terça-feira, 7 de abril de 2026

Crise climática está acelerando

A crise climática está acelerando. E daí?
Crise climática: ciência busca soluções para um futuro sustentável

A crise climática está acelerando rapidamente, com 2025 registrando recordes de temperatura e concentração de CO2. Especialistas alertam que o aquecimento global superou a meta de 1,5°C do Acordo de Paris, com riscos de atingir 2°C ou mais até 2045, causando eventos extremos mais frequentes e severos, derretimento acelerado de geleiras e desequilíbrio energético oceânico.

Pontos-chave da aceleração:

Emissões e Gases: A concentração de CO2 atingiu 422,8 ppm em 2024, com um salto recorde anual de 3,4 ppm, impulsionado por combustíveis fósseis.

Calor Extremo: A última década (2015-2025) foi a mais quente já registrada, e 2025 atingiu 1,43°C acima dos níveis pré-industriais.

Oceanos e Gelo: Mais de 90% do excesso de calor é absorvido pelos oceanos, resultando em branqueamento de corais e elevação do nível do mar.

Impacto no Brasil: Aumento da vulnerabilidade econômica, com riscos para agricultura e geração hidrelétrica devido a mudanças no regime de chuvas e erosão costeira.

Consequências Imediatas e Futuras:

Eventos Extremos: Secas, enchentes, furacões e ondas de calor ocorrem com maior intensidade.

Insegurança: Milhões de pessoas enfrentam riscos de fome e deslocamento populacional.

Ação Urgente: A ONU reforça que a demora em reduzir emissões é fatal e os efeitos serão sentidos por séculos.

ONU alerta que a crise climática se acelera após redução nos confinamentos da pandemia

Recordes de temperatura, oceanos superaquecidos, geleiras desaparecendo e enchentes ao lado de secas. Os ‘termômetros’ não mentem e os números têm um recado urgente para todos nós

Existe uma cena fácil de lembrar. Em abril de 2024, Dubai, uma cidade construída no deserto, onde a média anual de chuva não passa de 90 milímetros, afogou. Em menos de 24 horas, caiu o equivalente a quase três anos de precipitação. Ruas viram rios. O maior aeroporto do Oriente Médio parou.

No mesmo ano, do outro lado do Atlântico, os rios da bacia amazônica registravam a pior seca em 122 anos. Barcos encalhados, comunidades isoladas, peixes mortos boiando em lagos que estavam evaporando.

Dois extremos. O mesmo planeta. O mesmo problema.

Esses episódios não são coincidências e tampouco são anomalias passageiras. Eles são sintomas e os dados científicos de 2024 e 2025 deixaram isso mais claro do que nunca.

Se você ainda tem dúvidas sobre o que está acontecendo com o clima da Terra, este texto pode ser útil. Vou tentar explicar sem catastrofismo paralisante, mas também sem suavizar o que precisa ser dito.

O ‘cobertor’ que engrossou demais

Antes de qualquer dado, um conceito básico que faz tudo se encaixar: o efeito estufa.

Certos gases na atmosfera funcionam como um ‘cobertor’ ao redor da Terra. Deixam entrar a energia do Sol, mas retêm parte do calor que seria irradiado de volta para o espaço. Sem esse mecanismo, nosso planeta seria cerca de 30°C mais frio e inabitável como o conhecemos. O efeito estufa, em si, é um presente da natureza.

O problema é o que estamos fazendo com esse cobertor desde a Revolução Industrial: engrossando-o em uma velocidade sem precedentes na história geológica do planeta.

Queima de petróleo, carvão e gás. Desmatamento em larga escala. Criação industrial de gado. Aterros sanitários. Cada uma dessas atividades despeja na atmosfera quantidades crescentes de dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxido nitroso (N₂O), os chamados gases de efeito estufa.

O resultado aparece nos números com uma clareza que intimida. Antes da industrialização, a concentração de CO₂ na atmosfera era de 278 partes por milhão. Em 2024, chegou a 422,8 ppm, um aumento de 52% em menos de três séculos. E o ritmo não está desacelerando: está acelerando. Na década de 1960, essa concentração subia 0,6 ppm por ano. Entre 2011 e 2020, a média foi de 2,4 ppm. De 2023 para 2024, o salto foi de 3,4 ppm, o maior já registrado em toda a série histórica.

Pense numa banheira. As emissões humanas são a torneira aberta. As florestas e os oceanos são o ralo. Hoje, estamos colocando água muito mais rápido do que o ralo consegue escoar e a banheira está transbordando.
Gráfico: Concentrações mensais de CO2 de observações até 2024 (preto) e um cenário consistente com a limitação do aquecimento global a 1,5°C (roxo). Também é mostrada a previsão do Met Office para 2025. Observações são o recorde de Keeling Curve em Mauna Loa, da Scripps Institution for Oceanography, UC San Diego, que começou em março de 1958. A partir de 2024, os valores mensais são calculados a partir das concentrações médias anuais no cenário C1-IMP-SP, com um ciclo sazonal ilustrativo imposto que continua a amplitude observada nos últimos anos.

2024, o ano em que cruzamos a linha vermelha

O Acordo de Paris, firmado em 2015, estabeleceu como meta crítica limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Era o limite a partir do qual os cientistas projetavam consequências difíceis de reverter.

Em 2024, esse limite foi ultrapassado pela primeira vez em um único ano. O aquecimento registrado foi de 1,52°C, sendo 1,36°C diretamente atribuído às atividades humanas.

Tecnicamente, a meta do Acordo de Paris se refere a uma média de longo prazo, não a um ano isolado. Então não, ainda não “falhamos” formalmente. Mas a analogia que me parece mais honesta é a do painel do carro no vermelho: o motor não fundiu ainda, mas está operando no limite perigoso e o ponteiro não para de subir.

A narrativa de que “vai esfriar quando o El Niño acabar” não se sustentou. Mesmo com sinais de transição para a La Niña, fenômeno que normalmente resfria os oceanos, janeiro de 2025 foi o mês mais quente já registrado na história, com temperaturas 1,75°C acima das do final do século XIX.

Os oceanos estão pagando nossa conta

Se a Terra ainda não está ainda mais quente, você pode agradecer aos oceanos. Eles absorvem mais de 90% do excesso de calor gerado pelos gases de efeito estufa e capturam cerca de 30% de todo o CO2 que emitimos. São o maior amortecedor climático do planeta.

E estão exaustos.

Em 2024, o conteúdo de calor dos oceanos atingiu níveis recordes. A temperatura média da superfície oceânica chegou ao inédito de 20,87°C. Em 2023, cerca de 91% da superfície dos mares sofreu pelo menos uma onda de calor marinha, destruindo recifes de coral e perturbando ecossistemas inteiros, que levaram milênios para se formar.

O nível do mar, por sua vez, bateu recorde pelo 13º ano consecutivo. A taxa de elevação quase dobrou nas últimas décadas: de 2,1 mm por ano no início dos anos 1990 para 4,1 mm ao ano entre 2016 e 2025. Isso acontece por dois motivos simultâneos: a água se expande quando aquece e as geleiras estão derretendo, acrescentando volume ao mar.

