sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Indústria da seca permite que sertanejo morra de sede com água no joelho

A tradicional indústria da seca permite que o sertanejo morra de sede com água no joelho.
“Qual a explicação para no Nordeste semiárido se disponibilizar água para irrigação durante um evento com criticidade secular? Ou se tem muita água – ao contrário do que se propaga, ou não se tem gestão, ou as duas coisas”, afirma o engenheiro hidráulico.
A atual seca no Nordeste – NE Setentrional brasileiro “tem posto em xeque o sistema de gestão dos recursos hídricos”, e na parte interiorana do Rio Grande do Norte “se repete o quadro de colapso generalizado do abastecimento de água retratado no semiárido brasileiro, apesar de atualmente constatarem-se reservas substanciais de água para atender plenamente o abastecimento de água de toda população do Estado”, diz João Abner Guimarães à IHU On-Line.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Guimarães informa que a “abordagem governamental” diante da seca tem sido “a tradicional”, ou seja, “os governos municipais e estaduais, após decreto de emergência, se livram das suas responsabilidades, levando a uma dependência quase que total das políticas governamentais aplicadas na região semiárida pelo governo federal, que se desenvolvem com dois tipos de abordagem: as ações emergenciais precárias de abrangências locais e as macropolíticas que pouco enxergam as diversidades regionais”. Segundo ele, entre as políticas desenvolvidas, “contraditoriamente, assegura-se 100% de garantia” de abastecimento “para os maiores projetos de irrigação, enquanto faltam meios (sistemas adutores de grande porte) para assegurar essa mesma garantia ao consumo humano das pequenas e médias cidades que são abastecidas pelos reservatórios menores”.
Para João Abner Guimarães, a atual gestão dos recursos hídricos na região está relacionada à história da indústria das secas, que tem “promovido o desenvolvimento insustentável na região”. Além da prioridade da irrigação em larga escala, o pesquisador afirma que “desde o Império a política hidráulica do governo federal permanece a mesma no NE como uma reserva de mercado do parque da indústria da construção civil pesada do Brasil, que tem como principal interesse o desenvolvimento de projetos de obras hídricas tradicionais, tais como a construção de grandes açudes e canais, seguindo um plano interminável de obras em que, com a limitação de locais para a construção de novos açudes, as transposições dão continuidade”.
João Abner Guimarães é doutor em Engenharia Hidráulica e Saneamento, professor nos cursos de Engenharia Sanitária e Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. Sobre a transposição do Rio São Francisco, publicou diversos artigos, tais como A transposição do Rio São Francisco e o Rio Grande do Norte, O lobby da transposição e O mito da transposição.
IHU On-Line - Qual é a situação da seca no Rio Grande do Norte neste momento?
João Abner Guimarães - O Rio Grande do Norte apresenta-se em melhor situação comparativamente aos outros estados do NE Setentrional – compreendido entre os rios São Francisco e Parnaíba -, tendo em vista que a maior parte (60%) da sua população urbana situada no litoral leste, onde se encontra a região metropolitana de Natal, e a região intermediária agreste é abastecida por sistemas hídricos do litoral pouco afetado pela seca. O mesmo acontece com a metade da população restante que é atendida por sistemas adutores de grande porte, que captam água dos maiores e mais seguros reservatórios do interior do Estado.
Por outro lado, apenas na parte interiorana do Estado, que não é atendida por sistemas adutores de maior porte, é que se repete o quadro de colapso generalizado do abastecimento de água retratado no semiárido brasileiro, apesar de atualmente constatarem-se reservas substanciais de água para atender plenamente o abastecimento de água de toda população do Estado.
IHU On-Line - O que tem mudado na região por conta dessa seca?
João Abner Guimarães - Infelizmente, a abordagem governamental é a tradicional, os governos municipais e estaduais, após decreto de emergência, se livram das suas responsabilidades, levando a uma dependência quase que total das políticas governamentais aplicadas na região semiárida pelo governo federal, que se desenvolvem com dois tipos de abordagem: as ações emergenciais precárias de abrangência locais e as macropolíticas que pouco enxergam as diversidades regionais.
IHU On-Line - Pode nos dar um panorama de como a seca castiga os diferentes estados do Nordeste?
João Abner Guimarães - Vou me restringir aos estados do NE Setentrional, já citado, onde a seca atinge fortemente e generalizadamente as atividades agropecuárias de sequeiro, dependentes das chuvas e o abastecimento humano rural difuso e das pequenas e médias cidades, demonstrando a falência do modelo atual de abastecimento de água individualizado sustentado em reservas locais. Fato esse comprovado pelo emprego generalizado de carros-pipas, em número recorde, atualmente na Região.
Então, a solução passa pela implantação de sistemas adutores de grande porte que captem água das reservas permanentes e mais seguras disponíveis. Para isso, os estados apresentam-se com potenciais distintos: Pernambuco tem o rio São Francisco correndo ao longo do seu território; Ceará detém 50% do potencial de armazenamento de água e os maiores reservatórios da região; no coração da seca do Rio Grande do Norte, no sertão central, é onde se concentram as maiores reservas de água e a maior disponibilidade per capita do Estado. Portanto, pode-se afirmar que esses três estados têm comprovada autossuficiência global de água para distribuição em condições sustentáveis. Entretanto, o quadro da Paraíba reconhecidamente é o mais crítico da Região, apresentando-se com o menor potencial hídrico efetivo da Região, o que, em tese, justificaria a importação de água de outros estados notadamente para atender as demandas concentradas na bacia do rio Paraíba decorrentes do abastecimento de água de Campina Grande, a segunda maior cidade do Estado.
