Acúmulo de gás carbônico na atmosfera afeta também os oceanos; efeitos ainda não foram sentidos no Brasil.
Os recifes de coral costumam ser chamados de "as florestas tropicais do mar". São os ecossistemas de maior biodiversidade nos oceanos, com um quarto a um terço de todas as espécies marinhas associadas a eles de alguma forma. Diferentemente das florestas tropicais, porém, os recifes ainda estão longe de virar prioridade nas discussões internacionais sobre mudança climática. Sua influência no clima do planeta é mínima, mas sua vulnerabilidade aos efeitos do aquecimento é enorme.
Os oceanos mantêm um intercâmbio permanente de carbono com a atmosfera. À medida que aumenta a concentração de dióxido de carbono (CO2) no ar, aumenta também a quantidade de gás carbônico dissolvido na água do mar. E quanto mais CO2 dissolvido na água, mais ácida ela fica. Se essa concentração aumentar demais, a água ficará tão ácida que os corais não conseguirão mais formar esqueletos de calcário e seus recifes começarão a se dissolver, literalmente.
"Podemos dizer que o aquecimento global é a maior ameaça hoje à conservação dos recifes de corais", mais até do que poluição e sobrepesca, com o agravante de que a acidificação e o aquecimento são indiferentes a leis ou áreas de conservação, diz a pesquisadora Lauretta Burke, do World Resources Institute (WRI).
Desde o início da era industrial, a concentração de CO2 na atmosfera aumentou de 280 para 380 partes por milhão (ppm), o que já resultou numa elevação de 30% no nível de acidez dos oceanos, segundo os dados de um relatório-síntese publicado no mês passado pela Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) das Nações Unidas. Cientistas acreditam que a partir de 450 ppm já haverá prejuízo significativo para a estabilidade dos recifes de coral. E há quem diga que o limite de segurança era de 350 ppm - ou seja, já foi ultrapassado.
Segundo o relatório da CDB, uma concentração de 560 ppm reduzirá em 30% a capacidade dos corais de formar esqueletos calcários (que são a base dos recifes). Por um lado, a acidificação reduz a quantidade de minerais disponíveis na água para esse processo. É como se os corais perdessem os tijolos necessários para construir suas casas. Por outro lado, a acidificação torna a água corrosiva para os esqueletos que já foram formados. "É como se fosse um oceano de Coca-Cola", compara a pesquisadora Nancy Knowlton, do Instituto Smithsonian.
Com esqueletos enfraquecidos, os recifes ficam também mais vulneráveis ao efeito de grandes tempestades, como os furacões, cuja ocorrência e intensidade tendem a aumentar por causa do aquecimento global - como uma pessoa com osteoporose que se torna mais vulnerável a quedas, ou uma floresta parcialmente desmatada que se torna mais seca e mais vulnerável ao fogo.
Não bastasse tudo isso, o aquecimento do mar também tende a favorecer a ocorrência de doenças e branqueamentos, fenômenos que podem enfraquecer ou até matar os corais. O branqueamento é uma resposta natural a situações de estresse (como temperaturas extremas), em que os corais expulsam as microalgas fotossintetizantes que vivem em simbiose com eles e dão cor aos seus tecidos. Dois eventos extremos de branqueamento global já deixaram os cientistas sob alerta em 1998 e 2005 (dois anos extremamente quentes), e vários eventos localizados vêm ocorrendo desde então.
Uma boa parte dos recifes conseguiu se recuperar, mas os pesquisadores temem que o aquecimento do planeta tornará os branqueamentos cada vez mais frequentes e mais perigosos, causando mortandade em massa de corais ao redor do mundo.
SITUAÇÃO BRASILEIRA
No Brasil, por enquanto, os recifes parecem estar resistindo bem aos efeitos do aquecimento, apesar de alguns sinais preocupantes. "Não vimos nenhuma mudança significativa até agora, nem para pior nem para melhor", diz a pesquisadora Zelinda Leão, da Universidade Federal da Bahia. "As taxas de recuperação após eventos de branqueamento aqui têm sido muito altas, felizmente", confirma Guilherme Dutra, diretor do Programa Marinho da ONG Conservação Internacional.
