segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Artista cria ilha flutuante feita com 150 mil garrafas plásticas num projeto sustentável

Artista cria ilha flutuante feita com mais de 150 mil garrafas plásticas em um dos projetos sustentáveis mais curiosos, deixando o mundo todo surpreso.
Além de servir como moradia, a ilha atrai peixes e outras espécies marinhas, formando um pequeno ecossistema.

O artista e ambientalista britânico Richart “Rishi” Sowa construiu a Joyxee Island, uma ilha flutuante feita com mais de 150 mil garrafas plásticas recicladas. A estrutura fica ancorada na costa de Isla Mujeres, perto de Cancun, no México, e serve como moradia ecológica e santuário sustentável.

Como a Ilha Funciona

• Base flutuante: Sacos cheios de garrafas PET vazias sustentam todo o peso da estrutura sobre a água.

• Camadas de solo: O artista usa uma técnica com camadas de paletes, areia, terra orgânica e lixo reciclável para formar o solo.

• Vegetação nativa: Plantas e mangues crescem na superfície, e suas raízes ajudam a travar e fortalecer a base da ilha.

• Ecossistema próprio: A estrutura atrai peixes e pequenos animais marinhos para o seu entorno.

Estrutura e Recursos

• Habitação: A construção incluiu uma casa de múltiplos andares com comodidades básicas.

• Energia e autonomia: O local conta com uso de painéis solares, plantas alimentícias cultivadas no próprio solo e praias artificiais.

Se quiser, posso detalhar mais sobre:

• A técnica de construção camada por camada

• Os desafios que ele enfrentou com tempestades no Caribe

A criação de Rishi Sowa funciona como uma enorme experiência de reaproveitamento

As garrafas plásticas descartadas normalmente são associadas a um dos maiores problemas ambientais dos oceanos. No México, porém, milhares delas ganharam uma função completamente diferente: tornaram-se a base de uma ilha artificial capaz de flutuar, receber vegetação e até servir de moradia.

O responsável pelo projeto é o artista e ambientalista britânico Richart "Rishi" Sowa. Instalado em Isla Mujeres, próximo à costa de Cancun, ele desenvolveu uma estrutura conhecida como Joyxee Island, construída a partir de mais de 150 mil garrafas plásticas reutilizadas.

Mais de 150 mil garrafas ajudam a manter a ilha flutuando

A lógica utilizada por Rishi é relativamente simples. Garrafas PET vazias e fechadas contêm ar e, quando reunidas em grande quantidade, fornecem flutuabilidade suficiente para sustentar uma estrutura sobre a água. Para construir a ilha, milhares delas foram agrupadas e colocadas dentro de redes.

Sobre essa base, foram acrescentados paletes e outros materiais capazes de formar uma superfície mais firme. O artista então adicionou areia, terra e vegetação. Aos poucos, aquilo que inicialmente parecia apenas uma grande plataforma passou a se aproximar visualmente de uma pequena ilha.

Entre os principais elementos utilizados estão:

Mais de 150 mil garrafas plásticas reaproveitadas

Redes utilizadas para manter as garrafas agrupadas

Paletes e estruturas de madeira

Terra e areia formando parte da superfície

Árvores e outras plantas cultivadas sobre a estrutura

A lógica utilizada por Rishi é relativamente simples. Garrafas PET vazias e fechadas contêm ar e, quando reunidas em grande quantidade, fornecem flutuabilidade suficiente para sustentar uma estrutura sobre a água. Para construir a ilha, milhares delas foram agrupadas e colocadas dentro de redes.

Sobre essa base, foram acrescentados paletes e outros materiais capazes de formar uma superfície mais firme. O artista então adicionou areia, terra e vegetação. Aos poucos, aquilo que inicialmente parecia apenas uma grande plataforma passou a se aproximar visualmente de uma pequena ilha.

Entre os principais elementos utilizados estão:

Mais de 150 mil garrafas plásticas reaproveitadas

Redes utilizadas para manter as garrafas agrupadas

Paletes e estruturas de madeira

Terra e areia formando parte da superfície

Árvores e outras plantas cultivadas sobre a estrutura
Rishi transformou a estrutura em um lugar onde é possível realizar diferentes atividades da rotina. Entre as soluções adotadas está o aproveitamento da energia solar. Painéis instalados na ilha ajudam a fornecer eletricidade sem depender exclusivamente de uma ligação convencional com a rede elétrica.

A água da chuva também pode ser coletada e aproveitada, enquanto parte do espaço disponível é utilizada para cultivar alimentos. Há ainda equipamentos que utilizam a própria luz solar para auxiliar no preparo das refeições. Com isso, o projeto reúne diferentes conceitos relacionados à sustentabilidade em um único lugar.

Projeto transforma lixo em material de construção

A iniciativa também é um exemplo bastante incomum de upcycling. Diferentemente da reciclagem convencional, que geralmente envolve transformar um material usado em matéria-prima para fabricar outro produto, o conceito busca reaproveitar objetos atribuindo a eles uma nova função e, muitas vezes, maior valor.

Na ilha, as garrafas continuam praticamente intactas. Em vez de serem trituradas ou derretidas, elas aproveitam justamente uma característica de sua forma original: a capacidade de aprisionar ar quando estão fechadas. É essa simplicidade que torna a Joyxee Island tão curiosa.

Um objeto produzido aos bilhões e normalmente descartado após poucos minutos de uso acabou servindo como elemento básico para uma construção que permanece flutuando sobre o mar. (tudogostoso)

O mundo já sofre quase o dobro de dias de estresse térmico extremo

Um levantamento científico recente publicado na revista Nature Climate Change mostra que 70% da população mundial enfrenta agora pelo menos 90 dias por ano de estresse térmico forte, um salto significativo em relação aos 55% registrados na década de 1970. O aquecimento global tem tornado o calor não apenas mais intenso, mas também mais longo e persistente.

Fatores do Estresse Térmico

• Sensação térmica real: O índice avalia umidade, vento, radiação e a reação do corpo.

