sexta-feira, 25 de março de 2022

Deter/INPE registra o pior fevereiro da série histórica

Desmatamento na Amazônia – Deter/INPE registra o pior fevereiro da série histórica.

Dados do sistema Deter, do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), divulgados em 11/03/22, reafirmam que o desmatamento na maior floresta tropical do planeta segue fora de controle. Entre os dias 1º e 28 de fevereiro/22, os alertas apontaram para um total de 199 km² desmatados.

Isso representa um aumento de 62% em relação ao mesmo mês de 2021. É a maior área com alertas para o mês desde 2016, quando foram iniciadas as medições do Deter-B. Os alertas de desmatamento se concentram principalmente nos estados de Mato Grosso, Pará e Amazonas.
“Os dois primeiros meses deste ano tiveram áreas recordes da série histórica, no acumulado já são 629 km² mais do que o triplo do que foi observado no ano passado, 206 km² desmatados. Isso tudo em um período no qual o desmatamento costuma ser mais baixo por conta do período chuvoso na região. Este aumento absurdo demonstra os resultados da falta de uma política de combate ao desmatamento e dos crimes ambientais na Amazônia, impulsionados pelo atual governo. A destruição não para”, afirma o porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, Rômulo Batista.

Publicado em 07/03/22 um estudo da Universidade de Exeter revelou que a floresta amazônica está perdendo sua capacidade de manutenção, chegando num “ponto de não retorno”. De acordo com o estudo, ¾ da floresta estão apresentando uma resiliência cada vez menor contra secas e outros eventos climáticos adversos e, portanto, estão menos capazes de se recuperar. Assim, a previsão é de que grandes áreas irão começar a se transformar em um bioma mais parecido com uma área de floresta degradada e mais seca, gerando riscos para a biodiversidade e para o clima em escala global e intensificando a ocorrência de eventos climáticos extremos.

Deter 2022 registra o pior fevereiro da série histórica.

“Na mesma semana em que milhares de pessoas se reuniram em Brasília, no Ato pela Terra, para exigir que o governo e o Congresso parem com o Pacote da Destruição, esse estudo publicado, a aprovação de urgência do PL da mineração em terras indígenas e os recordes dos alertas de desmatamento nos levam a refletir sobre o destino da Amazônia e seus povos. Além disso, quanto mais desmatamento, maior é a contribuição do país com a emissão de gases do efeito estufa, agravando ainda mais a crise climática e acelerando os eventos extremos como as chuvas torrenciais que vimos esse ano no Brasil. Os dados de fevereiro apontaram para mais um ano em que o Brasil caminha na contramão do combate à destruição ambiental e dos direitos dos povos indígenas”, complementa Batista.

Monitoramento de Queimadas na Amazônia em setembro de 2021.

Alerta de desmatamento na Amazônia bateu recorde em fevereiro/22.

Com 199 km² desmatados, Deter 2022 registrou o pior fevereiro da série histórica. (ecodebate)

Emissões globais de CO2 em energia subiram 6% em 2021

AIE: emissões globais de CO2 em energia subiram 6% em 2021.

Carvão foi responsável por mais de 40% do crescimento das emissões.

Emissões de carbono do setor de energia foram as mais altas da história em 2021.

Uso de carvão foi o principal fator de aumento das emissões de CO2 relacionadas à energia.
As emissões globais de dióxido de carbono (CO2) relacionadas à energia aumentaram 6% em 2021 para 36,3 bilhões de toneladas e superou os níveis históricos.

O aumento veio na esteira da recuperação da economia mundial após a crise do covid-19, com os países dependendo do carvão — a fonte mais suja de energia — para impulsionar esse crescimento.

Os dados fazem parte de relatório (em inglês) divulgado em 08/03/22 pela Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês).

A análise mostra que o aumento nas emissões globais de CO2 de 2,1 bilhões de toneladas foi o maior da história em termos absolutos, mais do que compensando o declínio de 1,9 bilhão de toneladas induzido pela pandemia do ano anterior.

Apesar da geração de energia renovável registrar seu maior crescimento de todos os tempos, a recuperação da demanda em 2021 foi agravada por condições climáticas adversas e do mercado de energia — notadamente os picos nos preços do gás natural — que levaram à maior queima de carvão.

