domingo, 27 de setembro de 2026

Super El Niño não para de ganhar força

Super El Niño não para de ganhar força e tem data atualizada para atingir pico máximo.
O Super El Niño de 2026 deve atingir seu pico máximo de intensidade entre novembro e dezembro, com persistência prevista até fevereiro de 2027.

Detalhes do Fenômeno e Previsões

• Intensidade: As anomalias de temperatura na superfície do Oceano Pacífico Equatorial (região Niño 3.4) podem chegar a cerca de 3,6°C acima da média entre setembro e novembro, com projeções isoladas de até 3,9°C em novembro.

• Probabilidade: Órgãos como a Organização Meteorológica Mundial (OMM) e a NOAA indicam uma chance de quase 100% de permanência do fenômeno, descartando cenários de neutralidade ou o retorno da La Niña a curto prazo.

• Impactos globais: O aquecimento acelerado dos oceanos coloca o evento em uma categoria muito forte (superior a 2°C de anomalia), aumentando os riscos de recordes de temperatura global e eventos climáticos extremos.

Reflexos no Brasil

• Região Sul: Probabilidade elevada de chuvas intensas, temporais frequentes e risco de enchentes.

• Norte e Nordeste: Redução drástica dos índices pluviométricos, agravando secas e favorecendo condições críticas para queimadas.

• Sudeste e Centro-Oeste: Padrões de precipitação mais irregulares, combinados com ondas de calor prolongadas e baixa umidade do ar.

Setembro já começou com chuvas intensas. Neste início de mês, o GMC Online repercute reportagens que foram sucesso de leitura em agosto. Entre elas, a matéria que trata sobre a chegada do Super El Niño, que já traz mudanças significativas no tempo e tem data para atingir o pico máximo.

O Super El Niño está ganhando força no Oceano Pacífico Equatorial e deve atingir seu período de maior intensidade entre a primavera e o verão de 2026/2027. No Paraná, o fenômeno já provoca reflexos no regime de chuvas e a tendência é de que os efeitos se intensifiquem nos próximos meses, com chuvas acima da média e maior risco de eventos de tempo severo.
De acordo com o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), as previsões divulgadas recentemente pelos principais institutos meteorológicos internacionais indicam que o fenômeno segue em fortalecimento. A expectativa é de que a influência do El Niño permaneça sobre o Paraná até o 1º trimestre/2027.

El Niño pode atingir intensidade muito forte

A atualização divulgada pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirma o avanço do fenômeno.

Em julho, a temperatura da superfície do mar em uma das principais regiões utilizadas para monitorar o El Niño ficou 1,4°C acima da média climatológica. O aquecimento também é observado em águas do Oceano Pacífico Equatorial central e oriental, inclusive em profundidades de até 200 metros.

O cenário aumenta a possibilidade de o fenômeno alcançar a classificação de El Niño muito forte, caracterizada por temperaturas da superfície do mar de pelo menos 2°C acima da média.

Segundo as projeções atuais, há mais de 90% de probabilidade de que isso aconteça durante a primavera e o verão de 2026/2027 no Hemisfério Sul. O período de maior intensidade é esperado principalmente entre outubro, novembro e dezembro.

Quando o Super El Niño deve atingir o pico?

A janela apontada pelas previsões internacionais coloca o fim da primavera e o início do verão como o período mais importante para o desenvolvimento do fenômeno.

Na prática, isso significa que o Paraná poderá sentir de maneira mais evidente os efeitos do El Niño justamente nos próximos meses. A tendência é de aumento dos volumes de chuva e da frequência de episódios de instabilidade.

O Simepar destaca que, no Sul do Brasil, a primavera e o verão devem apresentar precipitações acima da média, com destaque para algumas regiões paranaenses.

No Paraná, as áreas com expectativa de maiores volumes de chuva são:

- Oeste;

- Sudoeste;

- Centro-Sul.

Além da chuva mais frequente, o fortalecimento do El Niño aumenta a probabilidade de ocorrência de tempestades fortes, chuvas intensas, inundações e enxurradas.

A influência do fenômeno sobre as condições meteorológicas do Paraná deve continuar até os primeiros meses de 2027.
El Niño já deixou sinais no inverno do Paraná

Apesar de o pico do fenômeno ainda ser esperado para a primavera e o verão, os efeitos do El Niño já podem ser observados no Paraná.

Um dos principais exemplos está nos dados de chuva registrados em julho. Das 45 estações meteorológicas do Simepar com mais de cinco anos de operação, apenas quatro tiveram precipitação abaixo da média histórica no mês.

As exceções foram as estações de Antonina, Cerro Azul, Guaratuba e Guaraqueçaba.

Nas outras 41 estações, os volumes de chuva ficaram acima da média. Em algumas cidades, os registros foram históricos.

Em Palmas, por exemplo, foram registrados 311 milímetros de chuva em julho/2026, o maior volume para o mês desde a instalação da estação meteorológica, há 28 anos.

Outras 6 estações também registraram, em julho, o maior volume de chuva para o mês dentro de seus respectivos períodos de histórico:

Altônia: maior volume desde 2018;

Cianorte: maior volume desde 2017;

Cornélio Procópio: maior volume desde 2019;

Cruzeiro do Iguaçu: maior volume desde 2022;

Foz do Iguaçu: maior volume desde 2017;

Ubiratã: maior volume desde 2018.

Junho também teve chuva acima da média

O comportamento observado em julho já havia aparecido no mês anterior.

Em junho/2026, entre as mesmas 45 estações meteorológicas analisadas, apenas uma apresentou precipitação abaixo da média histórica.

A estação localizada na Reserva Natural Salto Morato, em Guaraqueçaba, registrou 10,2 milímetros a menos do que o volume médio esperado para o período.

Por outro lado, municípios como Capanema, Cândido de Abreu, Foz do Iguaçu, Pato Branco, Ponta Grossa, São Miguel do Iguaçu e Ubiratã tiveram volumes acumulados pelo menos 100 milímetros acima da média histórica para junho.

Os dados mostram que o padrão mais chuvoso já vem sendo observado antes mesmo do período previsto de maior intensidade do El Niño.

Excesso de chuva exige atenção no campo

O aumento das chuvas pode trazer efeitos positivos para a agricultura, principalmente ao reduzir áreas afetadas pela seca e melhorar a disponibilidade de água para as culturas.

Porém, o excesso de precipitação também representa desafios para os produtores rurais.

O Simepar alerta que o planejamento será fundamental diante da possibilidade de períodos prolongados de solo úmido. A condição pode prejudicar operações no campo, incluindo plantio e colheita, além de favorecer o aparecimento de doenças fúngicas.

Dependendo da cultura, do estágio de desenvolvimento das plantas e do momento em que as chuvas ocorrerem, o excesso de água também pode comprometer a qualidade dos grãos.

Outro risco está relacionado à erosão do solo, que pode aumentar com a ocorrência de chuvas volumosas e intensas.
Chuvas fortes podem ficar mais frequentes

O fortalecimento do El Niño não significa que choverá de forma contínua todos os dias no Paraná. O fenômeno atua modificando padrões atmosféricos em grande escala e aumenta a probabilidade de determinadas condições climáticas.