“A questão central da gestão de recursos hídricos é como assegurar o uso prioritário do consumo humano frente aos usos hidroagrícolas sustentados pelos maiores reservatórios”
IHU On-Line - Como é feita a gestão dos recursos hídricos nos diferentes estados do Nordeste?
João Abner Guimarães - A seca atual tem posto em xeque o sistema de gestão dos recursos hídricos da Região NE. As instituições diretamente responsáveis, os órgãos gestores executivos, tanto em nível federal como estadual, têm assumido uma postura secundária na condução e coordenação das ações emergenciais da seca conduzidas pela defesa civil e pouco se vê o envolvimento dos comitês de bacia no exercício do papel moderador dos conflitos em épocas extremamente críticas como a atual. Uma outra contradição é a ausência de debates e mobilizações populares para analisar e apontar solução para os graves problemas da seca atual.
IHU On-Line - Como se dá a gestão dos recursos hídricos em períodos de seca como o que se vive hoje na região? O modo como é feito o abastecimento de água é sustentável?
João Abner Guimarães - A questão central da gestão de recursos hídricos é como assegurar o uso prioritário do consumo humano frente aos usos hidroagrícolas sustentados pelos maiores reservatórios, tais como o Castanhão (CE) e Armando Ribeiro (RN). Hoje, a quase totalidade dos municípios abastecidos por carro-pipa se encontram desconectados desses maiores reservatórios.
Contraditoriamente, assegura-se 100% de garantia para os maiores projetos de irrigação, enquanto faltam meios (sistemas adutores de grande porte) para assegurar essa mesma garantia ao consumo humano das pequenas e médias cidades que são abastecidas pelos reservatórios menores.
Uma das principais lições dessa seca secular é a constatação da plena capacidade de atendimento dos usos prioritários humanos no Ceará e no Rio Grande do Norte; para isso não falta água, claro, desde que se restrinjam os usos menos prioritários estabelecidos na Lei 9.433. Fato esse que não acontece nesses estados com relação aos grandes irrigantes, ao contrário dos pequenos, que estão sendo perseguidos.
Esse quadro, por si só, aponta falência do sistema de gestão dos recursos hídricos do NE e como exemplo emblemático a experiência do Ceará se sobressai. Mesmo ameaçado pela falta d’água para o consumo humano de Fortaleza, o governo do Ceará vinha oferecendo água em larga escala para a irrigação, apesar da seca secular, contrariando a sua própria política de recursos hídricos baseada no parâmetro Q90+, regulado por níveis de alerta nos açudes para assegurar água para irrigação até que o evento com criticidade de 20 anos de período de retorno seja atingido, no caso atual já muito superado.
Então, qual a explicação para no NE semiárido se disponibilizar água para irrigação durante um evento com criticidade secular? Ou se tem muita água – ao contrário do que se propaga, ou não se tem gestão, ou as duas coisas.
IHU On-Line - O senhor tem defendido em alguns debates a implementação da Lei das Águas no Nordeste. Em que consiste sua proposta e de que modo isso ajudaria a resolver o problema de gestão hídrica na região?
João Abner Guimarães - Em 100 anos de história, a indústria das secas tem promovido o desenvolvimento insustentável na Região, priorizando a irrigação em larga escala numa região semiárida bastante populosa, como é o caso atual no CE e RN. Dessa forma, o problema não é legal, mais sim institucional. Está em xeque o sistema gestor da Região, no caso, a Agência Nacional de Águas – ANA, responsável pela operação dos grandes açudes federais e os comitês de bacia.
IHU On-Line - Que relações o senhor estabelece entre a indústria da construção civil e a manutenção da seca em regiões do Nordeste?
João Abner Guimarães - O tempo passa e desde o Império a política hidráulica do governo federal permanece a mesma no NE como uma reserva de mercado do parque da indústria da construção civil pesada do Brasil, que tem como principal interesse o desenvolvimento de projetos de obras hídricas tradicionais, tais como a construção de grandes açudes e canais, seguindo um plano interminável de obras em que, com a limitação de locais para a construção de novos açudes, as transposições dão continuidade. Essa é a verdadeira indústria das secas no Brasil.
“Uma das saídas para o enfrentamento da problemática das secas no NE passa pela melhoria dos sistemas de abastecimento de água da região, investindo-se no setor de produção, que inclui captação, tratamento e adução até as cidades”
IHU On-Line - O senhor é um defensor de novos sistemas de adutores. Quanto e como deveria se investir nesse sistema para garantir o abastecimento de água em períodos de seca como esse?
João Abner Guimarães - No meu estado (RN) o sertanejo morre de sede com água no joelho. A Região Central, que possui a maior disponibilidade per capita de água, superficial e subterrânea, cerca de o dobro da do estado, sofre um quadro generalizado de colapso dos sistemas de abastecimento das cidades sustentados em reservatórios de porte médio locais.
Paradoxalmente, a Companhia de Água do Estado – CAERN encontra-se paralisada aguardando o socorro do governo federal, apesar de a experiência mostrar que soluções relativamente simples e baratas de sistemas adutores de porte médio seriam perfeitamente viabilizadas pelo autofinanciamento do consumidor local.
Creio que uma das saídas para o enfrentamento da problemática das secas no NE passa pela melhoria dos sistemas de abastecimento de água da região, investindo-se no setor de produção, que inclui captação, tratamento e adução até as cidades. A experiência atual mostra que a fragilidade do sistema se encontra nesse setor, apesar de, em regra, não faltar água para o abastecimento humano.
