quinta-feira, 7 de abril de 2022

Potencial das águas subterrâneas exige gerenciamento sustentável

Relatório Mundial da ONU sobre o Desenvolvimento da Água 2021 ‘Águas Subterrâneas: Tornando o invisível visível’

As águas subterrâneas representam 99% de toda a água doce líquida da Terra. No entanto, este recurso natural é muitas vezes mal compreendido e, consequentemente, subvalorizado, mal gerido e até mesmo abusado.

De acordo com a última edição do Relatório Mundial de Desenvolvimento Hídrico das Nações Unidas, publicado pela UNESCO, o vasto potencial das águas subterrâneas e a necessidade de gerenciá-las de forma sustentável não podem mais ser negligenciados.

Hoje, a UNESCO, em nome da ONU-Água, está lançando a última edição do Relatório Mundial de Desenvolvimento da Água das Nações Unidas, intitulado “Águas subterrâneas: tornando o invisível visível” na cerimônia de abertura do 9º Fórum Mundial da Água em Dakar, Senegal. Os autores pedem aos Estados que se comprometam a desenvolver políticas adequadas e eficazes de gestão e governança das águas subterrâneas para lidar com as crises hídricas atuais e futuras em todo o mundo.

Atualmente, as águas subterrâneas fornecem metade do volume de água captado para uso doméstico pela população global, incluindo a água potável para a grande maioria da população rural que não recebe sua água por meio de sistemas de abastecimento público ou privado, e cerca de 25% de toda a água utilizada para irrigação.

Globalmente, o uso da água está projetado para crescer cerca de 1% ao ano nos próximos 30 anos. Espera-se que nossa dependência geral das águas subterrâneas aumente à medida que a disponibilidade de água superficial se torna cada vez mais limitada devido às mudanças climáticas.

“Cada vez mais recursos hídricos estão sendo poluídos, superexplorados e ressecados pelo homem, às vezes com consequências irreversíveis. Fazer uso mais inteligente do potencial dos recursos hídricos subterrâneos ainda escassamente desenvolvidos e protegê-los da poluição e superexploração é essencial para atender às necessidades fundamentais de uma população global cada vez maior e para enfrentar as crises climáticas e energéticas globais”, diz o diretor-geral da UNESCO, Audrey Azoulay.

“Melhorar a maneira como usamos e gerenciamos as águas subterrâneas é uma prioridade urgente se quisermos alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030. Os tomadores de decisão devem começar a levar em conta as formas vitais pelas quais as águas subterrâneas podem ajudar a garantir a resiliência de vida humana e atividades em um futuro onde o clima está se tornando cada vez mais imprevisível”, acrescenta Gilbert F. Houngbo, presidente da ONU-Água e presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA).

Grandes benefícios e oportunidades sociais, econômicas e ambientais

A qualidade das águas subterrâneas é geralmente boa, o que significa que pode ser utilizada de forma segura e acessível, sem exigir níveis avançados de tratamento. A água subterrânea é muitas vezes a forma mais rentável de fornecer um abastecimento seguro de água às aldeias rurais.

Certas regiões, como a África do Saara e o Oriente Médio, por exemplo, possuem quantidades substanciais de fontes de águas subterrâneas não renováveis que podem ser extraídas para manter a segurança hídrica. No entanto, a consideração pelas gerações futuras e pelos aspectos econômicos, financeiros e ambientais do esgotamento do armazenamento não deve ser negligenciada.

Na África Subsaariana, as oportunidades oferecidas pelos vastos aquíferos permanecem amplamente subexploradas. Apenas 3% das terras agrícolas estão equipadas para irrigação – em comparação com 59% e 57%, respectivamente, na América do Norte e no Sul da Ásia – e apenas 5% dessa área usa águas subterrâneas.

Como aponta o relatório, esse baixo uso não se deve à falta de água subterrânea renovável (que muitas vezes é abundante), mas sim à falta de investimentos em infraestrutura, instituições, profissionais capacitados e conhecimento do recurso. O desenvolvimento de águas subterrâneas poderia atuar como um catalisador para o crescimento econômico, aumentando a extensão das áreas irrigadas e, portanto, melhorando os rendimentos agrícolas e a diversidade de culturas.

