quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Mudança climática afetará saúde humana nos trópicos

A mudança climática será amplificada nos dias mais quentes nas regiões tropicais, causando graves impactos à saúde humana, concluiu uma nova pesquisa da Universidade de St Andrews.
O artigo, publicado na Nature Geoscience prevê que, nos trópicos, os dias quentes aquecerão substancialmente mais do que a média dos dias.

Por exemplo, espera-se que os cinco por cento dos dias mais quentes aqueçam 20 por cento mais do que em um dia normal. Este aquecimento amplificado de temperaturas extremas terá impactos severos na saúde humana, ecossistemas e incêndios florestais em grandes partes da África, Ásia e Américas.

O autor do estudo, Dr. Michael Byrne, da Escola de Ciências da Terra e Ambientais da Universidade de St Andrews, usa conceitos da dinâmica atmosférica para explicar o aquecimento acelerado em dias quentes.

Em particular, ele mostra que dois aspectos do clima tropical – a saber, tempestades frequentes e a fraca influência da rotação da Terra – controlam como os dias quentes respondem a um clima em mudança.

Mudança de temperatura para os 5% mais quentes dos dias em relação à média

O Dr. Byrne disse: “Este artigo apresenta uma teoria simples para compreender os processos que determinam as temperaturas extremas em terras tropicais”.

“Segundo a teoria, o aquecimento é ampliado nos dias quentes porque esses dias são secos: isso é denominado mecanismo ‘mais seco fica mais quente’”.

'Tanto os políticos quanto a população em geral devem entender que todos os elementos do sistema terrestre estão interligados', diz o cientista brasileiro.

Como tragédia climática ‘dominó’ pode ter efeito irreversível da Amazônia à Groenlândia.

“Esta teoria preenche uma lacuna importante na nossa compreensão do clima tropical e das ondas de calor e espero que o estudo incentive novas pesquisas, usando a teoria, bem como modelos e observações climáticas, para expandir a compreensão das condições meteorológicas extremas nos trópicos e além”. (ecodebate)

Putin: crise alimentar mundial deverá se agravar

Vladimir Putin, presidente da Rússia, diz que a crise alimentar mundial deverá se agravar.
Putin: atual situação mundial é resultado da Guerra Fria

O presidente russo Vladimir Putin referiu os problemas mundiais existentes, dizendo que as abordagens atuais têm sido insuficientes para os resolver.

Vladimir Putin, presidente da Rússia, disse em 21/10/21 que ainda não foi possível obter a base de apoio para um novo equilíbrio no mundo e que os países "vencedores do Olimpo" percebem que estão perdendo terreno.

Em declarações no Clube Valdai de Discussões Internacionais em Moscou, Rússia, ele observou que a humanidade entrou em um novo período há mais de três décadas, quando começou a busca por um novo equilíbrio, por relações sustentáveis nas esferas social, política, econômica, cultural e militar, e por uma base de apoio para o sistema mundial.

"Estávamos procurando esta base de apoio, mas devo reconhecer que ainda não a conseguimos obter, enquanto aqueles que após o fim da Guerra Fria [...] se sentiram vitoriosos, logo sentiram, apesar de pensarem que tinham subido ao próprio Olimpo, logo sentiram que também neste Olimpo agora é debaixo de seus pés que o chão está fugindo, e ninguém pode parar o momento, por mais bonito que pareça", disse ele.

"A história política ainda não conhece exemplos de uma ordem mundial estável ter sido estabelecida sem uma grande guerra e sem ser com base em seus resultados, como aconteceu após a Segunda Guerra Mundial. Portanto, temos uma oportunidade de estabelecer um precedente extremamente favorável. A tentativa de fazê-lo após a Guerra Fria com base na dominação ocidental, como vemos, não obteve sucesso. O estado atual do mundo é um produto desse fracasso. Devemos tirar lições disso", apontou Putin.

Experiência dos países pobres

De acordo com o chefe de Estado da Rússia, a pobreza nos países menos desenvolvidos leva a sentimentos negativos de falta de perspectivas.

"Sem mencionar os problemas de pobreza, alto nível de desemprego ou ausência de cuidados de saúde adequados. Tudo isso é muito sentido nos países atrasados, que estão perdendo a fé na perspectiva de alcançar os líderes, a frustração alimenta a agressão, empurra as pessoas para as fileiras dos extremistas", referiu Vladimir Putin.

As pessoas nesses países têm uma crescente "sensação de expectativas infundadas e não concretizadas", um sentimento de falta de quaisquer perspectivas na vida, não só para si mesmas, mas também para seus filhos.

Famílias afegãs, em fuga da violência, sentam-se com seus pertences enquanto se preparam para retornar a suas províncias, em um abrigo improvisado no parque Shahr-e Naw em Cabul, Afeganistão em 04/10/2021.

"Isso é o que leva à busca de uma vida melhor, à migração descontrolada, que por sua vez cria bases para o descontentamento social em países já mais prósperos", adicionou o presidente da Rússia.

Em relação ao Afeganistão, é importante que a Rússia e a China tenham um Estado estável e em desenvolvimento perto de suas fronteiras, e há trabalho ativo nesse sentido, mencionou o presidente russo.