Há ainda um terceiro problema, mais silencioso e talvez mais assustador a longo prazo: a acidificação. O CO₂ absorvido pelos oceanos se transforma em ácido carbônico, tornando a água progressivamente mais ácida. Isso corrói as conchas de moluscos, os esqueletos dos corais e desequilibra toda a cadeia alimentar marinha. É o tipo de mudança que não vira manchete, mas pode reconfigurar a vida no mar por séculos ou milênios.
As temperaturas dos oceanos também estavam entre as mais altas já registradas em 2025, refletindo o acúmulo de calor a longo prazo dentro do sistema climático.

De 2024-2025, o teor global de calor oceânico de 2000 m (OHC) aumentou em 23 ± 8 Zettajoules em relação a 2024, de acordo com o estudo liderado por Lijing Cheng com o Instituto de Física Atmosférica da Academia Chinesa de Ciências. Isso é cerca de 200 vezes a geração total de eletricidade do mundo em 2024.

Regionalmente, cerca de 33% da área oceânica global ficou entre suas condições históricas (1958-2025) entre as três condições mais quentes, enquanto cerca de 57% caíram entre as cinco principais, incluindo o Oceano Atlântico tropical e sul, o Mar Mediterrâneo, o Oceano Índico do Norte e os Oceanos Antárticos, ressaltando o amplo aquecimento oceânico através das bacias.

O estudo descobriu que a temperatura média global da superfície do mar (SST) em 2025 foi de 0,49°C acima da linha de base de 1981-2010 e 0,12 ± 0,03°C menor do que em 2024, consistente com o desenvolvimento das condições de La Niña, mas ainda classificando como o terceiro ano mais quente já registrado.

As geleiras que não voltam mais

Há algo profundamente perturbador em perder uma geleira. Essas formações de gelo levaram dezenas de milhares de anos para se constituir. Em 2024, a Venezuela e a Colômbia viram as suas últimas desaparecerem.

No mesmo ano, todas as 58 geleiras monitoradas no mundo perderam massa, a maior perda registrada em 55 anos. No ártico, 2024 foi o segundo ano mais quente em 125 anos de registros.

Além do impacto simbólico, há uma consequência física muito concreta: cada pedaço de gelo que desaparece acelera o aquecimento. O gelo branco reflete a energia solar de volta para o espaço, é o chamado efeito albedo. Sem ele, o oceano escuro absorve mais calor, que derrete mais gelo, que absorve mais calor. Um ciclo que, uma vez iniciado, não tem botão de pausa.

Chuva demais e água de menos, ao mesmo tempo

Esse é, talvez, o paradoxo mais difícil de comunicar sobre a crise climática: ela pode criar seca e enchente no mesmo país, quase ao mesmo tempo.

Um planeta mais quente evapora mais água. Uma atmosfera mais quente retém mais vapor. O ciclo hidrológico fica supercarregado e profundamente irregular. Em 2024, a atmosfera continha a maior quantidade de vapor d’água já registrada. As chuvas se tornaram mais intensas, mas também mais concentradas em eventos extremos.

No Brasil, isso ficou dolorosamente evidente: enquanto os rios amazônicos viviam a pior seca em mais de um século, o Rio Grande do Sul enfrentava enchentes históricas que deixaram rastros de destruição e luto. Dois extremos do mesmo problema, no mesmo país, separados por poucos meses.

A água, elemento mais fundamental à vida, se tornou um claro exemplo dos efeitos da crise climática.

E agora, o que fazemos?

Aqui chego ao ponto que mais me incomoda escrever, porque a resposta honesta é que precisamos fazer muito mais do que estamos fazendo.

Na COP30, realizada em Belém, os governos não conseguiram chegar a um acordo vinculante sobre novas medidas para reduzir emissões. A geopolítica estava tensa. Os Estados Unidos, sob nova liderança, reverteram seus compromissos climáticos e saíram novamente do Acordo de Paris no primeiro dia do novo governo.

Com base nos planos climáticos nacionais atualmente em vigor, o aquecimento global pode atingir cerca de 3,2°C até o final deste século. Mais que o dobro do limite considerado seguro.

A única saída física é fechar a torneira e atingir emissões líquidas zero de CO2. Não em 2100. Não em 2070. O quanto antes.
Metano: o gás invisível que acelera a crise climática

Isso não é catastrofismo. É o que os dados repetem, com paciência científica, há décadas.

Mas também não é uma sentença de morte. Cada decisão importa agora, de governos, de empresas, de indivíduos, de uma forma que não importava há cinquenta anos. Nunca tantas escolhas de tantas pessoas, tomadas agora, tiveram tanto peso sobre o futuro.

A Terra tem febre. Os termômetros estão aí. A questão que fica é o que escolhemos fazer enquanto ainda há tempo. (ecodebate)

domingo, 5 de abril de 2026

Determinantes da transição da fecundidade no Brasil

A transição da fecundidade no Brasil, caracterizada pela queda rápida do número de filhos por mulher desde os anos 60, é impulsionada principalmente pela maior inserção feminina no mercado de trabalho, urbanização acelerada, aumento da escolaridade e acesso a métodos contraceptivos. O alto custo de vida urbano e o planejamento familiar também são fatores chave.

Principais Determinantes da Queda da Fecundidade no Brasil:

Participação Feminina no Mercado de Trabalho: É apontada como o fator mais determinante. A busca por carreira profissional e independência financeira fez com que muitas mulheres adiassem ou decidissem ter menos filhos.

Urbanização e Custo de Vida: A transferência da população rural para as cidades modificou o papel dos filhos, que deixaram de ser mão de obra familiar e passaram a representar um alto custo de criação (habitação, educação).

Avanço da Escolaridade Feminina: Mulheres mais escolarizadas tendem a se casar mais tarde e a planejar melhor o tamanho da família, optando por menos descendentes.

Acesso a Métodos Contraceptivos e Informação: A difusão de anticoncepcionais, avanços científicos e o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) no planejamento familiar permitiram maior controle sobre a reprodução.

Mudanças Culturais e Sociais: Valorização da autonomia pessoal, estabilidade emocional e a redefinição do conceito tradicional de família, focando mais na qualidade de vida.

Dinâmica da Transição:

Velocidade: O Brasil passou por essa transição de forma muito mais rápida que a média mundial, assemelhando-se atualmente a padrões de países desenvolvidos.

Perfil da Queda: A fecundidade de mulheres mais jovens diminuiu, enquanto o número de nascimentos entre mulheres mais velhas (postergação) e casos de gravidez na adolescência, embora caindo no geral, ainda mostram disparidades.

Impactos: Essa queda resulta em um envelhecimento populacional acelerado e traz desafios para os sistemas previdenciários e a força de trabalho.
A transição da fecundidade é um fenômeno que veio para ficar. Isto significou famílias menores, menor crescimento demográfico e mudança da estrutura etária

Na maior parte da história brasileira, as taxas de mortalidade e fecundidade eram elevadas. Mas diversos desenvolvimentos na produção de bens e serviços, no avanço da medicina e saneamento básico, aumento da urbanização e dos níveis de escolaridade possibilitaram que as taxas de mortalidade começassem a cair no final do século XIX e continuassem caindo no século XX. Contudo, a Taxa de Fecundidade Total (TFT), na média nacional, só começou a cair a partir da década de 1970.

