segunda-feira, 11 de abril de 2022

Sem água e saneamento básico não há vida!

O acesso à água e ao saneamento básico são fundamentais para a qualidade de vida, o bem estar coletivo e a dignidade humana, por isso é considerado como um Direito humano fundamental.

“O meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos. Quem possui uma parte ( pessoas ou países, grifo meu) é apenas para administrá-la em benefício de todos (da humanidade, grifo meu). Se não o fizermos, carregamos na consciência o peso de negar a existência aos outros” Papa Francisco, Laudato Si, 95.

Conforme deliberação da Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada pela ONU em 1992, na chamada ECO-92, no Rio de Janeiro, foi aprovado que, a partir de 1993, todos os anos em 22 de Março seria comemorado o Dia Mundial da Água.

A cada ano, um novo tema é escolhido para despertar a atenção da opinião pública mundial e também para despertar a conscientização das pessoas, das organizações públicas e privadas, enfim, dos governantes, do setor empresarial, das entidades representativas da sociedade civil e, também, das Igrejas, quanto à importância da água na dinâmica da vida humana.

Em sua mensagem alusiva ao Dia Mundial da Água neste ano de 2022, o Secretário Geral da ONU, António Guterres, assim se expressou “A humanidade precisa cada vez mais de água”. O uso excessivo, a poluição e as alterações climáticas estão a colocar uma pressão crescente sobre os recursos hídricos. As secas e as vagas de calor são cada vez mais intensas e frequentes. A subida do nível do mar está a provocar uma infiltração de águas salgadas nos aquíferos costeiros. Os lençóis freáticos estão a degradar-se. A água pode ser uma fonte de conflito, mas também de cooperação. É essencial que trabalhemos juntos para alcançar uma melhor gestão de todos os recursos hídricos, incluindo as reservas mundiais de água subterrânea.

Existem alguns elementos (dimensões da vida planetária) sem os quais não pode existir vida. Podemos mencionar o próprio planeta terra, que, até a atualidade, mesmo diante do avanço da ciência é o único em que existe vida, em todas as suas esferas ou dimensões, inclusive a vida humana.

O segundo elemento é a água, tanto as que formam os mares e oceanos, quanto as que estão nos rios, lagos, córregos e ribeirões , bem como as águas subterrâneas, os chamados aquíferos. O terceiro elemento é a energia e o calor propiciados pelo sol.

Somente a combinação desses três elementos: terra (solo/subsolo); calor/energia e água fornecem as condições para todas as formas de vida, animal e vegetal, que conhecemos no planeta terra. Para a manutenção da vida animal, inclusive da vida humana, é fundamental que haja disponibilidade de alimentos, sem os quais também a vida desaparece.

Como mencionamos anteriormente, a ONU escolhe, com certa antecedência, um tema a ser abordado durante as reflexões e discussões no Dia Mundial da Água e neste ano de 2022, tema é; “Águas subterrâneas: Tornando o invisível visível”.

Conforme publicação da ONU alusiva a este evento, “embora escondidas sob os nossos pés, as águas subterrâneas enriquecem as nossas vidas, apoiando o abastecimento de água potável, sistemas de saneamento, agricultura, indústria e ecossistemas. Em muitos locais, ocorre exploração sem planejamento, além da poluição das águas subterrâneas. É necessário viabilizar essas águas “invisíveis” para que possa ser melhor gerenciada por todos (UN Water, 2022).

Antes de ampliarmos nossas reflexões, é importante identificarmos como a água é consumida no mundo, em relação aos diferentes setores e tipos de usuários. Conforme dados da ONU, a agricultura e pecuária consomem 70% da água disponível; a indústria, o comércio e os serviços 22% e o consume doméstico é responsável por apenas 8% do total. No Brasil a agricultura e a pecuária consomem 80,7% da água, a indústria, comércio e serviços 10,6% e o consume doméstico 8,7%.

Todavia, a regulação sobre os setores que mais consomem água é bem tênue enquanto o Governo e os legisladores querem simplesmente transformar a água em mera mercadoria, que gera lucro aos detentores do capital, sacrificando, ainda mais os consumidores urbanos.

Nada ou pouco se fala sobre as práticas agropecuárias, mineradoras e industriais que poluem, alteram os cursos d’água e desperdiçam este precioso líquido, já que seu custo é praticamente zero, quando comparado com o preço que o consumidor urbano acaba pagando. Os rios Tietê, Tamanduateí e Pinheiros, Paraíba, São Francisco e diversos outros pelo Brasil, inclusive na Amazônia, que estão sendo contaminados por mercúrio e outras substâncias nefastas ao ser humano e aos peixes, são exemplos da leniência do Poder Público em relação aos grandes poluidores das águas e do meio ambiente no Brasil. Outro exemplo foram os desastres de Mariana e Brumadinho, em que o Rio doce, o córrego do feijão e alguns outros acabaram totalmente degradados, além da morte de inúmeras vítimas.

O importante é entendermos e compreendermos que, como sempre menciona o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si, que trata da Ecologia Integral, “tudo está interligado, nesta Casa Comum”, ou seja, da grave crise socioambiental que o mundo está vivendo, cujas consequências danosas estudiosos e cientistas nos tem alertado sobejamente, a Degradação Ambiental está presente na destruição das florestas, no desmatamento, nas queimadas, na mineração, na destruição do solo e do subsolo, através de práticas que provocam erosão, contaminação pelo uso abusivo dos agrotóxicos (pesticidas, herbicidas, fertilizantes, enfim, produtos químicos altamente nocivos `a vida); degradação das águas doces dos rios e outros mananciais e também dos mares e oceanos.

O consumismo, o desperdício, a economia do descarte e as desigualdades sociais, econômicas, políticas e regionais, também fazem parte desta equação em que com o aumento da população, da urbanização a cada dia uma quantidade maior de resíduos/lixo, tanto per capita quanto global, é produzido, contribuindo, assim para fechar este ciclo de degradação, afetando diretamente todas as fontes de água no planeta.

Diferente do que muitos acreditam, ao imaginarem que não existe uma saída, o Papa Francisco nos aponta esta saída no que ele chama de Economia de Francisco e Clara, ou seja, um Sistema econômico e social que esteja assentado no respeito ao meio ambiente, na valorização do trabalho e dos trabalhadores através de salários mais justos e na partilha mais justa e humana dos frutos do desenvolvimento que é a economia solidária, o cooperativismo e outras formas assemelhadas. Isto é o que nos levará à “sociedade do bem viver”, a um mundo melhor, com menos ganância, violência, preconceitos e exclusão.

Os resultados estão diante de nossos olhos, cotidianamente, mostrados pelos mais diversos meios de comunicação, em escala planetária, como o aumento dos desastres naturais, boa parte dos mesmos são provocados pela forma destruidora do meio ambiente em que a humanidade caminha e outras formas de destruição da natureza que precisa parar, enquanto é tempo.

São chuvas torrenciais, secas prolongadas, geleiras que estão derretendo, mudanças no clima e no regime de chuvas, indicando que se não houver uma mudança radical nos modelos econômicos e nas formas de relação da humanidade com o planeta terra, com a natureza, caminhamos para um mundo extremamente hostil, ecologicamente falando.

A destruição da biodiversidade e a destruição da cobertura vegetal nas cabeceiras de rios e nascentes das principais bacias hidrográficas do mundo todo, inclusive no Brasil, onde o desmatamento e as queimadas na Amazônia, no Cerrado, na Caatinga, na Mata Atlântica, nos Pampas e no Pantanal, enfim, em nossos seis biomas, estão interferindo diretamente tanto no volume de água dos principais rios brasileiros quanto afetando profundamente os aquíferos, as chamadas águas subterrâneas, que também estão sendo exploradas sem um maior controle por parte das autoridades governamentais, o que facilita a ação de pessoas e empresas que não tem o mínimo de respeito em relação ao meio ambiente e nem com as gerações futuras.