"Esta questão é uma das mais urgentes no momento, a situação no Afeganistão. Você sabe que acabamos de realizar uma reunião em formato apropriado, inclusive com representantes do Talibã [organização terrorista proibida na Rússia e em vários outros países]. A República Popular da China está trabalhando muito ativamente no Afeganistão", explicou ele.

Segundo o alto responsável da Rússia, a situação no Afeganistão é muito grave, tanto para a Rússia quanto para a China.

"É importante ter perto de nossas fronteiras nacionais uma calma e um Afeganistão em desenvolvimento que não seja uma fonte de terrorismo, radicalismo de todos os tipos", defendeu.

Relações dos grandes poderes

Sobre a relação entre Pequim e Moscou, Putin indicou que "já falamos muitas vezes sobre isso".

"Não somos amigos da China contra ninguém, mas no interesse um do outro, primeiro. Em segundo lugar, ao contrário da OTAN, ao contrário dos países da OTAN, nós não criamos nenhum bloco militar fechado. Não existe um bloco militar Rússia-China, e também não estamos buscando tal objetivo no momento. Portanto, não há base para esta discussão", concluiu.

Putin respondeu também à visita de Lloyd Austin, secretário de Defesa dos EUA, a Kiev, Ucrânia, algo que, segundo ele, essencialmente abre as portas da OTAN ao país.

Austin chegou a comunicar que os países terceiros não têm direito de vetar a adesão da Ucrânia à OTAN, com Washington apoiando Kiev em suas aspirações.

"Aqui vem o ministro da defesa que, de fato, abre a porta para a Ucrânia aderir à OTAN, de fato, sua declaração deve e pode ser interpretada dessa forma", disse, denunciando a possibilidade de mísseis serem colocados no país vizinho.

"Quanto às bases, conheço bem a disposição constitucional relevante da Ucrânia. Ninguém proíbe os centros de treinamento. Tudo pode ser colocado sob o rótulo dos centros de treinamento, e, como eu já disse, também foi referido publicamente. Amanhã haverá mísseis perto de Carcóvia, o que podemos fazer a respeito disso? Não somos nós que entramos lá com nossos próprios mísseis, eles os enfiam debaixo do nosso nariz. É claro que isto é um problema", constatou o líder russo.

Estados como solução

Segundo o presidente russo, apenas Estados soberanos são capazes de responder às necessidades dos cidadãos e aos desafios, acrescentando que qualquer ordem internacional eficaz deve ter em consideração os interesses e as capacidades dos Estados, partir daí, em vez de tentar provar que eles não devem existir.

Passageiros usam máscaras enquanto viajam no sistema do metrô de Londres, em meio à pandemia da doença do coronavírus (COVID-19), em Londres, Reino Unido em 20/10/2021.

"É importante notar outra coisa: a pandemia, que em teoria deveria unir as pessoas em torno de uma ameaça comum em grande escala, tornou-se um fator de divisão em vez de ser um fator unificador. Há muitas razões para isso, mas uma das principais razões é que a solução do problema tem sido procurada em esquemas habituais: diversos, mas habituais", declarou.

"Eles justamente não funcionam. Mais precisamente, eles funcionam, mas muitas vezes ao contrário, piorando a situação. A propósito, a Rússia tem apelado repetidamente, e vou repetir este apelo agora: precisamos deixar de lado as ambições equivocadas e trabalhar juntos e em cooperação", falou.

Assim, a dominação ocidental nos assuntos mundiais está dando lugar a um sistema muito mais diversificado, comentou.

"A mudança na distribuição de forças implica uma redistribuição de cotas-partes em favor daqueles países em crescimento e em desenvolvimento que até agora se sentiam excluídos. Dito de forma direta, o domínio ocidental nos assuntos mundiais, que começou há vários séculos e se tornou quase absoluto por um breve período no final do século XX, está dando lugar a um sistema muito mais diversificado."

Mudança no sistema mundial

A solução global para os problemas existentes envolveria uma transferência da soberania para estruturas supranacionais para a qual ninguém está preparado, porque será preciso responder pelos resultados da política perante os seus cidadãos, e não perante uma comunidade internacional "desconhecida", afirmou Putin.

"Estamos bem conscientes de que sem uma estreita cooperação internacional é impossível resolver muitos dos problemas graves", disse, acrescentando que é preciso ser realista e entender que a maioria dos belos slogans sobre soluções globais para problemas globais, "que temos ouvido desde o final do século XX, nunca serão realizados".

Ao mesmo tempo, o chefe de Estado expressou a ideia de que não há "receitas prontas" para substituir o atual modelo do capitalismo.

Placa da Wall Street no exterior da Bolsa de Nova York, EUA em 19/07/2021.

O presidente russo criticou ainda a "fantasmagoria" no Ocidente envolvendo a discussão sobre os direitos dos homens e das mulheres.

"A discussão sobre os direitos dos homens e das mulheres em vários países ocidentais se transformou em uma completa fantasmagoria. Cuidado, vocês ainda chegarão ao ponto em que os bolcheviques [após a Revolução de Outubro na Rússia em 1917] propunham não apenas tornar as galinhas comunitárias, mas também tornar as mulheres comunitárias. Mais um passo, e vocês chegarão lá", assinalou Putin.

