terça-feira, 25 de março de 2014

Poluição da água: retrato da seca

Falta de chuvas e diminuição da vazão dos rios compromete a qualidade da água dos mananciais, pois ocasiona o aumento da poluição. Dia Mundial da Água busca mostrar a importância do debate sobre o recurso mais precioso da Terra
O Brasil é um país de dimensões continentais. Por essa razão, ao mesmo tempo em que sofre com a estiagem no Sudeste e no Centro Oeste, recebe uma intensa quantidade de chuvas no Norte, como as que estão ocasionando as cheias no Rio Madeira e inundando cidades em Rondônia e no Amazonas. Em ambas as situações, tanto de estiagem como de enchentes, a poluição é uma ameaça para as reservas hídricas.
Especialmente em épocas de seca, como a que o estado de São Paulo enfrenta neste início de 2014, a disponibilidade da água diminui drasticamente e o nível de poluição dos rios, lagos e reservatórios aumenta consideravelmente. “Com a escassez provocada pela falta de chuva num período que usualmente temos altos índices pluviométricos, as vazões dos cursos d’água tendem a diminuir e isto pode comprometer a qualidade em alguns pontos destes mananciais”, comenta Lupercio Ziroldo Antonio, diretor do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) da Bacia do Baixo Tietê e governador do Conselho Mundial da Água. “No caso de locais que recebem despejo de esgoto urbano tratado, a diminuição da vazão nestes pontos prejudica a “mistura” do efluente tratado, o que pode causar diminuição na qualidade da água. No geral, os casos de diminuição da qualidade da água em função da baixa disponibilidade causada pela falta de chuvas, tende a ser pontual, mas uma estiagem prolongada pode agravar o problema”, relata o governador.
Para Mauro Banderali, especialista em instrumentação ambiental da Ag Solve, a baixa qualidade da água nos rios brasileiros é um dos principais problemas enfrentados pelas grandes cidades atualmente, pois, mesmo sem a estiagem, os mananciais apresentam níveis alarmantes de compostos presentes no esgoto industrial e doméstico, principalmente os que estão próximos aos grandes centros urbanos. “Por essa razão, o monitoramento das águas é essencial. Com o uso da tecnologia é possível monitorar a qualidade do manancial e garantir às empresas de saneamento, a distribuição de uma água de maior qualidade à população”, explana. Além disso, Banderali explica que monitorar a qualidade da água ao longo do rio é fundamental para detectar uma contaminação ainda pequena e evitar que se espalhe, comprometendo todo o curso.
Estiagem, aliada à poluição, pode degradar os rios
Todos os dias, uma enormidade de esgoto é lançada em nossos mananciais. Segundo Lupercio Ziroldo Antonio, “o esgoto urbano despejado diretamente em cursos d’água pode degradar as águas fortemente. Nestes casos, a vazão do curso d’água junto ao despejo é importante porque quanto maior ela for, mais fácil será a “recuperação” provocada pela “mistura” do esgoto com as águas do rio. Neste caso, a diminuição da quantidade causada pela estiagem pode prejudicar este poder de recuperação do curso d’água. Outro tipo de degradação é a causada pelo assoreamento. Em época de estiagem prolongada, o problema se agrava e podemos ter um rio transformado em “bancos de areia”. Para todos os casos, a prevenção é o melhor remédio, inclusive para suportar as épocas prolongadas de estiagem”.
Para o governador do Conselho Mundial da Água, a melhor solução é a prevenção e o monitoramento efetivo na qualidade dos cursos d’água. “Somos os maiores interessados em ter água de qualidade em nossos rios, córregos e aquíferos. As ações de preservação, conservação e monitoramento, as obras e serviços de tratamento, devem partir do poder público, da iniciativa privada e da sociedade civil organizada. Se há processos de contaminação e degradação, estes devem ser corrigidos rapidamente de tal forma a efetivar o planejamento para a bacia como um todo. Solução há. Precisamos é de ações de recuperação e preservação”, detalha Antonio.
Pequenas ações são tão importantes quanto as grandes
Há 21 anos, a Organização das Nações Unidas (ONU) utiliza uma data do calendário para lembrar-nos sobre a importância da água para a humanidade. O Dia 22 de Março, Dia Mundial da Água, foi criado para conscientizar a população e mostrar a importância do debate sobre a água. Contudo, somente mais de vinte anos depois, o tema está começando a ser tratado com a devida importância.
Mauro Banderali comenta que muito se fala sobre a finitude da água e a necessidade da conservação dos recursos disponíveis. “O uso racional e consciente da água é uma responsabilidade de todos. O poder público e órgãos competentes devem planejar o sistema de tal forma que nenhuma pessoa sofra com a falta ou com a má qualidade deste insumo. Além disso, cada cidadão é responsável pelo que acontece com a água, seja a falta dela ou a má qualidade. Há uma urgência na necessidade de conscientização. Pequenas atitudes no dia a dia são tão importantes quanto as grandes ações e o gerenciamento dos recursos hídricos”, analisa o especialista.
“O ser humano está percebendo, infelizmente, tardiamente, que água é um bem finito, que deve ser preservada em quantidade e qualidade porque só assim ela existirá para todas as gerações futuras e manterá a vida na terra. A água de hoje é a mesma de ontem e será a mesma de amanhã. Quem provoca sua degradação é o homem, que assim minimiza sua disponibilidade e qualidade e afasta de si este bem precioso e primordial para sua vida. Não desperdiçar, usar racionalmente, deve fazer parte da cultura do ser humano, aqui ou do outro lado do mundo. Individualmente o homem contribui assim. Mas organizadamente na coletividade, há a necessidade de equacionar os usos dos recursos hídricos numa bacia hidrográfica através de um plano de bacias bem elaborado com a participação de toda a sociedade no local. Ou olhamos para a água como uma riqueza a ser preservada, ou infelizmente, em futuro próximo, teremos o êxodo de pessoas por falta deste líquido”, pondera Lupercio Ziroldo Antonio. (ecodebate)

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