terça-feira, 25 de junho de 2024

Os avanços desiguais do IDH no Brasil, Venezuela e Tailândia

Os novos dados do IDH confirmam que a economia brasileira está presa na armadilha do baixo crescimento, a Venezuela está em retração economia e a Tailândia continua avançando.
IDH do Brasil fica abaixo do registrado antes da pandemia

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP na sigla em inglês) divulgou recentemente o ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que é um indicador sintético usado para estimar o grau de desenvolvimento humano de uma determinada sociedade com base na avaliação de três áreas fundamentais: saúde, educação e renda. O IDH é um indicador numérico que varia entre 0 e 1.

Quanto mais próximo de zero, menor é o nível de bem-estar e quanto mais próximo de 1, maior é o nível de bem-estar e progresso nacional. O ranking global de 2022 apresenta o nível do IDH por ordem decrescente de 193 países do mundo.

O gráfico abaixo mostra o IDH do Brasil, Venezuela e Tailândia de 1990 a 2022. Nota-se que, em 1990, a Venezuela tinha o maior IDH (0,657), seguido pelo Brasil (0,620) e pela Tailândia (0,581) em terceiro lugar. Nos 25 anos seguintes, em 2015, a Venezuela (0,766) continuava à frente do Brasil (0,752), mas a Tailândia (0,789) já havia passado os dois países sul-americanos. Entre 2015 e 2019, a Venezuela caiu para um IDH de 0,720 e a Tailândia (com 0,801) entrou na categoria de muito alto IDH.

Entre 2019 e 2022 a Venezuela teve uma grande queda do IDH, que caiu para a categoria média, com valor de 0,699. O Brasil também teve queda durante a pandemia da covid-19, recuperou um pouco em 2022, quando registrou um IDH de 0,760, mas não ultrapassou o valor pré-pandêmico. Já a Tailândia também apresentou queda em 2021, mas teve um IDH de 0,803 e conseguiu ultrapassar o nível anterior à pandemia. Entre 1990 e 2022 o IDH da Venezuela cresceu apenas 6%, do Brasil cresceu 23% e o IDH da Tailândia cresceu 38%.
Os novos dados do IDH confirmam que a economia brasileira está presa na armadilha do baixo crescimento, a Venezuela está em retração economia e a Tailândia continua avançando. A Tailândia era muito mais pobre do que a Venezuela e o Brasil, mas já atingiu a categoria de cima do ranking global do IDH.

O gráfico abaixo, com base nos dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), mostra a evolução da renda per capita, em preços constantes em poder de paridade de compra (ppp), para os 3 países entre 1980 e 2024. Nota-se que, em 1980, a Venezuela tinha uma renda per capita de US$ 20,3 mil, quase o dobro dos US$ 11,4 mil do Brasil e 5 vezes maior do que os US$ 3,9 mil da Tailândia. Mas nas duas últimas décadas o ritmo de avanço foi desigual. Em 2024, o FMI estima uma renda per capita de US$ 19,2 mil na Tailândia, de US$ 15,4 mil no Brasil e de somente US$ 6,9 mil na Venezuela. O país de Simon Bolívar tem hoje em dia uma renda per capita 3 vezes menor do que a da Tailândia, que, inclusive, está deixando também o Brasil para trás.

O avanço da renda per capita e do IDH da Tailândia ocorreu paralelamente ao avanço da transição demográfica. O gráfico abaixo, com dados da Divisão de População da ONU, mostra que a Tailândia tinha a maior taxa de fecundidade total (TFT) no início dos anos de 1970, mas promoveu uma transição da fecundidade muito rápida. Em 1950, a TFT era de 6,64 filhos por mulher na Venezuela, de 6,34 filhos na Tailândia e de 6,12 filhos por mulher no Brasil. Mas em 224, a TFT ficou em 1,31 filho por mulher na Tailândia, 1,62 no Brasil e 2,15 filhos por mulher na Venezuela.

A queda mais rápida da fecundidade na Tailândia possibilitou uma mudança na estrutura etária e o país asiático conseguiu aproveitar o 1º bônus demográfico para alavancar o seu desenvolvimento econômico e social. Concomitantemente houve avanços na longevidade. Em 2024, a expectativa de vida ao nascer está estimada em 73,1 anos na Venezuela, 76,4 anos no Brasil e 80,1 anos na Tailândia. Portanto, o país asiático possui melhores indicadores demográficos.

Mas somente a demografia não explica o melhor desempenho da Tailândia. O gráfico abaixo, também com dados do FMI, mostra que a Tailândia tem taxas de investimento, consistentemente, superiores ao apresentado pelos 2 países latino-americanos. Na média do período, a Tailândia teve uma taxa de investimento próxima a 30% do PIB e o Brasil e a Venezuela abaixo de 20% do PIB. O investimento é o motor da geração de emprego, renda e avanços tecnológicos.

Sem dúvida, para vencer a pobreza e avançar no IDH é preciso aproveitar o 1º bônus demográfico, como mostrei no artigo “Os países com menor fecundidade possuem maior IDH” (Alves, 11/03/2022), publicado aqui no Ecodebate. Todos os países com IDH muito alto ou alto avançaram na transição da fecundidade e passaram por uma mudança na estrutura etária com redução da razão de dependência demográfica.

Mas não basta a mudança na estrutura etária, para haver desenvolvimento é necessário que os países mantenham taxas de investimento acima de 25% do PIB, para garantir empregos de qualidade e maior produtividade da força de trabalho. A Tailândia conseguiu manter taxas de investimento além daquela necessária para a simples reposição da depreciação produtiva.

A combinação da transição demográfica com a maior complexidade do modelo de produção tem garantido que a Tailândia ofereça melhor qualidade de vida para a sua população do que o Brasil e a Venezuela. (ecodebate)

Nenhum comentário:

Região Sul ganha maior influência na formação de preços de energia

Com El Niño em 2026, região Sul ganha maior influência na formação de preços de energia. Super El Niño com mais de 80% de chance pode devast...