Segundo a agência, os números deixam claro que a recuperação econômica global da crise do covid-19 não foi sustentável, e o mundo agora deve garantir que 2021 seja um ponto fora da curva — e que uma transição energética acelerada contribua para a segurança energética global e preços de energia mais baixos para os consumidores.

Térmicas da MP da Eletrobras podem emitir até 20 milhões de ton de CO2 por ano.

Carvão e gás avançam, petróleo tem recuperação limitada

O uso do carvão para geração de eletricidade em 2021 foi intensificado pelos preços recordes do gás natural.

Custos de operação de usinas a carvão existentes nos Estados Unidos e em muitos sistemas de energia da Europa foram consideravelmente menores do que os das usinas a gás na maior parte de 2021, mostra o levantamento.

A mudança de gás para carvão aumentou as emissões globais de CO2 da geração de eletricidade em mais de 100 milhões de toneladas, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, onde a concorrência entre as usinas a gás e a carvão é mais acirrada.

O carvão foi responsável por mais de 40% do crescimento geral das emissões globais de CO2 em 2021, atingindo um recorde histórico de 15,3 bilhões de toneladas.

As emissões de CO2 do gás natural se recuperaram bem acima dos níveis de 2019, para 7,5 bilhões de toneladas.

Com 10,7 bilhões de toneladas, as emissões de CO2 do petróleo permaneceram significativamente abaixo dos níveis pré-pandemia devido à recuperação limitada da atividade global de transporte em 2021, principalmente no setor de aviação.

De acordo com a IEA, a recuperação das emissões globais de CO2 acima dos níveis pré-pandemia foi em grande parte impulsionada pela China, onde aumentaram 750 milhões de toneladas entre 2019 e 2021.

Única grande economia a experimentar crescimento econômico em 2020 e 2021, a China teve um aumento de emissões nesses últimos dois anos capazes de compensar o declínio agregado no resto do mundo no mesmo período.

Somente em 2021, as emissões de CO2 da China subiram acima de 11,9 bilhões de toneladas, representando 33% do total global.

A demanda por eletricidade apoiada no carvão foi o principal fator.

Rápido crescimento do PIB e eletrificação adicional dos serviços de energia levaram a demanda de eletricidade na China a um crescimento de 10% em 2021 — acima do crescimento econômico de 8,4%.

O aumento na demanda de quase 700 TWh foi o maior já registrado no país.

“Com o crescimento da demanda superando o aumento da oferta de fontes de baixas emissões, o carvão foi usado para atender mais da metade do aumento da demanda de eletricidade. Isso ocorreu apesar do país também ter visto seu maior aumento na produção de energia renovável em 2021”, completa a IEA.

Emissões de CO2 na Índia também se recuperaram fortemente em 2021 puxadas pelo carvão na geração elétrica. E superaram os níveis de 2019.

Em um recorde histórico, elas saltaram 13% acima do nível de 2020. “Isso ocorreu em parte porque o crescimento das energias renováveis desacelerou para um terço da taxa média observada nos cinco anos anteriores”, explica o relatório.

Recuperação foi menos acentuada em países ricos

A produção econômica global nas economias avançadas se recuperou para níveis pré-pandemia em 2021, mas as emissões de CO2 se recuperaram de forma menos acentuada, o que, na avaliação da agência internacional, sinaliza “uma trajetória mais permanente de declínio estrutural”.

As emissões de CO2 nos Estados Unidos em 2021 ficaram 4% abaixo do nível de 2019. Na União Europeia, foram 2,4% menores. No Japão, as emissões caíram 3,7% em 2020 e se recuperaram menos de 1% em 2021.

Em uma base per capita, as emissões de CO2 nas economias avançadas caíram para 8,2 toneladas em média e agora estão abaixo da média de 8,4 toneladas na China, embora grandes diferenças permaneçam entre as economias avançadas.

Apesar da recuperação no uso do carvão, fontes de energia renovável e nuclear forneceram uma parcela maior da geração global de eletricidade do que o carvão em 2021.

A geração baseada em renováveis ultrapassou 8.000 TWh (terawatts-hora) em 2021, um recorde de 500 TWh acima do nível de 2020.

Eólica e solar tiveram crescimentos de 270 TWh e 170 TWh, respectivamente, enquanto a geração hídrica diminuiu devido aos impactos da seca, principalmente nos Estados Unidos e no Brasil. (epbr)

Floresta amazônica já perde capacidade de recuperação

Para cerca de três quartos da floresta, a capacidade de se recuperar de perturbações vem diminuindo desde o início dos anos 2000.

