Ondas de calor transformam
Europa no epicentro de emergência climática global. Organização Meteorológica
Mundial confirma: junho de 2025 foi o terceiro mais quente da história, com
mortalidade 65% maior devido ao calor extremo.
Ondas de calor na Europa: O
continente mais atingido pelas mudanças climáticas
As temperaturas escaldantes
que têm assolado o sul da Europa nos últimos anos ilustram de forma dramática a
intensificação das ondas de calor no continente, que os cientistas consideram
um resultado direto das mudanças climáticas. O monitor climático da União
Europeia, Copernicus, classifica a Europa como o “continente com aquecimento
mais rápido da Terra”, uma realidade alarmante que tem custado dezenas de
milhares de vidas anualmente.
O marco trágico de 2003
A intensa onda de calor que
atingiu a Europa Ocidental durante a primeira quinzena de agosto de 2003 foi um
choque enorme para a região e marcou o início de uma nova era de extremos
climáticos. As temperaturas excepcionais registradas na França, Itália, Espanha
e Portugal causaram mais de 70.000 mortes em 16 países, segundo estimativas
científicas.
O episódio de 2003 não foi apenas um evento isolado. Tornou-se um catalisador para mudanças nas políticas públicas, com vários países implementando sistemas de alerta para ondas de calor, como o “plano para ondas de calor” introduzido na França. No entanto, os dados mostram que a situação apenas piorou nas décadas seguintes.
Todo o continente em risco
Embora a onda de calor de
2003 tenha afetado essencialmente o oeste e o sul da Europa, todo o continente
europeu tem sido impactado por ondas de calor desde o início deste século. Os
padrões mostram uma expansão geográfica preocupante:
• 2010: A Europa Oriental foi
a mais afetada, especialmente a Rússia, com um episódio excepcionalmente longo
de 45 dias que registrou temperatura recorde de 37,2°C em Moscou durante julho.
Este evento resultou em 56.000 “mortes em excesso”, de acordo com a agência de
estatísticas russa Rosstat.
• 2019: Em junho e julho, foi
principalmente a metade norte da Europa que sofreu com o calor, com
temperaturas recordes registradas na Holanda, Bélgica, Alemanha e Grã-Bretanha.
• 2021: O sul da Europa
voltou a sofrer com o que o governo grego descreveu como a pior onda de calor
desde 1987, estabelecendo recordes históricos de temperatura.
• 2022-2023: Um calor anormal
atingiu inicialmente o norte da Europa em junho. No verão, o sul ficou abafado,
com temperaturas chegando entre 38°C e 46°C, segundo dados do Copernicus.
Impacto mortal crescente
Os dados mais recentes
revelam o custo humano devastador das ondas de calor europeias. As estimativas
da equipe de pesquisa sugerem que o continente enfrentará uma média de mais de
68.000 mortes prematuras a cada verão até 2030 e mais de 94.000 até 2040,
segundo estudo publicado no EcoDebate.
Os números são ainda mais
preocupantes quando analisamos os dados recentes:
• 2022: sequências de ondas
de calor contribuíram para cerca de 60.000 mortes na Europa
• 2023: O calor causou mais
de 47 mil mortes na Europa
O perfil das vítimas também
revela desigualdades preocupantes. A mortalidade por calor foi 55% maior em
mulheres do que em homens, e 768% maior em pessoas com mais de 80 anos de idade
do que em pessoas entre 65 e 79 anos.
Calor fora de época
As ondas de calor europeias
não apenas se tornaram mais intensas, mas também estão se estendendo no
calendário. Geograficamente mais extensas, elas agora começam mais cedo e
terminam mais tarde:
• Início precoce: Em 2019 e
novamente em 2022, a primeira onda de calor chegou em meados de junho, com
recordes de temperatura quebrados na Alemanha e Áustria já em junho.
• Extensão tardia: Em 2023, a onda de calor europeia se estendeu até setembro, agravando as condições de seca no sul da Europa e complicando eventos como a organização da Copa do Mundo de Rúgbi na França.
