhadores jovens pode impulsionar a adoção de tecnologias digitais, agricultura de precisão, biotecnologia e práticas sustentáveis, elevando a produtividade total dos fatores.

Diversificação da base econômica. O dinamismo do setor primário cria encadeamentos produtivos em logística, agroindústria, serviços avançados, pesquisa e desenvolvimento, abrindo espaço para maior geração de empregos urbanos.

Consolidação de cidades médias como polos regionais. O crescimento populacional e econômico fortalece cidades médias, que podem se tornar centros de inovação, educação superior e serviços especializados, reduzindo a dependência das metrópoles tradicionais.

Preparação antecipada para o envelhecimento. Por ainda contar com população relativamente jovem, o Centro-Oeste tem uma janela de oportunidade para estruturar políticas de previdência, saúde e cuidados de longo prazo antes que o envelhecimento se intensifique.

A dinâmica demográfica do Centro-Oeste reflete uma transição intermediária: o bônus demográfico já não cresce, mas a migração jovem ainda sustenta o dinamismo regional. O grande desafio é converter crescimento econômico baseado em commodities em desenvolvimento sustentável, diversificado e inclusivo. Se bem administrada, essa fase pode permitir ao Centro-Oeste manter sua vitalidade econômica, reduzir desigualdades e se preparar de forma mais equilibrada para o inevitável envelhecimento populacional nas próximas décadas. (ecodebate)

quinta-feira, 11 de junho de 2026

2026 já bateu recordes climáticos

2026 já bateu recordes climáticos. El Niño pode bater ainda mais

O Centro de Previsão Climática da NOAA prevê que há 61% de probabilidade de o El Niño — um padrão climático natural que envolve o aquecimento das águas do Oceano Pacífico — surgir até julho de 2026 e persistir até o final do ano. O El Niño normalmente eleva temporariamente as temperaturas globais.
A probabilidade cada vez maior de ocorrência do El Niño neste verão provavelmente dará continuidade às tendências climáticas recordes deste ano.

Com a aproximação do meio do ano, vários recordes climáticos já foram quebrados. A extensão do gelo marinho no Ártico atingiu um nível recorde de baixa. Diversos países registraram ondas de calor invernais sem precedentes. E mais de 150 milhões de hectares já foram consumidos por incêndios florestais em todo o mundo.

A probabilidade cada vez maior de ocorrência do El Niño neste verão provavelmente dará continuidade às tendências climáticas recordes deste ano e poderá levar a “um ano sem precedentes de incêndios florestais em escala global”, segundo um comunicado da World Weather Attribution, uma colaboração em pesquisa climática.

“Na história moderna da humanidade, nunca vivenciamos um evento El Niño forte ou muito forte em meio a condições pré-existentes tão quentes em escala global”.

O Centro de Previsão Climática da NOAA prevê que há 61% de probabilidade de o El Niño — um padrão climático natural que envolve o aquecimento das águas do Oceano Pacífico — surgir até julho de 2026 e persistir até o final do ano. O El Niño normalmente eleva temporariamente as temperaturas globais.

Em uma coletiva de imprensa realizada em 11 de maio pela World Weather Attribution, cientistas climáticos descreveram os riscos potenciais deste El Niño emergente no contexto das mudanças climáticas causadas pelo homem, incluindo a intensificação da temporada de incêndios florestais, ondas de calor extremas e o agravamento das secas.

Na coletiva de imprensa, Frederike Otto, cientista climática da World Weather Attribution e do Imperial College London, enfatizou que as mudanças climáticas provavelmente desempenharão um papel maior nos eventos climáticos extremos do restante deste ano do que o El Niño, apontando para mais de 100 análises feitas pela World Weather Attribution que controlaram os efeitos da Oscilação Sul do El Niño (ENSO), o fenômeno climático mais amplo que produz o El Niño e seu fenômeno correlato, La Niña.

“Descobrimos que as mudanças climáticas induzidas pelo homem têm uma influência muito maior na probabilidade e na intensidade de eventos climáticos extremos do que o ENSO”, disse ela.

Ainda assim, o El Niño pode levar as temperaturas médias globais a extremos. Os efeitos do El Niño serão “consideravelmente amplificados pelo aquecimento global de quase 1,5°C (2,7°F) previsto para 2026”, afirmou Daniel Swain, cientista climático da Universidade da Califórnia, Los Angeles, e do Instituto de Recursos Hídricos da Califórnia, em um comunicado. “Na história moderna da humanidade, nunca vivenciamos um evento El Niño forte ou muito forte em meio a condições pré-existentes tão quentes em escala global”.

