Entre ônibus lotados, escolas
sem ventilação e trabalhadores desmaiando nas ruas, o Brasil vive uma “epidemia
de calor” que ainda trata como exceção
O clima deixou de ser assunto
de conversa fiada sobre o tempo ‘lá fora’ e passou a ser algo que sinto no
corpo, no bolso e na cabeça.
Se você também tem essa
sensação, não é impressão sua. É a realidade.
Um país que já vive o “novo
normal” do clima
Um levantamento recente, o
relatório Brasil em Transformação, mostra algo que deveria estar estampado em
qualquer conversa sobre o futuro do país: 92% dos municípios brasileiros já
registraram algum tipo de desastre climático entre 1991 e 2023. Não é uma
minoria de cidades no litoral ou no semiárido. É praticamente o Brasil inteiro.
E o preço disso é medido em
números que doem: para cada 0,1°C a mais na temperatura média global, o país
perde cerca de R$5,6 bilhões. Isso sem contar que nenhuma planilha consegue
registrar o luto, o medo, a insônia, a ansiedade de quem perdeu a casa ou o
sustento.
A tragédia do Rio Grande do
Sul, em maio/2024, ainda está viva na memória de quem acompanhou, mais de 2,34
milhões de pessoas atingidas, vidas interrompidas, cidades inteiras debaixo
d’água. Na mesma época em que o Sul enfrentava enchentes históricas, a Amazônia
secava sob uma estiagem severa. Dois extremos, um só país, um só sistema
climático em desequilíbrio.
E o alerta não é só retrospectivo porque os especialistas do Cemaden, diante do potencial de um “super” El Niño, já vêm chamando 2026 de um possível “desastre térmico”, com risco real do Brasil bater novos recordes de calor no segundo semestre.
Calor é uma ameaça além da previsão do tempo
Se enchentes e deslizamentos
aparecem no noticiário com imagens fortes, o calor extremo age de um jeito bem
mais silencioso e por isso, talvez, mais perigoso.
Estudos apontam que, em cerca
de três décadas, aproximadamente 5 bilhões de pessoas no mundo estarão expostas
a pelo menos um mês por ano de calor prejudicial à saúde. Hoje, o calor
excessivo já é responsável por cerca de meio milhão de mortes por ano no
planeta.
O que isso significa na
prática? Mais gente com doenças cardíacas, mais crises de exaustão térmica,
mais desidratação, mais pressão alta. E também mais sofrimento psíquico.
Pesquisas mostram que a exposição contínua ao calor está associada a mais
estresse, irritabilidade, fadiga e distúrbios do sono.
Um dado que me marcou especialmente foi que 62% das pessoas entrevistadas em um estudo relataram sentir medo só de saber que vai chover forte. Isso é a crise climática entrando na saúde mental de um jeito que a gente ainda mal nomeia.
Trabalhar sob 40°C ou quando o emprego vira risco de vida
Uma das partes que mais me
tocou ao me aprofundar nesse tema foi entender o que o calor extremo faz com
quem trabalha.
A Organização Internacional
do Trabalho estima que 70,9% da força de trabalho mundial, cerca de 2,4 bilhões
de pessoas, já convive com risco de calor excessivo na rotina profissional. E o
impacto é objetivo porque acima de 34°C, a produtividade do trabalho pode cair pela
metade.
No Brasil, mais de 20 milhões
de pessoas trabalham ao ar livre na agropecuária, na limpeza urbana, na
reciclagem, no transporte, etc. Só em 2024, o Ministério Público do Trabalho
registrou um aumento de 35% nas denúncias sobre más condições térmicas em
ambientes de trabalho.
Pensa no motorista de ônibus,
dentro de um veículo sem climatização, com a cabine funcionando como uma
verdadeira câmara de calor, passando dos 40°C internamente. Ou no cobrador,
exposto horas a fio à radiação solar. Há relatos de trabalhadores passando mal,
desmaiando, vomitando e tudo isso enquanto cumprem uma jornada que, para muitos
passageiros, é só “mais um ônibus atrasado”.
Chegar exausto ao trabalho por causa do calor do trajeto não é frescura. É um fator real de risco à segurança, ao rendimento e à saúde de milhões de trabalhadores.
O clima não afeta todo mundo do mesmo jeito
Talvez a parte mais dura de
entender essa crise seja perceber que ela não é distribuída de forma justa. O
calor tende a bater com mais força exatamente em quem já tem menos recursos
para se proteger.