O gráfico abaixo, mostra que a TFT do Brasil estava acima de 6 filhos por mulher entre 1940 e 1960, caiu para 5,8 filhos em 1970, para 4,4 filhos em 1980, para 2,9 filhos em 1991, para 2,3 filhos em 2000, para 1,9 filho em 2010 e 1,55 filho por mulher em 2022. As regiões Norte e Nordeste tinham TFT acima da média nacional e as regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste abaixo da média nacional.

Entre 1940 e 1970, havia divergência nas taxas de fecundidade regionais, pois a diferença na TFT das regiões Norte e Nordeste era de 1,5 filho em 1940, passou para 2,5 filhos em 1950, para 2,3 filhos em 1960 e para 3,6 filhos em 1970. Mas a partir da década de 1970 passou a haver convergência na transição da fecundidade entre as diversas regiões brasileiras. Como mostra o gráfico, todas as regiões convergiram para taxas próximas de 1,55 filhos, sendo que as diferenças regionais em 2022 ficaram no máximo em 0,5 filho. Isto quer dizer que a transição da fecundidade no Brasil é um fenômeno comum em todo o território nacional.

De fato, a transição da fecundidade no Brasil ocorreu em um quadro de profundas transformações econômicas, sociais e institucionais que tiveram efeito no século passado, mas especialmente na segunda metade do século XX. Em 1930 houve uma Revolução que rompeu com o modelo econômico primário-exportador, característico da República Velha (1889-1930). No primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945) foram implementadas as primeiras políticas sociais e trabalhistas brasileiras. Depois de um breve interregno fora do poder, Getúlio Vargas ganhou as eleições de 1950 e deu início a uma política nacionalista visando a acelerar o desenvolvimento econômico do Brasil.

Mas foi no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), com o Plano de Metas, que o Brasil entrou em uma fase de acelerada urbanização e industrialização. O golpe militar de 1964 deu início a uma série de governos autoritários que aprofundaram o processo de integração internacional da economia brasileira, reforçando as tendências rumo a uma economia urbano-industrial, mas com profundas desigualdades sociais e regionais. A junção das mudanças estruturais, que já vinham ocorrendo desde 1930, com as mudanças institucionais implantadas na segunda metade dos anos 60, foi decisiva para a transição da fecundidade no Brasil.

Existem várias abordagens teóricas para explicar este processo. A abordagem da proletarização dá ênfase ao efeito das mudanças estruturais sobre o tamanho da família. Segundo Carvalho, Paiva e Sawyer (1981) e Paiva (1985) o tipo de estrutura produtiva do sistema primário-exportador e da economia de subsistência estimulavam as altas taxas de fecundidade que eram viabilizadas por um padrão de casamento precoce sem o uso generalizado de métodos contraceptivos. O processo de proletarização provocou a desestabilização do regime de alta fecundidade no Brasil através de mudanças que ocorreram em três níveis: 1) monetarização da economia; 2) ampliação e diversificação do cesto de consumo através da inclusão de bens industrializados; 3) destruição da economia de base familiar (subsistência) e expansão e homogeneização do mercado de trabalho assalariado.

A abordagem de Faria (1989) busca relacionar o declínio da fecundidade a processos de mudança institucional associados às políticas públicas promovidas pelo Governo Federal depois de 1964. Quatro políticas foram estratégicas para o aumento da demanda por regulação e a consequente redução da fecundidade no Brasil: 1) política de crédito ao consumidor; 2) política de telecomunicações; 3) política de previdência social; 4) política de atenção à saúde. Usando um arcabouço próprio dos enfoques culturais, o autor considera que as políticas públicas influenciaram na queda da fecundidade agindo como vetores institucionais (difusão) portadores de novos conteúdos de consciência (inovação). A queda da fecundidade foi uma consequência não antecipada da ação governamental. O efeito perverso desse processo foi que, apesar das pressões para uma maior regulação da fecundidade incidir sobre a população pobre, a oferta de meios contraceptivos se deu através do mercado, isto é, a altos custos monetários, portanto, fora do alcance do poder aquisitivo das camadas populares.
A abordagem de Merrick e Berquó (1983) considera que o declínio da fecundidade que já vinha ocorrendo entre as camadas sociais com maiores níveis de renda e educação se aprofundou nos anos 70, com a difusão dos meios de limitação da família para grupos e regiões de baixa renda. Os autores relacionam os seguintes fatores socioeconômicos que contribuíram com a queda da fecundidade: 1) aumento dos níveis educacionais e redução do analfabetismo, principalmente entre as mulheres; 2) aumento da taxa de participação feminina no mercado de trabalho; 3) mudança no padrão de consumo através da inclusão de bens de consumo duráveis e crescimento das expectativas de consumo entre os grupos de baixa renda.

A abordagem de Alves (1994) mostra que os determinantes estruturais e institucionais afetam os níveis de fecundidade na medida em que influenciam a relação entre as gerações e entre os gêneros, considera, também, que as abordagens anteriores não são excludentes, mas apontam para diversas facetas de um processo complexo e multifacetado de mudança no padrão reprodutivo. Com base em Caldwell (1982), o autor argumenta que houve uma reversão do fluxo intergeracional de riqueza entre pais e filhos no Brasil. Concomitantemente, as mudanças nas relações de gênero reforçaram a transição de altos a baixos níveis de fecundidade. Particularmente importantes foram o crescimento dos níveis educacionais das mulheres e o aumento da participação feminina no mercado de trabalho, especialmente em empregos formais, com contribuição à previdência social.

Estas quatro abordagens fornecem os instrumentos teóricos capazes de explicar os dados empíricos da transição da fecundidade no Brasil, na região Sudeste e no Estado do Rio de Janeiro. Não é de se estranhar que a região Sudeste tenha apresentado as menores taxas de fecundidade, pois foi também a região que liderou o processo de transformações estruturais e institucionais do país, apresentando maiores níveis de urbanização, industrialização, assalariamento, diversificação do consumo e incorporação da mulher na escola e no mercado de trabalho formal.

Dentro da região Sudeste, o estado do Rio de Janeiro esteve à frente do chamado processo de modernização e, consequentemente, esteve à frente do processo de transição da fecundidade. Até 1960, as TFTs do Rio de Janeiro eram cerca de 10% menores que as de São Paulo e estavam bastante abaixo das taxas de Minas Gerais e Espírito Santo. A partir dos anos 60, começou um processo geral de redução do número de filhos e as taxas de fecundidade dos quatro estados convergiram para o nível de reposição (2,1 filhos por mulher) no ano 2000. Entre 2000 e 2010 a convergência foi geral e todas as regiões apresentam taxas abaixo do nível de reposição

A transição da fecundidade é um fenômeno que veio para ficar. Isto significou famílias menores, menor crescimento demográfico e mudança da estrutura etária. Entre as décadas de 1970 e 2020 o Brasil viveu o 1º bônus demográfico que foi fundamental para o aumento da renda per capita e para a redução da pobreza no país.
Brasil atinge a menor taxa de fecundidade da história, diz IBGE.