Durante a semana em que o Dia Mundial da Água está inserido, em Dacar, no Senegal está ocorrendo o 9º Fórum Mundial da Água, com participação de praticamente todos os países, quando o foco das discussões será a questão da segurança hídrica, no contexto de que o acesso á agua potável, por exemplo, é um direito humano fundamental, da mesma forma que o saneamento básico.

E, conforme destacado pelo Secretário Geral da ONU neste Dia Mundial da Água 2022, “A Conferência das Nações Unidas sobre a Água que decorrerá no próximo ano proporcionará uma oportunidade decisiva de impulsionar a ação para o desenvolvimento sustentável focada na água”.

Por isso, quando falamos sobre a água, não podemos esquecer que ela está vinculada a outros aspectos da dinâmica social, política, ecológica e econômica, como produção de bens e serviços, inclusive alimentos e outros produtos industriais necessários à nossa vida.

De forma semelhante, a água está relacionada com a questão do saneamento básico, pois quando não existe coleta e tratamento de esgoto esses dejetos acabam poluindo os cursos d’água e tornando a água imprópria para uso humano e animal, além de dizimar/matar outras espécies animais e vegetais, como está acontecendo no Brasil e tantos países em que córregos, rios, as baias e oceanos estão se transformando em grandes lixeiras e esgotos a céu aberto, como acontece inclusive em Cuiabá e milhares de cidades Brasil afora.

Á água também está diretamente relacionada com a saúde humana, afetando os níveis de incidência de doenças e mortes, desnecessárias, evitáveis, diga-se de passagem.

É estarrecedor saber que em pleno século XXI nada menos do que um terço da população mundial, ou seja, 2,6 bilhões de pessoas não tem acesso a água potável e mais de 60% da população mundial ( 4,7 bilhões de pessoas) não tem acesso ao saneamento básico, isto é, no mínimo, injusto e desumano.

O custo desta desigualdade social e exclusão em relação ao direito fundamental das pessoas terem acesso á água e ao saneamento básico e não serem obrigadas, como acontece inclusive no Brasil em diversas cidades, inclusive capitais, a conviverem em meio ao lixo, esgoto a céu aberto, poluição, incide sobre os índices de agravamento de inúmeras doenças, acarretando uma pressão muito grande sobre os sistemas de saúde, cujo custo anual, em nível mundial é superior da US$ 260 bilhões por ano, além dos custos indiretos que são representados pela baixa produtividade econômica, ausências nos locais de trabalho e escolas e outros mais.

O custo x benefício dos investimentos em água e saneamento básico é de um real ou dólar para um retorno de 5 da 10 vezes em termos de saúde pública, qualidade de vida e dignidade humana.

Estudo recente do BNDES (2021) analisando os impactos dos investimentos em água e saneamento básico na saúde pública, na produtividade do trabalho e da economia, demonstra a importância desses investimentos, citando relatório da UNESCO de 2015 em que é dito: “estima-se que, em países em desenvolvimento, cada dólar investido no setor (água e saneamento básico) pode gerar um retorno de US$ 5 a US$ 28 para a economia (UNESCO, 2015)”. Não existe outro investimento público mais rentável do que este, apesar da negligência e descaso de nossas autoridades em relação ao mesmo.

Diante disso, fica difícil de entender porque quando da elaboração do PPA (plano plurianual), da LDO/Lei de Diretrizes orçamentárias e OGU/orçamento geral da União por parte do Poder Executivo e do Congresso Nacional e o de forma semelhante na definição das leis orçamentárias estaduais e municipais, os investimentos públicos nesta área tão importante para o bem estar e qualidade de vida da população não são contemplados, demonstrando o desinteresse e omissão de nossos governantes em relação aos problemas que afetam negativamente a população. Discursos demagógicos, corrupção e até orçamento secreto sobram enquanto os interesses da população continuam sendo negligenciados.

As agências especializadas da ONU como FAO, UNICEF, UNESCO, Organização Mundial de saúde e inúmeros estudos e pesquisas tem demonstrado sobejamente que sem água potável, de qualidade, de forma universal, sem acesso ao saneamento básico é impossível ter sequer higiene pessoal e privacidade, além de que esta carência e exclusão aumenta a incidência de diversas doenças como diarreia, doenças de pele, que anualmente são causas de internações hospitalares e de morte de milhares ou dezenas de milhares de pessoas.

Dados do Ministério da Saúde (Sistema de informações sobre mortalidade, 2017), do IBGE e de outras fontes oficiais indicam que entre os anos de 2000 e 2015 foram registradas 3,4 milhões de internações devido a diarreias e doenças correlatas e dessas 72 mil pessoas, a maioria crianças e idosos acabaram indo a óbito (morreram).

Também é possível observar nesses mesmos estudos que essas mortes e internações apresentam uma desigualdade em relação às regiões e a proporção que cada região representa em termos de população.

A região Norte que representa 8,7% da população, registrou 21,3% dessas internações e mortes; a região Nordeste onde estão 26,8% da população foi responsável por 47,7% dos casos de internação e mortes; já a região Sudeste que tem 42,4% da população registrou apenas 17,6% das internações e mortes; a região Sul com 14,4% da população teve apenas 4,8% dos casos de internações e mortes e, finalmente, a região Centro Oeste com 7,7% da população, participou com 8,5% das internações e mortes por diarreias.

Quando os dados relativos ao acesso à água potável e ao saneamento básico são considerados neste equação, percebe-se que as duas piores regiões em termos de cobertura de água e saneamento básico são exatamente as regiões Norte e Nordeste.

No mundo, anualmente morrem 526,5 mil crianças recém nascidas, cuja causa básica é a falta de acesso `a água potável, de qualidade e de forma universal. Por esta mesma causa mais 263,2 mil crianças com menos de cinco anos também acabam morrendo. Quando outros grupos demográficos são agregados a esses dois mencionados, o total de mortes por falta de acesso `a água e saneamento básico atingem mais de um milhão de pessoas, geralmente os chamados grupos mais vulneráveis que além dos aspectos demográficos, também são bem conhecidos: são os pobres e excluídos de todos os países. Mas essas mortes não causam comoção e nem recebem a mesma atenção da mídia, como acontece com guerras, atos terroristas e outras calamidades, cujo número de vítimas é bem menor.

No mundo todo, os sistemas econômicos costumam privilegiar os donos do capital e poucos investimentos públicos são feitos em setores que deveriam beneficiar a população mais pobre e excluída. Enquanto existem subsídios bilionários, como no caso do Brasil, para grandes grupos empresariais, sobram apenas migalhas para serem investidos no abastecimento de água com qualidade e regularidade e em saneamento básico.

O Instituto Trata Brasil anualmente apresenta um relatório sobre as condições do abastecimento de água e do saneamento no Brasil e os dados e indicadores não são nada animadores.

Aproximadamente 50% da população urbana brasileira não tem acesso a coleta e tratamento de esgoto e esta situação afeta diretamente a qualidade de vida de milhões de pessoas, inclusive poluindo as águas.

Cabe ressaltar, por exemplo, que, conforme dados do Instituto Trata Brasil no relatório de 2021, das cem maiores cidades brasileiras, onde estão incluídas, por exemplo, Cuiabá e Várzea Grande, o acesso à água se apresenta em pelo menos 25 dessas cidades como universal; mas ainda existem mais de 20% da população brasileira, incluindo a população rural e de boa parte da periferia urbana, com maior incidência nas regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste que não tem acesso `a água ou quando tem é de forma irregular e com qualidade duvidosa.