A má notícia é que a ocorrência de doenças vem aumentando desde 2005 em toda a costa brasileira. "Até esse ano não havia nenhum registro de doença em corais no Brasil. De lá para cá já diagnosticamos seis. Foi uma progressão muito rápida", afirma Zelinda.
Uma das razões pelas quais os corais brasileiros parecem ser mais resistentes ao branqueamento seria o fato das águas aqui serem mais turvas do que no Caribe ou no sudeste asiático, por exemplo, segundo o biólogo Clovis Castro, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenador do Projeto Coral Vivo. Isso reduz a incidência de radiação solar, que pode ser um fator adicional de estresse para o coral.
Outra razão seria a possibilidade de os corais brasileiros serem naturalmente mais resistentes (melhor adaptados) a variações de temperatura. "Como várias espécies só existem aqui, a resposta é bastante específica", afirma Castro. Segundo ele, o Brasil tem só 16 espécies de corais verdadeiros (com algas simbiontes), das quais 5 são endêmicas. No mundo, são conhecidas mais de 750 espécies. O Caribe tem mais de 100 e a Indonésia, mais de 400.
"Acho que os nossos recifes são hoje o que os outros serão no futuro: ecossistemas com uma biodiversidade baixa e prevalência de espécies resistentes a essas condições mais adversas", prevê Zelinda, caso as emissões globais de gás carbônico continuem a crescer.
Diante do fracasso dos esforços internacionais de combater o aquecimento global até agora, os cientistas dizem que a melhor estratégia no momento é reduzir os impactos locais (como poluição e sobre -pesca) para que os recifes tenham uma chance melhor de resistir aos impactos globais.
"Os recifes certamente têm a capacidade de se recuperar se lhes dermos uma chance. Mas só se lhes dermos uma chance", conclui a americana Nancy Knowlton.
O entendimento vem de acordo com o nível cultural e intelectual de cada pessoa. A aprendizagem, o conhecimento e a sabedoria surgem da necessidade, da vontade e da perseverança de agregar novos valores aos antigos já existentes.
domingo, 3 de janeiro de 2010
Recifes do Caribe, cada dia mais ameaçados
Efeitos da degradação ambiental são visíveis até nas áreas mais protegidas.
As águas transparentes do Caribe não conseguem mais esconder a tragédia ambiental que se passa dentro delas. Poucos metros abaixo da superfície, os recifes de coral da região, assim como os do resto do mundo, estão cada vez mais ameaçados. Estudos indicam que quase 20% dos ecossistemas recifais do mundo já foram exterminados nas últimas décadas pela poluição, pesca predatória e outros impactos trazidos pelo homem. Outros 15% correm sério risco de morrer nos próximos 10 a 20 anos, segundo o último relatório sobre o Estado dos Recifes de Coral do Mundo, produzido em 2008.
O Caribe é a região mais impactada, com 14% de seus recifes já mortos e outros dois terços ameaçados de alguma forma por atividades humanas.
No lugar de ecossistemas altamente dinâmicos e diversificados, repletos de vida multicolorida, o que se vê hoje em muitos mergulhos são paisagens moribundas, delineadas por esqueletos de calcário em que pequenas "manchas" de coral vivo lutam para sobreviver em meio a uma invasão de algas e outros organismos oportunistas. Entre os sobreviventes, muitos estão doentes. E as coisas só devem piorar daqui para frente com o aumento da temperatura e a acidificação da água, efeitos do aquecimento global.
"Estamos numa emergência. A situação, que já era crítica sem as mudanças climáticas, tende a ficar muito pior", diz a especialista em biologia marinha Nancy Knowlton, do Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian, em Washington. A perda global de cobertura coralínea (porcentual de coral vivo sobre os recifes) nos últimos 30 anos, segundo ela, foi de 60%. No Caribe a redução chega a 80%.
