O resfriamento proporcionado pelas infraestruturas
verdes não se limita ao interior do bosque, mas irradia para as redondezas,
melhorando a qualidade de vida e o bem-estar das comunidades locais.
Para compreender a fundo o impacto desses espaços,
os benefícios destacam-se em três frentes:
• Controle Térmico e Umidade: As copas das árvores
bloqueiam a radiação solar direta, enquanto a evapotranspiração da vegetação
libera vapor d'água no ar, criando um ambiente regulado tanto no calor quanto
no frio.
• Alcance dos Benefícios: Pesquisas mostram que a
diminuição da temperatura pode chegar a até 6,5%, e o efeito refrescante e de
melhoria na qualidade do ar alcança distâncias de até 300 m para além dos
limites do parque.
• Bem-Estar e Saúde: Estar próximo a essas áreas e
ter contato com a biodiversidade reduz o estresse e incentiva a prática de
atividades físicas.
Para ver como essas áreas verdes atuam na prática nas grandes metrópoles, confira os estudos sobre Funções Sociais e Ambientais ou a análise de especialistas sobre como Parques Refrescam Cidades.
Nova pesquisa mostra que a sombra das árvores e o verde das praças reduzem temperatura, poluição e ruído a centenas de metros de distância
Um estudo feito em Surrey, na Inglaterra, mediu em
tempo real como um parque de 52 hectares protege não só quem entra nele, mas
toda a vizinhança
Porque aquele parque do seu bairro vale muito mais
do que você imagina
Semana retrasada, num daqueles dias sufocantes de
uma onda de calor, em que o asfalto parece derreter, eu passei pela praça perto
de casa e senti algo que, na hora, atribuí apenas ao cansaço e à saudade do
frescor de infância: o ar ficou diferente. Mais leve. A temperatura parecia ter
caído de repente, como se alguém tivesse aberto uma geladeira gigante no meio
da cidade.
Não era impressão.
Uma pesquisa recente conduzida pelo Centro Global de
Pesquisa sobre Ar Limpo (GCARE), da Universidade de Surrey, na Inglaterra,
confirmou o que muita gente já sentia na pele e foi além, com dados precisos.
O parque que respirou por uma cidade inteira
Os pesquisadores escolheram o Stoke Park, o maior parque de Guildford, com 52 hectares de gramados, árvores e jardins. Usando equipamentos de monitoramento de alta frequência, eles mediram temperatura, poluição por partículas e ruído dentro e ao redor do parque, em condições reais de verão e não em laboratório, não em simulação computacional.
Os números são impressionantes.
Pela manhã, os níveis de partículas em suspensão no
ar (o chamado PM10, aquela poeira fina que entra nos pulmões e causa todo tipo
de problema respiratório) eram mais de 11% menores dentro do parque do que nas
ruas urbanizadas ao redor. A temperatura matinal estava 6,5% mais baixa.
Mas o que me chamou mais atenção foi o que acontecia
fora do parque.
O verde que atravessa as grades
A cada 100 metros percorridos a partir da borda do
parque em direção às ruas e calçadas da cidade, a temperatura subia mais de
meio grau. Esse efeito se estendia por até 300 metros além dos limites do
parque.
Pensa comigo: você não precisa estar dentro do
parque para sentir o benefício. Quem mora numa rua a dois ou três quarteirões
de distância também está, de alguma forma, sendo amparado por aquele verde.
Isso muda completamente a forma como precisamos pensar sobre parques urbanos. Eles não são apenas espaços de lazer isolados, eventualmente cercados por grades e restritos a quem entra neles. São infraestrutura climática. São sistemas de proteção coletiva.
O silêncio que a natureza oferece
O estudo também mediu o ruído. E aqui tem outro dado
revelador: dentro dos parques, os níveis de poluição sonora eram 5,41 decibéis
mais baixos do que nas áreas urbanas próximas.
5 decibéis podem não parecer muito quando você lê
assim, frio no papel. Mas na prática, essa diferença é suficiente para que a
maioria das pessoas perceba uma mudança real no ambiente sonoro. É a diferença
entre uma rua barulhenta e uma rua que você consegue ouvir a si mesmo pensar.
Nas grandes cidades brasileiras, onde o ruído do
trânsito, das obras e dos comércios é praticamente constante, esse dado tem um
peso enorme para a saúde mental e o bem-estar das pessoas.
A sombra das árvores como proteção do corpo
Os pesquisadores foram além da temperatura do ar e
mediram algo chamado de Temperatura Fisiologicamente Equivalente, ou PET,
basicamente, como o corpo humano sente o calor, levando em conta umidade,
vento, radiação solar e outros fatores.
E aí o número demonstra que áreas sombreadas por
árvores e gramados dentro do parque reduziram essa sensação térmica em até
8,5°C em comparação com as ruas próximas.
8,5°C. No meio de uma onda de calor, essa diferença
pode ser, literalmente, a diferença entre se sentir bem e precisar de
atendimento médico.
O que isso tem a ver com você, comigo, com nossas
cidades
Quando leio pesquisas como essa, fico pensando no
Brasil, num país que tem uma biodiversidade incrível, mas que ao mesmo tempo
assiste a suas cidades crescerem engolindo áreas verdes, substituindo árvores
por concreto, cortando praças para ampliar avenidas.
Cada árvore derrubada numa calçada, cada praça
cimentada, cada parque ameaçado por algum projeto imobiliário é, à luz dessa
pesquisa, uma decisão que vai custar caro para muita gente, não apenas em
dinheiro, mas em saúde, em conforto, em qualidade de vida.
Não sou urbanista, nem pesquisador de clima. Sou
apenas um jornalista, alguém que gosta de caminhar pela cidade e que presta
atenção no que sente quando passa por uma praça arborizada versus uma avenida
de seis pistas.
Mas estudos como esse me dão argumentos concretos
para defender o que eu já defendia, que parques não são luxo. Não são área
sobrando no mapa urbano. São parte essencial da infraestrutura de uma cidade
que quer ser habitável agora, e especialmente num futuro em que as ondas de
calor vão ser cada vez mais frequentes e intensas.
Da próxima vez que você ouvir alguém dizer que “aquele terreno verde ali poderia virar um prédio”, lembre desse estudo. E lembre que o parque protege não só quem está dentro dele, mas todo o quarteirão ao redor.
Talvez até o seu. (ecodebate)





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