segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Mudança climática ameaça segurança alimentar da AL e Caribe

Impactos das mudanças climáticas ameaçam segurança alimentar da América Latina e Caribe.
Relatório produzido por Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e Associação Latino-Americana de Integração (ALADI) destacou que a mudança climática afetará o rendimento dos cultivos da agricultura, terá impacto nas economias locais e comprometerá a segurança alimentar no Nordeste do Brasil, em parte da região andina e na América Central.
As alterações climáticas têm implicações graves para a agricultura e a segurança alimentar.
O impacto das mudanças climáticas na América Latina e no Caribe será considerável devido à dependência econômica da região em relação à agricultura, afirmou novo estudo feito por Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e Associação Latino-Americana de Integração (ALADI).
O estudo foi apresentado no início de agosto em reunião da CELAC realizada em Santiago de los Caballeros, na República Dominicana, com o objetivo de ajudar a fornecer insumos para a gestão das mudanças climáticas no Plano para a Segurança Alimentar, Nutrição e Erradicação da Fome da CELAC 2025.
Segundo as três agências, o setor agrícola é a atividade econômica mais afetada pelas mudanças climáticas, enquanto responde por 5% do PIB regional, 23% das exportações e 16% dos empregos.
“Com uma mudança estrutural em seus padrões de produção e consumo, e um grande impulso ambiental, a América Latina e o Caribe podem alcançar o segundo dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), que prevê o fim da fome, a segurança alimentar e a melhora da nutrição e a promoção da agricultura sustentável”, disse Antonio Prado, secretário-executivo adjunto da CEPAL.
Segundo ele, o Plano de Segurança Alimentar da CELAC e o novo Fórum dos Países da América Latina e do Caribe sobre Desenvolvimento Sustentável serão os pilares fundamentais para este processo.
O relatório das três agências destacou ainda que a mudança climática afetará o rendimento dos cultivos, terá impacto nas economias locais e comprometerá a segurança alimentar no Nordeste do Brasil, em parte da região andina e na América Central.
“O desafio atual para a região é considerável: como continuar seu processo positivo de erradicação da fome à medida que os efeitos das mudanças climáticas se tornam cada vez mais profundos e evidentes em seus sistemas produtivos?”, questionou Raúl Benítez, representante regional da FAO.
Os países cujos setores agrícolas sofrerão os maiores impactos (Bolívia, Equador, El Salvador, Honduras, Nicarágua e Paraguai) já enfrentam desafios importantes em termos de segurança alimentar.
Alguns países da região, assim como a CELAC, já deram passos importantes no desenho de planos de adaptação às mudanças climáticas para o setor agropecuário, mas o desafio ainda é grande. Apenas em termos de recursos financeiros, sem levar em conta as mudanças necessárias de política, será necessário algo em torno de 0,02% do PIB regional anual.
O estudo será peça-chave para incluir a gestão da mudança climática no Plano para a Segurança Alimentar, Nutricional e Erradicação da Fome da CELAC 2025.
Impactos sobre o setor agrícola e a segurança alimentar
Paradoxalmente, apesar de a região gerar uma menor contribuição à mudança climática em termos de emissões de gases do efeito estufa na comparação com outras, é especialmente vulnerável a seus efeitos negativos.
O novo relatório projeta deslocamentos, em altitude e latitude, das regiões de cultivo de espécies importantes como café, cana de açúcar, batata, milho, entre outras.
Nacionalmente, esses impactos podem afetar seriamente a segurança alimentar. Segundo o relatório, na Bolívia as mudanças de temperatura e chuva causarão uma redução média de 20% do faturamento rural.
No caso do Peru, as projeções indicam que o impacto da mudança climática na agricultura irá gerar redução da produção de diversos cultivos básicos para a segurança alimentar, em especial daqueles que necessitam de mais água, como o arroz.
Mas o setor agrícola não apenas é afetado pelas mudanças climáticas, como contribui para que elas ocorram, sendo urgente que os países, como o apoio da CELAC, façam uma transição urgente para práticas agrícolas sustentáveis, tanto em termos ambientais como econômicos e sociais.
Segundo as três agências, a erradicação da fome na América Latina e no Caribe requer uma mudança de paradigma para um modelo agrícola plenamente sustentável que proteja seus recursos naturais, gere desenvolvimento socioeconômico equitativo e permita se adaptar às mudanças climáticas e mitigar seus efeitos. (ecodebate)

