quarta-feira, 29 de julho de 2026

Em 30 anos 90% das cidades brasileiras sofreram desastres climáticos

Mais de 90% das cidades brasileiras sofreram desastres climáticos nos últimos 30 anos.
Desastres climáticos provocados pelas chuvas cresceram 222% em 10 anos

Pesquisas científicas recentes confirmam que 91,5% de todos os 5.570 municípios brasileiros relataram pelo menos um desastre relacionado às mudanças climáticas entre 1991 e 2024. Os dados apontam uma aceleração drástica: eventos extremos como chuvas intensas e secas aumentaram mais de 250% nos últimos anos.

Esse cenário de vulnerabilidade constante pode ser verificado nos seguintes levantamentos e plataformas:

• Estudo de Desastres Hidrogeológicos: Pesquisadores que analisaram mais de 60 mil registros no país descobriram que menos de 10% das cidades brasileiras escaparam de eventos como inundações, enchentes, deslizamentos ou secas.

• Monitoramento de Ocorrências: O Atlas Digital de Desastres no Brasil compila informações oficiais das Defesas Civis, servindo para consulta detalhada de impactos por estado e localidade.

• Impacto na Infraestrutura: Relatórios divulgados pela ClimaInfo mostram que os prejuízos de infraestrutura e habitação ultrapassaram a casa dos bilhões, com um aumento sem precedentes nas últimas décadas.

A pesquisa foi baseada em uma amostra de 60.000 registros de desastres ocorridos entre 1991 e 2024; ao todo, esses eventos foram responsáveis ​​por 4.774 mortes, 3.031 pessoas desaparecidas e perdas econômicas de mais de US$ 123,89 bilhões (sobrevoo de helicóptero das áreas afetadas pelas chuvas em Canoas, estado do Rio Grande do Sul, em maio de 2024.

Uma análise de 60.000 registros de inundações, alagamentos, enchentes repentinas, deslizamentos de terra, tempestades e secas revela os impactos regionais no Brasil e pode orientar políticas públicas

Por Luciana Constantino | Agência FAPESP – Eventos climáticos extremos estão se tornando cada vez mais frequentes e severos. O El Niño previsto para 2026-2027 é um desses eventos. Esses fenômenos têm causado impactos ambientais, econômicos e sociais no Brasil, exigindo políticas públicas específicas. Para transformar dados científicos em base para o desenvolvimento de medidas de prevenção, adaptação e mitigação, um grupo de pesquisadores brasileiros analisou aproximadamente 60 mil registros de desastres hidrogeológicos no Brasil entre 1991 e 2024.

Eles descobriram que 91,5% dos 5.570 municípios relataram pelo menos um desastre relacionado a inundações, alagamentos, enchentes repentinas, deslizamentos de terra, tempestades ou secas durante esse período. Especificamente, 1.814 cidades sofreram pelo menos um incidente causado por três desses fatores, enquanto outras 270 cidades sofreram com todos eles. O Nordeste teve o maior número de cidades afetadas (1.765), seguido pelo Sudeste (1.405), Sul (1.152), Norte (433) e Centro-Oeste (342).

Os pesquisadores mapearam diversos impactos, incluindo mortes e perdas econômicas. O Sudeste registrou o maior número de mortes relacionadas a inundações, alagamentos, enchentes repentinas e deslizamentos de terra; o Sul, o maior número de mortes relacionadas a tempestades; e o Nordeste, o maior número de mortes relacionadas à seca. Inundações ocorrem quando um rio transborda. Alagamentos ocorrem quando o sistema de drenagem não consegue lidar com o volume de água. Enchentes repentinas são um tipo de inundação que ocorre quando uma grande quantidade de chuva cai em um curto período de tempo.  

Ao analisar os danos por região, incluindo danos materiais diretos e consequências indiretas que afetam a economia e a resiliência local, inundações, alagamentos e enchentes repentinas tiveram o maior impacto no Sul. Deslizamentos de terra e secas afetaram mais o Nordeste, e tempestades afetaram mais o Sudeste. 
Mais de 83% dos municípios brasileiros já enfrentaram desastres por chuva

Exemplos incluem São Sebastião, cidade no litoral norte do estado de São Paulo que ficou parcialmente isolada durante o Carnaval de 2023 devido a chuvas recordes, que causaram pelo menos 60 mortes e danos à infraestrutura, e a pior tragédia relacionada ao clima no Rio Grande do Sul. Em maio de 2024, tempestades afetaram 2,3 milhões de moradores em 471 municípios do estado, causando mais de 180 mortes.

O estudo, conduzido por cientistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta Precoce de Desastres Naturais (CEMADEN), da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foi publicado na edição de abril da Environmental Research Letters, uma revista que busca chamar a atenção de formuladores de políticas e da comunidade científica para questões socioambientais.

“Queríamos desmistificar a ideia de que um desastre é algo sobrenatural, que suas causas decorrem de forças desproporcionais. Existem exceções que os modelos climáticos não conseguem prever, mas, na maioria dos casos, agências nacionais como o CEMADEN emitem alertas e as autoridades públicas são informadas sobre o que pode acontecer. O problema reside na negligência, na falta de infraestrutura e até mesmo na inação. Decidimos denominá-los desastres socioambientais ou socioambientais porque existe um fator agravante antropogênico – não apenas relacionado às mudanças climáticas, mas também a falhas na gestão pública”, afirma Elton Vicente Escobar Silva, primeiro autor do estudo e pesquisador do CEMADEN que realizou esta pesquisa como parte de seu trabalho de pós-doutorado.

Silva destaca que o Brasil tem avançado nos últimos anos no desenvolvimento de bancos de dados e no fornecimento de informações que auxiliam na compreensão de desastres. No entanto, o país ainda enfrenta desafios na coleta de dados e nas estruturas institucionais para o monitoramento.

Desafios

Segundo os resultados, os 59.658 desastres naturais analisados ​​resultaram em pelo menos 4.774 mortes e 3.031 desaparecidos, afetando mais de 129,79 milhões de pessoas. Estima-se que os prejuízos econômicos tenham ultrapassado US$ 123,89 bilhões.

No entanto, os pesquisadores alertam que esses números tendem a ser maiores do que os encontrados nos bancos de dados. Isso ocorre porque os resultados foram obtidos a partir de dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD) e do Atlas Digital de Desastres no Brasil. Ambas as plataformas são de acesso público e gerenciadas pelo Departamento Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC).

Esses registros são autodeclarados pelos municípios e servem, entre outros propósitos, para buscar financiamento do governo federal quando as administrações locais e estaduais não têm capacidade para lidar e responder a eventos adversos que afetam o município. Em outras palavras, muitos casos podem ter resultado em perdas ou fatalidades não relatadas porque as administrações locais conseguiram gerenciar a situação por conta própria ou devido à falta de infraestrutura de registro.

