segunda-feira, 5 de abril de 2021

A hidro hegemonia chinesa

Moradores da província de Henan, China, assistem a sedimentos trazidos por enchente jorrarem através da barragem Xiaolangdi, durante operação para regulação do nível da água no rio Amarelo.

Com a construção de novas barragens, China mantém hidro hegemonia na Ásia.

“Há um ditado tibetano que diz: ‘A tragédia deve ser utilizada como uma fonte de força’. Não importa que tipo de dificuldade, quão dolorosa é a experiência, se perdemos a nossa esperança, esse será o verdadeiro desastre”. Dalai Lama (1935 -)

A água é uma riqueza da Terra, um bem escasso e desigualmente distribuído. Nenhuma espécie animal ou vegetal consegue viver sem água. Porém, o ser humano tem maltratado, poluído e superexplorando as fontes limpas de água doce, além de estar sujando, danificando e acidificando os oceanos.

As pessoas pensam que a água é um bem abundante porque ela cobre 71% da superfície da Terra. Porém, do total dos recursos hídricos, os oceanos abarcam cerca de 97% do volume, restando apenas 3% de água doce para satisfazer as necessidades de todos os seres vivos do Planeta que não vivem nos oceanos. Desta pequena quantidade de água potável, 2,4% estão congeladas nas geleiras e calotas polares e somente 0,6% encontram-se nos rios, lagos e represas.

Conflitos pela água

As montanhas do Himalaia concentram grande quantidade de água que se acumulam nas geleiras e glaciares na época do inverno e garantem o fluxo de água para as regiões mais baixas, especialmente na primavera e no verão. Mas a China controla o Tibete – o teto do mundo – o que significa que controla também as nascentes dos principais rios da Ásia, que garantem a disponibilidade hídrica da metade da população mundial. Mas a estratégia chinesa de construir freneticamente represas e reservatórios em rios transnacionais que nascem no Tibete, ameaçam as economias e a prosperidade da região.

A China domina o mapa hídrico da Ásia, devido à anexação de terras de minorias étnicas, como o planalto tibetano e Xinjiang. O engrandecimento territorial da China no Mar da China Meridional e no Himalaia, onde atingiu até mesmo o pequeno Butão, foi acompanhado por esforços mais furtivos para se apropriar dos recursos hídricos em bacias hidrográficas transnacionais – uma estratégia que não poupou nem mesmo vizinhos amigáveis ou dóceis, como Tailândia, Laos, Camboja, Nepal, Cazaquistão e Coreia do Norte. De fato, a China não hesitou em usar sua hidro hegemonia contra seus 18 vizinhos a jusante.

Artigo de Brahma Chellaney, no Project Syndicate (22/12/2020) mostra que as 11 megabarragens da China no rio Mekong, a via navegável arterial do sudeste da Ásia, levaram as secas recorrentes rio abaixo e transformaram a Bacia do Mekong em um ponto crítico de segurança e ambiental. Enquanto isso, na grande parte árida da Ásia Central, a China desviou as águas dos rios Illy e Irtysh, que se originam no Xinjiang, anexado à China. Seu desvio de água do Illy ameaça transformar o Lago Balkhash do Cazaquistão em outro Mar de Aral, que praticamente secou em menos de quatro décadas.

Todavia, o plano recentemente revelado da China para construir uma mega represa no rio Yarlung Zangbo, mais conhecido como Brahmaputra, pode ser a maior ameaça até agora para o continente asiático. O projeto planejado de 60 gigawatts, que será integrado ao próximo Plano Quinquenal da China a partir de janeiro, irá diminuir a represa das Três Gargantas da China – atualmente a maior do mundo – no rio Yangtzé, gerando quase três vezes mais eletricidade. A China conseguirá isso aproveitando a potência de uma queda de 2.800 metros (3.062 jardas) pouco antes de o rio entrar na Índia.

Porém, o plano da China de represar o Brahmaputra perto de sua disputada – e fortemente militarizada – fronteira com a Índia não é uma surpresa. A publicação comunista chinesa Huanqiu Shibao, citando um artigo que apareceu na Austrália, recentemente pediu ao governo da Índia que avaliasse como a China poderia “transformar em arma” seu controle sobre as águas transfronteiriças e potencialmente “sufocar” a economia indiana. Com o megaprojeto Brahmaputra, a China deu uma resposta, como mostra o professor Chellaney.

O perigo de acidentes é grande como ocorreu com o colapso de uma geleira dos Himalaias causou uma enorme inundação em aldeias do norte da Índia, matando pelo menos 150 pessoas no dia 07 de fevereiro. O colapso do glaciar dentro da albufeira causou uma enorme onda de inundação que varreu tudo no seu caminho, se deslocando ao longo do rio Alaknanda, danificando gravemente a barragem de Rishiganga. O colapso da geleira provocou uma enorme onda de inundação que ultrapassou a barragem, resultando em uma intensa inundação que destruiu em poucos segundos as cidades construídas no vale do rio, mostrando o perigo das barragens construídas na região do Himalaia.

A China já vive uma guerra comercial com os EUA e enfrenta hostilidades crescentes com o aumento da exploração de recursos naturais na África, na América Latina e no restante do mundo.

Laços e traçados da China no Brasil: Implantação de infraestrutura energética e o componente socioambiental.

Uma guerra pela água na Ásia traria maiores problemas ambientais e seria uma “ducha de água fria” nas pretensões da hegemonia econômica chinesa no mundo. (ecodebate)

Nenhum comentário:

Região Sul ganha maior influência na formação de preços de energia

Com El Niño em 2026, região Sul ganha maior influência na formação de preços de energia. Super El Niño com mais de 80% de chance pode devast...