Investigações preliminares indicam que um grande bloco de geleira se desprendeu e represou temporariamente um rio no Nepal antes de liberar uma onda destrutiva. Especialistas alertam que o mesmo tipo de fenômeno ameaça vales povoados na Suíça e no Peru, à medida que o degelo se acelera em todo o planeta.
O desastre no Nepal
Colapso glacial: o fenômeno
que causou a enchente repentina na fronteira entre Nepal e Tibete.
A enchente repentina que
atingiu o Nepal provavelmente foi causada por um grande bloco
de geleira que se desprendeu e represou temporariamente um rio, segundo
investigações preliminares de cientistas. O acúmulo de água pode ter sido
liberado horas depois, avançando rio abaixo com força destrutiva.
Equipes de pesquisa ainda
reúnem dados de satélite e de campo para reconstituir com precisão o que
ocorreu na tragédia, que deixou centenas de mortos e muitos desaparecidos,
entre eles estrangeiros e peregrinos que visitavam a região.
O Serviço Geológico dos
Estados Unidos (USGS) registrou nesta quarta-feira um evento de magnitude 5,2
associado ao colapso da geleira, que enviou detritos rio abaixo com impacto
catastrófico sobre as comunidades. A conclusão se baseou em dados de estações
sismológicas próximas, ondas sísmicas de longo período e imagens de satélite.
Para os cientistas, ainda é
cedo para estabelecer uma relação direta entre o aquecimento global e a
catástrofe desta semana. Ainda assim, eles reforçam que, à medida que a
temperatura da Terra sobe por causa de atividades humanas como a queima de
petróleo, gás e carvão, aumentam as chances de desastres desse tipo, sobretudo
nas montanhas do Himalaia, que estão esquentando bem mais rápido do que a maior
parte do planeta.
Centenas de famílias perderam suas casas na região do Himalaia, e autoridades relataram danos de grande escala em infraestruturas essenciais, incluindo hidrelétricas, estradas, edifícios e pontes.
A água subiu antes que houvesse tempo de fugir
Funcionário de hidrelétrica
registra fuga desesperada durante avalanche de lama no Nepal
Vivek Shrestha trabalha em um
projeto hidrelétrico no rio Trishuli, na região de Mailung. Ele foi resgatado
de helicóptero e compartilhou relato nas redes sociais.
Em alguns pontos da região
atingida, o nível dos rios subiu até 9 metros em apenas 30 minutos, resultado
da onda provocada pelo desprendimento da geleira nas partes mais altas, segundo
pesquisadores de um centro de estudos climáticos com sede em Katmandu.
Evidências preliminares sugerem que um grande volume de gelo e rocha caiu no rio Lhende Khola, um afluente do Bhote Koshi. Segundo os pesquisadores, o colapso pode ter deslocado a água e arrastado sedimentos soltos e pedregulhos, formando uma onda poderosa rio abaixo. Os especialistas também investigam se os detritos chegaram a represar o rio antes que a água acumulada rompesse a barreira, potencializando ainda mais a enchente.
O Himalaia esquenta rápido demais
A cordilheira do Hindu Kush
Himalaia está entre as regiões que mais aquecem no planeta, o que provoca
mudanças profundas em geleiras, cobertura de neve, permafrost e encostas
montanhosas.
As montanhas concentram o
maior volume de neve e gelo fora das regiões polares. Mais de 63 mil geleiras
na área alimentam ao menos 10 grandes sistemas fluviais da Ásia e sustentam a
segurança alimentar, hídrica e energética de bilhões de pessoas.
Ainda assim, cerca de 78% da
área de geleiras da região, situada entre 4.500 e 6.000 metros de altitude,
está altamente exposta ao aquecimento.
A última década foi o período
mais quente já registrado globalmente, e 2024 foi o ano mais quente da
história. Relatórios da ONU apontam que, entre 2000 e 2019, as geleiras
perderam 267 gigatoneladas de gelo por ano, um volume equivalente à massa de
46,5 mil pirâmides de Gizé.
Em um cenário de aquecimento contínuo, projeções indicam a perda de até metade de todas as geleiras do mundo (excluindo Groenlândia e Antártida) até 2100, mesmo que o aquecimento global seja limitado a 1,5°C. As políticas climáticas atuais, porém, colocam o planeta em uma trajetória de aquecimento de cerca de 2,8°C até o fim do século.
Levantamentos do centro de
pesquisa de Katmandu mostram que as geleiras dessas cordilheiras derretem em
ritmo cada vez mais acelerado, com a perda de gelo dobrando desde os anos 2000.
Os ALPES estão DERRETENDO
Desde 1850, as geleiras dos
Alpes perderam mais de 60% do seu volume de gelo.
Só entre 2000 e 2020, mais de
40% das geleiras da região desapareceram, incluindo algumas que existiam há
milhares de anos (não estamos falando da cobertura de neve).
O risco de colapsos glaciais
não é exclusividade do Himalaia. Em maio, o colapso da geleira Birch, nos Alpes
suíços, soterrou boa parte da vila de Blatten, no cantão de Valais. O episódio
começou com sinais de instabilidade na encosta do Petit Nesthorn, monitorada
havia semanas por causa de deslizamentos de rocha. Blocos de pedra se
desprenderam e caíram sobre a geleira, que passou a receber uma carga enorme de
detritos até entrar em colapso.