Por isso, o Simepar ressalta que o acompanhamento das previsões meteorológicas precisa ser feito diariamente.

A ocorrência efetiva de chuva depende da atuação de sistemas específicos, como frentes frias, áreas de baixa pressão e sistemas semi estacionários.

Isso também explica por que os impactos podem variar bastante entre diferentes regiões do Paraná.

Mesmo os episódios mais intensos de El Niño não produzem necessariamente os mesmos efeitos em todo o território. Entretanto, quanto mais forte é o fenômeno, maior tende a ser a probabilidade de ocorrência dos padrões climáticos normalmente associados a ele.

O que é o El Niño?

O El Niño-Oscilação Sul (ENOS) é um fenômeno climático que ocorre no Oceano Pacífico Equatorial e nas regiões próximas. Ele envolve alterações anormais tanto na temperatura da superfície do mar quanto na circulação da atmosfera.

O fenômeno é considerado um dos principais responsáveis por alterações no clima global porque consegue modificar a circulação atmosférica e, consequentemente, influenciar os padrões de temperatura e chuva em diferentes partes do planeta por vários meses ou até anos.

O El Niño corresponde à componente oceânica do fenômeno e está relacionado ao aquecimento das águas superficiais do Pacífico Equatorial em relação à média climatológica.

Já a Oscilação Sul representa a componente atmosférica do ENOS e está associada às mudanças na pressão atmosférica entre as regiões oeste e leste do Pacífico tropical.

As observações atuais mostram que essas alterações atmosféricas já estão ocorrendo, incluindo mudanças na direção dos ventos em diferentes níveis da atmosfera.

Paraná deve enfrentar meses de maior instabilidade

Com o El Niño em processo de intensificação e possibilidade superior a 90% de atingir a categoria muito forte, o Paraná entra em um período que exige atenção redobrada para as condições meteorológicas.

A principal preocupação para a primavera e o verão é a combinação de chuvas acima da média e maior frequência de episódios severos, especialmente nas regiões Oeste, Sudoeste e Centro-Sul.

O pico de intensidade é esperado principalmente entre outubro e dezembro/2026, enquanto a influência do fenômeno pode se estender até o 1º trimestre/2027.
Ainda assim, o Simepar reforça que o El Niño não determina sozinho quando e onde cada tempestade ocorrerá. Por isso, as previsões de curto prazo e suas atualizações continuarão sendo fundamentais para identificar períodos de maior risco no Paraná. (gmconline)

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A crise climática ameaça os direitos da infância

A crise climática é uma emergência que afeta diretamente a sobrevivência, a saúde, a educação e a proteção de milhões de crianças e adolescentes no Brasil e no mundo.

Impactos Principais

• Riscos Climáticos Múltiplos: Cerca de 1,1 bilhão de crianças no planeta sofrem com pelo menos três tipos de riscos climáticos, como secas, enchentes e ondas de calor. No Brasil, milhões de menores enfrentam essa mesma vulnerabilidade extrema.

• Ameaça à Educação: Desastres ambientais danificam escolas e transformam salas de aula em abrigos temporários, interrompendo o aprendizado e a rotina.

• Saúde e Nutrição: O calor excessivo e a falta de água potável elevam casos de desnutrição e de doenças como dengue e diarreia.

• Danos Emocionais: O trauma de eventos extremos e a chamada ansiedade climática prejudicam a saúde mental e o bem-estar socioemocional dos jovens.

Uma criança que perde alimentação, saúde ou meses de escolarização carrega consequências muito além da emergência em um evento climático extremo

O segundo boletim do Painel El Niño 2026–2027, divulgado em agosto, confirmou que o fenômeno deverá permanecer ativo pelo menos até o início de 2027, com alta probabilidade de atingir intensidade muito forte entre a primavera e o verão. As projeções indicam temperaturas acima da média em praticamente todo o Brasil, redução das chuvas em grande parte das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e precipitações mais elevadas no Sul. Esse cenário amplia os riscos de ondas de calor, secas, incêndios florestais, enchentes e deslizamentos, atingindo um país no qual milhões de crianças já vivem em territórios marcados pela pobreza, pela precariedade habitacional e pela insuficiência dos serviços públicos.

O El Niño é um fenômeno natural e recorrente, mas sua atuação ocorre agora sobre um planeta aquecido pelas mudanças climáticas. A combinação entre os dois processos aumenta a possibilidade de eventos extremos e expõe uma desigualdade que os indicadores nacionais agregados nem sempre revelam. Uma tempestade, uma seca ou uma onda de calor não encontra todas as crianças nas mesmas condições. Algumas vivem em casas protegidas, estudam em escolas preparadas e contam com atendimento médico próximo. Outras dependem de moradias frágeis, escolas sem água adequada, postos de saúde sobrecarregados e redes familiares cuja renda pode desaparecer diante da primeira emergência. A crise climática, por isso, também é uma crise dos direitos da infância.

Uma geração cercada por ameaças climáticas

O Relatório de Risco Climático das Crianças 2026, divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), dimensionou essa exposição. No Brasil, 16 milhões de crianças e adolescentes vivem em áreas submetidas simultaneamente a 3 ou mais ameaças climáticas, como secas, calor extremo, ondas de calor, queimadas, enchentes e tempestades. São aproximadamente 3 em cada 10 meninas e meninos do país. Quando considerados 2 ou mais riscos, o número ultrapassa 30 milhões, o equivalente a 6 em cada 10.

A multiplicidade das ameaças é importante porque os impactos não costumam ocorrer isoladamente. Uma seca prolongada reduz a disponibilidade de água, compromete a produção de alimentos, favorece incêndios e aumenta a concentração de poluentes no ar. Uma enchente pode destruir moradias, interromper aulas, contaminar fontes de abastecimento e impedir o funcionamento de unidades de saúde. Depois que as águas baixam ou a chuva retorna, os prejuízos continuam presentes na perda de renda familiar, no endividamento, na insegurança alimentar e na dificuldade de reconstruir a vida cotidiana.

Crianças e adolescentes são especialmente dependentes da continuidade dos serviços públicos e dos cuidados familiares. Quando um desastre interrompe o transporte, fecha uma escola ou dificulta o acesso aos centros de saúde, eles não dispõem de autonomia para procurar alternativas. Essa dependência não significa passividade, mas revela que sua proteção exige decisões anteriores ao desastre. Ainda assim, políticas climáticas e planos municipais frequentemente tratam a população como um conjunto homogêneo, sem reconhecer as necessidades específicas da infância.
O calor que adoece e amplia desigualdades

Crise climática ameaça a vida de 1 em cada 2 crianças no planeta, aponta Unicef.

Estudo cruzou dados de 2,4 bilhões de menores com a ocorrência de oito riscos climáticos, como inundações, secas e ondas de calor.

