Meio Ambiente
O entendimento vem de acordo com o nível cultural e intelectual de cada pessoa. A aprendizagem, o conhecimento e a sabedoria surgem da necessidade, da vontade e da perseverança de agregar novos valores aos antigos já existentes.
segunda-feira, 13 de abril de 2026
sábado, 11 de abril de 2026
Porto Alegre (RS): a capital mais envelhecida do Brasil
Principais destaques do
envelhecimento em Porto Alegre:
Proporção de Idosos: A
capital gaúcha possui aproximadamente 320 mil idosos em uma população de cerca
de 1,3 milhão de habitantes, conforme a Prefeitura de Porto Alegre.
Contexto Estadual: O Rio
Grande do Sul é o estado proporcionalmente mais envelhecido do país. Dados do
Censo 2022 indicam que, no estado, existem 115 idosos (60+ anos) para cada 100
crianças (0-14 anos), diz a Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do
RS.
Ranking das Cidades: Porto
Alegre figura entre as cidades com maior índice de envelhecimento no Brasil,
frequentemente citada ao lado de municípios paulistas e fluminenses, segundo o
Valor Econômico.
Desafios: A alta taxa de
envelhecimento impõe desafios ao planejamento urbano e serviços de saúde da
cidade, que busca se adaptar a essa realidade demográfica.
A longevidade da população em Porto Alegre reflete melhores índices de saúde e qualidade de vida, mas também demanda políticas públicas focadas no atendimento à pessoa idosa.
Conheça a capital sulista que encanta por sua qualidade de vida e alma europeia!!!
Porto Alegre pode transformar
o envelhecimento populacional em um vetor de desenvolvimento sustentável,
inclusão social e inovação institucional
Porto Alegre foi fundada em
26/03/1772 e completa 254 anos em 2026, sendo a capital mais meridional e mais
envelhecida do país. A maior cidade do Rio Grande do Sul tem uma área de cerca
de 500 km2 e uma densidade demográfica de 2.691 habitantes por km2.
A população de Porto Alegre
era de 44 mil habitantes em 1872 (primeiro censo demográfico brasileiro), maior
do que a população de São Paulo (31 mil habitantes). Belo Horizonte nem existia
nesta época. A população da capital gaúcha subiu para 73,7 mil habitantes em
1900, deu um salto para 394 mil em 1950, atingiu 1,36 milhão de habitantes no
ano 2000 e alcançou o pico de 1,41 milhão de habitantes em 2010, conforme
mostra o gráfico abaixo.
Para 2022, o censo indicou 1,33 milhão de habitantes em Porto Alegre, a primeira redução da história. Mas o censo demográfico 2022 teve uma falha de cobertura e a estimativa populacional do próprio IBGE apontou uma população de 1,39 milhão de habitantes em 2024. Nos últimos 30 anos, Porto Alegre perdeu o posto de cidade mais populosa da região Sul para Curitiba.
A redução do ritmo de crescimento populacional nos anos 2000 foi acompanhado de um envelhecimento da estrutura etária. O gráfico abaixo mostra o Índice de Envelhecimento (IE) para o Brasil, o estado do Rio Grande do Sul a cidade de Porto Alegre entre 1970 e 2022. Todas as áreas geográficas tinham uma estrutura etária jovem em 1970, mas o IE aumentou acentuadamente. Em 2022, o IE chegou a 80 idosos de 60 anos e + para cada 100 jovens (0-14 anos) no Brasil. Ficou em 115 no território gaúcho e chegou a 137 idosos por 100 jovens em Porto Alegre. Ou seja, o estado do Rio Grande do Sul e a capital gaúcha já possuem mais idosos do que jovens (0-14 anos).
O gráfico abaixo mostra a pirâmide etária brasileira (colunas cinzas no fundo) e a pirâmide etária da cidade de Porto Alegre (parte colorida e sobreposta), em 2022. Nota-se que abaixo dos 50 anos existe maior proporção de jovens no Brasil, enquanto acima de 50 anos há maior proporção de idosos em Porto Alegre.
O gráfico abaixo mostra que o percentual da população de 0-14 anos de Porto Alegre já vem diminuindo desde 1970, caindo para cerca da metade e chegando a 16% em 2022. O grupo 50+ ultrapassou os jovens de 0-14 anos no início dos anos 2000. No último censo, o percentual de idosos 60+ ultrapassou o percentual de crianças e adolescentes. A população de 15-59 anos subiu de 62,2% em 1970 para 66,2% em 2010 e caiu para 62% em 2022. Portanto, a população considerada em idade ativa já vem diminuindo, enquanto a população idosa (60+) chegou a 21,9%, a população 50+ chegou a 34,3% e a população 70+ chegou a 10,5% em 2022. Sem dúvida, Porto Alegre já pode ser considerada uma cidade envelhecida.
A tabela abaixo, com dados do Ministério da Saúde, mostra o número de nascimentos, óbitos e o crescimento vegetativo em Porto Alegre de 2015 a 2024. Nota-se que o número de nascimentos vem caindo em todo o período e o número de óbitos cresceu muito durante a pandemia da covid-19, caiu em 2022 e 2023 e voltou a subir em 2024. O crescimento vegetativo caiu significativamente no período e a perspectiva é que a capital gaúcha mantenha decrescimento populacional nos próximos anos e décadas.
Portanto, a cidade Porto Alegre já possui mais idosos (60+) do que jovens (0-14 anos), a proporção da população considerada em idade ativa (15-59 anos) já está diminuindo e a capital gaúcha apresenta decrescimento populacional e diminuirá de tamanho ao longo do atual século. Essa configuração demográfica traz desvantagens, mas também vantagens.
Os desafios e oportunidades do envelhecimento
populacional de Porto Alegre
O aumento da expectativa de vida ao nascer é uma
vitória extraordinária sobre as altas taxas de mortalidade precoce. A queda nas
taxas de fecundidade representa a maior mudança de comportamento de massa na
história da humanidade. Desta forma, o envelhecimento populacional pode ser
considerado uma conquista civilizatória. Mas há desafios e oportunidades.