Mas no restante do século XXI, o Brasil vai aprofundar o fenômeno do envelhecimento populacional e do decrescimento do número de habitantes. Esta nova dinâmica demográfica trará desafios e oportunidades. Se o Brasil souber aproveitar o 2º bônus demográfico (da produtividade) e o 3º bônus demográfico (da longevidade) poderá garantir uma maior qualidade de vida social e ambiental para as gerações futuras. (ecodebate)

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Restauração de 1,67 milhão de hectares na Mata Atlântica na última década

Pesquisa revela restauração de 1,67 milhão de hectares na Mata Atlântica na última década.
Uma pesquisa recente revelou a restauração de 1,67 milhão de hectares de floresta nativa na Mata Atlântica entre os anos de 2011 e 2021, representando cerca de 4% da cobertura atual do bioma. A regeneração, impulsionada por processos naturais e conservação, concentrou-se em Minas Gerais, Paraná, Bahia e São Paulo, frequentemente em "mosaicos de uso" (áreas mistas de lavoura e floresta).

Destaques da Pesquisa:

Regeneração Natural: O estudo aponta que boa parte desse ganho ocorreu por regeneração espontânea, evidenciando a capacidade de resiliência da Mata Atlântica.

Papel dos Pequenos Produtores: 45% da área total recuperada está em terras privadas, com pequenos produtores rurais tendo um papel fundamental na recuperação, especialmente em áreas de encostas e bordas de rios, informa o SOS Mata Atlântica.

Principais Estados: Os estados de Minas Gerais (26,4%), Paraná (18,6%), Bahia (12,9%) e São Paulo (12,7%) concentraram o maior índice de restauração, afirma o EcoDebate.

Risco e Desafio: Apesar da área restaurada, o estudo alerta que a "perda de áreas jovens" — onde a vegetação volta a ser desmatada após iniciar a regeneração — ameaça os resultados, exigindo proteção permanente.

Impacto Econômico e Ambiental: A restauração é considerada uma estratégia de baixo custo e alta eficiência para o sequestro de carbono e conservação da biodiversidade, destaca o VEJA.

O estudo foi conduzido por pesquisadores do Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) da Estratégia Mata Atlântica, em parceria com a UFSCar, TNC e Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, utilizando dados do MapBiomas, aponta a Agência FAPESP e o nossacidade.online.

Um estudo publicado no periódico científico Perspectives in Ecology and Conservation revela que a Mata Atlântica registrou avanço significativo na restauração florestal na última década.

Entre 2011 e 2021, cerca de 1,67 milhão de hectares de florestas nativas foram recuperados no bioma, segundo análise baseada em dados da iniciativa MapBiomas.

O processo de recuperação foi muito mais intenso nos estados de Minas Gerais (26,4%), Paraná (18,6%), Bahia (12,9%) e São Paulo (12,7%). Embora o mapeamento não diferencie áreas que passaram por regeneração natural daquelas que receberam ações de restauração ativa, os pesquisadores indicam que a maior parte do crescimento da cobertura florestal ocorreu por processos naturais.

Segundo Vinicius Tonetti, primeiro autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado no Centro de Ciência para o Desenvolvimento “Estratégia Mata Atlântica”, os resultados demonstram que a recuperação da Mata Atlântica em larga escala é possível. “Os dados mostram que restaurar a Mata Atlântica é um caminho viável e necessário para proteger a biodiversidade e enfrentar as mudanças climáticas, mesmo em paisagens com intensa atividade produtiva”, afirma. O Centro recebe apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp; processo nº 2021/11940-0), está sediado no Campus Lagoa do Sino da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e tem o professor Paulo Guilherme Molin, do Centro de Ciências da Natureza (CCN), como pesquisador responsável.

A pesquisa também aponta que 75,2% do aumento da cobertura florestal ocorreu em áreas classificadas como “mosaicos de uso”, regiões onde há mistura de pequenas lavouras, pastagens e vegetação em regeneração. Esses locais frequentemente incluem pastagens abandonadas ou pouco produtivas, que podem se recuperar naturalmente quando as condições ambientais são favoráveis.

Apesar dos avanços, os pesquisadores alertam que nem toda floresta regenerada permanece preservada ao longo do tempo. A análise mostra que 568 mil hectares de áreas que haviam se recuperado deixaram de existir até 2023, último ano considerado no levantamento. Para Tonetti, o dado reforça a necessidade de políticas públicas e incentivos para garantir a permanência dessas áreas. “O trabalho de restauração não termina quando a floresta começa a crescer. É fundamental proteger as florestas jovens para que elas se consolidem e continuem oferecendo benefícios ambientais”, explica.

Entre as medidas apontadas como estratégicas estão pagamentos por serviços ambientais, fiscalização ambiental e políticas específicas para a proteção de florestas secundárias, que são áreas importantes para a conservação da biodiversidade, o armazenamento de carbono e a regulação do ciclo da água.
O estudo também destaca o papel da regeneração natural como uma estratégia eficiente e de menor custo para recuperar grandes áreas.

Segundo Tonetti, esse processo depende fortemente da atuação da fauna. “Muitas espécies de árvores tropicais têm sementes dispersas por aves e mamíferos frugívoros. Esses animais transportam e espalham as sementes pela paisagem, favorecendo a regeneração das florestas”, afirma. Em pesquisa anterior desenvolvida durante seu doutorado, Tonetti já havia demonstrado a importância desses animais para a recuperação em larga escala da Mata Atlântica.

Ao todo, a pesquisa reuniu 16 cientistas de 14 instituições, entre universidades, organizações não governamentais e coletivos de restauração. Todos os autores integram o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, iniciativa que articula diferentes atores para promover a recuperação do bioma em larga escala, com benefícios ambientais, sociais e econômicos. O estudo está disponível para leitura na íntegra na plataforma ScienceDirect (em https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2530064425000598). (ecodebate)

Mudanças climáticas reduzem a produção de alimentos

As mudanças climáticas reduzem a produção global de alimentos através de secas, inundações e calor extremo, comprometendo safras de grãos e a pecuária. Estudo indica que um aumento de 1ºC na temperatura global reduz a produção em cerca de 120 kcal por pessoa/dia. Essa queda na oferta aumenta a inflação de alimentos e a insegurança alimentar global.

Principais Impactos na Produção de Alimentos:

Eventos Extremos: Secas severas e inundações devastam plantações, como milho e arroz, além de secar rios importantes para a agricultura.

Perda de Produtividade: O calor excessivo diminui a eficiência produtiva do rebanho em até 15% e o aumento da acidez dos oceanos coloca em risco a produção de alimentos marinhos.

Impacto Econômico: A menor oferta de alimentos resulta no aumento dos preços, elevando o custo de vida e gerando inflação na cesta básica.

Qualidade Nutricional: Concentrações elevadas de CO2 podem reduzir o teor de ferro e zinco em grãos e vegetais, como batata e mandioca.

Áreas de Cultivo: A mudança no regime de chuvas torna inaptas algumas regiões tradicionais de cultivo, forçando a busca por novas áreas adaptáveis.

Contexto Brasileiro:

A agropecuária brasileira é um dos setores mais afetados, enfrentando secas no Rio Grande do Sul e na Amazônia. A crise climática é um dos principais fatores para o aumento da insegurança alimentar, com 20 países da América Latina em risco. Estudo da Embrapa sugere que a mandioca é uma das culturas mais resilientes a esses estresses.

O ciclo de retroalimentação climática já reduz as colheitas, aumentando os preços e agravando a fome global

A agricultura é simultaneamente causa e vítima da crise climática

A relação da humanidade com a terra tornou-se perigosamente autodestrutiva. O setor agroalimentar é responsável por quase um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, o que o torna um dos principais contribuintes para a crise que agora ameaça o seu futuro.

