sexta-feira, 5 de julho de 2024

Qual é o impacto da mudança climática nas doenças tropicais?

Impacto das Mudanças Climáticas na Saúde Global

Mudanças Climáticas: OMS aponta aumento de incidência de malária, dengue e da chikungunya, mas alerta que faltam estudos sobre mitigação dos riscos e adaptação.

Organização Mundial da Saúde, OMS, revelou que ainda não existe uma compreensão adequada dos impactos reais e potenciais que a alterações climáticas induzidas pelos humanos podem ter na incidência de malária e Doenças Tropicais Negligenciadas, DTN.

Uma análise de 42.693 artigos indicou que é necessária uma “modelização mais abrangente, colaborativa e padronizada” para que seja possível compreender e prever melhor os efeitos das alterações no clima.

Expansão do alcance da malária, dengue e chikungunya

De acordo com o diretor do Programa Global de DTN da OMS, Ibrahima Socé Fall, que liderou o estudo, “é provável que a transmissão da malária se desloque tanto para os polos como para altitudes mais elevadas”.

Ele citou ainda previsões de que o mosquito vetor responsável pela transmissão da dengue e da chikungunya continue expandindo seu alcance. Para o especialista, esta revisão revela tendências alarmantes e é um “apelo à ação urgente”.

À medida que a gama geográfica de vetores de doenças, como os mosquitos, se expande, também aumenta o risco de introdução, ou reintrodução, destas doenças em áreas novas e não preparadas.

Para a OMS, as conclusões desta revisão realçam que estas mudanças na prevalência, incidência, alcance e intensidade da malária e de uma série de DTN podem ser sentidas com maior intensidade nas comunidades já desproporcionalmente afetadas por elas.

Um profissional de saúde fumiga uma casa em Guayaramerín, Bolívia, para protegê-la contra doenças transmitidas por mosquitos

Impacto desproporcional nos mais pobres

Apesar disso, o levantamento da agência destaca que muitas pesquisas publicadas se concentraram em países com baixa carga da doença e com amplo acesso a cuidados de saúde de qualidade.

O diretor do Programa Global da Malária da OMS, Daniel Madandi, apelou por uma resposta “mais equitativa, abrangente e sustentável” ao impacto das alterações climáticas, tendo em vista que ele será “suportado de forma desproporcional pelas pessoas mais pobres”.

Segundo ele, fenômenos meteorológicos extremos recentes tiveram consequências na malária e a previsão é que este tipo de evento ocorra com mais frequência.

O levantamento da OMS revela que apenas 34% dos estudos revisados abordam estratégias de mitigação e 5% abordam métodos de adaptação. Para a agência, este levantamento destaca ainda mais a falta de evidências necessárias para proteger os ganhos obtidos contra a malária e as DTN nas últimas décadas.

Doenças pouco estudadas

No total, foram analisados 42.693 artigos. Os investigadores correlacionaram o número de publicações com a carga nacional de doenças, o Índice de Acesso de Qualidade aos Cuidados de Saúde e as pontuações de vulnerabilidade climática.

Dos 511 artigos que atenderam aos critérios de inclusão, 185 abordaram a malária, 181 enfocaram dengue e chikungunya e 53 relataram resultados sobre leishmaniose. Outras DTN, no entanto, estavam significativamente sub-representadas, não tendo sido suficientemente estudadas.

A forma como o aumento das temperaturas e a mudança dos padrões climáticos estão alterando a propagação de doenças transmitidas por vetores é uma das preocupações da OMS, devido às implicações significativas para a saúde humana e à pressão adicional que pode ser colocada nos sistemas mais frágeis.

Mudanças climáticas podem disseminar doenças transmitidas por mosquitos

O estudo foi realizado pelo Grupo de Trabalho da OMS sobre Alterações Climáticas, Doenças Tropicais Negligenciadas e Malária, em parceria com Reaching the Last Mile, RLM, e foi publicado na revista científica Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine e Higiene. (ecodebate)

OMS registra queda da expectativa de vida

A OMS registra queda da expectativa de vida e na expectativa de vida saudável durante a pandemia.
Expectativa de vida cai com a pandemia da Covid

O relatório Estatísticas Mundiais de Saúde 2024 da Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou que a pandemia da COVID-19 reverteu a tendência de aumento secular na expectativa de vida ao nascer e na expectativa de vida saudável ao nascer (HALE, na sigla em inglês).