"Os zelotes das novas abordagens chegam ao ponto de querer abolir esses próprios conceitos. Aqueles que arriscam dizer que os homens e mulheres existem, e que isso é um fato biológico, são quase ostracizados" em países ocidentais. (sputniknews)

Crise hídrica é o preço que pagamos pelo desmatamento

Para especialista do ITA, momento crítico era anunciado. Reverter o problema exige aprender com o passado e pensar em soluções também para o longo prazo.
Hidrelétrica de Itumbiara: estamos vivendo uma crise hídrica que, pela nossa matriz energética ser muito dependente das hidrelétricas, também significa uma crise energética.

Estamos vivendo uma crise hídrica e energética sem precedentes. A bandeira vermelha já virou o “novo normal” e os especialistas não são muito otimistas quanto a possíveis novos aumentos nas contas de luz e racionamentos de água. No entanto, apesar dos constantes alertas sobre a relação inegável dessas crises com o desmatamento, a cada novo levantamento, a área desmatada da Amazônia, maior floresta tropical do mundo, só cresce. Os últimos estudos alertam, inclusive, para o risco de ela virar uma savana. A falta de chuvas é apenas uma consequência disso.

“Precisamos lembrar que essa é uma crise anunciada”, afirma o professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Wilson Cabral, que participou do novo episódio do podcast Infraestrutura Sustentável, que voltou a tratar do assunto. O especialista afirma não ter dúvidas de que esse já é o preço que estamos pagando pelo desmatamento. “Eu não diria só da Amazônia, mas a degradação de ecossistemas de forma generalizada”. Ele lembra que a Amazônia é peculiar, porque quando derrubamos a floresta estamos prejudicando também os rios voadores, cuja umidade é distribuída também para outras regiões. “Isso está relacionado com a agricultura, os níveis dos rios, o abastecimento dos reservatórios das hidrelétricas, precipitações, todos os usos possíveis e imagináveis da água”. A agricultura depende da floresta, mas, em muitos casos, tem sido a grande vilã do desmatamento, o que Wilson Cabral descreve como “um ciclo vicioso” ou “uma retroalimentação negativa”. Ele explica que à medida que a agricultura avança e o desmatamento também, a atividade cria dificuldades para ela mesma, além de para toda a sociedade.

Economia brasileira: Brasil cobra a fatura do desmatamento na conta de luz.

O que podemos fazer para reverter, ou pelo menos não piorar, essa situação num momento em que as mudanças climáticas estão cada vez mais presentes para cobrar esta conta?

O que podemos fazer para reverter, ou pelo menos não piorar, essa situação num momento em que as mudanças climáticas estão cada vez mais presentes para cobrar essa conta? Antes de responder a essa pergunta, Wilson Cabral diz que é fundamental lembrarmos porque não fizemos algo antes, o que para ele está relacionado ao fato de que, até muito pouco tempo atrás, não se pensava em longo prazo. Assim, como os efeitos do desmatamento não eram sentidos de forma tão imediata, a sociedade foi investindo em modelos de produção e consumo acelerados que nos trouxeram até aqui. “Agora não temos mais tempo a perder e as ações precisam ser emergenciais”, afirma. “O tempo urge e não há mais esse alongamento entre o tempo da causa e do efeito. Como diz a Greta Thunberg, precisamos lembrar que não há planeta B”, completa.

Acontece que o que nós fizermos hoje, para o bem ou para o mal, também vai levar um tempo para gerar resultados. Por isso mesmo, Wilson Cabral acredita que precisamos olhar para o longo prazo. Ele exemplifica: estamos vivendo uma crise hídrica que, pela nossa matriz energética ser muito dependente das hidrelétricas, também significa uma crise energética. Para lidar com o problema, o acionamento de termelétricas tem sido considerado uma boa ideia. Mas essa ação tem um efeito de retroalimentação negativo muito importante, pois aumenta o lançamento de carbono na atmosfera, intensificando o impacto climático que ajudou a gerar esses períodos de seca prolongados, que geraram a crise hídrica. Ou seja, precisamos ser mais inteligentes que isso e pensar em soluções que gerem mais co-benefícios e menos impactos sobre o próprio modelo.

A transparência na gestão dessas crises é um fato importante nesse contexto. A sociedade precisa saber a gravidade da situação e tudo o que está sendo feito, pois será ela a principal afetada por qualquer decisão. Wilson Cabral destaca que as previsões de precipitações para os próximos meses não são otimistas e medidas para isso já deveriam estar sendo tomadas agora. “Não campanhas para as pessoas tomarem menos banho, mas medidas concretas, inclusive em termos de eficiência energética e redução de consumo por outros atores (como a indústria)”, afirma. Ao mesmo tempo, precisamos investir em soluções que tenham resultados no médio e longo prazo, como fazer a restauração ecológica de bacias hídricas e zerar o desmatamento, não só da Amazônia, mas também de nossos outros biomas. Tudo isso também pede planejamento e integração de agendas, pois todos os atores precisam fazer suas partes. Se não, continuaremos vivendo a crise e contribuindo para agravá-la.

Região da Bacia do Paraná, que abrange os estados de MG, GO, MS, SP e PR.

Crise hídrica: preço do desmatamento na Amazônia é falta de chuva.

