domingo, 3 de abril de 2022

Infraestrutura natural urbana reduz efeitos das mudanças climáticas

Parque do Ibirapuera

Soluções baseadas na Natureza, como parques urbanos, jardins de infiltração e telhados verdes biodiversos, reduzem impactos de chuvas intensas, elevação das temperaturas e eventos climáticos extremos.

O crescimento e adensamento populacional tem se mostrado um fenômeno irreversível no mundo todo. O último relatório das Organizações das Nações Unidas (ONU) sobre a população global projetou que, em 2100, a quantidade de pessoas no planeta pode chegar a 10,9 bilhões, levantando preocupações quanto à pressão sobre as cidades, em especial em áreas sensíveis como o acesso à água.

Uma das alternativas que têm avançado nos últimos anos para ajudar a enfrentar o problema é a chamada infraestrutura natural, que consiste na incorporação de Soluções baseadas na Natureza (SBN) para resolver questões relacionadas à segurança hídrica e à resiliência. Por meio da implantação de áreas verdes em pontos estratégicos das cidades, cria-se um sistema natural capaz de absorver a água da chuva, filtrar sedimentos do solo e reduzir custos com saneamento e saúde pública.

“Muitas cidades estão pensando em seus sistemas de drenagem porque as tubulações que existem hoje, feitas décadas atrás, não dão conta de escoar o volume atual de água durante grandes tempestades, que acaba provocando enchentes e invadindo edificações. Isso é especialmente importante num cenário de crise climática, em que as chuvas estão cada vez mais intensas e concentradas em curtos períodos, criando uma sobrecarga sobre esses sistemas. Adotar estratégias que usam a proteção da natureza como solução eleva os municípios ao que chamamos de Cidades baseadas na Natureza”, explica o gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, André Ferretti.

A aplicação prática da infraestrutura natural acontece por meio de soluções como jardins de infiltração, parques e telhados verdes, que juntos podem reduzir a quantidade de água que chega aos sistemas de drenagem, gerando ao mesmo tempo benefícios socioeconômicos. “Ao absorverem a água da chuva e diminuírem sua velocidade de escoamento até chegarem às tubulações, essas áreas verdes, com solo altamente permeável, ajudam a prevenir a ocorrência de enchentes e alagamentos, o que evita muitos prejuízos. Esses espaços também servem como áreas de lazer e bem-estar para a população.”

Um estudo do World Resources Institute (WRI Brasil), publicado em 2018 em parceria com diversas entidades, mostrou que o aumento da cobertura florestal em 8% no Sistema Cantareira, na capital paulista, poderia reduzir em 36% a sedimentação. “Ao impedir que mais sedimentos cheguem aos rios e, consequentemente, às estações de tratamento, a infraestrutura verde também alivia os cofres públicos, reduzindo o custo de tratamento da água que abastece as cidades.”

Para se ter uma ideia do impacto que isso pode gerar, a Estação de Tratamento de Água do Guandu, a maior do mundo, que fica no Rio de Janeiro, gasta 140 toneladas de sulfato de alumínio, 30 toneladas de cloreto férrico e mais 25 toneladas de cal diariamente para retirar impurezas da água que abastece a Região Metropolitana do Rio. Ferretti cita ainda o exemplo do movimento Viva Água, que reúne diversos atores para proteger e recuperar ecossistemas naturais e incentivar o empreendedorismo com impacto socioambiental positivo na Bacia do Rio Miringuava, em São José dos Pinhais (PR), minimizando a sedimentação do rio e contribuindo com a segurança hídrica da região.

Design urbano sustentável

Entre as principais ações de urbanismo que as grandes cidades estão colocando em prática estão os jardins de infiltração. Também conhecidos como jardins de chuva, são espaços ao longo do território urbano que servem como esponjas, ajudando na absorção da água. Além do aspecto funcional, contribuem para a valorização do espaço público e das propriedades em seu entorno. O ideal é que sejam instalados em partes mais baixas do terreno, que tendem a ser mais impactados por fortes chuvas.

Opção já bastante conhecida, mas com aplicação ainda pouco disseminada, é o telhado verde. Esse tipo de recurso auxilia na regulação microclimática das edificações e ajuda a acumular a água da chuva, sobretudo quando usado em conjunto com cisternas. “Essa água pode ser usada para a limpeza das áreas comuns, reduzindo o consumo de água potável. Isso é ainda mais importante nos períodos de seca”, diz Ferretti.