O principal desafio do envelhecimento populacional
é o fim do 1º bônus demográfico, pois o número e a proporção de pessoas de 15 a
59 anos já está diminuindo na capital pernambucana e este fato pode se
desdobrar em uma crise fiscal se o país e as cidades continuarem a pensar a
relação entre as gerações de maneira fixa. O antigo roteiro de vida com jovens
estudando, adultos trabalhando e idosos aposentados perde força diante de uma
população que vive mais e deseja continuar ativa, produtiva, colaborativa e
integrada.
Indubitavelmente, há novas oportunidades de
progresso. O 2º bônus demográfico – ou bônus da produtividade – é um evento
capaz de gerar frutos indefinidamente se houver investimentos na educação, na
saúde, na infraestrutura que possibilite aos trabalhadores produzirem mais bens
e serviços com menos insumos humanos e ambientais. O 3º bônus demográfico – ou
bônus da longevidade – que se refere ao potencial econômico, social e
institucional que emerge quando uma sociedade passa a ter maior proporção de
pessoas idosas, sobretudo em contextos de maior expectativa de vida saudável.
1. Ambiente urbano e mobilidade – adaptar o espaço
público para todas as idades, com calçadas acessíveis, transporte coletivo
confortável e seguro, iluminação adequada, sinalização clara e desenho urbano
que estimule caminhadas, convivência e uso dos bairros ao longo de todo o ciclo
de vida. Cidades amigáveis aos idosos são, em geral, cidades melhores para
todos.
2. Habitação e território – promover políticas
habitacionais que incentivem moradias adaptadas, o retrofit do estoque
imobiliário existente, a convivência intergeracional e a permanência do idoso
em seu território de referência, evitando deslocamentos forçados e isolamento
social.
3. Saúde, cuidado e prevenção – fortalecer a
atenção primária, as ações de promoção da saúde e prevenção de doenças
crônicas, além de estruturar uma rede integrada de cuidados de longa duração,
combinando serviços públicos, privados, comunitários e familiares, com apoio a
cuidadores formais e informais.
4. Trabalho, renda e aprendizagem ao longo da vida
– combater o etarismo no mercado de trabalho, estimular o envelhecimento ativo,
o reingresso ou a permanência voluntária de pessoas idosas em atividades
produtivas, o empreendedorismo maduro e a educação continuada, reconhecendo a
experiência como ativo econômico e social.
5. Participação social, cultura e cidadania –
ampliar os espaços de participação política, cultural e comunitária das pessoas
idosas, valorizando o voluntariado, a transmissão de saberes, a memória urbana
e o engajamento cívico como elementos centrais da coesão social.
O objetivo é consolidar um novo pacto
intergeracional, no qual viver mais signifique, fundamentalmente, viver melhor
— com autonomia, dignidade e participação plena na vida urbana. Uma cidade de
254 anos não deve temer a longevidade, mas sim abraçar a maturidade sem medo de
ser feliz. (ecodebate)
quinta-feira, 9 de abril de 2026
O envelhecimento da população e o despreparo das cidades
Principais Desafios do
Despreparo Urbano:
Mobilidade e Segurança: Vias
públicas com calçadas esburacadas e iluminação insuficiente aumentam o risco de
quedas, vistas não como acidentes, mas como falhas estruturais.
Inacessibilidade: Dificuldade
de acesso a edifícios, parques e transporte, limitando a autonomia e promovendo
o confinamento doméstico.
Desigualdade Espacial: As
periferias sofrem com menor infraestrutura e serviços, gerando disparidades
extremas na qualidade de vida e longevidade.
Invisibilidade Social: O
planejamento atual raramente reconhece o envelhecimento como questão central,
resultando em solidão e dependência.
Necessidades para Cidades
Amigas do Idoso:
Adaptação do Espaço: Adoção
de calçadas amplas, rampas, faixas de pedestres acessíveis e iluminação
reforçada.
Política Pública Inclusiva:
Incorporação de diretrizes nos Planos Diretores focadas na terceira idade, com exemplos
como as iniciativas da OMS.
Foco na Participação: Criação
de espaços de convivência e participação social para evitar o isolamento.
Gestão da Saúde: Ações de
saúde integradas ao ambiente urbano para promover envelhecimento ativo.
Reinaldo Dias
Articulista do EcoDebate, é
Doutor em Ciências Sociais – Unicamp; Especialista em Ciências Ambientais –
USF; Pesquisador associado do CPDI do IBRACHINA/IBRAWORK; http://lattes.cnpq.br/5937396816014363;
reinaldias@gmail.com
No Brasil, envelhecer ainda
significa, para muitas pessoas, conviver com desrespeito, preconceito,
invisibilidade e, em não poucos casos, violência. O etarismo, entendido como
discriminação contra pessoas idosas, continua presente em diferentes dimensões
da vida social. Ele aparece quando a palavra do idoso deixa de ser considerada
dentro da própria família, quando sua autonomia é reduzida, quando seus
direitos são tratados como incômodo e quando a violência física, patrimonial ou
psicológica passa a fazer parte de sua rotina. Em muitos casos, as agressões
ocorrem no ambiente familiar; em outros, surgem nas ruas, em roubos, ataques ou
situações de extrema brutalidade que revelam o grau de vulnerabilidade a que
essa parcela da população está exposta.
O envelhecimento da população
figura entre as transformações sociais mais importantes do século XXI, e no
Brasil esse processo já se impõe como realidade concreta. O número de pessoas
com 60 anos ou mais passou de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024,
enquanto o Censo 2022 registrou forte crescimento do contingente idoso e
expressiva elevação do índice de envelhecimento. Já a expectativa de vida ao
nascer, de acordo com as Tábuas Completas de Mortalidade do IBGE, alcançou 76,6
anos em 2024. Está em curso, portanto, uma mudança profunda na estrutura social
brasileira, com consequências diretas para a moradia, a mobilidade, os serviços
públicos, os vínculos comunitários e o próprio desenho das cidades.