A temporada global de incêndios florestais “começou muito rápido”, particularmente na savana africana, no Sudeste Asiático e no nordeste da China, disse Theodore Keeping, que estuda clima extremo e incêndios florestais no Imperial College London e na World Weather Attribution, em um relatório. Embora o El Niño possa ter efeitos mistos na temporada de incêndios florestais nos EUA, grande parte do país deve enfrentar um risco elevado de incêndios, e um El Niño forte poderia agravar os incêndios em outras partes do mundo, principalmente na floresta amazônica e na Austrália, afirmou Keeping.
Mais de 150 milhões de hectares já foram queimados em incêndios florestais este ano.

“Este início rápido [da temporada de incêndios florestais], em combinação com a previsão do El Niño, significa que estamos prevendo um ano particularmente severo”, disse Keeping. “A probabilidade de incêndios devastadores e extremos pode ser a mais alta que vimos na história recente”. (ecodebate)

terça-feira, 9 de junho de 2026

El Niño 2026: o que a ciência sabe e o poder público precisa fazer

El Niño e Pacífico Equatorial indicam calor persistente, seca severa no Norte/Nordeste e temporais frequentes no Sul em 2026.

O El Niño 2026 tem alta probabilidade (cerca de 80-90% no segundo semestre) de se desenvolver como um evento intenso, possivelmente um "Super El Niño", com auge na primavera. A ciência alerta para aquecimento recorde do Pacífico, causando secas no Norte/Nordeste e chuvas extremas no Sul. O poder público deve focar em monitoramento contínuo, infraestrutura resiliente e planos de contingência.

O que a Ciência Sabe (Previsões 2026)

• Formação Rápida: O fenômeno deve transicionar de um cenário de neutralidade/La Niña para El Niño entre maio e julho, persistindo até o final do ano.

• Intensidade ("Super El Niño"): Modelos indicam aquecimento da região Niño 3.4 com anomalias superiores a 1,5°C, podendo superar eventos históricos como 1983 e 2015.

• Impactos por Região:

- Sul: Alto risco de chuvas volumosas, enchentes, granizo e tornados a partir de agosto/setembro, especialmente no Rio Grande do Sul.

- Norte/Nordeste: Secas severas e redução de chuvas.

- Sudeste/Centro-Oeste: Calor intenso, ondas de calor longas e risco de secas (fogo/queimadas), com impactos no abastecimento de água e energia.

• Clima Global: 2026 tende a estar entre os anos mais quentes já registrados.

O que o Poder Público Precisa Fazer

• Preparação no Sul: Reforçar sistemas de alerta antecipado para enchentes e cheias de rios, além de revisar infraestruturas de drenagem.

• Gestão Hídrica e Energética: Monitorar reservatórios de hidrelétricas no Sudeste e Norte, preparando contingências para o aumento do consumo de energia devido ao calor e possível redução de geração.

• Segurança Alimentar: Monitorar os impactos na agricultura (safra de verão) para evitar inflação nos alimentos, devido à seca no Norte/Nordeste e excesso de chuva no Sul.

• Gestão de Riscos de Desastres: Aumentar a prontidão da Defesa Civil para incêndios florestais (Pantanal/Amazônia) e eventos de chuva intensa (Sul).

O cenário exige monitoramento constante, pois a rápida transição climática pode causar variações abruptas entre seca e chuva.
Em um país que ainda convive com secas prolongadas, enchentes recentes, calor extremo e desigualdades profundas, levar a ciência a sério pode significar salvar vidas

Reinaldo Dias: Articulista do EcoDebate, é Doutor em Ciências Sociais – Unicamp; Especialista em Ciências Ambientais – USF; Pesquisador associado do CPDI do IBRACHINA/IBRAWORK; http://lattes.cnpq.br/5937396816014363; reinaldias@gmail.com.

O provável retorno do El Niño em 2026 coloca o Brasil diante de um desafio que ultrapassa a meteorologia. Seus efeitos podem alcançar lavouras, reservatórios, cidades, moradias vulneráveis, sistemas de saúde e políticas de assistência social. A intensidade do fenômeno ainda depende da evolução das condições climáticas nos próximos meses, mas os alertas de instituições científicas reconhecidas já oferecem elementos suficientes para que o poder público atue com responsabilidade.