Outra aplicação da infraestrutura natural acontece por meio dos parques e áreas verdes em geral, que além dos benefícios similares de filtragem de sedimentos e retenção de água, geram impacto positivo sobre a saúde e o bem-estar das pessoas, à medida que se tornam espaços de lazer e relaxamento para a população e atuam na redução da poluição sonora e atmosférica. Além disso, as árvores também reduzem a velocidade de escoamento da água, impedindo que o sistema de drenagem se sobrecarregue rapidamente.

“O poder público precisa perceber que isso tem valor. E agora, nas eleições municipais, o eleitor pode avaliar e cobrar dos candidatos esse tipo de compromisso. Evitar alagamentos é igual reduzir grandes despesas, desde o tratamento da água até o sistema de saúde. Em um cenário de mudanças climáticas, com chuvas intensas seguidas por longos períodos de estiagem, ter controle sobre a disponibilidade da água é uma questão de sobrevivência”, afirma o gerente da Fundação Grupo Boticário.

De acordo com o DataSUS, em 2018, foram registradas mais de 230 mil internações por doença de veiculação hídrica, provocadas principalmente por falta de saneamento básico ou pelo contato com água suja em enchentes. Entre as doenças estão diarreia, leptospirose e hepatite A. Os gastos com internações com estas enfermidades no Sistema Único de Saúde (SUS) chegou a R$ 90 milhões no mesmo ano, segundo o Painel Saneamento Brasil, do Instituto Trata Brasil.

Infraestrutura natural urbana reduz efeitos de mudanças climáticas nas grandes cidades.

Parques urbanos, jardins de chuva e telhados verdes, reduzem impactos de chuvas, altas temperaturas e eventos climáticos. (ecodebate)

O tamanho demográfico e econômico da Rússia

A Rússia é o maior país do mundo em termos geográficos, com 17,1 milhões de km2, mais do dobro da área do Brasil. Também é uma potência militar. Porém, tem uma dimensão bem menor em termos demográficos e econômicos.

O gráfico abaixo, da Divisão de População da ONU (projeções de 2019), mostra que a população da Rússia já vem caindo desde 1993, quando atingiu o pico populacional de 148,4 milhões de habitantes. Em 2020, a população russa era de 145,9 de habitantes, representando uma queda de cerca de 3 milhões de pessoas entre 1993 e 2020. Para 2050 as projeções (realizadas antes da pandemia) apontavam para uma população de cerca de 135 milhões e para 2100, cerca de 126 milhões de habitantes. Nota-se que a população russa em 1950 era de 103 milhões, quase o dobro da população brasileira da época.
A pirâmide por sexo e idade da Rússia de 1950 mostra de maneira clara o impacto das duas grandes Guerras Mundiais. O número de homens de 30 anos e mais é bem menor do que o número de mulheres, refletindo a sobre mortalidade masculina que ocorreram nas duas guerras. O dente apresentado no grupo etário 30-35 anos reflete a queda da natalidade que ocorreu durante a 1ª Guerra Mundial. A redução do tamanho do grupo 5-9 anos reflete a redução da natalidade durante a 2ª Guerra Mundial. O aumento relativo do grupo 0-4 anos reflete certa recuperação da natalidade no pós-guerra (1946-50).
Já a pirâmide de sexo e idade de 2020, mostra que houve uma grande redução da natalidade na década de 1990, logo após o fim da União Soviética. Mas nos anos 2000 houve certa recuperação das taxas de fecundidade e houve um crescimento dos grupos etários mais jovens. Mas a natalidade deve cair na década de 2020-30 devido ao efeito da pandemia, da guerra da Ucrânia e pela diminuição da proporção de mulheres no período reprodutivo.
Interno Bruto (PIB) da Rússia era de apenas US$ 92 bilhões em 1992 (logo depois do fim da União Soviética), enquanto o PIB brasileiro era de US$ 382 bilhões e da Coreia do Sul de US$ 355 bilhões. Em 2022, a Coreia do Sul passou a ter o maior PIB, com US$ 1,9 trilhão, maior do que o PIB da Rússia, com US$ 1,8 trilhão e do Brasil com US$ 1,6 trilhão. Estes três países possuem um PIB de cerca de 2% do PIB mundial.
Considerando a renda per capita, em preços constantes em paridade de poder de compra (ppp), os três países possuíam renda per capita abaixo de US$ 20 mil em 1992. Mas, em 2022, a Renda per capita da Coreia atingiu US$ 45 mil, a Rússia US$ 28,5 mil e o Brasil, somente US$ 15 mil. Assim, o Brasil é classificado como renda média baixa, a Rússia como renda média alta e a Coreia do Sul como renda alta (estando no grupo dos países ricos). O Brasil tem renda per capita abaixo da média mundial e a Rússia pouco acima. A Coreia do Sul bem acima.
Os dados acima mostram que a Rússia, a despeito de ter o território mais extenso do mundo, tem uma população que é menos de 2% da população mundial e um PIB que é cerca de 2% da economia global. Desta forma, o poderio militar russo vai muito além do peso demográfico e econômico do país. Evidentemente a Rússia tem um peso demográfico, econômico e militar muito maior do que a Ucrânia. Mas uma ação bélica da dimensão atual deve apresentar um algo custo para a Rússia. O livro “Ascensão e Queda das Grandes Potências”, de Paul Kennedy, mostra que a disjunção entre poderio militar e poderio econômico leva ao declínio dos impérios.