As cidades brasileiras,
contudo, não acompanharam essa transformação com a mesma velocidade. Em grande
medida, continuam organizadas segundo uma lógica que privilegia produtividade,
rapidez, longos deslocamentos e elevada exigência física. O modelo urbano
dominante parece ainda voltado a um cidadão idealizado, autônomo, saudável,
permanentemente apto a suportar escadas, calçadas ruins, transporte precário e
serviços distantes. Nesse quadro, a velhice deixa de ser reconhecida como
dimensão central da vida urbana e passa a ser tratada como questão lateral,
quase sempre remetida à família, à assistência social ou aos serviços de saúde.
A dificuldade central não está no envelhecimento em si, mas na forma como ele expõe os limites de um urbanismo que não incorporou a velhice como parte constitutiva do planejamento. À medida que a população envelhece, tornam-se mais visíveis carências já existentes, sobretudo quando a idade passa a exigir mais segurança, mais proximidade, mais tempo e mais apoio no cotidiano. O despreparo das cidades, por isso, não se resume a atraso administrativo ou deficiência técnica. Ele revela prioridades históricas que deixaram em segundo plano a autonomia, o cuidado, a acessibilidade e a dignidade de quem envelhece.
Onde os velhos não têm dinheiro: brasileiro está vivendo mais e poupando menos
A nova realidade demográfica
e o atraso das cidades
O Brasil deixou para trás, em
ritmo acelerado, o perfil de um país majoritariamente jovem. A queda da
fecundidade, o aumento da longevidade e a ampliação do contingente idoso vêm
redefinindo significativamente a composição etária da população. O Censo 2022
mostrou que o número de pessoas com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em doze anos,
alcançando cerca de 22,2 milhões, o equivalente a 10,9% da população.
Considerando a faixa de 60 anos ou mais, o índice de envelhecimento chegou a 80
idosos para cada 100 crianças de 0 a 14 anos, quando em 2010 esse índice era de
44,8. Em estados como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, o número de idosos já
supera o de crianças.
As projeções oficiais indicam
que esse movimento seguirá se aprofundando nas próximas décadas. Entre 2000 e
2023, a participação das pessoas com 60 anos ou mais quase dobrou no país,
passando de 8,7% para 15,6%, e as estimativas apontam continuidade dessa
tendência. Em escala global, a OMS também situa o envelhecimento como uma das
marcas estruturantes do século, vinculando-o à urbanização e à necessidade de
reorganizar ambientes e serviços para responder a essa nova realidade. Não se
trata, portanto, de uma mudança marginal ou passageira, mas de um deslocamento
de época que afeta profundamente a organização da vida coletiva.
Seria razoável esperar que um
processo dessa magnitude já tivesse levado a uma revisão profunda das prioridades
urbanas. O que se vê, no entanto, é a permanência de cidades desenhadas sob
pressupostos de outra realidade demográfica. Persistem bairros dispersos, forte
dependência de automóvel, transporte coletivo desconfortável, concentração de
serviços em pontos distantes, calçadas inseguras, poucos espaços de descanso e
moradias pouco adaptáveis. Em vez de reorganizar o território à luz da nova
composição etária da população, o poder público responde de forma lenta,
fragmentada e frequentemente superficial.
A inadequação das cidades se
manifesta com nitidez na experiência cotidiana. Ela se faz sentir na calçada quebrada,
no degrau inesperado, no tempo de travessia insuficiente para quem caminha
devagar, no ponto de ônibus sem proteção, na ausência de bancos, na iluminação
insuficiente, na sinalização confusa e na distância excessiva entre os serviços
básicos. À medida que a cidade é organizada sem levar em conta a diversidade
das condições físicas, dos ritmos e das limitações funcionais, envelhecer passa
a significar enfrentar uma sequência de obstáculos que podem parecer banais à
primeira vista, mas que produzem desgaste real e contínuo
Os dados disponíveis mostram
que essa inadequação está longe de ser pontual. O Censo 2022 identificou que,
embora grande parte da população urbana more em vias com calçada, dois em cada
três brasileiros vivem em ruas sem rampa para cadeirantes, e a presença de
pontos de ônibus no trecho observado das vias também é reduzida. Esses números
são importantes porque deixam claro que a existência formal de calçada não
garante circulação segura. Buracos, desníveis, ausência de rampas, obstáculos e
falta de continuidade transformam o deslocamento em experiência de risco para
pessoas idosas e para todos aqueles que convivem com mobilidade reduzida.
O desenho dominante da cidade
continua a favorecer velocidade, fluxo e compressão do tempo. A condição física
implicitamente tomada como referência é a de quem corre, sobe escadas,
atravessa rápido, suporta lotação e percorre distâncias longas sem grandes
dificuldades. Quem depende de mais tempo, mais segurança e maior proximidade se
vê progressivamente deslocado para uma condição de uso restrito da cidade. Sair
de casa deixa de ser gesto banal e passa a exigir cálculo, energia e cautela,
de modo que a autonomia se reduz não por escolha, mas pela acumulação de
barreiras que tornam a vida urbana mais cansativa e mais insegura.
As dificuldades não se
encerram, porém, no espaço da rua. A moradia e a relação com o bairro também se
tornam decisivas na forma como a velhice é vivida. Para a população idosa, a
casa deixa de ser apenas abrigo e passa a concentrar uma experiência cotidiana
em que segurança, conforto e conexão com o entorno adquirem maior peso. Casas
com escadas difíceis, pisos escorregadios, banheiros inseguros, iluminação
insuficiente e barreiras internas transformam atividades simples em tarefas
arriscadas ou exaustivas. Quando o bairro também falha, com ausência de
comércio próximo, transporte inadequado, unidade de saúde distante e espaços
públicos pouco acolhedores, a vida cotidiana se torna ainda mais limitada.