Um levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) estima que aproximadamente 1.660 cidades no Brasil não possuem um departamento de defesa civil organizado. Além disso, um estudo publicado no ano passado mostrou que os departamentos de defesa civil precisam investir em profissionalização e em seus próprios recursos para lidar com os riscos climáticos (saiba mais em agencia.fapesp.br/54705).  

90% dos desastres nos últimos 20 anos têm relação com o clima

Em entrevista à Agência FAPESP, Silva aponta que a abordagem de coleta de dados utilizada por essas plataformas não considera os eventos simultaneamente, nem adota uma perspectiva de “multirrisco”. Por exemplo, se um deslizamento de terra foi causado por uma enchente, apenas a enchente seria registrada. Outro problema é a imprecisão no registro das causas de óbitos durante desastres.

A plataforma S2iD disponibiliza dados apenas a partir de 2013, com sua base de dados se expandindo ao longo dos anos. A porcentagem de cidades que relataram desastres aumentou de 29% em 2013 para 88% em 2024. Isso cria lacunas na relação entre o aumento nos registros de desastres naturais e os fatores climáticos.

Com relação às estimativas monetárias de perdas econômicas, os sistemas continham informações até 2024, ano em que o estudo foi concluído (com dados do ano anterior ajustados pela inflação).

Por meio de sua assessoria de imprensa, a SEDEC informou à Agência FAPESP que está desenvolvendo uma nova versão do S2iD, com lançamento previsto para este ano, bem como um novo Atlas Digital de Desastres. Esses sistemas permitirão o registro de eventos utilizando uma abordagem multirrisco e atualizações contínuas de informações após o reconhecimento federal.

“Para superar limitações históricas, como a falta de detalhes sobre vítimas humanas e a subnotificação em nível municipal, a nova plataforma permitirá a desagregação de dados por gênero e faixa etária. Ao mesmo tempo, o SEDEC fortalecerá o alcance do sistema por meio de treinamento técnico e ensino a distância para gestores locais. Essa reestruturação visa reduzir as disparidades entre as agências de defesa civil estaduais e municipais, consolidando o S2iD como ferramenta para o planejamento e a formulação de políticas públicas”, afirmou o departamento. Um de seus membros, Lucas Mikosz, foi listado como um dos autores do artigo.
Desastres naturais serão cada vez muito mais frequentes

Prevenção

Segundo Victor Marchezini, sociólogo, pesquisador do CEMADEN e autor do artigo, é necessário investir em mecanismos que visem reduzir as perdas, em vez de apenas se recuperar delas.

“Este estudo fornece uma análise longitudinal dos impactos de desastres no Brasil, o que é importante para demonstrar que eles decorrem de uma crise crônica, e não de um evento isolado. Precisamos parar de tratar as perdas econômicas como algo inevitável. Até quando continuaremos investindo apenas em resposta a desastres e reconstrução sem considerar mecanismos para reduzir as perdas? ”, questiona Marchezini, coordenador do projeto Capacidades Organizacionais para Preparação para Eventos Extremos (COPE), financiado pela FAPESP.

A fundação apoiou a pesquisa por meio de bolsas concedidas a Silva (21/11435-4 e 24/02748-7), bem como o Centro de Pesquisa, Inovação e Divulgação em Neuromatemática (NeuroMat) e dois outros projetos (20/09215-3 e 23/13453-5). 

“Nosso objetivo é garantir que a ciência contribua para o desenvolvimento de políticas públicas. É um esforço para assegurar que os resultados cheguem à sociedade”, conclui Silva. Para sua pesquisa de doutorado, Silva combinou modelos que preveem a expansão urbana, mudanças no uso do solo e hidrodinâmica. Essa combinação criou uma metodologia que pode fornecer informações geográficas identificando locais em cidades com maior risco de inundações, incluindo aquelas causadas por chuvas extremas.

Brasil tem histórico de tornados, e o que destruiu cidade no Paraná pode ser um dos mais fortes já registrados.

Pesquisador da Unicamp que catalogou 205 tornados no país em tese de doutorado explica por que as regiões Sul e Sudeste do país são mais suscetíveis a esse fenômeno. (ecodebate)

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Cerrado perdeu 38% de água em rios e lagoas

Desmatamento no Cerrado

75% dos municípios perderam superfície de água em corpos hídricos naturais e 71% viram áreas de reservatórios aumentarem; mudança foi mais acentuada no sul do bioma e no Matopiba.

A área de corpos hídricos naturais do Cerrado, como rios e lagoas, diminuiu 38% desde 1985, uma redução de cerca de 348 mil hectares, aponta levantamento coordenado por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) para a quinta coleção do MapBiomas Água. No mesmo período, corpos hídricos antrópicos, como reservatórios e barragens hidrelétricas, passaram a ocupar uma área 87% maior, com um acréscimo de 496 mil hectares.

Segundo os pesquisadores, a crescente concentração da superfície de água em áreas artificiais representa um risco para o funcionamento dos ecossistemas da região e para o reabastecimento das reservas do bioma, fundamentais para a segurança hídrica de todo o país. Ainda, a expansão das hidrelétricas entre 1985 e 2025 resultou no alagamento de 312 mil hectares de vegetação nativa, área mais de duas vezes maior que a da cidade de São Paulo.

“Quando a água se concentra em estruturas antrópicas, a paisagem fica menos resiliente a eventos climáticos extremos, perdendo a capacidade de regular naturalmente o ciclo da água, tornando-se mais dependente de infraestrutura e mais vulnerável a secas. Os corpos hídricos antrópicos são importantes para o abastecimento de populações humanas, para produção agrícola e de energia elétrica, mas não substituem a função ecológica e os serviços ecossistêmicos da água em corpos hídricos naturais”, destaca Joaquim Pereira, pesquisador do IPAM que atuou na coleta e produção dos dados.

A tendência de redução da área de água em corpos hídricos naturais no Cerrado é observada desde o início da década de 1990. Desde então, o bioma acumula 25 anos consecutivos com corpos hídricos naturais abaixo da média histórica, estimada em cerca de 680 mil hectares. Em 2025, a área registrada foi de 559 mil hectares, valor 17% inferior à média.

“A redução das áreas de corpos hídricos naturais pode estar associada a uma combinação de fatores, como conversão da vegetação nativa para expansão da agropecuária e a supressão de áreas úmidas, afetando diretamente o regime de chuvas, geralmente levando à amplificação das secas. Outros fatores incluem a expansão de drenagens artificiais e o aumento na captação de águas. O aumento de corpos hídricos antrópicos geralmente está relacionado à combinação de todos esses fatores, mas não deve ser interpretado como compensação direta pela perda da água em corpos hídricos naturais. Em muitos casos, esse cenário reflete uma maior demanda por armazenamento e controle da água em paisagens cada vez mais transformadas”, explica o pesquisador.
Cerrado perdeu 38% de água em rios e lagoas e viu área de barragens crescer 496 mil hectares

A tendência de redução da área de água em corpos hídricos naturais no Cerrado é observada desde o início da década de 1990.

