domingo, 19 de julho de 2026

Aquecimento reduz o crescimento das árvores

Árvores sob aquecimento fotossintetizam, mas não crescem na mesma proporção, fazendo os modelos climáticos superestimarem em até 30% a capacidade das florestas de armazenar carbono.
O aquecimento global e o aumento das temperaturas têm provocado alterações severas no desenvolvimento das florestas. Com o calor extremo e a seca, as árvores chegam a fotossintetizar, mas não crescem na mesma proporção, o que acelera seu ciclo de vida, reduz seu tempo de existência e afeta a absorção de carbono.

Estudos mostram impactos diretos e mensuráveis no desenvolvimento das árvores em resposta às mudanças climáticas:

• Crescimento mais lento: O estresse térmico e a falta de água provocam o fechamento estomático, reduzindo o crescimento dos troncos. Pesquisas publicadas na EcoDebate apontam que modelos climáticos superestimam em até 30% a capacidade de armazenamento de carbono das florestas devido a esse descompasso.

• Ciclo de vida reduzido: Em regiões tropicais, o aumento da temperatura global faz com que as plantas cumpram seu ciclo mais rapidamente, o que resulta em árvores que crescem mais velozes e morrem mais cedo, detalha o portal #Colabora.

• Limites de temperatura: A fotossíntese opera de forma otimizada em médias próximas a 34°C. Temperaturas acima de 40°C nas copas podem causar danos irreversíveis às folhas, comprometendo o crescimento e a sobrevivência da espécie.

• Acúmulo de reservas afetado: Árvores expostas a secas e calor na estação seca gastam suas reservas de amido e açúcares para se manter, deixando menos energia disponível para o crescimento quando chega o período de chuvas, segundo a Revista Pesquisa Fapesp.

Um novo estudo da Cornell University revela que o aquecimento está travando o crescimento das florestas, mesmo quando elas têm mais carbono disponível

Pesquisadores descobriram que árvores sob aquecimento fotossintetizam, mas não crescem na mesma proporção, um detalhe que pode estar fazendo os modelos climáticos superestimarem em até 30% a capacidade das florestas de armazenar carbono.

Tem uma frase que ouço desde criança e que, confesso, sempre me deu um certo alívio: “não se preocupe tanto, as florestas absorvem o carbono que a gente emite”. Era quase um suporte emocional. A natureza dando um jeito na nossa bagunça, enquanto a gente tentava se organizar.

Pois bem. Essa semana eu li um estudo que bagunçou esse conforto todo, e por isso resolvi sentar para escrever sobre ele aqui. Não como quem reporta uma notícia, mas como quem precisou parar, reler duas vezes e processar o que isso realmente significa.
O que os cientistas descobriram

Um grupo de pesquisadores da Cornell University, liderado pelo pesquisador de pós-doutorado Brendan Clark, publicou em 18 de junho de 2026, um estudo na revista Geophysical Research Letters que parte de uma constatação simples, mas incômoda: as árvores estão crescendo mais devagar com o aquecimento global, mesmo havendo mais carbono disponível na atmosfera para elas absorverem.

Isso é contra intuitivo, eu sei. A lógica que aprendemos na escola é direta: mais CO2 no ar, mais “alimento” para a fotossíntese, mais crescimento. Só que a equipe de Clark mostrou que essa conta não está fechando como deveria.

O motivo tem o nome técnico de turgor, ou pressão de turgescência, mas a explicação é quase poética de que em climas mais secos e quentes, as células das árvores perdem água. E sem água suficiente dentro das células, elas não conseguem se dividir e crescer, mesmo que a fotossíntese continue acontecendo normalmente.

Em outras palavras: a árvore está “comendo”, mas não está “crescendo”. E é exatamente aí que mora o problema.

Fotossíntese não é a mesma coisa que crescimento

Essa foi a frase do estudo que mais me marcou, dita pelo próprio Brendan Clark: os modelos climáticos atuais partem da premissa de que fotossíntese e crescimento são processos equivalentes. Só que, segundo as novas evidências, frequentemente não são.

Isto é como avaliar a saúde financeira de alguém só pelo quanto essa pessoa ganha, sem considerar que boa parte do dinheiro pode estar travada, sem conseguir ser usada para nada. A árvore “ganha” carbono através da fotossíntese, mas se as condições climáticas não permitem que esse carbono se transforme em madeira, tronco, raiz, ou seja, em crescimento real, ele simplesmente não se converte em armazenamento de longo prazo.

E os modelos que usamos hoje para prever o futuro do clima não estavam considerando esse detalhe.

Os números que deveriam nos preocupar

Para testar a hipótese, Clark usou dados de pesquisas realizadas com florestas na Suíça, que acompanharam o crescimento de árvores de folha larga e de coníferas durante 8 anos. O padrão observado lá já havia sido identificado também na América do Norte e na Amazônia, de que o clima mais seco e mais quente reduz o crescimento das árvores, independentemente da quantidade de carbono disponível para fotossíntese.

Com esses dados, ele construiu um modelo estatístico que projeta o crescimento das árvores e o armazenamento de carbono até 2069, comparando essa projeção com simulações de um dos modelos de superfície terrestre mais usados no mundo, daqueles que orientam políticas públicas, acordos climáticos e decisões bilionárias.

O resultado foi expressivo. Os modelos atuais podem estar superestimando o crescimento das árvores de folha larga em até duas vezes, e o das coníferas em até 3 vezes. Isso significa árvores menores do que o previsto, especialmente nas regiões que devem se tornar mais quentes e secas nas próximas décadas e, por consequência, bem menos carbono armazenado do que os planos climáticos atuais assumem.

Para colocar em perspectiva: hoje, a vegetação terrestre absorve cerca de 27% de todo o carbono que emitimos ao queimar combustíveis fósseis, enquanto os oceanos absorvem outros 25%. O restante fica na atmosfera, alimentando o aquecimento. Se essa fatia de 27% encolher, porque as florestas não estão crescendo como o esperado, o aquecimento pode acelerar de um jeito que ainda não estamos contabilizando direito.

