Impactos Principais
• Riscos Climáticos
Múltiplos: Cerca de 1,1 bilhão de crianças no planeta sofrem com pelo menos
três tipos de riscos climáticos, como secas, enchentes e ondas de calor. No
Brasil, milhões de menores enfrentam essa mesma vulnerabilidade extrema.
• Ameaça à Educação:
Desastres ambientais danificam escolas e transformam salas de aula em abrigos
temporários, interrompendo o aprendizado e a rotina.
• Saúde e Nutrição: O calor
excessivo e a falta de água potável elevam casos de desnutrição e de doenças
como dengue e diarreia.
• Danos Emocionais: O trauma
de eventos extremos e a chamada ansiedade climática prejudicam a saúde mental e
o bem-estar socioemocional dos jovens.

Uma criança que perde
alimentação, saúde ou meses de escolarização carrega consequências muito além
da emergência em um evento climático extremo
O segundo boletim do Painel
El Niño 2026–2027, divulgado em agosto, confirmou que o fenômeno deverá
permanecer ativo pelo menos até o início de 2027, com alta probabilidade de
atingir intensidade muito forte entre a primavera e o verão. As projeções
indicam temperaturas acima da média em praticamente todo o Brasil, redução das
chuvas em grande parte das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e
precipitações mais elevadas no Sul. Esse cenário amplia os riscos de ondas de
calor, secas, incêndios florestais, enchentes e deslizamentos, atingindo um
país no qual milhões de crianças já vivem em territórios marcados pela pobreza,
pela precariedade habitacional e pela insuficiência dos serviços públicos.
O El Niño é um fenômeno
natural e recorrente, mas sua atuação ocorre agora sobre um planeta aquecido
pelas mudanças climáticas. A combinação entre os dois processos aumenta a
possibilidade de eventos extremos e expõe uma desigualdade que os indicadores
nacionais agregados nem sempre revelam. Uma tempestade, uma seca ou uma onda de
calor não encontra todas as crianças nas mesmas condições. Algumas vivem em
casas protegidas, estudam em escolas preparadas e contam com atendimento médico
próximo. Outras dependem de moradias frágeis, escolas sem água adequada, postos
de saúde sobrecarregados e redes familiares cuja renda pode desaparecer diante
da primeira emergência. A crise climática, por isso, também é uma crise dos
direitos da infância.
Uma geração cercada por
ameaças climáticas
O Relatório de Risco
Climático das Crianças 2026, divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a
Infância (Unicef), dimensionou essa exposição. No Brasil, 16 milhões de
crianças e adolescentes vivem em áreas submetidas simultaneamente a 3 ou mais
ameaças climáticas, como secas, calor extremo, ondas de calor, queimadas,
enchentes e tempestades. São aproximadamente 3 em cada 10 meninas e meninos do
país. Quando considerados 2 ou mais riscos, o número ultrapassa 30 milhões, o
equivalente a 6 em cada 10.
A multiplicidade das ameaças
é importante porque os impactos não costumam ocorrer isoladamente. Uma seca
prolongada reduz a disponibilidade de água, compromete a produção de alimentos,
favorece incêndios e aumenta a concentração de poluentes no ar. Uma enchente
pode destruir moradias, interromper aulas, contaminar fontes de abastecimento e
impedir o funcionamento de unidades de saúde. Depois que as águas baixam ou a
chuva retorna, os prejuízos continuam presentes na perda de renda familiar, no
endividamento, na insegurança alimentar e na dificuldade de reconstruir a vida
cotidiana.
Crianças
e adolescentes são especialmente dependentes da continuidade dos serviços
públicos e dos cuidados familiares. Quando um desastre interrompe o transporte,
fecha uma escola ou dificulta o acesso aos centros de saúde, eles não dispõem
de autonomia para procurar alternativas. Essa dependência não significa
passividade, mas revela que sua proteção exige decisões anteriores ao desastre.
Ainda assim, políticas climáticas e planos municipais frequentemente tratam a
população como um conjunto homogêneo, sem reconhecer as necessidades
específicas da infância.
O calor que adoece e amplia
desigualdades
Crise climática ameaça a vida
de 1 em cada 2 crianças no planeta, aponta Unicef.
Estudo cruzou dados de
2,4 bilhões de menores com a ocorrência de oito riscos climáticos, como
inundações, secas e ondas de calor.