A floresta amazônica provavelmente está perdendo resiliência, sugere a análise de dados de imagens de satélite de alta resolução. Isso se deve ao estresse de uma combinação de extração de madeira e queimadas – a influência da mudança climática causada pelo homem não é claramente determinável até agora, mas provavelmente será muito importante no futuro.

Para cerca de ¾ da floresta, a capacidade de se recuperar de perturbações vem diminuindo desde o início dos anos 2000, o que os cientistas veem como um sinal de alerta. A nova evidência é derivada de análise estatística avançada de dados de satélite de mudanças na biomassa e produtividade da vegetação.

“Resistência reduzida – a capacidade de se recuperar de perturbações como secas ou incêndios – pode significar um risco aumentado de morte da floresta amazônica. É preocupante ver tal perda de resiliência em observações”, diz Niklas Boers, do Instituto Potsdam para Impacto Climático. Research e da Universidade Técnica de Munique, que conduziu o estudo em conjunto com pesquisadores da Universidade de Exeter, no Reino Unido.

“A floresta amazônica abriga uma variedade única de biodiversidade, influencia fortemente as chuvas em toda a América do Sul por meio de sua enorme evapotranspiração e armazena enormes quantidades de carbono que podem ser liberados como gases de efeito estufa no caso de morte parcial, em por sua vez, contribuindo para o aquecimento global”, explica Boers. “É por isso que a floresta tropical é de relevância global”.

A Amazônia é considerada um potencial elemento de tombamento no sistema Terra e diversos estudos revelaram sua vulnerabilidade. “No entanto, estudos de simulação de computador de seu futuro produzem uma grande variedade de resultados”, diz Boers. “Portanto, estamos analisando dados observacionais específicos em busca de sinais de mudanças de resiliência durante as últimas décadas. Vemos uma diminuição contínua da resiliência da floresta tropical desde o início dos anos 2000, mas não podemos dizer quando uma transição potencial de floresta tropical para savana pode acontecer. ser observável, provavelmente seria tarde demais para pará-lo.” A pesquisa faz parte do projeto “Tipping Points in the Earth System” /TIPES financiado pelo programa Horizon 2020 da União Europeia.

A equipe do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático e do Instituto de Sistemas Globais da Universidade de Exeter usou indicadores de estabilidade que já haviam sido aplicados à camada de gelo da Groenlândia e à circulação do Atlântico. Esses indicadores estatísticos visam prever a aproximação de um sistema em direção a uma mudança abrupta, identificando uma desaceleração crítica da dinâmica do sistema, por exemplo, sua reação à variabilidade climática. A análise de dois conjuntos de dados de satélite, representando a biomassa e o verde da floresta, revelou a desaceleração crítica. Essa desaceleração crítica pode ser vista como um enfraquecimento das forças restauradoras que geralmente trazem o sistema de volta ao equilíbrio após perturbações.

75% da Amazônia estão perdendo a capacidade de recuperar da seca, tornando-se uma savana irreversível, diz pesquisa.

“Um sistema pode parecer estável se considerarmos apenas seu estado médio”

“Embora um sistema possa parecer estável se considerarmos apenas seu estado médio, examinar mais de perto os dados com métodos estatísticos inovadores pode revelar perda de resiliência”, diz Chris Boulton, do Instituto de Sistemas Globais da Universidade de Exeter. “Estudos anteriores baseados em computador as simulações indicaram que grandes partes da Amazônia podem estar comprometidas com a extinção antes de mostrar uma forte mudança no estado médio. Nossa análise observacional agora mostra que, em muitas áreas, a desestabilização já parece estar em andamento.”

Para tentar determinar as causas da perda de resiliência que os cientistas encontram nos dados, eles exploraram a relação com as chuvas em uma determinada área da Amazônia, culminando em três eventos de seca ‘uma vez por século’ na região. As áreas mais secas acabam por estar mais em risco do que as mais húmidas. “Isso é alarmante, pois os modelos do IPCC projetam uma seca geral da região amazônica em resposta ao aquecimento global antropogênico”, diz Boers. Outro fator é a distância de uma área para estradas e assentamentos de onde as pessoas podem acessar a floresta. Os dados confirmam que as áreas próximas ao uso humano da terra estão mais ameaçadas.