O clima na era dos humanos

Pode a mente humana dominar o que a mente humana criou? - Paul Valéry
O planeta Terra foi formado há cerca 4,5 bilhões de anos. Os primeiros seres vivos (estromatólitos) datam de 3,8 bilhões de anos. Esses primeiros seres vivos eram bem simples. Centenas de milhões de anos depois surgiram os organismos invertebrados. As esponjas foram os primeiros animais invertebrados a surgir na Terra, há 650 milhões de anos e há 520 milhões de anos surgiram os primeiros vertebrados. As grandes variações climáticas dificultavam a sobrevivência dos seres vivos.
Há 65,5 milhões de anos, época que marca o fim do período Cretáceo (K) e o início do Paleógeno (Pg) ocorreu uma grande extinção em massa da vida na Terra. A extinção “K-Pg” é muito conhecida devido ao desaparecimento dos dinossauros, mas vitimou também 75% das espécies. Isto ocorreu devido ao impacto de um asteroide com a Terra, o que ficou evidente com a descoberta de uma enorme cratera soterrada em Chicxulub, no Estado de Iucatã, México, medindo cerca de 180 quilômetros de diâmetro. O asteroide que caiu no México tinha mais de 10 quilômetros de diâmetro e o impacto dele com a Terra liberou energia equivalente a da explosão de cinco bilhões de bombas atômicas como as usadas sobre Hiroshima. A mudança abrupta do clima global levou à extinção total dos dinossauros e de grande parte da vida na Terra.
O período mais quente dos últimos 500 milhões de anos aconteceu no chamado “Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno” (MTPE ou PETM em inglês). Em apenas 20 mil anos, a temperatura média terrestre aumentou em 6ºC, com um correspondente aumento do nível do mar, bem como um aquecimento dos oceanos. As concentrações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera aumentaram significativamente, provocando escassez de oxigênio nas profundezas oceânicas, provocando grandes extinções de vida marinha. Durante o MTPE foram liberadas nos oceanos e na atmosfera entre 1.500 e 2.000 gigatoneladas de carbono num lapso de tempo de mil anos, o que é equiparável às atuais emissões antrópicas.
A partir do Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (MTPE) as temperaturas começaram a cair continuamente até ficar abaixo do nível atual. O gênero Homo, que inclui os humanos modernos, surgiu a cerca de 2,5 milhões de anos, evoluindo de ancestrais australopitecíneos e o surgimento do Homo habilis. Nota-se que o gênero Homo surgiu e evoluiu em um clima com temperaturas iguais ou menores do que as atuais. Nestes 2 a 3 milhões de anos houve diversos períodos glaciais e interglaciais que variavam entre 10 e 15 mil anos, sendo que, na maioria do tempo, o clima oscilava entre zero e cerca de 4ºC para baixo. Mas também houve pequenos períodos em que a temperatura ficou acima da média do século XX.
O Homo Sapiens surgiu na África há cerca de 200 mil anos, se espalhando pelo Planeta por volta de 90 mil anos atrás. Enquanto o Homo Sapiens ainda estava na África tropical, ocorreu o período Eemiano, entre 130.000 e 110.000 anos, sendo o último período interglacial antes do Holoceno, no qual o clima era mais quente do que o de hoje e o nível do mar estava entre 5 a 6 metros mais alto do que o nível atual.
Entre 350 mil e 20 mil anos atrás, também habitou a Terra o homem de Neandertal que viveu na Europa e partes do oeste da Ásia. Eles coexistiram no tempo com o Homo sapiens, mas com poucos contatos, embora os Neandertais compartilhem 99,7% de seu DNA com os humanos modernos, apesar de apresentarem diferenças morfológicas muito específicas. Os Neandertais foram extintos no último período glacial que ocorreu após o período Eemiano.