Países mais pobres: estima-se
que 80% da população mundial afetada pelo calor extremo esteja em regiões como
o Sul da Ásia e a África Subsaariana que são locais com menos acesso a saúde de
qualidade e climatização.
Trabalhadores informais e
terceirizados: muitas vezes sem água potável disponível, sem áreas de descanso,
sem pausas regulares, sem equipamentos de proteção e sem qualquer garantia de
afastamento remunerado caso adoeçam por causa do calor.
Bairros periféricos: com
menos árvores e infraestrutura inadequada, esses territórios sofrem mais com as
chamadas ilhas de calor urbanas, áreas onde o concreto e o asfalto elevam a
temperatura muito acima da média da cidade.
Estudantes de escolas
públicas: apenas 34% das salas de aula em escolas públicas brasileiras têm
climatização. Isso significa que boa parte dos (as) professores (as) e das
crianças e adolescentes do país estuda em ambientes que prejudicam
concentração, aprendizagem e saúde, enquanto quem pode pagar por uma escola
particular climatizada segue estudando em outra realidade.
Populações em áreas de risco:
a ausência histórica de políticas habitacionais empurra famílias para ocupações
irregulares em encostas e margens de rios, tornando-as as principais vítimas de
deslizamentos e enchentes.
Como resumiu bem um especialista sobre o cenário brasileiro: a verdadeira tragédia não é só o clima, é ser pobre e, ao mesmo tempo, invisível para quem decide as políticas públicas.
O que isso tem a ver com o seu bolso e o pequeno negócio da esquina
A
gente costuma pensar em mudanças climáticas como algo distante das contas do
fim do mês, mas não é bem assim.
Embora as fontes não detalhem
especificamente os “pequenos negócios”, os prejuízos econômicos diretos e
indiretos dos desastres climáticos são significativos e generalizados.
A perda da “forma produtiva
das pessoas” e a necessidade de redirecionar recursos públicos para a
reconstrução, em vez de investimentos em educação e saúde, impactam a economia
como um todo e, por consequência, a capacidade de subsistência de indivíduos e
a resiliência de pequenos empreendimentos.
A agricultura sente isso na
pele: menos água disponível e mais estresse térmico nas plantações aumentam o
risco de perda de safra, o que pressiona preços de alimentos e ameaça a
segurança alimentar. Comunidades que vivem da pesca ou do turismo também sofrem
diretamente quando o clima muda o ritmo dos rios, do mar e das estações.
Não é exagero dizer que, para muita gente, o clima virou sócio invisível e nada generoso do próprio sustento.
O que dá para fazer e porque não é só sobre desespero
Reconheço que até aqui este
texto pode parecer pesado. Mas acredito que entender a dimensão do problema é o
primeiro passo para cobrar e construir soluções. Algumas medidas que
especialistas defendem como urgentes:
Climatização de espaços
públicos essenciais: tratar ar-condicionado em escolas, postos de saúde e
transporte público como infraestrutura básica, não como luxo.
Mais infraestrutura verde nas
cidades: arborização, telhados verdes, calçadas permeáveis e praças com sombra
para reduzir as ilhas de calor.
Regras claras para o trabalho
sob calor extremo: limites de temperatura para atividades ao ar livre, pausas
obrigatórias, acesso garantido à água e proibição de trabalho externo em
condições extremas.
Educação climática de
verdade: campanhas que ajudem a população a reconhecer os sinais de risco e
saber como agir.
Participação das comunidades
locais: planos municipais de adaptação construídos com quem vive o problema
todos os dias, não só nos gabinetes.
Brasileiro é um dos que mais se preocupam com crise climática, mas confiança em ações do governo cai.
Por que continuo escrevendo sobre isso?
Não tenho a pretensão de
resolver a crise climática com um texto no EcoDebate. Mas percebi que, quanto
mais eu entendia os dados, menos eu conseguia tratar o calor como “só mais um
dia quente” ou a chuva forte como “azar do destino”. Existe uma engrenagem por
trás disso ela tem nome, tem causa e, em boa parte, tem solução.
Se este texto te fez lembrar
do calor dentro do ônibus, da escola sem ventilador ou de alguém que você
conhece trabalhando sob sol forte sem parar, talvez seja hora de a gente parar
de tratar isso como exceção.
Porque, goste-se ou não, essa
já é a nossa nova normalidade e quanto antes encararmos assim, antes
conseguimos, coletivamente, mudar o rumo dela. (ecodebate)


