Portanto, atualmente, o grande desafio é a captação dos recursos financeiros necessários para os investimentos urgentes na implantação dos novos sistemas produtores e/ou adutores num ambiente de escassez de recursos governamentais cada vez maior.
Por outro lado, o elevado custo da água suplementar arcado pela população demonstra grande rentabilidade e capacidade de autofinanciamento do setor, justificando a busca de parcerias público-privadas para melhorar os serviços públicos de abastecimento de água, fugindo-se, dessa forma, da disputa na vala comum dos parcos recursos emergenciais disponibilizados pelo governo federal no momento atual, sem passar necessariamente pela privatização do setor. Sendo essa, talvez, a principal lição que poderíamos tirar dessa terrível seca que, antes de tudo, revelou a fragilidade do setor estatal de abastecimento de água da região. (ecodebate)
 

Hidrologia nordestina ruim faz reservatórios terminar julho com 23%

Hidrologia ruim no Nordeste continua e reservatórios terminam julho/2016 com 23,3%.
De acordo com ONS, submercado Sudeste/Centro-Oeste é o que melhor apresenta resultado na comparação com o mesmo mês do ano passado.
Os reservatórios do submercado Nordeste terminaram o mês de julho com volume de 23,3%, mostrando que a crise hídrica na região não arrefeceu, embora tenha melhorado em relação ao ano passado. De acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico, o valor é pouco maior do registrado em julho de 2015, de 22,49%. Em 2014, quando já se evidenciava a hidrologia ruim, os níveis eram de 36,56%. A energia armazenada na região no mês é de 12.061 MW mês e a energia natural afluente é de 1.215 MW med, que equivale a 32% da média de longo termo armazenável no mês até o dia. A usina de Sobradinho opera com 18,64% da capacidade.
O submercado Sudeste/ Centro-Oeste mostrou boa capacidade de recuperação, terminando o mês com volume de 51,5%. Em julho do ano passado, a marca era de 37,43% e em 2014, de 34,40%. A energia armazenada na região chega a 104.463 MW mês e a ENA é de 18.653 MW med, que equivale a 90% da MLT. A usina de Furnas opera com 73,6% da sua capacidade e a de Nova Ponte está com 35,78%. O Norte do país é outra região que mostra preocupação, porque se em 2015 ela encerrou julho operando com volume de 75,6%, este ano a queda foi de mais de vinte pontos percentuais, ficando em 54,4%. O volume em julho de 2014 também era bem maior, de 84,9%. A energia armazenada é de 8.186 MW mês e a ENA é de 1.392 MW med, o mesmo que 45% da MLT. A hidrelétrica de Tucuruí está com volume de 83,14%.
Os reservatórios da região Sul também terminaram julho com um nível menor que do ano passado, porém ele continua elevado, de 88,1%. O volume é inferior aos 96,76% de julho do ano passado e aos 90,5% de 2014. A energia armazenada é de 17.581 MW mês e a ENA é de 5.569 MW med, que corresponde a 90% da MLT. A usina de Barra Grande opera com 89,69% da capacidade. (canalenergia)

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Sustentabilidade urbana e a construção civil

Favela Paraisópolis, junto ao Morumbi.
Em maio deste ano, o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Urbanos (ONU-Habitat) divulgou relatório sobre as cidades do mundo denominado “Urbanização e Desenvolvimento: futuros emergentes”. O relatório é resultado de 20 anos de estudos, destaca o importante papel dos centros urbanos no desenvolvimento global e conclui que o modelo de urbanização atual é insustentável.
O documento é uma contribuição para a terceira Conferência da ONU Habitat sobre desenvolvimento sustentável que ocorrerá em outubro na cidade de Quito, Equador, tendo como objetivo principal a elaboração de uma Nova Agenda Urbana para o século XXI.
Atualmente 54% da população mundial vivem em cidades e estima-se que esse percentual suba para 66% até o ano de 2050. O relatório afirma que as cidades são responsáveis por 70% das emissões de carbono em nível mundial. E com o aumento da população, cresce também o risco de intensificação da contaminação do ambiente.
Para abrigar toda essa população, 70% da superfície das cidades é constituída por moradias que definem a forma urbana, sua densidade e demandam energia e água. Nesse contexto surgem inúmeros problemas como a demanda de energia e o consumo de água. A expectativa é que para 2050 a questão de energia cresça em 40% e a de água 50%, o que exigirá cada vez mais dos centros urbanos alta capacidade de resiliência para enfrentar situações de emergência e obter fontes alternativas de energia. Levando-se em consideração esse quadro, o relatório afirma que o futuro sustentável das cidades e os benefícios da urbanização dependerão em grande medida das futuras abordagens sobre a habitação.
Deve-se levar em conta que a construção de moradias envolve diversas atividades que impactam no ambiente tais como a utilização de materiais de construção a partir de várias fontes, utilização de máquinas, demolição de estruturas existentes, uso de áreas verdes, corte de árvores, destinação de resíduos etc. Consequentemente, o segmento da construção civil, numa perspectiva sustentável deve priorizar a redução de seus impactos sobre o meio ambiente e otimizar suas atividades de forma a reduzir seus efeitos negativos antes, durante e depois da obra construída.
A nova Agenda Urbana implicará na aplicação de critérios de sustentabilidade e utilização racional dos recursos naturais disponíveis na construção, exigindo mudanças importantes nos valores que o setor da construção civil tem na sua cultura consolidada ao longo dos anos. A incorporação de princípios de sustentabilidade alterará diversos hábitos e costumes arraigados, visto que contribuem para a conservação dos recursos naturais, maximizam a reutilização desses mesmos recursos, melhoram a gestão do ciclo de vida das habitações, com redução da energia utilizada e adoção de fontes alternativas de energia como a solar, entre outros benefícios.
