quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Em Genebra, não reciclar é delito

Além da seriedade da polícia Suíça, impressiona o processo: há um dossiê para comprovar a ‘crime ambiental’.
Ao voltar para casa após um dia de trabalho, encontrei um bilhete colocado na porta: "Por favor, compareça à delegacia de polícia de forma imediata". Pensando que eu seria alguma testemunha de um crime ou algo do gênero, cumpri o que dizia o recado. Mas, ao chegar ao local, fui surpreendido com a notícia de que eu era o principal suspeito de um delito. No caso, um delito ambiental.
A polícia suíça havia descoberto que eu não havia procedido com a reciclagem de papel de forma correta. E era verdade. Por falta de espaço em um dos compartimentos do lixo, naquela semana eu acabei colocando papel e plástico no mesmo local de reciclagem.
Identificada a irregularidade, a polícia local iniciou uma investigação para determinar o autor do delito. Ao analisar o papel jogado, descobriu envelopes de três cartas que estavam endereçadas a mim. O próximo passo foi o de concluir que eu teria sido o autor do delito de não reciclar de forma correta o papel.
O que impressiona não é apenas a seriedade da polícia suíça em tratar do assunto, mas o procedimento. Na delegacia, havia um dossiê com fotos do local de reciclagem, com o crime demonstrado: minhas cartas jogadas no mesmo local que o plástico.
Fui obrigado a pagar o equivalente a 35 euros de multa pelo delito e escutar um sermão da policial encarregada do meu caso. Mas o fato demonstrou uma nova dimensão da consciência ambiental nas cidades europeias: a de que a responsabilidade ambiental não é apenas de grandes empresas poluidoras, mas também do cidadão comum.
Na Suíça, não é apenas colocar o papel no lugar errado que é motivo de multa. Colocar o lixo para fora antes do tempo correto para que seja coletado pelo serviço municipal também é alvo de multa.
Genebra é apenas um caso. Mas avança por vários países ricos a adoção de leis criando delitos para quem não recicla, até mesmo com a aplicação das multas, além, claro, de uma polícia preparada para lidar a questão.
De acordo com a Comissão Europeia, 50% do lixo produzido por famílias são alvo de reciclagem. Mas a constatação é de que, apesar de toda a conscientização, esse número não tem sido elevado nos últimos anos. A penalização de delitos ambientais, portanto, começa a ganhar força para obrigar uma atitude ambiental responsável.
No Canadá, cidades da província do Quebec adotaram neste ano a obrigação de reciclar o lixo, sob pena de uma multa de US$ 200 ao infrator. No caso de escritórios que produzem uma quantidade de papel importante, a multa pode chegar a US$ 1 mil. O mesmo passou a ser adotado em várias cidades francesas.
Em todos os casos, o princípio é o mesmo: o cidadão tem a mesma obrigação ambiental que uma empresa. Na Grã-Bretanha, o governo calculou que residências geram por ano 30 milhões de toneladas de lixo. Mas apenas 17% é reciclado. Desde o ano passado, o governo vem aplicando uma multa de 110 libras esterlinas a quem não recicla. O valor é superior para famílias que a donos de comércio.
Choque. Nos Estados Unidos, Pittsburgh começou a aplicar multas em 2010, enquanto algumas cidades lançaram outro tipo de campanha: a de chocar o cidadão com informações.
Segundo a campanha que foi promovida, apenas para produzir o jornal de domingo nos Estados Unidos, 500 mil árvores seriam necessárias. Em outra mensagem, a campanha apenas alerta que a madeira e o papel jogados fora no país todos os anos pelos americanos seriam suficientes para aquecer 50 milhões de residências no período.
Em Cleveland, a cidade vai gastar US$ 2,5 milhões para introduzir nas lixeiras de residências cartões eletrônicos que poderão registrar quantas vezes na semana o lixo foi retirado. Como cada dia um tipo de lixo é coletado, quem não seguir o plano de reciclagem da cidade será multado em US$ 100.
Na Nova Zelândia, a multa também foi a forma encontrada para obrigar a população a reciclar a partir de julho. O valor: US$ 300 para quem for pego jogando vidro na lixeira de papel.
50% do lixo familiar produzido na Europa á alvo de reciclagem, de acordo com dados da Comissão Europeia. Apesar da consciência do cidadão, o índice tem se mantido constante nos últimos anos e, por isso, a penalização de delitos ambientais ganha força. (OESP)

Nenhum comentário:

Região Sul ganha maior influência na formação de preços de energia

Com El Niño em 2026, região Sul ganha maior influência na formação de preços de energia. Super El Niño com mais de 80% de chance pode devast...