A pandemia eliminou quase uma década de progresso na melhoria da expectativa de vida em apenas dois anos. Entre 2019 e 2021, a expectativa de vida global caiu 1,8 ano, para 71,4 anos (voltando ao nível de 2012). Da mesma forma, a expectativa de vida saudável global caiu 1,5 ano, para 61,9 anos em 2021 (voltando ao nível de 2012). O gráfico abaixo mostra os números da expectativa de vida para homens e mulheres entre 2000 e 2021.

A expectativa de vida ao nascer refere-se à média de anos que uma pessoa pode esperar viver a partir do seu nascimento, assumindo que as taxas de mortalidade observadas para cada faixa etária no momento do nascimento permanecerão constantes ao longo da sua vida. Esse indicador é amplamente utilizado para avaliar a saúde geral de uma população e as condições socioeconômicas de um país. Os fatores que Influenciam a Expectativa de Vida ao Nascer são:

• Condições de Saúde: Acesso a cuidados médicos de qualidade e avanços na medicina aumentam a expectativa de vida.

• Saneamento Básico: Acesso a água potável e saneamento básico adequado reduzem doenças infecciosas e aumentam a longevidade.

• Segurança: Áreas com menos violência e acidentes tendem a ter maior expectativa de vida.

• Nível de Educação: Populações com maior nível educacional tendem a ter melhores hábitos de saúde e maior acesso a informações.

• Renda: Renda mais alta geralmente está associada a melhores condições de vida e maior acesso a serviços de saúde e de cuidado.

A expectativa de vida saudável (HALE), também conhecida como expectativa de vida livre de incapacidade, refere-se ao número de anos que uma pessoa pode esperar viver com boa saúde, sem limitações graves em suas atividades cotidianas devido a problemas de saúde. Este indicador é crucial para entender não apenas quanto as pessoas vivem, mas como vivem, medindo a qualidade de vida em termos de saúde. Os fatores que Influenciam na Expectativa de Vida Saudável são:

• Estilo de Vida: Hábitos saudáveis, como alimentação balanceada, exercícios regulares, e abstinência de tabaco e álcool, são determinantes.

• Prevenção e Controle de Doenças: Programas de vacinação, controle de doenças crônicas e infecções desempenham um papel fundamental.

• Ambiente Social e Físico: Comunidades seguras, apoio social e ambientes que promovem a saúde mental e física são essenciais.

• Acesso a Serviços de Saúde: A disponibilidade de serviços de saúde preventivos e de tratamento de alta qualidade é vital.

• Políticas Públicas: Políticas de saúde eficazes e suporte governamental em áreas como nutrição, saúde mental e bem-estar geral.

Pandemia de Covid-19 reduz expectativa de vida do brasileiro em quase dois anos

Enquanto a expectativa de vida ao nascer mede a sobrevivência do berço ao túmulo, a expectativa de vida saudável foca na qualidade de vida de todo o ciclo de sobrevivência. Em muitos países, as pessoas vivem mais tempo, mas nem sempre esses anos adicionais são vividos com boa saúde. A diferença entre os dois indicadores pode revelar disparidades no acesso a cuidados de saúde, diferenças em políticas públicas e a eficácia de programas de saúde preventiva para uma boa longevidade.

Os governos e as organizações de saúde utilizam esses indicadores para planejar e implementar políticas de saúde pública. Melhorar a expectativa de vida saudável requer um enfoque holístico que inclua melhorias na educação, renda, segurança, acesso a serviços de saúde de qualidade e promoção de estilos de vida saudáveis. Ao direcionar esforços para essas áreas, é possível não só aumentar a longevidade, mas também garantir que esses anos adicionais sejam vividos com saúde e qualidade.

Antes da pandemia, a esperança de vida e a HALE aumentaram em todas as regiões e nos grupos de rendimento dos países. Os maiores ganhos foram observados em ambientes com poucos recursos, incluindo a Região Africana (ganho de 11,2 anos na esperança de vida e ganho de 9,8 anos na HALE) e a Região do Sudeste Asiático (ganho de 7,3 anos na esperança de vida e ganho de 6,5 anos em HALE); e em países de baixo rendimento (ganho de 10,6 anos na esperança de vida e ganho de 9,3 anos na HALE).