Mesmo em lugares considerados "de baixo risco", os sinais de degradação são evidentes. A reportagem do Estado visitou a ilha de Bonaire, parte das Antilhas Holandesas, no sul do Caribe, onde supostamente estão alguns dos recifes de coral mais bem preservados da região. O que se vê debaixo d"água é uma mistura de beleza e destruição. Um ecossistema sufocado. Corais mortos e doentes por todos os lados. Paredões inteiros cobertos por algas. E quase nenhum grande peixe à vista.
Inventários locais indicam que mais da metade da cobertura coralínea de Bonaire já desapareceu nos últimos 20 anos, talvez para sempre. "Tenho pena dos mergulhadores que chegam aqui e acham isso lindo", diz o matemático Genady Filkovsky, que colabora com um projeto voluntário de monitoramento da água na ilha. "Só acham isso porque não viram como era antes."
O problema, segundo pesquisadores locais, é simples: poluição. Bonaire tem em torno de 14 mil habitantes (mais alguns milhares de turistas), nenhuma fonte de água potável e nenhuma estação de tratamento de esgoto. Toda a água usada na ilha é retirada do mar e dessalinizada para consumo humano.
Os efluentes são lançados em fossas, que são drenadas para um aterro público no interior da ilha, sem impermeabilização. Inevitavelmente, o líquido penetra no solo poroso (de origem coralínea) e volta para o oceano. "A água sai do mar limpa e salgada e retorna suja e doce", resume Albert Bianculli, presidente da Fundação Seamonitor, responsável pelo projeto de monitoramento.
Em 1999, ondas de até 5 metros criadas pelo furacão Lenny danificaram gravemente os ecossistemas de águas rasas (até 10 metros de profundidade) de Bonaire. Em condições normais, os corais seriam capazes de se recuperar e recolonizar os recifes. Por causa dos "nutrientes" lançados na água pelo esgoto (principalmente fósforo e nitrogênio), porém, quem tomou conta do lugar foram as algas.
"Corais são animais que gostam de águas claras, com muita luz e poucos nutrientes", explica a bióloga Rita Peachey, da Estação de Pesquisa CIEE, há três anos em Bonaire. Ela explica que o esgoto funciona como um fertilizante para as algas, que crescem muito mais rápido do que os corais: 1 centímetro por semana, versus 1 centímetro por ano.
Uma vez que as algas se fixam no recife é quase impossível despejá-las enquanto houver excesso de nutrientes na água. "A alga vence sempre", diz Bianculli. Os corais acabam marginalizados e encurralados em sua própria casa.
O problema é exacerbado pela ausência do ouriço preto de espinho longo (Diadema antillarum), espécie que era o principal herbívoro dos recifes caribenhos até 1983, quando foi quase exterminada por um evento de mortandade em massa. Sem os ouriços, sobraram só os peixes-papagaios para comer as algas que competem com os corais. "Se não fosse por esses peixes, estaríamos em sérios apuros", diz Rita.
Outra pista do desequilíbrio ambiental em Bonaire é a proliferação do caramujo língua-de-flamingo, um molusco que se alimenta de gorgônias e outros tipos de corais "moles" (parecidos com plantas). Segundo Rita, até alguns anos atrás, um mergulhador ficava feliz de ver dois ou três desses belos moluscos durante um mergulho. Agora, é fácil encontrar 30 ou até mais animais devorando um mesmo coral. A causa mais provável é o sumiço dos predadores naturais do caramujo, como as garoupas, cujas populações diminuíram drasticamente por causa da sobrepesca.
Quem anda marcando presença em Bonaire nos últimos meses é outro predador, de origem asiática: o peixe-leão. Muito bonito, muito agressivo, e muito indesejado. Trata-se de uma espécie invasora, provavelmente trazida pela água de lastro de navios e que, se não for controlada, poderá ser transformar numa praga.
Nenhum desses problemas é exclusivo de Bonaire. Pelo contrário, a ilha é classificada como uma das mais "saudáveis" do Caribe. Um mau presságio para os recifes que garantem a sobrevivência de milhões de peixes e pessoas na região.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Reduções de Emissões versus crescimento do PIB: o falso dilema!