Em termos de adaptação às mudanças climáticas, a capacidade dos sistemas aquíferos de armazenar excedentes sazonais ou episódicos de água de superfície pode ser explorada para melhorar a disponibilidade de água doce durante todo o ano, uma vez que os aquíferos incorrem em perdas por evaporação substancialmente menores do que os reservatórios de superfície. Por exemplo, incluir o armazenamento e captação de águas subterrâneas como parte do planejamento do abastecimento urbano de água aumentaria a segurança e a flexibilidade em casos de variação sazonal.

Desbloquear todo o potencial das águas subterrâneas – o que precisa ser feito?

1. Coletar dados

O relatório levanta a questão da falta de dados sobre as águas subterrâneas e enfatiza que o monitoramento das águas subterrâneas é muitas vezes uma ‘área negligenciada’. Para melhorar isso, a aquisição de dados e informações, que geralmente fica sob a responsabilidade de agências nacionais (e locais) de águas subterrâneas, poderia ser complementada pelo setor privado. Particularmente, as indústrias de petróleo, gás e mineração já possuem uma grande quantidade de dados, informações e conhecimento sobre a composição dos domínios subterrâneos mais profundos, incluindo aquíferos. Por uma questão de responsabilidade social corporativa, as empresas privadas são altamente incentivadas a compartilhar esses dados e informações com profissionais do setor público.

2. Reforçar as regulamentações ambientais

Como a poluição das águas subterrâneas é praticamente irreversível, deve ser evitada. Os esforços de fiscalização e a acusação de poluidores, no entanto, são muitas vezes desafiadores devido à natureza invisível das águas subterrâneas. A prevenção da contaminação das águas subterrâneas requer o uso adequado da terra e regulamentações ambientais apropriadas, especialmente nas áreas de recarga de aquíferos. É imperativo que os governos assumam seu papel como guardiões de recursos em vista dos aspectos de bem comum das águas subterrâneas para garantir que o acesso e o lucro sejam distribuídos de forma equitativa e que o recurso permaneça disponível para as gerações futuras.

3. Reforçar os recursos humanos, materiais e financeiros

Em muitos países, a falta geral de profissionais de águas subterrâneas entre o pessoal das instituições e governos locais e nacionais, bem como mandatos, financiamento e apoio insuficientes de departamentos ou agências de águas subterrâneas, dificultam a gestão eficaz das águas subterrâneas. O compromisso dos governos de construir, apoiar e manter a capacidade institucional relacionada às águas subterrâneas é crucial.

(ecodebate)

Um olhar além do visível da segurança hídrica

Bacias hidrográficas saudáveis são fundamentais para garantir o uso sustentável da água

Quando se fala em segurança hídrica no Brasil, os olhares geralmente se voltam para a situação dos principais reservatórios, o ciclo hidrológico e as obras de infraestrutura para abastecimento e esgotamento sanitário. Tudo isso é importante e ninguém discute, mas se aprendemos algo com as recentes crises hídricas é que isso é apenas a ponta do iceberg e ações pontuais não resolvem o problema. Neste dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, convido vocês a um olhar para além dos canos e tubulações, chegando até a resiliência das bacias hidrográficas.

Bacias hidrográficas saudáveis são fundamentais para garantir o uso sustentável da água. (abdib)

BNDES anuncia 1ª aquisição de créditos de carbono

BNDES anuncia primeira aquisição de créditos de carbono.
Operação-piloto de R$ 10 milhões visa desenvolver mercado voluntário para comercialização de títulos verdes.

O BNDES aprovou a operação-piloto para aquisição de até R$ 10 milhões em créditos de carbono, a primeira de sua história. As compras serão voltadas em um primeiro momento para títulos predominantemente de origem REDD+ (Redução de Emissões Provenientes de Desmatamento e Degradação Florestal), Reflorestamento e Energia.

Com a iniciativa o banco pretende apoiar o desenvolvimento de um mercado voluntário para comercialização destes títulos, além de chancelar padrões de qualidade para condução de projetos de descarbonização da economia a partir de 2022.