• Noites tropicais: As madrugadas mantêm sensações acima de 20°C, impedindo o corpo de esfriar.

• Expansão geográfica: Regiões antes amenas, como parte da Europa e América do Norte, sofrem com picos de 38°C.

• Impacto na saúde: Grupos vulneráveis enfrentam riscos cardiovasculares e respiratórios ampliados.

Pesquisa publicada na Nature Climate Change mostra que a parcela da população global exposta a calor perigoso saltou de 16% para 22% entre as décadas de 1970 e 2024 e as noites, quando o corpo deveria descansar, estão cada vez mais sufocantes.

Enquanto a Europa enfrenta mais uma onda de calor implacável, cientistas confirmam o que muita gente já sente na pele: dormir, trabalhar e simplesmente existir sob calor extremo se tornou mais difícil e mais perigoso em praticamente todo o planeta.

Estudo publicado na revista científica Nature Climate Change acaba de confirmar, com dados e método, algo que o corpo de milhões de pessoas já vinha denunciando: o planeta está ficando perigosamente mais quente para se viver.

A pesquisa, intitulada “Global heat stress intensification and its expanding footprint on the human population“, rastreou meio século de dados, entre as décadas de 1970 e 2024, para medir a exposição da humanidade ao chamado estresse térmico: o acúmulo perigoso de calor no corpo humano, provocado pela combinação de temperatura alta, umidade, vento e radiação solar. É essa combinação e não apenas o número que aparece no termômetro, que decide se um dia será apenas quente ou verdadeiramente perigoso para a saúde.

O resultado é alarmante. Na década de 1970, 16% da população mundial enfrentava pelo menos um dia de estresse térmico extremo por ano, quando a sensação térmica atingia 46°C ou mais. Cinco décadas depois, esse número subiu para 22%.

Em termos práticos, significa que dezenas de milhões de pessoas a mais, todos os anos, estão sendo empurradas para uma zona de risco real à saúde e, em muitos casos, à vida.
O que é, afinal, o estresse térmico

Para medir esse fenômeno com precisão, os pesquisadores utilizaram o Índice Universal de Clima Térmico (UTCI, na sigla em inglês), um indicador que vai além da temperatura do ar. Ele leva em conta como o corpo humano de fato reage ao calor, somando fatores como umidade do ar, velocidade do vento e radiação solar para calcular a chamada “temperatura sentida”.

É essa métrica mais completa que explica por que dois lugares com a mesma temperatura no termômetro podem representar riscos completamente diferentes: um dia seco de 38°C pode ser suportável, enquanto o mesmo número, em ambiente úmido e sem vento, pode significar uma ameaça real ao organismo.

Segundo o levantamento, a média diária do UTCI vem subindo de forma consistente porque os episódios de calor estão se tornando, ao mesmo tempo, mais frequentes, mais intensos e mais longos, um reflexo direto do aquecimento global provocado pela ação humana.

Da Europa à Escandinávia: o calor extremo muda de endereço

Um dos achados mais expressivos do estudo é geográfico. Países como Espanha, Portugal, Itália e França já registram sensações térmicas até cinco graus mais altas do que registravam na década de 1970. Uma mudança silenciosa, mas profunda, na relação dessas regiões com o verão.

Mais preocupante ainda é a expansão do fenômeno para territórios onde ele historicamente não era um problema. De acordo com os pesquisadores, o estresse térmico está “se expandindo para áreas do globo onde historicamente não era experimentado”. Hoje, episódios de estresse térmico “muito forte”, com sensação térmica de pelo menos 38°C, já atingem partes da América do Norte, do Reino Unido e até da Escandinávia, regiões conhecidas justamente por seus climas amenos ou frios.

As noites que não dão descanso

Se o calor do dia já é motivo de alerta, o estudo aponta um problema tão ou mais grave: o aumento das chamadas noites tropicais, quando a sensação térmica não cai abaixo dos 20°C nem durante a madrugada. Na maior parte do planeta, esse tipo de noite vem se tornando mais comum e isso muda tudo do ponto de vista da saúde.

É durante o sono que o corpo humano se recupera do desgaste térmico acumulado ao longo do dia. Quando essa pausa não acontece, “não se consegue nenhum alívio e o corpo não consegue esfriar, isso se torna muito perigoso para a saúde das pessoas, principalmente para as pessoas vulneráveis”, alertam os pesquisadores.

Idosos, crianças, gestantes e pessoas com doenças crônicas são os grupos mais expostos a esse tipo de risco silencioso, que muitas vezes não aparece nas estatísticas oficiais como “morte por calor”, mas como complicações cardiovasculares, renais ou respiratórias agravadas pelo calor.

Um retrato que ainda pode piorar

O levantamento analisou dados até 2024, mas os próprios pesquisadores fazem questão de destacar: a tendência não parece ter parado por aí. As ondas de calor que já atingiram a Europa neste ano sugerem que a trajetória de aumento identificada pelo estudo continua em curso, reforçando que o que antes era exceção climática caminha para se tornar rotina em boa parte do mundo, inclusive em regiões que, até pouco tempo atrás, se consideravam a salvo desse tipo de extremo.

Para quem vive em países tropicais, como o Brasil, os achados soam menos como uma novidade distante e mais como a confirmação científica de um verão que, ano após ano, parece começar mais cedo, durar mais e dar cada vez menos trégua de dia e, principalmente, de noite.

Mudanças em temperaturas, dias de estresse térmico e noites tropicais ao longo do tempo.