Regiões hidrográficas

A perda de água em corpos hídricos naturais afeta 77% das regiões hidrográficas do Cerrado. Entre os casos mais expressivos estão as regiões hidrográficas do Paraguai, Paraná e Tocantins-Araguaia, que perderam, respectivamente, 894 mil, 82 mil e 61 mil hectares de superfície de água natural entre 1985 e 2025. Destacam-se pela redução proporcional em corpos hídricos naturais as regiões Paraguai, Paraná e São Francisco, com quedas de 56%, 29% e 12%, respectivamente.

“Para esses ecossistemas, isso pode significar perda de habitat, degradação de áreas úmidas, menor conectividade entre ambientes aquáticos e impactos sobre espécies que dependem dos corpos hídricos naturais. Para as populações humanas, a redução pode amplificar a insegurança hídrica, afetar o abastecimento, ameaçar a produção agropecuária no médio e longo prazo e afetar drasticamente os modos de vida tradicionais e a pesca de subsistência, além de intensificar as disputas pelo uso da água”, alerta Pereira.

Já as regiões hidrográficas que registraram os maiores aumentos de superfície de água em corpos hídricos antrópicos foram a Amazônica, que possui nascentes no Cerrado, com expansão de 177 mil hectares em reservatórios e barragens; do Tocantins-Araguaia, com acréscimo de 171 mil hectares; e do Paraná, que ganhou mais 166 mil hectares. Juntas, as três regiões concentram 82% de toda a superfície de água antrópica do bioma.

De acordo com o pesquisador, esse crescimento acentuado está relacionado, principalmente, à intensificação do uso da terra nessas áreas, além do crescimento populacional e à maior demanda por energia elétrica. Apesar dessa transição entre superfícies de água naturais e antrópicas aumentar a disponibilidade hídrica em algumas regiões, a dinâmica também perturba os ecossistemas aquáticos do bioma e pode acelerar a perda de superfície de água natural em outras regiões.

Cerrado perdeu 38% da área ocupada por rios, lagoas e outros corpos hídricos naturais

“No geral, esse crescimento de corpos hídricos antrópicos acompanha a intensificação do uso da terra, como o aumento da agropecuária, causando maior demanda pelo uso da água, especialmente em regiões com forte sazonalidade e períodos de seca bem marcados. Essas estruturas podem ampliar a disponibilidade de água para usos específicos, mas também podem alterar a dinâmica natural das bacias hidrográficas. Reservatórios e barramentos, por exemplo, modificam o fluxo dos rios, retêm sedimentos, reduzem a conectividade entre ambientes aquáticos e podem afetar a disponibilidade de água a jusante”, completa Pereira. (ecodebate)

Valorização da floresta em pé

A valorização da floresta em pé é um modelo socioeconômico que transforma o ecossistema preservado em fonte de riqueza. Em vez da extração predatória, o foco está na bioeconomia, que inclui o manejo sustentável, o turismo ecológico e o comércio de créditos de carbono, gerando renda direta para comunidades locais.

Esse conceito substitui a lógica de que a terra só tem valor após o desmatamento, garantindo serviços ecossistêmicos vitais, como a regulação climática e a proteção da biodiversidade. Iniciativas como o Movimento Floresta em Pé e os Programas de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) remuneram populações tradicionais e proprietários pelo esforço de conservação. Além disso, a bioeconomia movimenta bilhões, impulsionando negócios comunitários que agregam valor a produtos da sociobiodiversidade.

Para entender melhor a relevância dessa transição, a Fundação Amazonas Sustentável (FAS) detalha a importância da governança ambiental, e análises aprofundadas sobre os serviços ecossistêmicos podem ser exploradas em artigos como o do EcoDebate.

As florestas e/ou pequenas matas desempenham papéis extremamente relevantes para a saúde do planeta e da vida sobre ele.

Quanto vale uma floresta nativa em pé? Até pouco tempo atrás esta pergunta era respondida apenas com base no seu potencial madeireiro e, eventualmente, na capacidade extrativista de alguns de seus produtos, como coleta de frutos ou de materiais para extração de essências naturais. A floresta em pé era vista como um passivo cujo custo de oportunidade vis-à-vis a produção agrícola era o que levava à sua derrubada.

Atualmente, com a crescente emissão de gases do efeito estufa (GEE), causando o aquecimento global, as florestas passaram a ser vistas com outros olhos. O potencial delas para a mitigação do GEE é um dos mais importantes mecanismos para sequestro e absorção desses gases, indo além com a produção do oxigênio que respiramos e de inúmeros serviços ambientais. Deste modo, produtos muito além da madeira passaram a ser qualificados como bens por ela produzidos.

As florestas e/ou pequenas matas desempenham papéis extremamente relevantes para a saúde do planeta e da vida sobre ele. Além de sequestrarem carbono e produzirem oxigênio, elas regulam a temperatura global e o ciclo da água, realimentam os lençóis freáticos, dão suporte à fertilidade do solo, atuam como barreiras naturais evitando desastres ambientais, dão suporte à fauna e à agentes polinizadores, além de serem fundamentais na ecologia de paisagem e na beleza cênica.

O Brasil já perdeu muito de suas florestas e vegetações nos seus diversos biomas, e vem atuando no sentido de conter a degradação florestal, em suas diferentes formas. Legislações como o Código Florestal Brasileiro, instituído em 1934, criou os conceitos de Área de Preservação Permanente (APP) e de Reserva Legal (RL), mas foi em 2012 que houve uma atualização deste Código (Lei 12.651, de 25 de maio de 2012), dando maior clareza a esses conceitos e introduzindo outros, visando estabelecer critérios de proteção da vegetação nativa nas propriedades rurais do país. Nesse novo código, foi criado o Cadastro Ambiental Rural (CAR), para compor um banco de dados nacional com informações de todas as propriedades rurais do país.

O CAR é um documento autodeclarado pelos proprietários rurais, seguindo algumas regras e gerido pelo Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Nesse cadastro o proprietário indica, por exemplo, a área de Reserva Legal e outras informações sobre o uso da terra.
A partir de 1996, de acordo com o Código Florestal, as propriedades rurais na Amazônia Legal devem manter um mínimo de 80% de sua área destinada à Reserva Legal. Caso tais propriedades não disponham desse percentual, então as mesmas deverão fazer uma compensação de modo a se ajustarem ao percentual exigido por Lei. No caso de propriedades rurais da Amazônia Legal, que no período entre 1989 e 1996 reduziram as suas RL a 50%, não precisam realizar a compensação porque a Lei vigente à época permitia a manutenção de 50% da área da propriedade destinada à RL. Nas demais regiões do país, a área de RL deve ser de no mínimo 20% da área da propriedade.