Um estudo publicado em agosto/2026 na revista científica Science Advances e divulgado em 31/08/2026 pelo portal EcoDebate mostrou que 9,2 milhões de crianças brasileiras de até nove anos, correspondentes a 32% dessa faixa etária, enfrentam pelo menos trinta dias adicionais de estresse térmico por ano em consequência das mudanças climáticas. A pesquisa age-specific exposure to human-induced increases in humid heat, coordenada pela Vrije Universiteit Brussel, combinou dados demográficos e modelos climáticos para identificar a parcela da exposição ao calor úmido atribuível ao aquecimento provocado pelas atividades humanas. O número de crianças brasileiras submetidas a pelo menos 5 meses anuais de calor perigoso passou de aproximadamente 300 mil, em um cenário sem o aquecimento antropogênico, para 3,2 milhões nas condições atuais.

Outro estudo anterior publicado em 2025 na revista científica Environmental Research, estudo analisou mais de um milhão de mortes de crianças menores de cinco anos ocorridas no país ao longo de duas décadas e encontrou evidências científicas que mostram que as temperaturas extremas já produzem efeitos mensuráveis sobre a saúde infantil no Brasil. A pesquisa foi desenvolvida pela Fundação Oswaldo Cruz da Bahia (Cidacs/Fiocruz Bahia) e pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em colaboração com instituições internacionais. Os resultados mostraram que, em comparação com as temperaturas associadas ao menor risco de mortalidade, o risco de morte infantil aumentou 95% nos dias de frio extremo e 29% nos dias de calor extremo, com diferenças relacionadas à idade, à região do país e às condições sociais.

Os organismos de bebês e crianças pequenas ainda estão desenvolvendo seus mecanismos de regulação da temperatura. Por essa razão, perdem líquidos com maior facilidade e possuem menor capacidade de responder ao calor intenso. Temperaturas elevadas aumentam os riscos de desidratação, problemas renais, agravamento de doenças respiratórias e disseminação de algumas enfermidades infecciosas. O frio extremo também pode provocar complicações respiratórias e metabólicas, especialmente em moradias com infiltrações, umidade e proteção térmica insuficiente.

Os riscos não decorrem apenas da temperatura registrada pelos termômetros. A qualidade das habitações, a presença de árvores, o acesso à água e a disponibilidade de espaços ventilados definem a intensidade da exposição. Nas periferias urbanas, a concentração de construções, as superfícies asfaltadas, a falta de vegetação e os telhados inadequados produzem ambientes muito mais quentes. Em áreas rurais e comunidades tradicionais, longas distâncias até os serviços de saúde podem transformar um problema inicialmente simples em uma situação grave.

As recomendações habituais para os dias muito quentes, como beber água, permanecer em lugares frescos e evitar exposição ao sol, pressupõem condições que não estão disponíveis para todas as famílias. Milhões de pessoas não possuem climatização, moram em casas mal ventiladas ou enfrentam abastecimento irregular. Muitos responsáveis trabalham fora durante todo o dia e não podem alterar suas jornadas quando as temperaturas sobem. Sem políticas públicas, a orientação individual transfere às famílias a responsabilidade por enfrentar riscos produzidos também pela desigualdade urbana e pela ausência de adaptação climática.
A crise climática começa antes do nascimento

Um estudo publicado em 2026 na revista científica The Lancet Regional Health – Americas acrescentou outra dimensão ao problema. A pesquisa analisou 29,8 milhões de nascimentos ocorridos no Brasil entre 2001 e 2020 e identificou associação entre a exposição à seca durante a gestação e o aumento do risco de nascimento prematuro e de bebês pequenos para a idade gestacional. Os efeitos foram mais pronunciados em biomas como Amazônia, Caatinga, Cerrado e Pampa e nas populações socialmente mais vulneráveis.

As secas influenciam a gestação por diferentes caminhos. Elas podem reduzir o acesso à água potável, diminuir a quantidade e a diversidade dos alimentos, aumentar a exposição ao calor e dificultar o acompanhamento pré-natal. Nas comunidades isoladas, a redução do nível dos rios impede deslocamentos até as unidades de saúde. Nas áreas rurais, a perda da produção agrícola compromete simultaneamente a renda e a alimentação da família. Em territórios sem saneamento adequado, a escassez de água também aumenta os riscos de contaminação e doenças.

Esses resultados mostram que a proteção da infância não pode começar somente após o nascimento. A atenção primária à saúde precisa incorporar informações climáticas, identificar gestantes expostas a secas e ondas de calor e organizar antecipadamente o acompanhamento das comunidades mais vulneráveis. Garantir água segura, alimentação adequada e acesso ao pré-natal durante uma emergência climática deve fazer parte das políticas de adaptação, e não ser tratado como medida improvisada quando os efeitos já estão instalados.

Quando o calor chega ao prato

A relação entre temperatura e alimentação infantil foi demonstrada por outro estudo publicado em 2026, desta vez na revista The Lancet Planetary Health. A pesquisa acompanhou informações de mais de seis milhões de crianças brasileiras entre um e cinco anos. Acima de 26°C, cada aumento de 1°C na temperatura local foi associado a uma elevação de aproximadamente 10% na possibilidade de baixo peso e de 8% nas possibilidades de desnutrição aguda e de comprometimento persistente do crescimento.

Os resultados foram mais graves nas regiões Norte e Nordeste, nas áreas rurais e entre crianças indígenas e negras. A desigualdade encontrada não é um detalhe secundário. Ela mostra que a elevação da temperatura atua sobre estruturas sociais já existentes. Famílias com maior renda podem substituir alimentos, preservar estoques, climatizar ambientes e buscar atendimento médico. Famílias pobres dependem mais dos preços locais, da produção de pequena escala, da alimentação escolar e da continuidade dos programas públicos.

O calor e a irregularidade das chuvas afetam lavouras, reduzem a produtividade, alteram a disponibilidade de frutas e hortaliças e podem elevar os preços. Também interferem no armazenamento e no transporte de produtos perecíveis. Quando a renda é limitada, o encarecimento não provoca apenas redução da quantidade ingerida. Ele diminui a diversidade das refeições e favorece a substituição de alimentos frescos por produtos mais baratos e de menor qualidade nutricional.

O El Niño de 2026 torna essa relação especialmente preocupante. A previsão de chuvas abaixo da média no centro-norte do país pode afetar a agricultura familiar, o abastecimento de comunidades indígenas e ribeirinhas e a produção destinada aos mercados locais. Na Região Sul, o excesso de precipitação também pode danificar plantações e estradas. A alimentação escolar, as compras públicas da agricultura familiar, os estoques governamentais e os programas de transferência de renda tornam-se, nesse contexto, instrumentos de adaptação climática e proteção da infância.

A escola interrompida pelos desastres

A educação constitui outra dimensão frequentemente tratada como consequência lateral dos eventos extremos. Em 2024, pelo menos 1,17 milhão de estudantes brasileiros tiveram as aulas interrompidas por emergências climáticas. As enchentes no Rio Grande do Sul afetaram mais de 2 mil escolas estaduais e impediram que aproximadamente 741 mil estudantes frequentassem as aulas. Na Amazônia, a seca paralisou por períodos prolongados cerca de 1.700 escolas, incluindo mais de cem unidades situadas em áreas indígenas, atingindo aproximadamente 436 mil estudantes.

