sábado, 17 de outubro de 2026

Decisões empresariais ampliam a crise do plástico

As decisões empresariais e petroquímicas determinam a crise do plástico ao priorizar a fabricação de polímeros novos em detrimento de alternativas sustentáveis e da economia circular.

Origem e Cadeia do Plástico

• Foco na produção: A poluição plástica começa na exploração de petróleo e gás, e não apenas no descarte incorreto pelo consumidor.

• Uso breve: Grande parte do mercado foca em embalagens e descartáveis de curta duração que dominam resíduos costeiros globais.

• Responsabilidade estrutural: Debates ignoram o volume e o tipo de material fabricado pelas grandes corporações.

Contexto Econômico e Indústria no Brasil

• Protecionismo e mercado: O governo brasileiro renovou medidas para proteger a produção nacional de resinas contra a concorrência externa.

• Impacto nos custos: A alta do petróleo e gargalos logísticos internacionais elevaram drasticamente o preço de insumos como o polietileno.

• Desafios estruturais: O país enfrenta baixa taxa de reciclagem e alta dependência de poucos fornecedores de resina virgem.

Caminhos para a Solução

• Redução na fonte: Organizações internacionais defendem limites estritos à produção de plástico virgem.

• Economia circular: Metas de conteúdo reciclado e redesenho de embalagens ajudam a diminuir o impacto ambiental.

A prioridade de proibição deve recair sobre produtos desnecessários, embalagens excessivas e objetos descartáveis que podem ser substituídos por sistemas de reutilização

Em 06/07/2026, a quantidade de resíduos plásticos produzida no mundo desde o início do ano ultrapassou a capacidade dos sistemas existentes de administrá-la adequadamente. A data, denominada Plastic Overshoot Day (Dia da Sobrecarga do Plástico) pela organização Earth Action, marca o momento em que o volume de resíduos se torna maior do que a capacidade disponível para coletá-los, tratá-los e reciclá-los. Mesmo que toda a infraestrutura existente funcione dentro de seus limites, uma parcela desses materiais permanecerá sem destinação adequada e poderá ser queimada, abandonada em depósitos irregulares ou dispersa nos ambientes terrestres e aquáticos. Isso acontece porque a produção e o descarte de plásticos crescem mais rapidamente do que a capacidade criada para administrar seus resíduos.

A diferença entre o volume crescente de resíduos plásticos e a capacidade de administrá-los está no centro das negociações conduzidas pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) para a criação do Tratado Global contra a Poluição Plástica. O processo é realizado por um Comitê Intergovernamental de Negociação, formado por representantes dos países integrantes da Organização das Nações Unidas (ONU). A rodada ocorrida em Genebra, em agosto/2025, terminou sem consenso, e a reunião realizada em fevereiro/2026 não resolveu as principais divergências. De um lado, países e organizações defendem limites à produção de plástico novo, fabricado diretamente a partir de petróleo e gás, além do controle de substâncias químicas perigosas e da redução dos produtos descartáveis. De outro, governos ligados à produção de petróleo e setores da indústria petroquímica procuram concentrar o acordo no gerenciamento dos resíduos. A diferença determina se a comunidade internacional enfrentará a origem da crise ou continuará administrando suas consequências.

Essa disputa mostra por que a poluição plástica não pode ser compreendida apenas como consequência do descarte inadequado. O resíduo encontrado em ruas, rios e praias é a parte mais visível de uma cadeia que começa muito antes, na exploração de petróleo e gás, passa pelos complexos petroquímicos e chega ao mercado na forma de embalagens e objetos concebidos para uma utilização breve. Quando a responsabilidade é atribuída principalmente ao consumidor, permanecem fora do debate as decisões empresariais que determinam quais materiais serão produzidos, em que quantidade e com quais possibilidades reais de reutilização ou reciclagem.
A dependência petroquímica escondida nos objetos cotidianos

Em março de 2026, as interrupções no fornecimento de produtos petroquímicos pelo estreito de Ormuz elevaram os preços internacionais do plástico aos maiores níveis em quatro anos. A crise afetou principalmente o polietileno e o polipropileno, resinas utilizadas em embalagens, recipientes, utensílios domésticos e numerosos componentes industriais. Estima-se que produtos petroquímicos avaliados em até US$ 25 bilhões passem anualmente pela região.

Os efeitos chegaram rapidamente a diferentes países asiáticos. No Japão, a produção de polietileno sofreu forte redução, enquanto supermercados, empresas alimentícias e fabricantes de embalagens enfrentaram dificuldades para obter sacolas, bandejas e outros materiais. Algumas empresas passaram a oferecer incentivos para que os consumidores levassem recipientes reutilizáveis. O caso demonstrou de forma concreta que o plástico não constitui uma cadeia separada da economia do petróleo. Sua fabricação depende de matérias-primas fósseis, rotas internacionais, refinarias e complexos petroquímicos.