Mas quem de fato certifica o quanto de RL existe em uma propriedade? Esta certificação é da competência dos Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (SICAR), em gestão com os Estados, que devem analisar os CARs das propriedades rurais e emitirem o parecer final. Dessa forma, quando uma propriedade rural recebe a certificação do seu CAR, a mesma terá um documento legal informando os diversos dados de sua propriedade, incluindo a área de RL. Será com base neste documento que o proprietário será notificado informando o excesso ou redução de sua RL.

Mais recentemente, a Lei 14.119 de 2021, definiu a Política Nacional de Pagamentos por Serviços Ambientais (PNPSA). Esta Lei definiu os conceitos de Ecossistemas, Serviços Ecossistêmicos, Pagamentos de Serviços Ambientais (PSA) e Provedor de Serviços Ambientais. Como modalidades de PSA podemos ter pagamentos por oferta de Créditos de Carbono e as Cotas de Reserva Ambiental (CRA).

Especificamente, as CRAs são títulos nominativos equivalentes a um hectare de mata nativa, ou em recuperação, que excede à área da Reserva Legal em uma propriedade rural. Em princípio, este é um mecanismo para monetização das florestas em pé que estão produzindo serviços ambientais e ecossistêmicos e que não são compensadas. Em muitos casos, áreas de florestas nativas em pé estão imobilizadas devido a outras formas de obrigações legais, a exemplo da floresta ombrófila mista (FOM), onde as araucárias são a principal vegetação e estas estão protegidas por Lei contra o corte.

Na região dos Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul, em geral, as propriedades rurais são de pequeno a médio porte, em termos de módulos fiscais (MF) do Estado. As propriedades de pequeno porte variam de 1 a 4 MF e as de médio porte entre 4 e 15 MF, sendo 1 MF equivalente a 12 hectares.

Muitas propriedades rurais nessa região possuem FOM nativas com algum excedente de Reserva Legal. No entanto, durante muito tempo, tais proprietários consideram estas áreas como improdutivas, uma vez que não podem usar os recursos madeireiros e nem fazer lavouras. Quando muito, a utilizam para pôr gado durante os períodos de inverno e fazer coletas do pinhão e extração de mel.

As CRAs surgem como um instrumento capaz de monetizar aqueles que mantiveram a floresta em pé. Mas, segundo a própria legislação, os títulos de CRAs devem ser emitidos pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB) após a análise, validação e deferimento dos Cadastros Ambientais Rurais (CARs) pelos governos estaduais.

Segundo informações do Painel de Dados do CAR, cerca de 58,1% das propriedades rurais do país já aderiram ao Programa de Regularização Ambiental (PRA), com pouco mais de 8,2 milhões de propriedades rurais com CAR, perfazendo uma área de aproximadamente 7,2 milhões de km2. Dessa área, aproximadamente 2,2 milhões de km2 correspondem a Reserva Legal.

Tecnicamente, tanto as áreas rurais que precisam de compensação de RL quanto as propriedades com excedentes de RL, que são potenciais para o recebimento dos títulos de CRAs, dependem necessariamente do deferimento dos CARs. Infelizmente, o percentual nacional das análises dos CARs é ínfimo, sendo inferior a 4%.

Estimativas do SFB apontam que há um passivo em torno de 17 milhões de hectares de Reserva Legal sujeito a compensação. A maior parte está no bioma Amazônia. No estado do Rio Grande do Sul, a estimativa é de que há um passivo de RL sujeito a compensação da ordem de 602 mil hectares, mas o percentual de CARs analisados no RS é inferior a 1% das propriedades cadastradas.

Recentemente, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Sustentabilidade do Estado do Rio de Janeiro, em parceria com o SFB, firmou um acordo para a análise acelerada e validação dos CARs das propriedades que possuem Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN). Com esta iniciativa, o estado do Rio de Janeiro foi o primeiro a ter a emissão de títulos de Cotas de Reservas Ambientais. Em outubro de 2025, as primeiras 98 CRAs foram emitidas para a RPPN Rio Bonito do Lumiar, em Nova Friburgo, RJ. Iniciativas semelhantes estão em curso no Ceará e em Minas Gerais.

O valor inicial de uma CRA dessa RPPN foi estimado em quinhentos reais por ano, o que monetiza as áreas de floresta em pé. É importante ressaltar que a negociação de CRAs não inviabiliza outras formas de Pagamentos de Serviços Ambientais produzidos pela mesma área.

Em regiões como os Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul, com áreas com cobertura de floresta ombrófila mista nativa, as CRAs podem ainda ter uma agregação de valor uma vez que há espécies como as araucárias, que estão classificadas junto ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima como em perigo de extinção, e por proverem condições ecossistêmicas para manutenção de outras árvores ameaçadas de extinção no sub-bosque e, também, uma fauna endêmica dependente das araucárias.
Nacionalmente, os processos de análise dos Cadastros Ambientais Rurais estão ainda no início e, claro, das correspondentes emissões das Cotas de Reserva Ambientais. Porém as novas exigências legais, pressionadas pelas mudanças climáticas, vão demandar uma aceleração desse processo nos próximos anos. Isso levará a uma maior valorização daqueles que preservaram as suas Florestas em Pé. (ecodebate)

sábado, 25 de julho de 2026

Decrescimento econômico é caminho para sociedades justas e sustentáveis

O decrescimento econômico propõe uma contração planejada da produção e do consumo, especialmente nos países ricos, para respeitar os limites do planeta. Essa teoria defende que abandonar a busca pelo crescimento infinito do PIB é o único caminho para evitar o colapso ecológico, reduzindo a pegada ecológica e promovendo sociedades mais justas.

A ideia não é empobrecer a população ou causar uma recessão desorganizada, mas sim reorientar o sistema para garantir o bem-estar e a equidade. As principais propostas dessa vertente incluem:

• Desmaterialização: Focar em serviços públicos, redistribuição de renda e redução de setores nocivos (como combustíveis fósseis).

• Reorganização do trabalho: Implementar jornadas de trabalho menores e garantir renda básica universal.

• Economia regenerativa: Valorizar práticas locais, agricultura regenerativa e o uso de recursos comuns.

Compreender o decrescimento exige analisar as críticas ao modelo capitalista tradicional. Você pode explorar mais sobre o tema acessando o debate detalhado sobre a Teoria do Decrescimento Econômico promovida pelo portal Politize!

“O decrescimento econômico é a melhor estratégia para deter a crise ecológica e social que vivemos”.

Um movimento internacional está emergindo em torno da ideia de que o atual crescimento econômico do planeta ameaça o bem-estar, a saúde e os recursos naturais dos quais dependemos. O capitalismo extremo, personificado nas corporações multinacionais gigantescas, cada vez mais poderosas, encontrou na tecnologia uma aliada que amplia ainda mais sua influência.

