O Impacto nas Comunidades
Vulneráveis
• Populações afetadas: Agricultores
familiares, povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais sofrem
primeiro com a perda de fertilidade do solo.
• Insegurança alimentar e
hídrica: A escassez de água e a quebra de safras reduzem a produção de
alimentos e comprometem a renda local.
• Perda cultural: Povos
tradicionais enfrentam o esgotamento de plantas medicinais, caça e cursos
d'água essenciais para seus modos de vida.
Migração e Pobreza Urbana
• Êxodo rural: A falha
repetida das colheitas força moradores a abandonarem o campo.
• Pressão nas cidades: Esse
deslocamento alimenta a expansão urbana precária nas periferias, transferindo
as vulnerabilidades rurais para os centros urbanos.
Iniciativas e Desafios
• Contexto político e global:
O Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação busca articular
políticas públicas para conter o problema, e o país apresentou metas de
neutralidade de degradação da terra em fóruns internacionais.
• Ações locais: Sistemas agroflorestais na Caatinga demonstram alta capacidade de retenção de solo e aumento de biomassa, unindo a recuperação ambiental ao saber tradicional.
Imagem de satélite demonstra umidade no Semiárido.
Em 25/08/2026 durante a 17ª
Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à
Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, realizada em Ulan Bator, na
Mongólia, o Brasil apresentou sua primeira Meta Voluntária de Neutralidade da
Degradação da Terra. O compromisso reúne 17 submetas e alcança cerca de 3,67
milhões km2, equivalentes a 43,1% do território nacional. A dimensão
impressiona, mas precisa ser compreendida corretamente. Aproximadamente 95,5%
dessa extensão correspondem a áreas nas quais se pretende evitar o surgimento
ou o agravamento da degradação. A recuperação ou restauração propriamente dita
deverá abranger cerca de 163 mil km2 até 2030.
O anúncio ocorre em um
momento no qual a degradação dos solos deixa de ser vista como um problema
restrito ao interior do Nordeste e passa a ocupar uma posição estratégica nas
discussões sobre clima, água, biodiversidade e produção de alimentos. Essa
mudança já estava presente no Plano de Ação Brasileiro de Combate à
Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca 2025–2043, lançado em
março/2026. O plano procura articular políticas ambientais, agrícolas, hídricas
e sociais, reconhecendo que a perda da capacidade produtiva da terra amplia
vulnerabilidades que atingem milhões de pessoas.
A desertificação não
transforma necessariamente uma região em um deserto coberto por areia. Trata-se
da degradação das terras secas provocada pela combinação entre variações
climáticas e atividades humanas.
Quando a vegetação é retirada, o solo é utilizado além de sua capacidade de recuperação e as chuvas se tornam mais irregulares, diminuem a fertilidade, a retenção de água e a biodiversidade. A terra continua existindo, mas perde progressivamente sua capacidade de produzir alimentos, sustentar animais, armazenar carbono e garantir a sobrevivência das comunidades. É nesse sentido que a desertificação constitui também um processo social. Seus efeitos não se distribuem igualmente e recaem primeiro sobre aqueles que dependem diretamente dos recursos naturais para viver.
Um problema que ultrapassa o Semiárido
Seca, aridização, degradação
da terra e desertificação são fenômenos relacionados, mas não equivalentes. A
seca corresponde a um período de chuvas abaixo do esperado e pode ocorrer em
diferentes regiões. A aridização representa uma mudança mais duradoura das
condições climáticas, com redução da disponibilidade de água. A degradação
envolve a perda de qualidade do solo e da vegetação, inclusive em regiões
úmidas. A desertificação, por sua vez, ocorre nas terras secas e resulta da
interação entre condições climáticas adversas e formas insustentáveis de
utilização do território.
No Brasil, o problema está
historicamente associado ao Semiárido, mas não permanece confinado a ele.
Estudos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais
indicam que as áreas semiáridas vêm se expandindo em direção a partes da Bahia
e do norte de Minas Gerais. Ao mesmo tempo, secas prolongadas e temperaturas
mais altas aumentam a pressão sobre áreas do Cerrado, da Amazônia e do
Pantanal. Isso não significa que todos esses territórios estejam se convertendo
em desertos, mas revela que a perda de umidade e a degradação ambiental podem
ampliar consideravelmente as áreas suscetíveis.
A situação de Gilbués, no sul
do Piauí, ajuda a compreender essa complexidade. O município não está situado
no centro do Semiárido tradicional, mas em uma região de transição ambiental
com chuvas relativamente concentradas. A retirada da vegetação, a mineração
praticada no passado, a pecuária e a vulnerabilidade natural dos solos
contribuíram para a formação de sulcos profundos e extensas áreas atingidas
pela erosão. Em certos pontos, a água das chuvas escoa rapidamente sobre
terrenos desprotegidos, remove a camada superficial e abre grandes voçorocas. O
problema não nasce simplesmente da ausência de chuva. Paradoxalmente, chuvas
intensas sobre um solo degradado podem acelerar a destruição.