A interrupção não representa apenas perda de conteúdo escolar. Para muitas crianças, a escola oferece alimentação, proteção, convivência e acesso a serviços públicos. Seu fechamento desorganiza a rotina familiar e pode obrigar responsáveis a deixar o trabalho para cuidar dos filhos. Quando o afastamento se prolonga, aumentam as dificuldades de aprendizagem e os riscos de abandono, sobretudo entre estudantes que já enfrentavam trajetórias escolares irregulares.

As próprias instalações escolares também revelam a desigualdade ambiental. Segundo dados do Censo Escolar 2024, sistematizados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), mais de 500 mil estudantes frequentam cerca de 8 mil escolas públicas municipais sem acesso à água por fontes consideradas adequadas. Desse total, aproximadamente 138 mil estão matriculados em pouco mais de 2 mil unidades nas quais não existe acesso à água. Quase 94% dessas escolas estão localizadas em áreas rurais.

Em períodos de calor extremo, salas lotadas, telhados que concentram calor e ausência de ventilação prejudicam a concentração e tornam a permanência na escola desgastante. Durante enchentes e deslizamentos, unidades escolares são frequentemente utilizadas como abrigos, mesmo quando não foram planejadas para essa função. A adaptação da educação exige estruturas resistentes, água segura, conforto térmico, planos de contingência, alternativas de transporte e estratégias que permitam a continuidade das aulas sem excluir quem não possui acesso regular à internet.

A geografia social da infância climática

Os impactos do clima acompanham as desigualdades territoriais e raciais do país. Crianças indígenas podem enfrentar seca, contaminação da água, escassez de pescado e interrupção do atendimento realizado por equipes de saúde. Crianças quilombolas e rurais convivem com distâncias maiores até escolas e unidades médicas. Nas periferias urbanas, famílias negras estão mais presentes em encostas, margens de rios e bairros com pouca arborização, drenagem insuficiente e saneamento precário.

O desastre não é produzido somente pela chuva, pela seca ou pelo calor. Ele surge quando esses eventos encontram populações submetidas à precariedade e territórios historicamente privados de investimentos. A mesma quantidade de chuva pode ser absorvida por um bairro arborizado e dotado de drenagem, enquanto provoca alagamentos em uma comunidade construída junto a um curso d’água degradado. A mesma temperatura produz efeitos diferentes em uma casa ventilada e em uma moradia pequena, coberta por materiais que acumulam calor.

A desigualdade também aparece na recuperação. Famílias com poupança, seguro e acesso ao crédito conseguem substituir móveis, mudar temporariamente de residência e retomar mais rapidamente a rotina. As famílias pobres dependem de doações, benefícios emergenciais e respostas governamentais que nem sempre chegam no tempo necessário. Para as crianças, a demora significa permanência prolongada em abrigos, perda de materiais escolares, afastamento da comunidade e fragilização das redes de proteção.
A distância entre o protocolo e a proteção efetiva

O Brasil atualizou, em 2025, o Protocolo Nacional para a Proteção Integral de Crianças e Adolescentes em Situação de Riscos e Desastres. Elaborado pelo governo federal em parceria com o Unicef e outras instituições, o documento distribui responsabilidades entre os sistemas de defesa civil, saúde, educação, assistência social, justiça, direitos humanos e conselhos tutelares. Sua concepção reconhece que a proteção deve ocorrer antes, durante e depois das emergências.

O protocolo recomenda a identificação prévia das crianças residentes nas áreas de risco, a manutenção dos serviços essenciais, a existência de abrigos adequados e a preparação das equipes públicas. Também prevê cuidados para evitar separações familiares, garantir alimentação e continuidade escolar e atender crianças com deficiência ou necessidades específicas. Sua efetividade, entretanto, dependerá da incorporação dessas orientações aos planos estaduais e municipais, da capacitação das equipes e da destinação de recursos permanentes.

O Ministério da Saúde reconheceu, em julho de 2026, que as mudanças climáticas já desafiam a organização do Sistema Único de Saúde (SUS). A resposta passa pelo fortalecimento da atenção primária, cuja presença nos territórios permite identificar vulnerabilidades, acompanhar famílias e organizar ações antes que a emergência se transforme em crise sanitária. Na educação, uma coleção lançada pelo Unicef em maio oferece orientações para que redes de ensino se preparem para as emergências climáticas, com atenção especial à Amazônia Legal e possibilidade de aplicação em todo o país.

Essas iniciativas mostram avanços, mas a intensificação do El Niño cobrará capacidade de execução. Não basta possuir alertas meteorológicos se escolas, unidades de saúde e serviços de assistência social não souberem como agir. Também não basta orientar famílias a abandonar áreas perigosas quando não existem moradias seguras para recebê-las. A proteção da infância depende de políticas coordenadas de habitação, saneamento, saúde, alimentação, educação e defesa civil.

As previsões disponíveis oferecem tempo para agir antes dos períodos mais críticos. Municípios podem mapear crianças em áreas vulneráveis, preparar escolas e unidades de saúde, garantir estoques de água e alimentos, revisar abrigos e organizar rotas de atendimento. A antecipação não elimina os eventos climáticos, mas pode impedir que eles interrompam direitos e aprofundem desigualdades.

Ao colocar a infância no centro da adaptação climática, o país reconhece que os danos não se limitam ao momento do desastre. Uma criança que perde alimentação, saúde ou meses de escolarização carrega consequências muito além da emergência. O El Niño passará, como outros episódios anteriores, mas seus efeitos poderão permanecer na vida de uma geração inteira se a resposta pública chegar somente depois que o calor, a seca ou a enchente já tiverem ocupado o território. (ecodebate)

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O planeta vai ultrapassar 1,5°C

O planeta vai ultrapassar 1,5°C, mas ainda dá tempo de mudar o final dessa história.
Sim, ainda dá tempo de mudar o final dessa história, mas o roteiro agora mudou: o foco científico mudou de "evitar" para "corrigir" o aquecimento global. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) divulgou um relatório histórico confirmando que o planeta inevitavelmente vai ultrapassar o limite de 1,5°C nos próximos anos. No entanto, cientistas e a ONU enfatizam que o limite de 1,5°C não é um "precipício mágico" onde tudo acaba, mas sim um teto que precisaremos reduzir "vindo de cima" por meio de um processo chamado de overshoot (ultrapassagem temporária).

A Nova Estratégia: Pico e Declínio

A meta do Acordo de Paris continua viva, mas agora a humanidade precisa correr para garantir o cenário mais otimista possível:

• O Pico de 1,8°C: No melhor cenário projetado pela ONU, as temperaturas mundiais atingiriam um pico de até 1,8°C em meados do século antes de começarem a cair.

• Redução a Longo Prazo: Com ações drásticas, o planeta conseguiria voltar a ficar abaixo dos 1,5°C até o ano de 2100.

