terça-feira, 9 de abril de 2013

Reduzir IPI de carro é miopia econômica

A redução do IPI para carros não pode ser usado como um medicamento de uso contínuo. Com as vias progressivamente congestionadas, o corpo está à beira de um colapso. Está mais do que na hora dos economistas refazerem as contas enquanto o paciente respira“. O comentário é do jornalista e ambientalista André Trigueiro em artigo na homepage Mundo Sustentável do portal G1, 01/04/13.
Eis o artigo.
Assim que o governo anunciou mais uma prorrogação de IPI reduzido para carros zero, acessei o site do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito) para checar o tamanho atual da frota automobilística brasileira. Os dados são públicos e podem ser verificados no link do Denatran.
Por nosso país circulam oficialmente (dados consolidados de fevereiro/2013) mais de 43 milhões de automóveis (43.085.340), sendo que a maioria absoluta desses carros se concentra nas regiões metropolitanas. A situação é mais preocupante nas três principais capitais da região Sudeste, a mais rica e densamente povoada do país. São Paulo (4.858.630 de automóveis), Rio de Janeiro (1.764.089) e Belo Horizonte (1.059.307) ostentam números que devem soar como música para os economistas de plantão em Brasília, mas que representam um gigantesco obstáculo para a mobilidade urbana e para a qualidade de vida não apenas dessas, mas das principais cidades brasileiras.
De acordo com o relatório “Metrópoles em números: crescimento da frota de automóveis e motocicletas nas metrópoles brasileiras 2001/2011”, do Observatório das Metrópoles, o número de automóveis em todas as 12 metrópoles do país dobrou de tamanho neste período (aumentou de 11,5 milhões para 20,5 milhões). Já as motocicletas passaram de 4,5 milhões para 18,3 milhões em apenas dez anos.
O estudo revela que as metrópoles brasileiras reúnem aproximadamente 44% de toda a frota do país. Nesta década, registrou-se um aumento de 8,9 milhões de automóveis, aproximadamente 77,8%. Em média, foram adicionados mais de 890 mil veículos por ano. “As metrópoles brasileiras têm enfrentado nos últimos anos o que podemos chamar de uma ‘crise de mobilidade urbana’, resultante, sobretudo, da opção pelo transporte individual em detrimento das formas coletivas de deslocamento”, afirma o relatório. ”Um sistema eficiente de mobilidade é essencial para o acesso ao mercado de trabalho, à educação, ao consumo e ao lazer, ou seja, é uma condição fundamental para a construção do chamado bem-estar humano”, conclui o responsável pelo estudo, Jaciano Martins Rodrigues, doutor em Urbanismo (PROURB/UFRJ) e pesquisador do INCT/Observatório das Cidades.
Em artigo publicado nesta coluna, em setembro do ano passado, resumi em 10 tópicos as razões pelas quais deveríamos considerar a multiplicação indiscriminada de carros no Brasil um risco real para a economia, a saúde, o bem-estar social, o clima e o direito constitucional de ir e vir.
É evidente que a produção de automóveis responde a uma demanda da sociedade que ainda considera o carro um dos principais sonhos de consumo. Há também uma participação importante no PIB (5%) e na geração de empregos (131,7 mil funcionários).
O que nos parece urgente é a reflexão sobre a conveniência de o governo renovar incentivos fiscais (renúncia adicional de R$ 2,2 bilhões em impostos de abril a dezembro de 2013) a um setor da economia já bastante próspero e lucrativo, sem que se considerem os – cada vez mais notórios – impactos negativos dessa medida.
É óbvio que os economistas do Ministério da Fazenda que assinam a prorrogação do IPI reduzido para carros zero julgam ser esta uma medida fundamental para manter a economia aquecida. Contudo, parece também evidente que os argumentos em sentido contrário são igualmente consistentes e robustos. Há que se ter coragem para debater outras soluções em favor da geração de mais emprego e renda. Especialmente em programas de governo vinculados à expansão dos meios de transporte públicos de massa.
Tal como se dá na luta contra micro-organismos nefastos à nossa saúde, há limites para o uso de antibióticos. A redução do IPI para carros não pode ser usado como um medicamento de uso contínuo. Com as vias progressivamente congestionadas, o corpo está à beira de um colapso. Está mais do que na hora dos economistas refazerem as contas enquanto o paciente respira. (EcoDebate)