Professor Daniele Visioni, da Cornell e autor sênior do estudo, resumiu bem o espírito da descoberta: quanto mais a comunidade científica observa, mais evidente fica que, com o avanço do aquecimento, vai ficar mais difícil para a natureza “dar conta do recado” sozinha.

E aqui está o ponto que, para mim, é o mais sensível de todo o estudo. Não é que as florestas tenham deixado de ser aliadas importantes no combate à crise climática. É que talvez a gente estivesse contando demais com elas e super dimensionando o quanto elas conseguiriam compensar nossas próprias emissões.

Isso não é motivo para desistir de florestas, replantio ou conservação. É motivo para sermos mais realistas sobre o que essas estratégias conseguem entregar, e mais urgentes na hora de reduzir emissões na fonte, em vez de terceirizar a responsabilidade para os ecossistemas.
O elo que faltava entre ecólogos e quem constrói os modelos

Clark só chegou a essa descoberta porque um colega ecólogo, Shan Kothari, comentou com ele sobre essas novas evidências de campo. A partir daí, Clark começou a frequentar congressos de ecologia florestal só para entender melhor o fenômeno, apesar de sua formação ser voltada para modelagem climática, não para ecologia de campo.

Ele próprio reconheceu que existe um certo distanciamento entre quem estuda as árvores de perto, no campo, e quem constrói os grandes modelos matemáticos que tentam prever o clima do planeta. E que esse tipo de ponte, entre quem observa a natureza e quem a traduz em equações, é exatamente o que precisa acontecer com mais frequência.

Acho que isso diz algo importante sobre ciência e sobre a vida, na verdade. Às vezes a resposta para um problema complexo não está em mais dados, mas em conversar com quem está olhando para o problema de um ângulo diferente do seu.

Clark já está trabalhando no próximo passo: desenvolver um código que outros pesquisadores possam incorporar diretamente aos seus modelos climáticos, para que esse efeito do crescimento mais lento das árvores passe a ser considerado nas previsões.

A ideia é simples de explicar e gigantesca de executar, ajustar a peça que faltava no quebra-cabeça, para que as próximas gerações de modelos climáticos sejam mais precisas do que as atuais.

Confesso que, no fim das contas, esse tipo de descoberta não me deixou mais pessimista, mas me deixou mais atento. Existe uma diferença entre “a natureza vai resolver isso por nós” e “a natureza é uma aliada poderosa, mas com limites que precisamos respeitar e entender”.

As árvores continuam fazendo seu trabalho silencioso, lá fora, mesmo sob calor e seca. Só que talvez estejam fazendo um pouco menos do que a gente gostaria de acreditar.

E saber disso, em vez de nos desanimar, deveria nos dar ainda mais clareza sobre onde colocar nossa energia. Não podemos e não devemos esperar que a floresta cresça mais rápido, mas em garantir que ela tenha as condições e o tempo para continuar crescendo, no ritmo que for possível. (ecodebate)

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Temperaturas globais manterão níveis máximos em 2026-2030

Temperaturas globais manterão níveis máximos em 2026-2030, prevê ONU.
ONU prevê que temperaturas globais manterão níveis máximos em 2026-2030

Relatórios recentes da Organização Meteorológica Mundial (OMM) indicam que a temperatura média global se manterá em níveis próximos a recordes históricos entre 2026 e 2030, oscilando entre 1,3°C e 1,9°C acima dos níveis pré-industriais.

• Superando o Limite: Há 91% de chance de que, em pelo menos um ano entre 2026 e 2030, a temperatura ultrapasse temporariamente o limite crítico de 1,5°C.

• Potencial Recorde: Existe uma probabilidade de 86% de que ao menos um dos anos neste período supere o ano de 2024, que detém a marca de ano mais quente já registrado.

• Projeção de Longo Prazo: Essas altas temperaturas sustentadas mostram que a janela para estabilizar o aquecimento global exigirá reduções drásticas e imediatas nas emissões.

As previsões de temperatura média para os próximos cinco anos apontam para "uma tendência preocupante nas condições do El Niño", especialmente em 2027 e 2028.

Um termômetro de farmácia marca 36°C na Piazza di Spagna, em Roma, durante uma onda de calor no início da temporada na Europa.

A ONU alertou em 28/05/26 que as temperaturas médias globais deverão permanecer "em níveis recordes ou próximos dos recordes" entre 2026 e 2030, com 75% de probabilidade de que a média para esses 5 anos exceda os níveis pré-industriais em mais de 1,5°C.

Os anos de 2015 a 2025 foram os 11 mais quentes já registrados, indicou a Organização Meteorológica Mundial (OMM) em março, e a tendência deve continuar, de acordo com um novo relatório desta agência das Nações Unidas.

Segundo o boletim da OMM sobre previsões climáticas anuais e decenais em escala mundial, compilado pelo Serviço Meteorológico do Reino Unido, há também 86% de probabilidade de que o recorde de ano mais quente já registrado, atualmente detido por 2024, seja quebrado em algum dos anos entre 2026 e 2030.

"Um evento El Niño é esperado até o final de 2026, o que aumentou a probabilidade de que o ano seguinte, 2027, seja o próximo ano a quebrar o recorde", afirmou Leon Hermanson, autor principal do boletim, que resume as previsões fornecidas por 13 institutos diferentes.

As previsões de temperatura média para os próximos cinco anos no centro do Pacífico tropical apontam, segundo a OMM, para "uma tendência preocupante nas condições do El Niño", especialmente em 2027 e 2028.

O El Niño é caracterizado por um aumento nas temperaturas da superfície no centro e leste do Pacífico equatorial. Geralmente ocorre em intervalos de dois a sete anos e normalmente dura de nove a doze meses.

O último El Niño, em 2023 e 2024, resultou em um dos anos mais quentes já registrados. Esse fenômeno cíclico tem um efeito dominó no clima mundial por vários meses.