A questão central não é anunciar uma tragédia inevitável, mas compreender que eventos climáticos extremos produzem impactos muito diferentes conforme o grau de prevenção, infraestrutura e proteção social existente em cada território. Em um país que ainda convive com secas prolongadas, enchentes recentes, calor extremo e desigualdades profundas, levar a ciência a sério pode significar salvar vidas, reduzir deslocamentos, proteger lavouras e evitar que riscos conhecidos se transformem em crises sociais de grande alcance.

Um alerta científico que não pode ser tratado como rotina

O ano de 2026 caminha para se tornar um marco climático. Os principais centros de monitoramento meteorológico do planeta têm alertado, com crescente precisão, para a provável formação de um episódio de El Niño na segunda metade do ano. O fenômeno, bem conhecido da ciência atmosférica, é desta vez anunciado sobre um pano de fundo particularmente preocupante, uma atmosfera e oceanos que jamais estiveram tão quentes desde que se têm registros instrumentais. A pergunta que se coloca, portanto, não é se o El Niño virá, mas se os poderes públicos e as sociedades estarão preparados para recebê-lo.

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, com temperaturas ao menos 0,5°C acima da média histórica por período prolongado. Faz parte do sistema mais amplo conhecido como ENOS — El Niño-Oscilação Sul —, que alterna entre três fases: o próprio El Niño (fase quente), a La Niña (fase fria) e a neutralidade. A fase atual, que encerrou recentemente um ciclo de La Niña, caminha para a neutralidade e, segundo as projeções mais atualizadas, para a formação de um novo episódio de El Niño no segundo semestre.

Os dados são precisos. Segundo o Centro de Previsão Climática (CPC) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o boletim de 20 de abril de 2026 indica 79% de probabilidade de estabelecimento do El Niño no trimestre junho-julho-agosto, superando 80% no trimestre seguinte e atingindo ou ultrapassando 90% a partir de agosto-setembro-outubro, com tendência de persistência até 2027. O Instituto Nacional de Meteorologia do Brasil (INMET), que acompanha de perto as projeções internacionais, confirmou esse quadro em nota técnica publicada no mesmo período.

Alguns especialistas, como o professor Paul Roundy, da Universidade Estadual de Nova York, chegam a mencionar o risco de formação do mais intenso El Niño em mais de um século, com anomalias de temperatura na superfície do mar superiores a 2°C — o limiar que caracteriza os chamados “super El Niños”. Não há consenso científico nesse ponto, e os próprios pesquisadores insistem na cautela: nenhum evento é igual ao outro, e a incerteza sobre a intensidade final permanece. O que não é incerto, porém, é a chegada do fenômeno.

As previsões climáticas mais recentes indicam que o mundo pode estar diante de um novo episódio de El Niño ainda em 2026, com possibilidade de intensificação ao longo do segundo semestre. A informação deve ser tratada com cuidado. Não se trata de afirmar, desde já, que haverá inevitavelmente um “super El Niño”, nem de transformar projeções científicas em alarmismo. O ponto central é outro. Os principais centros de monitoramento climático do mundo indicam aumento consistente da probabilidade de formação do fenômeno, e alguns modelos apontam a possibilidade de um evento forte. Diante disso, governos, sistemas de defesa civil, órgãos ambientais, setor agrícola, gestores urbanos e políticas de assistência social precisam se preparar com antecedência.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou, em abril de 2026, que o sistema El Niño-Oscilação Sul ainda se encontrava em fase neutra no início do mês, após o fim da La Niña 2025/2026, mas que havia sinais relevantes de aquecimento subsuperficial no Pacífico equatorial. Segundo a instituição, a maior parte dos modelos dinâmicos e estatísticos indicava a possibilidade de transição para El Niño durante o verão ou outono do hemisfério norte, com alguns cenários apontando limiares de El Niño já entre maio e julho de 2026.

A leitura da NOAA, por meio do Climate Prediction Center, reforça essa cautela. Em 9 de abril de 2026, o órgão indicou condições neutras no Pacífico e probabilidade de 80% de manutenção da neutralidade no trimestre abril-junho. No entanto, apontou que o El Niño provavelmente emergiria entre maio e julho, com 61% de chance, podendo persistir até o fim de 2026. O mesmo comunicado afirma que os cenários possíveis variam de neutralidade a um El Niño muito forte, mas ressalta que a possibilidade de um evento muito intenso, estimada em uma chance em quatro, depende da continuidade de ventos de oeste no Pacífico equatorial, algo ainda não garantido.