• Cada Décimo Importa: Permanecer acima de 1,5°C por muito tempo aumenta drasticamente os riscos de pontos de não retorno (como o colapso da Amazônia ou das correntes oceânicas). Por isso, cada fração de grau evitada poupa milhões de vidas e ecossistemas.

O que precisa ser feito imediatamente?

Para encurtar o tempo que passaremos nessa zona de perigo e mudar o desfecho do século, três pilares são urgentes:

• Corte massivo e rápido de emissões: Reduzir drasticamente o uso de combustíveis fósseis e zerar as emissões de metano.

• Remoção de Carbono em Larga Escala: Além de plantar florestas, o mundo precisará investir em tecnologias seguras de captura direta de CO2 da atmosfera para "resfriar" o planeta.

• Adaptação e Resiliência: Preparar as cidades, a agricultura e as populações vulneráveis para enfrentar os eventos extremos que já se tornaram realidade.

A COP30, realizada no Brasil, é considerada o palco definitivo para que os países assumam esses novos compromissos severos e coloquem o plano de recuperação em prática.
Novo relatório do PNUMA confirma que o limite do Acordo de Paris deve ser superado, mas mostra que ação rápida, tecnologia e justiça climática ainda podem evitar os cenários mais graves

Um relatório recém-publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) traz um alerta duro ao afirmar que ultrapassar 1,5°C de aquecimento global, em relação aos níveis pré-industriais, já é praticamente inevitável. Mas o documento também aponta um caminho possível de retorno, sustentado por corte de emissões, remoção de carbono, adaptação e cooperação internacional.

Tem notícia assusta ao ser lida, mas que precisa ser lida assim mesmo. É o caso do novo relatório do PNUMA, intitulado “Limiting Overshoot – Navigating exceedance of 1.5°C and pathways towards return”, que acaba de confirmar algo que cientistas já vinham gritando há anos: o mundo vai ultrapassar a marca de 1,5°C de aquecimento em relação à era pré-industrial, e isso deve acontecer em um horizonte de tempo curto.

Se você ficou seriamente preocupado com isto, saiba que não está sozinho. Mas o relatório não é só sobre o problema. Ele também é, em boa parte, sobre o que ainda podemos fazer diante dele. E é sobre isso que vale a pena conversar.

Por que 1,5°C importa tanto?

O número 1,5°C virou símbolo desde o Acordo de Paris, assinado em 2015. Ele representa o limite considerado mais seguro para evitar que o clima do planeta saia de um equilíbrio já bastante desafiador para um cenário de instabilidade profunda.

Cada fração de grau acima desse patamar aumenta o risco de eventos extremos, compromete a produção de alimentos, ameaça o abastecimento de água e pode empurrar sistemas naturais inteiros, como geleiras, correntes oceânicas e a floresta amazônica, para pontos de não retorno.

Isso não quer dizer que ultrapassar 1,5°C seja o fim da linha. Quer dizer que a margem de segurança está ficando mais estreita, e que cada ação conta em dobro a partir de agora.
A emergência climática não é um tema distante. É o tipo de coisa que já muda a rotina sem pedir licença.

Está no calor fora do normal, nas chuvas que viram tragédia, na água que falta, no ar pesado e nos impactos que sempre caem primeiro sobre quem tem menos.

O caminho do “excesso, pico e declínio”

Aqui entra a parte que carrega alguma esperança concreta. O relatório descreve uma trajetória chamada de “excesso, pico e declínio”, ou seja, a ideia de que é possível ultrapassar 1,5°C, atingir um pico de temperatura o mais baixo e o mais curto possível, e depois trazer o termômetro do planeta de volta para baixo desse limite até o fim do século.

Essa trajetória depende de três frentes que já estão em curso em diferentes partes do mundo:

Corte acelerado de emissões. Reduzir com urgência as emissões de gases de efeito estufa, incluindo o metano, continua sendo a base de tudo. Isso passa pela expansão da energia solar e eólica, pela eletrificação do transporte, pela eficiência energética em prédios e indústrias e pela transição das matrizes energéticas de países que ainda dependem fortemente de combustíveis fósseis. E, reforçando a ideia central, é urgente a efetiva redução do uso de combustíveis fósseis, como previsto no Acordo de Paris.

Remoção de carbono como complemento, não como desculpa. Tecnologias e práticas de remoção de dióxido de carbono, como reflorestamento em larga escala, recuperação de solos degradados e captura direta de carbono do ar, vão ser necessárias para tirar o excesso de CO2 já lançado na atmosfera. O relatório é claro ao afirmar que essas soluções só funcionam se vierem somadas a cortes reais de emissão, nunca no lugar deles.

Adaptação inteligente e permanente. Cidades costeiras, pequenas nações insulares e comunidades vulneráveis já precisam se preparar para impactos que não serão mais evitados. Isso inclui desde infraestrutura capaz de suportar eventos extremos até sistemas de alerta antecipado e realocação planejada da população em áreas de risco.

Soluções que já estão em movimento

O aquecimento global deve ultrapassar nos próximos anos o limite de 1,5°C acima dos níveis registrados na era pré-industrial, segundo relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Apesar da projeção, o documento aponta que ainda é possível reduzir as temperaturas posteriormente e manter os objetivos estabelecidos pelo Acordo de Paris.

Talvez a parte mais animadora da conversa sobre clima hoje seja perceber que boa parte da tecnologia e do conhecimento necessário já existe, e está sendo aplicada em escala crescente. Alguns exemplos ajudam a tornar isso mais palpável.

O resfriamento passivo em construções, por meio de telhados reflexivos, ventilação natural e arquitetura bioclimática, reduz o consumo de energia e ao mesmo tempo protege populações do calor extremo, unindo mitigação e adaptação em uma única solução.

A restauração de manguezais e recifes de coral funciona como barreira natural contra tempestades e elevação do nível do mar, ao mesmo tempo em que armazena carbono e protege a biodiversidade marinha.

A agricultura regenerativa, que recupera a saúde do solo e reduz o uso de insumos químicos, ajuda a proteger a segurança alimentar justamente no cenário em que ela está mais ameaçada.

Nada disso resolve o problema sozinho. Mas cada uma dessas frentes, multiplicada por milhares de cidades, empresas e comunidades ao redor do mundo, começa a formar um caminho real de saída.

Justiça climática não é detalhe, é condição

Um dos pontos mais fortes do relatório é lembrar que essa transição só vai funcionar se for justa. Os países que mais contribuíram historicamente para o aquecimento global têm a responsabilidade de agir com mais força e mais rapidez.

Ao mesmo tempo, as nações e comunidades mais afetadas, muitas vezes as que menos contribuíram para o problema, precisam ter voz ativa nas decisões que vão definir o futuro do planeta.

Isso inclui financiamento climático acessível para países em desenvolvimento, transferência de tecnologia e mecanismos concretos para lidar com perdas e danos que já são irreversíveis em algumas regiões, como pequenas nações insulares que enfrentam risco real de desaparecimento territorial.
O que ainda depende de nós

Ultrapassar 1,5°C não é o fim de uma meta, é o início de outra fase dela. O relatório do PNUMA deixa claro que quanto menor for o pico de aquecimento e quanto mais curto for o período acima do limite, menores serão os danos, e maiores as chances de reverter o quadro ao longo das próximas décadas.