O Último período glacial, também conhecido como Idade do Gelo, ocorreu durante a última parte do Pleistoceno, de aproximadamente 110.000 a 10.000 atrás. Esta glaciação foi a última acontecida na Terra, marca fim do período Pleistoceno e foi quando o aumento do gelo permitiu a travessia (Estreito de Bering) do ser humano da Ásia para a América do Norte. Um evento que quase exterminou os seres humanos foi a “catástrofe de Toba”, que ocorreu de 70 mil a 80 mil anos atrás, em decorrência de um evento vulcânico no Lago Toba, em Sumatra, na Indonésia, que pode ter reduzido a população humana mundial a algo em torno de 10 mil pessoas. Foi no período mais frio do último período glacial que os Neandertais foram extintos.
Mas o clima mudou com o fim do Pleistoceno e o início do Holoceno. A temperatura subiu e se manteve surpreendentemente estável nos últimos 10 mil anos, com uma variação de 0,5ºC para cima ou para baixo da média do século XX. Foi nesse período que houve o grande avanço da história humana. A estabilidade climática foi fundamental para o sucesso da Revolução Agrícola e o avanço da pecuária que possibilitou a vida sedentária, o surgimento das cidades e o avanço da escrita e da civilização.
Segundo Jared Diamond, no livro “Armas, Germes e Aço” a cultura floresceu no período Neolítico, cerca de 8.500 a.C., iniciando-se com a domesticação de plantas e animais, em função da alta fertilidade do solo e do ecossistema do Crescente Fértil (região da Mesopotâmia e Oriente Médio). Excedente de alimentos, aumento populacional, sedentarismo, mais gente para pensar, inovações tecnológicas, exploração dos metais, fabricação de armas, excedente de produtos agrícolas e de animais, aumento das trocas (escambo), surgimento do comércio, invenção da roda e da escrita, formação de aldeias e cidades, organização política, tudo isso, permitiu um grande avanço do tamanho da população e da melhoria das condições de vida.
Assim, é necessário reforçar que o Holoceno (últimos 10 mil anos) foi um período de grande estabilidade climática e que manteve temperaturas abaixo do período Eemiano (entre 130.000 e 110.000 anos) e acima do último período glacial (entre 110.000 a 10.000 atrás). Porém, esse período excepcional, em que o clima ajudou o desenvolvimento humano, está chegando ao fim, exatamente pelo poder exponencial das atividades antrópicas.
O gráfico abaixo mostra que a concentração de CO2 na atmosfera variou de 185 a 280 partes por milhão (ppm) nos últimos 800 mil anos, antes da Revolução Industrial e Energética. A variação de CO2 na atmosfera é a principal responsável pela mudança da temperatura entre os períodos mais quentes e os períodos glaciais.
Após o início do uso generalizado dos combustíveis fósseis (carvão mineral, petróleo e gás) a concentração de CO2 na atmosfera subiu para 400 ppm em 2015, acelerando o aquecimento da atmosfera. Isto quer dizer que o clima na Terra deve voltar para o nível do período Eemiano que estava pelo menos 2ºC acima da média do século XX e o nível do mar estava entre 5 e 6 metros acima do nível atual.
Com a crescente emissão de gases de efeito estufa (GEE), o clima na Terra caminha para um nível sem precedentes nos últimos 3 milhões de anos. Se as emissões de GEE continuarem a temperatura do Planeta pode chegar a 4,5ºC acima da média do século XX (cerca de 5ºC acima da média do Holoceno) até 2100. Isto levaria à elevação do nível dos oceanos e à inundação de amplas áreas costeiras, inclusive de grandes cidades ao redor do mundo, afetando diretamente a vida de pelo menos 500 milhões de pessoas.