O recente debate dentro do governo brasileiro sobre o quanto o país poderá, voluntariamente, reduzir de emissões de gases de efeitos estufa até 2050, tem colocado, de um lado, o Ministério do Meio Ambiente, que defende 40% de redução e, do outro, a Casa Civil – e outros ministérios – que não quer colocar em risco um possível crescimento do PIB de 4% a 6% ao ano.
A despeito de que crescer 6% ao ano possa ser fruto, no mínimo, de um otimismo questionável, existe o receio de que, quanto maior forem as metas de redução de emissões do país, menor será o crescimento do seu PIB. Mas, é este um dilema verdadeiro? Acho que não! Na verdade, acho uma bobagem.
Digo isso, pois tal dilema está calcado, primeiro, na falsa ideia de que não será possível crescer economicamente no futuro a não ser através do atual modelo carbono (fóssil) intensivo. Assume-se que, para crescer, muito óleo terá que ser ainda queimado. Segundo, este debate sobre emissões e PIB desconsidera totalmente o fato de que um crescimento econômico futuro vigoroso se dará em países que tomarem as decisões certas hoje: conservação de florestas (grandes armazéns de carbono), desenvolvimento tecnológico de energias limpas e renováveis e um destino mais nobre ao petróleo.
Esquece-se ainda que decisões em favor da conservação das florestas brasileiras, da redução do desmatamento, combinado com a redução de emissões de outros setores (transporte e energia) representa um tipo de poupança ou investimento de longo prazo. Aquilo que parece ter um custo econômico elevado hoje representa uma economia resultante da prevenção de grandes prejuízos econômicos no futuro, advindos da mudança do clima. Basta dizer que a conservação da Amazônia, por exemplo, representará na prevenção de trilhões de dólares em prejuízos para o Brasil e o mundo como um todo.
O que quero dizer, no final, é que parte significativa do crescimento futuro do PIB do Brasil poderá ser resultante da uma economia de baixo carbono que decidirmos implementar hoje. Ainda, o país poderá ingressar na economia global de REDD (Reduções de Emissões de Desmatamento e Degradação Florestal), atualmente em debate na Convenção de Mudança Climática da ONU. A sociedade brasileira tem tudo para dar um passo rumo a uma economia forte e com crescimento relevante do PIB, um PIB limpo, e não aquele que parece rondar alguns setores do governo federal.
Emissões aproximam planeta do ‘pior cenário’
Relatório da Organização Metereológica Mundial afirma que concentração de gases de efeito estufa é recorde.
A agência da ONU especializada em meteorologia divulgou nesta segunda-feira um relatório que indica que a concentração de gases causadores do efeito estufa atingiu em 2008 um nível recorde na atmosfera.
De acordo com o relatório da Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês), em 2008 a concentração de dióxido de carbono, o principal gás causador do efeito estufa, chegou a 385,2 partes por milhão (ppm), um aumento de 2 ppm em relação ao ano anterior.
“Em 2008, as concentrações globais de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, que são os principais gases do efeito estufa persistentes na atmosfera, atingiram o mais alto nível registrado desde os tempos pré-industriais”, diz o documento.
Além disso, a WMO diz que a concentração dos gases do efeito estufa na atmosfera continua a aumentar, “até mesmo um pouco mais rápido”, disse o chefe da agência, Michel Jarraud, em uma coletiva em Genebra.
Segundo ele, essa tendência leva a um prognóstico pessimista quanto à elevação da temperatura global.
Copenhague
A WMO monitora a concentração desses gases na atmosfera por meio de uma rede de estações localizadas em mais de 50 países.
O boletim divulgado é o quinto de uma série anual iniciada em 2004 e é divulgado às vésperas da Conferência da ONU sobre mudanças climáticas, que será realizada de 7 a 18 de dezembro, em Copenhague, na Dinamarca.
A reunião de Copenhague tem como objetivo fechar um novo acordo global sobre o clima para substituir o Protocolo de Kyoto, que expira em 2012.
Mais de 60 chefes de Estado e de governo, entre eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e a chanceler alemã, Angela Merkel, já confirmaram participação na reunião.