Mapas mostram a diferença entre a década de 1970 e os últimos 10 anos (2015-2024) para indicadores de estresse térmico, com base em médias decadal de: os 10 maiores valores máximos de temperatura de feltros-como por ano (UTCI, °C), os 10 maiores valores mínimos de temperatura por ano (UTCI, °C), o número anual de dias com pelo menos forte (UTCI ≥32°C), muito forte (UTCI °C) Gráficos de linha mostram a média global para cada indicador para cada ano de 1950 a 2024. As tendências por década desde a década de 1970 (1970-2024) são indicadas acima de cada gráfico, com intervalos de confiança de 95%. Todas as tendências são estatisticamente significativas (P < 0,001). As tendências foram estimadas usando regressão de mínimos quadrados ordinários com erros de HAC; os valores de P são baseados em testes de dois lados da inclinação. Não foi aplicado ajuste para múltiplas comparações. Dados do mapa base da Natural Earth (https://www.naturalearthdata.com). (ecodebate)

sábado, 29 de agosto de 2026

IA está superaquecendo cidades dos EUA

O rápido crescimento dos data centers de inteligência artificial nos Estados Unidos gera ilhas de calor urbanas locais, elevando as temperaturas dos bairros próximos em até 2,2°C, e pressiona fortemente a rede elétrica durante ondas de calor, aumentando o risco de apagões e o custo de energia.

O Impacto Térmico e Ambiental

• Ilhas de Calor: O calor dissipado pelos servidores e potentes sistemas de exaustão altera o microclima ao redor das instalações.

• Sobrecarga de Energia: O ar-condicionado e os sistemas de refrigeração exigem eletricidade extra justamente quando a rede está no limite máximo devido ao uso residencial.

• Consumo de Água: Grandes volumes hídricos são direcionados para resfriar os chips de processamento contínuo.

• Reação Local: Moradores e comunidades cobram moratórias e restrições para frear a construção de novos complexos tecnológicos perto de áreas habitadas.

Um panorama visual sobre o crescimento acelerado dos polos de data centers e seus impactos nos Estados Unidos (O Lado Sombrio da Explosão dos Data Centers de IA nos Estados Unidos): https://www.youtube.com/watch?v=in9edgvFaC0&t=1s.

Data center localizado na cidade de Barueri, na Grande São Paulo

Mais de 1.500 instalações em construção consomem energia de cidades inteiras e elevam a temperatura em um raio de até 10 km, enquanto moradores pressionam por moratórias

Enquanto gigantes da tecnologia correm para expandir a infraestrutura de inteligência artificial, comunidades nos Estados Unidos enfrentam contas de luz mais caras, risco de apagões em ondas de calor e bairros inteiros transformados em ilhas de calor, formando um retrato do custo invisível do boom da IA.

Por trás de cada resposta gerada por um chatbot, de cada imagem criada em segundos por um modelo de inteligência artificial, existe uma estrutura física devorando eletricidade em algum lugar dos Estados Unidos. E essa estrutura está, literalmente, esquentando o país.

Os data centers (os galpões repletos de servidores que processam e treinam os sistemas de IA) deixaram de ser um detalhe técnico da economia digital para se tornar um problema de infraestrutura elétrica, de saúde pública e de justiça climática. O crescimento é tão acelerado que já divide opinião em cidades norte-americanas, onde moradores organizam campanhas e pedem moratórias para frear novas construções.

O apetite elétrico da inteligência artificial

Hoje, os data centers já respondem por cerca de 4,5% de todo o consumo de eletricidade nos Estados Unidos. A projeção é que essa fatia dobre ou mais até 2030, podendo ultrapassar 10% da matriz elétrica americana. Para se ter ideia da escala, uma única instalação de grande porte pode consumir tanta energia quanto 100 mil residências somadas.

O ritmo de expansão impressiona: projeções apontam que a demanda mundial por energia em data centers deve atingir 132 gigawatts em 2026, ante 104 gigawatts em 2025, com estimativa de avanço para 290 gigawatts até 2030.

Nos Estados Unidos, já existem mais de 1.500 data centers em desenvolvimento para atender à corrida da IA e o estado da Virgínia concentra sozinha mais de 600 dessas instalações, a maior densidade do país, justamente em uma região que vem batendo recordes de temperatura.

Energia extra justo quando a rede menos aguenta

O problema não é só o volume de energia consumido, mas o momento em que essa energia é exigida. Os servidores de IA precisam de refrigeração constante para não superaquecer, e esse resfriamento já representa cerca de 40% do consumo elétrico de um data center em condições normais.

Quando as temperaturas externas sobem, os sistemas de resfriamento trabalham ainda mais e puxam ainda mais energia da rede, exatamente no momento em que ares-condicionados residenciais e comerciais também estão no limite.

É um efeito cascata perigoso: o pico de consumo dos data centers coincide com o pico de consumo das cidades durante ondas de calor, pressionando uma rede elétrica que, em muitos estados americanos, já opera perto da capacidade máxima.

O risco real de apagões

Essa sobreposição de demandas eleva o risco de blackouts justamente nos dias mais quentes do ano, quando faltar energia é mais perigoso. Estudos sobre o tema mostram que apagões durante ondas de calor podem mais do que dobrar a taxa de mortalidade relacionada ao clima, já que a perda de refrigeração em residências, hospitais e comércios se torna uma ameaça direta à vida, especialmente para idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.

Não é um cenário hipotético. Reportagens recentes mostram que a disputa pela capacidade da rede elétrica já afeta outros setores da economia americana: indústrias tradicionais, da siderurgia ao vidro, relatam que o avanço da infraestrutura de IA pressiona tarifas e disputa espaço com investimentos que antes seriam destinados a outros segmentos.

Ilhas de calor: o efeito colateral que se espalha pela cidade

Além da pressão sobre a rede elétrica, os data centers alteram o microclima ao seu redor. O calor liberado pelos servidores e pelos sistemas de refrigeração cria as chamadas “ilhas de calor”, áreas onde a temperatura local fica visivelmente mais alta do que nos arredores por causa da atividade humana e da infraestrutura concentrada.

Cientistas identificaram que esse efeito de aquecimento pode se estender por mais de 9,6 quilômetros ao redor de uma única instalação. Isso significa que bairros inteiros, distantes do próprio data center, sentem na pele o calor extra, gerado por uma tecnologia que, para o usuário final, parece completamente intangível.