Nessas condições, a moradia
deixa de funcionar como base de autonomia e passa a operar, muitas vezes, como
confinamento silencioso. A pessoa sai menos, encontra menos gente, depende mais
de familiares ou vizinhos e perde parte de sua participação na vida coletiva. A
restrição não atinge apenas o deslocamento físico. Ela afeta o pertencimento, a
sociabilidade e a própria experiência de habitar a cidade. O que se reduz não é
só a mobilidade, mas o mundo vivido.
A transformação dos arranjos
domiciliares no Brasil torna essa questão ainda mais sensível. O Censo 2022
mostrou que as unidades domésticas unipessoais triplicaram entre 2000 e 2022,
passando de 4,1 milhões para 13,6 milhões. Entre as mulheres que moram
sozinhas, a presença de idosas é particularmente expressiva. Isso significa que
uma parte importante da velhice brasileira depende de forma ainda mais intensa
da qualidade do bairro, das redes de vizinhança e da oferta pública de apoio.
Quando esses elementos são frágeis, a solidão e a retração dos vínculos deixam
de ser apenas condição subjetiva e passam a ser reforçadas pela própria
organização da cidade.
Durante muito tempo, o bairro
funcionou como extensão da moradia. Era o lugar do pequeno comércio, da ida à
farmácia, da praça, da conversa cotidiana, da convivência difusa e do reconhecimento
mútuo. Em muitas cidades, essa experiência foi se enfraquecendo em razão da
dispersão urbana, da insegurança, da desigualdade espacial e da perda de
vitalidade do espaço público. Para a velhice, as consequências são severas,
porque envelhecer no próprio território depende em grande medida de um entorno
caminhável, minimamente acolhedor e capaz de sustentar rotinas de proximidade.
A velhice urbana não pode ser
tratada como experiência homogênea, porque as cidades são profundamente
desiguais e o envelhecimento também o é. Envelhecer com renda estável, moradia
adequada, acesso a serviços próximos e possibilidade de recorrer a soluções
privadas é muito diferente de envelhecer em periferias mal servidas de
infraestrutura, transporte e equipamentos públicos. O envelhecimento
populacional precisa, por isso, ser compreendido à luz da desigualdade social e
territorial que estrutura a vida urbana brasileira.
Esse ponto se torna ainda
mais relevante porque o Brasil envelhece sendo um país amplamente urbanizado e
profundamente desigual. A maior parte da população vive em áreas urbanas, mas o
direito à cidade permanece distribuído de forma extremamente desigual. Em áreas
mais valorizadas, costuma haver melhor conservação do espaço urbano, maior
presença de serviços, maior segurança e trajetos mais confortáveis. Já em
bairros populares e periferias, onde a precariedade da infraestrutura é mais
intensa, uma rua mal iluminada, uma calçada ruim, a longa distância até o posto
de saúde ou um transporte coletivo desconfortável produzem restrições muito
maiores à autonomia cotidiana.
A situação se agrava quando
se consideram a vulnerabilidade habitacional e os contextos de informalidade
urbana. Milhões de brasileiros vivem em favelas e comunidades urbanas marcadas
por infraestrutura insuficiente, maior exposição a riscos ambientais, acesso
desigual a serviços e mobilidade difícil. Envelhecer nesses territórios tende a
ser mais penoso, porque o corpo envelhecido precisa negociar diariamente com
barreiras que já eram severas para a população em geral. A velhice, em tais
condições, não se soma simplesmente à desigualdade existente. Ela a aprofunda e
a torna mais visível.
A desigualdade de renda
também não pode ser dissociada desse quadro. Quem passou a vida em ocupações
precárias, com baixa remuneração, moradia inadequada e acesso limitado a
direitos chega à velhice carregando os efeitos acumulados desse percurso. A
velhice não começa subitamente aos 60 anos. Ela é moldada por condições
materiais e sociais que se sedimentam ao longo da existência. As fragilidades
associadas ao envelhecimento, portanto, não decorrem apenas da idade, mas da
combinação entre trajetória de vida e organização desigual do espaço urbano.
Cidades despreparadas, em vez de corrigirem essas desigualdades, frequentemente
as reforçam.
A dimensão de gênero também
pesa fortemente nesse processo. As mulheres vivem mais do que os homens no
Brasil, o que faz da velhice uma experiência marcadamente feminina. Mas essa
maior longevidade não significa maior proteção. Muitas mulheres chegam à
velhice após trajetórias marcadas por informalidade, rendimentos mais baixos,
trabalho doméstico não remunerado e forte sobrecarga de cuidado. A presença
expressiva de mulheres idosas vivendo sozinhas torna esse quadro ainda mais
sensível, sobretudo em territórios pobres, onde vulnerabilidade econômica,
solidão e menor proteção material tendem a se combinar de forma mais intensa.
O cuidado como questão urbana
e política
A compreensão do cuidado como
assunto quase exclusivamente doméstico, familiar ou sanitário é insuficiente
para enfrentar o envelhecimento urbano. O cuidado também se organiza na cidade,
nas distâncias entre moradia e serviços, na qualidade das calçadas, na
segurança das travessias, na oferta de transporte acessível, na existência de
bancos para descanso, na proximidade entre comércio, saúde e residência, na
presença de espaços públicos acolhedores e na possibilidade real de circular
sem medo.
Quando a cidade é hostil, o
cuidado se torna mais pesado, mais caro e mais desgastante. As famílias passam
a compensar aquilo que o espaço urbano não oferece, acompanhando deslocamentos,
contornando barreiras, reorganizando rotinas e assumindo tarefas de apoio
contínuo. Essa transferência silenciosa de responsabilidades não é neutra,
porque recai de forma desproporcional sobre mulheres, sobre famílias de menor
renda e sobre redes informais já sobrecarregadas. Em vez de enfrentar
estruturalmente o problema, o poder público frequentemente naturaliza a ideia
de que a velhice será sustentada por arranjos privados, como se o território e
a infraestrutura urbana fossem fatores secundários.