As projeções econômicas indicam uma queda muito grande do PIB da Rússia em 2022 em função da guerra e em função das sanções econômicas. Mas toda a fraqueza econômica e demográfica da Rússia não parece abalar Vladimir Putin que deu um “ultimato” não só para a Ucrânia não entrar na OTAN, mas apresentou a exigência de revisão das “perdas” que lhe foram impostas depois da dissolução da União Soviética. A URSS tinha 5 milhões de Km2 e 140 milhões de habitantes a mais do que a Rússia atual. Ou seja, a URSS tinha, em 1989, cerca de 6% da população mundial e mais de 10% do PIB global.

E como vimos, a Rússia atual tem menos de 2% da população mundial e cerca de 2% do PIB global. Os gastos militares da Rússia em 2020 foram de US$ 67 bilhões, enquanto os gastos dos EUA foram de US$ 777 bilhões. Portanto, Putin não tem condições de restabelecer o poderio da URSS e nem de se tornar um novo Stalin. No máximo poderá invadir alguns países vizinhos e provocar a morte e o deslocamento de milhões de pessoas. Além de degradar o meio ambiente.

O melhor caminho para a Rússia seria aprofundar uma aliança pacífica com seus vizinhos, a China, os BRICS e o mundo. A “declaração conjunta” da Russa e da China em 07/02/2022, propondo uma “refundação” da ordem mundial estabelecida depois da Segunda Guerra Mundial poderia ser levada à frente em um planejamento de longo prazo para “vencer” o Ocidente pela via pacífica, avançar na democracia, na concorrência comercial e no avanço científico e tecnológico.

O primeiro passo para superar a atual governança global e o sistema interestatal criado, fundamentalmente, pelo Ocidente depois da Segunda Guerra é promover uma desmilitarização do mundo e redirecionar os gastos militares e de guerra para a área social e ambiental. Só num mundo regido pela paz e pelo respeito do direito internacional pode haver progresso para todos.
Por que a Rússia é tão pouco povoada?

Quase 70% dos habitantes da Rússia vivem na porção europeia do país, que representa 20% do território nacional.

O resto do território abriga os 30% restantes, o que reduz drasticamente a densidade demográfica em comparação com áreas urbanas superlotadas. Um dos principais motivos é o clima rigoroso em algumas das regiões mais remotas da Rússia.

Habitantes da Rússia se estabeleceram em regiões onde o clima favorecia o cultivo da terra e oferecia condições climáticas agradáveis. Por isso que a parte sul da Rússia é mais densamente povoada do que as regiões do Norte e Extremo Oriente russos. (ecodebate)

Riscos dos desreguladores endócrinos

Plásticos podem conter Bisfenol-A.