Hoje é possível afirmar que não é fácil mudar o sistema de construção de edifícios, pois para se alcançar a sustentabilidade nesse setor deve-se sair da rotina e eliminar os maus hábitos adquiridos em décadas de desperdício de recursos naturais utilizados nas obras. Há necessidade de mudança da mentalidade das empresas do segmento, tendo como objetivo a priorização da reciclagem em detrimento da tendência tradicional de extração de materiais naturais. Nas construções futuras deverá ser incentivada a utilização de sistemas de energia tendo como base produtos e energias renováveis.
O momento atual, com a perspectiva da retomada do crescimento no Brasil, oferece uma excelente oportunidade para as empresas do setor de construção civil e de infraestrutura. O envolvimento consistente com a sustentabilidade contribuirá para uma melhoria do posicionamento competitivo da organização decorrente do reconhecimento público de que a empresa é realmente parceira na construção de um desenvolvimento sustentável. (ecodebate)

Identificação de sustentabilidade da ‘Ecofrota’

Conar recomenda alteração da campanha identificação de sustentabilidade da ‘Ecofrota’
O Conselho Superior do Conar, a partir de denúncia encaminhada pelo vereador paulistano Gilberto Natalini, propôs representação contra campanha veiculada pela Prefeitura Municipal de São Paulo em internet e adesivagem em coletivos.
Segundo o vereador, a campanha não atende às recomendações em relação à publicidade com apelos de sustentabilidade, previstas no artigo 36 do Código Brasileiro de Auto-regulamentação Publicitária e em seu anexo U. Informou o denunciante que programa de substituição de combustíveis fósseis divulgado na campanha não tem sido cumprido.
Em sua defesa, a Prefeitura deu informações detalhadas sobre o programa, denominado Ecofrota. No mérito, ponderou que as informações disponíveis no site referem-se à fase inicial do programa, considerando que “parece oportuno a reavaliação da divulgação ou, ao menos, sua atualização”.
Quanto aos adesivos em coletivos, a defesa informou desconhecer a situação atual, mas considerou que, diante do exposto, parece adequada a utilização deles nos veículos movidos a eletricidade ou etanol. Concordou, porém, que a utilização dos adesivos em ônibus movidos a biodiesel ou diesel de cana não mais se justifica integralmente.
A relatora da representação propôs a alteração do site, com atualização dos dados sobre o programa Ecofrota, e a remoção dos adesivos dos veículos movidos a biodiesel e diesel de cana, em linha com os termos da defesa.
Sua recomendação foi acompanhada por unanimidade pelos membros da 2ª Câmara do Conselho de Ética, reunidos em 14/07/16, na sede do Conar, em São Paulo. (ecodebate)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Efeitos distintos e limitações do manejo florestal sustentável

Estudo avalia efeitos distintos e limitações do manejo florestal sustentável.
Resultados de pesquisas realizadas na Amazônia apontam limitações na eficácia de diretrizes de gestão de ecossistemas e de certificados internacionais
O Manejo Florestal Sustentável é um dos pontos basilares da Lei de Gestão de Florestas Públicas, aprovada pelo Congresso Nacional em 2006 como resposta ao desmatamento crescente que ocorria à época no Cerrado e, principalmente, na Amazônia.
A nova legislação contribuiu decisivamente para a redução do desmatamento na Amazônia Legal, que caiu dos 27.700 km2 de floresta derrubada em 2004 para a mínima histórica de 5.000 km2 em 2014, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – embora, em 2015, o desmatamento tenha voltado a subir, atingindo 5.800 km2.
O Ministério do Meio Ambiente define o Manejo Florestal Sustentável como “a administração da floresta para obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto do manejo”.
A estratégia prevê a retirada seletiva de espécies de valor comercial em quantidade limitada, preservando as árvores jovens, por exemplo. Também é obrigatória a retirada prévia das lianas, os cipós e a vegetação aérea que crescem entre as árvores, evitando assim que a derrubada de um indivíduo arraste outras árvores consigo.
Estas e outras medidas buscam reduzir ao máximo o impacto da atividade madeireira nas florestas nacionais. Assim mesmo, o impacto existe. Como fazer para quantificá-lo e qualificá-lo? Esta foi a tarefa de um grupo de ecologistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Os primeiros resultados foram publicados no Forest Ecology and Management.
“Queríamos entender como o manejo sustentável agia sobre espécies arbóreas de uso comercial e também aquelas não madeireiras”, disse Flavio Antonio Maës dos Santos, do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp. O estudo foi levado a cabo por sua então doutoranda, Maria Rosa Darrigo.
Para entender a ação do manejo florestal no médio e no longo prazo, os pesquisadores selecionaram glebas de floresta em Itacoatiara, no Amazonas, a 250 km de Manaus. A área, uma reserva florestal com 506 mil hectares, é explorada por empresa desde 1995 de acordo com diretrizes da Forest Stewardship Council (FSC), organização não governamental que estabelece padrões internacionais de manejo florestal sustentável.
As glebas florestais estudadas foram exploradas em 1996, 2002 e 2005. Os dados dos efeitos do manejo sobre as espécies vegetais e o solo foram coletados entre 2007 e 2009, fornecendo um painel de regeneração florestal efetiva de dois, cinco e 11 anos desde o manejo. Todos os dados foram comparados aos de uma área de controle não explorada.