A compra dos créditos pela instituição acontecerá através de Chamada Pública. A estratégia é estimular a demanda para estes desenvolvedores, donos de terra com potencial para projetos ambientais e demais participantes do mercado. A operação também aposta na divulgação e transparência, de modo a tornar os atributos de negociação dos créditos acessíveis ao mercado.

Por fim vale ressaltar que a inciativa piloto é propícia para busca de melhorias e revisão de processos com vistas à consolidação da prática já a partir de 2022. Com um número cada vez maior de adeptos para comprovar suas responsabilidades ambientais, o mercado de carbono é uma tendência global, em que o Brasil pode estar vocacionado a ser referência.

“Cabe ao BNDES criar a estrutura para que o nosso país possa se beneficiar desta grande oportunidade e se tornar um dos maiores exportadores também desta commodity. Em consequência, teremos nossas florestas preservadas, levaremos renda à população que vive dela ou no entorno dela e criaremos uma economia verde pujante,” explica o presidente do BNDES, Gustavo Montezano.

Segundo ele, o banco possui papel fundamental para trazer clareza sobre fatores como precificação, tratamento administrativo, contábil e jurídico, além de aprofundar debates sobre novas soluções dentro deste mercado. Há uma divisão entre regulados, aquele nos quais os agentes emissores são obrigados a comprar créditos para a compensação de suas emissões por uma exigência regulatória, e os voluntários. Neste último, as motivações podem ser diversas, como o acesso a fontes de financiamentos verdes ou estratégia de posicionamento institucional.

A equipe do Projeto Carbono, grupo de trabalho com a participação de diversas áreas do BNDES, já interagiu com algumas empresas compradoras e vendedoras de créditos e vem analisando instrumentos financeiros e institucionais para atuação do banco na parte voluntária. A estimativa é que este mercado precise crescer mais de 15 vezes até 2030 para cumprir as metas do Acordo de Paris, que pressupõe o equilíbrio entre emissão e remoção dos gases do efeito estufa até o ano de 2050. (canalenergia)

terça-feira, 5 de abril de 2022

Crise climática intensifica secas e enchentes

A gestão de recursos hídricos assume um papel fundamental para garantir a segurança hídrica da população

Em fevereiro/22, a ONU divulgou seu mais recente relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que aponta que, com a aceleração da crise climática, seus efeitos tendem a se intensificar em um menor período de tempo.

“Trabalhando com a estimativa de um aquecimento global de 1,5ºC, o previsto é que o número de pessoas impactadas pelas secas e enchentes resultantes aumente, o que coloca a população em situação de vulnerabilidade em um risco até três vezes maior”, explica Nicole Brassac de Arruda, bióloga e pesquisadora do Lactec, instituição de ciência e tecnologia (ICT) com sede em Curitiba.

Isso porque as mudanças climáticas têm impacto direto nos ciclos hidrológicos, influenciando na ocorrência de secas e de enchentes severas, frequentemente seguidas por deslizamentos. Com uma temperatura mais alta, mais água evapora e mais chuvas incidem em locais em que não eram tão frequentes. Isso afeta o balanço hídrico, pois se mais água está chegando a um determinado lugar, está fazendo falta em outros.

O Brasil já sente esses efeitos: só no ano de 2022, as chuvas já deixaram milhares de pessoas feridas e desabrigadas em pelo menos oito estados brasileiros. Os temporais ocorridos em Petrópolis, por exemplo, chamaram atenção com um saldo de cerca de 230 mortos e muitos desabrigados.

Segurança hídrica ameaçada

Com as mudanças no ciclo hidrológico, acendem-se algumas luzes de alerta. No Brasil e na América Latina, o IPCC prevê riscos para a segurança hídrica — que diz respeito à disponibilidade de água para satisfazer as demandas da população, das atividades econômicas e de conservação de ecossistemas —, para a segurança alimentar, já que as secas causam prejuízos às colheitas, e para a vida, ameaçada por fatores como inundações, erosões, deslizamentos, tempestades e elevação do nível do mar.

É nesse contexto que entra a necessidade de uma gestão de recursos hídricos eficaz, aponta Nicole: “Algumas dessas estiagens e enchentes constituem eventos fora da curva que destoam das séries históricas de dados que usamos para ações de gestão e planejamento. Mas é possível tentar prevê-los utilizando ferramentas de modelagem hidrológicas e meteorológicas e, assim, fazer um bom planejamento urbano do uso de água”.