Isso depende de vontade política, de investimento em soluções que já conhecemos e de uma cooperação internacional que coloque a urgência climática acima de interesses de curto prazo. Depende também de escolhas cotidianas, de pressão social, de cobrança sobre governos e empresas.

A ciência já entregou os diagnósticos possíveis. O que vem a seguir é decisão humana, coletiva e urgente. (ecodebate)

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Diretrizes e riscos climáticos associados ao limite de 1,5°C

Diretrizes e riscos climáticos associados ao limite de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.
O limite de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais é a meta de segurança do Acordo de Paris para evitar os piores impactos das mudanças climáticas.

Riscos Climáticos

• Eventos extremos: Aumento drástico na frequência e intensidade de ondas de calor, secas severas, tempestades e inundações.

• Pontos de inflexão: Risco de mudanças irreversíveis, como a desestabilização de mantos de gelo e a degradação da Floresta Amazônica.

• Impactos socioeconômicos: Prejuízos severos à segurança alimentar, à produção agrícola e deslocamento de comunidades vulneráveis.

Diretrizes de Ação

• Corte de emissões: Redução urgente e profunda de gases de efeito estufa, com transição energética para fontes renováveis e fim dos combustíveis fósseis.

• Mitigação e adaptação: Integrar ações de redução de carbono com estratégias de resiliência e manejo de água em áreas afetadas.

• Governança global: Fortalecer a cooperação internacional, a justiça climática e o apoio a países e populações vulneráveis.

O relatório do PNUMA, intitulado “Limiting Overshoot – Navigating exceedance of 1.5°C and pathways towards return”, examina as implicações de entrar em uma era de ultrapassagem do limite de 1,5°C e as opções que ainda estão disponíveis.

Conheça a síntese do relatório e as propostas apresentadas:

À medida que o aumento da temperatura global se prepara para ultrapassar 1,5°C acima dos níveis pré-industriais nos próximos anos, os riscos e impactos climáticos atingirão patamares perigosos e inéditos. O mundo deve se esforçar para minimizar as temperaturas de pico, retornar a 1,5°C ou menos o mais rápido possível e reduzir a vulnerabilidade das sociedades, comunidades e economias aos impactos que não podem ser evitados.

1. Consequências de ultrapassar o limite de 1,5°C

Apesar de algum progresso no enfrentamento das mudanças climáticas, o aumento da temperatura global está prestes a ultrapassar 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, provavelmente nos próximos anos. Não há resultados favoráveis em permanecer acima de 1,5°C.

Os riscos e impactos acima de 1,5°C se intensificam com cada fração de grau. Eles podem crescer com o tempo ou surgir repentinamente, incluindo:

Clima extremo e submersão costeira: Clima extremo intensificado, perda de ecossistemas e submersão de Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS) e cidades costeiras de baixa altitude. Para um aquecimento de até menos de 3°C, os glaciares podem perder mais de um quarto de sua massa até 2100, elevando o nível do mar em 12,5 cm, enquanto ecossistemas danificados ou fragmentados podem acelerar as mudanças climáticas.

Danos à saúde e à segurança alimentar: Danos graves à saúde humana, segurança alimentar, abastecimento de água, natureza, cidades, infraestrutura e economias. Por exemplo, a produção global de alimentos pode diminuir em até 14% até 2050 na ausência de uma adaptação eficaz.

Ultrapassagem de limiares irreversíveis: Ultrapassagem de limiares (pontos de não retorno) que se tornam difíceis ou impossíveis de reverter em escalas de tempo humanas. Os pontos de inflexão potenciais incluem mudanças irreversíveis nas calotas polares, na Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC) e na floresta amazônica.

2. A trajetória de “excesso, pico e declínio” (overshoot, peak and decline)

Seguir uma trajetória de “excesso, pico e declínio” (overshoot, peak and decline) é a melhor opção restante para trazer as temperaturas de volta a 1,5°C ou menos até o final do século — o que continua sendo a meta — e para se adaptar aos impactos inevitáveis.

Essa trajetória segue três fases que podem coexistir no tempo e no espaço geográfico: resposta imediata, enfrentamento e contenção, e resiliência a longo prazo.

Minimização do pico de aquecimento: Essas fases visam minimizar o aumento da temperatura de pico por meio de cortes rápidos e sustentados nas emissões de gases de efeito estufa, incluindo o metano, no caminho rumo às emissões líquidas zero (net-zero) — um marco essencial que não pode ser ignorado — e trazê-las para abaixo de 1,5°C até o final do século por meio de emissões líquidas negativas a longo prazo.

Remoção complementar de carbono: Atingir emissões líquidas negativas exigirá a Remoção de Dióxido de Carbono (CDR) além de reduções rápidas de emissões, e não como um substituto para o fracasso na redução das emissões.

Redução de vulnerabilidades: Ao mesmo tempo, as fases preveem ações evolutivas e crescentes para reduzir a vulnerabilidade aos impactos atuais, esperados ou inesperados das mudanças climáticas — incluindo adaptações permanentes onde os limites irreversíveis já foram atingidos.

Coexistência e efeitos dinâmicos: Na prática, múltiplas fases coexistirão ao longo do tempo e entre diferentes regiões (e dentro delas). Espera-se que os impactos se acumulem dinamicamente ao longo da trajetória de excesso, pico e declínio, com cada fase herdando o legado das que a precederam.

3. A urgência de uma ação rápida, coletiva e global

Ação rápida, coletiva e global é vital: um aquecimento de pico menor e uma duração mais curta de superação do limite reduzirão os riscos e impactos, tornarão os esforços para ajudar as comunidades a lidar com a situação menos difíceis e onerosos, e aumentarão as chances de trazer as temperaturas de volta para baixo.

Mitigação de pontos de inflexão: Os riscos de pontos de inflexão aumentam com cada fração de aquecimento; reduzir o aquecimento de pico por meio de ações precoces e do avanço rumo ao net-zero continua sendo uma das formas mais eficazes de mitigar esses riscos.

Condições facilitadoras essenciais: Forte vontade política e multilateralismo, políticas eficazes, governança inclusiva e financiamento são condições essenciais para a ação. A rapidez e a força com que essa ação ocorrerá definirão a trajetória desse caminho.

Geração de co-benefícios: As intervenções climáticas também geram co-benefícios significativos, como melhoria da qualidade do ar, melhor saúde pública, menores custos de energia, acesso seguro à eletricidade, maior equidade e menor pressão sobre os sistemas energéticos.

4. Centralidade da equidade e justiça nas estratégias

A equidade e a justiça devem constituir o cerne das estratégias para proteger os vulneráveis, criar uma transição justa e garantir um futuro habitável para as próximas gerações.