Some-se a isso o consumo intensivo de água usada para resfriar os equipamentos, e o resultado é uma pressão ambiental que vai muito além da conta de luz, porque afeta o abastecimento hídrico e o conforto térmico de comunidades inteiras.

Comunidades dizem “chega” e moratórias entram no debate

Diante desse conjunto de riscos, contas mais caras, maior chance de apagão em dias críticos e bairros mais quentes, cresce nos Estados Unidos um movimento de resistência à instalação de novos data centers de hiperescala. Grupos comunitários, ambientalistas e até setores industriais tradicionais vêm pressionando autoridades locais por moratórias, isto é, pausas temporárias na aprovação de novos projetos até que existam garantias mais claras sobre o impacto na rede elétrica e no meio ambiente.

O debate expõe uma tensão que tende a se repetir em outros países à medida que a corrida pela inteligência artificial avança: como equilibrar o apetite quase ilimitado por poder computacional com a capacidade real e os limites físicos da infraestrutura elétrica, hídrica e climática que sustenta a vida nas cidades.

De um lado, big techs e provedores de nuvem correm para não ficar para trás na disputa global por IA. De outro, moradores e especialistas alertam que o custo dessa corrida pode ser pago, literalmente, em calor e em falta de luz.

No entanto, como tudo que envolve o grande capital, as big techs e provedores de nuvem estão, com grande apoio político, impondo seus interesses sobre os interesses e direitos das comunidades impactadas, direta ou indiretamente.

A inteligência artificial pode estar esquentando bairros inteiros? Estudo aponta que data centers de IA liberam calor suficiente para elevar temperaturas próximas em até 2,2ºC e acender alerta sobre a nova poluição térmica das cidades. (ecodebate)

300 bilhões de toneladas de carbono: o preço oculto do que comemos

Um estudo global recente detalha como a produção de alimentos impacta o clima e a natureza, revelando que grande parte da perda de carbono e biodiversidade do planeta está concentrada em uma pequena fração das terras agrícolas e impulsionada fortemente pelo consumo de carne.

O Impacto dos Alimentos

• Alimentos de origem animal: Causam 59% da perda de carbono ligada à alimentação e 71% da perda de biodiversidade.

• Carne bovina e leite: Representam 29% das perdas de carbono e 41% da biodiversidade perdida.

• Concentração do dano: Metade da perda global de carbono na agricultura ocorre em apenas 12% das terras produtivas.

O Papel do Comércio

• O maior exportador líquido: O EcoDebate destaca que o Brasil lidera as exportações associadas à perda de carbono e biodiversidade.

• O maior importador: A China aparece como a principal compradora desses fluxos ambientais intensos.

• Caminho de esperança: Focar a restauração ecológica em apenas 30% das áreas agrícolas mais afetadas pode recuperar 170 bilhões de toneladas de carbono.
O prato que está comendo a floresta. O que um novo estudo revela sobre carbono, biodiversidade e aquilo que colocamos à mesa

Um estudo de Oxford, Leiden e da Universidade Agrícola da China mapeou onde a agricultura mais destrói carbono e biodiversidade e descobriu que um punhado de alimentos e regiões concentra quase todo o estrago. A boa notícia é que isso também significa que restaurar pouco já pode valer muito.

O jornalismo ambiental é baseado em ciência e, por isto, é necessário acompanhar os estudos e pesquisas mais recentes. É a parte importante de conhecer para comunicar.

O estudo “High-resolution carbon and biodiversity mapping shows correlated losses across space and agricultural products”, publicado na Nature Food, feito por pesquisadores de Oxford, da Universidade de Leiden e da Universidade Agrícola da China, é um exemplo importante e resolvi que precisava escrever sobre ele, não como resumo técnico, mas como alguém tentando digerir (com perdão do trocadilho) o tamanho do que está em jogo.

O ponto de partida é brutal ao calcular que a agricultura já provocou a perda de cerca de 300 bilhões de toneladas de carbono, que estavam guardadas em solos, florestas e vegetação nativa. E não para por aí, porque cerca de 14% das espécies do planeta estão hoje em risco de extinção, por causa do uso da terra para produzir alimentos.

Um mapa que mostra onde a comida machuca mais

O que torna esse estudo diferente de tantos outros é a resolução. Em vez de olhar o mundo em grandes blocos, os pesquisadores desceram ao nível de ‘células’ de cerca de 5,6 km, quase um zoom em Google Maps, e cruzaram isso com o rastro de 123 commodities agrícolas ao redor do globo.

O resultado é um retrato incomum e dá para ver exatamente onde a produção de determinado alimento, em determinado pedaço de terra, está corroendo carbono e biodiversidade ao mesmo tempo.

E o que aparece nesse mapa é concentrado, quase cirúrgico, que dois terços de toda a perda está espremida em apenas um terço das terras agrícolas do planeta, principalmente em partes da América do Sul, da África Subsaariana e do Sudeste Asiático. Mais impressionante ainda é que metade da perda de carbono do mundo acontece em apenas 12% das terras agrícolas.

Isso muda a forma como penso em “salvar o planeta”. Enquanto não mudamos tudo o que é necessário, também precisamos mexer no lugar certo.

O que está realmente no prato

Os alimentos de origem animal respondem por 59% da perda de carbono ligada à comida e por 71% da perda de biodiversidade, enquanto fornecem menos de 15% das calorias que o mundo consome (sem contar peixe).

Calorias por calorias, um alimento de origem animal causa, em média, oito vezes mais perda de carbono e catorze vezes mais perda de biodiversidade do que um alimento de origem vegetal.

E dois itens, sozinhos, carregam boa parte dessa conta: carne bovina e laticínios juntos representam 29% de toda a perda de carbono e 41% de toda a perda de biodiversidade das terras agrícolas do mundo. O motivo é simples de entender e difícil de digerir: é a quantidade de terra que essa produção exige para existir.