As modelagens ajudam a traçar cenários e definir tendências de crescimento da população, de consumo de água e de perdas desse recurso natural, o que facilita o planejamento da quantidade de água, de reservatórios e de quais tipos de reservatórios são necessários para que a cidade não passe por escassez ao longo do tempo.

Além do uso da tecnologia, a especialista não descarta o impacto que podem ter as ações individuais dos mais de 7,6 bilhões de habitantes da Terra para a manutenção da segurança hídrica. “Se cada um medir um pouco melhor sua pegada hídrica e de carbono, teremos ações individuais que, somadas, acabam trazendo uma folga para esse sistema. Revisar nossas torneiras e sistemas hidráulicos, tomar banhos mais curtos e reutilizar a água são formas de reduzir o seu consumo, e água não consumida é água reservada para o futuro”, conclui.

Sobrevoo em Sena Madureira sob inundação (Acre, Brasil).

3.3 bilhões de pessoas estão muito vulneráveis aos impactos climáticos mundiais.

Mortalidade por eventos extremos foi 15 vezes maior em regiões mais vulneráveis na última década. (ecodebate)

Incêndios florestais devastam o solo e aquecem o planeta

“O aumento dos aerossóis de carbono marrom levará ao aquecimento global ou regional, o que aumenta a probabilidade e a frequência de incêndios florestais”.

A temporada de incêndios florestais de 2021 quebrou recordes em todo o mundo, deixando terras carbonizadas da Califórnia à Sibéria. O risco de incêndio está crescendo, e um relatório publicado pela ONU no mês passado alertou que os incêndios florestais estão a caminho de aumentar 50% até 2050.

Esses incêndios destroem casas, plantas e animais enquanto queimam, mas o risco não para lá. Na revista One Earth de 18/03/22, os pesquisadores detalham como o carbono marrom liberado pela queima de biomassa no hemisfério norte está acelerando o aquecimento no Ártico e alertam que isso pode levar a ainda mais incêndios florestais no futuro.

Incêndios florestais ardentes são acompanhados por vastas nuvens de fumaça marrom, compostas de partículas de carbono marrom suspensas no ar. Essa fumaça apresenta riscos à saúde e pode até bloquear o sol do verão, e os pesquisadores suspeitam que também possa estar contribuindo para o aquecimento global.

Em 2017, o navio quebra-gelo chinês Xue Long dirigiu-se ao Oceano Ártico para examinar quais aerossóis estavam flutuando no ar puro do Ártico e identificar suas fontes. Os cientistas do navio estavam particularmente curiosos sobre como o carbono marrom liberado por incêndios florestais estava afetando o clima e como seus efeitos de aquecimento em comparação com os do carbono preto mais denso da queima de combustível fóssil em alta temperatura, o segundo agente de aquecimento mais poderoso depois do dióxido de carbono.

Seus resultados mostraram que o carbono marrom estava contribuindo para o aquecimento mais do que se pensava anteriormente. “Para nossa surpresa, análises observacionais e simulações numéricas mostram que o efeito de aquecimento dos aerossóis de carbono marrom sobre o Ártico é de até 30% do carbono preto”, diz o autor sênior Pingqing Fu, químico atmosférico da Universidade de Tianjin.

Nos últimos 50 anos, o Ártico aqueceu a uma taxa três vezes maior do que o resto do planeta, e parece que os incêndios florestais estão ajudando a impulsionar essa discrepância. Os pesquisadores descobriram que o carbono marrom da queima de biomassa foi responsável pelo menos duas vezes mais aquecimento do que o carbono marrom da queima de combustíveis fósseis.

Como o carbono preto e o dióxido de carbono, o carbono marrom aquece o planeta absorvendo a radiação solar. Como as temperaturas mais altas estão ligadas ao aumento dos incêndios florestais nos últimos anos, isso leva a um ciclo de feedback positivo. “O aumento dos aerossóis de carbono marrom levará ao aquecimento global ou regional, o que aumenta a probabilidade e a frequência de incêndios florestais”, diz Fu. “O aumento dos eventos de incêndios florestais emitirá mais aerossóis de carbono marrom, aquecendo ainda mais a terra, tornando os incêndios mais frequentes”.