Os produtos petroquímicos absorvem atualmente entre 15% e 16% da demanda mundial de petróleo. Sua importância tende a crescer à medida que veículos elétricos, eficiência energética e políticas climáticas reduzem o consumo de combustíveis fósseis em determinados setores. Para empresas de petróleo e gás, ampliar a produção de resinas representa uma possibilidade de preservar mercados durante a transição energética.

Essa estratégia ajuda a explicar a resistência à inclusão de metas de redução no tratado internacional. Um acordo limitado à coleta e à destinação dos resíduos permite que a produção continue crescendo. Já um instrumento que alcance todo o ciclo de vida do plástico interfere nos investimentos petroquímicos, nas decisões sobre embalagens e na expansão de produtos descartáveis.

A vinculação com os combustíveis fósseis acrescenta uma dimensão climática ao problema. A extração das matérias-primas, o refino, a fabricação das resinas, o transporte e a incineração produzem emissões de gases de efeito estufa. Quando a análise começa apenas no momento do descarte, essas etapas desaparecem do cálculo social e ambiental.
A contaminação alcança solos, costas e alimentos

Em setembro/2026, resultados do projeto europeu MINAGRIS acrescentaram uma dimensão importante ao debate. Depois de examinar 227 áreas agrícolas em 11 países, os pesquisadores encontraram microplásticos em todas elas. Os fragmentos não estavam isolados. Interagiam com pesticidas, medicamentos veterinários, poluentes e comunidades de microrganismos.

A presença de microplásticos nos solos pode afetar organismos responsáveis pela fertilidade, pelo movimento de nutrientes e pela manutenção da estrutura do terreno. Os experimentos também identificaram prejuízos ao desenvolvimento das plantas, especialmente quando a contaminação plástica se combinava com períodos de seca. Materiais anunciados como biodegradáveis tampouco representam uma solução automática, pois podem fragmentar-se antes de sua decomposição completa.

A descoberta aproxima a poluição plástica da questão alimentar. Fragmentos presentes em solos agrícolas podem ser transportados pela água, aderir a outros contaminantes e interferir nos processos ecológicos dos quais depende a produção. Populações rurais e trabalhadores agrícolas enfrentam riscos que não foram criados por suas escolhas individuais, mas por cadeias produtivas que introduzem plásticos em embalagens, coberturas de cultivo, sistemas de irrigação, fertilizantes e outros insumos.

Nos ambientes costeiros, outra pesquisa publicada em 2026 analisou mais de 5.300 levantamentos reunidos por 355 estudos. Os dados cobriram diretamente 94 países e permitiram estimativas para outros 18. Embalagens plásticas de alimentos e bebidas apareceram em 93% dos países avaliados, constituindo a forma mais disseminada de resíduo costeiro identificável.

Os resultados ajudam a superar a imagem de que a poluição das praias decorre apenas do comportamento de frequentadores locais. Os materiais podem percorrer rios, redes de drenagem, sistemas de esgoto e longas distâncias marítimas. Também podem chegar por meio do transporte de mercadorias e do comércio internacional de resíduos. Mesmo países com estruturas avançadas de coleta apresentaram elevada presença de embalagens nas costas.

Para pescadores artesanais, comunidades litorâneas e trabalhadores dependentes do turismo, o problema possui consequências econômicas diretas. A redução da qualidade ambiental interfere na pesca, degrada paisagens e aumenta os custos de limpeza suportados pelos municípios. Mais uma vez, os prejuízos atingem grupos que não controlam a produção nem o desenho das embalagens responsáveis pela contaminação.
A injustiça acompanha todo o ciclo do plástico

A desigualdade não aparece somente quando os resíduos chegam aos rios e oceanos. Ela acompanha o plástico desde a extração das matérias-primas. Comunidades próximas a refinarias, complexos petroquímicos, instalações de reciclagem, incineradores, aterros e depósitos irregulares ficam mais expostas a emissões, odores, ruído, tráfego industrial e contaminação da água e do solo.

Essas instalações não são distribuídas ao acaso. Com frequência, concentram-se em territórios ocupados por populações de baixa renda, comunidades negras, indígenas e outros grupos historicamente discriminados, que possuem pouca capacidade de influenciar as decisões políticas. A conveniência proporcionada aos consumidores e os ganhos obtidos pelas empresas convivem, assim, com custos sanitários e ambientais concentrados nesses territórios.

Nas periferias urbanas, a ausência de coleta regular favorece o acúmulo de embalagens em terrenos, córregos e canais. Durante chuvas intensas, os resíduos contribuem para obstruir sistemas de drenagem e agravar alagamentos. Famílias que vivem em áreas sujeitas a inundações perdem móveis, documentos e equipamentos, embora tenham participação mínima nas decisões industriais que multiplicam os produtos descartáveis.