À CNN Rádio, Pedro Jacobi afirmou que, diante da crise hídrica, o risco de apagão é real. (exame)

Mudança climática afeta o comportamento animal

De acordo com um estudo referente a mais de uma centena de espécies animais, as mudanças ambientais provocadas pelo homem têm o maior impacto na atividade dos animais na exploração de seu ambiente.

Os humanos estão moldando os ambientes em um ritmo acelerado. De fato, um dos tópicos atuais de pesquisa mais importantes é a capacidade dos animais de se adaptarem às mudanças ambientais induzidas pelo homem e como essa mudança afeta a expressão das características dos animais.

Com a ajuda de dados coletados em um pouco mais de cem espécies de animais, pesquisadores da Universidade de Helsinque e da Universidade de Lancaster estudaram quais características comportamentais são mais sensíveis às mudanças ambientais induzidas pelo homem e quais mudanças no ambiente induzidas pelo homem responda com mais sensibilidade. Do maior ao menor, os grupos de organismos incluídos no estudo foram peixes, pássaros, crustáceos e mamíferos. Além disso, estavam representados insetos, anfíbios e lagartos.

Todos os traços comportamentais incluídos no estudo – agressão, atividade, ousadia, sociabilidade e exploração de seu ambiente – mudaram marcadamente devido à mudança ambiental provocada pelo homem.


Mudanças climáticas afetam a propagação inclusive de vírus.
“A maior mudança foi observada na atividade dos animais em explorar seu ambiente. Os animais têm uma forte resposta a todas as formas de mudança ambiental, mas as mudanças climáticas geraram a maior mudança no comportamento animal”, disse o pesquisador de pós-doutorado Petri Niemelä da Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais da Universidade de Helsinque.

Além da mudança climática, as outras formas de mudança ambiental induzida pelo homem incluídas na modelagem foram mudanças na concentração de dióxido de carbono e nos níveis de nutrientes, espécies exóticas e outras mudanças bióticas causadas por humanos, bem como impacto humano direto, por exemplo, urbanização ou outros distúrbios humanos.

Mudanças na atividade ou outro comportamento muitas vezes podem ser a mudança inicial em animais instigada pelas mudanças climáticas.

“A mudança comportamental pode servir como um amortecedor com o qual os animais evitam os efeitos negativos imediatos das mudanças ambientais. Por exemplo, tal mudança pode compensar o baixo sucesso reprodutivo ou aumento da mortalidade causada por mudanças ambientais. Ao mudar seu comportamento, os animais também podem obter mais informações sobre o ambiente alterado”.

Os pesquisadores da Universidade de Helsinque e da Universidade de Lancaster basearam o estudo em uma pesquisa de mais de mil publicações acadêmicas revisadas por pares, das quais os dados necessários para a análise foram coletados em um pouco mais de cem espécies de animais. O estudo foi publicado como uma publicação de acesso aberto na série internacional de periódicos OIKOS em setembro de 2021. (ecodebate)

'O que o rico come a gente encontra aqui'

'O que o rico come a gente encontra aqui': o lixo revirado em Fortaleza/CE.
Comunidade que busca comida no caminhão de lixo, em Fortaleza/CE.

O dia amanhecia quando Maria de Lourdes, 43, encostou a bicicleta na calçada em frente ao depósito de lixo de um supermercado Pão de Açúcar de Cocó, bairro nobre de Fortaleza. Atordoada, seguiu em direção ao portão de coleta. Deu uma olhada entre as brechas, colocou os braços na cintura, como sinal de desaprovação, e me perguntou: "o carro do lixo já veio?". Nem precisei responder. Logo na sequência, viu a resposta pelos sinais no chão. "Quando ele passa, deixa essa lama aqui", apontando para o chorume que tomava uma pequena parte da Rua Bento Albuquerque.

Segundos depois, Lourdes percebe a aproximação do companheiro Francisco Antônio, 38, e vai logo avisando: "A gente não tem nada hoje". O homem, que trazia uma garrafa de refrigerante e salgados para dividir com outras nove pessoas em 20/10/21, desceu da bicicleta e foi ao portão para ter certeza.

Francisco e Lourdes estão no vídeo que viralizou. Nas imagens, enquanto o homem sobe na traseira de um caminhão de lixo, em busca de carne, a mulher cata verduras e frutas nos sacos que enchem um dos tambores retirados do supermercado. O grupo aguardava o descarte do lixo desde o início da manhã de 28/09/21, mas o caminhão passou apenas por volta das 14hs.

O casal ficou sabendo do vídeo porque um dos sobrinhos de Francisco havia mostrado a ele pelo celular. Impressionados com a repercussão, não imaginavam que iriam "ficar famosos", como disseram, assim, em meio à miséria. "O que o rico come, a gente encontra aqui (no lixo) também", diz o homem.

Francisco afirma que, depois do vídeo, mais pessoas começaram a buscar alimento no local. Diz que chegam constrangidos e só se aproximam quando o caminhão estaciona. "Ninguém aqui tem prioridade, porque todos têm fome. A gente só pede para que não empurre ou puxe o tambor do outro".

Francisco e Lourdes são moradores do Vicente Pinzón, a 3 km do supermercado. Na comunidade, o alcance nacional do vídeo nas redes sociais acarretou em ações das facções criminosas para conter a presença de equipes de reportagem no local. O episódio poderia dar mais visibilidade ao bairro, que registrou assassinatos no último fim de semana.