Uma abordagem mais
consistente exige reconhecer que autonomia e dignidade não dependem apenas da
condição física ou do apoio familiar, mas também do modo como a cidade reduz ou
multiplica barreiras. Uma pessoa idosa pode manter independência por mais tempo
quando vive em bairro com serviços próximos, transporte confiável, espaço
público acessível e moradia minimamente adaptável. Quando esses elementos
faltam, dependências que poderiam ser adiadas ou atenuadas se instalam mais
cedo. O problema, portanto, não está apenas em responder à fragilidade já
instalada, mas em organizar a cidade de modo a não ampliar vulnerabilidades que
poderiam ser evitadas.
As grandes cidades e o
envelhecimento: desafios para a qualidade de vida dos idosos em um Brasil
diverso.
Brasil, com sua urbanização
desigual, é um exemplo de como a experiência de envelhecer varia drasticamente
conforme o perfil socioeconômico e cultural.
Uma cidade preparada para
envelhecer
Uma cidade preparada para
envelhecer não é uma cidade desenhada apenas para idosos. Ela reconhece que a
vida urbana real é feita de ritmos diversos, capacidades distintas e
necessidades de apoio que atravessam todo o curso da vida. Essa compreensão foi
sendo consolidada internacionalmente pela própria Organização Mundial da Saúde,
que publicou, em 2007, o Guia Global das Cidades Amigas das Pessoas Idosas,
associando urbanização e envelhecimento populacional e sistematizando
princípios para tornar os ambientes urbanos mais adequados à longevidade. Em
2010, a OMS instituiu a Global Network for Age - friendly Cities and
Communities (Rede Global de Cidades e Comunidades Amigas da Pessoa Idosa),
criada para apoiar governos locais e comunidades na adaptação de seus
territórios ao envelhecimento.
A dimensão que essa rede
alcançou mostra que o tema já dispõe de um referencial internacional
consolidado. Segundo a OPAS, em página vinculada à Década do Envelhecimento
Saudável nas Américas, a rede reúne atualmente 1.500 cidades e comunidades
em 51 países, abrangendo mais de 300 milhões de pessoas. A adaptação das
cidades ao envelhecimento deixou, assim, de ser formulação marginal ou
retórica. Trata-se de uma agenda internacional em expansão, com capilaridade
territorial e crescente adesão institucional, o que torna ainda mais evidente o
contraste com a lentidão de muitas cidades brasileiras diante desse desafio.
Os materiais da OMS que
orientam essa agenda incluem entre suas dimensões centrais os espaços públicos
e edifícios, o transporte, a moradia, a participação social, o respeito e a
inclusão social, a participação cívica e o trabalho, a comunicação e informação
e o apoio comunitário e os serviços de saúde. O envelhecimento urbano não é
tratado, portanto, como questão restrita à assistência ou à medicina, mas como
problema que atravessa o desenho do espaço urbano, a organização dos serviços e
a qualidade dos vínculos sociais. Esse referencial reforça a necessidade de uma
reorganização mais ampla das prioridades urbanas.
Uma cidade preparada para
envelhecer precisa oferecer acessibilidade real, e não apenas formal, com
calçadas seguras, travessias adequadas, mobiliário urbano suficiente,
sinalização legível e edifícios públicos sem barreiras. Precisa também
sustentar relações de proximidade, de modo que bairros sejam capazes de
oferecer comércio, farmácia, unidade de saúde, áreas de convivência e serviços
essenciais a distâncias razoáveis. Moradias mais adaptáveis, espaços públicos
bem cuidados e políticas voltadas à redução do isolamento social também compõem
esse esforço. O repertório formulado pela OMS e pela OPAS mostra que não se
trata de uma lista arbitrária de boas intenções, mas de um conjunto de
diretrizes já testado e difundido internacionalmente.
A participação das pessoas
idosas também integra essa perspectiva. Uma cidade preparada para envelhecer
não as trata apenas como destinatárias de proteção. Ela as reconhece como
sujeitos de experiência, opinião e direito à presença, o que implica incluí-las
nas decisões sobre mobilidade, segurança, bairro, serviços e uso do espaço
público. O fortalecimento dos vínculos comunitários, da participação e do
pertencimento aparece de forma consistente nos marcos internacionais dessa
agenda, que associam envelhecimento saudável não apenas à redução de riscos,
mas à possibilidade de continuar participando da vida urbana em condições
dignas.
O envelhecimento da população
não representa, por si só, um problema. O problema está no fato de que as
cidades continuam, em larga medida, despreparadas para acolher essa nova
realidade. Ao privilegiar velocidade, produtividade e circulação intensa, o
urbanismo dominante deixa em segundo plano a autonomia, a convivência, a
proximidade e o cuidado. Desse modo, a velhice é frequentemente empurrada para
a invisibilidade, para o confinamento doméstico ou para formas evitáveis de
dependência.
As insuficiências urbanas não
aparecem apenas na ausência de adaptações pontuais. Elas se expressam na
desigualdade do espaço urbano, na precariedade das periferias, na perda da vida
de bairro, na sobrecarga das famílias e na dificuldade de reconhecer o
envelhecimento como questão central de planejamento. A maneira como uma cidade
trata sua população idosa diz muito sobre seu grau de justiça, inteligência
social e maturidade democrática.
Preparar a cidade para
envelhecer não significa responder a uma demanda lateral ou setorial. Significa
reconhecer que o direito à cidade só se realiza de forma plena quando alcança
também aqueles que precisam de mais tempo, mais apoio, mais segurança e mais
dignidade para viver. (ecodebate)
terça-feira, 7 de abril de 2026
Crise climática está acelerando
A
crise climática está acelerando rapidamente, com 2025 registrando recordes de
temperatura e concentração de CO2. Especialistas alertam que o
aquecimento global superou a meta de 1,5°C do Acordo de Paris, com riscos de
atingir 2°C ou mais até 2045, causando eventos extremos mais frequentes e
severos, derretimento acelerado de geleiras e desequilíbrio energético
oceânico.