Certos tipos de recipientes plásticos, cosméticos e outros produtos que fazem parte da nossa rotina podem conter substâncias nocivas à saúde: os desreguladores endócrinos. Atualmente, são conhecidos pelo menos 350 compostos presentes no meio ambiente e em utensílios, como os citados acima.

“Os desreguladores endócrinos são compostos químicos que podem afetar a função de nossos hormônios, predispondo ao aparecimento de diversos problemas de saúde. Entre eles, destacam-se estudos demonstrando associação com problemas no desenvolvimento neurológico, sistema reprodutivo e até mesmo alguns tipos de câncer como os de mama, útero, próstata e intestino grosso”, alerta Dra. Tânia Bachega, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo.

Um desregulador endócrino pode ter vários tipos de ações – dependendo do composto químico, ele terá diferentes atividades hormonais de acordo com o órgão. Muitos desreguladores têm atividade semelhante à do estrógeno, já que a molécula é muito parecida com a do hormônio feminino. Na população geral, os indivíduos mais suscetíveis à ação dos desreguladores endócrinos são os fetos, crianças com até 2 anos e adolescentes, pois se encontram em fase de desenvolvimento de grande multiplicação celular.

Exemplo de desregulador endócrino é o bisfenol A (BPA), uma substância presente no plástico que contém policarbonato e na resina epóxi dos enlatados. “Existem na literatura científica vários estudos com esse composto, que tem sido associado com alterações em nosso sistema reprodutivo, aumento do risco de obesidade, cânceres de mama e próstata, entre outros problemas de saúde. Muitos agrotóxicos também possuem atividade de desreguladores endócrinos, o que causa preocupações por estarem em contato direto com a cadeia alimentar. Esse Projeto de Lei (PL) 6299/02, que flexibiliza o controle e a aprovação de agrotóxicos no Brasil e concentra as decisões junto ao Ministério da Agricultura é motivo de grande preocupação para nós”, comenta Dra. Tânia.

Adicionalmente, estudos populacionais relacionaram a maior exposição ao BPA com o aumento da frequência de puberdade precoce e infertilidade masculina. Também há pesquisas que associam o BPA aos problemas com a glândula tireoide. Por exemplo, quem trabalha em polos petroquímicos possui mais nódulos de tireoide e maior incidência de hipotireoidismo.

Outras pesquisas já demonstraram que o acúmulo de bisfenol A no cérebro aumenta o risco de demência, perda de memória, alteração de coordenação e outras doenças degenerativas do sistema nervoso central.

Desreguladores endócrinos e o impacto na saúde sexual dos seres.

A endocrinologista dá dicas para minimizar os impactos dos desreguladores.

• Na medida do possível, prefira os alimentos cultivados sem agrotóxicos;

• Evite comprar alimentos embalados em plásticos com policarbonato. A informação está no rótulo;

• Não coloque pote de plástico em micro-ondas, a menos que haja indicação do fabricante para isso, já que a alta temperatura pode liberar muito mais esses compostos químicos, contaminando o alimento;

• Não compre mamadeiras que não tenham selo do Inmetro. Desde 2011, os fabricantes brasileiros e de países como Estados Unidos, Canadá e Dinamarca estão proibidos de usar bisfenol A na produção de mamadeiras;

• Não compre a lata amassada, pois o verniz interno foi fraturado, o que faz liberar mais bisfenol A no alimento.

Principais glândulas do sistema endócrino.

Sistema endócrino é responsável pela comunicação do sistema nervoso com os demais tecidos corporais através do controle de funções utilizando hormônios, substancias químicas que são reconhecidas pelos tecidos-alvo e que são carreadas pela circulação. Sistema endócrino é encontrado em diferentes graus de complexidade em todos os animais que apresentam sistema nervoso, sendo organizado em glândulas específicas nos vertebrados. (ecodebate)

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Fumaças de incêndios florestais afetam a camada de ozônio por meses

Pesquisadores alertam que, se os grandes incêndios se tornarem mais frequentes com as mudanças climáticas, a radiação ultravioleta mais prejudicial atingirá o solo.

Químicos atmosféricos da Universidade de Waterloo descobriram que a fumaça dos incêndios florestais australianos de 2019 e 2020 destruiu o ozônio atmosférico no Hemisfério Sul por meses. O escudo de ozônio é uma parte da camada estratosfera da atmosfera da Terra que absorve os raios UV do sol.