Calor extremo, inundações catastróficas e secas prolongadas, intensificados por décadas de emissões agrícolas, estão agora afetando os campos que produzem nossos alimentos. O ciclo vicioso está completo e suas consequências já são sentidas nos números das colheitas, nos preços dos alimentos e nas estatísticas de fome em todo o mundo.

Queda na produtividade está acontecendo agora

Isso não é mais um alerta sobre um futuro distante. Um estudo publicado na revista Nature, baseado em observações de mais de 12.000 regiões em 55 países e analisando culturas que fornecem dois terços das calorias da humanidade, oferece o panorama mais abrangente até o momento sobre a dimensão do problema.

Levando em conta a adaptação realista por parte dos agricultores, os pesquisadores estimam que a produção global de calorias provenientes de culturas básicas, em um futuro com altas emissões, será 24% menor em 2100 do que seria sem as mudanças climáticas.

Essa trajetória já está em curso. As mudanças climáticas já representam um impacto negativo líquido na produção agrícola e estima-se que, entre 1980 e 2008, a produção global de milho tenha diminuído em 3,8% e a de trigo em 5,5%. Cada fração de um ponto percentual representa milhões de toneladas de alimentos e riscos para incontáveis vidas.

Em um mundo 3º mais quente, a matemática se torna alarmante. Perder um quarto da capacidade de produção de culturas básicas equivale, em termos nutricionais, a retirar uma refeição por dia de cada pessoa no planeta.

Quem perde mais?

Os danos não são distribuídos igualmente e aí reside um desafio moral. Regiões do Canadá, da China e da Rússia podem se beneficiar do aquecimento global em termos de produtividade agrícola, enquanto as perdas mais acentuadas são projetadas nos principais celeiros agrícolas e nas comunidades de agricultura de subsistência, com perdas de produtividade que podem chegar a uma média de 41% nas regiões agrícolas mais ricas e 28% nas regiões de menor renda até 2100.

Os países de baixa e média renda suportarão grande parte do fardo, com a maior parte do aumento da fome concentrada na África Subsaariana. Os pequenos produtores, que constituem a maioria dos produtores agrícolas nessas nações, enfrentam redução na produção agrícola, com graves consequências para seus meios de subsistência.

Na África, os níveis de fome aumentaram em todo o continente, exceto na África Oriental, com mais de uma em cada cinco pessoas enfrentando agora fome crônica, um número que acarreta graves implicações para a estabilidade regional.

Além das calorias, a qualidade nutricional também está em declínio, com reduções documentadas no teor de proteínas e minerais essenciais em culturas básicas cultivadas sob níveis elevados de CO2 atmosférico.

Água, solo e o ciclo de retroalimentação

A escassez de água agrava todos os outros desafios. Prevê-se que a seca se alastre por mais de 80% das terras agrícolas do mundo até 2050. O calor extremo acelera a degradação do solo por meio da erosão e da perda de nutrientes, e as consequências vão além da perda de produtividade.

Solos degradados armazenam menos carbono e exigem mais fertilizantes químicos, cuja aplicação libera óxido nitroso, que é um gás de efeito estufa aproximadamente 300 vezes mais potente que o CO2. A crise do solo não apenas reduz a produtividade; ela agrava ativamente o aquecimento que causa a crise em primeiro lugar.

O que antes eram choques climáticos isolados agora se tornaram rotina, colocando em risco as colheitas agrícolas e, em última análise, elevando os preços dos alimentos. Prevê-se que, até 2050, as mudanças climáticas aumentarão os preços globais das commodities em até 18%, e até 78 milhões de pessoas a mais poderão enfrentar a fome crônica como consequência.

Ciência, políticas públicas e inclusão

As soluções existem. O que falta é a velocidade e a escala da sua implementação.

Redução da emissão de gases estufa e descarbonização da economia. Além da transição energética, justa e inclusiva, também são prioritárias a redução do consumo de combustíveis fósseis, a eliminação do desmatamento e a recuperação e renaturalização de áreas degradadas

Adoção da agroecologia em substituição da produção agroindustrial. A agroecologia é uma abordagem integrada simultaneamente que aplica conceitos e princípios ecológicos e sociais ao design e manejo de sistemas alimentares e agrícolas, agindo para otimizar as interações entre plantas, animais, seres humanos e meio ambiente, levando em conta os aspectos sociais que devem ser abordados para um sistema alimentar sustentável e equitativo.

A agricultura de precisão está entre as fronteiras mais promissoras. Variedades de culturas resistentes ao clima já estão sendo testadas em regiões propensas à seca. A produção agrivoltaica, definida como o uso duplo da terra para agricultura e geração de energia solar, oferece um modelo para produzir alimentos e energia limpa simultaneamente, reduzindo tanto a pressão sobre a terra quanto as emissões.

Modelos sustentáveis de manejo da água e do solo, incluindo o plantio direto e a cobertura morta direcionada para reduzir a evaporação, podem preservar a estrutura do solo e reduzir drasticamente o consumo de água. A melhoria da infraestrutura de irrigação, principalmente no Sul Global, é essencial para que os pequenos agricultores se mantenham produtivos em uma era de chuvas cada vez mais imprevisíveis.

A diversificação de culturas e a fixação de nitrogênio, integrando culturas perenes e plantas fixadoras de nitrogênio em rotações de culturas, reduzem a dependência de fertilizantes químicos e aumentam a resiliência do solo a longo prazo, diminuindo as emissões que causam o problema e, ao mesmo tempo, melhorando a produtividade.

Políticas públicas e inclusão são igualmente indispensáveis. Políticas agrícolas resilientes ao clima precisam ser direcionadas para abordar os contextos políticos locais e nacionais, os fatores culturais e sociais e as condições agroecológicas, a fim de serem eficazes e inclusivas. Os governos devem desmantelar ativamente as barreiras socioeconômicas que impedem os pequenos agricultores e, em particular, as mulheres, as comunidades indígenas e os produtores de subsistência, de acessar tecnologias resilientes ao clima. O conhecimento ecológico tradicional, acumulado ao longo de gerações, deve ser valorizado e integrado às estratégias de adaptação, em vez de ser ignorado.

Os gastos globais com agricultura aumentaram em 2024, mas os gastos em outros setores aumentaram proporcionalmente, o que significa que a participação da agricultura no investimento permaneceu estagnada em 2,3%. Isso é insuficiente para a escala de transformação necessária.

A urgência não pode ser subestimada

O abastecimento de alimentos já está sendo afetado. Uma perda de 5% ou 10% na produtividade agrícola pode parecer abstrata em uma planilha, mas, na prática, se traduz em centenas de milhões de pessoas enfrentando fome, preços mais altos dos alimentos e pobreza ainda mais profunda.

A adaptação não é mais uma opção a ser ponderada em relação ao custo da ação; é uma condição essencial para a sobrevivência.

Decisões e ações atuais definirão os resultados nos próximos anos, determinando se as gerações futuras ainda terão comida suficiente. (ecodebate)

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Cidades brasileiras podem ser engolidas pelo avanço do nível do mar

NASA aponta cidades brasileiras que podem ser engolidas pelo avanço do nível do mar.