O gráfico mostra que existe uma relação muito forte entre as emissões de carbono e o aumento da temperatura global. Entre 1880 e 1900 a temperatura estava 0,2°C abaixo da média da temperatura do século XX. Entre 1901 e 1950 a média da temperatura ficou 0,15°C abaixo da média do século passado e entre 1951 a 2000 ficou 0,15°C acima da média. Portanto, houve um aumento de temperatura, mas que alguns céticos consideravam como efeito natural.
Porém, o ano de 1998 foi o mais quente do século XX e ficou 0,63°C acima da média secular. E o que estava ruim, piorou muito no século XXI, pois a temperatura em 2015 ficou 0,9°C acima da média do século XX, um acréscimo de 0,27°C em apenas 17 anos. Para os incrédulos, e surpreendentemente, os três primeiros meses de 2016 tiveram um aumento climático extremamente elevado, não antecipado por ninguém e nenhum modelo estatístico. O aumento da temperatura em relação à média do século XX foi de 1,04°C em janeiro, de 1,21°C em fevereiro e de 1,22°C em março de 2016, segundo dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). Ou seja, em relação ao final do século XIX, o aumento da temperatura no primeiro trimestre de 2016 ficou quase 1,5°C mais elevada, o que é a meta de limite máximo de aumento da temperatura proposta pelo Acordo de Paris para o ano de 2100. No primeiro semestre de 2016 a temperatura ficou 1,05ºC acima da média do século XX. É a primeira vez que se registra um semestre com temperatura acima de 1ºC. Tudo isto acendeu o alerta e os ambientalistas estão falando em emergência climática.
Mesmo que o Acordo de Paris, da COP-21, seja colocado em prática, a temperatura pode chegar a 3,5ºC acima da média do século XX e 4ºC acima da média do Holoceno. As consequências seriam desastrosas de qualquer maneira. No caso de a temperatura ficar em 2ºC acima da média do século XX até 2100 já seria problemático. E o pior é que o aumento deve continuar no século XXII. Isto quer dizer que o futuro da civilização está em sério perigo.
Em artigo publicado mês passado no periódico Atmospheric Chemistry and Physics Discussion, o cientista James Hansen e colegas (2016) confirmam que o aumento da temperatura em 2ºC pode ser extremamente perigoso, pois pode gerar super-furacões e elevar o nível do mar, no longo prazo, em vários metros, ameaçando as áreas costeiras em geral, especialmente as mais povoadas.
Ou seja, desde o surgimento do gênero Homo, há cerca de 2,5 milhões de anos, o clima nunca ficou tão quente como se projeta para o final do século XXI. Será pior no século XXII. Na maior parte de sua história, o Homo Sapiens viveu em temperaturas menores do que as atuais. O clima atual é uma situação totalmente atípica e que a humanidade nunca viveu desde que desceu das árvores e passou a derrubá-las. Uma súbita mudança climática pode levar a civilização ao colapso.
Para mudar este quadro, libertar-se dos combustíveis fósseis é essencial. Porém, está cada vez mais evidente que não basta mudar a matriz energética, descarbonizar a economia e promover uma maquiagem verde no processo de produção e consumo. É preciso, urgentemente, colocar na ordem do dia o debate sobre os meios de se promover o decrescimento das atividades antrópicas. A meta de redução da pobreza deve ser alcançada pelo decrescimento das desigualdades sociais e não pelo crescimento econômico desenfreado.
Como afirmei em outro artigo: a economia depende da ecologia e não o contrário. Os desastres, geralmente, não são naturais, já que o maior desastre em curso é o aquecimento global provocado pelas exponenciais emissões de gases de efeito estufa. Não é a natureza que está ameaçando o ser humano. O ser humano está se autodestruindo ao aquecer a temperatura do Planeta. E o pior é que muitas espécies inocentes podem desaparecer no Antropoceno devido à irresponsabilidade e ganância humanas. (ecodebate)