Quanto ao saneamento básico, coleta e tratamento de esgoto, em 35 das cem maiores cidades o acesso é de mais de 90% da população, em cinco cidades este índice é inferior a 10% ou seja, mais de 90% da população precisam conviver com esgoto correndo a céu aberto e os cursos d’água sendo contaminados; em 30 dessas cidades maiores o acesso ao saneamento básico fica entre 10% e 50%.

O absurdo é quando capitais e cidades grandes com mais de um ou dois milhões de habitantes, tanto o abastecimento de água quanto o acesso aos serviços de esgotamento sanitário excluem 70%, 80% ou 90% da população, geralmente famílias pobres que vivem nas periferias urbanas, onde o desemprego, sub emprego ou a dependência das migalhas públicas , na forma de ajuda oficial, apenas minoram este drama humano.

A título de exemplo, vamos mencionar algumas capitais em relação ao saneamento básico, cujos índices são gritantes em termos da quantidade de famílias que não tem acesso à coleta e tratamento de esgoto. Belém 84%; Manaus 80%; Macapá 95%; Rio Branco 78%; Porto Velho 88%; Recife 56%; Maceió 67%; São Luís e Fortaleza 50%. Entre as 40 cidades com índices extremamente precários quanto ao acesso ao saneamento básico, pasmem, uma vergonha, estão 13 capitais e outras cidades que fazem parte das respectivas regiões metropolitanas em seu entorno, onde geralmente estão a maior parte da população dos Estados.

Se nas capitais, onde estão concentradas as sedes dos governos estaduais, municipais e todos os organismos federais o panorama é este, podemos imaginar como está a situação nas demais cidades que carecem de recursos públicos e a população, com raras exceções, é mais pobre, de baixa renda e excluída de todas as formas.

Por exemplo, o Aglomerado urbano Cuiabá/Várzea Grande que já está próximo de um milhão de habitantes, a conferir neste censo que está sendo realizado este ano, aproximadamente 55% da população, em torno de mais de 480 mil pessoas não tem acesso ao saneamento básico. Mesmo em Cuiabá é comum em diversas ruas movimentadas, centrais as pessoas se depararem com esgoto correndo pelas calçadas, às vezes nas proximidades de hospitais e outras unidades de saúde.

Além disso, todos os córregos e ribeirões que fazem parte da Bacia do Rio Cuiabá e estão localizados nos referidos municípios foram aterrados para dar lugar a edificações ou, simplesmente, se transformaram em grandes esgotos a céu aberto, afetando a qualidade da água do Rio Cuiabá e contribuindo para a degradação Ambiental do Pantanal. Vide estudo e projeto do Ministério Público Estadual “Águas do Futuro”, que documenta esta triste realidade dos outrora córregos (hoje esgotos a céu aberto) de Cuiabá.

Outro aspecto que está chamando a atenção da população são algumas iniciativas legislativas que estão em tramitação no Congresso Nacional que simplesmente querem alterar profundamente o marco legal da água e do saneamento básico no Brasil, transformando este setor em mais uma área a ser totalmente privatizada, ou seja, estão querendo transformar água e esgotamento sanitário em meras mercadorias sujeitas à lógica capitalista do lucro e dos interesses privados.

Parece que nossos legisladores estão esquecendo de como a concentração e a distribuição de renda no Brasil são vergonhosas, onde mais de 80% das famílias vivem ou sobrevivem com apenas um ou dois salários mínimos, mais de 11 milhões de pessoas estão desempregadas, mais de 30 milhões são subempregadas e não dispõem de renda sequer para se alimentar e manter suas famílias, de onde irão conseguir renda para pagar um preço exorbitante que acaba sendo cobrado pela água e o saneamento básico, como já ocorre com a eletricidade e o transporte coletivo?

O acesso à água e ao saneamento básico são fundamentais para a qualidade de vida, o bem estar coletivo e a dignidade humana, por isso é considerado como um Direito humano fundamental das pessoas e das famílias, da mesma forma que a saúde, a educação, o meio ambiente, tudo isso é dever do Estado, ou seja, do Poder Público propiciar condições para que a população exerça este direito.

Se os Governos Federal, Estaduais e Municipais concedem mais de R$500 bilhões de subsídios a grandes empresas e diversos setores da economia, em que apenas a camada mais privilegiada da população é beneficiada, porque não investe igual valor todos os anos em abastecimento de água potável de qualidade e universaliza o acesso à coleta e tratamento de esgotos, recuperação de nossos rios e outras fontes de água? Com a resposta nossos governantes e autoridades constituídas.

Oxalá nas próximas eleições o povo, os eleitores escolham representantes e governantes que realmente estão do lado dos trabalhadores, dos pobres e excluídos, que são a grande maioria da população brasileira e também são filhos e filhas de Deus. (ecodebate)

Entenda aquecimento global e mudança climática

Nesta matéria, você vai entender melhor a diferença entre o que acontece hoje e outros momentos em que houve alteração no clima e conhecer o debate científico atual sobre o tema.

Quando esta matéria chegar a você, provavelmente isso não será mais notícia nem post nas redes sociais. Mas no exato momento em que esta reportagem estava sendo escrita, mais de 200 pessoas tinham morrido em Petrópolis, município serrano do estado do Rio de Janeiro, em função das chuvas, que geraram deslizamentos e enchentes. O debate midiático sobre o desastre ressaltava dois fatos principais: foi a maior chuva da cidade em 90 anos (quase 250 milímetros em 24 horas) e uma parte da população, mais atingida, morava em encostas ou áreas de risco. Pois na interseção dessas duas justificativas, e na origem dessa e de muitas outras tragédias semelhantes, está um problema que ameaça muito mais do que uma cidade: o aquecimento global, um sintoma contemporâneo das chamadas mudanças climáticas.

Antes de tudo, é preciso alertar que essas expressões não são sinônimas. Enquanto o aquecimento global é um (grande) um problema dos nossos tempos, as mudanças climáticas precisam ser entendidas como um fenômeno esperado da natureza. “Mudança climática é um termo que se refere a alterações no comportamento médio do tempo meteorológico. Se uma região como o Ártico estivesse esfriando, a gente estaria falando de uma mudança climática regional. O termo ‘mudança climática’ vale para qualquer alteração desses padrões. Já o aquecimento global se refere especificamente ao aumento da temperatura média global”, explica o físico Alexandre Araújo, doutor em Ciências Atmosféricas e professor da Universidade Estadual do Ceará. Andrei Cornetta, doutor em Geografia Humana e autor do verbete sobre esse tema no recém-lançado ‘Dicionário de Agroecologia e Educação’, publicado pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) em parceria com a Expressão Popular, completa: “A mudança está na essência do que é o clima porque os fenômenos atmosféricos são dinâmicos. Então, a questão é discutir os fatores que levam às mudanças climáticas”. E é aí que mora o problema.

Como um processo natural, a Terra absorve calor do Sol e reflete, para o ‘espaço’, radiação infravermelha. Acontece que alguns gases, como o metano, mas principalmente o dióxido de carbono, têm propriedades que impedem a passagem de boa parte dessa radiação, fazendo com que ela fique presa por aqui e aqueça a superfície do planeta. É a isso que se chama de ‘efeito estufa’. De acordo com Alexandre Araújo, parte dessa ‘estufa’ é de fato necessária, mas o excesso, como se vê hoje, gera um aumento da temperatura média da Terra, facilitando a existência ou a ampliação de fenômenos como ondas de calor, chuvas violentas, furacões e ciclones, entre vários outros. Isso sem contar os efeitos sobre as condições de saúde: segundo Alexandre Pessoa, professor-pesquisador da EPSJV/Fiocruz e um dos organizadores do ‘Dicionário’, não apenas os efeitos do aquecimento global geram “alterações na distribuição de vetores e doenças infectoparasitárias” como a redução da biodiversidade gerada por essas mudanças amplia a “mobilidade e disseminação de vírus selvagens”, aumentando o “risco de saltos zoonóticos, a exemplo da Covid-19”.