Um estudo publicado em agosto/2026
na revista científica Science Advances e divulgado em 31/08/2026 pelo portal
EcoDebate mostrou que 9,2 milhões de crianças brasileiras de até nove anos,
correspondentes a 32% dessa faixa etária, enfrentam pelo menos trinta dias
adicionais de estresse térmico por ano em consequência das mudanças climáticas.
A pesquisa age-specific exposure to human-induced increases in humid heat,
coordenada pela Vrije Universiteit Brussel, combinou dados demográficos e
modelos climáticos para identificar a parcela da exposição ao calor úmido
atribuível ao aquecimento provocado pelas atividades humanas. O número de
crianças brasileiras submetidas a pelo menos 5 meses anuais de calor perigoso
passou de aproximadamente 300 mil, em um cenário sem o aquecimento
antropogênico, para 3,2 milhões nas condições atuais.
Outro estudo anterior publicado
em 2025 na revista científica Environmental Research, estudo analisou mais de
um milhão de mortes de crianças menores de cinco anos ocorridas no país ao
longo de duas décadas e encontrou evidências científicas que mostram que as
temperaturas extremas já produzem efeitos mensuráveis sobre a saúde infantil no
Brasil. A pesquisa foi desenvolvida pela Fundação Oswaldo Cruz da Bahia
(Cidacs/Fiocruz Bahia) e pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em
colaboração com instituições internacionais. Os resultados mostraram que, em
comparação com as temperaturas associadas ao menor risco de mortalidade, o
risco de morte infantil aumentou 95% nos dias de frio extremo e 29% nos dias de
calor extremo, com diferenças relacionadas à idade, à região do país e às condições
sociais.
Os organismos de bebês e
crianças pequenas ainda estão desenvolvendo seus mecanismos de regulação da
temperatura. Por essa razão, perdem líquidos com maior facilidade e possuem
menor capacidade de responder ao calor intenso. Temperaturas elevadas aumentam
os riscos de desidratação, problemas renais, agravamento de doenças
respiratórias e disseminação de algumas enfermidades infecciosas. O frio
extremo também pode provocar complicações respiratórias e metabólicas,
especialmente em moradias com infiltrações, umidade e proteção térmica
insuficiente.
Os riscos não decorrem apenas
da temperatura registrada pelos termômetros. A qualidade das habitações, a
presença de árvores, o acesso à água e a disponibilidade de espaços ventilados
definem a intensidade da exposição. Nas periferias urbanas, a concentração de
construções, as superfícies asfaltadas, a falta de vegetação e os telhados
inadequados produzem ambientes muito mais quentes. Em áreas rurais e
comunidades tradicionais, longas distâncias até os serviços de saúde podem
transformar um problema inicialmente simples em uma situação grave.
As
recomendações habituais para os dias muito quentes, como beber água, permanecer
em lugares frescos e evitar exposição ao sol, pressupõem condições que não
estão disponíveis para todas as famílias. Milhões de pessoas não possuem
climatização, moram em casas mal ventiladas ou enfrentam abastecimento
irregular. Muitos responsáveis trabalham fora durante todo o dia e não podem
alterar suas jornadas quando as temperaturas sobem. Sem políticas públicas, a
orientação individual transfere às famílias a responsabilidade por enfrentar
riscos produzidos também pela desigualdade urbana e pela ausência de adaptação
climática.
A crise climática começa
antes do nascimento
Um estudo publicado em 2026
na revista científica The Lancet Regional Health – Americas acrescentou outra
dimensão ao problema. A pesquisa analisou 29,8 milhões de nascimentos ocorridos
no Brasil entre 2001 e 2020 e identificou associação entre a exposição à seca
durante a gestação e o aumento do risco de nascimento prematuro e de bebês
pequenos para a idade gestacional. Os efeitos foram mais pronunciados em biomas
como Amazônia, Caatinga, Cerrado e Pampa e nas populações socialmente mais
vulneráveis.
As secas influenciam a
gestação por diferentes caminhos. Elas podem reduzir o acesso à água potável,
diminuir a quantidade e a diversidade dos alimentos, aumentar a exposição ao
calor e dificultar o acompanhamento pré-natal. Nas comunidades isoladas, a redução
do nível dos rios impede deslocamentos até as unidades de saúde. Nas áreas
rurais, a perda da produção agrícola compromete simultaneamente a renda e a
alimentação da família. Em territórios sem saneamento adequado, a escassez de
água também aumenta os riscos de contaminação e doenças.