sábado, 3 de setembro de 2016

Produção alimentos é suficiente, mas fome ainda existe

Produção de alimentos é suficiente, mas ainda há fome no país
Estudo revela  que o  Brasil produz  muito mais que o suficiente para alimentar toda a sua população, mas a desigualdade de renda e o desperdício fazem com que 7,2 milhões, ou seja, quase 4% de toda a população brasileira, ainda sejam afetadas pelo problema.
Produção de alimentos é suficiente, mas, com a desigualdade de renda e o desperdício, ainda há fome no país.
A produção nacional de alimentos é suficiente para os mais de 204 milhões de brasileiros, mas a desigualdade de renda e o desperdício ainda fazem com que 7,2 milhões de pessoas sejam afetadas pelo problema da fome no país, revela estudo conduzido pelo professor Danilo Rolim Dias de Aguiar, pesquisador do Departamento de Economia do Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos.
“Temos uma concentração de renda muito grande. Se, por um lado, temos pessoas passando fome, por outro, temos o problema da obesidade, que é cada vez maior. Haveria, então, um problema ligado à renda e à educação, que estaria dificultando o acesso aos alimentos. Aí também entra a questão das perdas”, disse Aguiar.
Na pesquisa, Aguiar fez um levantamento sobre o que é produzido no país, pegando os principais alimentos – arroz, feijão, trigo, ovos, leite, milho, soja, banana, açúcar, mandioca e carnes de frango, de porco e bovina – e os transformou em um indicador comum que permitisse uma comparação mais adequada entre eles, calculando todos os itens em número de calorias ou proteínas.
Segundo o pesquisador, a quantidade média necessária para consumo individual por dia, e que foi considerada neste estudo, é de 2 mil calorias e 51 gramas de proteína.
“Peguei tudo aquilo que ficou no Brasil para consumo humano e transformei isso em calorias e proteínas. O que verificamos foi que, em termos de calorias e proteínas, temos mais que [o suficiente para] as necessidades humanas aqui no Brasil. Se pegarmos calorias, que é uma situação um pouco pior, chegamos, em 2013, com 118% das necessidades individuais, uma folga de quase 20%. Em termos de proteína, teríamos uma folga de mais de 60%, ou seja, estariam sobrando alimentos”, explicou Aguiar.
Desperdício de alimentos é um dos fatores que contribui para agravar a questão da fome.
Em entrevista à Agência Brasil, o pesquisador disse que muitas pessoas ainda passam fome no Brasil principalmente pela dificuldade de acesso à alimentação. Apesar de o país ocupar o quinto lugar no ranking mundial da obesidade, ainda há mais de 7 milhões de pessoas passando fome e 30 milhões de subnutridos.
No estudo, Aguiar analisa também o volume de produtos exportados pelo Brasil. Para o professor, o volume de alimentos exportados poderia, por exemplo, alimentar duas vezes toda a população brasileira. Quando se transforma o total que é vendido para o exterior em calorias, percebe-se que a quantidade seria suficiente para alimentar quase 700 milhões de pessoas.
“Peguei todos os produtos que o Brasil exporta, como milho, soja, carne bovina e carne de frango, transformei em calorias e proteínas e dividi pelas necessidades de cada pessoa para saber quantas poderiam ser alimentadas no exterior com as exportações brasileiras. Em 2013, as proteínas que o país exportou dariam para nutrir 700 milhões de pessoas. Em termos de calorias, seriam 380 milhões de pessoas. Aquilo que estamos vendemos lá fora seria capaz de alimentar duas vezes a população brasileira em termos de calorias e três vezes em termo de proteínas”, detalhou Aguiar.
No entanto, isso não ocorre em realidade porque muito do que é exportado pelo Brasil vira comida para animais, disse o professor. “Isso não está alimentando tanta gente porque boa parte do que se exporta – como milho e soja – não vai virar diretamente comida para pessoas, mas comida para animais.”
O pesquisador classifica de “cruel” essa situação em que “as pessoas de baixa renda acabam concorrendo com os animais, porque aquilo que poderia ser utilizado para alimentação humana vai para a alimentação animal, pois as pessoas de maior renda querem cada vez mais consumir carne. Como resultado disso, o preço dos produtos básicos sobe, porque há pouco, e fica cada vez mais difícil o acesso por parte dos pobres”.
Políticas públicas
Brasileiros estão produzindo muito mais carne do que arroz e feijão porque  a carne  dá mais rentabilidade, diz o professor Danilo  Aguiar, do Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos.
Para Aguiar, políticas públicas são necessárias para diminuir o consumo de carne. Ele destacou que o crescimento do consumo da carne é acompanhado pelo aumento da crise ambiental, já que, por exemplo, a produção da carne bovina é responsável por 10% das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera e é o principal emissor do agronegócio.
De acordo com o pesquisador, outro problema relacionado ao aumento do consumo de carne no país é que muito da produção de milho e soja, por exemplo, acaba sendo destinado à alimentação dos animais.
“Por que os produtores brasileiros estão produzindo muito mais carne do que arroz e feijão? É porque isso, para eles, dá maior rentabilidade. Temos que ter políticas que incentivem a produção de alimentos que atinjam as classes de renda mais baixa e que sejam menos danosas ao meio ambiente.”
Aguiar alertou, no entanto, que essas políticas precisam ser articuladas mundialmente. “Temos que entrar com políticas, mas articuladas em termos mundiais. Não dá para o Brasil tomar uma decisão unilateral, de não querer produzir tanta carne, se o mundo inteiro quer comprar carne. Tem que haver uma articulação maior para que se atinjam esses objetivos. E uma coisa que vai ajudar muito é a educação. Cerca de 99% das pessoas não têm noção se aquilo que elas estão comendo tem algum impacto ambiental.” (ecodebate)

Por que ainda tem fome no Brasil?