O resultado foi uma sequência
de desastres em cadeia: soterramento quase total da vila por gelo, lama e
rochas; interrupção do curso do rio Lonza, com represamento da água; e formação
rápida de um lago que passou a submergir as estruturas restantes. Autoridades
suíças mantiveram o vale de Lötschental em estado de alerta, já que um
rompimento repentino da barreira natural formada pelos sedimentos poderia
provocar novas enchentes em outras aldeias rio abaixo.
O caso de Blatten expôs um
problema que preocupa cientistas em toda a cadeia dos Alpes: o degelo do
permafrost enfraquece encostas inteiras e aumenta o risco de grandes
deslizamentos de rocha. Em outras localidades suíças, como Kandersteg, no
cantão de Berna, autoridades também monitoram encostas instáveis associadas ao
degelo do permafrost, com risco de deslizamentos capazes de ameaçar vilarejos
inteiros.
Um levantamento recente estima em cerca de 2,2 milhões o número de pessoas expostas ao risco de enchentes provocadas por rompimento de lagos glaciais na região dos Alpes.
Nos Andes, o Peru já viveu a pior tragédia do tipo
O corpo do fotógrafo brasileiro Edson Vandeira foi resgatado da montanha onde desapareceu, no Peru. A equipe de resgate precisou subir mais de 5.000 metros de altitude. Um helicóptero foi utilizado na operação.
Do outro lado do planeta, os Andes enfrentam um risco semelhante, com destaque para o Peru, país que concentra a maior parte das geleiras tropicais do mundo. Estudos recentes estimam em cerca de 2,5 milhões o número de pessoas expostas a enchentes por rompimento de lagos glaciais na cordilheira andina, a maioria delas no Peru e na Bolívia.
O país já viveu o pior cenário possível. Em 1941, uma avalanche de neve e gelo caiu na Laguna Palcacocha, um lago glacial nos Andes peruanos, e provocou uma onda que rompeu a barreira natural de sedimentos que continha as águas. O desastre matou milhares de pessoas na cidade de Huaraz. Desde então, o Peru já registrou mais de 140 eventos do tipo, e a tendência é de alta.
O planeta mandou o recado de novo.
E a natureza não avisa antes de agir.
Essa tragédia no Nepal é a prova escancarada do que acontece quando o ser humano ignora os limites da terra.
Sustentabilidade não é conversa bonita.
É a única barreira entre a nossa existência e o colapso do meio ambiente.
Quando a gente ocupa o planeta de qualquer jeito, o resultado aparece rápido:
A vegetação arrancada deixa a terra solta para desabar;
O leito do rio invadido cobra o espaço dele de volta;
As mudanças climáticas transformam a falta de respeito ambiental em tragédia.
A terra não negocia com a ignorância humana.
Ou a gente aprende a respeitar o solo que pisa, ou vamos continuar assistindo a essas cenas até ser tarde demais.
Você acha que a humanidade ainda vai aprender a respeitar a força da natureza ou a gente já passou do ponto de retorno? Me conta o que você pensa disso.
Desprendimento de geleira no Nepal causa terremoto de magnitude 5,2.
Um estudo publicado na revista científica Nature Communications, conduzido por pesquisadores das universidades britânicas de Newcastle e Northumbria, mapeou a partir de dados de satélite as áreas de maior risco e vulnerabilidade a esse tipo de desastre em todo o planeta.
O levantamento concluiu que ao menos 15 milhões de pessoas vivem em áreas expostas ao risco de enchentes por rompimento de lagos glaciais, sendo que mais da metade desse total está concentrada em apenas quatro países: Índia, Paquistão, Peru e China.
Segundo o cálculo dos autores, cerca de 9 milhões de pessoas estão ameaçadas nas proximidades do Himalaia, 2,5 milhões nos Andes e 2,2 milhões nos Alpes. Um dos coordenadores da pesquisa, o professor Thomas Robinson, da Escola de Terra e Meio Ambiente da Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia, destaca que os Andes, embora recebam menos estudos científicos do que o Himalaia, apresentam potencial de impacto comparável para desastres desse tipo, o que reforça a necessidade de monitoramento mais próximo em países como Peru e Bolívia.
Cientistas defendem que sistemas de alerta antecipado mais eficientes, monitoramento constante e troca rápida de informações entre países vizinhos serão cada vez mais importantes à medida que as temperaturas sobem e as paisagens de montanha se tornam menos estáveis.
O desafio, porém, é enorme porque monitorar milhares de geleiras, encostas íngremes e vales fluviais ao longo de cordilheiras inteiras é uma tarefa extremamente difícil.
Tragédia no Nepal: os sinais da mudança climática diante dos nossos olhos
As causas ainda estão sendo
investigadas, mas as primeiras análises apontam para o colapso de parte de uma
geleira.
Quando
desastres em cadeia começam, muitas vezes, restam apenas alguns minutos para
tentar sobreviver. (ecodebate)








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