Esses resultados mostram que
a proteção da infância não pode começar somente após o nascimento. A atenção
primária à saúde precisa incorporar informações climáticas, identificar
gestantes expostas a secas e ondas de calor e organizar antecipadamente o
acompanhamento das comunidades mais vulneráveis. Garantir água segura,
alimentação adequada e acesso ao pré-natal durante uma emergência climática
deve fazer parte das políticas de adaptação, e não ser tratado como medida improvisada
quando os efeitos já estão instalados.
Quando o calor chega ao prato
A relação entre temperatura e
alimentação infantil foi demonstrada por outro estudo publicado em 2026, desta
vez na revista The Lancet Planetary Health. A pesquisa acompanhou informações
de mais de seis milhões de crianças brasileiras entre um e cinco anos. Acima de
26°C, cada aumento de 1°C na temperatura local foi associado a uma elevação de
aproximadamente 10% na possibilidade de baixo peso e de 8% nas possibilidades
de desnutrição aguda e de comprometimento persistente do crescimento.
Os resultados foram mais
graves nas regiões Norte e Nordeste, nas áreas rurais e entre crianças
indígenas e negras. A desigualdade encontrada não é um detalhe secundário. Ela
mostra que a elevação da temperatura atua sobre estruturas sociais já
existentes. Famílias com maior renda podem substituir alimentos, preservar
estoques, climatizar ambientes e buscar atendimento médico. Famílias pobres
dependem mais dos preços locais, da produção de pequena escala, da alimentação
escolar e da continuidade dos programas públicos.
O calor e a irregularidade
das chuvas afetam lavouras, reduzem a produtividade, alteram a disponibilidade
de frutas e hortaliças e podem elevar os preços. Também interferem no armazenamento
e no transporte de produtos perecíveis. Quando a renda é limitada, o
encarecimento não provoca apenas redução da quantidade ingerida. Ele diminui a
diversidade das refeições e favorece a substituição de alimentos frescos por
produtos mais baratos e de menor qualidade nutricional.
O El Niño de 2026 torna essa
relação especialmente preocupante. A previsão de chuvas abaixo da média no
centro-norte do país pode afetar a agricultura familiar, o abastecimento de
comunidades indígenas e ribeirinhas e a produção destinada aos mercados locais.
Na Região Sul, o excesso de precipitação também pode danificar plantações e
estradas. A alimentação escolar, as compras públicas da agricultura familiar,
os estoques governamentais e os programas de transferência de renda tornam-se,
nesse contexto, instrumentos de adaptação climática e proteção da infância.

A escola interrompida pelos desastres
A educação constitui outra dimensão frequentemente tratada como consequência lateral dos eventos extremos. Em 2024, pelo menos 1,17 milhão de estudantes brasileiros tiveram as aulas interrompidas por emergências climáticas. As enchentes no Rio Grande do Sul afetaram mais de 2 mil escolas estaduais e impediram que aproximadamente 741 mil estudantes frequentassem as aulas. Na Amazônia, a seca paralisou por períodos prolongados cerca de 1.700 escolas, incluindo mais de cem unidades situadas em áreas indígenas, atingindo aproximadamente 436 mil estudantes.
A interrupção não representa apenas perda de conteúdo escolar. Para muitas crianças, a escola oferece alimentação, proteção, convivência e acesso a serviços públicos. Seu fechamento desorganiza a rotina familiar e pode obrigar responsáveis a deixar o trabalho para cuidar dos filhos. Quando o afastamento se prolonga, aumentam as dificuldades de aprendizagem e os riscos de abandono, sobretudo entre estudantes que já enfrentavam trajetórias escolares irregulares.
As próprias instalações escolares também revelam a desigualdade ambiental. Segundo dados do Censo Escolar 2024, sistematizados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), mais de 500 mil estudantes frequentam cerca de 8 mil escolas públicas municipais sem acesso à água por fontes consideradas adequadas. Desse total, aproximadamente 138 mil estão matriculados em pouco mais de 2 mil unidades nas quais não existe acesso à água. Quase 94% dessas escolas estão localizadas em áreas rurais.
Em períodos de calor extremo, salas lotadas, telhados que concentram calor e ausência de ventilação prejudicam a concentração e tornam a permanência na escola desgastante. Durante enchentes e deslizamentos, unidades escolares são frequentemente utilizadas como abrigos, mesmo quando não foram planejadas para essa função. A adaptação da educação exige estruturas resistentes, água segura, conforto térmico, planos de contingência, alternativas de transporte e estratégias que permitam a continuidade das aulas sem excluir quem não possui acesso regular à internet.