Responsabilidade histórica diferenciada: Os países com maior responsabilidade histórica pelas mudanças climáticas devem agir de forma mais firme e rápida. Os países desproporcionalmente afetados pelas mudanças climáticas devem ser parte integrante das decisões e ações globais. Esta geração precisa agir, não apenas a próxima.

5. Interconexão e reforço mútuo entre mitigação e adaptação

A mitigação e a adaptação estão interconectadas e se reforçam mutuamente. Elas devem avançar juntas, ao mesmo tempo em que respondem aos riscos emergentes.

Priorização de sinergias: Intervenções que alcancem metas tanto de mitigação quanto de adaptação — como o resfriamento passivo — devem ser priorizadas.

Risco de vulnerabilidade cruzada: Uma mitigação fraca aumentará os impactos e poderá desviar recursos para respostas de emergência, enquanto os esforços de mitigação que não forem adaptados de forma robusta estarão severamente vulneráveis.

Adaptação transformacional: A adaptação estabelecida agora forma a base para os esforços futuros, mas deve se tornar transformacional e altamente responsiva a riscos em evolução, não lineares e de surgimento abrupto.

6. Remoção de dióxido de carbono (cdr): Necessária, mas com limites e riscos

A Remoção de Dióxido de Carbono (CDR) — o processo de remover o carbono do ar e armazená-lo por meio de reflorestamento ou outros métodos — será necessária de forma complementar, e não como substituta, às reduções contínuas nas emissões de gases de efeito estufa; contudo, esses métodos trazem riscos e compensações (trade-offs) que limitam seu potencial e exigem uma governança cuidadosa.

Contribuição crível limitada: A CDR só pode contribuir de forma crível para o retorno a menos de 1,5°C se o aquecimento de pico permanecer bem abaixo de 2°C e todas as emissões restantes forem reduzidas de forma drástica. Mesmo uma expansão extremamente otimista da CDR dificilmente reduzirá as temperaturas em mais de alguns décimos de grau neste século.

Governança rigorosa e salvaguardas: Estruturas robustas de governança sobre a CDR são extremamente necessárias para gerenciar as implicações para a equidade, escala e adoção — e para fornecer salvaguardas rigorosas à exploração de tecnologias novas e incertas que possam acarretar consequências negativas colaterais e imprevistas.

7. Incerteza do retorno e perdas irreversíveis

O retorno a 1,5°C ou menos é incerto. Mesmo que o retorno a menos de 1,5°C seja garantido, muitas nações e comunidades enfrentarão perdas irreversíveis e condições permanentemente alteradas.

Isso levanta questões cruciais de justiça, poder e legitimidade política, o que exigirá novos arranjos de governança verdadeiramente inclusivos.

Deslocamentos e reajuste social: Como resultado de mudanças climáticas permanentes, muitas comunidades podem ter se deslocado ou alterado permanentemente seus meios de subsistência, enquanto as sociedades enfrentarão o imenso desafio do reajuste social.

Evolução e demandas da governança global: Os arranjos de governança terão de evoluir substancialmente para resolver questões difíceis e sensíveis, tais como decidir o que será reconstruído, como os meios de subsistência serão reconfigurados, como perdas e danos históricos serão formalmente tratados, e como a soberania e os direitos de Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS) e de seus povos serão respeitados, mesmo diante do risco de desaparecimento iminente de seus territórios físicos. (ecodebate)

sábado, 19 de setembro de 2026

Mudanças climáticas expõem no Brasil 9 milhões de crianças

Mudanças climáticas já expõem 9 milhões de crianças no Brasil a um mês a mais de calor perigoso.
Estudo revela que 32% das crianças de até 9 anos no país vivem estresse térmico extremo; em cenário de aquecimento global de 2°C, esse número pode chegar a 49%.

Pesquisa da Vrije Universiteit Brussel (VUB) publicada na revista Science Advances mostra que o calor extremo, impulsionado pela queima de combustíveis fósseis, já multiplicou por dez a exposição prolongada de crianças brasileiras ao estresse térmico. Especialistas alertam para a urgência de adaptação climática nas cidades.

Estudo publicado na revista Science Advances aponta que 32% das crianças de até 9 anos no país enfrentam ao menos 30 dias adicionais de estresse térmico; em cenário de 2°C de aquecimento, proporção pode chegar a 49%.

Uma nova pesquisa da Vrije Universiteit Brussel (VUB) mostra que, globalmente, até 560 milhões de crianças de 0 a 9 anos — 43% das crianças dessa faixa etária — vivem pelo menos 30 dias adicionais de estresse térmico por ano devido às mudanças climáticas. A exposição supera a de qualquer outra faixa etária e é quase três vezes maior, em números absolutos, do que a registrada entre pessoas de 60 a 69 anos: 190 milhões, ou 30% dessa população, enfrentam essa ameaça adicional à saúde.

No Brasil, as mudanças climáticas causadas pela ação humana já expõem 9,2 milhões de crianças de 0 a 9 anos — 32% dessa população no país — a pelo menos um mês adicional de estresse térmico por ano. O impacto é ainda mais expressivo quando se considera a exposição prolongada ao calor: as mudanças climáticas multiplicaram por dez o número de crianças brasileiras dessa faixa etária expostas a pelo menos 5 meses de estresse térmico perigoso por ano, de 300 mil para 3,2 milhões, o equivalente a 11% dessa população.

“São os nossos filhos que serão mais atingidos pela crise climática. Como pais e mães que querem deixar como legado um mundo ainda com qualidade de vida para os nossos filhos, precisamos lutar pela adaptação climática nas cidades”, afirma o pediatra e sanitarista Daniel Becker. “Isso significa pressionar para que as cidades sejam muito mais arborizadas, que ofereçam sombra, inclusive nas áreas mais pobres e periféricas, com bons espaços para as crianças brincarem. São os mesmos investimentos que trazem qualidade de vida e adaptação climática, com soluções baseadas na natureza”.

O estudo é a primeira análise a quantificar como a exposição ao calor diretamente relacionada às mudanças climáticas afeta diferentes grupos etários globalmente, tanto no presente quanto em um futuro próximo. Os dados fazem parte da pesquisa publicada nesta semana na revista científica Science Advances.

“Nossos resultados indicam que, atualmente, quase um terço de todas as crianças brasileiras com menos de 10 anos está exposto a um mês adicional de estresse térmico por ano e que, se o aquecimento global chegar a 2°C, essa proporção aumentará para quase metade das crianças menores de 10 anos no Brasil”, destacou Rosa Pietroiusti, uma das autoras do estudo. “Os países precisam investir urgentemente em mitigação e adaptação, reduzir as emissões provenientes de fontes fósseis de energia, conter o aquecimento global e proteger os grupos mais vulneráveis das consequências do calor perigoso”.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores combinaram dados populacionais com modelos climáticos de ponta e métodos da ciência de atribuição, que permitem identificar o papel das mudanças climáticas em eventos climáticos extremos. Os dados mostram que os riscos das mudanças climáticas para a saúde já estão presentes e são distribuídos de forma desigual entre gerações e regiões do planeta.
 
