Pesquisa da Vrije
Universiteit Brussel (VUB) publicada na revista Science Advances mostra que o
calor extremo, impulsionado pela queima de combustíveis fósseis, já multiplicou
por dez a exposição prolongada de crianças brasileiras ao estresse térmico.
Especialistas alertam para a urgência de adaptação climática nas cidades.
Estudo publicado na revista
Science Advances aponta que 32% das crianças de até 9 anos no país enfrentam ao
menos 30 dias adicionais de estresse térmico; em cenário de 2°C de aquecimento,
proporção pode chegar a 49%.
Uma nova pesquisa da Vrije
Universiteit Brussel (VUB) mostra que, globalmente, até 560 milhões de crianças
de 0 a 9 anos — 43% das crianças dessa faixa etária — vivem pelo menos 30 dias
adicionais de estresse térmico por ano devido às mudanças climáticas. A
exposição supera a de qualquer outra faixa etária e é quase três vezes maior,
em números absolutos, do que a registrada entre pessoas de 60 a 69 anos: 190
milhões, ou 30% dessa população, enfrentam essa ameaça adicional à saúde.
No Brasil, as mudanças
climáticas causadas pela ação humana já expõem 9,2 milhões de crianças de 0 a 9
anos — 32% dessa população no país — a pelo menos um mês adicional de estresse
térmico por ano. O impacto é ainda mais expressivo quando se considera a
exposição prolongada ao calor: as mudanças climáticas multiplicaram por dez o
número de crianças brasileiras dessa faixa etária expostas a pelo menos 5 meses
de estresse térmico perigoso por ano, de 300 mil para 3,2 milhões, o
equivalente a 11% dessa população.
“São os nossos filhos que
serão mais atingidos pela crise climática. Como pais e mães que querem deixar
como legado um mundo ainda com qualidade de vida para os nossos filhos,
precisamos lutar pela adaptação climática nas cidades”, afirma o pediatra e
sanitarista Daniel Becker. “Isso significa pressionar para que as cidades sejam
muito mais arborizadas, que ofereçam sombra, inclusive nas áreas mais pobres e
periféricas, com bons espaços para as crianças brincarem. São os mesmos
investimentos que trazem qualidade de vida e adaptação climática, com soluções
baseadas na natureza”.
O estudo é a primeira análise
a quantificar como a exposição ao calor diretamente relacionada às mudanças
climáticas afeta diferentes grupos etários globalmente, tanto no presente
quanto em um futuro próximo. Os dados fazem parte da pesquisa publicada nesta
semana na revista científica Science Advances.
“Nossos resultados indicam
que, atualmente, quase um terço de todas as crianças brasileiras com menos de
10 anos está exposto a um mês adicional de estresse térmico por ano e que, se o
aquecimento global chegar a 2°C, essa proporção aumentará para quase metade das
crianças menores de 10 anos no Brasil”, destacou Rosa Pietroiusti, uma das
autoras do estudo. “Os países precisam investir urgentemente em mitigação e
adaptação, reduzir as emissões provenientes de fontes fósseis de energia,
conter o aquecimento global e proteger os grupos mais vulneráveis das
consequências do calor perigoso”.
Segundo a pesquisa, o calor
excessivo interfere no funcionamento normal do corpo humano, agrava doenças
preexistentes e pode levar a complicações graves, como insolação, desidratação
e falência de órgãos. As ondas de calor perigosas estão se tornando mais
frequentes e intensas devido às mudanças climáticas, impulsionadas
principalmente pela queima de combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e
gás.
O estudo concentra-se no
calor úmido, mais perigoso do que o calor seco porque dificulta a evaporação do
suor e, consequentemente, a capacidade do corpo de se resfriar, levando a
níveis perigosos de estresse térmico.
As crianças são especialmente
vulneráveis ao calor extremo porque seus corpos aquecem mais rapidamente do que
os dos adultos, transpiram com menos eficiência e dependem dos cuidados de
outras pessoas para se proteger. O superaquecimento pode causar riscos graves à
saúde, incluindo desidratação e insolação, além de impactos na aprendizagem e
no desenvolvimento cognitivo.
As descobertas chegam em um momento crítico para as políticas climáticas. A crise energética em curso evidenciou ainda mais os riscos da dependência de combustíveis fósseis, e 2026 já registrou algumas das ondas de calor mais severas já observadas, algumas delas virtualmente impossíveis sem a influência das mudanças climáticas.
Exposição das crianças brasileiras
No Brasil, quase metade das
crianças pode enfrentar pelo menos um mês adicional de calor em um mundo 2°C
mais quente. O estudo também projeta a exposição das crianças brasileiras em
cenários de 1,5°C e 2°C de aquecimento global.
Em um mundo 1,5°C mais quente
9,5 milhões de crianças
brasileiras de 0 a 9 anos, ou 38% dessa faixa etária, estarão expostas a pelo
menos um mês adicional de estresse térmico por ano;
2,9 milhões de crianças, ou
11%, vivenciarão pelo menos cinco meses — 150 dias — de estresse térmico total
por ano.