“Nossa nova análise de dados empíricos traz evidências adicionais para as preocupações sobre a resiliência da floresta, especialmente no futuro próximo”, diz Tim Lenton, diretor do Global Systems Institute. “Isso confirma que limitar fortemente a extração de madeira, mas também limitar as emissões globais de gases de efeito estufa é necessário para proteger a Amazônia”.

a) Um mapa dos valores de Kendall t de células individuais da grade de 2003.

b) Histograma dos valores de Kendall t para a floresta amazônica, considerando dados de 2003 em diante. Das células da grade, 76,2% têm um valor positivo de Kendall t a partir de 2003 e 77,8% têm isso para a série temporal completa.

c) série temporal média VOD AR(1) (linha sólida) juntamente com ±1 sd (linhas pontilhadas) criadas a partir de células de grade que têm fração BL =?80% na bacia amazônica e também não contêm uso humano da terra (texto principal e Métodos). A série temporal AR(1) completa de 1991 (cinza) tem um valor Kendall t de 0,589 ( P = 0,006) e a partir de 2003 (preto), um valor de 0,913 ( P < 0,001). Observe que os valores AR(1) são plotados no final de cada janela deslizante de 5 anos. Esboços do país e da bacia amazônica, produzidos conforme descrito na Fig. 1 (ecodebate)

quarta-feira, 23 de março de 2022

Aquecimento global aumentará o risco de morte relacionada à temperatura

Termômetro de rua na Tijuca registra a onda de calor, na cidade do Rio de Janeiro.

A taxa de mortalidade ligada a temperaturas extremas aumentará significativamente sob o aquecimento global de 2°C, segundo um relatório de pesquisadores da UCL e da Universidade de Reading.

A mortalidade relacionada à temperatura, onde uma morte está diretamente ligada à temperatura climática, na Inglaterra e no País de Gales durante os dias mais quentes do ano aumentará 42% sob um cenário de aquecimento de 2°C em relação aos níveis pré-industriais.

Isso significa um aumento dos níveis atuais de cerca de 117 mortes por dia, em média nos 10 dias mais quentes do ano, para cerca de 166 mortes por dia. As descobertas sublinham a importância de manter os níveis de aquecimento global abaixo de 2°C.

Nos níveis atuais de aquecimento global de cerca de 1,21°C, vemos uma ligeira diminuição na mortalidade relacionada à temperatura no inverno e um efeito líquido mínimo no verão, o que significa que, em geral, nesse nível de aquecimento, vemos uma ligeira diminuição na taxa de mortalidade relacionada à temperatura .

No artigo, publicado na Environmental Research Letters, a equipe examinou o impacto das mudanças climáticas nas taxas de mortalidade relacionadas à temperatura na Inglaterra e no País de Gales, concentrando-se no risco de calor no verão e frio no inverno. Eles descobriram que, à medida que a temperatura média global aumenta, a mortalidade relacionada à temperatura no verão aumentará a uma taxa não linear muito mais rápida.

A taxa de aumento acelera particularmente a 2°C de aquecimento, com um risco muito maior aparecendo além de 2,5°C. Os pesquisadores dizem que o aquecimento de 3°C pode levar a um aumento de 75% no risco de mortalidade durante as ondas de calor.

Quando plotada em um gráfico, a relação entre temperatura e mortalidade é aproximadamente em forma de U, o que significa que em temperaturas extremamente altas, às quais a população não está acostumada, o risco de mortalidade aumenta acentuadamente para cada aumento de grau da temperatura média diária.

A taxa no inverno continuará a diminuir, embora isso não leve em consideração os efeitos colaterais do clima extremo – como tempestades –.

Relação explosiva: aquecimento global e doenças tropicais.

A autora principal, Katty Huang (UCL Civil, Environmental & Geomatic Engineering) disse: “O aumento do risco de mortalidade sob os níveis atuais de aquecimento é principalmente notável durante as ondas de calor, mas com mais aquecimento, veríamos o risco aumentar nos dias médios de verão, além de aumentar riscos durante as ondas de calor. O que isso significa é que não devemos esperar que tendências passadas de impacto por grau de aquecimento se apliquem no futuro. Um grau de aquecimento global acima de 2°C teria um impacto muito mais severo na saúde na Inglaterra e no País de Gales do que um grau de aquecimento em níveis pré-industriais, com implicações em como o NHS pode lidar com isso”.