Aumento do nível do mar ameaça cidades litorâneas e exige planejamento urbano

Dados recentes de monitoramento climático mostram que o nível do mar vem subindo em ritmo acelerado nas últimas décadas, alterando paisagens costeiras e pressionando cidades litorâneas em todo o planeta. A elevação média global já subiu alguns centímetros desde o fim do século passado, mas os impactos locais são mais fortes em determinadas áreas. No Brasil, áreas costeiras habitadas sofrem com alagamentos, erosão de praias e danos urbanos.

Por que o nível do mar está subindo rapidamente?

A explicação para a elevação do nível do mar está relacionada ao aquecimento global, que provoca a expansão térmica da água dos oceanos. Paralelamente, o aquecimento atinge geleiras de montanhas e grandes mantos de gelo na Groenlândia e na Antártida, liberando grandes volumes de água doce para os mares.

A principal causa desse aquecimento é a concentração crescente de gases de efeito estufa, como dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄), resultantes da queima de combustíveis fósseis, desmatamento e atividades industriais. Mantidas as emissões atuais, modelos climáticos indicam que a temperatura global pode continuar subindo, pressionando ainda mais o nível dos oceanos.
O nível do mar vem subindo em várias regiões costeiras do planeta

Quais cidades brasileiras são mais vulneráveis ao avanço do mar?

Relatórios da NASA, do IPCC e de instituições como a Climate Central apontam que diferentes regiões costeiras brasileiras podem enfrentar impactos significativos até 2100. Os efeitos variam conforme o cenário de emissões, a topografia local e o planejamento urbano de cada município.

Entre os locais que exigem atenção especial, aparecem:

- Região Metropolitana do Rio de Janeiro: áreas baixas da Baixada Fluminense e ilhas na baía vulneráveis a marés altas e tempestades costeiras.

- Região Norte: litoral do Amapá e arquipélago do Marajó com maior frequência de alagamentos e impactos em populações ribeirinhas.

- Rio Grande do Sul: cidades da região da Lagoa dos Patos, como Pelotas, e setores de Porto Alegre próximos a áreas alagáveis.

- Maranhão: zona costeira dos Lençóis Maranhenses com possíveis alterações na dinâmica de dunas, lagoas e faixas de praia.

- Recife (PE) e Santos (SP): áreas urbanas de baixa altitude, com infraestrutura portuária e inundações costeiras recorrentes.

Quais impactos o aumento do nível do mar causa no cotidiano?

O avanço do mar tende a provocar erosão costeira, reduzindo a faixa de areia em praias urbanas e rurais e afetando turismo, setor imobiliário e atividades portuárias. Em área.s densamente ocupadas, essa perda de faixa de praia pode aumentar conflitos de uso do solo e pressionar obras emergenciais.


A salinização de rios e lençóis freáticos próximos à costa compromete o abastecimento de água potável, a agricultura irrigada e ecossistemas como manguezais e restingas. Nos centros urbanos, inundações associadas a marés altas e chuvas intensas danificam ruas, drenagem, esgoto e podem levar à necessidade de realocação de populações em risco.
O derretimento de geleiras libera grandes volumes de água nos oceanos

Como as regiões costeiras podem se proteger de inundações?

As estratégias de proteção combinam obras de engenharia e soluções baseadas na natureza, planejadas com projeções atualizadas de clima e maré. Diques, muros de contenção, comportas e sistemas de drenagem reforçada podem reduzir alagamentos em áreas críticas, mas exigem manutenção constante e monitoramento.

Ao mesmo tempo, a recuperação de manguezais, recifes e dunas funciona como barreira natural, ajudando a dissipar a energia das ondas e reduzir a erosão. Planos diretores que limitam novas construções em zonas muito baixas, somados a sistemas de alerta precoce para marés altas e tempestades, são apontados como medidas essenciais de adaptação.

É possível frear o aumento do nível do mar?

Conter o ritmo de elevação do nível do mar depende da redução das emissões globais de gases de efeito estufa e da aceleração da transição para fontes de energia renovável. A substituição de combustíveis fósseis na geração elétrica, no transporte e na indústria reduz o aquecimento adicional que alimenta o degelo e a expansão térmica dos oceanos.

A cooperação internacional e o acesso a financiamento climático são cruciais para países em desenvolvimento fortalecerem a adaptação costeira. Combinando corte de emissões, planejamento urbano cuidadoso, proteção de ecossistemas e educação climática, ainda é possível limitar parte dos impactos, que podem afetar milhões de pessoas em cidades litorâneas brasileiras ao longo deste século. 

O aquecimento global acelera o derretimento de geleiras e a expansão térmica dos oceanos, com isso tudo, há um aumento do nível do mar.

Estudo da NASA aponta risco de cidades brasileiras serem engolidas pelo avanço do nível do mar. (terrabrasilnoticias)

Chegada do El Niño eleva risco para energia e reservatórios

Cenários mais recentes indicam um aumento da probabilidade do fenômeno climático entre maio e julho.
Cenários mais recentes indicam um aumento da probabilidade do fenômeno climático entre maio e julho.

A transição climática em curso no Pacífico — da fase final de uma La Niña fraca para neutralidade e, possivelmente, para El Niño no segundo semestre — começa a entrar no radar do setor elétrico brasileiro.

A avaliação de operadores e meteorologistas indica que o país deve atravessar o outono e o inverno de 2026 com segurança energética preservada, mas com atenção crescente à hidrologia, ao consumo e à pressão sobre a rede caso o aquecimento do Pacífico se consolide na segunda metade do ano.

Os cenários mais recentes indicam um aumento da probabilidade de El Niño entre maio e julho. Esse arranjo climático tende a produzir efeitos assimétricos no território brasileiro: historicamente, o fenômeno aumenta o risco de chuvas acima da média no Sul e reduz a regularidade das precipitações em partes do Norte e do Nordeste.

No Brasil central, o impacto depende menos do volume total de chuva e mais de sua distribuição ao longo da estação chuvosa.

No curto prazo, os dados operacionais sugerem um quadro administrável para o sistema elétrico.

As projeções hidrológicas indicam que o subsistema Sudeste/Centro-Oeste — responsável pela maior parte da capacidade de armazenamento do país — deve iniciar o período seco com níveis razoáveis, embora inferiores aos observados em anos particularmente favoráveis.

Norte e Nordeste apresentam reservatórios mais confortáveis, enquanto o Sul segue como região mais sensível no curto prazo.

Essa configuração reforça um aspecto estrutural da segurança energética brasileira: mais importante do que o volume total de chuvas no país é a localização dessas precipitações.

O desempenho hidrológico das bacias do Paraná, Grande, Paranaíba, São Francisco e Tocantins-Araguaia continua sendo determinante para o equilíbrio do SIN (Sistema Interligado Nacional).

Caso o El Niño se consolide no segundo semestre, a tendência histórica é de maior disponibilidade hídrica no Sul e de maior pressão sobre os rios do Norte e do Nordeste.

No campo da geração elétrica, o cenário-base ainda não indica necessidade de uso intensivo de usinas térmicas além do padrão esperado para o período seco.

O despacho termelétrico deve permanecer complementar, acionado principalmente em situações operativas específicas, como hidrologia desfavorável ou picos de consumo.

Esse quadro, no entanto, pode mudar se ocorrer uma combinação de menor geração hidráulica em regiões-chave e aumento da carga elétrica.
A demanda por energia, aliás, tornou-se um fator cada vez mais sensível ao comportamento do clima.