Ação humana

A relação entre natureza e ação humana está presente em todo o debate sobre mudanças climáticas. De fato, uma parte do CO2 que existe na atmosfera da Terra é emitida naturalmente, por exemplo, pelos oceanos e florestas. Mas o excesso que gerou os problemas atuais vem da queima dos chamados combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás natural – exatamente aqueles que estão na base da atividade industrial, além de muitas outras ações que são parte do nosso cotidiano, como o simples ato de andar de carro. E não é só: processos de destruição ambiental, como o desmatamento e as queimadas nas florestas, também contribuem significativamente para a concentração desses gases e o consequente aquecimento global. Para se ter uma ideia, dados do Observatório do Clima divulgados em outubro passado mostraram que, ao longo de 2020, a emissão de gases do efeito estufa aumentou 9,5% no Brasil – na contramão dos números globais, que apontaram uma redução de 7% no mundo. A aparente contradição de um crescimento desse tipo ocorrer num ano marcado pela redução da circulação de pessoas, transporte e atividade industrial, em função da pandemia, se explica com uma informação adicional: 46% dessas emissões se deveram ao desmatamento. “Fala-se muito no processo de ‘savanização’ da Amazônia, mas, mais do que a questão da elevação da temperatura terrestre, é preciso entender que isso tem sido impulsionado em grande medida pelo avanço do desmatamento em função do modelo de agricultura que nós adotamos no país, a partir de monoculturas e ampliação de pastagens”, explica Cornetta.

Araújo lembra que o planeta já passou por vários períodos de aquecimento e resfriamento: nos últimos 2,5 milhões de anos, houve intervalos “relativamente quentes”, chamados interglaciais, e outros “relativamente frios”, conhecidos como glaciais. Isso significa que o clima já mudou muitas vezes. “Mas sempre houve uma razão física para isso”, alerta, explicando que essa é uma das grandes diferenças em relação à manifestação de mudança climática que nós experimentamos hoje, que é prioritariamente antropogênica, ou seja, causada pela ação humana. Ainda assim, Alexandre Pessoa alerta: “A crise ecológica não é gerada pelo homem genérico, mas pelas corporações que lucram com a exploração e degradação ambiental. E a consequência também não será igual para todos”.

A outra diferença em relação às mudanças climáticas do passado é a escala. “Nos últimos 800 mil anos, até o período pré-industrial, a concentração de dióxido de carbono oscilou entre 173 partes por milhão, que é o mínimo a que se chegou em um dos glaciais, até 298 partes por milhão, que foi o máximo que ela havia chegado em algum dos interglaciais. E essa mudança na concentração de CO2 veio acompanhada de uma oscilação de temperatura da ordem de quatro a cinco graus na escala global”, conta Araújo. O “ritmo natural do processo”, portanto, indicava que uma alteração desse porte levava dezenas de milhares de anos para ocorrer. Acontece que essa velocidade mudou: em pouco mais de 200 anos, desde meados do século 18 até agora, essa concentração subiu de 278 partes por milhão para 420. E, segundo Araújo, “o grosso” desse aumento aconteceu na segunda metade do século passado, num período de aproximadamente 70 anos. “São processos muito acelerados. Não há paralelo na história”, diz, ressaltando que a última vez que o planeta experimentou uma atmosfera como a de hoje foi há cerca de 5 milhões de anos, quando os seres mais próximos dos humanos que circulavam por aqui ainda nem eram hominídeos. “A humanidade que a gente conhece, com cultura [de alimentos], pecuária, cidades e assentamentos humanos gigantescos, é toda filha do holoceno. Ou seja, nós aproveitamos muito bem a generosidade de 11.700 anos de uma estabilidade climática associada a um interglacial, que introduziu o clima ameno. Foi isso que permitiu que se domesticassem animais, que se passasse a produzir alimento em escala capaz de sustentar uma quantidade cada vez maior de pessoas”, conta. Mas lamenta: “Nós somos os filhos mais ingratos do holoceno”.

O que diz o debate científico

Apesar disso, uma das narrativas que tem tentado relativizar os alertas sobre o aquecimento global é exatamente a que retira ou reduz o peso das ações humanas sobre esse fenômeno. Segundo Andrei Cornetta, embora muito minoritários, no campo específico da meteorologia física, há “cientistas céticos” produzindo estudos que apontariam outros fenômenos naturais como principais razões do aquecimento, deixando de focar na emissão de gases do efeito estufa. Ele diz que essas pesquisas têm sido apropriadas por grupos políticos conservadores e vinculados a interesses econômicos, mas não deixa de reconhecê-las como parte do debate científico. Alexandre Araújo discorda. Segundo ele, a última controvérsia realmente científica sobre esse tema remete aos anos 1980. “A ideia de que existe qualquer grau de disputa sobre esse tema é fabricada propositalmente há quase três décadas”, diz, defendendo que os autores que promovem essa aparente polêmica não são apropriados por grupos que defendem o negacionismo em função dos seus interesses econômicos, mas sim financiados e produzidos por eles.

Hoje, a fonte que mais alimenta o debate acadêmico e as decisões políticas internacionais sobre o assunto, produzindo previsões e propondo diretrizes científicas, é o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). Ele foi criado em 1988, como resultado de grande volume de pesquisas que evidenciavam a relação entre a emissão de gases do efeito estufa e o aquecimento global – embora as primeiras e fundamentais descobertas sobre essa cadeia tenham se dado ainda no século 19. Já o “reconhecimento mundial dessas questões”, expresso num conjunto de eventos, como a 2ª Conferência Mundial sobre o Clima e a Convenção Quadro sobre Mudanças Climáticas, promovida no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU), se dá, segundo Andrei Cornetta, em fins dos anos 1980. “A partir desse momento a questão climática passa a ser incorporada nas agendas políticas”, diz. Em meados da década seguinte, em 1997, pela primeira vez os países estabeleceram metas de redução dos gases do efeito estufa, compromissos esses firmados a partir do chamado Protocolo de Kyoto.

Em um cenário muito dos otimistas, a temperatura global poderá aumentar, em média, 1,5º C até 2100.

Uma das estratégias possíveis para essa mudança é adotar o que Cornetta caracteriza como “mecanismos de desenvolvimento limpos”, com a substituição de combustíveis fósseis. “Um exemplo é uma usina de cana de açúcar que passou a produzir energia com o aproveitamento das sobras da sua produção, com o bagaço da cana e com o vinhoto e, a partir disso, passou a gerar energia elétrica, tornando-se autossustentável e, em alguns casos, vendendo o excedente de energia para empresas concessionárias”, ilustra. Araújo completa: “Uma transição energética implica não apenas mudar as fontes de energia, mas também mexer na demanda energética. Quanta energia a gente gasta sem necessidade, com a obsolescência programada, produção de descartáveis, consumo de bens individuais que seriam atendidos de forma muito mais racional e eficiente através de saídas compartilhadas?”. Como exemplo desse questionamento, no caso do Brasil, ele cita a prioridade do uso de automóveis no lugar do investimento em transporte público. “Ninguém está querendo voltar para a caverna. Nós estamos querendo garantir as condições para que o conjunto da humanidade siga em uma situação de dignidade, de proteção de maneira coletiva, o que implica reduzir desigualdades e frear a irracionalidade dos nossos impactos sobre a natureza”, diz.

O problema é que esses não têm sido os principais caminhos adotados. “A economia de baixa emissão de carbono é um modelo econômico que envolve a redução e a gestão de emissão de gases de efeito estufa, baseado em grande medida na substituição de fontes energéticas fósseis. Mas não só isso: envolve um rearranjo produtivo industrial, rearranjos de uso e ocupação do solo. A questão é que isso vem sendo feito muito pelos chamados mecanismos de mercado compensatórios”, explica Cornetta. Na prática, isso significa que grandes empresas e países ricos passaram a comprar o que ele chama de “direito de poluir”.