As populações dos países de rendimento elevado e médio-alto continuam a viver vidas mais longas e saudáveis do que as dos países de rendimento baixo e médio-baixo. No entanto, o ritmo de melhoria nos países de rendimento elevado estagnou desde 2010, com apenas um aumento de 1,1 ano na esperança de vida e um aumento de 0,6 anos na HALE em 2010-2019, menos de um terço dos aumentos nos países de baixo rendimento. Ou seja, continua existindo desigualdades na expectativa de vida, mas há um esperançoso processo de convergência entre as regiões e os grupos de renda.

Os dados mais recentes da Divisão de População da ONU mostram que a expectativa de vida ao nascer já recuperou os níveis pré pandêmicos em 2023. Contudo, existe um grande desafio pela frente que são as crises climáticas e ambientais. Os desastres provocados pelas enchentes do Rio Grande do Sul estão impactando os níveis de mortalidade e morbidade, afetando negativamente tanto a expectativa de vida ao nascer, quanto a expectativa de vida saudável (HALE) no sul do país. Para melhorar a expectativa de vida humana, vamos precisar garantir a qualidade de vida ecológica e a estabilidade do clima global. (ecodebate)

Florestas tropicais perdem capacidade de absorver CO2

A capacidade das florestas tropicais de absorver grandes quantidades de CO2 diminuiu nos últimos anos. O declínio dessa capacidade é devido ao desmatamento em grande escala, degradação do habitat e efeitos das mudanças climáticas, como secas e incêndios

A descoberta surge de um esforço para mapear onde a vegetação está emitindo e absorvendo dióxido de carbono da atmosfera.

As árvores e plantas da Terra retiram grandes quantidades de dióxido de carbono da atmosfera durante a fotossíntese, incorporando parte desse carbono em estruturas como a madeira. As áreas que absorvem mais carbono do que emitem são chamadas de sumidouros de carbono. Mas as plantas também podem emitir o gás de efeito estufa durante processos como a respiração, quando as plantas mortas se decompõem, ou durante a combustão, no caso de incêndios. Os pesquisadores estão particularmente interessados em saber se – e como – as plantas na escala de um ecossistema como uma floresta agem como fontes ou sumidouros em um mundo cada vez mais quente.

Um estudo recente liderado por cientistas do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA no sul da Califórnia identificou se áreas com vegetação, como florestas e savanas ao redor do mundo, eram fontes ou sumidouros de carbono todos os anos de 2000 a 2019. A pesquisa descobriu que, ao longo dessas duas décadas, as plantas lenhosas foram responsáveis por mais de 80% das fontes e sumidouros na terra, com solo, serapilheira e matéria orgânica em decomposição constituindo o resto. Mas eles também viram que a vegetação retinha uma fração muito menor do carbono do que os cientistas pensavam originalmente.

Com desmatamento, Amazônia perde sua capacidade de absorver carbono

Além disso, os pesquisadores descobriram que a quantidade total de carbono emitido e absorvido nos trópicos era quatro vezes maior do que nas regiões temperadas e áreas boreais (as florestas do extremo norte) combinadas, mas que a capacidade das florestas tropicais de absorver grandes quantidades de carbono diminuiu nos últimos anos. O declínio dessa capacidade é devido ao desmatamento em grande escala, degradação do habitat e efeitos das mudanças climáticas, como secas e incêndios mais frequentes.

Na verdade, o estudo, publicado na Science Advances, mostrou que 90% do carbono que as florestas ao redor do mundo absorvem da atmosfera é compensado pela quantidade de carbono liberada por distúrbios como desmatamento e secas.

Os cientistas criaram mapas de fontes e sumidouros de carbono de mudanças no uso da terra, como desmatamento, degradação de habitat e plantio de florestas, bem como crescimento de florestas. Eles fizeram isso analisando dados sobre a vegetação global coletados do espaço usando instrumentos como o Geoscience Laser Altimeter System (GLAS) da NASA a bordo do ICESat e o Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer (MODIS) a bordo dos satélites Terra e Aqua, respectivamente. A análise usou um algoritmo de aprendizado de máquina que os pesquisadores primeiro treinaram usando dados de vegetação coletados no solo e no ar usando instrumentos de varredura a laser.

