Clima: Sul do Brasil e
Amazônia merecem toda a nossa atenção em 2025, diz pesquisador.
O ano de 2025 começou ainda
com incertezas sobre o que esperar sobre o clima. O professor e cientista José
Marengo, especialista sobre aquecimento global, alerta que o Brasil não está
mais sob efeitos do fenômeno El Niño, mas ainda não se sabe se ele será
substituído pela La Niña, o fenômeno inverso.
“El Niño significa que há o
aquecimento das águas superficiais do oceano Pacífico, que traz seca para
Amazônia e chuva para o Sul do Brasil. Era isso que estava acontecendo desde
2023 e terminou em meados de 2024”, explica Marengo que é coordenador-geral de
Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de
Desastres Naturais (Cemaden), unidade de pesquisa do Ministério da Ciência,
Tecnologia e Inovação.
Em entrevista ao programa Bem
Viver, o professor explicou que será necessário esperar até o fim de janeiro
para entender a intensidade da La Niña, que por sua vez consiste no
resfriamento anormal do oceano Pacífico.
Podemos dizer que foi
surpreendente o ano de 2024, climaticamente falando?
Sim, na verdade, os anos 2023
e 2024 têm sido impactantes em termos de desastres. E de fato têm em comum. Na
segunda metade de 2023, começou o El Niño, que continuou na primeira metade de
2024.
Isso fez com que grandes
eventos, como a seca de 2023, continuassem em 2024 na Amazônia – ainda continua
neste momento – e também afetou a região do Pantanal.
Os níveis dos rios caíram
muito. O rio Paraguai esteve em um dos seus menores índices em Assunção, no
Paraguai. Aqui no Brasil, em Ladário, o rio Negro teve o volume mais baixo
detectados desde 1902.
E além disso, tivemos outros extremos de 2024 como as chuvas no Espírito Santo, e é claro, o que passa a ser talvez o maior desastre climático no Brasil: as chuvas no Rio Grande do Sul.
Os infratores teriam um prazo de 6 meses para investir em programas de recuperação e preservação e, assim, diminuir o débito
O que mostrou realmente que
somos muito vulneráveis aos extremos de clima.
Ano passado o Acre, por
exemplo, enfrentou dois tipos de extremos, a seca e a cheia, com os rios da
região atingindo patamares históricos. Faz sentido esse tipo de situação?
Realmente faz sentido, sim,
porque uma das consequências da mudança climática é mudanças nos extremos. Os
extremos passam a ser mais extremos.
Outra coisa importante a ser
comentada foram os extremos de temperatura. Em alguns lugares nós tivemos
recorde de temperatura, tanto na região sudeste, como no Sul e em parte do
Norte.
Esse recorde nos levou a
incêndios e queimadas na Amazônia. Isso foi o que chamamos de eventos compostos
do clima, ou seja, uma seca associada ou simultânea com uma onda de calor.
O Brasil enfrentou uma onda
de fumaça no ano passado, atingindo 60% do território. É exagero afirmar que
isso pode se tornar normal?
Não, infelizmente não é
exagero. A causa dos incêndios da Amazônia é humana. Sabemos que para os povos
andinos o fogo é um fato cultural, utilizado principalmente para preparar o
terreno para a próxima campanha agrícola. Claro, é fogo controlado.
Só que quando nós temos uma
situação de seca e ondas de calor conjuntamente, o fogo controlado sai do
controle.
Por isso, hoje precisamos de
mais fiscais, ter uma política de zero fogo, que é algo muito difícil, mas
precisa ser implantada. Ao mesmo tempo que os municípios, o corpo de bombeiros
tenha uma equipe sempre disponível, trabalhando 24 horas, como acontece em
outras regiões do mundo.
Em 2024 tivemos número
expressivos de combate ao desmatamento, mas mesmo assim o nível de fogo foi
altíssimo. Como que essa conta fecha?
O efeito do combate ao
desmatamento não é imediato. Se caiu em 2024, não significa que já vamos ter um
resultado prático em 2024.
Na verdade, nós precisamos
ter uma tendência de redução por uma década, depois veremos as consequências
dessa redução. Não é automático.
E quais são as expectativas
para 2025?
Fenômeno El Niño já acabou,
mais ou menos, em maio/24. E aí começou a se configurar o seu oposto, a La
Niña.
Acontece que La Niña ainda
não se manifestou de fato. Nós estamos com água relativamente mais frias, o que
caracteriza os fenômenos, mas não no nível que de fato configura a La Niña.
Existem indícios que, na verdade, só vamos ter ela no verão de 2025.
Durante La Niña chove muito
na Amazônia e no Nordeste também, mas temos seca no sul e sudeste do Brasil
Então existe essa preocupação
porque atualmente nos temos seca na Amazônia. Ter uma La Niña poderia aliviar
essa situação, muitos têm essa esperança de que um La Niña forte pode terminar
com os problemas de seca no Brasil, mas isso é discutível, porque apesar da
chuva intensa no sul do Brasil no ano passado, existe uma região que ainda
enfrenta seca, no caso o estado do Paraná, a bacia do Paraná como um todo. Um
La Niña forte pode prejudicar mais essa região.
Essas duas regiões merecem
toda nossa atenção: Sul do Brasil e a Amazônia. Dependendo da intensidade da La
Niña, a situação pode resolver em uma parte e piorar em outras.
É muito cedo, temos que esperar talvez até janeiro para poder saber um pouco mais.
A ciência há décadas alerta para desastres climáticos como o que ocorreu em 2024 no Rio Grande do Sul.
Como devemos agir para ter
mais eficiência na prevenção de desastres?
Precisamos de uma integração
entre governo federal, estadual e municipal.
No Cemaden nos trabalhos com
desastres. Nós fazemos previsão de alerta, de desastres. Então nós avisamos de
enxurradas, inundações.
Informação
é gerada pelo governo federal, que passa para a defesa civil geral, que repassa
para a estadual e depois do município em questão.
Existe uma corrente, e se
essa corrente se quebra em algum momento, nós vamos ter problemas. É o que
aconteceu em São Sebastião em 2023. As chuvas foram previstas e o alerta foi
emitido. O que faltou foi essa conexão entre a defesa civil e a defesa civil
municipal. Situação semelhante com o que aconteceu no Rio Grande do Sul.
Então falta essa conexão.
Importante comentar que isso não é só no Brasil. Em Valência, na Espanha a
situação foi muito semelhante. Você deve se lembrar como a população ficou
revoltada com a falta de alerta. (brasildefato)