Os pesquisadores usaram dados do satélite Atmospheric Chemistry Experiment (ACE) da Agência Espacial Canadense para medir os efeitos das partículas de fumaça na estratosfera. Os resultados aparecem na revista Science.

“Os incêndios australianos injetaram partículas de fumaça ácida na estratosfera, interrompendo a química do cloro, hidrogênio e nitrogênio que regula o ozônio”, disse Peter Bernath, professor pesquisador do Departamento de Química de Waterloo e principal autor deste estudo. “Esta é a primeira grande medição da fumaça, que mostra que ela converte esses compostos reguladores de ozônio em compostos mais reativos que destroem o ozônio”.

Semelhante aos buracos nas regiões polares, esse dano é um efeito temporário, e os níveis de ozônio retornaram aos níveis pré-incêndio quando a fumaça desapareceu da estratosfera. Mas um aumento na prevalência de incêndios florestais significaria que a destruição acontece com mais frequência.

“O satélite ACE é uma missão única com mais de 18 anos contínuos de dados sobre a composição atmosférica. O ACE mede uma grande coleção de moléculas para fornecer uma imagem melhor e mais completa do que está acontecendo em nossa atmosfera”, disse Bernath. “Os modelos ainda não podem reproduzir a química da fumaça atmosférica, então nossas medições fornecem uma visão única da química nunca vista antes”.

As operações do satélite ACE são baseadas na Universidade de Waterloo, e Bernath é o principal cientista da missão. O artigo Wildfire smoke destroys stratospheric ozone foi publicado na edição de 18/03/22 da revista Science. (ecodebate)

Aquecimento de 2°C liberaria bilhões de toneladas de carbono do solo

Os solos globais contêm 2 a 3 vezes mais carbono do que a atmosfera, e temperaturas mais altas aceleram a decomposição – reduzindo a quantidade de tempo que o carbono passa no solo (conhecido como “turnover de carbono no solo”).

O novo estudo de pesquisa internacional, liderado pela Universidade de Exeter, revela a sensibilidade do turnover do carbono do solo ao aquecimento global e, subsequentemente, reduz pela metade a incerteza sobre isso nas projeções de mudanças climáticas futuras.

A estimativa de 230 bilhões de toneladas de carbono liberadas com o aquecimento de 2°C (acima dos níveis pré-industriais) é mais de quatro vezes o total das emissões da China e mais do que o dobro das emissões dos EUA nos últimos 100 anos.

“Nossas regras de estudo fora a maioria das projeções extremas – mas sugere, no entanto, as perdas de carbono do solo substanciais devido às alterações climáticas em apenas 2°C o aquecimento, e este nem sequer incluem as perdas de carbono mais profundo permafrost”, disse o coautor Dr. Sarah Chadburn, da Universidade de Exeter.

Esse efeito é chamado de “feedback positivo” – quando as mudanças climáticas causam efeitos indiretos que contribuem para mais mudanças climáticas.

A resposta do carbono do solo às mudanças climáticas é a maior área de incerteza na compreensão do ciclo do carbono nas projeções das mudanças climáticas.

Para resolver isso, os pesquisadores usaram uma nova combinação de dados observacionais e Modelos do Sistema Terrestre – que simulam o clima e o ciclo do carbono e, posteriormente, fazem previsões sobre as mudanças climáticas.

“Nós investigamos como o carbono do solo está relacionado à temperatura em diferentes locais da Terra para descobrir sua sensibilidade ao aquecimento global”, disse a autora Rebecca Varney, da Universidade de Exeter.

Modelos de última geração sugerem uma incerteza de cerca de 120 bilhões de toneladas de CO2 a 2°C de aquecimento médio global.

O estudo reduz essa incerteza para cerca de 50 bilhões de toneladas de carbono.

O coautor, Professor Peter Cox, do Exeter’s Global Systems Institute, disse: “Reduzimos a incerteza nesta resposta às mudanças climáticas, que é vital para calcular um orçamento global de carbono preciso e cumprir com sucesso as metas do Acordo de Paris.”

O trabalho foi realizado em colaboração com cientistas do Met Office e institutos nos EUA e na Suécia.