domingo, 7 de abril de 2013

Para combater as mudanças climáticas

De todas as grandes regiões do mundo, a Europa é a que mais tem se empenhado pela implementação de políticas destinadas a combater as mudanças climáticas causadas pela ação humana. No entanto, a pedra angular da abordagem europeia- um sistema de comercialização, com jurisdição sobre o continente inteiro, de direitos de emissão de gases que provocam o efeito estufa que causam as mudanças climáticas – está em apuros. Essa experiência sugere uma estratégia melhor para a Europa e o resto do mundo.
As histórias básicas das mudanças climáticas causadas pelo homem estão se tornando mais claras para o público mundial. Vários gases, entre eles o dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso, aquecem o planeta, à medida que crescem suas concentrações na atmosfera. Com o crescimento da economia mundial, também aumentam as emissões desses gases, acelerando o ritmo das mudanças climáticas causadas pelo homem.
O principal “gás estufa” é o dióxido de carbono. A maioria das emissões de CO2 resultantes da queima de combustíveis fósseis – carvão, petróleo e gás natural – para geração de energia, cujo consumo mundial está aumentando à medida que a economia mundial cresce. Como resultado, estamos numa trajetória rumo a níveis muito perigosos de CO2 na atmosfera.
O petróleo é o principal combustível para transportes em todo o mundo. Carvão e gás são queimados para produzir eletricidade e fornecer energia à indústria. Como sustentar o progresso econômico mundial cortando drasticamente as emissões de carbono?
Vinte anos atrás, o mundo acordou uma redução drástica das emissões de CO2 e de outros “gases estufa”, mas pouco progresso foi feito. Em vez disso, o rápido crescimento das economias emergentes, especialmente da China, país que queima carvão, provocou uma disparada nas emissões mundiais de CO2.
Mudanças perigosas no clima já começaram. Se o mundo continuar em sua trajetória atual, as temperaturas no mundo terminarão subindo vários graus centígrados, provocando uma elevação dos níveis do mar, megatempestades, severas ondas de calor, enormes perdas de colheitas, secas extremas, enchentes e uma perda acentuada de biodiversidade.
Mudar o sistema energético mundial é um grande desafio. O petróleo é o principal combustível para transportes em todo o mundo. Carvão e gás são queimados em enormes e crescentes quantidades para produzir eletricidade e fornecer energia à indústria. Como podemos, então, sustentar o progresso econômico mundial cortando drasticamente as emissões de carbono?
Existem essencialmente duas soluções, mas nenhuma delas foi implantada em larga escala. A primeira é o aproveitamento em massa de fontes de energia renováveis em lugar de combustíveis fósseis, especialmente de energia eólica e energia solar. Alguns países vão também continuar a usar a energia nuclear. (A geração de energia hidroelétrica não emite CO2, mas há poucos lugares restantes no mundo onde ela pode ser expandida sem grandes custos ambientais ou sociais.)
A segunda solução é capturar as emissões de CO2 para armazenamento subterrâneo. Mas essa tecnologia, denominada captura e sequestro de carbono (CSC, ainda não foi comprovada em larga escala). De qualquer maneira, a CSC exigirá investimentos significativos em pesquisa e desenvolvimento antes de tornar-se viável.
O grande problema é a urgência. Se dispuséssemos de um século para mudar o sistema energético mundial, poderíamos nos sentir razoavelmente seguros. No entanto, precisamos completar a maior parte da “migração” para energia de baixo carbono até meados do século. Isso é extraordinariamente difícil, dado o longo período de transição necessário para reformar a infraestrutura energética do mundo, inclusive não apenas usinas geradoras de eletricidade, linhas de transmissão e sistemas de transporte, mas também casas e edifícios comerciais.
Poucas regiões econômicas têm feito muito progresso nessa transformação. Com efeito, os EUA estão agora investindo pesadamente em gás natural, sem reconhecer, ou se importar com, o fato de que a expansão acelerada de sua exploração de gás de xisto, com base em nova tecnologia de fraturamento hidráulico, provavelmente tornará as coisas piores.
Mesmo que a economia americana migre do carvão para o gás natural, o carvão americano provavelmente será exportado para uso em outras partes do mundo. De todo modo, o gás natural, embora um pouco menos intensivo em geração de carbono do que o carvão, é também um combustível fóssil; sua queima causará danos inaceitáveis ao clima.
Somente a Europa tentou seriamente reduzir as emissões de carbono, criando um sistema1 que exige de cada emissor industrial que obtenha uma autorização para gerar cada tonelada de emissões de CO2. Como essas licenças são comercializadas a preços de mercado, as companhias têm interesse em reduzir suas emissões, impondo que comprem menos licenças ou permitindo-lhes vender licenças de que não necessitam embolsando um lucro.
O problema é que o preço das licenças no mercado despencou, em meio à desaceleração econômica europeia. As licenças que costumavam ser vendidas por mais de US$ 30 por tonelada antes da crise agora são negociadas por menos de US$ 10. A esse preço baixo, as empresas têm pouco interesse em reduzir suas emissões de CO2 – e pouca fé em que um mercado baseado em interesses retornará. Como resultado, grande parte da indústria europeia continua no caminho energético usual, enquanto a Europa tenta liderar o mundo nessa transformação.
Mas há uma estratégia muito melhor do que as licenças comercializáveis. Cada região do mundo deveria adotar um imposto sobre as emissões de CO2 que comece hoje em nível baixo e aumente gradual e previsivelmente no futuro.
Parte da receita fiscal deveria ser canalizada para subsídios a novas fontes de energia de baixa geração de carbono como energias eólica e solar, e para cobrir os custos de desenvolvimento de CSC. Esses subsídios poderiam começar em níveis relativamente elevados e diminuir gradualmente ao longo do tempo, à medida que o imposto sobre emissões aumentasse e que os custos das emissões de CO2 subissem e que os custos de novas tecnologias de geração de energia caíssem devido ao acúmulo de experiência e de inovações.
Com um sistema de longo prazo e previsível de impostos e subsídios envolvendo a geração de carbono, o mundo se moveria sistematicamente rumo à geração de energia com baixa produção de carbono, maior eficiência energética e CSC. O tempo é escasso. A necessidade de todas as grandes regiões do mundo adotarem políticas energéticas práticas e previdentes é mais urgente do que nunca. (EcoDebate)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Países com decrescimento populacional

