sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Pirâmide da ‘Solidão’ no Brasil e na América Latina

Um fato universalmente identificado na demografia é o desequilíbrio na razão de sexo ao nascer. Em todos os países nascem mais homens do que mulheres. Na média mundial, a razão de sexo ao nascer varia entre 3% e 5% a favor dos homens. Números muito acima desta média, podem indicar alguma forma de preferência pelos filhos do sexo masculino ou a prática de “femicídio” ou “fetocídio”, como ocorre na China.
A razão de sexo ao nascer na América Latina e Caribe (ALC) é de 1,05 crianças do sexo masculino para cada 1 criança do sexo feminino. Contudo, a razão de sexo vai se invertendo com o avançar das idades. Existem em alguns países da região uma enorme sobremortalidade masculina nas idades jovens em decorrência, principalmente, dos homicídios e dos acidentes de trânsito. O Brasil e, especialmente, El Salvador são países com alta incidência de sobremortalidade masculina de jovens. Juntando-se a isto a sobremortalidade masculina por causas “naturais” no topo da distribuição de sexo e idade da população, percebemos que a ALC apresenta um grande excedente de mulheres na parte superior da estrutura de idades.
Na China há muitos mais homens do que mulheres na população total e o sexo masculino predomina em todos os grupos etários até 69 anos. As mulheres são maioria somente nos grupos acima de 70 anos. Na média da América Latina e Caribe as mulheres superam os homens após os 50 anos. No Brasil as mulheres superam os homens a partir dos 25 anos. Porém, o país com maior superávit feminino é El Salvador que tem taxas de mortalidade masculina muito altas em decorrência da violência e dos homicídios. Reduzir a sobremortalidade masculina jovem é fundamental para diminuir o desequilíbrio de sexos na pirâmide etária.
Contudo, todos os países possuem um superávit de mulheres nas partes altas da pirâmide populacional. A especificidade da América Latina é que o superávit feminino ocorre precocemente nos grupos etários. Quanto menor é a razão de sexo, maior é a proporção de mulheres idosas morando sozinhas nos domicílios particulares. Na literatura demográfica, especialmente a partir dos estudos da doutora Elza Berquó, esse fenômeno foi denominado de “pirâmide da solidão”, indicando a existência de um crescente número de mulheres idosas sem cônjuges no topo da estrutura etária.
Lendo os trabalhos de Berquó e trabalhando com a ideia de “capital marital”, a antropóloga Mirian Goldenberg disse: “Pela primeira vez percebi que a frase tão exaustivamente repetida pelas brasileiras – ‘falta homem no mercado’ – é uma realidade demográfica bastante cruel, sobretudo para as mulheres mais velhas”.
De fato, o excedente feminino cresce nos grupos etários da parte superior da pirâmide. Todavia, a atuação requerida da sociedade brasileira e latino-americana é no sentido de reduzir a sobremortalidade masculina em idades jovens, o que ajudaria a diminuir os desequilíbrios no “mercado matrimonial”. Há também o questionamento da necessidade de um par conjugal, como o exigido no modelo de família tradicional.
Mulheres sem cônjuge no século XXI constitui um fenômeno muito diferente daquele formado pelas chamadas “solteironas” ou “titias” do passado. Mulher morando sozinha não é sinônimo de pessoa solitária. Domicílios unipessoais femininos não devem ser vistos como uma anomalia social. Em qualquer situação, há sempre a possibilidade de se fortalecer o “capital pessoal” e o “capital social”, independentemente do grupo etário e da quantidade de pessoas existentes nas moradias particulares. Vidas no singular podem ser vividas, para além do espaço domiciliar, de maneira positiva e feliz. (ecodebate)

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