Em um mundo 2°C mais quente
8,7 milhões de crianças
brasileiras de 0 a 9 anos, ou 49% dessa faixa etária, estarão expostas a pelo
menos um mês adicional de estresse térmico por ano;
2,5 milhões de crianças, ou
14%, vivenciarão pelo menos cinco meses — 150 dias — de estresse térmico total
por ano.
Embora o número absoluto de crianças seja menor no cenário de 2°C, a proporção exposta aumenta de 38% para 49%. Isso ocorre porque as projeções consideram não apenas as mudanças no clima, mas também mudanças demográficas: a população infantil projetada é menor nesse cenário. A exposição atual, por sua vez, é estimada com base em dados populacionais de 2023.
Principais conclusões do estudo:
● Impactos atuais:
As mudanças climáticas quase
triplicaram o número de crianças expostas a pelo menos cinco meses (150 dias)
de estresse térmico total globalmente: de 120 milhões — 9% das crianças
atualmente — em um mundo sem mudanças climáticas para 350 milhões, ou 27%,
hoje. Esse número é quase três vezes maior do que o de adultos de 60 a 69 anos
expostos a pelo menos cinco meses de estresse térmico total: 120 milhões, ou
18% dessa população.
● Disparidade geográfica:
Os maiores aumentos de calor
úmido devido às mudanças climáticas estão ocorrendo em regiões tropicais e
países mais pobres, onde as populações são mais jovens e, portanto, mais
crianças são afetadas. Sul da Ásia, Sudeste Asiático e África Ocidental são as
regiões com o maior número de crianças expostas ao estresse térmico perigoso
atualmente.
● Cenários futuros:
As crianças continuarão
desproporcionalmente expostas em comparação com todos os outros grupos etários,
independentemente do envelhecimento da população global:
Em um mundo com +1,5°C:
estima-se que 620 milhões de crianças de 0 a 9 anos (49%) vivenciem pelo menos
um mês adicional de estresse térmico por ano, e 390 milhões (31%), pelo menos
cinco meses de estresse térmico total.
Em um mundo com +2°C:
estima-se que 650 milhões de crianças de 0 a 9 anos (59%) vivenciem pelo menos
um mês adicional de estresse térmico por ano, e 420 milhões (37%), pelo menos
cinco meses de estresse térmico total.
Estudo internacional revela
que a queima de combustíveis fósseis multiplicou por dez a exposição prolongada
ao estresse térmico entre menores de 9 anos no país.
Notas:
Como o estudo define estresse
térmico
Os dias de estresse térmico
são definidos como aqueles em que o índice WBGT (Wet Bulb Globe Temperature, ou
temperatura de globo e bulbo úmido) à sombra supera 28°C. Nessas condições,
medidas de proteção, como redução da atividade física ou períodos estruturados
de descanso, são recomendadas para prevenir doenças relacionadas ao calor.
O que são “dias adicionais”
de estresse térmico
Os dias adicionais
correspondem ao número de dias de estresse térmico atribuíveis às mudanças
climáticas causadas pela ação humana, ou seja, dias que não ocorreriam na
ausência das mudanças climáticas antropogênicas.
Essa estimativa é feita utilizando métodos de atribuição aplicados a dados de reanálise baseados em observações ou a dados de modelos climáticos globais.
Criança brinca em águas rasas sob um céu azul. Certos patógenos aquáticos estão se tornando mais comuns com o aquecimento global.
Dados populacionais e
projeções
A exposição atual da
população ao estresse térmico é estimada utilizando dados populacionais de
2023.
As projeções para um mundo
com 1,5°C e 2°C de aquecimento global consideram tanto as mudanças climáticas
estimadas pelos modelos climáticos globais quanto mudanças demográficas sob um
cenário intermediário de desenvolvimento socioeconômico.
Instituições participantes
O estudo foi conduzido por
uma equipe internacional de pesquisadores liderada pelo Departamento de Água e
Clima da Vrije Universiteit Brussel (VUB), em colaboração com pesquisadores da
ETH Zurique, Universidade de Oxford, Universidade de Waikato e Instituto
Potsdam para Pesquisa de Impactos Climáticos.
Outros estudos e relatórios
Os resultados deste estudo
também contribuíram para um relatório recente do UNICEF, que mostrou que 550
milhões de crianças em todo o mundo estão expostas ao calor extremo atribuível
às mudanças climáticas causadas pela ação humana.
O estudo acrescenta novas
evidências aos impactos já documentados das mudanças climáticas sobre a saúde
humana. O Lancet Countdown 2025 sobre Saúde e Mudanças Climáticas destaca danos
à saúde em todo o mundo associados ao calor extremo, eventos climáticos
extremos, secas e doenças infecciosas cada vez mais disseminadas, além da
pressão crescente sobre os sistemas de saúde.
Os autores da VUB também contribuíram para um relatório recente da Save the Children, segundo o qual cerca de 100 milhões das 120 milhões de crianças nascidas em 2020 enfrentarão uma exposição sem precedentes a ondas de calor.
El Niño faz aumentar o aquecimento global, gerando mudanças climáticas cada vez muito mais catastróficas. (ecodebate)
