O crescimento populacional foi a norma na maioria dos países do mundo, nos últimos 200 anos. Em 1927 a população mundial era de 2 bilhões de habitantes, chegou a 4 bilhões em 1974 e deve atingir 8 bilhões em 2025. Quadruplicando em 100 anos. Mas por trás deste alto crescimento houve uma grande redução das taxas de fecundidade que vai ter grande impacto no século XXI.
Embora ainda existam países com elevado crescimento da população, nas próximas décadas vai haver incremento do número de países que estarão em situação de declínio populacional. Entre 2005 e 2010 um pequeno número de países apresentou decrescimento da população e a lista não é maior devido à migração. Todavia, no final do corrente século, cerca de 60% dos países devem apresentar decrescimento do número de habitantes, indicando o fim do crescimento demográfico no mundo.
Em um total de 154 países com mais de um milhão de habitantes, havia 15 países (9,7% do total de 154 nações) que apresentaram um declínio de 4,251 milhões de habitantes entre 2005 e 2010, o que representou 0,06% do total da população mundial de 6,896 bilhões de habitantes em 2010. Os principais países com declínio neste período foram: Rússia e Ucrânia, além de outros países menores do Leste Europeu.
Segundo a projeção média da Divisão de População da ONU, 17 países (11% do total de 154 nações) devem apresentar um declínio de 5,527 milhões de habitantes entre 2015 e 2020, representando 0,07% da população mundial de 7,657 bilhões de habitantes em 2020. Além de Rússia e Ucrânia, os principais países com declínio neste quinquênio serão: Cuba, Alemanha e Japão.
Entre 2025 e 2030 o número de países com declínio da população deve subir para 30 (19,5% do total de 154 nações), apresentando um declínio de 12,076 milhões de habitantes, equivalente a 0,15% do total da população mundial de 8,321 bilhões de habitantes em 2030. A grande novidade entre os principais países com declínio populacional, neste quinquênio, será o início do forte declínio demográfico da China.
Entre 2035 e 2040 o número de países com declínio da população deve subir para 38 (24,7% do total de 154 nações), apresentando um declínio de 33,190 milhões de habitantes, equivalente a 0,37% do total da população mundial de 8,874 bilhões de habitantes em 2030. Na lista se inclui países como: Itália, Holanda, Polônia, Portugal, Jamaica, Porto Rico, Coreia do Sul, Gâmbia, etc.
Entre 2045 e 2050 o número de países com declínio da população deve subir para 49 (31,8% do total de 154 nações), apresentando um declínio de 53,478 milhões de habitantes, equivalente a 0,57% do total da população mundial de 9,306 bilhões de habitantes em 2030. O Brasil, Vietnã e o Irã, entre outros, passam a fazer parte dos países com declínio populacional.
No último quinquênio do século, 2095-2100, o número de países com declínio da população deve subir para 91 (59,1% do total de 154 nações), apresentando um declínio de 96,912 milhões de habitantes, equivalente a quase 1% do total da população mundial de 10,125 bilhões de habitantes em 2100. A maioria dos países do mundo entrarão no clube decrescentista, tais como Índia, Indonésia, Paquistão, Bangladesh, México, etc.
Na segunda metade do século XXI, o declínio populacional deve passar a ser a norma (com exceção dos países muito pobres e com baixo nível de cidadania) e o mundo vai necessitar se preparar para uma situação de uma demografia em decrescimento. Será uma configuração sem precedentes e que vai trazer inúmeros novos e diferentes desafios. (EcoDebate)