TAB conversou com o grupo e registrou a movimentação em fotos, mas depois alguns moradores pediram para não aparecer. Eles temem a reação dos criminosos em seus bairros e uma possível retaliação do supermercado.

A tática do casal para garantir comida é chegar entre 5h e 6h. A correria por alimento nesta quarta foi em vão. Esperavam encontrar frutas e verduras descartadas do dia anterior, mas, sem nenhuma justificativa, o caminhão de lixo passou mais cedo.

A falta daqueles alimentos atinge fortemente a renda do casal. Os R$ 40 conseguidos com a venda de material reciclável em 19/10/21 terão de ser dividido entre a compra de comida e remédio para a filha mais nova de Lourdes, de 18 anos, que faz tratamento para curar uma doença nos rins. Francisco e Lourdes estão desempregados há quatro anos, período em que trabalhavam como zelador e cuidadora de idosos, respectivamente.

Sandra Maria, 57, moradora da Comunidade dos Trilhos: casa sem água nem luz elétrica por falta de pagamento.

Única chance de comer.

Sandra Maria, 57, percebeu que o carro do lixo já havia passado pelo olhar triste de Lourdes. Atravessou a rua e encostou o carrinho de supermercado — com uma bolsa seca, uma caixinha de música e uma camisa azul que encontrou pelo caminho — na parede amarela pichada com a frase, em preto, "19 milhões com fome".

Viúva muito cedo, Sandra criou os dois filhos fazendo faxinas quinzenais nos apartamentos dos ricos da região desde os 14 anos. Nos dias sem trabalho, complementava as refeições com os alimentos descartados pelos supermercados.

Sandra não consegue separar a figura de avó daquela de mãe provedora, na obrigação de alimentar também os quatro netos, cujos pais ficaram desempregados na pandemia. Sem renda, diz que, atualmente, "a única chance que a família tem de comer é retirando da lixeira".

Em setembro, com o retorno das aulas presenciais na rede pública municipal, a preocupação diminuiu um pouco. Os dois mais novos fazem as refeições na creche de tempo integral e retornam no fim da tarde. O ensino acontece com metade da turma presencial e a outra de forma remota, intercalando as semanas.

Sandra não sabe o que vai levar para o almoço. As últimas semanas estão sendo as mais difíceis, com o impedimento de retirada de alimentos nas lixeiras de outros três supermercados da região. À véspera, só conseguiu se alimentar após receber uma quentinha com feijoada e arroz, doada por uma moradora de um prédio de luxo localizado no entorno do local. Sandra havia esperado o caminhão de lixo chegar até o anoitecer. Depois das 19h, seguiu para casa.

A mulher mora numa casa de apenas um cômodo na Comunidade dos Trilhos, espremida entre muros, que divide os bairros nobres Cocó e Aldeota. O "quartinho", herdado após um dos irmãos falecer, está sem água e energia elétrica por falta de pagamento há mais de um ano. Para cozinhar e armazenar os alimentos que pega, reparte com a vizinha.

'Quando uma não tem, a outra ajuda'

A vinte metros, em uma das portas laterais que dão acesso ao supermercado, funcionários observam a movimentação do grupo. Enquanto isso, um homem trajando roupa social, com crachá da empresa, fotografa a pichação no muro feita durante a madrugada.

Uma Land Rover Discovery para enquanto Antônia Anice, 64, e Maria Luzanira, 62, atravessam a rua em passos lentos, uma segurando no braço da outra, em direção à calçada. Em agosto, Anice sofreu um acidente enquanto recolhia comida do lixo. A queda foi tão violenta que a levou a um infarto. Foi socorrida por Sandra, que a acompanhou até o Hospital do Coração de Messejana, onde Anice ficou por um mês.

Anice e Luzanira são vizinhas. Moram no mesmo beco na Comunidade dos Trilhos. As duas têm em comum a solidão. A primeira sente falta do filho que foi morar em Manaus. A outra ainda não superou a perda recente dos pais e do único irmão. A proximidade entre as amigas também serve para superar a fome. "Quando uma não tem, a outra ajuda e, assim, vai levando a vida", explica Luzanira.

Luzanira acredita que a ida das duas ao depósito de lixo do supermercado ocorrerá mais vezes por semana. Vivendo com apenas R$ 90 e R$ 150 do programa Bolsa Família, respectivamente, a renda não será suficiente para a compra dos remédios de que necessitam. "Ela tem esse problema e eu convivo com a catarata. Não tem [remédio] no posto. Não vai sobrar para comer".

(uol)

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Colapso do manto de gelo da Antártica Ocidental é inevitável

Colapso do manto de gelo da Antártica Ocidental é inevitável com aquecimento acima de 2°C.
Essas enormes plataformas de gelo retêm o gelo terrestre, mas à medida que se afinam e se rompem, essa resistência enfraquece. O gelo terrestre flui mais facilmente para o oceano, elevando o nível do mar.

A elevação do mar já está tornando os danos causados por tempestades mais caros (https://www.nature.com/articles/s41467-021-22838-1) , aumentando o impacto sobre cerca de 700 milhões de pessoas que vivem em áreas costeiras baixas sob risco de enchentes .