Impactos na saúde

Segundo a pesquisa, o calor excessivo interfere no funcionamento normal do corpo humano, agrava doenças preexistentes e pode levar a complicações graves, como insolação, desidratação e falência de órgãos. As ondas de calor perigosas estão se tornando mais frequentes e intensas devido às mudanças climáticas, impulsionadas principalmente pela queima de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás.

O estudo concentra-se no calor úmido, mais perigoso do que o calor seco porque dificulta a evaporação do suor e, consequentemente, a capacidade do corpo de se resfriar, levando a níveis perigosos de estresse térmico.

As crianças são especialmente vulneráveis ao calor extremo porque seus corpos aquecem mais rapidamente do que os dos adultos, transpiram com menos eficiência e dependem dos cuidados de outras pessoas para se proteger. O superaquecimento pode causar riscos graves à saúde, incluindo desidratação e insolação, além de impactos na aprendizagem e no desenvolvimento cognitivo.

As descobertas chegam em um momento crítico para as políticas climáticas. A crise energética em curso evidenciou ainda mais os riscos da dependência de combustíveis fósseis, e 2026 já registrou algumas das ondas de calor mais severas já observadas, algumas delas virtualmente impossíveis sem a influência das mudanças climáticas.

Exposição das crianças brasileiras

No Brasil, quase metade das crianças pode enfrentar pelo menos um mês adicional de calor em um mundo 2°C mais quente. O estudo também projeta a exposição das crianças brasileiras em cenários de 1,5°C e 2°C de aquecimento global.

Em um mundo 1,5°C mais quente

9,5 milhões de crianças brasileiras de 0 a 9 anos, ou 38% dessa faixa etária, estarão expostas a pelo menos um mês adicional de estresse térmico por ano;

2,9 milhões de crianças, ou 11%, vivenciarão pelo menos cinco meses — 150 dias — de estresse térmico total por ano.

Em um mundo 2°C mais quente

8,7 milhões de crianças brasileiras de 0 a 9 anos, ou 49% dessa faixa etária, estarão expostas a pelo menos um mês adicional de estresse térmico por ano;

2,5 milhões de crianças, ou 14%, vivenciarão pelo menos cinco meses — 150 dias — de estresse térmico total por ano.

Embora o número absoluto de crianças seja menor no cenário de 2°C, a proporção exposta aumenta de 38% para 49%. Isso ocorre porque as projeções consideram não apenas as mudanças no clima, mas também mudanças demográficas: a população infantil projetada é menor nesse cenário. A exposição atual, por sua vez, é estimada com base em dados populacionais de 2023.

Principais conclusões do estudo:

● Impactos atuais:

As mudanças climáticas quase triplicaram o número de crianças expostas a pelo menos cinco meses (150 dias) de estresse térmico total globalmente: de 120 milhões — 9% das crianças atualmente — em um mundo sem mudanças climáticas para 350 milhões, ou 27%, hoje. Esse número é quase três vezes maior do que o de adultos de 60 a 69 anos expostos a pelo menos cinco meses de estresse térmico total: 120 milhões, ou 18% dessa população.

● Disparidade geográfica:

Os maiores aumentos de calor úmido devido às mudanças climáticas estão ocorrendo em regiões tropicais e países mais pobres, onde as populações são mais jovens e, portanto, mais crianças são afetadas. Sul da Ásia, Sudeste Asiático e África Ocidental são as regiões com o maior número de crianças expostas ao estresse térmico perigoso atualmente.

● Cenários futuros:

As crianças continuarão desproporcionalmente expostas em comparação com todos os outros grupos etários, independentemente do envelhecimento da população global:

Em um mundo com +1,5°C: estima-se que 620 milhões de crianças de 0 a 9 anos (49%) vivenciem pelo menos um mês adicional de estresse térmico por ano, e 390 milhões (31%), pelo menos cinco meses de estresse térmico total.

Em um mundo com +2°C: estima-se que 650 milhões de crianças de 0 a 9 anos (59%) vivenciem pelo menos um mês adicional de estresse térmico por ano, e 420 milhões (37%), pelo menos cinco meses de estresse térmico total.


Sem adaptação urbana, calor extremo pode afetar vida de metade das crianças no país, aponta estudo

Estudo internacional revela que a queima de combustíveis fósseis multiplicou por dez a exposição prolongada ao estresse térmico entre menores de 9 anos no país.

Notas:

Como o estudo define estresse térmico

Os dias de estresse térmico são definidos como aqueles em que o índice WBGT (Wet Bulb Globe Temperature, ou temperatura de globo e bulbo úmido) à sombra supera 28°C. Nessas condições, medidas de proteção, como redução da atividade física ou períodos estruturados de descanso, são recomendadas para prevenir doenças relacionadas ao calor.

O que são “dias adicionais” de estresse térmico

Os dias adicionais correspondem ao número de dias de estresse térmico atribuíveis às mudanças climáticas causadas pela ação humana, ou seja, dias que não ocorreriam na ausência das mudanças climáticas antropogênicas.

Essa estimativa é feita utilizando métodos de atribuição aplicados a dados de reanálise baseados em observações ou a dados de modelos climáticos globais.

Criança brinca em águas rasas sob um céu azul. Certos patógenos aquáticos estão se tornando mais comuns com o aquecimento global.

Dados populacionais e projeções

A exposição atual da população ao estresse térmico é estimada utilizando dados populacionais de 2023.

As projeções para um mundo com 1,5°C e 2°C de aquecimento global consideram tanto as mudanças climáticas estimadas pelos modelos climáticos globais quanto mudanças demográficas sob um cenário intermediário de desenvolvimento socioeconômico.

Instituições participantes

O estudo foi conduzido por uma equipe internacional de pesquisadores liderada pelo Departamento de Água e Clima da Vrije Universiteit Brussel (VUB), em colaboração com pesquisadores da ETH Zurique, Universidade de Oxford, Universidade de Waikato e Instituto Potsdam para Pesquisa de Impactos Climáticos.

Outros estudos e relatórios

Os resultados deste estudo também contribuíram para um relatório recente do UNICEF, que mostrou que 550 milhões de crianças em todo o mundo estão expostas ao calor extremo atribuível às mudanças climáticas causadas pela ação humana.

O estudo acrescenta novas evidências aos impactos já documentados das mudanças climáticas sobre a saúde humana. O Lancet Countdown 2025 sobre Saúde e Mudanças Climáticas destaca danos à saúde em todo o mundo associados ao calor extremo, eventos climáticos extremos, secas e doenças infecciosas cada vez mais disseminadas, além da pressão crescente sobre os sistemas de saúde.

Os autores da VUB também contribuíram para um relatório recente da Save the Children, segundo o qual cerca de 100 milhões das 120 milhões de crianças nascidas em 2020 enfrentarão uma exposição sem precedentes a ondas de calor.

El Niño faz aumentar o aquecimento global, gerando mudanças climáticas cada vez muito mais catastróficas. (ecodebate)

Super El Niño não para de ganhar força

Super El Niño não para de ganhar força e tem data atualizada para atingir pico máximo. O Super El Niño de 2026 deve atingir seu pico máximo ...