Para pesquisas futuras, Fu e seus colegas planejam investigar como os incêndios florestais estão mudando a composição do aerossol de outras fontes além do carbono marrom. Especificamente, eles estão interessados no efeito de incêndios em bioaerossóis, que se originam de plantas e animais e podem conter organismos vivos, incluindo patógenos. Enquanto isso, Fu pede que a atenção se concentre na mitigação de incêndios florestais. “Nossas descobertas destacam o quão importante é controlar os incêndios florestais”, diz ele.

Incêndios florestais – maiores, muito mais quentes – o “Novo Normal”. (ecodebate)

Temperaturas extremas no oceano são o novo normal

Emergência climática: Temperaturas extremas no oceano são o novo normal.
Calor extremo nos oceanos é o "novo normal" desde 2014, alertam cientistas.

Nova análise descobre que os eventos extremos de aquecimento no oceano aumentaram em relação ao passado distante, com quase 60% do oceano experimentando calor extremo em 2019.

Temperaturas marinhas extremas que antes eram consideradas raras se tornaram oficialmente a norma para a maioria dos oceanos do mundo. De acordo com um novo estudo (1), mais da metade da superfície marinha está agora regularmente sujeita a calor extremo. Essas temperaturas anormalmente altas podem ter efeitos negativos de longo alcance nos animais marinhos, bem como nas economias locais (2) que dependem deles.

“Precisamos perceber que a mudança climática está acontecendo enquanto falamos… Isso também vem acontecendo há algum tempo”, disse o coautor do estudo Kisei Tanaka, ecologista marinho da NOAA.

Antes de seu cargo na NOAA, Tanaka foi cientista de dados de pesquisa no Monterey Bay Aquarium, na Califórnia. Enquanto ele estava lá, ele e Kyle Van Houtan, cientista-chefe do aquário na época, notaram algumas mudanças incomuns acontecendo na baía. As florestas de algas estavam desaparecendo e espécies marinhas cujo habitat normal eram as águas mais quentes do sul da Califórnia estavam começando a aparecer mais ao norte (3).

Para entender melhor o que estava impulsionando essas mudanças, “queríamos ter um índice de calor marinho extremo”, disse Van Houtan, agora presidente e CEO do Loggerhead Marinelife Center, na Flórida. Mas, surpreendentemente, não existia um, pelo menos não um que preenchia os critérios de que precisavam. Estudos históricos anteriores raramente se estendem além da década de 1950, o que “é tarde demais em um sistema já muito alterado”, explicou Van Houtan.

Para mapear como esses eventos de calor extremo no oceano evoluíram ao longo da história recente, Tanaka e Van Houtan analisaram extensos registros de temperatura da superfície do mar que datam do final do século XIX. Eles descobriram que entre 1870 e 1919 – um período correspondente à segunda Revolução Industrial – eventos de calor extremo eram relativamente raros, afetando apenas 2% da superfície do oceano a qualquer momento. Mas no século seguinte, esse número passou de 50% “e nunca voltou a cair”, explicou Tanaka. Na verdade, aumentou ainda mais; em 2019, quase 60% do oceano havia sido atormentado por calor extremo.

O que antes era um “tipo de evento de temperatura de 50 anos tornou-se um evento de todos os anos”, disse Tanaka, que observou que algumas partes do oceano começaram a experimentar esses eventos de temperatura extrema “todos os meses do calendário”.

O trabalho de Tanaka e Van Houtan “apoia todos os estudos que mostram aumento de eventos de aquecimento no oceano à medida que avançamos para o século 21”, disse Sofia Darmaraki, oceanógrafa física da Universidade Dalhousie em Nova Escócia, Canadá, que não foi envolvidos com este trabalho. “Isso mostra que os humanos estão, de fato, tendo um impacto no oceano”.

12 globais, cada um representa uma década desde 1980, mostram como a frequência de calor extremo cresceu nos últimos anos, entre janeiro e março e entre julho e setembro. Crédito: Tanaka et al., 2022, https://doi.org/10.1371/journal.pclm.0000007.