No Brasil, a transferência dos custos da poluição plástica também alcança as catadoras e os catadores, responsáveis por parcela expressiva dos materiais que retornam ao ciclo produtivo. Como analisado no artigo Catadores, economia circular e o trabalho invisível que sustenta a reciclagem no Brasil, publicado em 06/09/2026 na plataforma socioambiental EcoDebate, esses trabalhadores absorvem o tempo e o prejuízo provocados por embalagens que chegam às cooperativas identificadas como recicláveis, mas não possuem valor comercial nem condições efetivas de reaproveitamento. No presente artigo, essa realidade constitui uma das consequências de um problema mais amplo, cuja origem está na expansão da produção, no desenho inadequado das embalagens e na resistência em atribuir às empresas os custos integrais dos produtos que colocam no mercado.

O fortalecimento das cooperativas e a remuneração dos serviços ambientais são indispensáveis. Entretanto, essas medidas não podem substituir a redução de materiais desnecessários e o redesenho das embalagens. Ampliar a reciclagem sem mudar a produção significa enviar volumes crescentes de materiais de baixo valor e rejeitos para trabalhadores que já ocupam a posição mais vulnerável da cadeia.
As decisões empresariais antecedem as escolhas individuais

Campanhas de educação ambiental geralmente recomendam reduzir o consumo, reutilizar recipientes e separar materiais recicláveis. Essas práticas são importantes, mas ocorrem dentro de um mercado previamente organizado pelas empresas. O consumidor raramente decide a composição da embalagem, a combinação de polímeros, a quantidade de material utilizada ou a existência de sistemas de retorno.

Essas decisões empresariais também determinam se uma embalagem poderá ser efetivamente reciclada. A reciclagem enfrenta limitações físicas, tecnológicas e econômicas. Existem diferentes tipos de polímeros, aditivos, pigmentos, adesivos e combinações de materiais. Muitas embalagens utilizadas para conservar alimentos são constituídas por várias camadas inseparáveis. Mesmo quando carregam símbolos de reciclabilidade, podem não encontrar tecnologia disponível, escala de processamento ou compradores interessados.

A concentração das campanhas no comportamento individual produz uma interpretação incompleta. A poluição passa a ser apresentada como consequência da falta de consciência de quem compra ou descarta, enquanto fabricantes, importadores, distribuidores e grandes redes comerciais aparecem como participantes voluntários de projetos ambientais.

A responsabilidade ampliada do produtor procura corrigir essa distorção. O princípio determina que as empresas participem dos custos de recolhimento, tratamento e destinação dos produtos que colocam no mercado. Também pode estimular embalagens reutilizáveis, reduzir materiais de difícil reciclagem e favorecer a utilização de resinas recuperadas.

No Brasil, o Decreto nº 12.688, publicado em outubro/2025, instituiu o sistema de logística reversa de embalagens plásticas. A norma estabeleceu responsabilidades para fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes e previu a participação prioritária de cooperativas e organizações de catadores. Em 2026, o início de sua implementação passou a coexistir com decisões voltadas à proteção da indústria nacional de resinas.

Em agosto/2026, o governo brasileiro renovou medidas destinadas a proteger a produção nacional de resinas plásticas diante da concorrência estrangeira e das dificuldades enfrentadas pelo setor petroquímico. O episódio mostra que as decisões sobre os plásticos não pertencem apenas à política ambiental. Elas envolvem empregos, preços, comércio exterior, manutenção da capacidade industrial do país e poder econômico das grandes empresas.

A proteção da indústria nacional pode apoiar-se em razões econômicas que, em determinadas circunstâncias, são legítimas. Isso, porém, não dispensa compromissos ambientais proporcionais. Incentivos e barreiras comerciais não deveriam servir apenas para sustentar a produção de plástico novo. Também deveriam favorecer materiais reciclados, sistemas de reutilização e produtos concebidos para permanecer por mais tempo em circulação.

Reduzir antes de administrar os resíduos

O Tratado Global contra a Poluição Plástica decidirá se a cooperação internacional alcançará as etapas anteriores ao descarte. Um acordo concentrado exclusivamente na gestão dos resíduos preservará a possibilidade de crescimento contínuo da produção e deixará grande parte das obrigações com municípios, consumidores e trabalhadores da reciclagem.

Um instrumento mais amplo não precisa proibir indistintamente todos os plásticos. O material possui funções necessárias em equipamentos médicos, conservação de alimentos, saneamento, construção e diversas tecnologias. A prioridade deve recair sobre produtos desnecessários, embalagens excessivas e objetos descartáveis que podem ser substituídos por sistemas de reutilização.

O controle das substâncias químicas também deve ocupar lugar central. A produção de plásticos utiliza aditivos destinados a conferir flexibilidade, resistência, cor, estabilidade térmica ou proteção contra água e gordura. A falta de transparência sobre a composição dificulta a avaliação dos riscos e compromete a própria reciclagem, pois materiais com substâncias desconhecidas retornam ao processo produtivo.