Cornetta exemplifica com o projeto de Sequestro Florestal de Carbono, que foi implementado no Acre, no Brasil. A ideia, diz, é “gerar receita com a floresta em pé”. Significa garantir que a vegetação de uma determinada área não seja derrubada, fazer uma série de cálculos para descobrir quanto CO2 teria sido emitido se ela tivesse sido desmatada e transformar esse número hipotético num papel com valor que possa ser negociado numa espécie de bolsa de valores. Assim, empresas e governos que não conseguiram (ou nem tentaram) reduzir as próprias emissões de CO2 compram esses créditos de carbono para melhorar seus indicadores em relação às metas assumidas em acordos internacionais. Se tem a vantagem de manter a floresta de pé por aqui, por outro lado a estratégia alivia a ‘culpa’ de empresas e países que não deixaram suas próprias florestas em pé ou, o que é mais comum, que não alteraram suas fontes prioritárias de energia. Segundo Cornetta, esses são “rearranjos produtivos que desencadeiam novos canais de acumulação de capital”, muito valorizados inclusive neste momento de tentativa de retomada da economia dos países em função da pandemia. Não por acaso, desde o ano passado, tramita no Congresso Nacional um projeto de lei (nº 528/2021) que visa criar o Mercado Brasileiro de Redução de Emissões, que regularia a compra e venda de créditos de carbono. (ecodebate)

Desmatamento em Bacias do Sudeste e Centro-Oeste agravam crises hídricas

Desmatamento em Bacias do Sudeste e Centro-Oeste agravaram as recentes crises hídricas.
Análise da TNC Brasil indica que de 1988 a 2017 a perda da vegetação nativa em bacias localizadas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste chegou a 22,9 mil km² e pode acentuar as crises hídricas

Análises realizadas pela The Nature Conservancy (TNC) Brasil indicam uma perda importante da cobertura vegetal nativa no entorno das bacias hidrográficas onde se localizam os reservatórios que fazem parte do Sistema Interligado Nacional (SIN) nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Esta perda, somada a efeitos de longo prazo na mudança e uso do solo, pode ter agravado as recentes crises hídricas que afetaram estas áreas. Outros fatores incluem fenômenos climáticos, aumento da demanda nos seus diferentes usos, crescimento populacional e gestão focada em obras de infraestrutura cinza.

Até 1988, o país havia perdido nessa área mais de 580 mil km² de vegetação natural e, de 1988 a 2017, outros 22,9 mil km² foram suprimidos. Para se ter uma ideia do tamanho da perda desses últimos 30 anos, basta comparar com as áreas do estado e da capital paulistas: as áreas devastadas correspondem a 10% do tamanho do estado de São Paulo e 15 vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Os dados analisados são da série histórica disponibilizada pela iniciativa Mapbiomas, que traz informações sobre o uso e a ocupação das terras no Brasil, incluindo a região examinada.

Essa perda de cobertura florestal é um dos fatores que tem impactado a reserva das chamadas “águas invisíveis”, tema deste ano definido pelas Nações Unidas para o Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março. Isso porque, a modificação do uso e ocupação da terra pode interferir nas áreas de infiltração natural, o que, por sua vez, afeta a capacidade de recarga da água armazenada no solo e nos aquíferos, chamado de “reservatório invisível”. Este cenário nos torna cada vez mais dependente dos regimes de chuva, extremamente susceptíveis às mudanças climáticas.

Mitigar e reverter os impactos das mudanças de uso e ocupação do solo e do uso insustentável da água estão entre os maiores desafios dos setores públicos e privados e da sociedade como um todo. Ampliar a segurança hídrica em quantidade e qualidade para todos passa necessariamente pela proteção ambiental, pela eficiência dos usos e da infraestrutura do sistema de abastecimento da água, e fomento ao desenvolvimento social e econômico.

De acordo com o gerente de Água da TNC Brasil, Samuel Barrêto, a segurança hídrica começa com a gestão adequada das bacias hidrográficas, de forma a mantê-las ou recuperá-las para que sejam saudáveis e resilientes às mudanças climáticas, tendo suas funções ecológicas mantidas. A conservação e recuperação das bacias hidrográficas e, consequentemente, a geração de serviços ambientais contribuirão para atender aos usos múltiplos e promover a equidade social e a qualidade de vida da população. Sendo a segurança hídrica um pilar estruturante de interesse nacional para o desenvolvimento econômico, deve ser tratada de forma estratégica.

“Ao analisarmos os desafios da disponibilidade hídrica e adaptação às mudanças climáticas, precisamos pensar além de soluções focadas em obras de infraestrutura cinza. A conservação de bacias hidrográficas é indispensável para garantir o suprimento de água no longo prazo, com qualidade e em quantidade para seus diferentes usos, como, por exemplo, atividades agropecuárias e industriais, navegação e transporte, geração de energia elétrica e, principalmente, o abastecimento humano”, explica.

Coalizão pelas Águas

Uma das contribuições da TNC Brasil para a agenda hídrica é a promoção da conservação e recuperação de florestas, de forma a contribuir com o equilíbrio entre oferta e demanda de água. Como cobenefício, as soluções baseadas na natureza podem fornecer um terço das soluções para o combate às mudanças climáticas.

É dentro dessa visão sistêmica que nasce a nova fase da Coalizão pelas Águas, uma iniciativa que, entre outras estratégias, usa os serviços da natureza na gestão hídrica, engajando o setor público e as empresas na conservação, recuperação e governança de bacias hidrográficas.

O objetivo é ampliar a escala e o impacto da recuperação das bacias em regiões do Cerrado, Mata Atlântica e Amazônia. Os locais foram estrategicamente selecionados para esta nova fase do trabalho da Coalizão, por conta do papel da Amazônia na formação dos rios voadores (umidade que abastece grande parte da América do Sul), além da sua rica biodiversidade terrestre e aquática; da importância do Cerrado como região produtora de alimentos no Brasil e mundo; e do papel-chave da vegetação nativa da Mata Atlântica em prover água para a população de grandes áreas metropolitanas. E, sobretudo, o objetivo é fortalecer a participação de todos na boa governança da água.

Desmatamento na Amazônia afeta fenômeno 'rios voadores' e pode alterar clima em outras regiões brasileiras

Pesquisadores explicam que ação do homem vem causando 'efeito cascata' no meio ambiente. 'Rios voadores' são massas de ar úmido que levam chuvas ao restante do Brasil.

Primeira fase

Entre 2015 e 2021, numa parceria com mais de dez empresas globalmente reconhecidas do setor privado e mais de 90 parceiros do setor público e da sociedade civil, a Coalizão realizou diversas ações com o objetivo de contribuir com a segurança hídrica em regiões metropolitanas do país onde vivem cerca de 42 milhões de pessoas.

Rresultados foram a restauração e conservação de 124 mil hectares e a alavancagem de mais de R$ 240 milhões; beneficiando cerca de 4 mil famílias, incluindo investimento de mais de R$ 20 milhões em pagamento por serviços ambientais.

Esses resultados promissores levaram ao desenvolvimento de uma nova etapa, incorporando novas geografias e abordagens, como a relação entre segurança hídrica e segurança alimentar com a resiliência das bacias hidrográficas, de forma a ampliar a escala e o impacto necessários.

'Rios voadores' perdem força e alteram clima em todo o Brasil, segundo especialistas, por conta do aumento das queimadas na Amazônia.