Foram estudadas sete espécies arbóreas. Elas são comuns em todas as áreas estudadas: acariquara (Minquartia guianensis), cupiúba (Goupia glabra), maparajuba (Manilkara bidentata), maçaranduba (Manilkara huberi), Pouteria anomala, Protium hebetatume angelim-rajado (Zygia racemosa). Essas espécies representam um amplo conjunto de características, incluindo tamanho, densidade da madeira e estratégias reprodutivas.
“A partir de todos esses dados conseguimos comparar o que estava acontecendo com os indivíduos daquelas sete espécies nas áreas investigadas”, disse Santos. Um exemplo é a abertura de clareiras na mata. Mesmo depois de 11 anos, não se observou uma recuperação total da cobertura vegetal nas áreas onde a derrubada manejada de árvores abriu clareiras.
Daí decorre uma segunda evidência: a quantidade de luz que incide sobre a vegetação na clareira. As plantas pequenas mostraram uma taxa de crescimento maior do que as demais, pois o acesso à luz é um fator determinante de crescimento.
Por outro lado, se a taxa de crescimento das plantas pequenas aumentou, sua mortalidade seguiu o mesmo rumo. E de forma acelerada. “A taxa de mortalidade das plantas pequenas subiu de duas a três vezes, quando comparada às mesmas plantas na área de controle”, disse Santos. A resposta a essa disparidade pode estar nas alterações sofridas no ambiente após o manejo, com a mudança na frequência de indivíduos de determinadas espécies em relação às outras.
Outra causa de mortalidade observada foi a queda de árvores. Segundo Santos, “nas áreas manejadas quem cresce mais são as espécies com densidade de madeira menor, portanto mais sujeitas à queda. Em princípio, o que pareceria benéfico às plantas menores, o aumento do acesso à luz, na verdade não ocorre”.
Composição do solo
Outra constatação dos pesquisadores foi a alteração na composição do solo nas áreas manejadas em comparação com a área de controle. Nos primeiros dois anos após o manejo, a fertilidade do solo se manteve comparável à da área de controle. Depois desse período, a fertilidade caiu cerca de 30%. Boa parte da manutenção da fertilidade nas áreas de manejo se deve à decomposição das árvores derrubadas para a abertura de trilhas por onde são transportadas as toras comercializáveis, por exemplo. Após dois anos do manejo, quando a decomposição dessa mata derrubada se completa, a fertilidade das áreas manejadas declina.
Uma das conclusões do trabalho é que os efeitos do manejo florestal sustentável não são iguais para todas as espécies. Algumas são mais afetadas do que as outras. Algumas crescem mais do que as outras. Essa constatação por si só é extremamente importante para entendermos as limitações da eficácia das diretrizes e dos certificados internacionais de manejo florestal.
“Se essas estratégias fossem de fato sustentáveis, seria de se esperar a manutenção das populações de todas as espécies ao longo do tempo. Mas não é isso o que acontece”, disse Santos. “O que constatamos foi que, tanto na área manejada há 11 anos, quanto na área manejada há cinco anos, ocorreu uma redução das populações no tempo.”
Uma possível resposta é a retirada das árvores adultas, que são justamente as fontes de sementes para a germinação de novas gerações de árvores. “Manejo sustentável é, sem dúvida, muito melhor do que a terra arrasada pelo desmatamento generalizado”, afirmou Santos. “Só que dizer que isso é sustentável, não dá para afirmar.”
Maria Rosa Darrigo é mais específica. “A exploração manejada, no caso deste estudo, realmente causou mudanças na trajetória de recomposição da floresta, que não são consideradas nos planos de manejo florestal sustentável. O que temos, de fato, é uma exploração de baixo impacto. Da forma que estamos fazendo, ainda não podemos chamá-la de sustentável, mas isso não quer dizer que não houve avanços na forma de se explorar as espécies madeireiras, uma vez que o impacto é comparativamente menor do que o causado pelos métodos tradicionais. O que precisamos entender e aceitar é que a floresta tem o seu próprio tempo de desenvolvimento, e o mercado precisa se adaptar a esse tempo natural.” (ecodebate) 

Sustentabilidade: o que é, o que não é

O livro Sustentabilidade: o que é, o que não é, de Leonardo Boff, um dos teóricos mais respeitados no que concerne à teologia-ecologia, é um convite a pensar o que é essa tal sustentabilidade, tão difundida nas mídias sociais e, até, nos meios tradicionais de comunicação.
A obra compõe-se de 12 capítulos, em considerações finais e na apresentação do documento Carta da Terra. De forma holística, na obra em baila, o autor discorre sobre a sustentabilidade como uma questão de vida ou morte, as origens do conceito de sustentabilidade, métodos atuais de sustentabilidade e sua crítica, causas da insustentabilidade da atual ordem ecológico-social, pressupostos cosmológicos e antropológicos para um conceito integrador de sustentabilidade, rumo a uma definição integradora de sustentabilidade, sustentabilidade e universo, sustentabilidade e a Terra viva, sustentabilidade e sociedade, sustentabilidade e desenvolvimento, sustentabilidade e educação e, por último, sustentabilidade e indivíduo.
No primeiro capítulo, “Sustentabilidade: questão de vida ou morte”, Boff começa a discussão mencionando a Carta da Terra como um dos documentos mais inspiradores do início do século XXI e, em seguida, tece discussões em torno dos desafios para a construção da sustentabilidade, sobre a insustentabilidade da atual ordem socioecológica, a insustentabilidade do sistema econômico-financeiro mundial, a insustentabilidade social da humanidade por causa da injustiça mundial, a crescente dizimação da biodiversidade: o Antropoceno, a insustentabilidade do Planeta Terra com a pegada ecológica, o aquecimento global e o risco do fim da espécie. Termina o capítulo com uma reflexão profunda acerca do fato de que o ser humano deve ser fiel a Terra e amante do autor da vida.