Cruzando o Limiar

Para que as temperaturas marinhas sejam consideradas “normais”, elas precisam ocorrer regularmente na maior parte da superfície do oceano. Este limite é definido como “o ponto sem retorno”. Embora o oceano global tenha atingido oficialmente esse ponto em 2014, Tanaka e Van Houtan descobriram que algumas bacias oceânicas haviam realmente cruzado esse limite mais de uma década antes. O Atlântico Sul, por exemplo, chegou a esse ponto já em 1998.

“Esta é uma indicação de que talvez o aquecimento do oceano esteja acontecendo mais rápido do que pensamos”, acrescentou Darmaraki.

O estudo também deixa claro que a mudança climática “não é apenas um cenário futuro acontecendo 20 anos, 50 anos depois”, disse Tanaka.

Mesmo assim, ainda há esperança. Como Van Houtan explicou, “o ‘ponto sem retorno’ era mais uma descrição estatística da série temporal”. Não é um estado permanente que não pode ser revertido. Além disso, embora 50% das bacias do Oceano Pacífico Sul e Sul tenham experimentado eventos de calor no passado recente, eles ainda não se tornaram um fenômeno regular. “Ainda há lugares no planeta que são relativamente frios”, disse Darmaraki, e é crucial que protejamos esses importantes refúgios climáticos. Mas para fazer isso, Tanaka argumenta que precisamos trabalhar juntos para cumprir as metas do Acordo de Paris. Cientistas, partes interessadas e gerentes de pesca também precisarão colaborar “para melhorar as estratégias de adaptação e planejamento”, acrescentou Darmaraki.

Calor de quase 40°C no Ártico é o novo normal?

A cidade russa de Verkhoyansk alcançou 38ºC, recorde histórico absoluto e possível recorde dentro do Círculo Polar Ártico. O excepcional episódio de calor, que se concentra principalmente na Sibéria, mas se espalha para outras regiões polares, está multiplicando incêndios na região.

Existem “muitas boas maneiras de reduzir nosso impacto das mudanças climáticas e, esperançosamente, revertê-lo”, disse Van Houtan. (ecodebate)

domingo, 3 de abril de 2022

Infraestrutura natural urbana reduz efeitos das mudanças climáticas

Parque do Ibirapuera

Soluções baseadas na Natureza, como parques urbanos, jardins de infiltração e telhados verdes biodiversos, reduzem impactos de chuvas intensas, elevação das temperaturas e eventos climáticos extremos.

O crescimento e adensamento populacional tem se mostrado um fenômeno irreversível no mundo todo. O último relatório das Organizações das Nações Unidas (ONU) sobre a população global projetou que, em 2100, a quantidade de pessoas no planeta pode chegar a 10,9 bilhões, levantando preocupações quanto à pressão sobre as cidades, em especial em áreas sensíveis como o acesso à água.

Uma das alternativas que têm avançado nos últimos anos para ajudar a enfrentar o problema é a chamada infraestrutura natural, que consiste na incorporação de Soluções baseadas na Natureza (SBN) para resolver questões relacionadas à segurança hídrica e à resiliência. Por meio da implantação de áreas verdes em pontos estratégicos das cidades, cria-se um sistema natural capaz de absorver a água da chuva, filtrar sedimentos do solo e reduzir custos com saneamento e saúde pública.

“Muitas cidades estão pensando em seus sistemas de drenagem porque as tubulações que existem hoje, feitas décadas atrás, não dão conta de escoar o volume atual de água durante grandes tempestades, que acaba provocando enchentes e invadindo edificações. Isso é especialmente importante num cenário de crise climática, em que as chuvas estão cada vez mais intensas e concentradas em curtos períodos, criando uma sobrecarga sobre esses sistemas. Adotar estratégias que usam a proteção da natureza como solução eleva os municípios ao que chamamos de Cidades baseadas na Natureza”, explica o gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, André Ferretti.

A aplicação prática da infraestrutura natural acontece por meio de soluções como jardins de infiltração, parques e telhados verdes, que juntos podem reduzir a quantidade de água que chega aos sistemas de drenagem, gerando ao mesmo tempo benefícios socioeconômicos. “Ao absorverem a água da chuva e diminuírem sua velocidade de escoamento até chegarem às tubulações, essas áreas verdes, com solo altamente permeável, ajudam a prevenir a ocorrência de enchentes e alagamentos, o que evita muitos prejuízos. Esses espaços também servem como áreas de lazer e bem-estar para a população.”