O decrescimento econômico e populacional

O decrescimento econômico e populacional: uma realidade provável?
Os dois últimos séculos foram excepcionais na história da humanidade e possibilitaram quatro acontecimentos extraordinários:
1) uma grande produção de combustíveis fósseis;
2) uma sequência de revoluções científicas e tecnológicas;
3) um crescimento exponencial da população mundial;
4) um crescimento ainda maior da economia, com elevada expansão do consumo conspícuo. Estes quatro fenômenos estão interligados.
No passado, antes da decolagem do capitalismo, segundo dados de Angus Maddison, o Produto Interno Bruto (PIB) do mundo cresceu 5,7 vezes entre os anos 1000 a 1820, enquanto a população cresceu de cerca de 267 milhões para pouco mais de um bilhão de habitantes, no mesmo período (cresceu 4 vezes em 820 anos). Todavia, o crescimento da renda per capita mundial foi de apenas 1,4 vezes (40%) em 820 anos.
Porém, entre 1820 e 2012 o PIB mundial cresceu 82 vezes e a população cresceu de pouco mais de um bilhão de habitantes para mais de 7 bilhões (um crescimento de 7 vezes em 200 anos). Neste curto período de cerca de dois séculos a renda per capita mundial deu um salto de 12 vezes. Mesmo considerando que há uma distribuição desigual da riqueza em nível nacional e internacional, o salto da renda foi muito grande e foi acompanhado por grande aumento da posse de bens de consumo, aumento dos níveis educacionais, uma quase universalização do telefone (fixo e celular), da luz elétrica, redução da mortalidade infantil, crescimento da esperança de vida, etc.
Nos últimos 60 anos houve o surgimento de uma janela de oportunidade demográfica devido à mudança da estrutura etária e uma grande entrada das mulheres no mercado de trabalho, que possibilitou um bônus demográfico feminino. Esta combinação de revoluções científicas e tecnológicas, com abundância de combustíveis fósseis, com empoderamento das mulheres e crescimento da população – especialmente em idade de trabalhar – possibilitou um grande avanço econômico, que possibilitou expansão dos direitos de cidadania e ganhos importantes, mas não completos, dos direitos humanos. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo nunca foi tão elevado. Houve redução da pobreza e crescimento da classe média.
Mas como serão os próximos 200 anos?
Será que estas tendências dos últimos dois séculos podem ser projetas para indicar maiores avanços nas próximas 20 décadas?
Quais são as perspectivas de médio e longo prazo?
No curto e no médio prazo o mundo ainda deve apresentar crescimento econômico, embora os países desenvolvidos estejam enfrentando dificuldades, sendo que a Europa e o Japão são símbolos de estagnação econômica, enquanto os Estados Unidos apresentam um quadro de crescimento anêmico. Mas entre grande parte dos países em desenvolvimento há ainda um espaço temporal para o crescimento da renda, para o aumento dos níveis de consumo e redução da pobreza.
Para 2025, estima-se uma classe média consumista mundial de mais de 4 bilhões de pessoas, significando uma ampliação do mercado de bens e serviços, mas aumentando as pressões sobre os recursos naturais. O sucesso dos próximos 20 anos pode significar que o esgotamento dos recursos naturais e o aquecimento global entrem em um ponto de inflexão, de não retorno.
Assim, no largo prazo, tudo indica que o crescimento econômico não vá perdurar, pois a humanidade já ultrapassou os limites bioprodutivos do Planeta e o déficit ecológico só tem aumentado. O ritmo atual tem se sustentado na base do uso e abuso de uma herança acumulada no passado, quer seja no subsolo, no solo ou nas águas. As florestas e os ecossistemas terrestres e aquáticos estão sendo encolhidos e danificados. Por razões ambientais, demográficas e econômicas os ventos favoráveis ao crescimento estão mudando e já existem nuvens sombrias no horizonte.
O artigo do pesquisador Robert J. Gordon (“Is U.S. Economic Growth Over?”) é uma referência importante para analisar o futuro próximo, levando-se em consideração este período excepcional dos últimos 200 anos. O artigo começa recapitulando os vínculos entre períodos de rápida expansão econômica e as inovações das três Revoluções Industriais (RI): 1ª) a das ferrovias, energia a vapor e indústria têxtil, de 1750 a 1830; 2ª) a da eletricidade, motor de explosão, água encanada, banheiros e aquecimento dentro de casa, petróleo e gás, farmacêuticos, plásticos, telefone, de 1870 a 1900; 3ª) a dos computadores, internet, celulares, de 1960 até hoje.
