Estudo reforça perda
significativa da água superficial no Pantanal brasileiro
Pesquisadores apontam que a
maior planície alagada do mundo está sendo afetada negativamente pelas
atividades humanas e pelas mudanças climáticas; níveis de precipitação não têm
sido suficientes para recuperar o estoque hídrico do bioma.
O Pantanal é considerado a
maior planície alagada do mundo, com uma área de aproximadamente 150 mil km²,
que se estende por Paraguai, Bolívia e Brasil. A vasta presença de águas
superficiais no bioma é fundamental para a manutenção de uma rica
biodiversidade, que contempla mais de 650 espécies de aves, 150 espécies de
mamíferos, 325 espécies de peixes e 2.270 espécies de plantas, além de realizar
um papel de grande importância para o equilíbrio ecológico, sequestro de
carbono, entre outros serviços ecossistêmicos essenciais.
Um estudo realizado por
pesquisadores da Unesp em parceria com outros colegas brasileiros, entretanto,
reforça o estado crítico dos corpos d’água localizados no bioma, que há décadas
vem apresentando um declínio contínuo e acentuado. Segundo o artigo publicado
na revista Advances in Space Research, o Pantanal perdeu entre 69,6% e 81,4% de
sua água superficial desde 1985, e o regime atual de precipitações não está
dando conta de repor o estoque hídrico da região.
Os pesquisadores apontam a
mudança no uso da terra decorrente das atividades humanas e as mudanças
climáticas como responsáveis pela variabilidade hídrica negativa das últimas
décadas. Segundo o engenheiro florestal Sérvio Túlio Pereira Justino, um dos
autores do artigo, esse é o maior trabalho sobre o tema já realizado no
Pantanal, pois abrange as mudanças ocorridas nas águas superficiais localizadas
na parte brasileira do bioma ao longo das últimas 4 décadas.
“Nosso diferencial foi o
tamanho da área em que trabalhamos, o período abrangido – de 1985 a 2023 –, e
também os quatro índices espectrais utilizados para chegar aos resultados”,
relata Justino, que é doutor pelo Programa de Pós-graduação em Ciência
Florestal da Faculdade de Ciências Agrárias (FCA) da Unesp, no campus de
Botucatu.
“Primeiro, fizemos o download
das imagens de satélite. Depois, realizamos o processamento, que é o recorte
das imagens e avaliação de imperfeições e erros”, explica Justino. Entre essas
imperfeições, ele cita, por exemplo, a presença de nuvens, que às vezes são
identificadas como corpos d’água e podem acabar interferindo nos resultados.
Imagens com interferências desse tipo acabam sendo filtradas, explica o
pesquisador.
Ao final, os quatro índices
espectrais (NDWI, MNDWI, WRI e AWEI) mostraram uma redução na área superficial
da água, nos últimos 40 anos, em intensidades que variam entre 69,6% e 81,4% a
depender do índice. Em complemento aos índices que analisaram principalmente a variação
da água superficial, os 3 índices focados na umidade e precipitação (NDMI, ICP
e SAI) apontaram um declínio progressivo na vegetação e na umidade do solo, bem
como um aumento na frequência e na intensidade dos eventos de seca no bioma, e
maior irregularidade na distribuição de chuvas ao longo das últimas 4 décadas.
Segundo Justino, além das
mudanças climáticas, que têm levado a uma diminuição dos níveis de precipitação
e tornado as chuvas insuficientes para repor o ciclo hidrológico do Pantanal,
existem outros fatores que intensificam a redução da área ocupada por corpos
d’água, como as mudanças no uso do solo, com a construção de barragens ou a
expansão da agricultura e da pecuária. “Uma área que antes seria alagável hoje
é uma área de pastagem”, relata.
A diminuição da água superficial causa impactos negativos em toda a biodiversidade do bioma, alerta o pesquisador, que usa a cadeia alimentar como exemplo. “Se a redução das águas superficiais afetar o peixe, ela irá afetar os animais que se alimentam do peixe. A onça é um animal que necessita da água para caçar e se alimentar. A redução dessa área com água também diminui seu habitat”, explica.
O Pantanal brasileiro perdeu cerca de 80% de sua água superficial entre 1985 e 2023. (ecodebate)



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