sábado, 17 de setembro de 2011

Receita certa para conflitos pela água

Consumo crescente e reservas finitas são receita certa para conflitos pela água
Potencial de conflito da água cresce na medida da escassez e demanda.
Turquia pode drenar Síria e Iraque com represa Atatürk sobre o Rio Eufrates.
Crescimento da população mundial e aumento nos padrões de vida exigem cada vez mais de um recurso natural insubstituível e escasso: água. Consumo crescente e reservas finitas são receita certa para conflitos.
Duas coisas são indispensáveis aos seres humanos, não importa como ou onde vivam: água e comida – sendo que a água é também insubstituível na produção de alimentos. Quando a demanda do “ouro azul” supera a oferta, é quase certo que o resultado seja um conflito.
Em tempos de mudança climática global, um exame do crescimento demográfico e do aumento no consumo de água gera inquietação quanto ao futuro. Sobretudo porque muitos fluxos hídricos atravessam fronteiras nacionais.
O relatório da Unesco para 2003 apresenta números exatos: em todo o mundo, 263 fluxos de água atravessam os territórios de 145 Estados. Eles correspondem a 60% do volume total de água doce disponível no planeta e abastecem 40% da população mundial.
Dezenove rios atravessam mais de cinco nações fronteiriças, e projetos de represas são a principal causa de conflitos entre os países que se encontram no curso superior ou inferior dos rios. Com seu projeto Atatürk, de represar o Rio Eufrates, por exemplo, a Turquia pode literalmente fechar as torneiras da Síria e do Iraque.
Desequilíbrio na África
Num estudo realizado em fevereiro de 2011, o Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), sediado em Berlim, classifica como de alto risco a situação nos rios Amurdaya e Syrdaya, da Ásia Central, e no Nilo. Um dos autores dessa análise é Tobias von Lossow. Em entrevista à Deutsche Welle, o politólogo apontou para as décadas de conflitos entre o Egito e o Sudão, de um lado, e a Etiópia, do outro:
“Também por razões econômicas, até o momento a Etiópia não podia desenvolver plenamente seu potencial de utilização da água, seja na irrigação agrária, seja na produção de energia. Isso, porém, mudou basicamente com as novas possibilidades de financiamento e o apoio da China nos últimos anos.”
O Nilo, rio mais extenso da África, percorre quase 7 mil quilômetros do centro e leste do continente até o Mar Mediterrâneo e atravessa dez países – marcados por uma inegável assimetria na utilização de suas águas.
Divisão desigual
Os Estados localizados no curso superior do rio possuem o maior volume da água diponível, mas é no curso inferior que ela é mais consumida, sobretudo pelo país que menos dispõe do “ouro azul”, o Egito. Tal situação está fixada num acordo de 1929, negociado ainda pela Inglaterra, potência colonial na época. Traduzido em termos atuais: o Egito pode usar 66% da água do Rio Nilo, e o Sudão, 18%.
Antes, quando as nações no curso superior do Nilo pouco utilizavam sua riqueza hidrográfica, o potencial de conflito era reduzido. Hoje em dia, contudo, a Etiópia, em especial, mas também Ruanda, Quênia e Uganda querem utilizar o precioso recurso para o próprio desenvolvimento, e pleiteiam novas regras.
O anúncio do governo etíope de que passaria a usar mais a água do Nilo na própria agricultura e na produção de energia já provocou ameaças indiretas de guerra por parte dos egípcios. Consta, por exemplo, que o ex-presidente Anwar Sadat teria declarado: “O único motivo que poderia levar o Egito mais uma vez à guerra seria a água”. Até agora, instâncias multilaterais, como a Iniciativa da Bacia do Nilo, tiveram pouco sucesso em harmonizar os diferentes interesses dos países rio acima e rio abaixo.
China x Índia
Na Ásia, por outro lado, o choque é entre duas nações emergentes: China e índia. A China tem uma sede tremenda e abriga as nascentes de alguns dos maiores e mais importantes rios da região, como o Mekong e o Brahmaputra. Pequim planeja gigantescos projetos hídricos, a fim de levar a água do norte até o seco sul. Nesse contexto, a Índia suspeita que a China também esteja desviando água do Himalaia.
Jagarnath Panda é perito em assuntos chineses do Institute of Defense Studies and Analyses, em Nova Deli. Como revelou à Deutsche Welle, ele acredita que a água possa se tornar um problema central entre a Índia e a China. “Os chineses negam em alto e bom som a tese de que planejem desviar água. Mas nós sabemos que eles se ocupam de projetos com esse fim.”
Segundo Panda, nos últimos anos, acima de tudo uma coisa mudou: “Em ambos os países, a opinião pública começou a falar do tema ‘água’. As pessoas já compreenderam: nem a questão fronteiriça, nem o papel da China ou da Índia em âmbito regional ou global, mas sim a água será o maior problema entre os dois países nos próximos anos”.
Guerra pouco prática
De fato, a água é um dos elementos de diversos conflitos. Entretanto, Von Lossow considera distante a possibilidade de haver uma guerra pelos direitos da água, até porque isso seria bastante difícil, do ponto de vista da estratégia militar, a começar por considerações absolutamente práticas:
“Quem bombardeia uma represa fica de frente para a inundação rio abaixo”, observa o perito do SWP. Além disso, a água é pesada e tem um valor econômico relativamente baixo, de modo que não se pode transportá-la como diamantes ou petróleo bruto.
Devido a limitações topográficas naturais, para se controlar uma fonte de água seria necessário ocupar todo o território de uma bacia hidrográfica, o que, a longo prazo, assegura o politólogo Tobias von Lossow, seria simplesmente caro demais. (EcoDebate)

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