Segundo Gordon, a segunda RI teria sido mais importante em termos de acelerar o crescimento econômico, garantindo 80 anos de acelerado avanço na produtividade. Ele argumenta que este evento excepcional é único no tempo e não vai se repetir mais. Ele dá exemplo da velocidade do transporte (que é confirmada pelo fracasso do Boeing 787 Dreamliner):
Até 1830, a velocidade de tráfego de passageiros e de mercadorias era limitado pelo ‘casco e vela’, mas aumentou de forma constante até a introdução do Boeing 707, em 1958. Desde então, não houve nenhuma mudança na velocidade e, de fato, os aviões voam mais lento agora do que em 1958 por causa da necessidade de economizar combustível” (p. 2).
Outro exemplo se dá pelo engarrafamento das grandes cidades e a crise da mobilidade urbana. Uma carroça puxada por dois cavalos trafegava a 26 km/hora, mas nossos potentes carros atuais não trafegam a 20 km/hora no horário de pico das metrópoles. Nas estradas é grande o número de acidentes e mortes. Desastres e restrições à mobilidade urbana significam perda de eficiência econômica e pressão sobre a qualidade de vida.
Desta forma, o aumento do preço dos combustíveis fósseis e a perda dos ganhos de produtividade vão funcionar como freios ao crescimento econômico. Considerando a economia dos Estados Unidos da América (EUA), Gordon argumenta que existem seis “ventos contrários” (headwinds) que devem desacelerar o crescimento americano (e do resto do mundo):
1) aumento das desigualdades sociais;
2) educação deteriorada;
3) degradação ambiental;
4) maior competição provocada pela globalização;
5) envelhecimento populacional;
6) o peso dos déficits e do endividamento privado e público.
O autor sugere que estes “ventos contrários” não estão atingindo apenas os EUA, mas todas as economias avançadas, o que deve provocar taxas de crescimento econômico abaixo de 1% nas próximas décadas. Nem mesmo a revolução nas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) vão conseguir manter os ganhos de produtividade. Para as sociedades emergentes, os “ventos contrários” também existem, mas sopram com menos intensidade, por enquanto. Mas, numa economia cada vez mais internacionalizada, é difícil imaginar que os países em desenvolvimento possam manter altas taxas de crescimento econômico sem contar com uma dinâmica parecida nos países desenvolvidos.
O menor ritmo de crescimento econômico deve reforçar o menor ritmo de crescimento populacional e vice-versa. A projeção baixa da ONU indica um decrescimento populacional na segunda metade do século XXI, com aumento do envelhecimento da estrutura etária e elevação da carga de dependência dos idosos. Na projeção baixa, a população mundial ficaria bem abaixo de 7 bilhões de habitantes, em 2100. Desta forma, os picos do petróleo e da população podem estar mais próximos do que se imagina.
O crescimento econômico é igual ao incremento da força de trabalho multiplicado pelo aumento da produtividade das pessoas ocupadas. Se há, ao mesmo tempo, declínio da população (especialmente da PIA: população em idade ativa), estagnação das inovações tecnológicas e esgotamento dos recursos naturais, então o crescimento econômico se torna impossível. Este quadro é agravado pelo endividamento público e privado e pelo envelhecimento populacional. Os pesquisadores econômicos Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff consideram que nações com cargas de dívida pública superiores a 90% do PIB crescem menos e comprometem definitivamente a possibilidade de manutenção de altas taxas de crescimento econômico.
Se estes são os cenários que devem conformar o futuro, não é irreal desde já se considerar que o Estado Estacionário ou o decrescimento demo-econômico sejam a nova realidade que se descortina no horizonte. (EcoDebate)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Afinal, empresa sustentável dá lucro?