A entrevista é de Joan Lluís Ferrer, publicada por Información, 09-06-2026.

O Fórum Social para Além do Crescimento reúne, na Espanha, aqueles que defendem um decrescimento econômico, com o objetivo de que a economia se ajuste às necessidades da população e do planeta, em vez de utilizar os recursos como meras matérias-primas. No mês de fevereiro passado, 700 pessoas participaram de uma sessão desse fórum, entre elas a ex-prefeita de Barcelona, Ada Colau, e o pesquisador Fernando Valladares. Trata-se de um movimento que surge e se expande por toda a Europa. Hugo Abad é um de seus membros mais ativos e uma de suas vozes mais destacadas.

Por que há cada vez mais vozes que clamam por um decrescimento econômico e em que deve consistir exatamente esse decrescimento?

Há um consenso científico crescente em torno do decrescimento econômico como a melhor estratégia para deter a crise ecológica e as diversas crises sociais que vivemos (acesso à moradia e à alimentação digna, precariedade trabalhista, crise dos cuidados, saúde mental etc.), a fim de avançar rumo a sociedades justas e sustentáveis.

Os fatos mostram que uma redução democraticamente planejada da produção e do consumo, para alinhar as sociedades aos limites ecológicos, é a única via realmente sustentável nos países de alta renda.

A impossibilidade de um desacoplamento absoluto entre crescimento econômico e impactos ecológicos, no ritmo e na escala necessários para deter o colapso ecológico, evidencia a fantasia ou mito de um “crescimento verde”, ao qual as grandes corporações e poderes econômicos continuam se apegando.

Por que o capitalismo passou de ser o modo de produção que sempre conhecemos para se tornar um modelo de destruição ecológica em massa?

O capitalismo sempre se baseou na destruição ecológica e na exploração das pessoas, embora seja com os combustíveis fósseis e em sua fase neoliberal das últimas décadas que estamos assistindo a suas consequências mais destrutivas. Entre elas, inclui-se também a guinada autoritária, em que formas de controle e repressão que até agora tinham ocorrido apenas nas colônias e em Estados autocráticos passam a ocorrer nos centros imperiais da Europa e da América do Norte, com o objetivo de manter a acumulação das elites, em um contexto de guerras por recursos.

Problema não é apenas o nível agregado de produção e consumo, mas também o que se produz e quem controla as decisões sobre o que e como se produz. Hoje, continuam sendo produzidas inúmeras coisas que estão acabando com as bases da vida e da saúde planetária e humana (armas, carros a combustão, carne de grandes fazendas industriais, etc.), respondendo a modelos empresariais extrativistas apoiados por uma indústria do marketing disposta a garantir que todo o valor do que é produzido se realize por meio da compra.

O decrescimento questiona tudo isso, defendendo a reorientação das capacidades coletivas para o que realmente sustenta a vida, desmantelando de forma justa os setores destrutivos e fortalecendo aqueles que são fundamentais para a transformação ecossocial, como a agroecologia, a reabilitação de edifícios, a regeneração ecológica, os serviços públicos, os cuidados e a instalação de energias renováveis em escala comunitária.
Quando se diz que existe uma alternativa ao capitalismo e ao crescimento, em que ela consiste?

A alternativa consiste em organizar a economia de forma democrática em torno de um enfoque público-comunitário que priorize o bem-estar ecossocial, com critérios de suficiência. Nesse modelo, a satisfação das necessidades fundamentais deve ficar fora do mercado e aqueles que existirem devem operar sob critérios sociais e ecológicos que impeçam a especulação e a exploração da vida em suas diversas dimensões. Por isso, nessa alternativa, é crucial o papel das comunidades para além do mercado e do Estado, já que são elas que habitam os territórios e tornam a sustentação cotidiana da vida possível.

Dado que o grande capital está cada vez mais concentrado em menos mãos e surgem oligopólios de proporções até então desconhecidas, há realmente possibilidades de escapar dessa dinâmica?

Há possibilidades reais que exigem mudanças profundas na propriedade e no controle do investimento. Setores-chave como energia, transporte e alimentação precisam sair das mãos de acionistas que buscam o lucro privado e passar a se colocar a favor da propriedade e gestão públicas ou coletivas. A isto deve se somar um planejamento democrático que envolva instituições, pessoas trabalhadoras e comunidades para orientar a economia à satisfação das necessidades reais, à redistribuição da riqueza e à proteção do planeta.

Muitas pessoas, ao ouvir críticas ao capitalismo, automaticamente pensam que está sendo feita uma defesa do comunismo. É possível superar esse dualismo?

Os socialismos realmente existentes, como o da URSS, reproduziram padrões produtivistas e acabaram fazendo com que o mesmo processo de acumulação, em vez de ocorrer em torno dos atores do mercado, se desse no âmbito do Estado. As correntes ecossocialistas vêm realizando uma crítica a esta realidade, apresentando propostas que convergem e alimentam o corpo teórico do decrescimento.

Não obstante, as influências que o decrescimento recebe são muito amplas, abrangendo críticas provenientes de visões ecofeministas, decoloniais e de defesa dos bens comuns. Esta é a riqueza de um projeto social e político que diz um “não” claro ao sistema capitalista e muitos “sins” às alternativas possíveis para libertar a trama da vida do imperativo do crescimento e do lucro privado.

As grandes corporações podem acabar governando o planeta, tendo os políticos como meros intermediários? É o que já está acontecendo?

Em grande medida, isso já está acontecendo, sobretudo se prestarmos atenção na dependência digital dos governos e instituições em relação às grandes corporações tecnológicas, em um cenário de expansão das formas de poder baseadas no controle de dados e da informação.

Diante desse cenário preocupante, é urgente criar formas de soberania tecnológica e digital, bem como regulações que impeçam, no curto prazo, que essa tendência prossiga, isolando, em última instância, as instituições democráticas da influência das grandes corporações. Para isso, é essencial o apoio em nível internacional entre territórios e países para resistir a essa tendência e buscar colocar alternativas em prática.

Em que consiste o Fórum Social para Além do Crescimento? Está surgindo uma nova consciência ou fica restrito apenas a círculos muito reduzidos?

O Fórum Social para Além do Crescimento é um espaço de deliberação democrática que tem como objetivo fortalecer e expandir alianças entre organizações e coletivos que compartilham um horizonte comum de superação do modelo econômico capitalista baseado no crescimento. O processo do Fórum Social surge da Conferência para Além do Crescimento, realizada em setembro de 2025, e que teve sua primeira sessão em fevereiro/2026, na Universidade Autônoma de Madri.