Metas de reutilização, sistemas de depósito e devolução, tributação diferenciada, padrões obrigatórios de desenho e financiamento empresarial da coleta podem combinar prevenção e responsabilidade econômica. As medidas precisam considerar as condições de cada país, evitando transferir obrigações inviáveis aos municípios mais pobres ou transformar territórios vulneráveis em destinos dos resíduos gerados nos centros de maior consumo.

A crise do plástico não será resolvida por uma tecnologia isolada nem pela substituição indiscriminada de todos os materiais. Ela exige critérios públicos para definir quais usos são necessários, quais podem ser eliminados e quem deve responder pelos custos. Exige ainda reconhecer que a capacidade de coleta e reciclagem possui limites.

Enquanto a produção permanecer fora do centro das decisões, a sociedade continuará tentando recolher uma quantidade crescente de resíduos. Praias poderão ser limpas, embalagens serão separadas e campanhas recomendarão mudanças de comportamento, mas a fonte do problema permanecerá aberta. Enfrentar a poluição plástica significa agir antes do descarte, quando empresas e governos decidem o que será produzido, em qual quantidade e sob quais responsabilidades. (ecodebate)

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Calotas polares perderam 12,5 trilhões de toneladas de gelo em menos de 50 anos

Aquecimento global: é preocupante que os polos da Terra estejam cada vez menos brancos.

Poluição reduz a capacidade das calotas polares de refletir a radiação solar, contribuindo para o aumento de temperaturas. Processo é considerado por cientistas um 'ciclo vicioso irreversível'.

As calotas polares da Groenlândia e da Antártida perderam cerca de 12,5 trilhões de toneladas de gelo (aproximadamente 11,3 trilhões de toneladas métricas) entre 1979 e 2023, de acordo com um estudo publicado na revista Scientific Data.

Detalhes da Pesquisa

• Aceleração: Dois terços de todo o derretimento ocorreram apenas nas últimas duas décadas, com aceleração marcante a partir de 2010.

• O verdadeiro vilão: 5/6 do degelo foram causados por águas oceânicas mais quentes que corroem as geleiras por baixo e pelas laterais, e não pelo ar quente da atmosfera.

• Impacto no nível do mar: A água derretida elevou o nível global dos oceanos em cerca de 3,1 centímetros desde 1979.

• Volume: A quantidade de gelo perdida equivale a um volume capaz de cobrir todo o território continental dos Estados Unidos com uma camada de 1,5 metro de espessura.

• Dados de satélite: O levantamento internacional reuniu informações de 27 missões de satélite para avaliar o balanço de massa das regiões polares.

Um estudo internacional revela que o degelo na Groenlândia e na Antártida saiu do controle nos últimos anos, e a água que já derreteu seria suficiente para cobrir todos os Estados Unidos com uma camada de gelo de 1,5 metro.

Pesquisa publicada na revista Scientific Data mostra que dois terços do derretimento das calotas polares aconteceram apenas nas últimas duas décadas, puxados principalmente por oceanos mais quentes e não pelo ar.

Existem números que a gente lê e esquece no minuto seguinte. E existem números que fazem a gente parar, reler e sentir um frio (talvez irônico, considerando o tema) na espinha. Os 12,5 trilhões de toneladas de gelo que a Groenlândia e a Antártida perderam desde 1979 estão na segunda categoria.

Para colocar em perspectiva, essa quantidade de gelo derretido daria para cobrir todo o território continental dos Estados Unidos com uma camada de 1,5 metro de espessura. É o tipo de comparação que parece exagero de roteiro de filme catástrofe, mas vem de um estudo sério, publicado na revista científica Scientific Data, conduzido por uma colaboração internacional de cientistas liderada pela Agência Espacial Europeia (ESA).

O gelo polar desempenha um papel fundamental na reflexão da radiação solar.

Poluição reduz a capacidade das calotas polares de refletir a radiação solar, contribuindo para o aumento de temperaturas. Processo é considerado por cientistas um 'ciclo vicioso irreversível'.

Um oceano de água que já mudou o nível do mar

Toda essa água, cerca de 11,3 quadrilhões de litros, não desapareceu. Ela foi parar nos oceanos e já empurrou o nível global do mar para cima em aproximadamente 3,1 centímetros desde 1979.

Pode parecer pouco diante de um número tão gigantesco quanto 12,5 trilhões de toneladas, mas a cientista de gelo Ines Otosaka, da Northumbria University, na Inglaterra e autora principal do estudo, explica por que cada centímetro conta tanto: a cada terço de centímetro de aumento no nível do mar, entre 2 e 3 milhões de pessoas passam a sofrer com inundações costeiras pelo menos uma vez por ano.

Ou seja, não estamos falando de um problema distante, guardado em algum lugar gelado do planeta. Estamos falando de comunidades inteiras, muitas vezes as mais vulneráveis, que vão sentir esse aumento na prática, com água invadindo ruas, casas e plantações.