Capacidade de árvores de absorver carbono está diminuindo

Fazendo o inventário

“Muitas pesquisas anteriores não foram espacialmente explícitas – não tivemos um mapa de onde os fluxos de carbono estavam ocorrendo”, disse Nancy Harris, diretora de pesquisa do programa florestal do World Resources Institute em Washington e um dos autores do estudo.

Outras maneiras de estimar quanto carbono é trocado entre áreas com vegetação e a atmosfera incluem observar quantas plantas ou florestas existem em uma determinada região e estudar as mudanças no uso da terra, combinando essas informações com estimativas de emissão de carbono. Mas esses métodos têm limitações espaciais ou temporais que os autores do estudo tentaram abordar com seu método de aprendizado de máquina.

Saber onde as plantas estão absorvendo carbono e onde estão emitindo é importante para monitorar como as florestas e outras regiões com vegetação respondem às mudanças climáticas. “A Amazônia foi considerada um grande sumidouro de carbono por causa de grandes extensões de floresta intocada que absorvem dióxido de carbono”, disse Sassan Saatchi, cientista principal do JPL e investigador principal do estudo. “No entanto, nossos resultados mostram que, no geral, a Bacia Amazônica está se tornando quase neutra em termos de balanço de carbono porque o desmatamento, a degradação e os impactos do aquecimento, secas frequentes e incêndios nas últimas duas décadas liberam dióxido de carbono na atmosfera”.

Saatchi e seus colegas desenvolveram suas análises para que seja mais fácil rastrear mudanças em áreas com vegetação com base em dados coletados tanto no solo quanto remotamente. “Nossa abordagem foi projetada para garantir que possamos equilibrar sistematicamente o orçamento global de carbono a cada ano, e que os países possam usar os resultados e a metodologia para a gestão de carbono e suas próprias necessidades de relatórios”, disse ele.

Essa análise de orçamento ajudou os pesquisadores a entender melhor a dinâmica de como as florestas e outras áreas com vegetação ao redor do mundo armazenam o carbono que estão absorvendo da atmosfera. “Muitos estudos anteriores descobriram que a vegetação ao redor do mundo absorve uma grande quantidade de dióxido de carbono atmosférico”, disse o principal autor do estudo, Alan Xu, pesquisador de carbono do JPL e da UCLA. “Dá a impressão de que as florestas globais estão crescendo e ficando maiores em todos os lugares, mas não é o caso”.

Peças faltando

Este estudo ajuda a preencher o quadro de onde e como as árvores e plantas estão absorvendo ou emitindo carbono, mas há mais trabalho a ser feito. Os mapas de carbono baseados em satélite neste estudo cobriram cerca de 39 milhas quadradas (100 quilômetros quadrados) de cada vez, mas eles não podiam necessariamente captar as mudanças que aconteciam em escalas menores. E havia algumas informações sobre como as florestas armazenavam e emitiam carbono nesses mapas que não eram necessariamente consideradas nos cálculos de fonte-sumidouro dos pesquisadores. Algumas dessas lacunas de informação devem ser remediadas por mapas de carbono de alta resolução fornecidos por satélites mais novos já em órbita, bem como por missões futuras como o NISAR da NASA-Organização de Pesquisa Espacial Indiana.

É importante entender como as regiões ao redor do mundo absorvem e emitem dióxido de carbono, disse Harris. “Se não estivermos acertando esses padrões, podemos estar perdendo alguns desses ecossistemas e como eles estão afetando o ciclo do carbono”. Mas ela é encorajada pela grande quantidade de dados que se tornam disponíveis para cientistas do clima sobre como o gás de efeito estufa se move entre a atmosfera e as florestas, pastagens e outras áreas de vegetação da Terra.

Floresta Amazônica pode parar de absorver CO2 em 15 anos

Saatchi tem esperança de que ter uma abordagem mais sistemática e consistente para acompanhar quais partes do mundo estão agindo como fontes ou sumidouros de carbono permitirá um melhor monitoramento entre regiões e países. “Isso poderia permitir que países ao redor do mundo usassem os dados como orientação para cumprir seus compromissos nacionais com o Acordo do Clima de Paris”. (ecodebate)

quarta-feira, 3 de julho de 2024

Emergência climática no Brasil: Qual é a obrigação do Estado?

A crise climática é considerada o problema mais urgente da humanidade e a maior ameaça aos direitos humanos. Nesse contexto, que obrigações os Estados têm de proteger as pessoas, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade, dos impactos da crise climática?