Episódios recentes de calor extremo demonstraram que ondas de calor prolongadas podem elevar rapidamente o consumo de eletricidade, impulsionado principalmente pelo uso intensivo de aparelhos de ar-condicionado e refrigeração.

Se o eventual El Niño vier acompanhado de temperaturas acima da média, o sistema elétrico pode enfrentar picos de carga mais frequentes, sobretudo nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul.

Mesmo diante desse risco, a infraestrutura de geração do país continua relativamente robusta. A matriz elétrica brasileira permanece amplamente baseada em fontes renováveis, com forte predominância hidrelétrica e crescente participação de eólica e solar.

O principal ponto de atenção, portanto, não está apenas na geração, mas também na capacidade das redes de transmissão e distribuição de lidar com eventos climáticos extremos.

O Brasil possui uma extensa malha de transmissão e continua expandindo sua infraestrutura, mas congestionamentos regionais e limitações locais ainda podem ocorrer em momentos de forte demanda ou de eventos meteorológicos severos.

Nas cidades, o desafio é ainda mais complexo. A qualidade média do fornecimento de energia vem melhorando nos últimos anos, mas os indicadores regulatórios não capturam plenamente o impacto de tempestades intensas, ventos ou ondas de calor prolongadas sobre redes urbanas.

Em situações desse tipo, interrupções localizadas continuam sendo um risco relevante.

A síntese do cenário para 2026 é clara. No restante do primeiro semestre, o sistema elétrico deve operar com relativa estabilidade, ainda beneficiado por reservatórios razoavelmente abastecidos e por condições hidrológicas administráveis.

Já no segundo semestre, a possível consolidação de um El Niño pode trazer maior volatilidade ao equilíbrio entre geração, consumo e operação do sistema.

Não há, neste momento, sinais de uma crise energética estrutural no horizonte. Mas o avanço do fenômeno climático poderá testar, ao mesmo tempo, reservatórios, consumo e infraestrutura elétrica — um desafio que exigirá monitoramento permanente das condições hidrológicas e meteorológicas ao longo do ano. (cnn)

terça-feira, 31 de março de 2026

Capital estadual + antiga e a + envelhecida do Nordeste

Recife: a capital estadual mais antiga e a mais envelhecida do Nordeste.

Recife, fundada em 12/03/1537, é reconhecida como a capital estadual mais antiga do Brasil, superando Salvador (1549) em tempo de fundação como povoação. Com 489 anos em 2026, a capital pernambucana também se destaca por ter uma das populações mais envelhecidas do Nordeste, enfrentando desafios urbanos e demográficos.

Pontos-chave sobre o Recife:

Fundação Antiga: Originou-se como um entreposto comercial e porto de Olinda, sendo um assentamento de pescadores conhecido como "Ribeira de Mar dos Arrecifes".

Capital do Nordeste/Brasil: Embora Salvador tenha sido a primeira capital federal, Recife é considerada a capital estadual mais antiga com base na sua fundação no século XVI.

Envelhecimento Populacional: Recife é apontada como a capital mais envelhecida da região Nordeste, refletindo mudanças demográficas rápidas, conforme indica o EcoDebate.

História e Cultura: A cidade foi sede da colônia de Nova Holanda (1630-1654) e é marcada por sua arquitetura histórica, pontes e forte influência cultural, informa o Facebook e o Facebook.

A cidade celebra sua história como um dos principais centros urbanos do país desde a colonização portuguesa, consolidando-se como "Veneza Brasileira".

A “Veneza Brasileira” tem a oportunidade única de se tornar um laboratório vivo de soluções intergeracionais

A cidade do Recife foi fundada em 12/03/1537, sendo a sede político-administrativa mais antiga entre as atuais capitais brasileiras. A capital de Pernambuco tem uma área 219 km2 e, em 2022, uma densidade demográfica de 6.804 habitantes por km2. Em 2026, a cidade ganhou destaque internacional com o filme “Agente Secreto”, que está indicado em quatro categorias no Oscar 2026. A produção de Kleber Mendonça concorre nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção de Elenco e Melhor Ator (Wagner Moura). Crimônia de entrega das estatuetas ocorreu em 15/03/2026.
Censo Demográfico entre os anos de 1980 a 2022

Número de idosos acima de 65 anos mais que dobrou em Pernambuco em quatro décadas, aponta Censo 2022.

A formação da cidade do Recife está intimamente ligada à própria história da colonização portuguesa no Nordeste e ao papel estratégico de Pernambuco na economia colonial. Inicialmente, Recife surgiu no século XVI como um porto natural e um arraial de pescadores a serviço de Olinda, fundada em 1535 e primeira capital da Capitania de Pernambuco. Em 1537, com a instalação do porto do Recife, a localidade passou a ganhar importância como entreposto comercial, sobretudo para o escoamento do açúcar produzido nos engenhos da região. Sua posição geográfica privilegiada — protegida por arrecifes naturais que lhe deram o nome — favoreceu o crescimento das atividades mercantis, a presença de comerciantes, artesãos e trabalhadores livres, diferenciando desde cedo o Recife de outras cidades coloniais mais aristocráticas e rurais.

O grande ponto de inflexão na formação urbana do Recife ocorreu durante o período da ocupação holandesa (1630–1654). Sob o governo de Maurício de Nassau, a cidade foi profundamente transformada e planejada, recebendo pontes, canais, ruas pavimentadas, edifícios públicos, observatório astronômico e jardins. A chamada Mauritsstad marcou o Recife como uma das primeiras experiências de urbanismo moderno nas Américas, consolidando sua vocação urbana, comercial e cosmopolita. Após a expulsão dos holandeses, o Recife manteve seu dinamismo econômico e populacional, frequentemente em tensão com Olinda, até ser elevado à condição de vila em 1710.

Em 1827, já no período imperial, o Recife tornou-se oficialmente a capital da Província de Pernambuco, substituindo Olinda de forma definitiva. A partir daí, consolidou-se como centro político, administrativo, cultural e econômico da região, atraindo fluxos contínuos de população, investimentos e instituições.

A população do Recife era de 116,7 mil habitantes em 1872 (primeiro censo demográfico brasileiro). Estava atrás apenas do Rio de Janeiro (275 mil habitantes) e de Salvador (129 mil habitantes), mas estava muito à frente de São Paulo (31 mil habitantes). Belo Horizonte nem existia nesta época.

A população do Recife caiu para 113 mil habitantes em 1900, mas deu um salto para 524,7 mil habitantes em 1950. Avançou ainda mais na segunda metade do século passado e chegou a 1,42 milhão de habitantes no ano 2000. Em 2010 a população recifense passou para 1,54 milhão de habitantes, mas caiu para 1,49 milhão de habitantes em 2022. Mas o censo demográfico 2022 teve uma falha de cobertura e a estimativa populacional do próprio IBGE apontou uma população de 1,59 milhão de habitantes em 2024, conforme mostra o gráfico abaixo.