A temperatura na península Antártica, ao Sul do planeta, aumentou 2,5°C nos últimos 50 anos. Mas a região que mais esquentou no mundo é o Ártico, no hemisfério Norte.

Aquecimento global: por que é preocupante que os polos da Terra estejam cada vez menos brancos

O vilão inesperado: não é o ar, é a água

Um dos achados mais interessantes da pesquisa desafia uma ideia bastante intuitiva. A gente costuma imaginar o degelo como resultado direto do ar mais quente derretendo o gelo por cima, como um sorvete no sol. Mas o estudo mostra que cinco sextos de todo esse derretimento vêm de outro processo, menos visível e mais silencioso: águas oceânicas mais quentes corroendo as geleiras por baixo e pelas laterais, fazendo com que blocos inteiros de gelo se soltem e escorreguem para o mar.

É um mecanismo mais difícil de enxergar do que o gelo derretendo ao sol, mas com um poder de destruição enorme. Um exemplo concreto disso é a geleira Jakobshavn, na Groenlândia, que hoje recua até 50 metros por dia. Para quem já visitou geleiras e viu de perto essas paredes de gelo que parecem eternas, é difícil não sentir um aperto ao imaginar essa velocidade de retração.

A Groenlândia está cheia de corpos d'água como esse, e o gelo reflete cada vez menos.

Décadas de estabilidade que já ficaram para trás

Até pouco tempo atrás, os cientistas conseguiam medir o derretimento das calotas polares apenas a partir dos anos 1990, usando dados de satélites europeus. Ao incorporar também satélites da Nasa, a equipe conseguiu reconstruir o histórico do volume de gelo na Antártida desde 1979 e na Groenlândia desde 1972, ganhando quase duas décadas extras de perspectiva.

E o que essa linha do tempo mais longa revela é justamente o que mais preocupa os pesquisadores, o ritmo do derretimento não é constante, ele está acelerando. Nas décadas de 1970, 1980 e ainda parte dos anos 1990, as calotas de gelo se mantinham relativamente estáveis. A virada começou a aparecer depois disso, e ganhou força de verdade na década de 2010.

Entre 2020 e 2023, os números pareceram desacelerar, o que poderia soar como uma notícia positiva. Otosaka, porém, faz questão de esclarecer que essa pausa reflete apenas variações climáticas de curto prazo, não uma mudança de tendência. Segundo ela, dados mais recentes, coletados depois do fechamento oficial do estudo, mostram que a aceleração do degelo já voltou a ganhar força.

O papel curioso da neve no Leste Antártico

Outro ponto que chama atenção é que boa parte da estabilidade observada na Antártida como um todo, nos últimos anos, se deve a um fator específico: nevascas recordes no Leste Antártico. Esse acúmulo extra de neve ajudou a compensar, ao menos parcialmente, o derretimento acelerado que já acontece na região menos estável do continente, a Camada de Gelo do Oeste Antártico.

É como se uma parte do gelo estivesse, por ora, segurando as pontas por outra que já está em colapso mais avançado. Um equilíbrio frágil, que os próprios cientistas fazem questão de não confundir com uma solução de longo prazo.

No fim das contas, o que esse estudo entrega não é apenas um número impressionante para abrir uma reportagem. É um retrato cada vez mais nítido de como o aquecimento global está reconfigurando, de baixo para cima e de dentro para fora, dois dos maiores reservatórios de água doce congelada do planeta, com consequências que já chegam à porta de milhões de pessoas ao redor do mundo.

O que mais se perdeu é o gelo marinho do Ártico, mas essa mudança é reversível se agirmos logo, alerta Lucas Ruiz, do Instituto Argentino de Nivologia, Glaciologia e Ciências Ambientais. (ecodebate)

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Mais de 3.500 espécies já estão ameaçadas pelas mudanças climáticas

Um estudo publicado na revista científica BioScience aponta que pelo menos 3.585 espécies de animais já enfrentam risco direto de extinção devido às mudanças climáticas.

Detalhes da Pesquisa

• Grupos mais afetados: Invertebrados marinhos e animais com menor capacidade de locomoção rápida para escapar de condições extremas lideram a vulnerabilidade.

• Classes em risco: Pelo menos um quarto das espécies avaliadas em 6 classes de animais — incluindo aracnídeos, centopeias (quilópodes), antozoários e hidrozoários (como corais e águas-vivas) — estão sob ameaça direta do aquecimento global.

• Nova pressão: Embora a destruição de habitats e a exploração humana continuem sendo os principais vetores de perda de biodiversidade, a crise climática avança rapidamente como uma terceira grande força destrutiva.

• Eventos extremos: Ondas de calor marinhas, secas e domos de calor já provocam mortandades em massa na fauna global, gerando efeitos cascata nos ecossistemas.