É a pergunta do bilhão. A resposta, convincente, pode impulsionar o novo modelo de desenvolvimento para o século 21. Uma pergunta sempre aparece nos debates sobre negócios e sustentabilidade: empresa sustentável dá lucro? Uma das muitas entidades a pesquisar o tema, a Universidade de Harvard, nos EUA, não tem dúvidas sobre a resposta: sim, as empresas sustentáveis dão lucro e ainda ganham da sociedade a “licença para lucrar”.
Como a universidade chegou a essa conclusão? Pesquisando o desempenho das maiores empresas globais listadas em bolsas de valores, entre 1992 e 2010, e comparando com o número de políticas de sustentabilidade adotadas por elas nesse intervalo.
Na verificação dessas listas, a universidade enumerou as 27 políticas de sustentabilidade mais adotadas pelas empresas, nas áreas de meio ambiente (eficiência energética, redução de emissão, destinação de resíduos sólidos), social (promoção da diversidade na empresa e na comunidade, respeito aos direitos humanos, promoção da agenda do trabalho decente) e governança (transparência nas informações, código de ética).
Harvard dividiu essas empresas em dois grupos: as de alta sustentabilidade, que adotam mais de 10 políticas de sustentabilidade e começaram o processo ainda nos anos 1990; e as de baixa sustentabilidade — que possuem menos de quatro políticas de sustentabilidade e estão nesse processo desde os anos 2000.
Para verificar a performance das empresas, Harvard estudou o setor, o porte e a estrutura de capital de cada uma delas. Completou a análise com os dados obtidos pela leitura de balanços anuais e de informações nos sites institucionais, bem como entrevistas de 200 executivos, para confirmar o histórico do processo de gestão sustentável.
Agregando todas essas informações, o resultado obtido foi o seguinte: as empresas de alta sustentabilidade apresentaram melhores taxas de retorno, num período de 18 anos. O patrimônio delas valorizou 30% a mais do que aquele das empresas de baixa sustentabilidade. A rentabilidade líquida desse primeiro grupo cresceu o dobro da rentabilidade do grupo de baixa sustentabilidade.
Analisando a evolução do valor das empresas, ano a ano, também é possível verificar que, mesmo em momentos de queda nas bolsas, a desvalorização das empresas de alta sustentabilidade foi significativamente menor que a das empresas de baixa sustentabilidade.
Por que as empresas de alta sustentabilidade tiveram esse desempenho? A Universidade de Harvard também encontrou resposta a essa pergunta: elas apresentam desempenho superior porque possuem uma governança distinta, como foco no diálogo estruturado com as partes interessadas, metas sustentáveis sob a responsabilidade expressa da diretoria e maior parte do investimento direcionado para o longo prazo e para suprir as necessidades e demandas dos públicos de interesse da empresa.
Outras características da gestão dessas empresas são o sistema de compensação da liderança — atrelado tanto ao desempenho financeiro quanto ao cumprimento de metas sustentáveis — e a tomada de decisões, levando em conta dados financeiros e de mercado, bem como informações relativas às partes interessadas.
Vale ressaltar que as empresas de alta sustentabilidade adotaram a gestão sustentável voluntariamente e antes das demais, lançando tendências de mercado. Portanto, não há mais motivo para duvidar dos benefícios da sustentabilidade para os negócios. É hora de pôr mãos à obra! (EcoDebate)

