segunda-feira, 19 de junho de 2023

O Níger tem a maior taxa de fecundidade do mundo

O alto crescimento demográfico do Níger se deve ao avanço da transição da mortalidade, em um quadro de manutenção de altas taxas de fecundidade.

Autor mostra como o Níger passou de 2,6 milhões de habitantes em 1950 para 27 milhões em 2023 e pode chegar a 167 milhões em 2100, segundo a projeção média da ONU. Ele explica que esse aumento populacional se deve à queda da mortalidade infantil e à persistência de altas taxas de natalidade. Ele também destaca os desafios que o Níger enfrenta para promover o desenvolvimento econômico e social em um contexto de alta dependência demográfica e escassez de recursos naturais.

O Níger é um país da África Ocidental, que faz fronteira com a Argélia e Líbia ao norte, com o Chade a leste, com a Nigéria e Benim ao sul e com Burquina Fasso e Mali a oeste. O país abrange uma área de quase 1,27 milhão de km², com mais de 75% de seu território coberto pelo deserto do Saara. A densidade demográfica do Níger era de 2 habitantes por km2 em 1950, passou para 22 hab/ km2 em 2023 e deve alcançar 132 hab/ km2 em 2100. A maior parte da população está concentrada na região sudoeste, em torno da capital Niamey e às margens do rio Níger.

Níger tinha uma população de 2,6 milhões de habitantes em 1950, saltou para 11,6 milhões em 2000, chegou a 27 milhões em 2023 e deve alcançar 167 milhões de habitantes em 2100, segundo a projeção média da Divisão de População da ONU. Serão acrescentados 140 milhões de pessoas em 77 anos e uma multiplicação de 64 vezes entre 1950 e 2100. Mas considerando um leque mais amplo, a população nigerense pode variar de 100 a 500 milhões de habitantes no final do século, conforme mostra o gráfico abaixo.

Alto crescimento demográfico do Níger se deve ao avanço da transição da mortalidade, em um quadro de manutenção de altas taxas de fecundidade. A mortalidade infantil era de 130 por mil em 1950 e caiu para 42 por mil em 2023. A média de filhos estava acima de 7 crianças por mulher entre 1950 e 2019 e caiu para 6,7 filhos em 2023. Assim mesmo, configura a maior Taxa de Fecundidade Total (TFT) do mundo. As projeções da ONU indicam a continuidade da transição da fecundidade, mas em ritmo muito lento.

Em consequência das altas taxas de fecundidade, o Níger possui uma razão de dependência muito elevada, com cerca de 110 pessoas dependentes (a maioria de crianças e adolescentes) para cada 100 pessoas em idade ativa. Isto dificulta muito a decolagem do desenvolvimento econômico e social. Mas se o número de filhos por mulher diminuir nas próximas décadas, o Níger poderá colher o 1º bônus demográfico e melhorar as condições de vida da população.

Como mostrou Kayenat Kabir, no artigo “Niger is Africa’s fastest growing country – how to feed 25 million more people in 30 years” (The Conversation, 25/02/2023), o Níger é um país pobre com alto crescimento demográfico e enfrenta uma “tempestade perfeita”, pois a maior parte do país é infértil. Mais de dois terços de sua área estão localizados no deserto do Saara. A maior parte das terras agrícolas do país fica em uma faixa estreita perto da fronteira nigeriana e está sendo invadida pelo deserto. Assim, a fome tem aumentado. Para piorar a situação, o Níger é uma das regiões mais vulneráveis às mudanças climáticas. Tem alta exposição ao calor e baixa capacidade de adaptação às mudanças climáticas, como chuvas cada vez mais imprevisíveis. Isso tem afetado negativamente o rendimento das culturas em um país onde menos de 1% da terra cultivada é irrigada.

De fato, mesmo o Níger tendo uma renda per capita muito baixa e níveis mínimos de consumo, possui déficit ecológico crescente. Segundo o Instituto Global Footprint Network, em 1961, a população nigerense tinha uma Pegada Ecológica per capita de 1,62 hectares globais (gha) e uma Biocapacidade per capita de 2,82 gha (havia superávit ambiental).

Mas com o elevado crescimento demográfico, o desmatamento e a erosão dos solos, a Pegada Ecológica per capita se manteve aproximadamente no mesmo nível (1,54 gha), mas a Biocapacidade per capita caiu para 1,30 gha em 2018. Assim, o país passou a ter déficit ecológico, dificultando o combate à fome e à pobreza.

Segundo o FMI, a renda per capita (em termos constantes e em poder de paridade de compra) do Níger caiu nos últimos 40 anos e o país encontra-se preso na armadilha da pobreza. O Níger tem o terceiro pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), apenas 0,400 em 2021, ligeiramente à frente do Chade e do Sudão do Sul.

Continuidade da transição demográfica abre uma janela de oportunidade para reduzir a pobreza e a fome. Todo país que avançou no IDH, necessariamente, passou pela transição da fecundidade. Por conseguinte, o futuro do bem-estar da população nigerense depende de famílias menores para reduzir as razões de dependência demográficas e garantir o progresso social e ambiental. (ecodebate)

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