Calor no Ártico

Segundo o relatório, a temperatura média global deverá permanecer elevada nos próximos cinco anos, com projeções indicando que se manterá próxima de recordes históricos.

De acordo com a OMM, entre 2026 e 2030, as temperaturas médias anuais da superfície global estarão, em geral, entre 1,3°C e 1,9°C acima da média dos níveis pré-industriais (1850-1900).

E é "muito provável" (em 91%) que a temperatura média da superfície global ultrapasse temporariamente a média de 1850-1900 em mais de 1,5°C por pelo menos um ano entre 2026 e 2030. Esse limite já foi ultrapassado temporariamente em 2024, quando a temperatura média da superfície global foi cerca de 1,55°C superior aos níveis pré-industriais.

No entanto, segundo o boletim, é "extremamente improvável" (menos de 1%) que a temperatura média global da superfície ultrapasse a média de 1850-1900 em mais de 2°C em qualquer um dos próximos cinco anos.

A OMM observa que os limites de 1,5°C e 2,0°C estabelecidos no Acordo de Paris sobre o clima referem-se ao aquecimento "a longo prazo durante um período prolongado, geralmente avaliado em 20 anos".

O fato de a temperatura média global anual ultrapassar esses limites em alguns anos não significa que as metas de temperatura do Acordo de Paris não possam ser alcançadas, explicou a agência.

Segundo a OMM, esses limites serão ultrapassados temporariamente, embora de forma cada vez mais frequente, à medida que o aquecimento global "se aproxima" deles.

As previsões também mostram que o aquecimento no Ártico deve continuar e claramente ultrapassar a tendência observada em escala global.

Nos próximos cinco invernos prolongados do Hemisfério Norte (novembro a março), a temperatura no Ártico deverá ser 2,8 °C superior à normal de 1991-2020.

O Ártico volta a acender os alarmes climáticos: a OMM prevê que esta região continuará a aquecer muito mais rapidamente do que a média global, com efeitos sobre o gelo marinho, os ecossistemas e os padrões meteorológicos à escala global.

OMM alerta para a possibilidade de novos recordes de calor: um ano entre 2026 e 2030 poderá superar o histórico 2024

Um novo relatório da Organização Meteorológica Mundial prevê que as temperaturas globais se manterão próximas de níveis recorde durante os próximos 5 anos. O sinal é claro: o planeta continua a acumular calor e a margem para agir está a diminuir.

Segundo as previsões para o período de março/2026 a março/2035, a concentração de gelo nos mares do Ártico diminuirá nos mares de Barents, Bering e Okhotsk.

Além disso, a precipitação será acima da média nas altas latitudes do Hemisfério Norte durante os próximos cinco invernos prolongados. 

O calor extremo continuará a marcar a agenda climática global: a OMM alerta que um novo recorde de temperatura poderá ser atingido antes de 2030. (otempo)

Onda de calor que está reescrevendo a história climática da Europa

A França viveu nesta semana sua noite mais quente desde 1947, escolas fecharam de Londres a Roma e o número de mortes por afogamento já passa de 40. O que estamos vendo não é só um verão quente, mas o retrato do que vem por aí.
Temperatura média diária do ar à superfície (°C) na Europa Ocidental (11° O-15° L, 34-55° N) para o período de 1 de março a 1 de setembro. O ano de 2026 é mostrado com uma linha vermelha espessa. Todos os outros anos entre 1940 e 2025 são mostrados com linhas cinzentas. A média diária para o período de referência de 1991–2020 é mostrada com uma linha vermelha tracejada.

Tem uma frase, que li de uma moradora de Bruxelas, repetida em uma reportagem, que considero assustadora: “E se, no futuro, tivermos que viver esse tipo de situação dia após dia?” Com 25 anos, ela estava tentando se refrescar numa fonte pública, junto com outras dezenas de pessoas que fugiam do calor da forma que conseguiam.

Essa pergunta resume bem o que está acontecendo na Europa agora. Porque o que estamos vendo não parece mais um evento isolado, daqueles que a gente lembra por décadas como “o verão de tal ano”. Parece, cada vez mais, um ensaio do normal.

Vamos aos números, porque eles contam a história melhor do que qualquer adjetivo.

Na madrugada de segunda para terça-feira, a França registrou a noite mais quente desde que o país começou a medir temperaturas, em 1947. O indicador nacional, uma média entre as temperaturas diurnas e noturnas de 30 estações meteorológicas, chegou a 29,8°C segundo dados provisórios da Meteo-France. A temperatura mínima média do país bateu 21,6°C, superando o recorde anterior, de julho de 2019.

Pode parecer só um número, mas noites quentes assim são particularmente perigosas. O corpo humano precisa de horas de temperatura mais baixa para se recuperar do calor acumulado durante o dia. Quando essa pausa não existe, o risco para a saúde aumenta, especialmente para crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas.

E os recordes não pararam na noite. Cidades como Bordeaux e Poitiers, no sudoeste e centro-oeste da França, bateram suas marcas históricas absolutas de temperatura máxima, com termômetros passando dos 41°C, números nunca vistos desde que essas estações começaram a operar, há quase um século em alguns casos.
O que é o bloqueio ômega?

Boa parte das reportagens desta semana menciona um termo que talvez você não conhecesse até agora: bloqueio ômega. É o fenômeno meteorológico que está sustentando essa onda de calor e, segundo meteorologistas, pode continuar influenciando o clima europeu por dias ou até semanas.

A explicação, de forma simples, é a seguinte: uma massa de ar frio posicionada perto de Portugal funciona como uma espécie de bomba, empurrando para o norte o ar quente que vem do norte da África. Esse padrão cria uma configuração parecida com a letra grega ômega, com ar quente concentrado no centro e ar mais frio nas bordas. O resultado é um efeito de “tampa de panela”: o calor fica represado, sem conseguir se dissipar e as temperaturas sobem dia após dia.

Escolas fechadas, ferrovias paralisadas e cidades em alerta máximo

Na prática, essa configuração atmosférica virou rotina interrompida para milhões de pessoas.