Jarraud disse que os dados da WMO mostram que o mundo está “de fato mais próximo do cenário mais pessimista” em relação ao aquecimento global nos próximos anos.
Isso reforça o fato de que é preciso adotar medidas o mais rápido possível. Esperamos que Copenhague dê origem a uma decisão significativa em relação aos gases do efeito estufa. Quanto mais adiarmos uma decisão, maior será o impacto.O pior cenário quanto ao aquecimento global, divulgado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) em um relatório de 2007, prevê um aumento de temperatura de entre 2,4ºC e 6,4ºC até o fim do século.
INPE estima que Amazônia foi responsável por 1,5% das emissões globais de gases de efeito estufa em 2008
Desmatamento absoluto (Km²) 2008.
O desmatamento da Amazônia entre 2007 e 2008 foi responsável pela emissão de cerca de 500 milhões de toneladas de gás carbônico. O montante representa entre 16% e 20% das emissões brasileiras e em torno de 1,5% (média entre 1,1% e 1,9%) das emissões globais do gás, segundo medição de 2008.
Os números foram divulgados em 24/11/09 pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), com base em uma nova metodologia para medição de emissões por desmatamento. Os resultados consideram fatores que levantamentos feitos até agora não levavam em conta, como diferenças da quantidade de biomassa em diferentes pontos da floresta e o papel da vegetação secundária.
“Antes a conta era uma multiplicação do número de hectares por 100 toneladas de gás carbônico. Esse modelo incorpora novas variáveis”, comparou o pesquisador do INPE Carlos Nobre, um dos autores do estudo.
Já a colaboração do desmatamento da Amazônia para as emissões globais, de em torno de 1,5%, considera estudo apresentado na última semana na revista de divulgação científica Nature, que estimou o total de emissões de gás carbônico do planeta em 32 bilhões de toneladas em 2008. O pesquisador do INPE Jean Ometto, um dos autores do estudo, pondera que é preciso considerar a margem de erro de 10%.
O estudo indica que a contribuição das emissões por uso da terra, mudança de uso da terra, que inclui agricultura e desmatamento caiu de 20% na década de 1990 para 12% em 2008. O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) utiliza o dado de 20% em seus relatórios, mas deve revisar os dados nas próximas edições.Pesquisadores brasileiros argumentam que alguns países desenvolvidos têm interesse em inflar a contribuição das florestas para as emissões globais para evitar responsabilidades de acordo com o verdadeiro tamanho de suas emissões, que estão ligadas principalmente ao uso de combustíveis fósseis.
Corte de 20% de CO2 é enrrolação climática
O governo se prepara para definir a meta de redução de emissões que o Brasil levará à conferência sobre mudança do clima de Copenhague, em dezembro/09.
Caso opte pela proposta de "consenso", de oferecer como compromisso brasileiro apenas a redução do desmatamento na Amazônia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estará não apenas abdicando do papel de liderança que diz querer ter, como também cometendo um ato de enrrolação climática.
Lula precisa decidir entre duas propostas atualmente na mesa. Uma vem do Ministério do Meio Ambiente, que quer que o Brasil faça um desvio de 40% em sua trajetória de emissões até 2020, devolvendo-as aos níveis de 1990.
A outra, puxada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e defendida pelo Itamaraty, postula que o Brasil coloque na mesa apenas a proposta de reduzir em 80% o desmatamento na Amazônia até 2020. Na prática, isso representaria um desvio de 20% em relação ao cenário tendencial de CO2.
A vida continua
Reduzir o desmatamento é um bom começo. Hoje, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente e de um estudo do grupo de Carlos Cerri, da USP, o desmate responde por cerca de 50% das emissões. Uma redução de 80% do desmatamento amazônico (que já não é fácil de cumprir) teria um efeito imediato considerável sobre a trajetória brasileira.
O diabo é que o mundo não acaba em 2020. E as emissões brasileiras nos setores realmente atrelados ao PIB continuarão crescendo após 2020, como cresceram inexoravelmente nos últimos 15 anos.