Na Inglaterra e no País de Gales, a temperatura está associada a cerca de 9% da mortalidade total da população, o que significa que 9% de todas as mortes durante 2021 podem estar associadas à temperatura. A maioria dessas mortes está relacionada aos efeitos colaterais do clima frio.

A equipe analisou as projeções climáticas do Reino Unido de 2018 (UKCP18) com dados sobre temperatura e mortalidade atuais para prever mudanças na mortalidade relacionada à temperatura em relação aos graus de aquecimento global.

Para isolar os efeitos do aquecimento global no risco de mortalidade, os pesquisadores analisaram o impacto potencial para a população atual, sem levar em consideração mudanças futuras, como idade média e condições de saúde.

O professor líder do projeto Andrew Charlton-Perez (Universidade de Reading) disse: “Como o relatório do Painel Intergovernamental sobre os Impactos das Mudanças Climáticas mostrou recentemente, é cada vez mais comum examinar como diferentes níveis de aquecimento global médio aumentam o risco de danos significativos às pessoas e à sociedade. Nosso estudo mostra que, como as taxas de mortalidade aumentarão significativamente se os países experimentarem temperaturas muito altas, limitar o aumento médio global das temperaturas provavelmente trará benefícios substanciais para a saúde geral da população”.

Aumento de 0,5°C no aquecimento global causará graves doenças e diferenças drásticas nos riscos compostos de inundação e de seca.

A pesquisa foi apoiada pelo programa UK Climate Resilience, UKRI, Met Office e o National Institute for Health Research (NIHR). (ecodebate)

Frequência de eventos do El Niño deve aumentar até 2040

Anomalia da temperatura do Oceano Pacífico em dezembro de 1997, sob influência de um El Niño de forte intensidade (manchas vermelhas e brancas indicam maior temperatura).

Frequência de eventos do El Niño deve aumentar até 2040

Flutuações climáticas globais chamadas eventos El Niño provavelmente se tornarão mais frequentes até 2040, mostra um novo estudo.

El Niño – o aquecimento incomum das águas superficiais no leste do Oceano Pacífico tropical – afeta o clima, os ecossistemas e as sociedades em todo o mundo.

O estudo examinou quatro cenários possíveis para futuras emissões de carbono e encontrou um risco aumentado de eventos El Niño em todos os quatro.

“Isso significa que os eventos do El Niño e os extremos climáticos associados agora são mais prováveis, independentemente de quaisquer ações de mitigação significativas” para reduzir as emissões, alertam os pesquisadores.

O autor principal Dr Jun Ying, do Segundo Instituto de Oceanografia, Ministério de Recursos Naturais da China e da Universidade de Exeter, disse: “Sabemos de estudos anteriores que, ao medir as mudanças do El Niño em termos de mudanças de chuva no Pacífico equatorial, os modelos preveem um aumento na frequência de eventos”.

“Este estudo mostra que essas mudanças podem acontecer após as próximas duas décadas.”

O estudo, publicado na Nature Climate Change, examina o “tempo de surgimento” das mudanças no Pacífico tropical usando modelos climáticos de última geração.

O tempo de emergência é definido como quando o sinal da mudança climática emerge do ruído de fundo usual da variabilidade climática natural.

Ao observar as mudanças nos padrões de chuva do El Niño, a melhor estimativa do tempo de surgimento das mudanças converge em 2040 em todos os quatro cenários de emissões considerados.

O coautor Professor Mat Collins, da Universidade de Exeter e parte do Global Systems Institute, acrescentou: “O que nos surpreendeu é que as mudanças surgem independentemente do cenário que observamos.

“Como a chuva nos trópicos está associada às temperaturas mais quentes da superfície do mar (SSTs), são as mudanças relativas na SST que são mais importantes do que a mudança absoluta”.

“Isso nos leva à conclusão bastante clara de que essas mudanças são essencialmente inevitáveis”.

O estudo “Emergence of Climate Change in the Tropical Pacific” foi realizado pelo Dr. Ying como parte de uma visita patrocinada pelo Conselho de Bolsas Chinesas de um ano à Universidade de Exeter. (ecodebate)

Desmatamento reduz a diversidade de peixes em riachos na Amazônia

Espécies mais sensíveis à mudança no hábitat estão aos poucos sendo substituídas por outras mais resistentes, indica estudo da UNESP. Fenômeno acarreta a perda das funções ecológicas desempenhadas pelos animais que desaparecem (peixe da espécie Denticetopsis epa, ou bagrinho)

A substituição de floresta por pastagens e lavouras está afetando diretamente os peixes da Amazônia.