Os cientistas esperam que o aumento do nível do mar exacerbe os danos das tempestades e inundações costeiras durante as próximas décadas (https://www.nature.com/articles/s41598-020-67736-6) . Mas prever o quanto e com que rapidez os mares subirão neste século é difícil, principalmente por causa das incertezas sobre como o manto de gelo da Antártica se comportará.

As projeções recentes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) sobre a contribuição da Antártica para o aumento do nível do mar mostram uma sobreposição considerável entre cenários de baixa e alta emissão.

Mas em nossa nova pesquisa (https://doi.org/10.1038/s43247-021-00289-2) , mostramos que o colapso generalizado da camada de gelo da Antártica Ocidental é evitável se pudermos manter o aquecimento global abaixo da meta de Paris de 2°C.

No oeste da Antártica, o interior do manto de gelo fica sobre o leito rochoso que fica bem abaixo do nível do mar. À medida que o Oceano Antártico aquece, os cientistas temem que a camada de gelo continue a recuar, potencialmente elevando o nível do mar em vários metros (https://www.nature.com/articles/ngeo1194) .

Quando e com que rapidez esse processo pode acontecer depende de uma série de fatores que ainda são incertos.

Nossa pesquisa quantifica melhor essas incertezas e mostra que o impacto total das diferentes trajetórias de emissões na Antártica pode não ficar claro até depois de 2100. Mas as consequências das decisões que tomarmos nesta década serão sentidas por séculos.

Uma nova abordagem para projetar mudanças na Antártica

Os cientistas têm usado modelos numéricos de mantos de gelo por décadas para entender como os mantos de gelo evoluem em diferentes estados climáticos. Esses modelos são baseados em equações matemáticas que representam como as camadas de gelo fluem.

Mas, apesar dos avanços no mapeamento da topografia do leito abaixo do gelo, uma incerteza significativa permanece em termos da estrutura interna do gelo e das condições da rocha e sedimentos abaixo. Ambos afetam o fluxo de gelo.

Isso torna a previsão difícil, porque os modelos precisam se basear em uma série de suposições, que afetam a sensibilidade de uma camada de gelo modelada a um clima em mudança. Dado o número e a complexidade das equações, a execução de modelos de manto de gelo pode ser demorada e pode ser impossível levar em conta toda a incerteza.

Para superar essa limitação, pesquisadores em todo o mundo agora estão usando frequentemente “emuladores” estatísticos. Esses modelos matemáticos podem ser treinados usando resultados de modelos mais complexos de mantos de gelo e, em seguida, usados para executar milhares de cenários alternativos.

Usando centenas de simulações de modelos de mantos de gelo como dados de treinamento, desenvolvemos esse emulador para projetar a contribuição da Antártica ao nível do mar em uma ampla gama de cenários de emissões. Em seguida, executamos dezenas de milhares de emulações estatísticas para quantificar melhor as incertezas na resposta da camada de gelo ao aquecimento.

Baixas emissões evitam o afinamento da plataforma de gelo

Para garantir que nossas projeções sejam realistas, descartamos qualquer simulação que não se encaixasse nas observações de satélite da perda de gelo da Antártica nas últimas quatro décadas (https://www.pnas.org/content/116/4/1095.short).

Consideramos um cenário de baixas emissões, em que as emissões globais de carbono foram reduzidas rapidamente nas próximas décadas, e um cenário de altas emissões, em que as emissões continuaram aumentando até o final do século. Em ambos os cenários, observamos a perda contínua de gelo em áreas que já perdem massa de gelo, como a região do Mar de Amundsen, no oeste da Antártica (https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/2013GL059069).

Esses mapas da Antártica mostram a mudança projetada na espessura do gelo entre o presente e o ano 2300, para um cenário de baixas emissões (esquerda) e um cenário de altas emissões (direita), com vermelho indicando perda de gelo e azul mostrando ganho de gelo.

Para o manto de gelo como um todo, não encontramos nenhuma diferença estatisticamente significativa entre os intervalos de contribuições plausíveis para o aumento do nível do mar nos dois cenários de emissões até o ano 2116. No entanto, a taxa de aumento do nível do mar no final deste século sob altas emissões foi o dobro do cenário de baixas emissões.

Em 2300, sob altas emissões, a camada de gelo da Antártica contribuiu com mais de 1,5 m a mais para o nível do mar global do que no cenário de baixas emissões. Isso ocorre porque o manto de gelo da Antártica Ocidental entra em colapso.

O primeiro sinal de alerta de um futuro com uma contribuição de vários metros da Antártica para a elevação do nível do mar é o estreitamento generalizado das duas maiores plataformas de gelo flutuantes da Antártica, a Ross e a Ronne-Filchner.

Essas enormes plataformas de gelo retêm o gelo terrestre, mas à medida que se afinam e se rompem, essa resistência enfraquece. O gelo terrestre flui mais facilmente para o oceano, elevando o nível do mar.

No cenário de altas emissões, esse estreitamento generalizado da plataforma de gelo acontece nas próximas décadas. Mas, o mais importante, essas plataformas de gelo não mostram afinamento em um cenário de baixas emissões – a maior parte da camada de gelo da Antártica Ocidental permanece intacta.

Planejando nosso futuro

O objetivo do Acordo de Paris é manter o aquecimento bem abaixo de 2°C. Mas as atuais promessas do governo global nos comprometem a 2,9°C até 2100. Com base em nossas projeções de emulador, acreditamos que essas promessas levariam a uma contribuição da Antártica 50% maior (70 cm) para o aumento do nível do mar até o ano 2300 do que se o aquecimento permanecer em 2°C ou menos.