Atualmente, mais de 140 entidades, redes e alianças aderiram ao processo. A diversidade de organizações e coletivos que participam do Fórum Social demonstra sua transversalidade e o potencial de articulação em torno de uma transição ecossocial justa. Perspectivas que vão além do crescimento e do capitalismo estão sendo disseminadas na sociedade civil, a partir de valores compartilhados de justiça social e sustentabilidade ecológica. O Acordo Ecossocial, no qual trabalharemos nos próximos 10 meses, busca alcançar um programa comum para uma transição ecossocial justa no Estado espanhol, articulável em todos os níveis territoriais. (ecodebate)

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Super El Niño acende sinal vermelho

A confirmação da chegada de um El Niño muito forte e o risco iminente de um "super" fenômeno acenderam o sinal vermelho para especialistas e autoridades meteorológicas, como alertado pela NOAA e especialistas como Piter Scheuer. As projeções apontam para um aquecimento excepcional do Pacífico, que impactará severamente o clima, a agricultura e os reservatórios de água.

Impactos regionais no Brasil

O fenômeno altera os ventos e as temperaturas, gerando consequências drásticas e variadas dependendo da localização:

• Região Sul: Alto risco de chuvas excessivas, enchentes, deslizamentos e temporais.

• Centro-Oeste e Sudeste (incluindo Jundiaí e região): Tendência de temperaturas acima da média e períodos de calor extremo, com chuvas irregulares que podem impactar a geração de energia e o abastecimento de água.

• Norte e Nordeste: Aumento do risco de secas severas e redução nas colheitas.

Alerta para o setor agrícola e segurança

O desequilíbrio climático tem reflexo direto na produção de alimentos. Produtores enfrentam o estresse hídrico e térmico, bem como riscos de escaldadura em lavouras como café e citros devido ao excesso de luminosidade, o que pode impactar a inflação dos alimentos.

Para entender melhor a magnitude das mudanças climáticas globais e regionais provocadas por esse forte aquecimento das águas.

O que esperar dos próximos meses

As condições do El Niño já estão presentes e devem se estender pelo segundo semestre e durante o verão de 2027. Diante da possibilidade de eventos climáticos extremos, recomenda-se o monitoramento contínuo das atualizações divulgadas pelo INMET e pelas autoridades locais de Defesa Civil.

Para compreender como esse fenômeno se forma e por que alcança níveis tão alarmantes:

Se você trabalha em um setor sensível ao clima, como agricultura ou logística, me diga sua área de atuação para que eu possa fornecer um panorama mais detalhado sobre os impactos diretos na sua região.
A escaldadura foliar ocorre quando o tecido da planta entra em necrose, afetando o enchimento de frutos e grãos e reduzindo o rendimento na agricultura.

O avanço das ondas de calor e o excesso de radiação solar elevam o risco de escaldadura nas lavouras e exigem planejamento diante da chegada do super El Niño. A combinação de luminosidade intensa e altas temperaturas reduz a margem de segurança para culturas como café, melancia, banana e citros, comprometendo o metabolismo vegetal e o potencial produtivo.

A escaldadura foliar ocorre quando o tecido da planta entra em necrose, afetando o enchimento de frutos e grãos e reduzindo o rendimento na colheita. Segundo o engenheiro agrônomo João Vidotto, da Fortgreen, a sobrecarga luminosa satura os fotossistemas, aumenta o estresse oxidativo, degrada a clorofila e eleva a temperatura interna, o que pode causar morte celular e queima visível.

Quem explica é o engenheiro agrônomo e gerente de Desenvolvimento de Mercado e Produtos da Fortgreen no Brasil e Paraguai, João Vidotto. "Quando a folha recebe uma carga luminosa muito acima da sua capacidade de uso ocorre uma saturação nos fotossistemas, ou seja, a planta entra em um forte estresse oxidativo que degrada a clorofila e aumenta rapidamente a temperatura interna, causando a morte celular e a queima visível na lavoura", detalha o executivo, que também é especialista em Ecofisiologia de Cultivos e mestrando em Produção Vegetal.

Como resposta, a empresa lançou o SunOFF, solução que combina mitigação física do excesso de luz com suplementação de fósforo, cálcio, zinco e selênio. A proposta é favorecer a adaptação metabólica, preservar o crescimento e ampliar a resistência da cultura a condições adversas.
O produto foi desenvolvido para garantir cobertura uniforme e alta fixação nas folhas, inclusive sob chuva. A tecnologia passou por validações em seis centros de pesquisa e já está presente em mais de 30 campos comerciais em seis estados. “O foco é garantir o vigor sob alta radiação e a resiliência climática necessária para o campo entregar os seus resultados com máxima rentabilidade e segurança", conclui Vidotto. (agrolink)

El Niño de 2026 pode repetir padrão de 2015 na geração solar

Sim, o El Niño em desenvolvimento repete o padrão de 2015, concentrando as condições mais favoráveis e os maiores índices de irradiação solar no Norte e no Nordeste. Nessas regiões, o tempo mais seco e com menos nuvens aumenta consideravelmente a geração de energia, enquanto o Sul enfrenta cenários mais desafiadores.

A possibilidade de um "super El Niño" reacendeu os alertas de pesquisadores e do setor elétrico sobre os impactos climáticos no país. Embora o clima traga um aumento expressivo no potencial fotovoltaico para a metade superior do mapa, ele também eleva o risco de secas severas na Amazônia e na região central.

Se as projeções se confirmarem, o Norte e o Nordeste deverão concentrar as condições mais favoráveis para a geração solar brasileira, enquanto o Sul enfrentará um cenário mais desafiador.

O cérebro humano funciona por reconhecimento de padrões e recorre ao passado para identificar semelhanças e orientar decisões no presente. No setor elétrico, a lógica é a mesma. A análise de episódios anteriores de El Niño permite antecipar comportamentos da geração solar. A comparação com os 2 últimos eventos aponta para um cenário próximo ao de 2015, com efeitos regionais bem definidos. A tendência é de maior favorecimento no Norte, Nordeste e no norte de Minas Gerais, enquanto a Região Sul deve enfrentar mais desafios, com a maior frequência de sistemas transientes e consequentemente aumento da nebulosidade.

A relação entre El Niño vai além dos impactos tradicionais sobre chuva e temperatura. Alterações na circulação atmosférica modificam o comportamento da cobertura de nuvens e influenciam diretamente a disponibilidade de irradiância e, consequentemente, também o desempenho dos complexos fotovoltaicos.

Os registros do ciclo 2014-2015 mostram que, em julho/2015, a maior cobertura de nuvens reduziu significativamente a incidência solar sobre grande parte do Centro-Sul, Sudeste e áreas do Nordeste. A partir de agosto, no entanto, o cenário começou a mudar. As áreas com anomalias positivas de irradiância avançaram pelo país, especialmente sobre a Região Norte.