The Nature Conservancy (TNC) é uma organização global de conservação ambiental dedicada à proteção das terras e águas das quais toda a vida depende. (ecodebate)

sábado, 9 de abril de 2022

6,8% de rios da Mata Atlântica apresentam água de qualidade

Menos de 7% dos rios da Mata Atlântica apresentam água de boa qualidade.
Levantamento da organização não governamental (ONG) SOS Mata Atlântica revelou que somente 6,8% dos rios da Mata Atlântica do país apresentam água de boa qualidade.

A pesquisa não identificou corpos d’água com qualidade ótima. Mais de 20% dos pontos de rios analisados apresentam qualidade de água ruim ou péssima, ou seja, sem condições para usos na agricultura, na indústria ou para abastecimento humano, enquanto em 72,6% dos casos as amostras podem ser consideradas regulares.

Os dados constam da nova edição da pesquisa O Retrato da Qualidade da Água nas Bacias Hidrográficas da Mata Atlântica, realizada pelo programa Observando os Rios da SOS Mata Atlântica. A entidade avalia que o Brasil ainda está distante de atingir o ideal de água em quantidade e qualidade para os diversos usos. O levantamento é divulgado no Dia Mundial da Água, comemorado em 22 de março.

“Os resultados de 2021 nos mostram que a gente continua numa situação de alerta em relação à água, aos nossos rios, já que menos da metade da população brasileira tem acesso ao serviço de esgotamento sanitário. E os rios vão nos contar o que está acontecendo”, disse o coordenador do programa Observando os Rios, Gustavo Veronesi.

Ele explicou que o retrato da qualidade da água nas bacias da Mata Atlântica é um alerta para a condição ambiental da maioria dos rios nos estados do bioma. A inadequação da água para usos múltiplos e essenciais pode ser, segundo a entidade, consequência de fatores como a poluição, a degradação dos solos e das matas nativas, além das precárias condições de saneamento.

Veronesi acrescentou que as populações mais pobres são as mais afetadas pelas deficiências de estrutura de atendimento ao fundamental, que são água, esgotamento sanitário, manejo de resíduos e manejo de águas de chuva, pilares do saneamento básico.

Os indicadores foram obtidos entre janeiro e dezembro de 2021 por 106 grupos voluntários de monitoramento da qualidade da água. Foram realizadas 615 análises em 146 pontos de coleta de 90 rios e corpos d’água de 65 municípios em 16 estados do bioma Mata Atlântica. Esses estados são Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe.

De acordo com a SOS Mata Atlântica, houve pouca alteração em relação aos resultados do período anterior de monitoramento, no ano passado, com alguns casos localizados. As análises comparativas dos anos de 2020 e 2021 consideram os indicadores aferidos em 116 pontos fixos de monitoramento. Em 2021, foram nove pontos com qualidade boa (em 2020 eram 12); 84 com qualidade regular (80 em 2020); 22, ruins (21 no ano anterior) e apenas uma péssima, enquanto em 2020 foram três.

Sobre o fato de não haver grandes avanços de um ano para outro, Veronesi ressaltou que o processo de recuperação é muito mais lento que a ocorrência da poluição. “Um serviço de saneamento é muito demorado para dar resultado, vide o projeto de despoluição do Rio Tietê, são 30 anos para a gente conseguir aferir melhoras em alguns pontos, em alguns rios das bacias do Alto e Médio Tietê”.

“Sujar um rio é questão de segundos, é fácil. Agora limpar, despoluir, é muito mais demorado, porque depende do tempo de a natureza também se auto depurar e a gente parar também, a nossa natureza humana parar de sujar. O Rio não é sujo, quem suja somos nós. Somos os responsáveis pela sujeira e também pela limpeza, então é um esforço de toda a sociedade e, óbvio, o poder público tem papel central”.

Como exemplo positivo, a entidade destacou o Lago do Ibirapuera, localizado na capital paulista, onde a água passou de regular para boa, com relatos de aparecimento de peixes em sua foz. Outra evolução ocorreu no Tietê, em Santana do Parnaíba, saída da Grande São Paulo, que sempre recebeu muita carga de esgoto e lixo da região metropolitana e sempre vinha com qualidade péssima ou ruim ao longo do tempo. No entanto, este ano melhorou para qualidade regular, o que significa, segundo Veronesi, que as obras de saneamento estão fazendo efeito.

Por outro lado, uma situação que chamou a atenção da entidade foi a piora na qualidade dos rios em Mato Grosso do Sul, na região de Bonito. “Quando a gente fala dessa localidade, as pessoas logo pensam nas águas cristalinas que existem lá, principalmente o Rio Bonito. Houve piora em todos os pontos de monitoramento daquele estado. Os quatro pontos em que a gente podia fazer comparação em relação ao período anterior tiveram piora na média da qualidade.”

Segundo ele, este resultado mostra que a qualidade da água pode ser relacionada ao desmatamento, “porque também o Atlas da Mata Atlântica vem notando que essa é uma região que sofre bastante com desmatamento ilegal – isso vem acontecendo – e, quando você muda, tira a floresta, que é um filtro para a água e muda o uso do solo, isso causa impacto. O rio nos conta tudo, nos diz o que está acontecendo em uma bacia hidrográfica”, disse.

Para Veronesi, uma das soluções passa por conter o desmatamento ilegal. “Isso é uma questão que deveria ser de primeira ordem, de primeira necessidade, até por questões de emergência climática, e a Mata Atlântica é um dos biomas mais importantes para a gente conter o aquecimento global”, disse. Ele citou a necessidade de políticas públicas mais efetivas relacionadas ao reflorestamento, à preservação das áreas de proteção permanente e à restrição do uso de agrotóxicos. (ecodebate)

Qual o impacto ambiental do nosso consumo?

Pegada Hídrica: qual o impacto ambiental do nosso consumo?
Água e produção de alimentos

Pegada Hídrica foi um conceito criado pelo pesquisador holandês Arjen Hoaektre, há cerca de 20 anos, como um modelo para mensurar o volume de água utilizado ao longo de toda a cadeia de produção de um bem ou serviço.

No Dia Mundial da Água, Associação Latino-Americana de Dessalinização e Reuso de Água (ALADYR) chama atenção para ao uso indireto de água ligado aos nossos hábitos de consumo e convoca sociedade civil, poder público e empresas a pensarem em alternativas sustentáveis que garantam o fornecimento de recursos hídricos para as próximas gerações.

De acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), um brasileiro consome, em média, cerca de 152,1 litros de água por dia para realizar tarefas básicas como escovar os dentes, tomar banho e limpar a casa. Esse dado contempla apenas o uso direto, ou seja, a água que usamos para beber, lavar e cozinhar; ele deixa de lado o uso indireto, a “água virtual” incorporada nos processos produtivos de bens e mercadorias que fazem parte do nosso dia a dia.

Para confeccionar a calça jeans que vestimos foram utilizados mais de 5 mil litros de água, na xícara de café consumida nas primeiras horas da manhã foram gastos 132 litros de água para sair das plantações e chegar a nossa mesa, o bife que acompanha o tradicional PF brasileiro utilizou 15.415 litros de água para cada quilo de carne comercializada. A plataforma Water Footprint Network, especializada em contabilizar a pegada hídrica de mercadorias e atividades comerciais, estima que cada brasileiro consuma em média 5.600 litros de água por dia, considerando o uso direto e o indireto.

Pegada Hídrica foi um conceito criado pelo pesquisador holandês Arjen Hoaektre, há cerca de 20 anos, como um modelo para mensurar o volume de água utilizado ao longo de toda a cadeia de produção de um bem ou serviço, da matéria prima ao produto final. O assunto saiu do mundo acadêmico e ganhou aderência de empresas dos mais diversos segmentos, que estão apostando em embalagens reutilizáveis e inciativa de economia circular da água, bem como de consumidores atentos, que estão dispostos a repensarem seus hábitos de consumo.