O estudo, publicado na Nature Communications, é intitulado “A spatial emergent constraint on the sensitivity of soil carbon turnover to global warming”. (ecodebate)

Ainda há tempo para reverter as mudanças climáticas?

Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas: Data serve para alertar a sociedade dos impactos causados pelo desequilíbrio ambiental

No dia 16 de março é celebrado o dia da Conscientização para as Mudanças Climáticas. Diante de todo o cenário e impactos que o planeta tem sentido, a data serve como uma pausa para refletir sobre os impactos que as ações humanas têm causado na natureza, além de estimular debates e conversas que combatam a desinformação e o negacionismo.

Hoje, a principal causa para o aquecimento global é a queima de combustíveis fósseis e a emissão de gás carbônico, ambas derivadas de atividades humanas. A queimada das florestas é outro fator que impacta muito as alterações dos ciclos normais nos ecossistemas terrestres. O gás carbônico em excesso dificulta a saída dos raios infravermelhos vindos do sol, provocando uma maior estadia deles na atmosfera e aquecendo o ambiente acima do normal.

Com a elevação das temperaturas, o mar se aquece, produzindo interferência na vida marinha e excesso de água evaporada, além de degelo nos polos e montanhas. O resultado: tempestades cada vez mais fortes, como em Petrópolis (RJ) e Franco da Rocha (SP), derretimento de geleiras milenares, temperaturas altas em países frios como Canadá e incêndios sem precedentes nos EUA.

Mesmo diante de tantas evidências, vez ou outra surgem ideias que insistem em negar os fatos que estão acontecendo. Para Rogério Machado, professor de Química e Meio Ambiente na Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), argumentos que apontam que as mudanças climáticas foram inventadas pela ONU (Organização das Nações Unidas), por exemplo, são improcedentes. “O descrédito na Organização geraria o caos mundial”.

“A ONU tem na sua formação, órgão independente de interesse econômico, ou seja, cientistas para estudar e esclarecer a população mundial sobre a situação do planeta, para que possamos viver conforme a situação verdadeira em que nos encontramos. Os países têm a obrigação de relatar as verdadeiras condições de seu meio ambiente, pois disso depende seu desenvolvimento e credibilidade junto a globalização atual”, relata o professor.

No estágio atual em que a crise climática está, Machado acredita ser pouco provável que consigamos voltar ao patamar de um século atrás, uma vez que comportamentos considerados vitais para o ser humano como a intensa industrialização e a locomoção pelo planeta são atividades difíceis de serem revertidas.

Adotando tom pessimista, o professor afirma que é ilusão acreditar que em duas ou três décadas iremos abandonar o uso do petróleo e seus derivados, pois, segundo ele, a matéria-prima está presente na maioria dos processos industriais e continua gerando lucros.

O especialista aponta que o caminho a ser seguido para que a sociedade reverta o atual quadro climático “seria inicialmente mudar ou amenizar a fonte de energia dos meios de locomoção poluentes como carros, caminhões, aviões e demais que dependem do petróleo”. E finaliza: “algo que seria uma atitude corajosa e política é a determinação da diminuição e até cessação da destruição das florestas, o que, hoje, existe mais em palavras do que em atitudes efetivas”. (ecodebate)

quinta-feira, 31 de março de 2022

Pantanal pode ter temperaturas elevadas em 7ºC até 2100

Pantanal, a maior planície alagada do mundo, corre o risco de, em 2100, ver as suas temperaturas médias anuais elevadas em até 7°C.

Tamanho aumento de temperatura implicaria uma redução sensível no regime de chuvas da região, principalmente no inverno. Tais mudanças climáticas teriam impacto sobre a evaporação da região e a própria existência do Pantanal como o conhecemos.

Essas projeções foram estimadas a partir da aplicação ao Pantanal dos modelos climáticos globais do 5º Relatório de Avaliação (AR5) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de 2014.

O trabalho “Climate Change Scenarios in the Pantanal”, publicado no livro Dynamics of the Pantanal Wetland in South America, é de autoria da equipe do hidrologista e meteorologista José Antonio Marengo Orsini, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em Cachoeira Paulista, e tem apoio da FAPESP e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) para Mudanças Climáticas que, por sua vez, é apoiado pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O Pantanal tem uma área de 140 mil km², 80% da qual fica no Brasil, nos estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. É uma região semiárida. Não fosse o enorme fluxo anual de água para a região, o bioma seria tão seco quanto a caatinga nordestina. Isso não ocorre porque o Pantanal é um grande reservatório que armazena as águas que escoam dos planaltos circundantes.