No capítulo, “As origens do conceito de sustentabilidade”, o autor dá início à discussão externando que a grande maioria estima que o conceito de sustentabilidade possui origem recente, a partir das reuniões organizadas pela ONU nos anos 70 do século XX, quando surgiu fortemente a consciência dos limites do crescimento que punha em crise o modelo vigente praticado, em quase todas as sociedades mundiais, mas que o conceito possui uma história de mais de 400 anos. Para aprofundar as noções concernentes à origem do termo sustentabilidade, enriquece a pauta apresentando a dicionarização do termo e suas primeiras semânticas. Ainda nesse capítulo, Boff discorre sobre a Pré-história do conceito de sustentabilidade, mostrando que o nicho a partir do qual nasceu e se elaborou o conceito é a silvicultura, o manejo das florestas, sobre a história do conceito de sustentabilidade, passando pelo alarde ecológico na ONU provocado pelo relatório do Clube de Roma “Os limites do crescimento”, que entre 5 e 16 de junho de 1972, em Estocolmo, ocorreu a Primeira Conferência Mundial sobre o homem e o Meio Ambiente, cujos resultados não foram significativos, mas gerou, pelo menos, a decisão de criar o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Boff segue a historicização acerca da sustentabilidade, apresentando a Conferência de 1984 que deu origem à Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, cujo lema foi “Uma agenda global para a mudança”, chegando à Conferência de 1987, mencionando que os trabalhos da comissão anterior foram encerrados nessa com o relatório da Primeira-ministra norueguesa Brundland “Nosso futuro comum” ou “Relatório Brundland”, até o encontro de 1992, 1997 e 2012 no Rio de Janeiro.
No capítulo, “Modelos atuais de sustentabilidade e sua crítica”, o autor começa dizendo que a pressão mundial sobre os governos e as empresas em razão da crescente degradação da natureza e do clamor mundial acerca dos riscos que pesam sobre a vida humana fizeram com que todos encetassem esforços para conferir sustentabilidade ao desenvolvimento. Nessa parte do livro, o leitor se depara com a noção de que muitas empresas e até redes delas como o Instituto Ethos de Responsabilidade Social se comprometeram com a responsabilidade social, partindo do pressuposto de que a produção não deve apenas beneficiar os acionistas, mas toda a sociedade, especialmente aqueles estratos socialmente mais penalizados. Ao longo do capítulo, são discutidos temas como o modelo-padrão de desenvolvimento sustentável, mostrando-se que dentro desse modelo, para ser sustentável, o desenvolvimento deve ser economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto. O autor também discute acerca de melhorias no modelo-padrão de sustentabilidade, o modelo do neocapitalismo com ausência de sustentabilidade, o modelo do capitalismo natural com a sustentabilidade enganosa, o modelo da economia verde com a sustentabilidade fraca, o modelo do ecossocialismo com a sustentabilidade insuficiente, o modelo do ecodesenvolvimento ou da bioeconomia com a sustentabilidade possível, o modelo da economia solidária com a microssustentabilidade viável e o bem-viver dos povos andinos com a sustentabilidade desejada. Boff termina o capítulo mencionando que é imperioso superar todo o antropocentrismo e que não se trata egoisticamente de garantir a vida humana, descurando a corrente e a comunidade de vida, da qual nós somos um elo e uma parte, a parte consciente, responsável, ética e espiritual. A sustentabilidade deve atender o inteiro sistema Terra, o Sistema Vida e Sistema Vida Humana, pois sem esta ampla perspectiva, o discurso da sustentabilidade ficará apenas no discurso, quando a realidade pede a efetivação rápida e eficiente da sustentabilidade, a preço de perda do lugar do ser humano neste pequeno e belo planeta, a única casa Comum para todos.
No capítulo “Causas da insustentabilidade da atual ordem ecológico-social”, o teórico critica a visão da Terra como coisa e baú de recursos, o antropocentrismo ilusório, o projeto da modernidade com a perspectiva equivocada de progresso ilimitado, já que tal fator é impossível, a visão compartimentada, mecanicista e patriarcal da realidade, o individualismo com a dinâmica da competição e a primazia do desperdício sobre o cuidado, do capital material sobre o capital humano.
No que concerne ao capítulo “Pressupostos cosmológicos e antropológicos para um conceito integrador de sustentabilidade”, Boff afirma que se quisermos uma sustentabilidade viável, precisamos, consoante a Carta da Terra, de “um novo começo” e isto equivale a dizer que temos que construir um novo paradigma civilizatório. Nessa parte da obra, o autor faz discussões acerca do que é um novo paradigma e uma nova cosmologia, elementos da nova cosmologia como base da sustentabilidade. No que tange a tais elementos, Boff coloca que o primeiro deles é a noção de que o universo forma um incomensurável todo que se encontra em evolução e em expansão, a partir daquela primeira singularidade que foi o Big Ban, de onde surgiu tudo o que existe; o segundo elemento nos vem da Teoria da Relatividade de Einstein, segundo a qual massa material e energia são equivalentes; já no tocante ao terceiro elemento, o autor afirma que esse pressuposto vem da Mecânica Quântica, segundo a qual a matéria não possui apenas massa, de onde se originou toda a física moderna, sem somente energia, base para todo o processo industrial, mas possui também informação. O teórico prossegue externando que hoje é possível descodificar estas informações, estoca-las e usá-las nos aparelhos de automação, de robótica e de computação e que cada célula contém todas as informações do código genético pelo qual se constroem os seres vivos. Que esses pressupostos, entre outros, sustentam a nova visão do mundo e, consequentemente, da nova cosmologia. Para aprofundar a discussão em torno da nova cosmologia, discorre sobre o vácuo quântico com a fonte originária de Todo o Ser, sobre as quatro expressões da Energia de Fundo, sobre a complexidade/interiorização/interdependência, sobre a Terra como superorganismo vivo, Gaia, sobre a Comunidade de Vida versus Meio Ambiente, sobre o ser humano como a porção consciente da Terra, acerca do resgate da razão sensível e cordial, sobre a dimensão espiritual da Terra, do Universo e do ser humano. Segue tecendo considerações concernentes ao cuidado essencial como componente da sustentabilidade e termina com elucidações consoantes à vulnerabilidade de toda sustentabilidade.