Essa distinção é importante. A ciência climática trabalha com probabilidades, não com certezas absolutas. Exatamente por isso, ignorar os alertas seria uma forma de imprudência política. A incerteza sobre a intensidade final do fenômeno não elimina a necessidade de preparação. Pelo contrário, recomenda ações preventivas proporcionais ao risco.
O que está em jogo para o Brasil

No Brasil, o El Niño costuma produzir efeitos regionais distintos. Em termos gerais, aumenta o risco de seca na faixa norte das regiões Norte e Nordeste, enquanto favorece chuvas mais volumosas no Sul. O INMET destaca que o fenômeno pode comprometer sistemas de cultivo agrícola onde as plantas dependem exclusivamente da água das chuvas para o seu desenvolvimento, sem o uso de irrigação artificial (lavouras de sequeiro) nas regiões Norte, Nordeste e em partes do Centro-Oeste e Sudeste, ao mesmo tempo em que, no Sul, o excesso de precipitação pode provocar encharcamento do solo, dificuldades no plantio e na colheita, além de maior incidência de doenças fúngicas em culturas agrícolas.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) também chama atenção para uma combinação de riscos. Segundo nota técnica divulgada em abril de 2026, o El Niño 2026/2027 tende a elevar a possibilidade de chuvas extremas, enchentes e deslizamentos na Região Sul, enquanto Norte e Nordeste podem enfrentar agravamento da seca e maior risco de incêndios. A área central do país, por sua vez, pode registrar ondas de calor mais frequentes e baixa umidade.

Esses impactos não ocorrem em um território neutro. O Brasil já chega a esse possível novo El Niño com marcas recentes de eventos extremos. Entre 2023 e 2024, segundo o Cemaden, cerca de 60% do território brasileiro foi afetado por seca extensa e intensa. Mesmo após alguma recuperação das chuvas entre novembro de 2024 e março de 2025, várias áreas do Norte e do Centro-Oeste ainda registravam persistência da seca, e a bacia do rio Paraguai permanecia em condição hídrica extremamente crítica.

Isso significa que o provável El Niño de 2026 não incidirá sobre um país plenamente recuperado, com infraestrutura robusta e sistemas preventivos consolidados. Ele tende a atuar sobre regiões já fragilizadas por secas recentes, enchentes, queimadas, precariedade urbana, vulnerabilidade social e baixa capacidade institucional de resposta.
Agricultura, alimentos e renda

A agricultura é uma das áreas mais sensíveis aos efeitos do El Niño. Em regiões onde o fenômeno reduz as chuvas, a principal ameaça recai sobre culturas dependentes do regime natural de precipitação. Pequenos produtores, agricultores familiares e comunidades rurais com menor acesso a irrigação, assistência técnica, crédito e seguro agrícola tendem a ser mais afetados. A perda de produtividade não se traduz apenas em prejuízo econômico privado. Ela pode comprometer a segurança alimentar, pressionar preços e reduzir a renda em municípios altamente dependentes da produção agropecuária.

No Sul, o problema pode ocorrer pelo excesso de água. Chuvas persistentes podem atrasar o plantio, dificultar a colheita, favorecer doenças nas lavouras, prejudicar a qualidade dos grãos e danificar estradas rurais. O episódio das enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 deixou uma lição evidente. A destruição de casas, estradas, pontes, plantações e estruturas produtivas mostrou que eventos extremos não são apenas tragédias ambientais. Eles atingem cadeias de abastecimento, logística, produção de alimentos, renda familiar, arrecadação municipal e capacidade de recuperação econômica.

O caso gaúcho é especialmente relevante porque expõe a articulação entre clima extremo, vulnerabilidade territorial e escolhas de planejamento. A análise publicada pelo World Weather Attribution(WWA), repercutida internacionalmente, indicou que as enchentes de 2024 no Sul do Brasil foram agravadas pela mudança climática e por alterações no uso da terra. O evento deixou 169 mortos, destruiu moradias e colheitas, deslocou dezenas de milhares de pessoas e afetou serviços essenciais. O Rio Grande do Sul responde por cerca de 70% da produção brasileira de arroz, razão pela qual os impactos no estado repercutiram sobre preços e abastecimento.

Em escala global, o Banco Mundial mostra que os preços internacionais de cereais continuavam sensíveis em 2026. Em março, o índice de cereais estava 7% acima do registrado na atualização anterior, com alta de trigo, milho e arroz em diferentes proporções. Esse dado não significa que o El Niño, sozinho, determinará uma crise alimentar. Significa que choques climáticos podem atuar sobre mercados já sujeitos a pressões de custo, logística e instabilidade geopolítica.