Produção de alimentos mataria a fome de toda a população
Produção é suficiente para os mais de 204 milhões de brasileiros. Desigualdade de renda e o desperdício ainda é o principal motivo da fome.
7,2 milhões de pessoas ainda passam fome no Brasil.
A produção nacional de alimentos mataria a fome de toda a população brasileira.
A produção nacional de alimentos é suficiente para os mais de 204 milhões de brasileiros, mas a desigualdade de renda e o desperdício ainda fazem com que 7,2 milhões de pessoas sejam afetadas pelo problema da fome no país, revela estudo conduzido pelo professor Danilo Rolim Dias de Aguiar, pesquisador do Departamento de Economia do Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos.
“Temos uma concentração de renda muito grande. Se, por um lado, temos pessoas passando fome, por outro, temos o problema da obesidade, que é cada vez maior. Haveria, então, um problema ligado à renda e à educação, que estaria dificultando o acesso aos alimentos. Aí também entra a questão das perdas”, disse Aguiar.
Na pesquisa, Aguiar fez um levantamento sobre o que é produzido no país, pegando os principais alimentos – arroz, feijão, trigo, ovos, leite, milho, soja, banana, açúcar, mandioca e carnes de frango, de porco e bovina – e os transformou em um indicador comum que permitisse uma comparação mais adequada entre eles, calculando todos os itens em número de calorias ou proteínas.
Segundo o pesquisador, a quantidade média necessária para consumo individual por dia, e que foi considerada neste estudo, é de 2 mil calorias e 51 gramas de proteína.
“Peguei tudo aquilo que ficou no Brasil para consumo humano e transformei isso em calorias e proteínas. O que verificamos foi que, em termos de calorias e proteínas, temos mais que [o suficiente para] as necessidades humanas aqui no Brasil. Se pegarmos calorias, que é uma situação um pouco pior, chegamos, em 2013, com 118% das necessidades individuais, uma folga de quase 20%. Em termos de proteína, teríamos uma folga de mais de 60%, ou seja, estariam sobrando alimentos”, explicou Aguiar.
Em entrevista à Agência Brasil, o pesquisador disse que muitas pessoas ainda passam fome no Brasil principalmente pela dificuldade de acesso à alimentação. Apesar de o país ocupar o quinto lugar no ranking mundial da obesidade, ainda há mais de 7 milhões de pessoas passando fome e 30 milhões de subnutridos.
No estudo, Aguiar analisa também o volume de produtos exportados pelo Brasil. Para o professor, o volume de alimentos exportados poderia, por exemplo, alimentar duas vezes toda a população brasileira. Quando se transforma o total que é vendido para o exterior em calorias, percebe-se que a quantidade seria suficiente para alimentar quase 700 milhões de pessoas.
“Peguei todos os produtos que o Brasil exporta, como milho, soja, carne bovina e carne de frango, transformei em calorias e proteínas e dividi pelas necessidades de cada pessoa para saber quantas poderiam ser alimentadas no exterior com as exportações brasileiras. Em 2013, as proteínas que o país exportou dariam para nutrir 700 milhões de pessoas. Em termos de calorias, seriam 380 milhões de pessoas. Aquilo que estamos vendemos lá fora seria capaz de alimentar duas vezes a população brasileira em termos de calorias e três vezes em termo de proteínas”, detalhou Aguiar.
No entanto, isso não ocorre em realidade porque muito do que é exportado pelo Brasil vira comida para animais, disse o professor. “Isso não está alimentando tanta gente porque boa parte do que se exporta – como milho e soja – não vai virar diretamente comida para pessoas, mas comida para animais.”
O pesquisador classifica de "cruel” essa situação em que “as pessoas de baixa renda acabam concorrendo com os animais, porque aquilo que poderia ser utilizado para alimentação humana vai para a alimentação animal, pois as pessoas de maior renda querem cada vez mais consumir carne. Como resultado disso, o preço dos produtos básicos sobe, porque há pouco, e fica cada vez mais difícil o acesso por parte dos pobres”. (yahoo)