Na Inglaterra, dezenas de escolas anunciaram fechamento antecipado nesta terça-feira, com previsão de continuar fechadas por mais dois dias. O Met Office, agência meteorológica britânica, emitiu um raro alerta vermelho de calor para partes do centro e sul do país, apenas a segunda vez que isso acontece. As temperaturas podem chegar a 40°C, um número sem precedentes para esta época do ano, segundo o cientista-chefe da agência, Stephen Belcher. A linha ferroviária que liga o nordeste da Inglaterra a Londres chegou a emitir um alerta de “não viajar”.

Na França, onde mais de 90% da população vive sob alerta vermelho ou laranja por calor extremo, a Torre Eiffel e o Museu do Louvre anunciaram fechamento antecipado. Em Paris, pais de uma escola primária colaram cobertores térmicos nas janelas das salas de aula e juntaram dinheiro para comprar toldos para o pátio porque os ventiladores que receberam, segundo uma das mães envolvidas, “não diminuem a temperatura nas salas”.

Na Espanha, quase todo o território está sob alerta de calor, com partes do sul e do norte no nível máximo, classificado pela agência AEMET como “perigo extraordinário”. Na Itália, o Ministério da Saúde decretou alerta vermelho em 15 cidades, incluindo Roma e Milão, esta última também enfrentou apagões provocados pelo uso disparado de ar-condicionado.
Quando o calor entra onde devia ser seguro

Calor extremo atinge níveis jamais vistos na França e abala a Europa.

Um dos detalhes mais inquietantes dessa onda de calor é que ela não está poupando os lugares que deveriam proteger as pessoas mais vulneráveis.

Na Espanha, a falta de ar-condicionado em alguns hospitais levou o sindicato de enfermagem SATSE a denunciar publicamente as condições de trabalho. Segundo o sindicato, as temperaturas em algumas unidades atingem e superam os 30°C, bem acima do limite de 27°C estabelecido por lei para ambientes de trabalho. A orientação recebida pelos profissionais, de acordo com a denúncia, foi fechar janelas e baixar persianas “o máximo possível”.

Na França, a situação levou a central nuclear de Golfech, no sudoeste do país, a ser desligada: a temperatura da água do rio Garona, usada para refrigerar os reatores, chegou perto dos limites operacionais seguros.

As mortes que o calor não causa diretamente, mas provoca

As ondas de calor na Europa fazem parte de um novo e perigoso padrão climático.

Um dos números mais duros desta semana não veio de termômetros, mas de balanços de busca e resgate.

Em reunião de crise, o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, classificou como uma “triste calamidade” o fato de que cerca de 40 pessoas, a maioria jovens, morreram afogadas na França desde 18 de junho, ao buscar rios, lagos e canais para se refrescar do calor. Na Alemanha, a polícia confirmou cinco mortes em acidentes de natação apenas durante o último fim de semana.

É uma das consequências menos óbvias e mais trágicas das ondas de calor extremo: o desespero por refrescar o corpo leva muita gente a se arriscar em águas que não conhece, sem supervisão, em busca de um alívio rápido.

Trabalhadores que não têm a opção de ficar em casa

Enquanto autoridades de praticamente todos os países afetados recomendam evitar esforço físico nas horas mais quentes do dia, beber água e redobrar os cuidados com pessoas vulneráveis, uma parte da população simplesmente não tem essa escolha.

Trabalhadores de uma fábrica da Stellantis perto de Mulhouse, na França, anunciaram que vão encerrar seus turnos mais cedo entre terça e domingo, em protesto contra as condições de trabalho durante o calor extremo. É um gesto pequeno frente ao tamanho do problema, mas que expõe algo real: para muita gente, “ficar em casa no calor” é um privilégio, não uma opção.

Áustria, Polônia, Hungria e Croácia também emitiram alertas de calor para parte de seus territórios, e serviços de emergência na Hungria e na Eslovênia já registram pedidos de ajuda de pessoas idosas.

É “só mais um verão quente”?

Mundo registra ano a ano cada vez mais quente

A pergunta que fica e que a moradora de Bruxelas fez de forma tão simples é se episódios como este vão continuar sendo excepcionais ou se vão se tornar parte do calendário europeu.

A resposta da ciência climática, de forma consistente, aponta para a segunda opção. Ondas de calor recorrentes são um dos sinais mais claros do aquecimento global e cientistas vêm alertando que elas devem se tornar mais frequentes, mais longas e mais intensas à medida que a humanidade continua queimando combustíveis fósseis. Não é a primeira onda de calor da Europa neste ano — em maio, o continente já havia enfrentado um episódio histórico de calor antecipado — e especialistas apontam que esse padrão, de eventos extremos cada vez mais próximos uns dos outros, tende a se repetir.

Talvez o mais difícil de processar nessa história não sejam os números em si, mas a sensação de que estamos vendo, em tempo real, o momento em que um “recorde histórico” deixa de ser uma curiosidade de jornal e passa a ser um aviso sobre o que vem a seguir. (ecodebate)

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Ultrapassar 1,5°C do Acordo de Paris é cada vez mais provável

Cientistas de 17 países confirmam que o aquecimento global acelerou e o tempo para agir está acabando.

Estudo indica que o aquecimento ultrapassará limite do Acordo de Paris até 2037.
A ultrapassagem do limite de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris é considerada iminente e quase inevitável pelos cientistas. Relatórios do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente alertam que, mantendo o ritmo atual de emissões, a Terra está em uma trajetória que pode chegar a um aumento de 2,5°C até o final do século.

Embora alguns anos isolados já tenham registrado médias acima de 1,5°C, a violação permanente do acordo é calculada em médias de longo prazo. A Organização Meteorológica Mundial e o estudo dos Indicadores Globais de Mudança Climática indicam que o planeta está acumulando calor de forma acelerada, com o planeta ultrapassando a marca crítica por volta de 2030, a menos que haja uma redução drástica nas emissões.