Para o cálculo da pegada hídrica de um produto, são considerados três tipos de consumo de água: a Pegada Hídrica Verde, que considera apenas a água de precipitações (chuvas e neve) utilizada na evaporação, transpiração ou que é incorporada pelas plantas; Pegada Hídrica Azul, toda água proveniente de recursos hídricos subterrâneos ou superficiais que evapora ou é agregada durante a produção de um bem, ou ainda disposta no mar; por fim temos a Pegada Hídrica Cinza, que se refere apenas a água limpa utilizada para diluir água poluída oriunda dos processos de produção, até que se alcance os padrões de potabilidade estabelecidos em legislação.

“Se consideramos que a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que em 2050 teremos quase 10 bilhões de habitantes no planeta, faz cada vez mais sentido nos preocuparmos com a quantidade de água consumida em nosso dia a dia, utilizada para a produção dos bens de consumo e para desenvolvimento da economia, bem como discutirmos alternativas sustentáveis para aumentar a oferta de água, seja através de projetos de reuso de água ou dessalinização da água do mar ou salobra”, destaca Juan Miguel Pinto, engenheiro e presidente da Associação Latino-Americana de Dessalinização e Reúso de Água (ALADYR).

Águas subterrâneas

Criado em 1992 pela ONU, o Dia Mundial da Água é celebrado em 22 de março de cada ano, como um esforço da comunidade internacional para conscientizar todas as pessoas sobre a importância deste recurso natural e inspirar ações em prol do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6 – água e saneamento para todos. Em um relatório apresentado no 8º Fórum Mundial da Água, realizado em Brasília, a ONU afirmou que a falta d’água pode afetar 5 bilhões de pessoas até 2050.

Neste ano o tema escolhido é “Águas subterrâneas: Tornando o invisível visível”, uma vez que quase toda a água doce do mundo está disponível em reservas subterrâneas. Segundo citações do Ministério do Meio Ambiente, as reservas de água subterrânea brasileiras estão estimadas em 112 mil km³/ano, enquanto que a contribuição multianual média à descarga dos rios é da ordem de 2.400 km³/ano. Enquanto isso, na Argentina, a contribuição multianual média à descarga dos rios é da ordem de 128 km³/ano, no Paraguai, de 41 km³/ano e no Uruguai, de 23 km³/ano.

Um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do mundo está situado no centro-sul do Brasil e em parte dos territórios da Argentina, Paraguai e Uruguai. O Aquífero Guarani abrange parte dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, uma área maior que 1 milhão km2 e comporta aproximadamente 33 trilhões de litros de água

A água subterrânea é um tesouro escondido sob nossos pés e que está sob ameaça iminente, tanto pela intensificação das mudanças climáticas, como pela ação humana. Entre as principais fontes de contaminação dos mananciais subterrâneos estão os lixões e aterros mal operados; uso incorreto de agrotóxicos e fertilizantes; vazamentos de esgoto e efluentes; armazenamento, manuseio e descarte inadequado de produtos e resíduos oriundos da atividade industrial; entre outros.

Segundo o Programa Mundial de Avaliação da Água da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o consumo de água no mundo deve crescer entre 20% e 30% nos próximos 28 anos. Em virtude disso, se faz ainda mais necessário pensar na preservação dos mananciais e reservatórios subterrâneos.

Para Marcelo Bueno, diretor da ALADYR para o Brasil, os cenários projetados para as próximas décadas confirmam a urgência em passarmos de um status de discussão para a real aplicação de tecnologias de reuso de água e dessalinização como modelos de complementação do abastecimento de água. “As tecnologias existem e os seus benefícios são múltiplos. Estamos falando de plantas de dessalinização que podem garantir água potável em regiões que antes era impensável ter água, ou mesmo iniciativas que promovam o tratamento de efluentes e reuso de água para abastecer grandes complexos industriais e, assim, reduzir a captação de águas superficiais e subterrâneas”, destacou o engenheiro.

O projeto Aquapolo Ambiental mostra que as iniciativas apontadas pela ALADYR já são uma realidade. A maior planta de produção de água industrial da América Latina, resultado de uma parceria entre a GS Inima Industrial e a SABESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), fornece água de reuso para o Polo Petroquímico de Capuava e indústrias da Região do ABC Paulista, utilizando como insumo o esgoto tratado pela Estação de Tratamento de Esgoto ABC da Sabesp (ETE-ABC).

Para Márcio José, diretor presidente do Aquapolo Ambiental, projetos que buscam um melhor aproveitamento dos recursos hídricos tem um papel fundamental tanto econômico, como social. “Esse papel é muito claro, pois a cada litro de água reciclada utilizado por nossos clientes do segmento industrial, outro litro de água potável é liberado para usos mais nobres como o consumo humano”.

Com nove clientes atendidos diretamente, 14 plantas industriais utilizando a água de reuso produzida, o AQUAPOLO tem capacidade para fornecer 1 mil litros de água de reuso por segundo, volume suficiente para abastecer uma cidade de 500 mil habitantes.

Os representantes da ALADYR fazem um chamado não só para este dia, mas em todos, para que sejamos mais conscientes em nossas casas, indústrias, trabalhos, escolas e em qualquer ação sobre o consumo e uso da água. Faz-se necessário conhecer a origem e o trabalho despendido para que todos tenham acesso a esse recurso, observar se estamos contribuindo ou não para a poluição de rios, lagos e reservas subterrâneas; bem como entender como podemos melhorar a forma de devolução dos recursos hídricos utilizados aos mananciais e bacias hidrográficas. É vital tomarmos ações que previnam os cenários alarmantes que estão previstos.

Pegada Hídrica: a água que você não vê.

Pegada hídrica: O que é e quais os benefícios da sua aplicação?

Você consome sem perceber. Infográfico mostra a quantidade de água necessária para produzir alguns itens do nosso cotidiano. Fonte: Planeta Sustentável. (ecodebate)

Alerta para a conservação dos rios e proteção dos recursos hídricos

É mais do que necessário que a humanidade repense os padrões de consumo praticados atualmente

Em 22/03 é celebrado o Dia Mundial da Água. Essa data foi estabelecida em 1993 pela Organização das Nações Unidas (ONU) para selar um acordo com os países e chamar a atenção de governos, empresas, organizações não governamentais e todos os setores da sociedade, a fim de promover a conscientização pública sobre a importância da preservação e do desenvolvimento dos recursos hídricos e da implementação das recomendações propostas pela Agenda 21.

Segundo dados da ONU, o Brasil é o país detentor da maior disponibilidade hídrica do planeta, com cerca de 12% do deflúvio médio mundial. Além disso, recentemente, foi registrado um aumento de 109% no volume de água que pode ser convertida em energia nos reservatórios das hidrelétricas de todo o país, é o que revela os dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), divulgados no início do ano.

Portanto, apesar das chuvas terem melhorado o nível dos reservatórios e dado um alento aos sistemas hídricos, a quantidade de lixo encontrada nos rios é grande e tem preocupado especialistas ambientais por colocar em risco a biodiversidade marinha. De acordo com o programa do Governo Federal chamado Rios + Limpos, em setembro do ano passado, foi realizada uma ação, com 130 voluntários, onde foram retiradas toneladas de lixo ao longo da bacia do Pantanal. Além da poluição da água doce, a correnteza acaba levando o lixo diretamente para o mar, afetando também a vida marinha.

Pesquisa realizada pela World Wide Fund for Nature ou Fundo Mundial para a Natureza (WWF), destacada pelo Atlas do Plástico, revela que o Brasil é responsável por despejar de 70 a 190 mil toneladas de resíduos plásticos nos oceanos todos os anos e, apesar de ter instituído a Política Nacional de Resíduos Sólidos em 2010, quase nenhum dos objetivos de reciclagem foi atingido dentro das metas estipuladas.