Em agosto/2015, as áreas entre Santa Catarina, Paraná, leste de São Paulo, Mato Grosso do Sul, oeste de Mato Grosso, Rondônia e sul do Amazonas, foram destaques na geração solar. Já em setembro, o avanço do tempo seco favoreceu a irradiância na Região Norte, em Mato Grosso, no nordeste de Minas Gerais e na Bahia, enquanto a Região Sul passou a registrar redução da radiação solar devido ao aumento da atuação de frentes frias e outros sistemas transientes.

O padrão clássico do El Niño se consolidou entre outubro e dezembro/2015. Ao longo do trimestre, Norte e Nordeste passaram a concentrar as maiores anomalias positivas de irradiância, juntamente com Mato Grosso, Goiás e Espírito Santo. Em sentido oposto, a Região Sul registrou anomalias negativas persistentes e mais intensas, associadas à maior nebulosidade e à frequência de sistemas frontais. Na prática, isso significou condições mais favoráveis para a geração solar em importantes polos fotovoltaicos do Norte e Nordeste e um cenário menos favorável para os empreendimentos localizados no Sul do país.

O comportamento observado no ciclo 2023-2024 foi diferenciado, mesmo com a atuação do El Niño. Isso foi evidenciado no mês de agosto de 2023, o qual apresentou predominância de anomalias negativas de irradiância sobre grande parte da área central do Brasil, cenário distinto daquele registrado em 2015 (Figura 1).
Figura 1: anomalia de irradiação solar observada em agosto/2015 (à esquerda), anomalia de irradiação solar observada em agosto de 2023 (à direita).

Além disso, o panorama atmosférico global sofre influência de outros índices, como a Oscilação Antártica (AAO). Em agosto/2015, esse índice manteve-se quase totalmente positivo. Já em agosto/2023, o cenário mudou e a fase positiva durou apenas até a metade do mês, migrando para a fase negativa na quinzena final. Essa volatilidade também ajuda a explicar as profundas diferenças observadas entre os 2 períodos.

Em dezembro/2023, as áreas de menor disponibilidade de irradiação solar ficaram praticamente restritas ao Rio Grande do Sul, sem a abrangência observada durante o evento anterior, quando as anomalias negativas alcançaram também Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul (Figura 2). Paralelamente, as áreas de irradiância se fortaleceram sobre a região Nordeste e o norte de Minas Gerais, área que concentra hoje a maior parte da capacidade instalada de geração solar centralizada do Brasil.

Figura 2: anomalia de irradiação solar observada em dezembro/2015 (à esquerda), anomalia de irradiação solar observada em dezembro/2023 (à direita).

Embora nenhum evento de El Niño se comporte exatamente da mesma forma, os sinais atmosféricos atuais indicam que 2026 poderá resgatar características observadas em 2015. Se as projeções se confirmarem, o Norte e o Nordeste deverão concentrar as condições mais favoráveis para a geração solar brasileira, enquanto o Sul enfrentará um cenário mais desafiador, com maior probabilidade de anomalias negativas de irradiância e de redução do potencial de geração em relação a sua climatologia. Na outra ponta, áreas limítrofes do Sudeste e Centro-Oeste deverão enfrentar um segundo semestre marcado por maior nebulosidade e pela atuação mais frequente de sistemas transientes.

Para um setor cada vez mais dependente da previsibilidade climática, compreender essas tendências com antecedência pode representar uma vantagem estratégica na gestão dos ativos e na tomada de decisão.

Super El Niño' de 2026 pode provocar efeitos em cadeia na economia mundial. (pv-magazine-brasil)

terça-feira, 21 de julho de 2026

É urgente resfriar nossas cidades

É urgente resfriar nossas cidades. Em áreas urbanas com muito concreto e asfalto, o calor extremo cria "ilhas" que podem ser de 10°C a 15°C mais quentes que áreas rurais As cidades são especialmente vulneráveis ao calor extremo. Soluções como o aumento de áreas verdes e a adoção de técnicas de florestas de bolso ajudam a reduzir as temperaturas por meio da evapotranspiração Estratégias para resfriar as cidades.

Para podermos debater soluções práticas para a sua região, você poderia me dizer:

• O seu bairro tem muita ou pouca arborização?

• Quais ações de adaptação climática você gostaria de ver implementadas na sua cidade?

Entre ilhas de calor, ar-condicionado e energia solar, o planejamento urbano virou questão de sobrevivência

Enquanto especialistas já falam em “desastre térmico” para 2026, repensar como resfriamos as cidades brasileiras deixou de ser luxo e virou prioridade.

Morando no Rio de Janeiro, há mais de 30 anos, percebo claramente que a cidade está cada vez mais quente. Não é o calor de praia, aquele que a gente escolhe enfrentar de sunga e protetor solar. É o calor que sobe do asfalto às 6 da tarde, que não dá trégua nem depois que o sol se põe, que faz o ventilador girar a noite inteira sem realmente resfriar nada.

Se você mora em uma metrópole brasileira, provavelmente sabe exatamente do que estou falando e, nos últimos anos, esse calor tem chegado mais cedo, ficado mais tempo e batido mais recordes.

Não é impressão. O Brasil viveu 10 ondas de calor em 2024, 8 em 2023 e 7 em 2025, mesmo sem a ajuda do El Niño. E agora, com a possível formação de um “Super El Niño” na segunda metade de 2026, meteorologistas já falam abertamente em recordes de temperatura pela frente. Virou comum ouvir especialistas descreverem o fenômeno como um “desastre térmico”: um tipo de tragédia que não aparece em imagens de enchente ou deslizamento, mas que se instala silenciosamente nos hospitais, nas casas superaquecidas e na rotina de quem trabalha na rua.

E é justamente nas cidades que esse problema fica mais evidente. Foi pensando nisso, revisitando um rascunho de ideias que eu vinha anotando sobre o tema e as matérias que já publicamos, que resolvi organizar essas reflexões neste texto.

É claro que não tenho a pretensão de esgotar o assunto e nem esse é o objetivo. Mas acho que podemos refletir juntos.

O que são as ilhas de calor e porque elas pioram tudo

Se você já sentiu que o seu bairro parece “mais quente” do que o parque ou a praia mais próxima? Chamamos isso de ilha de calor, o fenômeno pelo qual áreas com muito concreto, asfalto e pouca vegetação retêm e irradiam calor de forma muito mais intensa do que regiões mais verdes ao redor. Bairros com trânsito intenso, prédios colados uns nos outros e quase nenhuma árvore acabam registrando temperaturas visivelmente mais altas do que zonas rurais ou parques próximos.

O problema é que as grandes cidades brasileiras ainda carregam fragilidades enormes nesse campo. Falta arborização, faltam estratégias estruturadas de resfriamento urbano, e sobra concreto.

Um levantamento recente mostrou que a maioria dos municípios brasileiros ainda não tem sequer um plano de ação formal para lidar com o calor extremo e isso apesar de o risco recair, de forma desproporcional, sobre idosos, pessoas com doenças crônicas e moradores de regiões mais vulneráveis, como aponta a Fiocruz.