As temperaturas médias globais já superaram picos de anomalia, indicando que o planeta está prestes a atingir o limite crítico de segurança do Acordo de Paris de forma sustentada por volta de 2030. A ciência aponta que o "orçamento de carbono" restante será consumido rapidamente se o ritmo atual de emissões se mantiver.

O aquecimento global é medido como a mudança na temperatura média global a longo prazo em relação aos níveis pré-industriais (1850-1900). O cenário climático atual apresenta dados alarmantes:

• Aquecimento Atual: A atividade humana já é responsável por quase 1,36°C a 1,37°C desse aquecimento.

• Anos Anteriores: Em anos recentes, a anomalia superou a marca simbólica de 1,55°C em períodos de 12 meses.

• Impactos: Ultrapassar 1,5°C aumenta drasticamente a frequência de eventos climáticos extremos. O aquecimento pode chegar a projeções entre 2,3°C e 2,5°C até o final do século se medidas drásticas não forem adotadas.

A urgência desse cenário evidencia a importância de compreender a física e os relatórios climáticos que regem o planeta.

Existe um tipo de notícia que a gente lê, fecha a aba do navegador e até gostaria de não ter lido. Não porque seja mentira, mas justamente porque é verdade demais. O mais recente relatório de Indicadores de Mudanças Climáticas Globais (IGCC), publicado na revista científica Earth System Science Data, é exatamente esse tipo de notícia.

Eu poderia resumir tudo numa frase e ir embora: estamos em maus lençóis. Mas achei que seria mais honesto e mais útil tentar conversar sobre o que esse relatório realmente diz, sem catastrofismo desnecessário, mas também sem minimizar a crise climática.

Quando os números deixam de ser abstratos

Mais de 70 cientistas, de 56 instituições espalhadas por 17 países, incluindo autores que contribuem diretamente com o IPCC (o painel climático da ONU), se debruçaram sobre os dados do clima global e chegaram a conclusões que merecem atenção de todos nós, não apenas de pesquisadores e formuladores de políticas públicas.

O que me impressionou logo de cara foi a escala dessa colaboração. Não é um estudo de um único laboratório com uma agenda específica. É uma fotografia coletiva, tirada de múltiplos ângulos, por pessoas que passam a vida inteira estudando exatamente isso. E a foto que elas revelaram não é bonita.

1,37°C: Uma fração de grau que muda tudo

O aquecimento global causado pela atividade humana chegou a 1,37°C em 2025. E a projeção é que ultrapasse a marca de 1,5°C em cerca de quatro anos, aquele limiar que a comunidade científica e os acordos internacionais, como o Acordo de Paris (2015), tratam como uma linha crítica que não deveríamos cruzar.

“Tá, mas 1,37°C parece pouco…” Eu entendo essa reação. O problema é que o sistema climático não funciona como o nosso termostato doméstico. Uma variação de frações de grau na temperatura média global é suficiente para alterar padrões de chuva, intensificar secas, prolongar ondas de calor e desequilibrar ecossistemas inteiros. É como uma febre no corpo humano: 37°C é normal, 38°C é alerta, 40°C é emergência. A diferença de poucos graus muda tudo.

Além disso, a taxa de aquecimento está no nível mais alto já registrado: 0,27°C por década. Isso significa que o termômetro não está apenas alto, como está subindo mais rápido do que nunca.

Recorde atrás de recorde

2025 foi o terceiro ano mais quente desde que temos registros confiáveis de temperatura global. E 2024 deixou outra marca histórica nada celebrável: as emissões globais de gases de efeito estufa atingiram 56,8 bilhões de toneladas de CO2 equivalente, o maior volume já registrado, impulsionado principalmente pela queima de combustíveis fósseis.

Para colocar em perspectiva, seria como se cada ser humano no planeta tivesse emitido cerca de sete toneladas de CO2 em 2024. Crianças, idosos, populações que vivem em comunidades sem acesso à eletricidade, todos “contabilizados” numa conta que não escolheram abrir.

Há um detalhe técnico no relatório que me chamou a atenção e que merece menção, de que parte do aquecimento que estava sendo “mascarado” começa a aparecer agora, porque estamos reduzindo as emissões de dióxido de enxofre (SO2), um poluente que, apesar de ser prejudicial à saúde, tinha um efeito colateral de resfriar levemente a atmosfera. Com a melhoria na qualidade do ar, esse “véu” se desfaz e mais calor fica exposto. É um paradoxo cruel da crise climática.

O nível do mar que sobe milímetro a milímetro

Desde 1901, o nível médio global dos oceanos subiu 23 centímetros. Em 2025, esse número chegou a um novo recorde. A taxa atual é de cerca de 1,8 milímetro por ano e está acelerando.

Eu sei que 1,8 mm soa irrisório. Mas pense que essas frações de milímetro se acumulam ao longo de décadas e décadas e o efeito não é linear. Comunidades costeiras em Bangladesh, ilhas do Pacífico, partes do litoral brasileiro, lugares que já sentem inundações mais frequentes, erosão costeira mais intensa, salinização de aquíferos que abastecem populações inteiras. Meios de subsistência destruídos. Ecossistemas de manguezal comprometidos.

Quando o relatório diz que esse aumento “pode parecer pouco”, mas já está prejudicando vidas reais, não é retórica científica. É um fato documentado em comunidades que têm nome e endereço.

O oceano também está febril

Uma das métricas recém incluídas no relatório é o número de dias com ondas de calor marinhas. Em 2025, o mundo registrou 65 dias de ondas de calor nos oceanos. Sessenta e cinco dias.

Os oceanos absorvem enorme parte do calor que lançamos na atmosfera e são, em certa medida, nossos maiores aliados na regulação climática. Quando eles aquecem demais, corais morrem em branqueamento em massa, espécies migram para latitudes mais frias, a cadeia alimentar marinha se desorganiza. E há um efeito de retroalimentação: oceanos mais quentes absorvem menos CO₂, o que significa mais gás na atmosfera, o que significa mais aquecimento.