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Brasil está entre os 10 países que mais desperdiçam alimentos

O Brasil desperdiça 40 toneladas de alimentos por dia. Esse número coloca o Brasil entre os dez principais países que mais perdem alimentos.
Segundo Viviane Romeiro, coordenadora de Mudanças Climáticas do World Research Institute Brasil, essa perda tem diversas implicações.
Uma delas é com relação à segurança alimentar.
Audio Player - http://audios.ebc.com.br/1f/1f3d481e3e9d15ac2cdd5ba33c0558cb.mp3 (ecodebate)

Lançamento 1° padrão global para medir perda e desperdício de alimentos

ONU anuncia o lançamento do primeiro padrão global para medir perda e desperdício de alimentos.
Frutas jogadas no lixo no Brasil.
Segundo as Nações Unidas, cerca de um terço de todos os alimentos é perdido ou desperdiçado em todo o mundo, em processos que envolvem desde a produção da comida até o seu consumo, ao mesmo tempo em que 800 milhões de pessoas encontram-se subnutridas. Além disso, desperdício é responsável por 8% das emissões de gases que causam o efeito estufa.
A ONU, em parceria com parceiros internacionais, anunciou em 07/06/16 o lançamento do primeiro padrão global para medir o problema do desperdício e da perda de alimentos no mundo. A prática gera, anualmente, um custo global de US$ 940 bilhões.
# O padrão consiste em um conjunto abrangente de definições e requisitos de comunicação para que empresas, países e outros consigam medir, relatar e gerenciar de forma consistente e confiável a perda e o desperdício de alimentos.
# De acordo com o diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Achim Steiner, “esse novo padrão de medição não só irá nos ajudar a entender o quanto a comida não é o que chega a nossa boca, como também vai nos ajudar a definir uma linha de base para a ação contra o problema”.
# Segundo a ONU, cerca de um terço de todos os alimentos é perdido ou desperdiçado em todo o mundo no caminho que vai desde a produção da comida até o seu consumo, ao mesmo tempo em que 800 milhões de pessoas encontram-se subnutridas.
# Além disso, o desperdício é responsável por 8% das emissões de gases que causam o efeito estufa. De acordo com as estimativas da Organização, se esses dados representassem um país, a nação estaria entre os três maiores poluidores, atrás somente da China e dos Estados Unidos.
# Saiba mais sobre o novo padrão em http://flwprotocol.org
# Parabenizando o novo padrão, Achim Steiner pediu que todos os países e empresas comecem a usá-lo para medir e relatar a perda e o desperdício de alimentos, e em paralelo tomem medidas concretas para cumprir a terceira meta do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 12, que se trata de reduzir para metade o desperdício alimentar até 2030.
# Para Andrew Steer, presidente e CEO da World Resources Institute, “esse padrão é um verdadeiro avanço”.
# “Pela primeira vez, através do auxílio do padrão, países e empresas serão capazes de quantificar os alimentos que são perdidos e ou desperdiçados, onde esse desperdício ocorre, bem como relatar o problema de maneira altamente consistente.”
# “Agora, temos uma nova ferramenta poderosa que ajudará governos e empresas a economizar dinheiro, proteger os recursos e garantir que mais pessoas consigam o alimento que necessitam”, acrescentou.
# O PNUMA destacou ainda que o impulso internacional para conter a perda de alimentos está crescendo com o compromisso de governos e empresas.
# No entanto, muitos ainda não sabem quanta comida é perdida ou desperdiçada ou onde isso ocorre dentro de suas fronteiras, de suas operações ou cadeias de fornecimento. Além disso, a definição de perda e desperdício de alimentos varia muito, e sem uma contagem consistente e uma estrutura de informação, é difícil a comparação dos dados e o desenvolvimento de estratégias eficazes.
# O novo padrão também irá ajudar a reduzir a perda de comida e o desperdício dentro do setor privado.
Em 2015, o Fórum de Bons Consumidores, que representa mais de 400 dos maiores varejistas do mundo e fabricantes de 70 países, aprovou uma resolução para que seus membros reduzam o desperdício de alimentos em suas operações em 50 % até 2025, usando o padrão de medição. (ecodebate)