Estudo liderado pela Oregon State University mostra que o aquecimento global se tornou a terceira grande ameaça à biodiversidade, ao lado da caça predatória e da destruição de habitats

Pesquisa reúne dados de mais de 70 mil espécies e revela que 94,5% da fauna descrita no planeta ainda não teve seus riscos climáticos avaliados, um ponto cego que pode custar caro para a conservação global.

Imagine um mar sem mexilhões nem mariscos, um recife sem cor e uma colônia inteira de aves que simplesmente desaparece de uma temporada para a outra. Não é ficção científica. É o retrato que uma nova pesquisa liderada pela Oregon State University (OSU) traça para o presente da vida selvagem no planeta.

O levantamento aponta que mais de 3.500 espécies animais já enfrentam ameaças diretas ligadas às mudanças climáticas. E o mais preocupante talvez não seja esse número isolado, mas o que ele representa: o clima deixou de ser um problema distante e se tornou, segundo os pesquisadores, a terceira grande força capaz de empurrar espécies inteiras para a extinção, ao lado de duas ameaças já bem conhecidas, a superexploração de recursos naturais e a destruição de habitats.

Uma nova fase na crise da biodiversidade

Durante décadas, quem estudava a perda de espécies olhava principalmente para dois vilões: a caça e a pesca predatórias, e o desmatamento ou a ocupação de áreas naturais. Esses dois fatores continuam presentes, mas os cientistas da OSU alertam que o aquecimento global já não é mais coadjuvante nessa história.

William Ripple, ecologista que lidera o estudo, resume a situação de forma direta: para ele, a fauna selvagem da Terra está entrando em uma fase que pode ser chamada de crise existencial. Não se trata mais de prever um risco futuro, e sim de descrever um processo que já está em curso, com espécies inteiras sendo atingidas neste exato momento.

Quem está mais vulnerável

Para chegar a essas conclusões, a equipe analisou dados de 70.814 espécies distribuídas em 35 classes diferentes, usando como referência as categorias de risco da União Internacional para a Conservação da Natureza, a IUCN.

O resultado mostra um padrão preocupante: em pelo menos seis classes de animais, mais de um quarto das espécies avaliadas já está ameaçado pelo clima. Aranhas, escorpiões e centopeias aparecem nessa lista, assim como corais, águas-vivas e outros invertebrados marinhos, considerados pelo estudo como o grupo mais vulnerável de todos.

A explicação para essa fragilidade está ligada a algo simples: esses animais têm pouca ou nenhuma capacidade de se mover rapidamente para escapar de condições adversas. Enquanto um pássaro pode migrar para uma região mais fria, um coral ou uma esponja no fundo do mar não tem para onde ir quando a temperatura da água sobe. E é justamente o oceano que vem absorvendo a maior parte do calor excedente gerado pelo aquecimento global, o que transforma os ambientes marinhos em um dos pontos mais críticos do planeta.

Quando o calor mata em massa

As mudanças climáticas são a principal ameaça às espécies em risco de extinção

Estudo mostra que o maior fator de risco para espécies em risco de extinção são as consequências das mudanças climáticas.

Um dos aspectos mais impactantes do estudo é a forma como ele descreve os efeitos dos eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas, incêndios florestais e inundações. Esses episódios não causam apenas mortes pontuais. Eles provocam mortandades em massa, capazes de reconfigurar ecossistemas inteiros em pouco tempo.

E os efeitos não param na perda direta de vidas. Quando um grande número de animais morre de uma só vez, a ciclagem de nutrientes e os processos ligados ao carbono no ambiente também são afetados. Interações essenciais para o equilíbrio da natureza, como predação, competição, polinização e parasitismo, deixam de funcionar como deveriam, gerando um efeito cascata que pode comprometer a saúde de todo um ecossistema.

Os exemplos reunidos pelos pesquisadores dão uma dimensão concreta desse cenário:

Espécie/Local

Impacto registrado

Causa direta

Moluscos na costa de Israel

Queda 90% na população

Elevação temperatura d’água

Invertebrados interditais no Noroeste do Pacífico

Bilhões de mortes

Domo de calor de 2021

Recifes Grande Barreira de Corais

Perda 29% da cobertura de coral

Onda de calor marinha de 2016

Airos comuns na costa oeste da América do Norte

Cerca de 1 milhão de mortes por inanição

Alteração na teia alimentar (2015 a 2016)

Bacalhau do Pacífico

Declínio 71% da população

Maior demanda metabólica e menos presas disponíveis

Baleias jubarte no Pacífico Norte

Cerca de 7 mil mortes

Ondas de calor marinhas

São números que, colocados lado a lado, deixam de parecer eventos isolados e passam a contar uma história em comum: a de um sistema natural sob pressão crescente.

"Entre os anos de 2022 e 2025, o número de ocorrências de espécies no Brasil subiu 65,49%, atingindo 37,5 milhões.