Não é uma questão de demonizar quem come carne e eu mesmo não larguei totalmente a carne. É perceber que, entre todas as escolhas alimentares que fazemos sem pensar duas vezes, algumas pesam ordens de grandeza mais do que outras no que sobra de floresta, de solo vivo, de espécie que ainda respira.

Quando a comida atravessa o oceano

Tem outra camada nessa história que eu não esperava: o comércio internacional. Cerca de 18% de todo o impacto ambiental das terras agrícolas está ligado a alimentos que cruzam fronteiras e a maior parte desse fluxo é de produtos de origem animal.

O Brasil aparece como o maior exportador líquido de perda de carbono e biodiversidade do planeta. A China, do outro lado, é a maior importadora líquida. E um dos maiores corredores de dano ambiental do mundo tem nome e endereço: as exportações de carne bovina e suína do Brasil para a China.

Isso me pegou de um jeito diferente, porque moro num país onde essa conversa não é abstrata. É sobre a nossa própria paisagem, o nosso próprio agronegócio, as nossas próprias exportações. O prato de alguém do outro lado do mundo pode estar, literalmente, comendo um pedaço do Cerrado ou da Amazônia.

A parte que me deu esperança

Depois de tanto número pesado, o estudo termina com algo raro: uma conta que dá para levar para casa com otimismo.

Os pesquisadores modelaram o que aconteceria se restaurássemos apenas os 30% das terras agrícolas que concentram as duas maiores perdas, de carbono e de biodiversidade juntas.

O resultado: seria possível sequestrar cerca de 170 bilhões de toneladas de carbono, o equivalente a cerca de 15 anos de todas as emissões globais de combustíveis fósseis, e evitar até 60% do risco de extinção que hoje é causado pela agricultura.

Repito porque vale a pena repetir: restaurar o mundo inteiro é a meta final, mas, até lá, é preciso restaurar o pedaço certo.

E agora, o que fazemos?

Não escrevo isso para dizer que a solução é simples ou que caiba inteira nas mãos do consumidor, porque não cabe. Tem política pública, tem cadeia produtiva, tem investimento em recuperação de pastagem, tem acordo internacional.

Mas também tem, sim, um espaço pequeno e real na escolha de quem senta à mesa todo dia, como comer um menos de carne e laticínios, valorizar quem produz de forma regenerativa, prestar atenção em de onde vem o que a gente compra.

O estudo tem limitações e os próprios autores avisam que os dados globais envolvem incertezas e que leituras muito locais pedem cautela. Mas o retrato geral, concentrado e correlacionado entre carbono e biodiversidade, é sólido o bastante para mudar prioridades.

Fechei a leitura do estudo pensando que talvez a pergunta certa não seja só “o que estou comendo”, mas, também, “de onde essa comida tirou o que ela é”. É uma pergunta desconfortável. Mas, pelo visto, é também uma pergunta com resposta e com solução ao alcance, se a gente mirar no lugar certo.

O armazenamento de carbono e a biodiversidade são fortemente impactados pelos sistemas alimentares. Aqui mapeamos e traçamos o armazenamento de carbono a longo prazo e a perda de biodiversidade do uso da terra em cadeias de suprimentos agrícolas globais em uma alta resolução espacial e de produtos. Mostramos que, embora o Hemisfério Norte experimente maior perda de carbono e o Hemisfério Sul maior perda de biodiversidade, áreas com altas perdas de carbono e biodiversidade são frequentemente co-localizados, com das perdas totais ocorrendo dentro de um terço da área total. O consumo de alimentos gera 83% das perdas, das quais os alimentos de origem animal impulsionam 59% do carbono e 71% das perdas de biodiversidade. A carne bovina e o leite representam 29% do carbono e 41% das perdas de biodiversidade. O Brasil é o maior exportador líquido para ambas as perdas, e a China é o maior importador líquido, com produtos de origem animal como fluxos dominantes em ambos os casos. (ecodebate)

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

El Niño: cidades não estão preparadas para o que está por vir

O governo do Rio Grande do Sul lançou, no mês de junho, o Programa Estadual de Preparação para Eventos Extremos (Prepara RS – El Niño), a fim de preparar os municípios para potenciais efeitos associados ao fenômeno El Niño entre 2026 e 2027. A iniciativa e suas ações foram regulamentadas por meio de decreto.

Especialistas avaliam riscos dos efeitos climáticos severos que são aguardados nos próximos meses; estados apontam ações de enfrentamento.

Seca, altas temperaturas e tempestades; o que esperar do El Niño até janeiro

Um dos episódios de El Niño mais intensos já registrados no século no Brasil está sendo previsto por especialistas para os próximos meses e nenhuma cidade do país está preparada para o que está por vir, sobretudo as grandes cidades. O alerta é da professora do Departamento de Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) e especialista em planejamento urbano, Rossana Brandão Tavares.

A probabilidade de o fenômeno atingir a categoria de “muito forte” entre outubro e dezembro, colocando o evento entre os mais intensos observados desde 1950, é de 81%, segundo o Centro de Previsão Climática (CPC) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).

Os efeitos climáticos já podem ser sentidos e vão continuar atuando no país até o início de 2027. Os impactos do El Niño são divididos por regiões; enquanto a região Sul concentra o maior risco de desastres climáticos ligados a temporais, vendavais e cheias de rios, devido ao bloqueio de frentes frias, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul devem enfrentar a situação hidrológica mais crítica, com seca de severa a extrema. As temperaturas, em geral, deverão ficar até 5°C acima da média.

Convivência com extremos climáticos

A professora Rossana Brandão Tavares aponta que a maioria dos municípios brasileiros, cerca de 90%, já precisou enfrentar casos concretos de desastres socioambientais nos últimos 30 anos, de acordo com dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Dessa forma, segundo ela, é possível considerar que a convivência com extremos climáticos já não é eventual ou concentrada em poucas regiões brasileiras. E outro ponto preocupante, na avaliação da professora, são os dados deste ano da Confederação Nacional dos Municípios, revelando que mais de 1.200 municípios não possuem defesa civil organizada.