Mas, mesmo se atingirmos a meta de Paris, já estamos comprometidos com a elevação do nível do mar a partir do manto de gelo da Antártica, bem como da Groenlândia e das geleiras das montanhas ao redor do mundo nos séculos ou milênios vindouros (https://wires.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/wcc.634).

O aquecimento contínuo também aumentará os níveis do mar porque a água do oceano mais quente se expande e a quantidade de água armazenada na terra (no solo, aquíferos, pântanos, lagos e reservatórios) muda.

Para evitar os piores impactos nas comunidades costeiras em todo o mundo, os planejadores e formuladores de políticas precisarão desenvolver estratégias de adaptação significativas e opções de mitigação para a ameaça contínua de aumento do nível do mar. (ecodebate)

Mudança climática provoca aumenta a insegurança alimentar e a pobreza na África

Mudanças nos padrões de precipitação, aumento das temperaturas e condições climáticas mais extremas contribuíram para o aumento da insegurança alimentar, pobreza e deslocamento na África em 2020, agravando a crise socioeconômica e de saúde desencadeada pela pandemia COVID-19, de acordo com a um novo relatório multi-agência coordenado pela Organização Meteorológica Mundial (WMO).

Anomalias da temperatura média do ar terrestre em °C em relação à média de longo prazo de 1981-2010 para a África (WMO Regional Association I) com base em seis conjuntos de dados de temperatura.

O relatório Estado do Clima na África 2020 fornece um instantâneo das tendências e impactos das mudanças climáticas, incluindo o aumento do nível do mar e o derretimento das icônicas geleiras do continente. Ele destaca a vulnerabilidade desproporcional da África e mostra como os benefícios potenciais dos investimentos em adaptação ao clima, serviços climáticos e meteorológicos e sistemas de alerta precoce superam em muito os custos.

“Durante 2020, os indicadores climáticos na África foram caracterizados pelo aquecimento contínuo das temperaturas, aumento acelerado do nível do mar, condições meteorológicas extremas e eventos climáticos, como inundações, deslizamentos de terra e secas, e impactos devastadores associados. O rápido encolhimento das últimas geleiras remanescentes em A África oriental, que se espera derreter inteiramente em um futuro próximo, sinaliza a ameaça de uma mudança iminente e irreversível para o sistema terrestre”, disse o Secretário-geral da OMM, Prof. Petteri Taalas, em um prefácio.

Insegurança alimentar aumenta 40% na África com crise climática e covid.

“Junto com a recuperação do COVID-19, o aumento da resiliência climática é uma necessidade urgente e contínua. Os investimentos são particularmente necessários no desenvolvimento de capacidades e transferência de tecnologia, bem como no aprimoramento dos sistemas de alerta precoce dos países, incluindo sistemas de observação do tempo, água e clima,” disse o Prof Taalas.

O relatório é um produto colaborativo da OMM, da Comissão da União Africana, da Comissão Econômica para a África (ECA) através do Centro de Política Climática da África (ACPC), organizações científicas regionais e internacionais e agências das Nações Unidas. É acompanhado por um mapa da história que destaca as mensagens principais.

Ele está sendo lançado em 19 de outubro durante o Congresso Meteorológico Mundial Extraordinário e antes das negociações da ONU sobre Mudanças Climáticas, COP26. Soma-se às evidências científicas sobre a urgência de reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa, aumentar o nível de ambição climática e aumentar o financiamento para adaptação.

“A África está testemunhando um aumento da variabilidade do tempo e do clima, o que leva a desastres e perturbações dos sistemas econômicos, ecológicos e sociais. Em 2030, estima-se que até 118 milhões de pessoas extremamente pobres (ou seja, vivendo com menos de US $ 1,90 / dia) estarão expostas à seca, inundações e calor extremo na África, se medidas de resposta adequadas não forem postas em prática. Isto sobrecarregará os esforços de redução da pobreza e dificultará significativamente o crescimento da prosperidade”, disse SE Josefa Leonel Correia Sacko, Comissária para a Economia Rural e Agricultura da Comissão da União Africana.

“Na África Subsaariana, as mudanças climáticas podem reduzir ainda mais o produto interno bruto (PIB) em até 3% até 2050. Isso representa um sério desafio para a adaptação ao clima e ações de resiliência, porque não apenas as condições físicas estão piorando, mas também o número de pessoas sendo afetadas está aumentando”, disse ela no prefácio.

Anomalias absolutas de precipitação para 2020 em relação ao período de referência 1981-2010. As áreas azuis indicam precipitação acima da média, enquanto as áreas marrons indicam precipitação abaixo da média. Fonte: Global Precipitation Climatology Center (GPCC), Deutscher Wetterdienst, Alemanha.

Destaques

Temperaturas: A tendência de aquecimento de 30 anos para 1991–2020 foi maior do que para o período de 1961–1990 em todas as sub-regiões africanas e significativamente maior do que a tendência para 1931–1960. A África aqueceu mais rápido do que a temperatura média global na terra e no oceano combinados. 2020 classificado entre o terceiro e o oitavo ano mais quente registrado para a África, dependendo do conjunto de dados usado.