A erosão não retira apenas
terra. Ela carrega nutrientes, reduz a infiltração da água e diminui a matéria
orgânica indispensável à produção agrícola. À medida que o solo perde
fertilidade, a família rural precisa investir mais para obter uma colheita
menor. Quando não dispõe de crédito, assistência técnica ou acesso regular à
água, passa a reduzir a área plantada, abandonar determinados cultivos ou
vender animais que já não consegue alimentar.
Essa transformação pode ser
observada em Cabrobó, no sertão pernambucano, um dos núcleos históricos de
desertificação do país. O desmatamento da Caatinga, o pastoreio excessivo, as
queimadas e o uso continuado de solos frágeis comprometeram áreas destinadas à
agricultura e à criação de animais. Em áreas irrigadas, o manejo inadequado
também pode favorecer a salinização. A água evapora rapidamente sob
temperaturas elevadas e deixa sais acumulados na superfície. Com o tempo, a
terra irrigada para produzir pode perder sua capacidade de sustentar as mesmas
plantações.
A desertificação altera a
alimentação antes mesmo de provocar o abandono completo de uma propriedade.
Desaparecem primeiro os cultivos mais sensíveis ou aqueles destinados ao
consumo familiar. A produção pode ficar restrita a poucas espécies resistentes,
reduzindo a diversidade dos alimentos disponíveis. O leite, os ovos, a carne e
os vegetais cultivados nos quintais também diminuem quando falta água para os
animais e para as pequenas plantações. A família que antes obtinha parte
significativa de seus alimentos na própria terra passa a depender mais do
mercado justamente quando sua renda agrícola está em queda.
A desertificação costuma ser
atribuída genericamente à ação humana, uma formulação que esconde diferenças de
responsabilidade. Nem todos retiram a vegetação, consomem água ou exploram o
solo com a mesma intensidade. Em muitos territórios, famílias pobres participam
da retirada de lenha ou do pastoreio excessivo porque dispõem de poucas
alternativas econômicas. Os recursos extraídos, entretanto, podem abastecer
cadeias produtivas que ultrapassam as comunidades locais.
O Seridó, entre o Rio Grande
do Norte e a Paraíba, apresenta um exemplo concreto. A região foi marcada
historicamente pelo cultivo do algodão, pela criação de animais, pelas
queimadas e pela exploração de lenha. Parte da madeira retirada da Caatinga
alimentou fornos de atividades cerâmicas, responsáveis pela fabricação de
tijolos e telhas utilizados na construção civil. A vegetação nativa foi
transformada em energia barata, enquanto os custos ambientais permaneceram no
território.
A retirada continuada da
cobertura vegetal deixa o solo exposto ao sol e à erosão. A regeneração da
Caatinga torna-se mais lenta quando bovinos, caprinos e ovinos consomem os
brotos que surgem após as chuvas. Forma-se, assim, um ciclo no qual a
necessidade imediata de gerar renda compromete as bases ecológicas das
atividades futuras. Responsabilizar exclusivamente os pequenos produtores
ignora que a degradação está vinculada à demanda urbana por energia, alimentos,
minérios e materiais de construção.
Irauçuba, no Ceará, apresenta
outra combinação entre fragilidade ambiental e pressão econômica. O município
está localizado em uma região de chuvas escassas e irregulares, mas as
condições climáticas não explicam sozinhas a intensidade da degradação. O
desmatamento, o sobre pastoreio e práticas agropecuárias inadequadas reduziram
a cobertura vegetal e aumentaram a exposição do solo. A experiência local
mostra que a vulnerabilidade natural se converte em desertificação quando o uso
da terra ultrapassa os limites de regeneração do ambiente.
Os efeitos da degradação não
começam quando a terra se torna inteiramente improdutiva. Eles aparecem no
tempo gasto para buscar água, na diminuição dos alimentos cultivados, no
endividamento, na perda dos animais e na necessidade de procurar trabalho temporário
fora da comunidade. A desertificação aprofunda desigualdades já existentes
porque reduz as possibilidades econômicas dos territórios que dispõem de menos
infraestrutura e proteção pública.
As mulheres rurais costumam
ocupar uma posição central na produção de alimentos para o consumo doméstico,
no cuidado com pequenos animais, no cultivo dos quintais e na administração da
água. Quando as fontes próximas diminuem ou os reservatórios deixam de atender
às necessidades familiares, aumenta o trabalho necessário para manter a casa e
a produção. A perda ambiental transforma-se em sobrecarga cotidiana, embora
essa dimensão raramente apareça nos cálculos econômicos sobre os prejuízos da
seca.