Frequência crescente é a nova realidade climática
Estudos e organizações
científicas são unânimes: o uso de um conjunto de dados observacionais de 100
anos e as técnicas mais recentes para modelar extremos climáticos revelou a
evolução da dinâmica das ondas de calor em toda a Europa sob a influência das
mudanças climáticas.
Um estudo acadêmico publicado
em 2025 no periódico Weather and Climate Extremes, analisando ondas de calor de
1921 a 2021, concluiu que houve uma “tendência ascendente significativa na
ocorrência de ondas de calor na maioria das regiões europeias, com um aumento
notável nas últimas três décadas”.
Os dados franceses são
particularmente reveladores: das 50 ondas de calor registradas em todo o país
desde 1947, 33 ocorreram desde o ano 2000, demonstrando uma aceleração
dramática do fenômeno.
Recordes absolutos de
temperatura
As ondas de calor europeias
deste século foram acompanhadas por temperaturas locais recordes, incluindo o
pico absoluto da Europa alcançado em 11 de agosto de 2021, em Siracusa, Itália,
com 48,8°C – um recorde certificado pela Organização Meteorológica Mundial.
Outros recordes absolutos
registrados nos últimos anos incluem:
• França: 46°C (junho de
2019)
• Portugal: 47,3°C (agosto de
2003)
• Espanha: 47,4°C (agosto de
2021)
• Alemanha: 41,2°C (julho de
2019)
• Grã-Bretanha: 40,3°C (julho
de 2022)
O contexto global das
mudanças climáticas
As
temperaturas na Europa aumentaram mais que o dobro da média global nos últimos
30 anos – as mais altas de qualquer continente do mundo, segundo dados
publicados no EcoDebate. Esta realidade coloca a Europa no epicentro das
mudanças climáticas globais.
Devido ao aquecimento global, as ondas de calor recordes aumentaram cinco vezes nas últimas décadas e se tornaram um dos desastres naturais mais mortais, com letalidade comparável à de pandemias, alertam especialistas.
Impactos econômicos devastadores
Além do custo humano, as
ondas de calor têm impactos econômicos significativos. Globalmente, as ondas de
calor provocadas pelo colapso climático causado pelo homem custaram à economia
global cerca de US$ 16 trilhões desde a década de 1990, segundo estudo
publicado na Science Advances.
Na Europa especificamente, as
regiões mais ricas do mundo, como áreas da Europa e América do Norte, sofreram
uma perda média de 1,5% do PIB per capita por ano devido ao calor extremo.
Perspectivas futuras
Tais ondas de calor são
consistentes com cenários climáticos que preveem eventos de calor mais
frequentes, prolongados e intensos, advertem os cientistas. No futuro próximo,
tais condições meteorológicas extremas tornar-se-ão mais frequentes e a
mortalidade excessiva relacionada com o calor aumentará.
Embora eventos extremos como
esse possam ocorrer naturalmente, especialistas afirmam que as ondas de calor
ocorrerão mais frequentemente por causa da crise climática, enfatizando a
urgência de ações de mitigação e adaptação.
A necessidade urgente de
adaptação
A realidade das ondas de
calor na Europa evidencia a necessidade urgente de sistemas de alerta mais
eficazes, infraestrutura adaptada e políticas públicas robustas para proteger
as populações mais vulneráveis.
Os eventos de temperatura
extrema provavelmente aumentarão e causarão graves danos à sociedade humana e
ao ecossistema natural sob mudanças climáticas e urbanização.
A Europa, como o continente
que mais rapidamente se aquece no planeta, serve como um laboratório natural
para as adaptações necessárias em um mundo cada vez mais quente.
A resposta a esta crise não apenas determinará o futuro do continente, mas também servirá como modelo para outras regiões que enfrentarão desafios similares nas próximas décadas.
Onda de calor na Europa, em 9/8/2025. (ecodebate)
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