Diante da ocorrência de eventos climáticos extremos, como
estiagens significativamente mais severas que a média histórica ou chuvas mais
volumosas que os registros passados, é necessária uma nova abordagem para o
planejamento de gestão de recursos hídricos, não mais baseado em séries
históricas, mas em cenários probabilísticos. Isso, no entanto, levará à execução
de projetos mais complexos e caros, apontam especialistas.
"O Brasil tem que se preparar para eventos sempre mais
extremos", disse o professor José Marengo Orsini, coordenador do Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e membro do comitê científico do Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês).
Segundo ele, o esvaziamento dos reservatórios, como observado em São Paulo
neste ano, é exatamente o tipo de fenômeno climático extremo previsto entre os
impactos do aquecimento global.
Para a professora da Escola Politécnica da USP Mônica Porto,
as cidades brasileiras sequer estão preparadas para variabilidade climática
conhecida, mesmo fazendo um planejamento com base em série históricas, mas
precisam se adaptar para um planejamento que incorpore previsões futuras.
"Não podemos mais nos dar ao luxo de analisar a
probabilidade de falha apenas pelo ponto de vista da série hidrológica
histórica estacionária, mas temos que trabalhar com cenários, mudar a forma
como olhamos o risco", disse, salientando que com a previsão de ocorrência
mais frequentes de eventos extremos, aumenta a exposição ao risco.
Ela admitiu que tal abordagem de planejamento resultará em
projetos maiores e sistemas mais complexos e custosos, mas sugeriu que
paralelamente se deveria atuar com medidas de proteção, como gestão da demanda,
programas de uso racional e incentivo ao reuso e mudanças no uso e ocupação do
solo.
O superintendente de planejamento de recursos hídricos da
Agência Nacional de Águas (ANA), Sérgio Rodrigues Ayrimoraes, defendeu que o
processo de tomada de decisão de investimento deveria ganhar agilidade e ser
antecipado, especialmente no caso dos projetos mais complexos. "Mesmo com
um processo com tomada de decisão antecipada, (a região) não está livre de
enfrentar problemas com a ocorrência de um evento extremo, mas, em existindo,
possivelmente estará melhor preparada", disse.
Ele lembrou de estudo coordenado pela agência e concluído em
2010, o chamado Atlas Brasil de Abastecimento Urbano de Água, que apontou a
necessidade de R$ 22 bilhões em investimentos até 2015, para garantir o
abastecimento de água.
Agora, indicou, a agência está em fase de elaboração de um
plano nacional de segurança hídrica que deverá definir diretrizes, conceitos e
critérios que permitam a seleção e detalhamento das principais intervenções
estratégicas do País para garantir oferta de água para o abastecimento humano e
para uso em atividades produtivas e reduzir os riscos associados a eventos
críticos, como secas e inundações. Ele não indicou, porém, quando o trabalho
será concluído.
Os especialistas participaram de debate sobre gestão de
recursos hídricos sob efeito das mudanças climáticas, durante simpósio sobre
construção sustentável realizado em 04/11/14, em São Paulo. (yahoo)
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