Povos indígenas, comunidades
quilombolas e outras populações tradicionais também enfrentam riscos
específicos. A degradação ameaça plantas utilizadas na alimentação e na
medicina, reduz a disponibilidade de caça, compromete cursos d’água e
enfraquece práticas culturais vinculadas ao território. Para esses grupos,
recuperar o solo não significa apenas aumentar a produtividade agrícola.
Significa conservar relações sociais, conhecimentos e formas coletivas de
manejo construídas ao longo de gerações.
Durante muito tempo, as
políticas públicas trataram a seca como um inimigo a ser vencido por meio de
grandes obras hidráulicas e medidas emergenciais. Essa perspectiva
frequentemente concentrou água e poder, sem alterar a insegurança vivida pelas
comunidades rurais. A ideia de convivência com o Semiárido parte de outra
compreensão. A escassez e a irregularidade das chuvas fazem parte das
características regionais, mas não precisam produzir fome, dependência e
deslocamento quando existem infraestrutura, conhecimento e políticas adequadas.
A atuação da Articulação
Semiárido Brasileiro tornou-se uma das principais referências dessa abordagem.
As cisternas construídas próximas às moradias armazenam água das chuvas para o
consumo familiar. Outras estruturas permitem reservar água destinada à criação
de animais e à produção de alimentos. Os bancos comunitários de sementes ajudam
a conservar variedades adaptadas às condições locais, enquanto quintais
produtivos, sistemas agroflorestais e práticas agroecológicas diversificam a
produção e reduzem a exposição das famílias à perda de um único cultivo.
Essas tecnologias são simples
apenas na aparência. Uma cisterna modifica a organização do trabalho doméstico,
reduz o tempo dedicado à obtenção de água e permite atravessar períodos secos
com maior autonomia. Um banco de sementes diminui a dependência de variedades
comerciais pouco adaptadas. Um sistema agroflorestal protege o solo, conserva
umidade e combina recuperação ambiental com produção de frutas, forragem, mel e
outros alimentos.
A Meta Voluntária de
Neutralidade da Degradação da Terra representa um avanço porque oferece
referências para evitar, reduzir e reverter a degradação. Sua abrangência
nacional também reconhece que o problema não se limita aos núcleos históricos
de desertificação. Entretanto, a extensão territorial anunciada não pode
substituir a avaliação dos resultados efetivamente alcançados.
A recuperação de 163 mil km2
será insuficiente se novas áreas de vegetação nativa continuarem sendo
desmatadas ou degradadas. Neutralidade não significa autorização para destruir
em um lugar e compensar em outro. Solos, ecossistemas e comunidades não são
peças intercambiáveis. Uma área restaurada ao longo de alguns anos não recompõe
imediatamente a biodiversidade e as funções ecológicas de uma vegetação madura
eliminada.
O cumprimento da meta
dependerá ainda de recursos permanentes, coordenação entre diferentes níveis de
governo e continuidade das instituições responsáveis. A experiência de Gilbués
demonstra como projetos promissores podem perder capacidade quando centros de
pesquisa são abandonados. Também será necessário estabelecer indicadores que
mostrem não somente quantos hectares receberam alguma intervenção, mas se o
solo recuperou fertilidade, se a vegetação permaneceu, se a água voltou a
infiltrar e se as famílias conseguiram ampliar sua produção e sua renda.
As populações atingidas
precisam participar da definição, execução e fiscalização das ações.
Agricultores, povos indígenas, comunidades quilombolas e organizações locais
conhecem as limitações e possibilidades dos territórios onde vivem. Sem essa
participação, projetos de recuperação podem privilegiar o plantio de poucas espécies,
desconsiderar formas tradicionais de uso da terra ou beneficiar propriedades
que já dispõem de maior capacidade econômica.
A desertificação avança
lentamente, mas seus resultados permanecem por muito tempo. Ela começa com a
retirada da vegetação, a erosão de uma encosta, o desaparecimento de uma
nascente ou a redução de uma colheita. Quando esses sinais são tratados como
acontecimentos isolados, perde-se a oportunidade de impedir que a degradação
alcance um estágio mais difícil e caro de reverter.
Enquanto o mundo marca essa
data, o Congresso brasileiro segue em silêncio. Nenhum projeto estruturante de
adaptação climática nem política séria de proteção ao semiárido.
E o que está por vir é grave:
a NOAA, principal agência climática dos Estados Unidos, confirmou o retorno do
El Niño, com 60% de chance de atingir intensidade forte ainda este ano. No
Nordeste, o fenômeno significa uma coisa: Uma seca que pode colocar em risco
cidades inteiras.
Mais de 8,5 milhões de
pessoas vivem hoje em áreas de risco no Brasil. E enquanto essas famílias estão
expostas, o Congresso debate outras prioridades.
O Brasil precisa de políticas públicas reais, financiamento para adaptação e um Congresso que encare a emergência climática como o que ela é: uma questão de sobrevivência. (ecodebate)





