Calor extremo, saúde e trabalho

O provável El Niño também deve ser analisado em relação ao calor extremo. O aquecimento adicional associado ao fenômeno pode elevar temperaturas médias globais e intensificar ondas de calor regionais. No Brasil, isso preocupa especialmente cidades densas, bairros periféricos, escolas públicas sem infraestrutura adequada, trabalhadores expostos ao sol, idosos, crianças, pessoas com doenças crônicas e populações com acesso limitado à água, energia e atendimento de saúde.

O calor extremo não é apenas desconforto térmico. Ele reduz a produtividade do trabalho, aumenta riscos à saúde, amplia a demanda por energia, prejudica o aprendizado em escolas sem climatização e agrava desigualdades urbanas. O trabalhador informal, o entregador, o agricultor, o operário da construção civil, o vendedor ambulante e o morador de habitação precária não enfrentam o calor nas mesmas condições de quem dispõe de moradia adequada, ar-condicionado, transporte confortável e assistência médica.

Relatório recente da Organização das Nações Unidas para a Agricultura (FAO) e da OMM, alerta que o calor extremo se tornou uma das ameaças mais graves aos sistemas agrícolas, afetando lavouras, pecuária, pesca, florestas e trabalhadores rurais. A reportagem registra que a produtividade de muitas culturas começa a cair quando as temperaturas atingem 30°C, que o estresse térmico afeta animais de criação e que, no setor agrícola, o risco de morte por exposição ocupacional ao calor é muito superior ao de outros setores. O mesmo relatório cita o Brasil como exemplo de perdas associadas a ondas de calor intensas entre o fim de 2023 e 2024.

Esse ponto é decisivo para políticas públicas. A prevenção não pode se limitar a alertas meteorológicos. Ela deve envolver planos de saúde pública, adaptação das jornadas de trabalho, proteção de trabalhadores rurais e urbanos, ampliação de pontos de hidratação, protocolos para escolas, assistência a idosos, reforço da atenção básica e comunicação direta com populações vulneráveis.

Deslocamentos, moradia e desigualdade

Os efeitos do El Niño não se distribuem democraticamente. Recaem, com peso desproporcional, sobre as populações mais vulneráveis — comunidades ribeirinhas da Amazônia, agricultores familiares do semiárido, moradores de encostas urbanas no Sul, populações periféricas de grandes cidades que dependem de serviços públicos já fragilizados. A análise científica dos efeitos sociais do fenômeno é clara nesse ponto: catástrofes climáticas aprofundam desigualdades preexistentes.

Eventos climáticos extremos deslocam pessoas antes mesmo de produzir estatísticas definitivas. Famílias deixam suas casas por enchentes, deslizamentos, estiagens prolongadas, perda de renda, destruição de lavouras, interrupção de serviços públicos ou risco de colapso em áreas vulneráveis. No Brasil, esses deslocamentos raramente são tratados com a profundidade necessária. Muitos aparecem como “desabrigados” ou “desalojados” em registros de defesa civil, mas seus efeitos se prolongam por meses ou anos.

O provável El Niño de 2026 deve ser considerado, portanto, como fator de risco para deslocamentos internos. No Sul, enchentes e deslizamentos podem obrigar famílias a abandonar moradias em áreas ribeirinhas, encostas e a maioria das regiões urbanas mal drenadas. No Norte e Nordeste, secas prolongadas podem agravar insegurança hídrica, perda de renda rural e pressões migratórias locais. Em áreas urbanas, a baixa qualidade das habitações e a ocupação de áreas ambientalmente frágeis ampliam a exposição a desastres.

A desigualdade social transforma fenômenos climáticos em tragédias seletivas. A chuva intensa não atinge todos da mesma forma. A seca não pesa igualmente sobre quem tem irrigação, seguro, crédito e reservas financeiras e sobre quem depende de uma pequena lavoura ou de trabalho diário. A onda de calor não produz os mesmos efeitos em bairros arborizados e em periferias densas, com pouca sombra, moradias precárias e transporte coletivo lotado.