O desequilíbrio energético da Terra, a diferença entre o calor que entra e o calor que consegue sair, continua crescendo. E os oceanos são o principal termômetro disso.

Três anos. É o que sobrou.

Esta é a parte que me deixou mais desconfortável ao ler o relatório.

O chamado orçamento de carbono, a quantidade total de CO2 que ainda podemos emitir para manter o aquecimento abaixo de 1,5°C, é estimado em 130 gigatoneladas de CO2 a partir do início de 2026. Nos níveis atuais de emissões, esse orçamento se esgota em aproximadamente três anos.

Três anos não é uma geração. Não é tempo suficiente para uma transição energética completa, para mudar toda a matriz industrial global, para convencer governos e corporações de que o caminho atual é insustentável. É, honestamente, um prazo que já passou de urgente.

Isso não significa que o mundo vai acabar em três anos, porque o clima não funciona com gatilhos instantâneos. Significa que ultrapassar 1,5°C se torna cada vez mais provável, e com isso os impactos se intensificam em cascata. Mais eventos extremos, mais pressão sobre sistemas de saúde, mais insegurança alimentar e hídrica, mais refugiados climáticos.

E agora, o que fazer?

Essa é a pergunta que fica depois de ler um relatório como esse. E eu não tenho uma resposta simples e acho que ninguém tem.

O que o relatório deixa claro é que o problema não é falta de conhecimento. Os dados estão lá, precisos e atualizados por dezenas dos melhores cientistas do planeta. A questão é política, econômica, cultural. É sobre escolhas que sociedades fazem ou evitam fazer coletivamente.

Em escala individual, consumo consciente, pressão política, eco cidadania ativa, escolhas de mobilidade e alimentação importam. Mas o relatório é enfático que é necessário agora um aumento massivo dos esforços de descarbonização em escala sistêmica, nesta década, não na próxima.

Fechei a leitura do relatório sentindo o peso daqueles 130 gigatoneladas, como se fossem uma contagem regressiva. Não uma contagem para o fim do mundo, mas para um ponto de não retorno em que as escolhas que fazemos hoje vão definir que tipo de futuro vai ser possível para quem vem depois de nós.

Não é uma boa sensação. Mas acho que é uma sensação necessária.

Emissões globais anuais de GEE antropogênico por fonte, 1970-2024. Conjuntos de dados com um asterisco () indicam as fontes usadas para compilar emissões totais globais de gases de efeito estufa após a avaliação do WGIII em (a). CO2 -emissões equivalentes em (a) e (f) são calculadas usando GWP100 do AR6 WGI Chap. 7 (Forster et al., 2021). As emissões de gases F em (a) compreendem apenas as emissões de gases F da UNFCCC (ver Sect. 2.1 para uma lista de espécies). As emissões de gases F em (f) referem-se a gases F da UNFCCC, exceto para “CIP v2026 [ODS F-gases]”. Algumas das principais diferenças descritas entre conjuntos de dados (por exemplo, entre GCB v2025 e JRC-NGHGI v3.1 no painel c) são devidos a limites de sistema variados, em vez de incertezas subjacentes nos níveis de atividade ou fatores de emissões.

Por que limitar o aquecimento a 1,5°C é a meta perseguida?

Meta estabelecida no Acordo de Paris buscava evitar impactos extremos do clima, como secas, elevação do mar e colapso de geleiras. Estudos recentes mostram que o mundo pode já ter ultrapassado esse ponto crítico. (ecodebate)

segunda-feira, 13 de julho de 2026

El Niño + planeta mais quente: O Brasil está preparado?

Perspectiva de El Niño intenso entre 2026 e 2027 chegou às manchetes. O Brasil está preparado?

Nem todo El Niño produz os mesmos efeitos, e é importante evitar simplificações excessivas. Mas nosso país esbarra na dificuldade histórica de incorporar o conceito de risco ambiental às suas atividades de planejamento territorial. É importante aprendermos a lidar com nossas vulnerabilidades.
Especialistas alertam que o Brasil enfrenta desafios históricos para incorporar riscos climáticos ao planejamento territorial. Com o retorno do El Niño e temperaturas globais batendo recordes, a severidade dos impactos exige mitigação urgente, já que o país lida com vulnerabilidades acumuladas nos setores de energia, infraestrutura e agricultura.

Cenários Regionais Esperados

Os impactos do fenômeno no território nacional distribuem-se de maneira heterogênea:

• Norte e Nordeste: Enfrentam reduções drásticas de chuvas, o que aumenta severamente o risco de secas prolongadas e queimadas florestais.

• Centro-Oeste: Monitoramento constante para ondas de calor e risco elevado de incêndios.

• Sudeste: O inverno tende a ser menos rigoroso, com temperaturas acima da média histórica e possibilidade de ondas de calor e chuvas irregulares.

• Sul: Possibilidade de chuvas intensas, tempestades e risco de enchentes e deslizamentos.

Para entender melhor o funcionamento físico do fenômeno e como ele altera o clima no país:

Desafios de Adaptação e Políticas Públicas

O Brasil tem avançado no monitoramento e previsão de eventos extremos, especialmente por meio de dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Contudo, debates recentes no Senado Federal e análises apontam que o país ainda esbarra na dificuldade de implementar políticas de prevenção de desastres e adaptação territorial.

• Segurança Energética: O setor elétrico opera sob alerta. O aquecimento global somado ao El Niño causa irregularidade nas chuvas das principais bacias, exigindo gestão complexa dos reservatórios.

• Agricultura e Meio Ambiente: Os ciclos de seca e calor extremo estressam biomas como a Amazônia e afetam diretamente a produtividade agrícola, exigindo técnicas de plantio mais resilientes.

Perspectiva de El Niño intenso entre 2026 e 2027 chegou às manchetes. O Brasil está preparado?