O maior obstáculo pode ser a falta de dados

Se os números já assustam, o que os cientistas descrevem como ponto cego pode ser ainda mais preocupante. As 70.814 espécies analisadas no estudo representam apenas 5,5% de tudo o que já foi descrito pela ciência em termos de vida selvagem. Ou seja, mais de 94% das espécies conhecidas ainda não tiveram seus riscos climáticos sequer avaliados.

Esse déficit não é distribuído de forma equilibrada. Das 101 classes de seres vivos existentes, 66 nunca tiveram uma única espécie avaliada pela Lista Vermelha da IUCN, principal referência global sobre risco de extinção. E há outro detalhe revelador: a lista é fortemente concentrada em vertebrados, que representam menos de 6% de todas as espécies animais já nomeados no planeta. Isso significa que boa parte do que se sabe hoje sobre risco climático vem de um recorte pequeno e pouco representativo da biodiversidade real.

Na prática, isso quer dizer que grupos inteiros, como muitos invertebrados, artrópodes e organismos marinhos menos estudados, podem estar sob ameaça sem que ninguém tenha ainda documentado isso formalmente.

A partir de 05/03/2026 entrou em vigor novas regras internacionais que vão mudar o comércio de fauna e flora silvestres.

O que os cientistas propõem daqui para frente

Diante desse cenário, a equipe da OSU não se limita a diagnosticar o problema. O estudo apresenta um conjunto de recomendações que, segundo os autores, são necessárias para reduzir o risco de decisões políticas tomadas às cegas:

Criar um banco de dados global dedicado a registrar eventos de mortalidade em massa relacionados ao clima, cobrindo diferentes ecossistemas ao redor do mundo.

Acelerar a avaliação de espécies hoje ignoradas pelos sistemas de classificação de risco, especialmente fora do grupo dos vertebrados.

Implementar revisões periódicas de risco climático, levando em conta a capacidade de adaptação de cada espécie.

Integrar, de forma mais efetiva, as políticas de biodiversidade e as políticas climáticas, hoje tratadas com frequência como agendas separadas.

Por que isso importa para todos nós

É fácil olhar para números de espécies distantes, como corais em recifes do outro lado do mundo ou moluscos na costa de Israel, e sentir que o problema não toca a vida cotidiana. Mas cada uma dessas perdas está conectada a cadeias alimentares, à produção de alimentos, à regulação do clima e até a economia de comunidades inteiras que dependem da pesca ou do turismo ligado à natureza.

O recado central do estudo da Oregon State University não é apenas alertar sobre uma nova ameaça. É mostrar que, sem entender de verdade a extensão desse risco, especialmente nas espécies que ainda não foram avaliadas, será muito difícil construir políticas de conservação realmente eficazes. Entender o tamanho do problema, afinal, é o primeiro passo para conseguir enfrentá-lo. (ecodebate)

domingo, 11 de outubro de 2026

O que um estudo do MIT revela sobre comida, energia e desigualdade em 2050

Imagens de comida desperdiçada no Ceasa, em São Paulo/SP

Uma nova modelagem climática e econômica sugere que, em algumas décadas, sobreviver vai depender menos do clima em si e mais da renda e do endereço de cada família.

Pesquisadores do MIT simularam quase 4.000 futuros possíveis para 2050. Em boa parte deles, um mesmo padrão se repete: os mais pobres podem chegar a gastar metade do que ganham só para comer, enquanto os mais ricos, na mesma cidade, gastam uma fração disso.

Tem um exercício simples que quase todo mundo já fez sem perceber. É aquele momento, no fim do mês, em que a conta de luz chega junto com a lista de compras do mercado e alguma coisa no orçamento precisa ceder. Para muitas famílias, essa conta nunca fecha de verdade: só se reorganiza, mês após mês, entre o que falta e o que pode esperar.

Um grupo de cientistas do MIT decidiu levar essa sensação cotidiana para dentro de um modelo matemático e projetá-la até 2050. O resultado, publicado na revista científica Earth’s Future, não é exatamente uma previsão sobre o clima. É uma radiografia de como o clima, a economia e a desigualdade vão se misturar na vida real, dentro da geladeira e no medidor de energia de cada casa.

Quase quatro mil futuros, testados um a um

Em vez de apostar em um único cenário, a equipe usou o GCAM, um dos modelos mais completos de simulação econômica e ambiental do mundo, para rodar 3.735 combinações diferentes de crescimento econômico, uso da terra, produção de energia e comércio de alimentos. A ideia não foi adivinhar o futuro, mas mapear todos os caminhos plausíveis até ele, do mais confortável ao mais duro.

Para que esse mapa tivesse alguma utilidade prática, o planeta foi fatiado em pedaços bem menores do que “países” ou “continentes”: 32 grandes regiões, 235 bacias hidrográficas e 384 áreas de uso da terra. É uma escala que se aproxima mais da vida real, porque ninguém paga a conta de luz de um continente inteiro. Cada família paga a sua, na sua rua, no seu clima local.