Em estudo publicado na revista Neotropical Ichthyology, pesquisadores do Brasil, da Colômbia e dos Estados Unidos mostraram que um processo semelhante ao ocorrido ao longo de décadas em áreas com longa história de desmatamento, como o Estado de São Paulo, se repete agora em Rondônia, no chamado Arco do Desmatamento, onde a derrubada da mata é recente.

Peixes sensíveis a alterações no ambiente estão sendo paulatinamente substituídos por poucas espécies mais resistentes aos impactos. Além da perda de biodiversidade, o fenômeno acarreta uma perda de funções ecológicas exercidas pelos peixes que desaparecem.

“Existe uma hipótese dentro da ecologia de que os vertebrados terrestres suportariam até 60% de perda de hábitat antes de entrar em processo de declínio populacional e, em seguida, de extinção local. Estudando peixes de riachos, verificamos que parte das espécies suporta apenas 10% de perda de hábitat e suas populações começam a declinar em menos de dez anos após o início do desmatamento. Outras, porém, são beneficiadas com perdas de mais de 70% do hábitat”, conta Gabriel Brejão, primeiro autor do estudo, que foi conduzido durante um estágio de pós-doutorado no Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista (IBILCE-UNESP), em São José do Rio Preto.

Os resultados são baseados em dados coletados em 75 riachos com diferentes graus de preservação na bacia do rio Machado, um dos tributários do Madeira. Para avaliar o histórico de desmatamento das áreas, os pesquisadores consultaram imagens de satélite da região feitas entre 1984 e 2011.

“A partir dos dados históricos, separamos as áreas em bacias que nunca passaram por mudança, as que sofreram desmatamento há muito tempo e as de degradação recente. Observamos que, onde o desmatamento é recente, a taxa de substituição de espécies [mais sensíveis por mais resistentes] era mais alta do que nas áreas florestadas e nas de desflorestamento antigo”, explica.

Parte das coletas e análises do trabalho foi realizada pelo pesquisador ainda durante o doutorado, na mesma instituição, com bolsa da FAPESP.

Desmatamento reduz tamanho de peixes em Região Amazônica.

O trabalho é um dos resultados do projeto “Peixes de riachos de terra firme da Bacia do Rio Machado, RO”, financiado pela FAPESP e coordenado por Lilian Casatti, professora do IBILCE-UNESP.

A investigação também foi apoiada por meio de projeto coordenado por Silvio Ferraz, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ-USP) e coautor do artigo.

Oeste paulista e oeste amazônico

Casatti conta que seu grupo sempre trabalhou com peixes de riachos no Estado de São Paulo, que tem um histórico de mais de 200 anos de uso intenso do solo e de substituição da floresta por lavouras e criações de gado.

“Queria saber como seriam os riachos em um lugar não tão alterado, pelo menos não há tanto tempo. Mas quando chegamos a alguns pontos de Rondônia parecia que não tínhamos saído do oeste paulista, tamanho era o assoreamento, o desmatamento das margens, o capim invadindo o meio aquático”, lembra Casatti, que coordenou o estudo.

Os riachos são especialmente sensíveis ao desmatamento. Usados como local de reprodução e berçário de espécies que podem depois migrar para os rios, esses corpos d’água também aportam diferentes nutrientes da floresta para os rios. No que tange às comunidades de peixes que vivem neles, uma floresta degradada traz vários impactos.

Além do assoreamento, que é a deposição de partículas de solo no fundo dos riachos, diminuindo sua profundidade, a diminuição ou retirada da cobertura florestal permite ainda a entrada de mais radiação solar, que aumenta o crescimento de plantas aquáticas indesejáveis para algumas espécies e eleva a temperatura da água.

Menos frutos, folhas e insetos que servem de alimento para os peixes se fazem presentes, além de galhos e troncos que servem de abrigo e até mesmo modulam a acidez da água, outro fator que pode determinar a presença ou ausência de certas espécies e das funções ecológicas que desempenham.

