quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Para entender: quando nós vamos superar a crise hídrica

Para entender: quando nós vamos superar a crise hídrica
Mais de um ano após primeiro alerta sobre seca no Sistema Cantareira, situação no manancial segue preocupante.
No início de julho/15 restavam no Sistema Cantareira 189,24 bilhões de litros de água disponíveis para captação, 37,8% a menos do que havia no início de julho/14, quando o reservatório contava com 304,6 bilhões de litros. Mais de um ano após o início da crise hídrica, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) recorre ao volume morto para evitar o desabastecimento de água na região metropolitana de São Paulo e, por isso, com o uso da reserva profunda (abaixo do nível das comportas), o nível do sistema estava em - 9,5%.Passou o verão e o sistema segue no negativo, na dita reserva técnica. No cálculo da estatal, que considera as duas cotas do volume morto como positivas, o índice era de 19,8%.
A Sabesp não tem uma estimativa de quando o Cantareira conseguirá se recuperar totalmente após as baixas dos últimos meses. Segundo cálculos do geólogo Pedro Luiz Cortês, professor da Universidade de São Paulo e da Uninove, o Cantareira pode levar até 8 anos para chegar a um período de estiagem dentro do nível de segurança hídrica de 38% positivo. “Dependendo do volume de chuva, pode ser que a gente saia do volume morto no próximo verão, mas isso não significa que o problema esteja resolvido. A gente vai entrar e sair do volume morto até que lentamente o sistema consiga se recuperar nos próximos anos. O volume morto não era previsto no projeto inicial da represa, nem era recomendável”, destaca.
Infográfico do Estado, publicado em março do ano passado, explica como é feita a captação de água do volume morto.
De acordo com relatório do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, é preciso chover 25% acima da média, em 2015, no manancial para que o Cantarareira recupere a água do volume morto e volte a operar acima de zero no final do ano.
A Sabesp afirma que é possível atravessar o período de estiagem sem a adoção de medidas mais drásticas, como o rodízio de água, mesmo se a seca for até 20% pior do que em 2014, o ano mais seco da história. Para isso, além de manter o racionamento, através da redução da pressão, a Sabesp afirma que a população precisa continuar economizando água. Em 2014, a empresa lançou um programa de descontos na conta e, neste ano, instituiu multas para quem tiver aumento de consumo.
Obras emergenciais, como a transposição da Represa Billings para o Sistema Alto Tietê, também estão previstas. No último dia 29, outra medida emergencial, a captação de água do Rio Guaió para o Sistema Alto Tietê começou. A obra, entregue com quase um mês de atraso, promete ampliar em mil litros a vazão do Sistema Alto Tietê.
Relatório da Sabesp, divulgado em maio deste ano, mostra cenários do Sistema Cantareira com e sem as obras emergenciais.
A Sabesp destaca ainda duas grandes obras estruturantes para evitar um desabastecimento de água em longo prazo. O Sistema Produtor São Lourenço é uma PPP (Parceria Público-Privada) com conclusão prevista para outubro de 2017. Quando estiver pronto, o novo sistema vai captar 4,7 mil l/s, segundo a empresa, na cachoeira do França, em Ibiúna, volume suficiente para atender 1,5 milhão de moradores dos municípios de Barueri, Carapicuíba, Cotia, Itapevi, Jandira, Santana de Parnaíba e Vargem Grande Paulista. O investimento é de R$ 6 bilhões.
Outra obra é a transposição entre as represas Jaguari (bacia do Paraíba do Sul) e Atibainha (bacia do Sistema Cantareira). Com vazão média prevista de 5.130 litros por segundo e máxima de 8.500 litros por segundo, o sistema permitirá a transferência de água nos dois sentidos. De acordo com a empresa, a transferência estará pronta para funcionar em 18 meses a partir da assinatura do contrato, no sentido da Jaguari para a Atibainha, reforçando o Sistema Cantareira. O custo é de R$ 830 milhões.
De onde vem a crise
Na primavera e no verão de 2013 para 2014, São Paulo passou pela maior seca já registrada, desde que começou o monitoramento em 1930. De outubro de 2013 a fevereiro de 2014, foram verificados 444 mm de chuvas na região do Cantareira, quando a média é de 995 mm - 55% a menos do que o esperado. De acordo com relatório do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a falta de chuvas ocorreu por causa da formação de uma zona de alta pressão atmosférica a 6.000 metros de altitude, que bloqueou a chegada das frentes da Amazônia, da Zona de Convergência do Atlântico Sul e das frentes frias do Polo Sul, alterando a dinâmica da região Sudeste do Brasil. Os baixos índices de chuva impactam na vazão dos rios, já que a água escassa fica retida no solo e o processo tem um efeito direto no nível dos mananciais.
Segundo o hidrólogo Mario Mendiondo, coordenador-geral do Cemaden, outro fator que contribuiu para a crise hídrica foi o consumo de água, que se manteve alto, apesar do baixo nível dos reservatórios. “Há elementos concretos que registram que a retirada de água superou a entrada por um longo período em 2014 e a crise foi se acentuando”, afirma.
O professor Pedro Luiz Cortês também aponta que a retirada de água do Sistema Cantareira deveria ter sido freada antes. “Em maio de 2013, foi verificado o nível mais baixo de quantidade de água que entrava nas represas. Mesmo assim, a Sabesp continuou retirando o mesmo volume de água do Cantareira. Em termos práticos, entravam 19m3/s e a Sabesp retirava entre 30 e 33 m3/s. De maio de 2013 em diante, o reservatório vai descendo e, só em 2014, a Sabesp toma providências para reduzir consumo. Era fácil perceber que esse nível ia diminuir muito.”
Um documento assinado por Jerson Kelman, presidente da companhia, reconhece que era possível ter evitado o uso do volume morto, caso o sistema tivesse sido operado de forma mais segura nos últimos três anos. Na época, em nota, a Sabesp informou que a proposta “parte de uma premissa na qual o Sistema Cantareira não se esgotaria ao longo de toda esta crise hídrica” e que, “se tivesse a possibilidade de adivinhar o futuro e saber exatamente o que ocorreria” a partir de 2012, “teria tomado todas as medidas possíveis para preservar o sistema em níveis acima das reserva”.
Para Mario Mendiondo, entretanto, a crise traz um aprendizado: é preciso rever a demanda de água. “Os padrões de consumo aos quais estávamos acostumados estavam errados. Temos que ter um consumo mais inteligente e consciente do recurso”, defende.
Cortês também destaca que esta é uma oportunidade de repensar todo o sistema de captação e uso de água e lembra as disputas do Estado de São Paulo com o Rio de Janeiro, Paraná e Minas Gerais pelo recurso. “Hoje, nosso consumo de água já começa a incomodar os estados vizinhos. Precisamos desenvolver soluções de reuso de água, fazer legislações que proíbam as pessoas de lavarem as calçadas”, exemplifica. Necessidade de economizar é consenso. (OESP)

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