Na atual década, em termos populacionais, a capital de Pernambuco é a terceira maior cidade do Nordeste (atrás apenas de Fortaleza e Salvador) e a nona cidade do Brasil.
A redução do ritmo de crescimento populacional nos anos 2000 foi acompanhada de um envelhecimento da estrutura etária. O gráfico abaixo mostra o Índice de Envelhecimento (IE) para o Brasil, e o estado de Pernambuco e a cidade do Recife entre 1970 e 2022. Todas as áreas geográficas tinham uma estrutura etária jovem em 1970, mas o IE aumentou acentuadamente. Em 2022, o IE chegou a 80 idosos de 60 anos e + para cada 100 jovens no Brasil. Ficou em 70 no estado de Pernambuco e ultrapassou 100 idosos por 100 jovens em Recife. Ou seja, a partir de 2022 Recife passou a ter mais idosos do que jovens (0-14 anos).

Índice de envelhecimento Brasil, Pernambuco e Recife

O gráfico abaixo mostra a pirâmide etária brasileira (colunas cinzas no fundo) e a pirâmide etária da cidade do Recife (parte colorida e sobreposta), em 2022. Nota-se que abaixo dos 50 anos existe maior proporção de jovens no Brasil, enquanto acima de 50 anos há mais idosos em Recife.

O gráfico abaixo mostra que o percentual da população do Recife de 0-14 anos já vem diminuindo desde 1970, caindo para menos da metade chegando a 17,7% em 2022. No último censo, o percentual de idosos (60+) empatou com o percentual de crianças e adolescentes. A população de 15-59 anos subiu de 55,1% em 1970 para 67,2% em 2010 e caiu para 64,6% em 2022. Portanto, a população considerada em idade ativa já vem diminuindo, a população idosa (60+) chegou a 17,7%, a população 50+ chegou a 30,8% e a população 70+ chegou a 8% em 2022.

Portanto, a cidade do Recife atualmente já possui mais idosos (60+) do que jovens de 0-14 anos e a população considerada em idade ativa já está diminuindo em termos absoluto e relativo. Essa configuração demográfica traz desafios, mas também oportunidades.

Os desafios e oportunidades do envelhecimento populacional do Recife

O aumento da expectativa de vida ao nascer é uma vitória extraordinária sobre as altas taxas de mortalidade precoce. A queda nas taxas de fecundidade representa a maior mudança de comportamento de massa na história da humanidade. Desta forma, o envelhecimento populacional pode ser considerado uma conquista civilizacional. Contudo, há desafios e oportunidades.

O principal desafio do envelhecimento populacional é o fim do 1º bônus demográfico, pois o número e a proporção de pessoas de 15 a 59 anos já está diminuindo na capital pernambucana e este fato pode se desdobrar em uma crise fiscal se o país e as cidades continuarem a pensar a relação entre as gerações de maneira fixa. O antigo roteiro de vida com jovens estudando, adultos trabalhando e idosos aposentados perde força diante de uma população que vive mais e deseja continuar ativa, produtiva, colaborativa e integrada.

Indubitavelmente, há novas oportunidades de progresso. O 2º bônus demográfico – ou bônus da produtividade – é um evento capaz de gerar frutos indefinidamente se houver investimentos na educação, na saúde, na infraestrutura que possibilite aos trabalhadores produzirem mais bens e serviços com menos insumos humanos e ambientais. O 3º bônus demográfico – ou bônus da longevidade – que se refere ao potencial econômico, social e institucional que emerge quando uma sociedade passa a ter maior proporção de pessoas idosas, sobretudo em contextos de maior expectativa de vida saudável.

Uma sociedade envelhecida não está condenada ao declínio. O 2º e o 3º bônus demográficos mostram que, com políticas adequadas, a longevidade pode ampliar a produtividade (via experiência e capital humano), a inovação (novos mercados e tecnologias) e a coesão social (mais tempo de contribuição cívica e cultural). A Economia Prateada será a alternativa do futuro.

Recife é a única cidade do Nordeste entre as 100 mais competitivas do Brasil

Aproveitar as oportunidades dessa nova conjuntura demográfica e ao mesmo tempo garantir dignidade, inclusão e autonomia aos idosos envolve uma abordagem multidimensional e uma atuação no âmbito local. Uma estratégia-chave para transformar o Recife em uma Cidade Amiga da Pessoa Idosa, alinhada às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), envolve:

- Infraestrutura Urbana Inclusiva: a) Ampliar calçadas acessíveis, rampas, sinalização sonora, ônibus com piso baixo e prioridade real no transporte público. Integrar o sistema de transporte com pontos de descanso e banheiros públicos adaptados; b) Parques, praças e centros culturais devem ser projetados com bancos, sombra, iluminação adequada e pisos antiderrapantes e c) Incentivar a adaptação de moradias (ex.: eliminação de degraus, barras de apoio) e promover habitação intergeracional ou coletiva voltada para idosos.

- Saúde e Cuidado Integral: a) Fortalecer a Atenção Primária à Saúde com equipes treinadas em geriatria e gerontologia; b) Expandir programas de prevenção de quedas, vacinação, saúde mental e cuidados paliativos e c) Criar redes de cuidado domiciliar e telemedicina para idosos com mobilidade reduzida.

- Participação Social e Cidadania: a) Garantir representação de idosos em conselhos municipais e fóruns de planejamento urbano; b) Promover atividades culturais, esportivas e educacionais voltadas para todas as idades, evitando a segregação etária e c) Combater o etarismo por meio de campanhas educativas nas escolas e na mídia.

- Governança e Políticas Públicas Integradas: a) Adotar o Plano Municipal do Idoso com metas claras e orçamento vinculado; b) Alinhar ações com a Rede de Cidades Amigas da OMS, buscando para o Recife o protagonismo que a capital merece no cenário regional; c) Usar dados georreferenciados para orientar investimentos em bairros com maior densidade de idosos (ex.: Casa Forte, Graças ou áreas periféricas com maior vulnerabilidade).

- Oportunidades Únicas do Recife: a) Posicionar a cidade como destino turístico acessível, explorando o potencial do Recife Antigo e da Orla de Boa Viagem com rotas adaptadas; b) Revitalizar espaços como os Mercados Públicos e o Pátio de São Pedro com programações intergeracionais e festivais de cultura popular que unam jovens e veteranos; c) Utilizar o ecossistema do Porto Digital para o desenvolvimento de AgeTechs (tecnologias para o envelhecimento) voltadas à saúde e segurança.

Economia Prateada: a) Estimular o empreendedorismo sênior e negócios de impacto voltados à longevidade; b) Qualificar a mão de obra local para o mercado de cuidados e serviços especializados, transformando o setor de serviços do Recife em uma referência de atendimento humanizado.

Em suma, o envelhecimento populacional não deve ser lido como um fardo fiscal, mas como o amadurecimento social da capital pernambucana. Para que o Recife se consolide efetivamente como uma Cidade Amiga da Pessoa Idosa, é imperativo que a gestão pública e a sociedade civil transcendam a visão assistencialista e adotem uma postura estratégica.
Ao integrar infraestrutura urbana inclusiva, o potencial inovador do Porto Digital e o fomento à Economia Prateada, a “Veneza Brasileira” tem a oportunidade única de se tornar um laboratório vivo de soluções intergeracionais. O sucesso dessa transição dependerá da nossa capacidade de enxergar o cidadão longevo não como alguém que se retira da cena pública, mas como um agente vital para a produtividade e a coesão social.

Afinal, uma cidade que se prepara para envelhecer com dignidade é, em última análise, uma cidade melhor para todas as idades. (ecodebate)

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