Resfriamento passivo

Antes de pensarmos em qualquer solução tecnológica, existe algo mais simples e mais barato, que costuma ficar em segundo plano no debate público: o resfriamento passivo. Isso significa investir em arborização urbana de verdade, em telhados e fachadas mais claras (que refletem calor em vez de absorvê-lo), em corredores de ventilação entre os prédios, em mais áreas permeáveis e menos asfalto.

É um tipo de solução que não aparece em nenhuma inauguração vistosa, mas que muda a temperatura de um bairro inteiro em poucos graus, o que pode ser suficiente para reduzir internações, mortes prematuras e o sofrimento silencioso de quem não tem para onde fugir do calor.

O planejamento urbano brasileiro precisa tratar isso como infraestrutura essencial, no mesmo patamar de saneamento ou transporte, e não como um projeto paisagístico opcional.
O ar-condicionado, alívio que também é armadilha

Só que o resfriamento passivo, sozinho, não dá conta de tudo, especialmente em dias de onda de calor extrema, quando a temperatura simplesmente não cede nem à noite. É aí que entra o resfriamento ativo, e o ar-condicionado se torna, para muita gente, a única forma de sobreviver ao verão com dignidade.

O problema é que essa solução carrega um efeito colateral perigoso. Quanto mais calor, mais gente liga o ar-condicionado, e mais pressão isso coloca sobre um sistema elétrico que já opera no limite em horários de pico.

O resultado é uma equação desconfortável com mais consumo de energia, mais sobrecarga na geração e na distribuição, e contas de luz mais caras justamente para quem menos pode pagar por elas.

A desigualdade é uma questão central e precisamos focar também na justiça energética. A “pobreza de resfriamento” nos lembra, de forma irrefutável, que a luta contra as mudanças climáticas é, no fundo, uma luta por justiça social. O clima não aquece de forma igualitária. Ele aquece os que já têm menos proteção, já vivem nas margens, já carregam o peso de um sistema que historicamente ignorou suas necessidades.

Energia solar urbana

Como resfriar as cidades com o planeta cada vez mais quente

É exatamente aqui que a energia solar urbana deixa de ser só uma boa ideia de sustentabilidade e passa a ser uma resposta estrutural ao problema. O Brasil já ultrapassou a marca de 46 gigawatts de capacidade solar instalada, e a maior parte dela, mais de 37 GW, vem justamente da geração distribuída dos telhados solares residenciais e comerciais espalhados por milhões de imóveis pelo país.

Cada telhado com painéis solares é, na prática, uma pequena usina que ajuda a aliviar a rede exatamente quando ela mais precisa: nos dias quentes, quando o sol que aquece a cidade também está gerando energia para resfriá-la. É um ciclo elegante, quase poético, o mesmo sol que castiga também pode aliviar, desde que a gente saiba aproveitá-lo.

Claro, o cenário não é isento de desafios. O aumento na cobrança do chamado “Fio B” (que remunera a distribuidora pelo uso da rede) e a alta de impostos de importação sobre painéis e equipamentos têm encarecido novos projetos em 2026.

Outro desafio é o “curtailment”. Segundo Heitor Scalambrini Costa, a expansão descontrolada de parques renováveis sem infraestrutura de transmissão adequada gera paradoxo: Brasil tem energia, mas não consegue aproveitá-la.

O curtailment é a redução intencional da geração de energia, especialmente em usinas de fontes renováveis como eólica e solar, quando a produção excede a capacidade de consumo ou transmissão do sistema.

Ainda assim, mesmo com vários ajustes necessários, especialistas do setor continuam considerando a energia solar residencial vantajosa a médio prazo, com retorno do investimento entre três e sete anos, dependendo da região e do porte do sistema.
Baterias e armazenamento: a peça que ainda falta

Sol sobre a Medina de Marrakesh, no Marrocos. Países em desenvolvimento da África e da Ásia devem enfrentar os piores impactos das altas temperaturas resultantes das mudanças climáticas. Devido ao efeito das ilhas de calor urbanas, as cidades são especialmente suscetíveis a esses impactos.

Se os telhados solares resolvem parte do problema, ainda falta uma peça importante: o que fazer com toda essa energia depois que o sol se põe, justamente no fim da tarde, quando o calor acumulado no dia ainda pede ar-condicionado e a rede elétrica entra no seu horário de pico.

É aí que entram as usinas de armazenamento em baterias, os chamados sistemas BESS. Elas guardam o excedente de energia solar gerado durante o dia para usá-lo (ou despachá-lo para a rede) justamente nos momentos de maior demanda, funcionando como um amortecedor para todo o sistema elétrico.

O mercado brasileiro de armazenamento cresceu 140% em instalações residenciais e comerciais só entre 2024 e 2025, e o país já se prepara para o primeiro grande leilão de reserva de capacidade dedicado a baterias, com potencial de reduzir o uso de termelétricas mais caras e poluentes justamente nos picos de consumo causados pelo calor.

Ainda é uma tecnologia em fase de amadurecimento no Brasil, com custos e questões regulatórias por resolver. Mas a direção é clara de que as cidades resilientes ao calor extremo vão precisar de painéis solares nos telhados e de baterias guardando essa energia para os momentos certos, sob pena de repetirmos, verão após verão, o mesmo ciclo de apagões, contas mais caras e sistemas no limite.
O calor não vai esperar o planejamento ficar pronto

Você está sentido a sua cidade cada vez mais quente? Esse fenômeno, que atinge os grandes centros urbanos e traz um enorme desconto térmico aos seus habitantes, é chamado de “ILHAS DE CALOR”.

Volto àquela caminhada no fim de tarde com a qual comecei este texto. Toda vez que sinto o calor subindo do chão, penso em quantas escolhas de décadas passadas; a árvore que não foi plantada, o rio que virou avenida, o prédio que tapou a ventilação de um quarteirão inteiro, se acumulam naquele instante de desconforto. E penso também que ainda dá tempo de escolher diferente.

Resfriar as cidades brasileiras diante de ondas de calor cada vez mais frequentes não vai depender de uma única solução mágica. Vai exigir arborização e resfriamento passivo, pensados como política pública séria, uso inteligente e acessível do ar-condicionado, e um investimento inteligente em energia solar urbana e armazenamento em baterias, capazes de sustentar essa demanda sem sobrecarregar o sistema, nem pesar ainda mais no bolso de quem já sente o calor com mais intensidade.

O verão que vem e os que virão depois dele não vão esperar. (ecodebate)

Em 30 anos 90% das cidades brasileiras sofreram desastres climáticos

Mais de 90% das cidades brasileiras sofreram desastres climáticos nos últimos 30 anos. Desastres climáticos provocados pelas chuvas crescera...