Pontos-chave
da aceleração:
Emissões
e Gases: A concentração de CO2 atingiu 422,8 ppm em 2024, com um
salto recorde anual de 3,4 ppm, impulsionado por combustíveis fósseis.
Calor
Extremo: A última década (2015-2025) foi a mais quente já registrada, e 2025
atingiu 1,43°C acima dos níveis pré-industriais.
Oceanos
e Gelo: Mais de 90% do excesso de calor é absorvido pelos oceanos, resultando
em branqueamento de corais e elevação do nível do mar.
Impacto
no Brasil: Aumento da vulnerabilidade econômica, com riscos para agricultura e
geração hidrelétrica devido a mudanças no regime de chuvas e erosão costeira.
Consequências
Imediatas e Futuras:
Eventos
Extremos: Secas, enchentes, furacões e ondas de calor ocorrem com maior
intensidade.
Insegurança:
Milhões de pessoas enfrentam riscos de fome e deslocamento populacional.
Ação Urgente: A ONU reforça que a demora em reduzir emissões é fatal e os efeitos serão sentidos por séculos.
ONU alerta que a crise climática se acelera após redução nos confinamentos da pandemia
Recordes
de temperatura, oceanos superaquecidos, geleiras desaparecendo e enchentes ao
lado de secas. Os ‘termômetros’ não mentem e os números têm um recado urgente
para todos nós
Existe
uma cena fácil de lembrar. Em abril de 2024, Dubai, uma cidade construída no
deserto, onde a média anual de chuva não passa de 90 milímetros, afogou. Em
menos de 24 horas, caiu o equivalente a quase três anos de precipitação. Ruas
viram rios. O maior aeroporto do Oriente Médio parou.
No
mesmo ano, do outro lado do Atlântico, os rios da bacia amazônica registravam a
pior seca em 122 anos. Barcos encalhados, comunidades isoladas, peixes mortos
boiando em lagos que estavam evaporando.
Dois
extremos. O mesmo planeta. O mesmo problema.
Esses
episódios não são coincidências e tampouco são anomalias passageiras. Eles são
sintomas e os dados científicos de 2024 e 2025 deixaram isso mais claro do que
nunca.
Se
você ainda tem dúvidas sobre o que está acontecendo com o clima da Terra, este
texto pode ser útil. Vou tentar explicar sem catastrofismo paralisante, mas
também sem suavizar o que precisa ser dito.
O
‘cobertor’ que engrossou demais
Antes
de qualquer dado, um conceito básico que faz tudo se encaixar: o efeito estufa.
Certos
gases na atmosfera funcionam como um ‘cobertor’ ao redor da Terra. Deixam
entrar a energia do Sol, mas retêm parte do calor que seria irradiado de volta
para o espaço. Sem esse mecanismo, nosso planeta seria cerca de 30°C mais frio
e inabitável como o conhecemos. O efeito estufa, em si, é um presente da
natureza.
O
problema é o que estamos fazendo com esse cobertor desde a Revolução
Industrial: engrossando-o em uma velocidade sem precedentes na história
geológica do planeta.
Queima
de petróleo, carvão e gás. Desmatamento em larga escala. Criação industrial de
gado. Aterros sanitários. Cada uma dessas atividades despeja na atmosfera
quantidades crescentes de dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxido
nitroso (N₂O), os chamados gases de efeito estufa.
O
resultado aparece nos números com uma clareza que intimida. Antes da
industrialização, a concentração de CO₂ na atmosfera era de 278 partes por
milhão. Em 2024, chegou a 422,8 ppm, um aumento de 52% em menos de três
séculos. E o ritmo não está desacelerando: está acelerando. Na década de 1960,
essa concentração subia 0,6 ppm por ano. Entre 2011 e 2020, a média foi de 2,4
ppm. De 2023 para 2024, o salto foi de 3,4 ppm, o maior já registrado em toda a
série histórica.
2024,
o ano em que cruzamos a linha vermelha
O
Acordo de Paris, firmado em 2015, estabeleceu como meta crítica limitar o
aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Era o limite a
partir do qual os cientistas projetavam consequências difíceis de reverter.
Em
2024, esse limite foi ultrapassado pela primeira vez em um único ano. O
aquecimento registrado foi de 1,52°C, sendo 1,36°C diretamente atribuído às
atividades humanas.
Tecnicamente,
a meta do Acordo de Paris se refere a uma média de longo prazo, não a um ano
isolado. Então não, ainda não “falhamos” formalmente. Mas a analogia que me
parece mais honesta é a do painel do carro no vermelho: o motor não fundiu
ainda, mas está operando no limite perigoso e o ponteiro não para de subir.
A
narrativa de que “vai esfriar quando o El Niño acabar” não se sustentou. Mesmo
com sinais de transição para a La Niña, fenômeno que normalmente resfria os
oceanos, janeiro de 2025 foi o mês mais quente já registrado na história, com
temperaturas 1,75°C acima das do final do século XIX.
Os
oceanos estão pagando nossa conta
Se
a Terra ainda não está ainda mais quente, você pode agradecer aos oceanos. Eles
absorvem mais de 90% do excesso de calor gerado pelos gases de efeito estufa e
capturam cerca de 30% de todo o CO2 que emitimos. São o maior
amortecedor climático do planeta.
E
estão exaustos.
Em
2024, o conteúdo de calor dos oceanos atingiu níveis recordes. A temperatura
média da superfície oceânica chegou ao inédito de 20,87°C. Em 2023, cerca de
91% da superfície dos mares sofreu pelo menos uma onda de calor marinha,
destruindo recifes de coral e perturbando ecossistemas inteiros, que levaram
milênios para se formar.
O
nível do mar, por sua vez, bateu recorde pelo 13º ano consecutivo. A taxa de
elevação quase dobrou nas últimas décadas: de 2,1 mm por ano no início dos anos
1990 para 4,1 mm ao ano entre 2016 e 2025. Isso acontece por dois motivos
simultâneos: a água se expande quando aquece e as geleiras estão derretendo,
acrescentando volume ao mar.