A geografia social da infância climática
Os impactos do clima acompanham as desigualdades territoriais e raciais do país. Crianças indígenas podem enfrentar seca, contaminação da água, escassez de pescado e interrupção do atendimento realizado por equipes de saúde. Crianças quilombolas e rurais convivem com distâncias maiores até escolas e unidades médicas. Nas periferias urbanas, famílias negras estão mais presentes em encostas, margens de rios e bairros com pouca arborização, drenagem insuficiente e saneamento precário.
O desastre não é produzido somente pela chuva, pela seca ou pelo calor. Ele surge quando esses eventos encontram populações submetidas à precariedade e territórios historicamente privados de investimentos. A mesma quantidade de chuva pode ser absorvida por um bairro arborizado e dotado de drenagem, enquanto provoca alagamentos em uma comunidade construída junto a um curso d’água degradado. A mesma temperatura produz efeitos diferentes em uma casa ventilada e em uma moradia pequena, coberta por materiais que acumulam calor.
A desigualdade também aparece na recuperação. Famílias com poupança, seguro e acesso ao crédito conseguem substituir móveis, mudar temporariamente de residência e retomar mais rapidamente a rotina. As famílias pobres dependem de doações, benefícios emergenciais e respostas governamentais que nem sempre chegam no tempo necessário. Para as crianças, a demora significa permanência prolongada em abrigos, perda de materiais escolares, afastamento da comunidade e fragilização das redes de proteção.
A distância entre o protocolo e a proteção efetiva
O Brasil atualizou, em 2025, o Protocolo Nacional para a Proteção Integral de Crianças e Adolescentes em Situação de Riscos e Desastres. Elaborado pelo governo federal em parceria com o Unicef e outras instituições, o documento distribui responsabilidades entre os sistemas de defesa civil, saúde, educação, assistência social, justiça, direitos humanos e conselhos tutelares. Sua concepção reconhece que a proteção deve ocorrer antes, durante e depois das emergências.
O protocolo recomenda a identificação prévia das crianças residentes nas áreas de risco, a manutenção dos serviços essenciais, a existência de abrigos adequados e a preparação das equipes públicas. Também prevê cuidados para evitar separações familiares, garantir alimentação e continuidade escolar e atender crianças com deficiência ou necessidades específicas. Sua efetividade, entretanto, dependerá da incorporação dessas orientações aos planos estaduais e municipais, da capacitação das equipes e da destinação de recursos permanentes.
O Ministério da Saúde reconheceu, em julho de 2026, que as mudanças climáticas já desafiam a organização do Sistema Único de Saúde (SUS). A resposta passa pelo fortalecimento da atenção primária, cuja presença nos territórios permite identificar vulnerabilidades, acompanhar famílias e organizar ações antes que a emergência se transforme em crise sanitária. Na educação, uma coleção lançada pelo Unicef em maio oferece orientações para que redes de ensino se preparem para as emergências climáticas, com atenção especial à Amazônia Legal e possibilidade de aplicação em todo o país.
Essas iniciativas mostram avanços, mas a intensificação do El Niño cobrará capacidade de execução. Não basta possuir alertas meteorológicos se escolas, unidades de saúde e serviços de assistência social não souberem como agir. Também não basta orientar famílias a abandonar áreas perigosas quando não existem moradias seguras para recebê-las. A proteção da infância depende de políticas coordenadas de habitação, saneamento, saúde, alimentação, educação e defesa civil.
As previsões disponíveis oferecem tempo para agir antes dos períodos mais críticos. Municípios podem mapear crianças em áreas vulneráveis, preparar escolas e unidades de saúde, garantir estoques de água e alimentos, revisar abrigos e organizar rotas de atendimento. A antecipação não elimina os eventos climáticos, mas pode impedir que eles interrompam direitos e aprofundem desigualdades.

Ao colocar a infância no
centro da adaptação climática, o país reconhece que os danos não se limitam ao
momento do desastre. Uma criança que perde alimentação, saúde ou meses de
escolarização carrega consequências muito além da emergência. O El Niño
passará, como outros episódios anteriores, mas seus efeitos poderão permanecer
na vida de uma geração inteira se a resposta pública chegar somente depois que
o calor, a seca ou a enchente já tiverem ocupado o território. (ecodebate)