O processo do Parecer Consultivo sobre Emergência Climática e Direitos Humanos, da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), está construindo uma resposta para essa pergunta. A Corte busca, através de um longo processo de consulta pública e participação de mais de 300 organizações e comunidades, esclarecer o conteúdo e o escopo das obrigações de proteger os direitos humanos que os Estados do continente possuem em relação às comunidades e povos latino-americanos.

Um processo similar está em curso também na Corte Internacional de Justiça, e no Tribunal Internacional do Direito do Mar. Em conjunto, essas três Cortes vão proferir decisões vinculantes que estabelecerão as novas regras do jogo para Estados e empresas no contexto da crise climática.

As interpretações e conclusões desses processos fortalecerão os argumentos usados por organizações, comunidades e outros atores em litígios climáticos que buscam responsabilizar governos pelas omissões e ações que contribuem para os graves impactos da crise climática. Mais ainda, o resultado desse processo abrirá os caminhos para a reparação adequada de comunidades, famílias e grupos impactados pelos efeitos da crise climática — oferecendo um caminho para a justiça climática.

O que são os pareceres consultivos da Corte Interamericana de Direitos Humanos e qual sua relevância para o Brasil?

Os pareceres consultivos da Corte Interamericana são pronunciamentos feitos por esse tribunal internacional, a pedido de países membros da Organização dos Estados Americanos (OEA), a fim de esclarecer o alcance e interpretar tratados internacionais em relação a temas ainda não decididos pelo procedimento contencioso da Corte. Em outras palavras, na falta de um entendimento claro sobre os limites das obrigações dos Estados em relação a determinado tema, a Corte pode emitir uma decisão aplicável a todos os Estados-parte do tratado sob interpretação, esclarecendo as obrigações específicas que se impõem.

Um exemplo claro é o Parecer Consultivo 23 de 2017, no qual a Corte estabeleceu um precedente histórico ao reconhecer o direito a um ambiente saudável como fundamental para a existência humana e se pronunciou pela primeira vez sobre o conteúdo desse direito. Esses pronunciamentos, portanto, são tão relevantes quanto sentenças internacionais, e determinam os parâmetros da responsabilidade de Estados que, no futuro, estarão suscetíveis à condenação por desrespeitar essas obrigações.

Em janeiro de 2023, Colômbia e Chile solicitaram um parecer consultivo da Corte Interamericana para esclarecer o escopo das obrigações estatais em matéria de direitos humanos no contexto da emergência climática. Ambos Estados declararam que suas populações, e outras no continente, são particularmente vulneráveis e estão sofrendo as consequências da tríplice crise planetária, o que se vê através das secas, inundações e incêndios, entre outros. Portanto, consideram necessário que a Corte determine a maneira apropriada de interpretar a Convenção Americana e os direitos nela reconhecidos “no que for relevante para abordar as situações geradas pela emergência climática, suas causas e consequências”.

Uma vez emitido, o parecer consultivo esclarecerá as obrigações legais dos Estados latino-americanos para combater a crise climática como uma questão de direitos humanos. O parecer da Corte poderia forçar os Estados a reconhecer sua competência para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, apoiar medidas de adaptação e estabelecer mecanismos para lidar com perdas e danos causados por desastres.

No caso do Brasil, as enchentes no Rio Grande do Sul transformaram 500.000 pessoas em refugiados climáticos, desalojados pela inundação de suas casas e cidades. Além da perda de vidas e danos materiais e imateriais irreversíveis, os afetados pelas enchentes também estão enfrentando riscos em razão da falta de preparação do governo na resposta a esta emergência. Abrigos insuficientes, sem segurança, sem condições sanitárias adequadas, com acesso limitado à comida, água e atenção médica são apenas alguns dos problemas que se somam ao trauma dos refugiados.

Situações de crise humanitária semelhantes vêm ocorrendo por todo o país nos últimos anos, basta recordar das secas na Amazônia, que isolaram dezenas de povos e levaram milhares à situação de insegurança alimentar e escassez hídrica. O nordeste do país não é diferente, que além das secas prolongadas se depara com o avanço incessante do mar. Recife é a 16ª cidade mais vulnerável aos efeitos da mudança do clima segundo o Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática (IPCC).