De
2024-2025, o teor global de calor oceânico de 2000 m (OHC) aumentou em ∼23 ± 8 Zettajoules em relação a 2024, de acordo com o estudo liderado por Lijing Cheng com o
Instituto de Física Atmosférica
da Academia Chinesa de Ciências. Isso é cerca de 200 vezes a geração total de eletricidade do mundo em 2024.
Regionalmente,
cerca de 33% da área oceânica global ficou entre suas condições históricas
(1958-2025) entre as três condições mais quentes, enquanto cerca de 57% caíram
entre as cinco principais, incluindo o Oceano Atlântico tropical e sul, o Mar
Mediterrâneo, o Oceano Índico do Norte e os Oceanos Antárticos, ressaltando o
amplo aquecimento oceânico através das bacias.
O
estudo descobriu que a temperatura média global da superfície do mar (SST) em
2025 foi de 0,49°C acima da linha de base de 1981-2010 e 0,12 ± 0,03°C menor do
que em 2024, consistente com o desenvolvimento das condições de La Niña, mas
ainda classificando como o terceiro ano mais quente já registrado.
As
geleiras que não voltam mais
Há
algo profundamente perturbador em perder uma geleira. Essas formações de gelo
levaram dezenas de milhares de anos para se constituir. Em 2024, a Venezuela e
a Colômbia viram as suas últimas desaparecerem.
No
mesmo ano, todas as 58 geleiras monitoradas no mundo perderam massa, a maior
perda registrada em 55 anos. No ártico, 2024 foi o segundo ano mais quente em
125 anos de registros.
Além do impacto simbólico, há
uma consequência física muito concreta: cada pedaço de gelo que desaparece
acelera o aquecimento. O gelo branco reflete a energia solar de volta para o
espaço, é o chamado efeito albedo. Sem ele, o oceano escuro absorve mais calor,
que derrete mais gelo, que absorve mais calor. Um ciclo que, uma vez iniciado,
não tem botão de pausa.
Chuva
demais e água de menos, ao mesmo tempo
Esse
é, talvez, o paradoxo mais difícil de comunicar sobre a crise climática: ela
pode criar seca e enchente no mesmo país, quase ao mesmo tempo.
Um
planeta mais quente evapora mais água. Uma atmosfera mais quente retém mais
vapor. O ciclo hidrológico fica supercarregado e profundamente irregular. Em
2024, a atmosfera continha a maior quantidade de vapor d’água já registrada. As
chuvas se tornaram mais intensas, mas também mais concentradas em eventos
extremos.
No
Brasil, isso ficou dolorosamente evidente: enquanto os rios amazônicos viviam a
pior seca em mais de um século, o Rio Grande do Sul enfrentava enchentes
históricas que deixaram rastros de destruição e luto. Dois extremos do mesmo
problema, no mesmo país, separados por poucos meses.
A
água, elemento mais fundamental à vida, se tornou um claro exemplo dos efeitos
da crise climática.
E
agora, o que fazemos?
Aqui
chego ao ponto que mais me incomoda escrever, porque a resposta honesta é que
precisamos fazer muito mais do que estamos fazendo.
Na
COP30, realizada em Belém, os governos não conseguiram chegar a um acordo
vinculante sobre novas medidas para reduzir emissões. A geopolítica estava
tensa. Os Estados Unidos, sob nova liderança, reverteram seus compromissos
climáticos e saíram novamente do Acordo de Paris no primeiro dia do novo
governo.
Com
base nos planos climáticos nacionais atualmente em vigor, o aquecimento global
pode atingir cerca de 3,2°C até o final deste século. Mais que o dobro do
limite considerado seguro.
Isso
não é catastrofismo. É o que os dados repetem, com paciência científica, há
décadas.
Mas
também não é uma sentença de morte. Cada decisão importa agora, de governos, de
empresas, de indivíduos, de uma forma que não importava há cinquenta anos.
Nunca tantas escolhas de tantas pessoas, tomadas agora, tiveram tanto peso
sobre o futuro.
A Terra tem febre. Os termômetros estão aí. A questão que fica é o que escolhemos fazer enquanto ainda há tempo. (ecodebate)
domingo, 5 de abril de 2026
Determinantes da transição da fecundidade no Brasil
Principais Determinantes da
Queda da Fecundidade no Brasil:
Participação Feminina no
Mercado de Trabalho: É apontada como o fator mais determinante. A busca por
carreira profissional e independência financeira fez com que muitas mulheres
adiassem ou decidissem ter menos filhos.
Urbanização e Custo de Vida:
A transferência da população rural para as cidades modificou o papel dos
filhos, que deixaram de ser mão de obra familiar e passaram a representar um
alto custo de criação (habitação, educação).
Avanço da Escolaridade
Feminina: Mulheres mais escolarizadas tendem a se casar mais tarde e a planejar
melhor o tamanho da família, optando por menos descendentes.
Acesso a Métodos
Contraceptivos e Informação: A difusão de anticoncepcionais, avanços
científicos e o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) no planejamento familiar
permitiram maior controle sobre a reprodução.
Mudanças Culturais e Sociais:
Valorização da autonomia pessoal, estabilidade emocional e a redefinição do
conceito tradicional de família, focando mais na qualidade de vida.
Dinâmica da Transição:
Velocidade: O Brasil passou
por essa transição de forma muito mais rápida que a média mundial,
assemelhando-se atualmente a padrões de países desenvolvidos.
Perfil da Queda: A
fecundidade de mulheres mais jovens diminuiu, enquanto o número de nascimentos
entre mulheres mais velhas (postergação) e casos de gravidez na adolescência,
embora caindo no geral, ainda mostram disparidades.