“Ao perder espécies de cascudos que raspam troncos que caem na água, por exemplo, pode-se perder processamento de matéria orgânica. A perda de peixes insetívoros pode aumentar a quantidade de insetos que transmitem doenças. Peixes carnívoros, como traíras e dourados, exercem uma pressão em espécies mais basais que podem se reproduzir descontroladamente sem os predadores. A qualidade do hábitat tem papel muito importante para manter não apenas uma diversidade de espécies, mas de funções ecológicas”, explica Casatti.

Desmatamento esquenta riachos e encolhe peixes na Amazônia.

“Nossos resultados indicam que nas áreas de desmatamento mais recente há um conjunto de espécies grande o suficiente para reverter a perda de funções. O que não quer dizer que necessariamente vá se repetir em Rondônia o que aconteceu em São Paulo. Talvez seja um sinal de que em processos iniciais de desmatamento exista um ‘tampão’ de diversidade que está retendo a perda de funções. Não sabemos até quando”, conclui Brejão. (ecodebate)

segunda-feira, 21 de março de 2022

A Índia com fecundidade abaixo da reposição

“Precisamos nos preocupar com a explosão populacional” - Narendra Modi, 15/08/2019.
A Índia está na iminência de ultrapassar a China e se tornar o país mais populoso do mundo. Mas a novidade é que a Taxa de Fecundidade Total (TFT) indiana caiu abaixo do nível de reposição, o que vai ter um grande impacto na dinâmica demográfica nas próximas décadas.

Segundo as projeções da Divisão de População da ONU (revisão 2019) a população da Índia era de 1,056 bilhão de habitantes em 2000 e passou para 1,38 bilhão em 2020, um aumento de 323 milhões. No mesmo período, a China passou de 1,29 bilhão de habitantes para 1,43 bilhão, um aumento de 148 milhões de habitantes em 20 anos. Portanto, a Índia cresceu mais do dobro do crescimento chinês de 2000 a 2020.

O gráfico abaixo mostra as projeções da ONU até 2100 (feitas antes da pandemia da covid-19) e já mostravam que a China vai ter decrescimento populacional ainda na década de 2021-30 e a Índia manteria o crescimento populacional até a década de 2060 – com uma população de mais de 1,6 bilhão de habitantes, para depois apresentar decrescimento populacional nas últimas décadas do século. Em 2100 a população da Índia seria de 1,4 bilhão e da China de cerca de 1 bilhão de habitantes.

O gráfico abaixo, também da Divisão de População da ONU mostra que a Taxa de Fecundidade Total da Índia estava acima de 6 filhos por mulher em meados do século passado e caiu para 2,5 filhos por mulher em 2015. A estimativa é que a TFT ficaria abaixo do nível de reposição por volta de 2030. Se mantendo em cerca de 1,8 filhos por mulher na segunda metade do século XXI.

Segundo a pesquisa National Family Health Survey (NFHS) de 2019-21 a Taxa de Fertilidade Total (TFR) da Índia caiu abaixo de 2,0 pela primeira vez. A TFT segundo a NFHS de 2005-06 foi de 2,7 filhos por mulher e na NFHS de 2,2 filhos por mulher. A transição da fecundidade de 6 filhos para 2 filhos gastou cerca de 60 anos na Índia e menos de 30 anos na China (e cerca de 35 anos no Brasil). De qualquer forma, a queda da fecundidade foi maior do que se previa e a população da Índia pode começar a diminuir antes do meio do atual século. A pandemia da covid-19 teve um efeito na queda da fecundidade, mas o fim da pandemia não deve trazer de volta a TFT para patamares superiores ao nível de reposição.

A queda da TFT na Índia é uma boa notícia, pois o país já tem uma densidade demográfica muito alta, além de seríssimos problemas ambientais como a falta de água potável para o consumo humano direto e para a produção de alimentos, a poluição generalizada das águas, do solo e a poluição do ar. A Índia também é grande emissora de gases de efeito estufa, já ultrapassou os EUA em emissões por área e só emite menos do que a China. Com menos pessoas a Índia vai poder investir mais na redução da pobreza, na restauração ambiental e na redução da pegada ecológica total. (ecodebate)

El Niño leva aquecimento dos oceanos a território desconhecido

El Niño excepcionalmente forte impulsiona aquecimento global dos oceanos e leva temperatura média da superfície do mar ao maior valor já reg...