Metade do salário só para comer

O achado mais duro do estudo é também o mais simples de entender. Em determinadas regiões e cenários, famílias de baixa renda podem chegar a comprometer cerca de 50% de tudo o que ganham apenas com alimentação. No mesmo lugar, na mesma época, os grupos mais ricos gastariam perto de 5% para se alimentar igualmente bem.

Não é uma diferença de gosto ou de hábito de consumo. É uma diferença de margem de manobra. Quando metade do salário vai para o prato, sobra muito pouco para qualquer outra coisa: remédio, escola, conserto de casa, uma emergência qualquer.

Peso da alimentação na renda das famílias mais pobres

África Ocidental, 2015 25%

África Ocidental, projeção 2050 até 75%

África Austral, 2015 20%

África Austral, projeção 2050 até 65%

Faixas projetadas pelo estudo para os cenários mais severos entre as 3.735 combinações simuladas.

Comprometer metade da renda com uma única necessidade básica pode desorganizar uma vida inteira, porque sobra pouco espaço para lidar com qualquer outro imprevisto.

Ideia central atribuída a Jennifer Morris, cientista de pesquisa do MIT e uma das autoras do estudo

A média que esconde o abismo

Um dos pontos mais interessantes da pesquisa não é sobre o futuro, mas sobre como lemos dados no presente. É comum um governo comemorar uma média regional estável, como se isso já garantisse que está tudo bem. O pesquisador Gi Joo Kim, também autor do estudo, chama atenção justamente para essa armadilha: a média pode estar tranquila enquanto uma fatia inteira da população já está afundando por baixo dela.

É por isso que dividir o planeta em milhares de pedaços menores faz diferença. Na África Ocidental e na África Oriental, por exemplo, os 10% mais pobres podem enfrentar um peso alimentar de 48,4% e 42,5% da renda, respectivamente, mesmo em cenários nos quais a região, olhada de longe, parece estar progredindo. Na Ásia e no Leste Europeu, o aperto muda de forma: a fragilidade se desloca para a conta de energia, num contexto de invernos e verões cada vez mais extremos.

Não existe um único vilão nessa história

É tentador resumir tudo isso a uma frase de efeito sobre o aquecimento global. Mas o estudo evita esse atalho. Os pesquisadores analisaram 12 variáveis diferentes, entre elas o crescimento econômico, a forma como a renda é distribuída dentro de cada país, a produtividade da agricultura, o uso da terra, a intensidade de carbono da matriz energética e as regras do comércio internacional de alimentos.

Nenhuma dessas peças funciona isolada. O jeito como um país cresce economicamente influencia como a terra é usada, o que muda a disponibilidade de água, o que altera o preço da comida na prateleira. É uma cadeia longa, e o estudo argumenta que tentar resolver a crise futura com uma solução genérica, igual para todo mundo, tende a falhar. A vulnerabilidade é sempre local, quase sempre invisível na média, e exige respostas desenhadas para o contexto específico de cada bacia hidrográfica ou cidade.

A conta de luz que decide entre comer e se aquecer

No setor de energia, o contraste chega a ser desconfortável de ler. No Oriente Médio, as projeções indicam que as famílias mais ricas gastariam apenas 1,7% da renda com energia residencial em 2050, enquanto as famílias mais pobres poderiam comprometer 18,9%. No Leste Europeu, o padrão se repete em menor escala: mais de 11% da renda para os mais pobres, contra menos de 5% para os mais ricos.

Peso da energia residencial na renda, projeção 2050

Oriente Médio, renda mais alta 1,7%

Oriente Médio, renda mais baixa 18,9%

Leste Europeu, renda mais alta abaixo de 5%

Leste Europeu, renda mais baixa acima de 11%

Quando quase ⅕ da renda vira conta de luz, o consumo de energia deixa de ser uma escolha de conforto. Vira uma escolha entre esquentar a casa no inverno, ou refrescá-la num verão cada vez mais extremo, e colocar comida na mesa. Esse tipo de aperto, replicado em milhões de famílias, é o tipo de pressão que corrói a paciência das pessoas com as próprias instituições.

Um mapa, não uma sentença

Vale reforçar algo que o próprio estudo faz questão de deixar claro: essas 3.735 simulações não são uma previsão fechada sobre 2050. São um mapa de riscos.

O objetivo não é dizer qual futuro vai acontecer, mas mostrar quais combinações de política econômica, uso da terra e matriz energética empurram o mundo para os cenários mais duros, e quais combinações abrem caminho para algo mais justo.

Dito de outro modo: se sabemos hoje quais decisões levam ao abismo, ainda temos tempo de tomar decisões diferentes.

A pesquisa não é uma sentença sobre 2050. É um convite para decidir, agora, que tipo de progresso realmente queremos construir.

Fica então a pergunta que o próprio estudo deixa no ar é se faz sentido chamar alguma coisa de “progresso” se, em 2050, comer e se manter aquecido continuarem sendo privilégio de uns e fardo insuportável para tantos outros? (ecodebate)

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