Na maior parte da história
brasileira, as taxas de mortalidade e fecundidade eram elevadas. Mas diversos
desenvolvimentos na produção de bens e serviços, no avanço da medicina e
saneamento básico, aumento da urbanização e dos níveis de escolaridade
possibilitaram que as taxas de mortalidade começassem a cair no final do século
XIX e continuassem caindo no século XX. Contudo, a Taxa de Fecundidade Total
(TFT), na média nacional, só começou a cair a partir da década de 1970.
O gráfico abaixo, mostra que
a TFT do Brasil estava acima de 6 filhos por mulher entre 1940 e 1960, caiu
para 5,8 filhos em 1970, para 4,4 filhos em 1980, para 2,9 filhos em 1991, para
2,3 filhos em 2000, para 1,9 filho em 2010 e 1,55 filho por mulher em 2022. As
regiões Norte e Nordeste tinham TFT acima da média nacional e as regiões
Sudeste, Sul e Centro-Oeste abaixo da média nacional.
Entre 1940 e 1970, havia divergência nas taxas de fecundidade regionais, pois a diferença na TFT das regiões Norte e Nordeste era de 1,5 filho em 1940, passou para 2,5 filhos em 1950, para 2,3 filhos em 1960 e para 3,6 filhos em 1970. Mas a partir da década de 1970 passou a haver convergência na transição da fecundidade entre as diversas regiões brasileiras. Como mostra o gráfico, todas as regiões convergiram para taxas próximas de 1,55 filhos, sendo que as diferenças regionais em 2022 ficaram no máximo em 0,5 filho. Isto quer dizer que a transição da fecundidade no Brasil é um fenômeno comum em todo o território nacional.
De fato, a transição da fecundidade no Brasil ocorreu em um quadro de profundas transformações econômicas, sociais e institucionais que tiveram efeito no século passado, mas especialmente na segunda metade do século XX. Em 1930 houve uma Revolução que rompeu com o modelo econômico primário-exportador, característico da República Velha (1889-1930). No primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945) foram implementadas as primeiras políticas sociais e trabalhistas brasileiras. Depois de um breve interregno fora do poder, Getúlio Vargas ganhou as eleições de 1950 e deu início a uma política nacionalista visando a acelerar o desenvolvimento econômico do Brasil.
Mas foi no governo de Juscelino
Kubitschek (1956-1961), com o Plano de Metas, que o Brasil entrou em uma fase
de acelerada urbanização e industrialização. O golpe militar de 1964 deu início
a uma série de governos autoritários que aprofundaram o processo de integração
internacional da economia brasileira, reforçando as tendências rumo a uma
economia urbano-industrial, mas com profundas desigualdades sociais e
regionais. A junção das mudanças estruturais, que já vinham ocorrendo desde
1930, com as mudanças institucionais implantadas na segunda metade dos anos 60,
foi decisiva para a transição da fecundidade no Brasil.
Existem várias abordagens
teóricas para explicar este processo. A abordagem da proletarização dá ênfase
ao efeito das mudanças estruturais sobre o tamanho da família. Segundo
Carvalho, Paiva e Sawyer (1981) e Paiva (1985) o tipo de estrutura produtiva do
sistema primário-exportador e da economia de subsistência estimulavam as altas
taxas de fecundidade que eram viabilizadas por um padrão de casamento precoce
sem o uso generalizado de métodos contraceptivos. O processo de proletarização
provocou a desestabilização do regime de alta fecundidade no Brasil através de
mudanças que ocorreram em três níveis: 1) monetarização da economia; 2)
ampliação e diversificação do cesto de consumo através da inclusão de bens
industrializados; 3) destruição da economia de base familiar (subsistência) e
expansão e homogeneização do mercado de trabalho assalariado.
A abordagem de Alves (1994)
mostra que os determinantes estruturais e institucionais afetam os níveis de
fecundidade na medida em que influenciam a relação entre as gerações e entre os
gêneros, considera, também, que as abordagens anteriores não são excludentes,
mas apontam para diversas facetas de um processo complexo e multifacetado de mudança
no padrão reprodutivo. Com base em Caldwell (1982), o autor argumenta que houve
uma reversão do fluxo intergeracional de riqueza entre pais e filhos no Brasil.
Concomitantemente, as mudanças nas relações de gênero reforçaram a transição de
altos a baixos níveis de fecundidade. Particularmente importantes foram o
crescimento dos níveis educacionais das mulheres e o aumento da participação
feminina no mercado de trabalho, especialmente em empregos formais, com
contribuição à previdência social.
Estas quatro abordagens
fornecem os instrumentos teóricos capazes de explicar os dados empíricos da
transição da fecundidade no Brasil, na região Sudeste e no Estado do Rio de
Janeiro. Não é de se estranhar que a região Sudeste tenha apresentado as
menores taxas de fecundidade, pois foi também a região que liderou o processo
de transformações estruturais e institucionais do país, apresentando maiores
níveis de urbanização, industrialização, assalariamento, diversificação do
consumo e incorporação da mulher na escola e no mercado de trabalho formal.
Dentro da região Sudeste, o
estado do Rio de Janeiro esteve à frente do chamado processo de modernização e,
consequentemente, esteve à frente do processo de transição da fecundidade. Até
1960, as TFTs do Rio de Janeiro eram cerca de 10% menores que as de São Paulo e
estavam bastante abaixo das taxas de Minas Gerais e Espírito Santo. A partir
dos anos 60, começou um processo geral de redução do número de filhos e as
taxas de fecundidade dos quatro estados convergiram para o nível de reposição
(2,1 filhos por mulher) no ano 2000. Entre 2000 e 2010 a convergência foi geral
e todas as regiões apresentam taxas abaixo do nível de reposição
Mas no restante do século XXI, o Brasil vai aprofundar o fenômeno do envelhecimento populacional e do decrescimento do número de habitantes. Esta nova dinâmica demográfica trará desafios e oportunidades. Se o Brasil souber aproveitar o 2º bônus demográfico (da produtividade) e o 3º bônus demográfico (da longevidade) poderá garantir uma maior qualidade de vida social e ambiental para as gerações futuras. (ecodebate)
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