Nem todo El Niño produz os mesmos efeitos, e é importante evitar simplificações excessivas. Mas nosso país esbarra na dificuldade histórica de incorporar o conceito de risco ambiental às suas atividades de planejamento territorial. É importante aprendermos a lidar com nossas vulnerabilidades.
O fenômeno El Niño voltou a aparecer com frequência no noticiário internacional nos últimos meses. A razão é simples: alguns modelos climáticos indicam a possibilidade de desenvolvimento de um evento relativamente intenso entre 2026 e 2027. Isso não significa, evidentemente, que o planeta caminhe inevitavelmente para uma catástrofe climática global, mas chama atenção porque os episódios mais fortes de El Niño costumam alterar o regime de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.

O El Niño é um fenômeno natural associado ao aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico Equatorial. Esse aquecimento modifica a circulação atmosférica tropical e acaba influenciando o clima em várias regiões do planeta. A climatologia conhece esse mecanismo há bastante tempo, embora ainda existam dificuldades importantes quando se tenta antecipar, com muitos meses de antecedência, a intensidade exata de cada evento e seus impactos regionais (Trenberth, 1997; McPhaden et al., 2006).

Nem todo El Niño produz os mesmos efeitos. Os episódios de 1982/1983, 1997/1998 e 2015/2016 ficaram conhecidos pela intensidade e pelos impactos observados em diferentes continentes, mas cada um deles apresentou características próprias. A atmosfera não responde de maneira idêntica em todos os eventos, e isso é importante para evitar simplificações excessivas.

No Brasil, os efeitos do El Niño variam bastante de uma região para outra. Historicamente, a Região Sul tende a registrar aumento das chuvas durante esses episódios, enquanto áreas do Norte e do Nordeste frequentemente enfrentam redução das precipitações e períodos mais secos. Mas isso não funciona como uma regra absoluta. Outros fatores oceânicos e atmosféricos também interferem no comportamento climático sul-americano, especialmente as condições térmicas do Atlântico Tropical.

Ainda assim, existe uma preocupação compreensível em relação ao cenário atual. O país vem enfrentando, nos últimos anos, uma sequência de eventos extremos bastante significativa. Secas severas na Amazônia, enchentes no Sul, ondas de calor persistentes em diferentes regiões e incêndios florestais de grande proporção passaram a fazer parte da rotina climática recente do Brasil.

Nem todos esses eventos decorrem diretamente do El Niño, e atribuições automáticas costumam ser cientificamente problemáticas. Mas existe hoje um entendimento consolidado de que o aquecimento global pode aumentar a frequência e a intensidade de alguns extremos climáticos. Fenômenos naturais de variabilidade climática, como o El Niño, passam então a atuar sobre uma atmosfera mais quente e com maior disponibilidade de energia e vapor d’água (IPCC, 2021).

O problema brasileiro, contudo, não é apenas climático.

Desastres raramente são produzidos exclusivamente pela chuva, pela seca ou pelo calor. Eles dependem muito das condições sociais e territoriais sobre as quais esses eventos atuam. Uma mesma quantidade de chuva produz impactos completamente diferentes em cidades com infraestrutura adequada e em áreas marcadas por ocupação irregular, drenagem insuficiente e forte vulnerabilidade social.

Isso vale igualmente para as secas. Seus efeitos são muito mais graves onde há baixa segurança hídrica, maior dependência de agricultura de sequeiro e pouca capacidade de resposta institucional. Por isso, fenômenos como o El Niño acabam expondo fragilidades que já existiam antes deles.

O Brasil possui instituições científicas altamente qualificadas para monitorar o clima e produzir previsões sazonais. Houve avanços importantes nas últimas décadas em monitoramento hidrometeorológicos, modelagem climática e sistemas de alerta. Hoje existe capacidade técnica para acompanhar secas, enchentes e extremos climáticos com um nível de detalhe muito superior ao que existia há 20 ou 30 anos.

Super El Niño em 2026? Impactos podem ser históricos no Brasil

Mas conhecimento científico, sozinho, não reduz risco.

Em muitas cidades brasileiras, a expansão urbana continuou ocorrendo em áreas suscetíveis a enchentes e movimentos de massa. Em outras regiões, a pressão sobre recursos hídricos aumentou sem planejamento compatível com a variabilidade climática do país. Grande parte dos problemas aparece justamente aí: menos na ausência de informação e mais na dificuldade histórica de incorporar risco ambiental ao planejamento territorial.

Preparar-se para possíveis impactos associados ao El Niño não significa impedir a ocorrência do fenômeno. Isso simplesmente não é possível. A questão central é reduzir vulnerabilidades. Melhorar drenagem urbana, fortalecer sistemas de alerta, proteger encostas, ampliar monitoramento hidrológico e planejar melhor o uso dos territórios continua sendo medidas muito mais efetivas do que respostas emergenciais tomadas apenas depois das tragédias.

Talvez a principal lição trazida pela discussão atual sobre o El Niño seja justamente essa. Eventos climáticos extremos fazem parte da dinâmica natural do sistema climático. O que transforma esses eventos em desastres de grandes proporções é, muitas vezes, a forma como as sociedades organizam seus territórios e lidam, ou deixam de lidar, com suas próprias vulnerabilidades. (unesp)

Parques urbanos refrescam as áreas de entorno

Parques urbanos criam microclimas mais agradáveis, reduzindo a temperatura do entorno em até 8°C. A combinação de árvores, solo permeável e lagos oferece sombra e umidade, melhorando a qualidade do ar e mitigando o efeito de ilhas de calor nas cidades.

O resfriamento proporcionado pelas infraestruturas verdes não se limita ao interior do bosque, mas irradia para as redondezas, melhorando a qualidade de vida e o bem-estar das comunidades locais.

Para compreender a fundo o impacto desses espaços, os benefícios destacam-se em três frentes:

• Controle Térmico e Umidade: As copas das árvores bloqueiam a radiação solar direta, enquanto a evapotranspiração da vegetação libera vapor d'água no ar, criando um ambiente regulado tanto no calor quanto no frio.

• Alcance dos Benefícios: Pesquisas mostram que a diminuição da temperatura pode chegar a até 6,5%, e o efeito refrescante e de melhoria na qualidade do ar alcança distâncias de até 300 m para além dos limites do parque.