Queda de árvores: população sofre com transtornos

Rossana defende a urgência de se lidar de forma estrutural com os problemas urbanos das cidades brasileiras. Para ela, cada vez mais, a população está submetida a uma governança urbana empresarial que tem deixado de lado um planejamento que promova investimentos, em especial em saneamento básico, além da articulação do ordenamento e controle do uso do solo com as características socioambientais de cada região, sobretudo em áreas de encostas, às margens de rios, lagoas, mares e oceanos.

O zoneamento e uso do solo não são questões técnicas neutras. A escolha é política e os desastres estão escancarando o que tem sido priorizado no planejamento. Temos que desconstruir a ideia de que nossas cidades não são planejadas, elas são, mas não para a população que cai junto com as tragédias que estão se tornando corriqueiras. Sou contra a ideia de “adaptação” das cidades, isso é enxugar gelo. (ultimosegundo)

Catadores, economia circular e o trabalho invisível que sustenta a reciclagem no Brasil

No Brasil, cerca de 800 mil catadores e catadoras de materiais recicláveis são responsáveis por manipular até 90% de todo o material que efetivamente retorna ao ciclo produtivo. Esse enorme contingente opera predominantemente na informalidade, sustentando o conceito corporativo de economia circular sem o devido reconhecimento financeiro, institucional ou previdenciário.

A Engrenagem Oculta da Reciclagem

• Protagonismo prático: Na ausência de redes de coleta seletiva estruturadas em centenas de municípios, a catação informal e organizada via cooperativas impede que toneladas de plásticos, papéis e metais terminem em lixões ou ecossistemas naturais.

• Perfil de vulnerabilidade: A base da cadeia é composta majoritariamente por mulheres, muitas vezes chefes de família, que lidam diretamente com insalubridade e riscos ocupacionais diários.

• Serviço ambiental não remunerado: O ganho dos catadores cinge-se estritamente ao peso comercializado do material triado, sem remuneração governamental ou privada pelo serviço público de saneamento e mitigação climática que entregam à coletividade.

Desafios para uma Transição Justa

• Falta de formalização: Apenas uma parcela minoritária da categoria integra associações ou cooperativas formalizadas, limitando o acesso a suporte técnico, de infraestrutura e de segurança jurídica.

• Responsabilidade corporativa: O modelo circular atual depende da precarização do elo mais fraco para compensar falhas estruturais na logística reversa das grandes empresas.

• Demanda por políticas públicas: Especialistas e acadêmicos — a exemplo de debates recentes repercutidos no EcoDebate e em estudos da USP — reforçam que a verdadeira sustentabilidade só existirá mediante o pagamento por serviços ambientais prestados por esses agentes.

Trabalhadores da cadeia de reciclagem seguem, em grande parte, na informalidade, sem remuneração pelos serviços ambientais que prestam e expostos a condições degradantes de trabalho.

Reinaldo Dias - Articulista do EcoDebate, é Doutor em Ciências Sociais –Unicamp; Especialista em Ciências Ambientais – USF; Pesquisador associado do CPDI do IBRACHINA/IBRAWORK; http://lattes.cnpq.br/5937396816014363; reinaldias@gmail.com.
Mulheres da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis da Ilha de Vitória (Amariv).

O Brasil gerou mais de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos em 2025, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, publicado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Desse total, a taxa de reciclagem efetiva calculada pelo Ministério das Cidades ficou em 4,5%, muito distante da meta de 20% que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) havia fixado para o ano de 2025. Quando se inclui a coleta informal realizada por catadores autônomos, o índice sobe para 8,7%. A diferença entre os dois números expõe um dado central e pouco debatido. Mais da metade do que é efetivamente reciclado no país resulta do trabalho de catadoras e catadores, e não de sistemas públicos estruturados de coleta seletiva.

Esse trabalho, no entanto, permanece em larga medida invisível. O discurso da economia circular ganhou espaço nas estratégias empresariais e nas políticas públicas brasileiras, consolidado no Plano Nacional de Economia Circular 2025-2034, elaborado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A indústria da reciclagem processa mais de 15 milhões de toneladas de materiais por ano, movimentando cerca de R$ 80,7 bilhões, conforme levantamento da Mastersenso Consultoria Industrial divulgado pela FecomercioSP. O contraste entre a dimensão econômica do setor e a condição de quem o sustenta na base é evidente. Enquanto a cadeia gera bilhões, os trabalhadores que alimentam sua matéria-prima seguem, em grande parte, na informalidade, sem remuneração pelos serviços ambientais que prestam e expostos a condições degradantes de trabalho.

O cenário internacional agrava a urgência do debate. O Circularity Gap Report 2026, produzido pela Circle Economy em parceria com a Deloitte, estima que o modelo linear de produção, baseado em extrair, produzir, usar e descartar, gera perdas anuais de 25,4 trilhões, o equivalente a 31% do PIB global. A taxa de circularidade mundial, em vez de avançar, recuou de 7,2% em 2023 para 6,9% em 2024. O Brasil apresenta um caso emblemático dessa contradição. O país é referência mundial na reciclagem de latas de alumínio, com índice de 97,3% em 2024 segundo a associação Recicla Latas, mas esse desempenho excepcional depende fortemente da coleta informal realizada por catadores de rua, que dominam historicamente esse mercado. A excelência estatística de um material específico convive com a precariedade estrutural de quem a produz.
A dimensão mais concreta dessa precariedade foi revelada pela segunda edição da pesquisa Catadores por Menos Plástico, conduzida pelo Instituto de Direito Coletivo (IDC) em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), por meio da Incubadora Tecnológica de Empreendimentos de Economia Solidária do Médio Paraíba (InTECSOL). O levantamento, realizado entre julho e dezembro/2025, acompanhou 20 associações e cooperativas de catadores na capital e no interior do estado do Rio de Janeiro, mantendo o mesmo recorte territorial da primeira edição para permitir a comparação dos dados. Os resultados confirmam e aprofundam o quadro identificado em 2024, quando a pesquisa apontou que 64% dos resíduos plásticos que chegavam às cooperativas eram, na prática, não recicláveis.

