Pantanal perdeu cerca de 80%
de sua água superficial nos últimos 40 anos, mostra estudo da Unesp.
Um estudo realizado por
pesquisadores da Unesp em parceria com outros colegas brasileiros, entretanto,
reforça o estado crítico dos corpos d’água localizados no bioma, que há décadas
vem apresentando um declínio contínuo e acentuado. Segundo o artigo publicado
na revista Advances in Space Research, o Pantanal perdeu cerca de 80% de sua
água superficial desde 1985, e o regime atual de precipitações não está dando
conta de repor o estoque hídrico da região.
Os pesquisadores apontam a
mudança no uso da terra decorrente das atividades humanas e as mudanças
climáticas como responsáveis pela variabilidade hídrica negativa das últimas
décadas. Segundo o engenheiro florestal Sérvio Túlio Pereira Justino, um dos
autores do artigo, esse é o maior trabalho sobre o tema já realizado no
Pantanal, pois abrange as mudanças ocorridas nas águas superficiais localizadas
na parte brasileira do bioma ao longo das últimas quatro décadas. “Nosso
diferencial foi o tamanho da área em que trabalhamos, o período abrangido – de
1985 a 2023 –, e também os quatro índices espectrais utilizados para chegar aos
resultados”, relata Justino, que é doutor pelo Programa de Pós-graduação em
Ciência Florestal da Faculdade de Ciências Agrárias (FCA) da Unesp, no campus
de Botucatu.
Os índices espectrais que o
autor menciona como diferenciais da pesquisa são fórmulas matemáticas aplicadas
a imagens de satélite que, neste trabalho, exploram diferentes valores de
reflectância para diferenciar os corpos d’água de outros elementos na
superfície da terra. Por meio das imagens registradas ao longo das últimas
décadas e dos índices, os cientistas conseguiram obter informações sobre a
variabilidade dos corpos d’água do Pantanal ao longo do período.
Índices mostram dinâmica das
águas superficiais e das chuvas
As imagens obtidas pelos
cientistas remetem aos anos de 1985, 1990, 1995, 2000, 2005, 2010, 2015, 2020 e
2023. Para cada ano, foram gerados quatro mapas, com base nos quatro índices
utilizados na pesquisa: Índice de Água por Diferença Normalizada (NDWI); Índice
de Água por Diferença Normalizada Modificada (MNDWI); Índice de Proporção de
Água (WRI); e Índice Automatizado de Extração de Água (AWEI). A equipe somou,
ao final, 36 mapas que indicavam as variações espaço-temporais em corpos d’água
superficiais no Pantanal brasileiro.
Cada índice tem um cálculo
próprio e um espectro de imagens necessário para obter seus resultados. “Todos
os índices que utilizamos geraram resultados positivos em relação a detecção de
águas superficiais. Mas para chegar a esses resultados fizemos ainda uma
análise de precisão desses índices”, comenta Justino. Para isso, os cientistas
utilizaram as imagens dos diversos anos e, manualmente, fixaram pontos marcando
os corpos d’água. Os pesquisadores então aplicaram um software para cruzar os
dados do trabalho com os pontos marcados no mapa e confirmaram os resultados.
Todo o trabalho levou cerca de um ano para ser finalizado.
Além dos índices já
mencionados para medir a variabilidade hídrica nos corpos d’água, os autores do
trabalho também aplicaram três outras fórmulas para obter informações sobre a variabilidade
espaço-temporal das chuvas no Pantanal. Para isso, foram utilizados o Índice de
Umidade por Diferença Normalizada (NDMI); o Índice de Concentração de
Precipitação (ICP); e o Índice de Anomalia Padronizada (SAI).
Enquanto o NDMI também usa imagens espectrais de satélite para analisar a variação da umidade no período, o ICP e o SAI são elaborados a partir de informações do Climate Hazards Group InfraRed Precipitation with Station data (CHIRPS), um projeto da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, nos Estados Unidos, que fornece dados de precipitação de quase todo o planeta em séries temporais desde 1981.
Uso sustentável da água e do solo é tarefa prioritária
Ao final, os quatro índices
espectrais (NDWI, MNDWI, WRI e AWEI) mostraram uma redução na área superficial
da água, nos últimos 40 anos, em intensidades que variam entre 69,6% e 81,4% a
depender do índice. Em complemento aos índices que analisaram principalmente a
variação da água superficial, os três índices focados na umidade e precipitação
(NDMI, ICP e SAI) apontaram um declínio progressivo na vegetação e na umidade
do solo, bem como um aumento na frequência e na intensidade dos eventos de seca
no bioma, e maior irregularidade na distribuição de chuvas ao longo das últimas
quatro décadas.
Segundo Justino, além das
mudanças climáticas, que têm levado a uma diminuição dos níveis de precipitação
e tornado as chuvas insuficientes para repor o ciclo hidrológico do Pantanal,
existem outros fatores que intensificam a redução da área ocupada por corpos
d’água, como as mudanças no uso do solo, com a construção de barragens ou a
expansão da agricultura e da pecuária. “Uma área que antes seria alagável, hoje
é uma área de pastagem”, relata.
A diminuição da água superficial causa impactos negativos em toda a biodiversidade do bioma, alerta o pesquisador, que usa a cadeia alimentar como exemplo. “Se a redução das águas superficiais afetar o peixe, ela irá afetar os animais que se alimentam do peixe. A onça é um animal que necessita da água para caçar e se alimentar. A redução dessa área com água também diminui seu habitat”, explica.
O autor aborda ainda a questão dos ribeirinhos que vivem da pesca e do turismo ecológico e a situação de comunidades indígenas que ocupam as reservas pantaneiras. “As pessoas que vivem ali provavelmente não vão conseguir continuar ocupando aquele espaço porque não terão mais fontes de renda”, complementa.
Justinof ressalta a
importância de haver, no Pantanal, um manejo sustentável do uso da água e da
terra. No curto prazo, deve-se realizar um monitoramento contínuo para
identificar as áreas mais afetadas e também a causa do problema. A agricultura,
por exemplo, afeta o território ao reduzi-lo a plantações e causa ainda a
contaminação das águas devido ao uso de defensivos agrícolas, tornando-se
imprescindível uma mudança. Os ribeirinhos, sem fonte de renda, acabam
ingressando em serviços prejudiciais ao bioma, como o desmatamento. “É preciso
realizar uma gestão que diminua esses impactos e inclua essas comunidades na
conservação do Pantanal, uma vez que, como moradores, eles são os principais
afetados”.
Ao analisar 4 décadas de dados de imagens de satélite e do regime de precipitação, a conclusão é que o bioma, considerado a maior área úmida do planeta, vive um processo claro de perda de água que sustenta sua rica biodiversidade e realiza serviços ecossistêmicos essenciais. “O Pantanal está num ponto em que ele precisa urgentemente de ajuda. Se continuarmos nesse mesmo ritmo, infelizmente não teremos mais o bioma daqui 40 ou 50 anos”, afirma Justino.
Balsa transportando um caminhão faz a travessia do Rio Paraguai, na cidade de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. (jornal.unesp.br)





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