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Os idosos serão ⅓ da população brasileira em 2060

A estrutura etária da população brasileira vai virar de ponta-cabeça em 50 anos. Em 2010, os jovens de 0 a 19 anos eram 67 milhões de pessoas e representavam 34,3% da população brasileira. Os idosos – de 60 anos e mais – eram 20 milhões de pessoas e representavam apenas 10% da população total brasileira, segundo as projeções do IBGE (revisão 2013). Em meio século a reviravolta será incrível.
Em 2060, os jovens de 0 a 19 anos serão apenas 39 milhões de pessoas, devendo representar 17,8% da população brasileira. Os idosos serão 74 milhões de pessoas e representarão 33,7% da população total brasileira. Em 2010 havia 3,4 jovens para cada idoso. Em 2060, os idosos terão um volume duas vezes maior do que o montante de jovens.
Evidentemente, esta mudança demográfica vai ter um grande impacto na previdência social. Atualmente o gasto previdenciário do setor privado é de 7% do Produto Interno Bruto (PIB), e o do setor público, de 4,3% do PIB. Há também o benefício não contributivo para idosos, de 0,7% do PIB. O gasto total somado representa 12% do PIB. Proporcionalmente, as despesas previdenciárias no Brasil é maior do que em outros países.
Se o ritmo atual for mantido, o gasto previdenciário atingirá a proporção de um terço do PIB brasileiro em 2060. Mas a quantidade de pessoas em idade ativa, de 20 a 59 anos, vai passar de 55,6% da população total em 2010 para 48,4% em 2060. Desta forma, a razão entre adultos de 20-59 anos e idosos de 60 anos e mais vai cair de 5,5 em 2010, para 1,4 pessoas em idade produtiva para cada idoso, em 2060.
Sem uma profunda reforma será impossível manter o atual sistema de repartição simples que fundamenta o sistema de previdência social no Brasil. No atual modelo, a previdência é um pacto de solidariedade entre gerações e só funciona se o número de empregados representar uma proporção adequada ao número de aposentados e pensionistas. É inviável garantir os direitos previdenciários sem garantir o direito ao pleno emprego e ao trabalho decente.
Mas no Brasil há muitas pessoas em idade de trabalhar que não contribuem com a previdência (pois estão no setor informal, no meio rural, possuem alguma deficiência, etc.). A idade média de aposentadoria é muito jovem, o que agrava o desequilíbrio demográfico entre os contribuintes e beneficiários. O Brasil é um dos poucos lugares do mundo que não possui idade mínima para a aposentadoria. No caso das mulheres a idade média de saída da força de trabalho é muito baixa e elas possuem esperança de vida muito superior.
Infelizmente, os seguidos governos brasileiros têm adiado e procrastinado a solução deste grave problema social. O rombo das aposentadorias é enorme e inclui os déficits do INSS (que cobre o custo de aposentadorias e pensões dos trabalhadores do setor privado), a previdência dos servidores do setor público federal, os déficits dos servidores estaduais e o custo do saneamento dos fundos de pensão de estatais, vítimas de erros de gestão e desvios. A conta é gigantesca e é agravada pela mais longa e mais profunda recessão da história brasileira.
As pessoas que dizem que não há déficit na previdência argumentam que a Constituição garante várias receitas de taxas e impostos à seguridade social e reclamam que estes recursos estão sendo usados em outras despesas governamentais. Porém, o Brasil tem um grande déficit público global e se deslocar receitas para a previdência vai simplesmente aumentar o déficit em outro lugar.
O fato é que o Brasil já investe muito na previdência, cerca de 12% do PIB. Se esta conta subir para 20%, 25% ou 33% do PIB vai gerar lacunas em outras políticas sociais e na formação de capital fixo. Traria também um sério conflito intergeracional, pois as novas gerações não teriam os mesmos direitos das gerações idosas (como já não estão tendo atualmente). Seria uma situação inédita.
Se a questão previdenciária não for equacionada adequadamente antes do completo envelhecimento da população brasileira, o Brasil vai ficar numa situação muito difícil e não terá como manter taxas de investimento suficientes para viabilizar qualquer tipo de desenvolvimento social do país. (ecodebate)

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