Nos meses de novembro a março, na estação chuvosa, os rios transbordam, inundando até 70% da planície. É quando se formam os banhados, os lagos rasos e quando os pântanos incham. Tudo isso faz com que, nas áreas mais elevadas, surjam ilhas de vegetação, um refúgio para os animais. Grandes áreas permanecem inundadas por quatro a oito meses no ano, com uma cobertura de água que varia de uns poucos centímetros até 2 metros.

Durante a estação seca, de abril a setembro, as águas refluem para a calha dos rios e os banhados são parcialmente drenados. As águas antes represadas seguem seu curso através das bacias dos rios Paraguai e Paraná, em direção ao rio da Prata e ao Atlântico Sul. Deixam em seu lugar uma camada de sedimentos férteis que impulsionam o crescimento da vegetação e das pastagens.

Esse é o retrato do Pantanal hoje. Nele caem anualmente entre 1.000 e 1.250 milímetros de chuva. A temperatura média anual é 24°C, sendo que a temperatura máxima, alguns dias no ano atinge 41°C. O que as projeções climáticas de Marengo indicam para o futuro?

O 5º Relatório de Avaliação do IPCC projeta um aumento na temperatura média global em 2100 de 3,7ºC a 4,8°C. Quando seus parâmetros são usados para analisar as variáveis climáticas específicas do Pantanal, o resultado impressiona. Até 2040, as temperaturas médias devem subir de 2ºC a 3°C. Em 2070, o aumento poderá ser de 4ºC a 5°C, atingindo em 2100 uma temperatura média 6°C mais elevada do que a atual.

Embora haja muita incerteza com relação às projeções pluviométricas, os modelos sugerem que, durante o inverno no hemisfério Sul, o Pantanal poderá experimentar uma redução na quantidade de chuva de 30% a 40%.

A associação entre temperaturas mais elevadas e menos chuva implicará um aumento da evaporação no Pantanal. Dependendo da temperatura, volumes consideráveis de água represada poderão desaparecer, o que reduzirá a área total alagada e a quantidade de água nas porções de terra que permanecerão alagadas. “Um aumento da temperatura média de 5ºC a 6°C implicaria em deficiência hídrica, o que afetaria a biodiversidade e a população”, observa Marengo.

As consequências para a fauna e a flora poderão ser severas. Espécies vegetais pouco adaptáveis a um grau de umidade inferior ao atual poderão desaparecer ou migrar para outras regiões. Em seu lugar, germinariam outras espécies, que preferem climas mais secos.

A alteração na vegetação implicaria diretamente as populações de invertebrados e de vertebrados herbívoros, capivaras, antas que delas dependem (mas também o gado das fazendas), numa reação em cadeia que afetaria todos os nichos da cadeia alimentar, até atingir os predadores de topo, como os felinos, os jacarés e as aves de rapina.

Muito embora Marengo faça questão de salientar que as incertezas com relação às mudanças climáticas ainda são elevadas, especialmente no quesito do regime pluviométrico, uma coisa é certa: as temperaturas globais estão aumentando e o mesmo acontecerá no Pantanal.

Como aquela planície alagada fica no centro da América do Sul, portanto longe da influência marítima que poderia ajudar a amenizar o clima, o aumento das temperaturas no Pantanal tende a ser mais dramático. “O dia mais quente do ano pode vir a ser até 10°C mais quente do que hoje”, diz Marengo.

Se atualmente, nos dias mais quentes do verão, a temperatura no Pantanal passa fácil dos 40°C, estamos falando em temperaturas máximas em torno ou superiores aos 50°C. É temperatura de deserto. A maioria das plantas suporta pontualmente um calorão desses. Pontualmente. (ecodebate)

El Niño leva aquecimento dos oceanos a território desconhecido

El Niño excepcionalmente forte impulsiona aquecimento global dos oceanos e leva temperatura média da superfície do mar ao maior valor já reg...