Os números da nova edição são contundentes. Cada catador perde, em média, 15,59 horas de trabalho por mês na triagem de plásticos que não têm valor de mercado, o equivalente a 9,38% do tempo mensal de trabalho, ou aproximadamente dois dias completos dedicados a resíduos que não geram qualquer retorno financeiro. Considerando a jornada média observada, de sete horas e meia diárias ao longo de 22 dias por mês, trata-se de uma perda recorrente e estrutural. Em termos econômicos, as cooperativas incluídas no cálculo deixam de arrecadar, mensalmente, entre R$ 1.179,03 e R$ 3.771,72, valores expressivos para organizações que já operam no limite da viabilidade. O plástico segue como principal categoria entre os rejeitos, representando cerca de 45% de todo o material descartado pelas cooperativas por falta de viabilidade de reciclagem, seja pela mistura de materiais, pela pigmentação inadequada ou pela ausência de comprador.

A origem desses materiais tem endereço conhecido. Segundo o estudo, quase 82% dos plásticos não recicláveis provêm da indústria alimentícia, com destaque para embalagens do tipo BOPP, o plástico metalizado que envolve biscoitos e salgadinhos, e para o chamado PET bandeja, plástico transparente usado em embalagens de bolos e ovos que, embora tecnicamente reciclável, raramente encontra canal de comercialização. A pesquisa realizou ainda uma auditoria de marcas e identificou quase 200 empresas entre os resíduos analisados, com um grupo reduzido de grandes companhias aparecendo com frequência desproporcional nas embalagens descartadas. O estudo aponta também práticas de greenwashing, em que produtos são comercializados como sustentáveis ou recicláveis sem qualquer possibilidade real de reaproveitamento. Como sintetiza Tatiana Bastos, presidente do IDC, o sistema atual transfere custo, tempo e desgaste físico para os catadores, que trabalham mais para ganhar menos, enquanto o empresariado continua colocando no mercado embalagens inviáveis do ponto de vista técnico ou econômico.
A pesquisa evidencia uma distorção que o vocabulário corrente da sustentabilidade tende a encobrir. O selo de reciclável estampado nas embalagens sugere ao consumidor que o descarte correto garante o retorno do material ao ciclo produtivo. Na realidade das cooperativas, boa parte desse material nasce como rejeito, pois não há viabilidade econômica ou tecnológica para seu reaproveitamento. O custo dessa ficção não é distribuído de forma equitativa. Ele recai sobre os elos mais vulneráveis da cadeia, que arcam com o tempo de triagem não remunerado, com a exposição a resíduos orgânicos contaminantes misturados aos recicláveis e com a redução da renda ao final do mês. A responsabilidade pela concepção das embalagens, que caberia ao capital industrial, é convertida em prejuízo cotidiano de trabalhadores que já operam em condições de vulnerabilidade.

O perfil social desses trabalhadores acrescenta uma camada de injustiça ao problema. A pesquisa do IDC e da UFF identificou que 68,56% dos catadores nas organizações estudadas são mulheres e que quase 90% se declaram pardos ou pretos, sendo 58,75% pardos e 30,82% pretos. O trabalho invisível que sustenta a reciclagem brasileira é, portanto, majoritariamente feminino e negro, o que insere a questão no campo da justiça ambiental e do racismo ambiental. As externalidades negativas de um sistema de embalagens concebido sem compromisso com a reciclabilidade real são absorvidas precisamente pelos grupos sociais historicamente mais penalizados pela desigualdade brasileira.

Há, contudo, movimentos institucionais relevantes em curso. Os resultados da pesquisa fluminense embasaram o Projeto de Lei 5.392/2025, apresentado pelo deputado estadual Carlos Minc e em tramitação na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. A proposta estabelece que embalagens comercializadas no estado sejam 100% recicláveis e adequadamente rotuladas, garante remuneração direta às cooperativas pelos serviços ambientais prestados, como triagem, coleta seletiva e educação ambiental, e fixa prazo de cinco anos para o banimento de plásticos não recicláveis do mercado estadual. No plano federal, a Lei 15.088/2025 proibiu a importação de resíduos sólidos e rejeitos, medida que protege o mercado interno de materiais recicláveis e beneficia diretamente os catadores. Quando o Decreto 12.438/2025 flexibilizou essa proibição, a reação do movimento de catadores levou o governo federal a revogá-lo poucas semanas depois, substituindo-o por regulamentação com limites e cotas. Em outubro de 2025, o Decreto 12.688 instituiu o Sistema de Logística Reversa para embalagens plásticas, com previsão expressa de inclusão socioprodutiva de catadoras e catadores.

O governo federal também assumiu meta ambiciosa de elevar a taxa de reciclagem para 34,5% até 2035, no âmbito do plano para cidades sustentáveis, apostando na ampliação da coleta seletiva e no fortalecimento das cooperativas. A distância entre os 4,5% atuais e esse horizonte indica o tamanho do esforço necessário. A experiência acumulada desde 2010 mostra que metas legais sem instrumentos de financiamento, fiscalização e remuneração dos trabalhadores tendem a permanecer no papel. A meta de 20% prevista para 2025 não foi cumprida, e os lixões que a lei mandou encerrar seguem recebendo 40% dos resíduos com destinação incorreta no país.
Um salto para os catadores e a economia circular no Brasil