• Bem-Estar e Saúde: Estar próximo a essas áreas e ter contato com a biodiversidade reduz o estresse e incentiva a prática de atividades físicas.

Para ver como essas áreas verdes atuam na prática nas grandes metrópoles, confira os estudos sobre Funções Sociais e Ambientais ou a análise de especialistas sobre como Parques Refrescam Cidades.

Nova pesquisa mostra que a sombra das árvores e o verde das praças reduzem temperatura, poluição e ruído a centenas de metros de distância

Um estudo feito em Surrey, na Inglaterra, mediu em tempo real como um parque de 52 hectares protege não só quem entra nele, mas toda a vizinhança

Porque aquele parque do seu bairro vale muito mais do que você imagina

Semana retrasada, num daqueles dias sufocantes de uma onda de calor, em que o asfalto parece derreter, eu passei pela praça perto de casa e senti algo que, na hora, atribuí apenas ao cansaço e à saudade do frescor de infância: o ar ficou diferente. Mais leve. A temperatura parecia ter caído de repente, como se alguém tivesse aberto uma geladeira gigante no meio da cidade.

Não era impressão.

Uma pesquisa recente conduzida pelo Centro Global de Pesquisa sobre Ar Limpo (GCARE), da Universidade de Surrey, na Inglaterra, confirmou o que muita gente já sentia na pele e foi além, com dados precisos.

O parque que respirou por uma cidade inteira

Os pesquisadores escolheram o Stoke Park, o maior parque de Guildford, com 52 hectares de gramados, árvores e jardins. Usando equipamentos de monitoramento de alta frequência, eles mediram temperatura, poluição por partículas e ruído dentro e ao redor do parque, em condições reais de verão e não em laboratório, não em simulação computacional.

Os números são impressionantes.

Pela manhã, os níveis de partículas em suspensão no ar (o chamado PM10, aquela poeira fina que entra nos pulmões e causa todo tipo de problema respiratório) eram mais de 11% menores dentro do parque do que nas ruas urbanizadas ao redor. A temperatura matinal estava 6,5% mais baixa.

Mas o que me chamou mais atenção foi o que acontecia fora do parque.

O verde que atravessa as grades

A cada 100 metros percorridos a partir da borda do parque em direção às ruas e calçadas da cidade, a temperatura subia mais de meio grau. Esse efeito se estendia por até 300 metros além dos limites do parque.

Pensa comigo: você não precisa estar dentro do parque para sentir o benefício. Quem mora numa rua a dois ou três quarteirões de distância também está, de alguma forma, sendo amparado por aquele verde.

Isso muda completamente a forma como precisamos pensar sobre parques urbanos. Eles não são apenas espaços de lazer isolados, eventualmente cercados por grades e restritos a quem entra neles. São infraestrutura climática. São sistemas de proteção coletiva.

O silêncio que a natureza oferece

O estudo também mediu o ruído. E aqui tem outro dado revelador: dentro dos parques, os níveis de poluição sonora eram 5,41 decibéis mais baixos do que nas áreas urbanas próximas.

5 decibéis podem não parecer muito quando você lê assim, frio no papel. Mas na prática, essa diferença é suficiente para que a maioria das pessoas perceba uma mudança real no ambiente sonoro. É a diferença entre uma rua barulhenta e uma rua que você consegue ouvir a si mesmo pensar.

Nas grandes cidades brasileiras, onde o ruído do trânsito, das obras e dos comércios é praticamente constante, esse dado tem um peso enorme para a saúde mental e o bem-estar das pessoas.

A sombra das árvores como proteção do corpo

Os pesquisadores foram além da temperatura do ar e mediram algo chamado de Temperatura Fisiologicamente Equivalente, ou PET, basicamente, como o corpo humano sente o calor, levando em conta umidade, vento, radiação solar e outros fatores.

E aí o número demonstra que áreas sombreadas por árvores e gramados dentro do parque reduziram essa sensação térmica em até 8,5°C em comparação com as ruas próximas.

8,5°C. No meio de uma onda de calor, essa diferença pode ser, literalmente, a diferença entre se sentir bem e precisar de atendimento médico.

O que isso tem a ver com você, comigo, com nossas cidades

Quando leio pesquisas como essa, fico pensando no Brasil, num país que tem uma biodiversidade incrível, mas que ao mesmo tempo assiste a suas cidades crescerem engolindo áreas verdes, substituindo árvores por concreto, cortando praças para ampliar avenidas.

Cada árvore derrubada numa calçada, cada praça cimentada, cada parque ameaçado por algum projeto imobiliário é, à luz dessa pesquisa, uma decisão que vai custar caro para muita gente, não apenas em dinheiro, mas em saúde, em conforto, em qualidade de vida.

E o contrário também é verdade. Cada parque preservado, cada novo bosque urbano criado, cada arborização de calçada planejada com cuidado é um investimento que protege um raio muito maior do que o espaço físico que ele ocupa.
A cidade que eu quero viver

Não sou urbanista, nem pesquisador de clima. Sou apenas um jornalista, alguém que gosta de caminhar pela cidade e que presta atenção no que sente quando passa por uma praça arborizada versus uma avenida de seis pistas.

Mas estudos como esse me dão argumentos concretos para defender o que eu já defendia, que parques não são luxo. Não são área sobrando no mapa urbano. São parte essencial da infraestrutura de uma cidade que quer ser habitável agora, e especialmente num futuro em que as ondas de calor vão ser cada vez mais frequentes e intensas.

Da próxima vez que você ouvir alguém dizer que “aquele terreno verde ali poderia virar um prédio”, lembre desse estudo. E lembre que o parque protege não só quem está dentro dele, mas todo o quarteirão ao redor.

Talvez até o seu. (ecodebate)

Aquecimento reduz o crescimento das árvores

Árvores sob aquecimento fotossintetizam, mas não crescem na mesma proporção, fazendo os modelos climáticos superestimarem em até 30% a capac...