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Desmatamento e degradação na Amazônia

DETER/INPE: De 11/2012 a 02/2013, as áreas de desmatamento e degradação na Amazônia somaram 615,4 Km2
De novembro de 2012 a fevereiro de 2013, as áreas de alerta de desmatamento e degradação na Amazônia somaram 615,4 km². Os dados foram registrados pelo DETER, o sistema de detecção do desmatamento em tempo real do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que serve para orientar a fiscalização. A distribuição das áreas de alerta nos estados da Amazônia Legal é apresentada na tabela a seguir.
As nuvens encobriram 34% da Amazônia Legal em novembro, enquanto em dezembro 54% da região não pôde ser observada. No mês de janeiro a cobertura de nuvens chegou a 67%. Já em fevereiro esse índice foi de 64%.
Entre novembro e abril, época de chuvas na Amazônia, a observação por satélites se torna mais difícil devido à intensidade de nuvens que cobrem a região. Nesta época, o INPE divulga os resultados do DETER agrupados por período, embora o sistema mantenha durante todo o tempo sua operação regular e o envio diário dos dados ao IBAMA e Ministério do Meio Ambiente, responsáveis pela fiscalização e controle do desmatamento.
No mapa abaixo, os pontos em verde indicam a localização dos alertas emitidos em novembro; os pontos em vermelho, dos alertas de dezembro; os pontos em laranja, dos alertas de janeiro; e os pontos em amarelo, dos alertas de fevereiro.
Em função da cobertura de nuvens variável de um mês para outro e, também, da resolução dos satélites, o INPE não recomenda a comparação entre dados de diferentes meses e anos obtidos pelo sistema DETER. Os relatórios mensais completos estão disponíveis na página www.obt.inpe.br/deter
Sobre o DETER
Realizado pela Coordenação de Observação da Terra do INPE, o DETER é um serviço de alerta de desmatamento e degradação florestal na Amazônia Legal baseado em dados de satélite de alta frequência de revisita.
Os alertas produzidos pelo DETER servem para orientar a fiscalização e garantir ações eficazes de controle da derrubada da floresta. Embora sejam divulgados relatórios que reúnem dados de um ou mais meses, os resultados do DETER são enviados quase que diariamente ao IBAMA.
O DETER utiliza imagens do sensor MODIS do satélite Terra, com resolução espacial de 250 metros, que possibilitam detectar polígonos de desmatamento com área maior que 25 hectares. Nem todos os desmatamentos são identificados devido à ocorrência de cobertura de nuvens.
A menor resolução dos sensores usados pelo DETER é compensada pela capacidade de observação diária, que torna o sistema uma ferramenta ideal para informar rapidamente aos órgãos de fiscalização sobre novos desmatamentos.
Este sistema registra tanto áreas de corte raso, quando os satélites detectam a completa retirada da floresta nativa, quanto áreas com evidência de degradação decorrente de extração de madeira ou incêndios florestais, casos que fazem parte do processo de desmatamento na região.
A liberação dos dados ao público segue cronograma mensal no período de maio a outubro, quando há grande disponibilidade de imagens sem nuvens na região amazônica. A divulgação se torna mais espaçada entre novembro e abril, meses que tradicionalmente apresentam limitações de observação devido às condições meteorológicas.
Os números apontados pelo DETER são importantes indicadores para os órgãos de controle e fiscalização. No entanto, para computar a taxa anual do desmatamento por corte raso na Amazônia, o INPE utiliza o PRODES (www.obt.inpe.br/prodes), que trabalha com imagens de melhor resolução espacial capazes de mostrar também os pequenos desmatamentos.
A cada divulgação sobre o sistema de alerta DETER, o INPE apresenta ainda um relatório de avaliação amostral dos dados. Os relatórios, assim como todos os dados relativos ao DETER, podem ser consultados em www.obt.inpe.br/deter. (EcoDebate)