Por isso, o debate sobre El Niño não deve ser restrito à meteorologia. Ele envolve habitação, saneamento, drenagem urbana, assistência social, saúde, agricultura, abastecimento, defesa civil, planejamento territorial e proteção ambiental. A preparação precisa começar antes do desastre, não depois da contagem de mortos, desabrigados e prejuízos.
Economia, energia e infraestrutura

As implicações econômicas do El Niño também merecem atenção. Secas podem reduzir vazões em bacias hidrográficas, afetar reservatórios, pressionar a geração hidrelétrica, encarecer energia e dificultar a navegação fluvial. Chuvas extremas podem destruir estradas, pontes, redes de energia, sistemas de abastecimento, escolas, unidades de saúde e moradias. O resultado aparece em gastos emergenciais, interrupção de atividades econômicas, aumento de seguros, perda de arrecadação e endividamento de famílias, empresas e municípios.

No campo, a combinação entre calor, seca e chuvas irregulares pode provocar perdas em lavouras, aumento de custos de produção, maior uso de irrigação, necessidade de replantio e dificuldade de cumprimento de contratos. Nas cidades, enchentes e deslizamentos afetam comércio, transporte, serviços públicos e saúde. Em regiões pobres, a reconstrução é mais lenta, porque famílias e prefeituras têm menor capacidade financeira.

A prevenção é economicamente mais racional do que a reconstrução. Sistemas de alerta, limpeza de drenagens, recuperação de áreas de várzea, mapeamento de encostas, proteção de nascentes, fortalecimento da defesa civil, assistência técnica agrícola e planos municipais de adaptação custam menos do que reconstruir pontes, indenizar perdas, remover famílias em emergência e recuperar sistemas colapsados.

O papel da ciência e a responsabilidade pública

O provável El Niño de 2026 coloca novamente em evidência a necessidade de reconhecer a validade da informação científica. Alertas de instituições como WMO, NOAA, IRI, INMET e Cemaden não devem ser tratados como previsões abstratas, distantes da vida cotidiana. São instrumentos de gestão pública. Quando cientistas apontam aumento de probabilidade de um fenômeno climático relevante, a resposta adequada não é esperar a confirmação plena para agir, mas preparar cenários, definir protocolos e reduzir vulnerabilidades.

Isso não significa paralisar o país diante de uma ameaça climática. Significa ajustar políticas públicas a um risco conhecido. Municípios podem atualizar mapas de áreas vulneráveis, preparar abrigos temporários, revisar rotas de evacuação, reforçar equipes de saúde e defesa civil, orientar agricultores, proteger populações ribeirinhas, monitorar reservatórios e melhorar a comunicação com a população. Estados podem coordenar respostas regionais, apoiar municípios menores e integrar informações climáticas, agrícolas, sanitárias e sociais. O governo federal pode articular financiamento, assistência técnica, monitoramento e ações preventivas em escala nacional.

A prevenção também exige transparência. A população precisa compreender que “probabilidade” não é invenção nem exagero. Quando um órgão informa que há 60%, 80% ou 90% de chance de determinado cenário, está oferecendo uma base racional para decisões. O negacionismo climático, a improvisação administrativa e o desprezo por alertas científicos ampliam danos que poderiam ser reduzidos.

Preparar-se não é alarmismo

O é um fenômeno natural, mas seus impactos atuais ocorrem em um planeta aquecido e em sociedades marcadas por desigualdades profundas. Essa combinação torna seus efeitos potencialmente mais graves. O que antes poderia ser absorvido como variação climática periódica hoje encontra cidades impermeabilizadas, encostas ocupadas, rios canalizados, biomas degradados, populações empobrecidas e sistemas públicos muitas vezes insuficientes.

O alerta para 2026 deve ser entendido como oportunidade de antecipação. Não se trata de anunciar uma catástrofe inevitável, mas de afirmar que os sinais disponíveis justificam planejamento imediato. Se o El Niño se confirmar com intensidade moderada, a preparação terá sido útil. Se vier forte, poderá salvar vidas, reduzir deslocamentos, proteger lavouras, preservar infraestrutura e diminuir prejuízos econômicos. Se os cenários mais severos não se concretizarem, o investimento em prevenção ainda terá fortalecido a capacidade pública de enfrentar extremos climáticos que já fazem parte da realidade brasileira.

A principal lição é simples. A ciência climática não elimina a incerteza, mas reduz a ignorância. Quando seus alertas são reconhecidos e transformados em ação pública, a sociedade ganha tempo para se proteger. Em um país vulnerável a secas, enchentes, deslizamentos, ondas de calor e insegurança alimentar, ganhar tempo pode significar salvar vidas, evitar deslocamentos e impedir que fenômenos climáticos previsíveis se convertam em tragédias sociais anunciadas.

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