A reivindicação central do movimento de catadores aponta o caminho mais consistente. Como argumenta Tatiana Bastos, esses trabalhadores precisam ser pagos pelo serviço ambiental que prestam, e não apenas pelo peso do material vendido. Cada tonelada de PET triada é plástico que deixa de chegar aos rios, e cada fardo de papelão recuperado é árvore que deixa de ser derrubada. Trata-se de serviço público ambiental prestado à sociedade, com benefícios climáticos, sanitários e econômicos mensuráveis, executado hoje de forma gratuita por quem menos pode subsidiar o sistema. A economia circular brasileira só será efetiva, e só será justa, quando reconhecer institucionalmente essa contribuição, remunerar quem a realiza e responsabilizar o empresariado pela reciclabilidade real daquilo que coloca no mercado. Enquanto isso não ocorrer, a circularidade seguirá sendo sustentada pelo trabalho invisível e mal pago de mulheres e homens que o país insiste em não enxergar. (ecodebate)

terça-feira, 25 de agosto de 2026

El Niño pode elevar curtailment para 25% no Brasil em 2026

Um evento intenso de El Niño no final de 2026 pode elevar o curtailment (corte de geração) de energias renováveis no Brasil de 17% para 25%, segundo projeções da Aurora Energy Research. Isso pode gerar prejuízos superiores a R$ 8 bilhões para o setor e reduzir a entrega de energia solar em até 40%.

Impactos por Fonte Renovável

• Energia Solar Fotovoltaica: Redução de até 40% na energia efetivamente entregue ao Sistema Interligado Nacional (SIN).

• Energia Eólica Onshore: Queda estimada em 21% na geração escoada.

• O corte total de 25% representa um aumento de 47% em relação ao cenário-base previsto para o ano.

Fatores de Agravamento

• Dinâmica Climática: O El Niño reduz as afluências dos reservatórios hidrelétricos no Nordeste, mas eleva o fator de capacidade das usinas renováveis, gerando volume de energia acima da capacidade de escoamento da rede.

• Despacho Termelétrico: O acionamento de usinas térmicas fora da ordem de mérito devido à seca pode adicionar até 6 pontos percentuais extras de corte na energia solar, elevando o índice de curtailment para patamares próximos a 47% em situações críticas.

Aurora estima cortes de até 40% para a geração solar e alerta que despacho térmico fora da ordem de mérito pode elevar ainda mais os cortes.

Um El Niño forte no final de 2026 pode elevar para 25% o curtailment da geração renovável no Brasil, ante 17% no cenário de referência da Aurora Energy Research. A geração solar fotovoltaica pode ter até 40% de sua produção cortada, enquanto o curtailment da geração eólica onshore pode chegar a 21%, segundo modelagem nodal da consultoria.

O cenário considera apenas cortes associados a restrições energéticas e de confiabilidade do sistema.

A combinação de condições climáticas e de despacho pode aumentar a pressão sobre a geração renovável. No cenário de El Niño, o fator de capacidade da eólica onshore no Nordeste passaria de 47% para 52%, enquanto as afluências hidrológicas de médio e longo prazo na região cairiam de 53% para 40% da média histórica.

A maior produção renovável ocorreria, portanto, simultaneamente a uma menor disponibilidade hídrica, aumentando a necessidade de cortes de geração.

Segundo a Aurora, o custo total do curtailment poderia superar R$ 8 bilhões em 2026, mais que o dobro do estimado no cenário de referência. A elevação dos cortes representa um risco para os fluxos de caixa dos projetos e para a capacidade de pagamento da dívida de ativos contratados.

“Um forte evento de El Niño pode alterar de forma significativa a trajetória do curtailment no Brasil. Nossas modelagens indicam que o curtailment total das fontes renováveis pode alcançar 25% em 2026, muito acima das expectativas atuais”, afirma Rodrigo Borges, diretor executivo da Aurora Energy Research no Brasil.

Impacto do despacho térmico

A situação pode se agravar caso condições hidrológicas desfavoráveis levem à contratação ou ao despacho de usinas térmicas fora da ordem de mérito. A geração obrigatória dessas usinas reduz o espaço disponível para a geração renovável e pode aumentar os cortes.

A Aurora cita como referência a crise hídrica de 2021, quando os reservatórios do Sudeste caíram de aproximadamente 69% para 29% de armazenamento em cinco meses. Naquele ano, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) autorizou 37 TWh de geração térmica emergencial, equivalente a 32% da produção térmica total.

Em um cenário de El Niño acompanhado por uma seca severa, uma dinâmica semelhante poderia ocorrer. A modelagem da consultoria indica que 3 GW adicionais de geração térmica fora da ordem de mérito poderiam acrescentar até 6 pontos percentuais ao curtailment da geração solar. Nesse caso, o corte da geração fotovoltaica poderia chegar a 47% em 2026.

“O que torna 2026 particularmente complexo é a potencial interação entre o clima e a dinâmica de despacho. O El Niño reduz as afluências hidrelétricas no Nordeste ao mesmo tempo em que aumenta os fatores de capacidade das fontes renováveis, elevando o curtailment”, afirma Rodrigo Longo, senior associate da Aurora Energy Research.

O aumento das temperaturas associado ao El Niño também pode elevar a demanda por eletricidade para refrigeração, especialmente no Sudeste. O maior consumo tende a absorver parte da geração excedente e, consequentemente, reduzir a necessidade de cortes.

O efeito, contudo, seria apenas parcial. De acordo com a Aurora, mesmo considerando o aumento da demanda, o curtailment permanece acima do cenário central. O crescimento dos fatores de capacidade das fontes renováveis supera o efeito de mitigação proporcionado pelo aumento do consumo.

Para a consultoria, o cenário reforça a necessidade de investidores, desenvolvedores e financiadores incorporarem o risco de curtailment, incluindo seus componentes climáticos e de despacho, às avaliações financeiras e estratégias de gestão de risco dos projetos renováveis.

El Niño pode gerar perdas acima de R$ 8 bilhões para renováveis no Brasil. (pv-magazine-brasil)

Artista cria ilha flutuante feita com 150 mil garrafas plásticas num projeto sustentável

Artista cria ilha flutuante feita com mais de 150 mil garrafas plásticas em um dos projetos sustentáveis mais curiosos, deixando o mundo tod...