Aumento do nível do mar: As taxas de elevação do nível do mar ao longo das costas tropicais e do Atlântico Sul e do Oceano Índico são mais altas do que a taxa média global, em aproximadamente 3,6 mm / ano e 4,1 mm / ano, respectivamente. Os níveis do mar ao longo da costa do Mediterrâneo estão subindo a uma taxa que é aproximadamente 2,9 mm / ano inferior à média global.

Geleiras: Atualmente, apenas três montanhas na África são cobertas por geleiras – o maciço do Monte Quênia (Quênia), as Montanhas Rwenzori (Uganda) e o Monte Kilimanjaro (República Unida da Tanzânia). Embora essas geleiras sejam muito pequenas para atuar como reservatórios de água significativos, elas são de eminente importância turística e científica. Suas taxas de retirada atuais são mais altas do que a média global. Se isso continuar, levará ao degelo total por volta de 2040. O Monte Quênia deverá ser degelado uma década antes, o que o tornará uma das primeiras cadeias de montanhas inteiras a perder geleiras devido à mudança climática induzida pelo homem.

Precipitação: precipitação acima do normal – acompanhada por inundações – predominou no Sahel, no Vale do Rift, na bacia hidrográfica central do Nilo e no nordeste da África, na bacia do Kalahari e no curso inferior do rio Congo.

Condições de seca prevaleceram na costa norte do Golfo da Guiné e no noroeste da África e ao longo da parte sudeste do continente. A seca em Madagascar desencadeou uma crise humanitária.

Eventos de alto impacto: Houve inundações extensas em muitas partes da África Oriental. Os países que relataram perda de vidas ou deslocamento significativo de populações incluem Sudão, Sudão do Sul, Etiópia, Somália, Quênia, Uganda, Chade, Nigéria (que também experimentou seca na parte sul), Níger, Benin, Togo, Senegal, Côte d’ Ivoire, Camarões e Burkina Faso. Muitos lagos e rios atingiram níveis recordes, incluindo o Lago Vitória (em maio) e o Rio Níger em Niamey e o Nilo Azul em Cartum (em setembro).

Insegurança alimentar: Os efeitos combinados de conflitos prolongados, instabilidade política, variabilidade climática, surtos de pragas e crises econômicas, exacerbados pelos impactos da pandemia da doença coronavírus (COVID-19), foram os principais motores de um aumento significativo na insegurança alimentar. Uma invasão de gafanhotos do deserto de proporções históricas, que começou em 2019, continuou a ter um grande impacto no Leste e no Chifre da África em 2020.

ONU alerta que a emergência climática aumentará a fome e as migrações.

Esta jovem mãe andou 20 dias de Diinsoor, na Somália, com seus sete filhos para o campo de refugiados de Hagadera, em Dadaab, no Quênia. Depois que o gado de seu marido morreu por causa da seca na Somália, ela foi para Dadaab devido à fome.

A insegurança alimentar aumenta em 5–20 pontos percentuais com cada enchente ou seca na África Subsaariana. A deterioração associada na saúde e na frequência escolar das crianças pode piorar a renda em longo prazo e as desigualdades de gênero. Em 2020, houve um aumento de quase 40% da população afetada pela insegurança alimentar em comparação com o ano anterior.

Deslocamento: Estima-se que 12% de todos os novos deslocamentos populacionais em todo o mundo ocorreram na região do Leste e do Chifre da África, com mais de 1,2 milhão de novos deslocamentos relacionados a desastres e quase 500.000 novos deslocados relacionados a conflitos. Inundações e tempestades foram as que mais contribuíram para o deslocamento interno relacionado a desastres, seguidos por secas.

Investimentos: Na África Subsaariana, os custos de adaptação são estimados em US $ 30–50 bilhões (2–3% do produto interno bruto (PIB) regional) a cada ano durante a próxima década, para evitar custos ainda maiores de alívio adicional em desastres. O desenvolvimento resiliente ao clima na África requer investimentos em infraestrutura hidro meteorológica e sistemas de alerta precoce para se preparar para a escalada de eventos perigosos de alto impacto.

Avisos prévios: pesquisas domiciliares do Fundo Monetário Internacional (FMI) na Etiópia, Malaui, Mali, Níger e República Unida da Tanzânia constataram, entre outros fatores, que a ampliação do acesso a sistemas de alerta precoce e a informações sobre preços de alimentos e clima ( mesmo com mensagens de texto ou de voz simples para informar os agricultores sobre quando plantar, irrigar ou fertilizar, permitindo uma agricultura inteligente para o clima) tem o potencial de reduzir a chance de insegurança alimentar em 30 pontos percentuais.

Adaptação: A rápida implementação de estratégias de adaptação africanas estimulará o desenvolvimento econômico e gerarão mais empregos em apoio à recuperação econômica da pandemia COVID-19. Prosseguir com as prioridades comuns identificadas pelo Plano de Ação de Recuperação Verde da União Africana facilitaria a realização da recuperação sustentável e verde do continente da pandemia, ao mesmo tempo em que possibilitaria uma ação climática eficaz.

Riscos de maior preocupação para a Região Africana. Fonte: Análise da OMM das contribuições nacionalmente determinadas (NDCs) de 53 países na África. (ecodebate)

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