Em “Rumo a uma definição integradora de sustentabilidade”, continuando a pauta em torno da nova cosmologia, o teórico pontua que a nova cosmologia deve ser por natureza, ecológica. Após isso, discorre sobre a origem da palavra ecologia, mencionando que a palavra deriva de casa que, em grego, quer dizer oikos, dessa forma, ficando claro que a cosmologia significa, em primeiro lugar, o discurso sobre a grande Casa Comum que é o universo, o cosmos e somente depois sobre o Planeta Terra. Diante disso, não se deve restringir a ecologia ao puro e simples ambientalismo, como é predominante nas discussões atuais. Prossegue dizendo que fazer isso seria reduzir o conceito de ecologia e empobrecer o debate, prejudicando uma compreensão mais ampla de sustentabilidade. A ecologia recobre a sociedade (ecologia social), a mente humana (ecologia mental), as indústrias (ecologia industrial), as cidades (ecologia urbana) e as redes de conexão com o cosmos (economia integral). Sendo assim, todas estas realidades são emergências da cosmogênese e ocorrem dentro do processo evolutivo universal e não à margem dele. A nova cosmologia, assim compreendida, possui o valor de uma verdadeira revolução. Neste capítulo, Boff apresenta, dentre outros pontos, a relevância da era Ecozoica, a superpopulação humana, estratégias para a seguridade alimentar da humanidade, a governança global do Sistema Terra e do Sistema Vida e a tentativa de uma definição integradora de sustentabilidade.
No que tange ao capítulo “Sustentabilidade e universo, diz que muitos podem estranhar a relação entre sustentabilidade e universo, mas, à medida que o leitor retoma os capítulos anteriores, consegue perceber que somos, todos, parte do universo e todos feitos do mesmo pó cósmico que se originou com a explosão das grandes estrelas vermelhas. Nessa parte da obra, fala sobre matriz relacional, mostrando que tudo e todos funcionam em ligação, em rede. O teórico em questão termina o capítulo com um poema de Cherokee Norman H. Russel, dizendo o seguinte: Assim como uma árvore não termina na ponta de suas raízes ou de sua copa, assim como um pássaro não termina em suas penas ou em seu voo, assim como a Terra não termina na montanha mais alta, assim eu também não termino em meu braço, no meu pé ou na minha pele, mas ininterruptamente me estendo para fora, pelo espaço e pelo tempo, com minha voz e meu pensamento, pois minha alma é o universo.
No capítulo “Sustentabilidade e a Terra viva”, o autor discorre sobre as três descobertas científicas que estão modificando nosso olhar sobre a Terra: a noção de comunidade cósmica, a comunidade de vida e a constatação de que a Terra é viva, um gigantesco superorganismo chamado Gaia. Para consubstanciar as discussões, apresenta as fontes da sustentabilidade para a Terra e a renovação do contrato natural Terra/humanidade.
Em “Sustentabilidade e sociedade”, dentre outras questões, mostra a necessidade de resgatar o sentido originário de sociedade, a democracia socioecológica como base da sustentabilidade e como poderia ser uma sociedade sustentável.
No que se refere ao capítulo “Sustentabilidade e desenvolvimento”, apresenta noções sobre os pressupostos para a sustentabilidade, questiona como passar do capital material para o capital humano, a viabilidade ecológica de um desenvolvimento sustentável, a sustentabilidade e o capital social regional, a sustentabilidade e a satisfação de necessidades fundamentais, indicadores de um desenvolvimento sustentável, indaga acerca de como passar do capital humano para o capital espiritual e apresenta um exemplo de boa sustentabilidade com o projeto Água Boa.
No capítulo “Sustentabilidade e educação”, Boff, de forma bastante sábia, menciona que a sustentabilidade não acontece mecanicamente. Ela é fruto de um processo de educação pela qual o ser humano redefine o feixe de relações que entretém com o universo, com a Terra e à comunidade de vida, de solidariedade para com as gerações futuras e a construção de uma democracia sociológica. Prossegue mostrando a importância de uma educação ecocentrada e apresentando os princípios norteadores de uma ecoeducação sustentável.
Em “Sustentabilidade e indivíduo”, de maneira filosófica, pontua que, a rigor, o indivíduo não existe, pois o que existe é a pessoa humana, nó de relações orientadas para todas as direções. Ninguém vive fora da rede de relações que sustenta o universo no qual cada um está imerso. Por isso, o correto seria dizer o indivíduo relacional, mas mantém a palavra indivíduo em seu sentido mais filosófico que social. Na oportunidade, faz os seguintes questionamentos: Que representa a sustentabilidade para o indivíduo assim compreendido? Que significa possuir uma existência sustentável? Para aprofundar a discussão, tece considerações acerca da sustentabilidade do homem-corpo indivíduo, a sustentabilidade do homem-psique individual e a sustentabilidade do homem-espírito individual.
