domingo, 5 de maio de 2013

O desafio da fome no mundo

Ao longo das últimas décadas, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) tem perseguido a utopia de erradicar a fome no mundo - e ainda há cerca de 1 bilhão de pessoas famintas. Muitos usam esse número como indicador de fracasso, mas os países-membros sabem que a FAO não pode ser responsabilizada por essa situação, reconhecem sua importância histórica e estão convencidos de que o mundo precisa de uma organização internacional voltada para a agricultura e a alimentação. Por isso a campanha para diretor-geral, que culminou com a eleição de José Graziano da Silva, foi marcada por um clima de crise e pela percepção de que a organização vive a "última oportunidade" para definir o desafio a ser enfrentado, encontrar os caminhos a serem trilhados e redesenhar-se para ser mais efetiva em sua missão.
Não é pouca coisa, principalmente quando se levam em conta os desgastes institucionais decorrentes de 18 anos sob a mesma direção, os impactos da crise financeira dos países ricos, principais contribuintes do Sistema das Nações Unidas, e a forte polarização revelada pelo resultado da eleição, percebida como uma vitória dos que têm fome e derrota dos que têm dinheiro.
A fome está envolta em acirrados embates entre visões de mundo distintas que procuram se impor como hegemônicas, sacrificando a constatação mais básica de que a fome é fenômeno social com múltiplas causas. É, sim, provocada pela falta de alimentos, por problemas de acesso, pelo desequilíbrio entre população e recursos em muitas áreas do mundo, por fenômenos climáticos, por arranjos institucionais e de políticas que reduzem os incentivos e até inviabilizam a produção agrícola em muitos países e por conflitos civis e guerras entre países. Para agravar, constata-se que a produção de alimentos vem crescendo menos do que a demanda, impulsionada pela urbanização e elevação da renda; que os sistemas produtivos responsáveis pela expansão da produção nas últimas décadas dão sinais de esgotamento; que as mudanças climáticas já afetam a produção e a produtividade em muitas partes do mundo, e que poderão ter impacto devastador justamente nos países mais pobres e de maior concentração da fome.
Todas as causas são relevantes, muitas são inter-relacionadas e cada uma está, por sua vez, associada a outros tantos fatores. A tentação é atuar em todas as frentes, apoiando-se em sofismas como o que contrapõe produção e acesso. O problema é que o enfrentamento de cada uma delas exige, além de recursos financeiros, arranjos institucionais, instrumentos e competências técnicas específicas, que não se constroem nem se mobilizam em poucos anos. A análise dos programas da FAO na última década revela que ela não renunciou a tentar fazer um pouco de tudo. O resultado foi a pulverização de recursos escassos em múltiplas frentes e a redução do impacto de suas ações, levando ao diagnóstico equivocado de que ela é irrelevante no combate para erradicar a fome e promover a agricultura no mundo.
Um executivo sabe que o sucesso de uma empreitada depende da definição do desafio. É preciso ter clareza para distinguir as utopias, necessárias para mobilizar energias e ações da sociedade em torno de grandes ideais, e os desafios objetivos, cujo enfrentamento requer a definição precisa de metas, prazos, estratégia e a mobilização dos meios para alcançá-los. O caminho da miragem não leva necessariamente ao oásis. Por isso a possibilidade de êxito de Graziano da Silva e da FAO depende, de maneira crucial, da passagem da utopia à realidade e da escolha dos caminhos a serem seguidos nas próximas décadas. Mesmo que os recursos fossem abundantes, o que não é o caso, atuar em todos os flancos levará a organização a ser de fato irrelevante. Nesse sentido, Graziano da Silva será, antes de tudo, um administrador de opções, nenhuma delas fácil. (OESP)

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