Um estudo do World Resources Institute (WRI Brasil), publicado em 2018 em parceria com diversas entidades, mostrou que o aumento da cobertura florestal em 8% no Sistema Cantareira, na capital paulista, poderia reduzir em 36% a sedimentação. “Ao impedir que mais sedimentos cheguem aos rios e, consequentemente, às estações de tratamento, a infraestrutura verde também alivia os cofres públicos, reduzindo o custo de tratamento da água que abastece as cidades.”

Para se ter uma ideia do impacto que isso pode gerar, a Estação de Tratamento de Água do Guandu, a maior do mundo, que fica no Rio de Janeiro, gasta 140 toneladas de sulfato de alumínio, 30 toneladas de cloreto férrico e mais 25 toneladas de cal diariamente para retirar impurezas da água que abastece a Região Metropolitana do Rio. Ferretti cita ainda o exemplo do movimento Viva Água, que reúne diversos atores para proteger e recuperar ecossistemas naturais e incentivar o empreendedorismo com impacto socioambiental positivo na Bacia do Rio Miringuava, em São José dos Pinhais (PR), minimizando a sedimentação do rio e contribuindo com a segurança hídrica da região.

Design urbano sustentável

Entre as principais ações de urbanismo que as grandes cidades estão colocando em prática estão os jardins de infiltração. Também conhecidos como jardins de chuva, são espaços ao longo do território urbano que servem como esponjas, ajudando na absorção da água. Além do aspecto funcional, contribuem para a valorização do espaço público e das propriedades em seu entorno. O ideal é que sejam instalados em partes mais baixas do terreno, que tendem a ser mais impactados por fortes chuvas.

Opção já bastante conhecida, mas com aplicação ainda pouco disseminada, é o telhado verde. Esse tipo de recurso auxilia na regulação microclimática das edificações e ajuda a acumular a água da chuva, sobretudo quando usado em conjunto com cisternas. “Essa água pode ser usada para a limpeza das áreas comuns, reduzindo o consumo de água potável. Isso é ainda mais importante nos períodos de seca”, diz Ferretti.

Outra aplicação da infraestrutura natural acontece por meio dos parques e áreas verdes em geral, que além dos benefícios similares de filtragem de sedimentos e retenção de água, geram impacto positivo sobre a saúde e o bem-estar das pessoas, à medida que se tornam espaços de lazer e relaxamento para a população e atuam na redução da poluição sonora e atmosférica. Além disso, as árvores também reduzem a velocidade de escoamento da água, impedindo que o sistema de drenagem se sobrecarregue rapidamente.

“O poder público precisa perceber que isso tem valor. E agora, nas eleições municipais, o eleitor pode avaliar e cobrar dos candidatos esse tipo de compromisso. Evitar alagamentos é igual reduzir grandes despesas, desde o tratamento da água até o sistema de saúde. Em um cenário de mudanças climáticas, com chuvas intensas seguidas por longos períodos de estiagem, ter controle sobre a disponibilidade da água é uma questão de sobrevivência”, afirma o gerente da Fundação Grupo Boticário.

De acordo com o DataSUS, em 2018, foram registradas mais de 230 mil internações por doença de veiculação hídrica, provocadas principalmente por falta de saneamento básico ou pelo contato com água suja em enchentes. Entre as doenças estão diarreia, leptospirose e hepatite A. Os gastos com internações com estas enfermidades no Sistema Único de Saúde (SUS) chegou a R$ 90 milhões no mesmo ano, segundo o Painel Saneamento Brasil, do Instituto Trata Brasil.

Infraestrutura natural urbana reduz efeitos de mudanças climáticas nas grandes cidades.

Parques urbanos, jardins de chuva e telhados verdes, reduzem impactos de chuvas, altas temperaturas e eventos climáticos. (ecodebate)

El Niño leva aquecimento dos oceanos a território desconhecido

El Niño excepcionalmente forte impulsiona aquecimento global dos oceanos e leva temperatura média da superfície do mar ao maior valor já reg...