O desmatamento na Amazônia é, quase todo, produto de crime. Não está atrelado ao crescimento econômico. À exceção da queda quase consistente nos últimos quatro anos, não tem uma trajetória definida. Como qualquer crime, varia em função de estímulo (ou omissão) oficial e repressão. Nesse sentido, é quase um "ruído", que mascara as reais emissões da economia nacional.
Benefício anulado
Já o setor agropecuário e energético só faz crescer. Segundo Cerri, a alta desde 1990 foi de 65% nas emissões decorrentes da queima de combustíveis fósseis e 38% nas emissões da agropecuária. Tudo acima do PIB e bem acima da média mundial de crescimento de emissões, 28%.
Se mantido nesse ritmo, o crescimento das emissões desses setores anularia já em 2030 o benefício obtido pela redução do desmatamento. Em vez de um pico e um declínio a partir de 202, que é o que se espera que aconteça com as emissões do mundo todo, o Brasil teria um declínio e uma alta.
Isso é ruim não só por colocar o Brasil na contramão do esforço global, mas também porque o custo de cortes futuros só faz aumentar.
A Indonésia, cujas emissões são ainda maiores que as do Brasil, ofereceu uma proposta mais ousada: 26% de corte incondicional, 41% condicionados a ajuda internacional. Uma coisa é o Ministério da Ciência e Tecnologia se opor por razões técnicas aos cálculos feitos pela equipe do ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente, que já estão sendo refeitos, com ajuda do próprio MCT. Outra coisa é jogar fora o proverbial bebê com a água do banho e aferrar-se a um compromisso que tem cara de ambicioso, mas que, se olhado de perto, é bem modesto.
Emissões de CO2 continuam a subir rapidamente
A taxa anual de aumento das emissões de dióxido de carbono, a partir de combustíveis fósseis, mais do que triplicou nesta década, em comparação com a década de 1990. Este é o quadro assustador, às vésperas da COP 15, de um estudo realizado por um consórcio internacional de cientistas.
As emissões de CO2 aumentaram a uma taxa de 3,4% por ano entre 2000 a 2008, em contraste com a taxa anual de 1% na década anterior, de acordo com cientistas que participaram do relatório do Global Carbon Project, publicado na atual edição da Nature Geoscience.
A equipe incluiu cerca de 30 pesquisadores de todo o mundo, incluindo C. Scott Doney, cientista sênior do Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI) e Richard A. Houghton, cientista sênior e diretor interino do Woods Hole Research Center (WHRC).
Desde 2000, os cientistas documentaram um aumento global de 29% das emissões globais de CO2. Eles atribuem o crescimento ao aumento da produção e comércio de produtos manufaturados, sobretudo nas economias emergentes, a mudança gradual do petróleo ao carvão e ao declínio da capacidade do planeta de absorver CO2.
De acordo com os pesquisadores, ao longo da última década, as emissões de CO2 continuaram a subir, apesar dos esforços para controlar as emissões. As evidências preliminares sugerem que a terra e o oceano podem estar se tornando menos eficaz na remoção de CO2 da atmosfera, o que poderia acelerar a mudança do clima futuro. Embora as emissões de CO2 provenientes do desmatamento representem apenas cerca de 15% do total das emissões de CO2 no período 2000-2008, a redução do desmatamento é uma das atividades que poderiam contribuir significativamente para a estabilização da concentração de CO2 na atmosfera. As negociações na COP-15, em Copenhague, deveriam abordar esta questão a sério.
Assinar:
Postagens (Atom)
O Oceano Ártico passou de um ponto sem volta
O Oceano Ártico atingiu o 'ponto sem retorno' A ciência indica que o Oceano Ártico ultrapassou um ponto crítico irreversível de es...
-
Esta nova tecnologia produz plástico que se degrada através de um processo de degradação. A tecnologia se baseia na introdução de uma qua...
-
Um novo artigo, publicado na Nature Climate Change, documenta evidências científicas sem precedentes para impactos climáticos induzidos pelo...
-
Estamos falhando coletivamente com a biodiversidade mundial e o aquecimento. global Atender aos objetivos de biodiversidade, clima e água po...