A obra termina com algumas considerações acerca de um chamado à cooperação e à esperança, além da apresentação do documento Carta da Terra. (ecodebate)

sábado, 13 de agosto de 2016

Caminhos da Sustentabilidade pelas concepções de Miller e Tyler

Caminhos para a Sustentabilidade a partir das concepções de Miller e Tyler
No capítulo “Problemas ambientais, suas causas e a Sustentabilidade”, do livro Ciência Ambiental, Miller e Tyler, para explicarem os déficits ambientais, suas causas geradoras e caminhos para se atingir a Sustentabilidade, por meio de um Estudo de Caso, discorrem sobre a Era Exponencial na qual o sistema mundo vive.
Segundo os referidos autores, o crescimento exponencial é enganoso, pois começa devagar, mas, após duplicar apenas algumas vezes, aumenta para números gigantescos, pois cada duplicação é maior do que o total de todo o crescimento anterior.
Eles afirmam que entre os anos de 1950 e 2005, o número de habitantes do planeta cresceu de 2,5 bilhões para 6,5 bilhões e que se o crescimento populacional seguir essa linha, a Terra, até o fim deste século, alcançará entre 8 e 10 bilhões de pessoas. Que o mundo divide-se entre os que têm e os que não têm e que, apesar do crescimento econômico ter se multiplicado por 8 entre os anos de 1950 e 2005, praticamente, um em cada dois trabalhadores tenta sobreviver com renda inferior a 2 dólares dia. Para prosseguirem a discussão, os autores pontuam que essa pobreza afeta a qualidade ambiental, pois para sobreviverem, muitos pobres exaurem e degradam as florestas, os campos, os solos e a vida selvagem.
Analisando-se o que afirmam Miller e Tyler, anteriormente, é oportuno colocar que essa situação de degradação deve ser atacada na base, nas causas geradoras da febre ambiental, pois a pobreza é fruto de anos de exploração pelos donos do capital que interferem nos sistemas de produção, educação, de crenças, ou seja, nos aportes culturais produtivos das sociedades. Mais importante que visualizar a degradação provocada pela pobreza, é analisar como os ricos destroem o planeta e provocam as injustiças sociais.
O fato é que, conforme apresentam Miller e Tyler, biólogos estimam que as atividades humanas provoquem a extinção prematura das espécies terrestres, à taxa exponencial de 0,1% a 1,0% ao ano, uma perda irreversível da grande variedade de formas de vida, ou biodiversidade da Terra. Em diversas partes do mundo, florestas, campos, áreas úmidas, recifes de corais e superfície do solo de plantações continuam a desaparecer ou são degradas conforme a pegada ecológica humana se espalha exponencialmente por todo o globo.
Ainda, conforme pontuam os dois pesquisadores, o crescimento exponencial gera preocupações, pois, com ele, há o risco de que o referido crescimento com atividades ligadas à queima de combustíveis fósseis e desmatamento de áreas florestais naturais mude a climatologia da Terra neste e nos próximos séculos.
Para os dois autores que dão sustentação à discussão que se faz aqui, há soluções que poderiam ser implantadas para práticas sustentáveis nas relações de produção na Terra.
No tocante às soluções que podem ser implantadas, à luz da complexidade do século XXI, acreditamos que já não é hora de pensar em ações simplistas, mas, no capítulo em baila, realmente, os autores apresentam alternativas viáveis para sanar alguns déficits ambientais provocados a partir dessa arquitetura insustentável na matriz de produção do mundo hodierno.
Abaixo, aparece a curva em J, que Miller e Tyler utilizam para explicar o crescimento exponencial.
O leitor, ao se deparar com as explicações dos dois autores sobre o crescimento exponencial como algo enganoso, tem a oportunidade de refletir sobre questões como:
# A vida e a economia do planeta dependem da energia do sol e dos recursos e serviços naturais da Terra;
# O mundo está ancorado em um modus operandi não sustentável de produção;
# Os principais vetores e causas dos déficits ambientais são: crescimento populacional, desperdício no uso de recursos, pobreza, não valorização do capital natural e ignorância em relação à forma como o planeta funciona;
# Há um período curto para a transição de uma lógica de produção insustentável para uma arquitetura sustentável de gerir os recursos da Mãe-Terra.
É possível viver de forma sustentável e, para tanto, mais que nunca, é preciso compreender que a sustentabilidade é a capacidade dos diversos sistemas da terra, incluindo as economias e sistemas culturais humanos, de sobreviverem e se adaptarem às condições ambientais em mudança.
Para Miller e Tyler, para se alcançar a sustentabilidade, faz-se necessário atingir as seguintes etapas:
1. Conservação do capital natural da Terra
2. Reconhecer que muitas atividades humanas degradam o capital natural
Para a compreensão dessas etapas, é importante saber quais são os caminhos e soluções para atingir a sustentabilidade e a figura abaixo, apresentada pelos autores na obra Ciência Ambiental, explica, de forma objetiva, o percurso.
Ademais, é necessário conhecer o que o capital natural proporciona à humanidade e a figura abaixo, apresentada pelos dois teóricos, dão conta de explicar o processo.
Segundo os autores, a sustentabilidade implica em dizer que a humanidade precisa sobreviver com a renda biológica sem exaurir ou degradar o capital natural que a fornece. Para eles, uma sociedade sustentável atende às necessidades básicas de recursos da sociedade, mas isso é feito sem degradar ou exaurir o capital natural fornecedor dos recursos.
(ecodebate)

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