Os dados apontam que nunca foi tão urgente a necessidade de repensarmos a ideia do lixo e diminuir a pegada ambiental que deixamos no meio ambiente. É mais do que necessário que a humanidade repense os padrões de consumo praticados atualmente, dando preferência a produtos e serviços de empresas que já tenham incorporado uma agenda sustentável em seu modelo de negócios, seja reduzindo o uso de recursos naturais, eliminando componentes tóxicos em sua produção, criando linhas de produtos recicláveis e reciclados ou mesmo trabalhando com embalagens retornáveis.

Ninguém é tão pequeno que não possa fazer a diferença. É importante focar nas ações diárias, e muitas delas são simples, mas que no final do dia geram grande impacto. Problemáticas muito grandiosas costumam nos paralisar. Por outro lado, quando medidas que estão ao nosso alcance são apresentadas, as chances de adesão por grande parte da população são maiores e isso faz com que os efeitos em larga escala se tornem grandiosos.

Dia Mundial da Água alerta sobre a importância da preservação dos recursos hídricos. (ecodebate)

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Potencial das águas subterrâneas exige gerenciamento sustentável

Relatório Mundial da ONU sobre o Desenvolvimento da Água 2021 ‘Águas Subterrâneas: Tornando o invisível visível’

As águas subterrâneas representam 99% de toda a água doce líquida da Terra. No entanto, este recurso natural é muitas vezes mal compreendido e, consequentemente, subvalorizado, mal gerido e até mesmo abusado.

De acordo com a última edição do Relatório Mundial de Desenvolvimento Hídrico das Nações Unidas, publicado pela UNESCO, o vasto potencial das águas subterrâneas e a necessidade de gerenciá-las de forma sustentável não podem mais ser negligenciados.

Hoje, a UNESCO, em nome da ONU-Água, está lançando a última edição do Relatório Mundial de Desenvolvimento da Água das Nações Unidas, intitulado “Águas subterrâneas: tornando o invisível visível” na cerimônia de abertura do 9º Fórum Mundial da Água em Dakar, Senegal. Os autores pedem aos Estados que se comprometam a desenvolver políticas adequadas e eficazes de gestão e governança das águas subterrâneas para lidar com as crises hídricas atuais e futuras em todo o mundo.

Atualmente, as águas subterrâneas fornecem metade do volume de água captado para uso doméstico pela população global, incluindo a água potável para a grande maioria da população rural que não recebe sua água por meio de sistemas de abastecimento público ou privado, e cerca de 25% de toda a água utilizada para irrigação.

Globalmente, o uso da água está projetado para crescer cerca de 1% ao ano nos próximos 30 anos. Espera-se que nossa dependência geral das águas subterrâneas aumente à medida que a disponibilidade de água superficial se torna cada vez mais limitada devido às mudanças climáticas.

“Cada vez mais recursos hídricos estão sendo poluídos, superexplorados e ressecados pelo homem, às vezes com consequências irreversíveis. Fazer uso mais inteligente do potencial dos recursos hídricos subterrâneos ainda escassamente desenvolvidos e protegê-los da poluição e superexploração é essencial para atender às necessidades fundamentais de uma população global cada vez maior e para enfrentar as crises climáticas e energéticas globais”, diz o diretor-geral da UNESCO, Audrey Azoulay.

“Melhorar a maneira como usamos e gerenciamos as águas subterrâneas é uma prioridade urgente se quisermos alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030. Os tomadores de decisão devem começar a levar em conta as formas vitais pelas quais as águas subterrâneas podem ajudar a garantir a resiliência de vida humana e atividades em um futuro onde o clima está se tornando cada vez mais imprevisível”, acrescenta Gilbert F. Houngbo, presidente da ONU-Água e presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA).

Grandes benefícios e oportunidades sociais, econômicas e ambientais

A qualidade das águas subterrâneas é geralmente boa, o que significa que pode ser utilizada de forma segura e acessível, sem exigir níveis avançados de tratamento. A água subterrânea é muitas vezes a forma mais rentável de fornecer um abastecimento seguro de água às aldeias rurais.

Certas regiões, como a África do Saara e o Oriente Médio, por exemplo, possuem quantidades substanciais de fontes de águas subterrâneas não renováveis que podem ser extraídas para manter a segurança hídrica. No entanto, a consideração pelas gerações futuras e pelos aspectos econômicos, financeiros e ambientais do esgotamento do armazenamento não deve ser negligenciada.

Na África Subsaariana, as oportunidades oferecidas pelos vastos aquíferos permanecem amplamente subexploradas. Apenas 3% das terras agrícolas estão equipadas para irrigação – em comparação com 59% e 57%, respectivamente, na América do Norte e no Sul da Ásia – e apenas 5% dessa área usa águas subterrâneas.

Como aponta o relatório, esse baixo uso não se deve à falta de água subterrânea renovável (que muitas vezes é abundante), mas sim à falta de investimentos em infraestrutura, instituições, profissionais capacitados e conhecimento do recurso. O desenvolvimento de águas subterrâneas poderia atuar como um catalisador para o crescimento econômico, aumentando a extensão das áreas irrigadas e, portanto, melhorando os rendimentos agrícolas e a diversidade de culturas.

Em termos de adaptação às mudanças climáticas, a capacidade dos sistemas aquíferos de armazenar excedentes sazonais ou episódicos de água de superfície pode ser explorada para melhorar a disponibilidade de água doce durante todo o ano, uma vez que os aquíferos incorrem em perdas por evaporação substancialmente menores do que os reservatórios de superfície. Por exemplo, incluir o armazenamento e captação de águas subterrâneas como parte do planejamento do abastecimento urbano de água aumentaria a segurança e a flexibilidade em casos de variação sazonal.

Desbloquear todo o potencial das águas subterrâneas – o que precisa ser feito?

1. Coletar dados

O relatório levanta a questão da falta de dados sobre as águas subterrâneas e enfatiza que o monitoramento das águas subterrâneas é muitas vezes uma ‘área negligenciada’. Para melhorar isso, a aquisição de dados e informações, que geralmente fica sob a responsabilidade de agências nacionais (e locais) de águas subterrâneas, poderia ser complementada pelo setor privado. Particularmente, as indústrias de petróleo, gás e mineração já possuem uma grande quantidade de dados, informações e conhecimento sobre a composição dos domínios subterrâneos mais profundos, incluindo aquíferos. Por uma questão de responsabilidade social corporativa, as empresas privadas são altamente incentivadas a compartilhar esses dados e informações com profissionais do setor público.

2. Reforçar as regulamentações ambientais

Como a poluição das águas subterrâneas é praticamente irreversível, deve ser evitada. Os esforços de fiscalização e a acusação de poluidores, no entanto, são muitas vezes desafiadores devido à natureza invisível das águas subterrâneas. A prevenção da contaminação das águas subterrâneas requer o uso adequado da terra e regulamentações ambientais apropriadas, especialmente nas áreas de recarga de aquíferos. É imperativo que os governos assumam seu papel como guardiões de recursos em vista dos aspectos de bem comum das águas subterrâneas para garantir que o acesso e o lucro sejam distribuídos de forma equitativa e que o recurso permaneça disponível para as gerações futuras.

3. Reforçar os recursos humanos, materiais e financeiros

Em muitos países, a falta geral de profissionais de águas subterrâneas entre o pessoal das instituições e governos locais e nacionais, bem como mandatos, financiamento e apoio insuficientes de departamentos ou agências de águas subterrâneas, dificultam a gestão eficaz das águas subterrâneas. O compromisso dos governos de construir, apoiar e manter a capacidade institucional relacionada às águas subterrâneas é crucial.

(ecodebate)

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