Desmatamento na Amazônia Legal sobiu 26%

Alertas de desmatamento na Amazônia Legal sobem 26% em 6  (seis) meses
Os alertas de desmatamento na Amazônia Legal subiram 26%, entre 1º de agosto de 2012 e 28 fevereiro de 2013, em comparação ao mesmo período do ano passado, informou em 28/03/13 o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Os dados foram registrados pelo Deter, sistema de detecção de desmatamento em tempo real do INPE, que usa imagens de satélite para analisar a perda da Floresta Amazônica em nove estados. Eles incluem a degradação, referente ao desmatamento parcial da floresta, e o corte raso, quando há desmatamento total da área e o solo fica exposto. No total, foram registrados alertas de desmatamento ou degradação nos últimos seis meses em 1.695,27 quilômetros quadrados da floresta.
Segundo o diretor de Proteção Ambiental do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), Luciano de Menezes Evaristo, o índice divulgado hoje ainda não comprova o aumento de desmatamento na região.
“Não se pode dizer que com o aumento de alertas houve o aumento de desmatamento. Isso porque o Deter, que tem um componente de degradação florestal que pode se tornar ou não em desmatamento. Temos que aguardar o período Prodes [Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia] em julho para ser definido se aquela degradação foi realmente corte raso [desmatamento]”, explicou.
Os campeões da lista de alertas de desmatamento são os estados de Mato Grosso, do Pará e de Rondônia. O Acre teve uma redução de 84% nos alertas – no período analisado em 2012, foram 28, e este ano, apenas quatro.
“Mato Grosso e Pará sempre foram os campeões do desmatamento. Esses alertas podem estar sendo impulsionados pelo boom das commodities, pelo aumento do preço da terra e pode ter havido uma pressão maior no mês de julho. Mas a administração ambiental reagiu, mudou as estratégias e trouxemos de novo sob o controle qualquer ameaça [de degradação da floresta]”, disse Evaristo.
Com o acréscimo de alertas para fiscalização, o IBAMA adotou novas estratégias e apreendeu no mês de fevereiro R$ 15 milhões em toras de madeira. As ações da Operação Onda Verde superaram, em apenas um mês de fiscalização no oeste paraense, o volume de madeira em tora ilegal apreendido em 2012 em todo o estado. A operação tem ações em áreas críticas, que respondem a 54% de todo o desmatamento da Amazônia Legal, em Mato Grosso, Amazonas e em Rondônia e já retirou de circulação mais de 65 mil metros cúbicos de toras ilegais.
“Para onde o desmatamento caminhar, através dos alertas que o INPE nos passar pelo Deter, nos encaminharemos para as nossas bases para conter o desmatamento. E o grande alento deste ano, entramos a partir de janeiro e em fevereiro fizemos grandes apreensões de madeira. Só no Pará, quase 22 mil m³ de tora foram apreendidos no mês de fevereiro, pegamos todos os desmatadores que fazem o corte seletivo na floresta de surpresa, na chuva, mais de 100 tratores foram apreendidos”, destacou o diretor. De acordo com Evaristo, as ações não tem data para terminar. (EcoDebate)

Reciclagem de módulos solares no fim da vida é inviável

Reciclagem de módulos solares no fim da vida é inviável se a diversidade de materiais não for considerada. Pesquisadores da Austrália e da...