O Parecer Consultivo da Corte será vinculante para o Brasil, e isso significará que o estado brasileiro deverá adequar suas leis e políticas internas para cumprir com suas obrigações de direitos humanos no marco da crise climática. Desde à sociedade civil, existe uma alta expectativa de que a Corte anuncie que os Estados devem, a partir de agora, tomar decisões políticas com base na informação científica disponível, além de abrir a possibilidade de que esses sejam responsabilizados por perdas e danos evitáveis —o que seria o caso do Rio Grande do Sul caso as autoridades houvessem projetado planos de prevenção e adaptação segundo o relatório Brasil 2040, publicado em 2015.

É no espírito de justiça climática, social e ambiental que centenas de brasileiros e estrangeiros estarão em Manaus nos próximos dias 27, 28 e 29, a fim de serem ouvidos diretamente pelos juízes da Corte em audiências públicas. O movimento pela justiça climática na América Latina e no mundo está se fortalecendo e se tornando mais eficaz, impulsionado pelos sucessos dos litígios climáticos e por precedentes importantes, como os que emergem dos pareceres consultivos da Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Esperamos que o reconhecimento contundente das fronteiras da responsabilidade dos estados ante os riscos da crise climática evite mais tragédias, e promova uma justiça reparatória para os grupos que historicamente foram sacrificados em nome do capitalismo predatório. (ecodebate)

Chuvas extremas têm aumentado no Sul do Brasil desde 1950

Chuvas extremas têm aumentado no Sul do Brasil desde 1950, aponta estudo.
Análises de dados coletados por estações de observações meteorológicas terrestres indicam que grandes áreas contíguas no Sul do Brasil registraram mais dias de chuva intensa nas últimas sete décadas

Elton Alisson | Agência FAPESP – A região Sul do Brasil vem apresentando, desde 1950, tendência de aumento de extremos de chuvas, como as que têm atingido os Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

As constatações são de um estudo liderado por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) em colaboração com o Met Office – o serviço nacional de meteorologia do Reino Unido.

Os resultados do trabalho, apoiado pela FAPESP no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC), foram detalhados em artigo publicado na revista Earth and Space Science.

“As observações feitas por meio desse estudo apontam para uma tendência de aumento na frequência e na magnitude de extremos de precipitação, deflagradores de processos geo-hidrológicos, como inundações, particularmente na região Sudeste da América do Sul – que inclui o Sul do Brasil”, afirmou José Marengo, pesquisador do Cemaden e um dos autores do estudo, durante evento promovido pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP) para discutir as lições do evento climático extremo no Rio Grande do Sul.

Os pesquisadores utilizaram um conjunto de dados obtidos por meio de estações de observações meteorológicas terrestres situadas em todo o mundo para avaliar indicadores de extremos climáticos que ocorreram em diferentes partes do planeta entre 1950 e 2018.

Os resultados do estudo indicaram que a região Sul do Brasil apresentou nesse período grandes áreas contíguas com dias de chuva intensa – acima de 10 milímetros – e com aumentos significativos, de cerca de 2 milímetros por década.

“Esses resultados corroboram os de outros estudos anteriores, que mostram que o aumento da temperatura pode elevar a umidade da atmosfera e acelerar o ciclo hidrológico, gerando chuvas intensas”, afirmou Marengo.

“São necessários, contudo, estudos de atribuição – que já estão sendo feitos por alguns grupos de pesquisadores – para determinar se esses extremos de chuvas são consequência das mudanças climáticas antrópicas [causadas pelo homem]. Mas podemos afirmar que os desastres gerados por chuvas intensas são consequência de atividades humanas, como a permissão para construções em áreas de risco de inundações”, ponderou Marengo.
Projeções

Em outro estudo, publicado em 2021 na revista Frontiers in Climate, os pesquisadores do Cemaden, em colaboração com colegas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Met Office e da Universidade de Exeter (Reino Unido), fizeram simulações de chuvas extremas e de riscos de desastres hidrogeometerológicos no Brasil em um cenário de aquecimento da atmosfera entre 1,5ºC e 4ºC.

As projeções indicaram que esses diferentes níveis de aquecimento provocam uma mudança considerável em relação às chuvas no país, resultando em um aumento do risco de deslizamento e de inundações repentinas.

As principais regiões indicadas no estudo como as que serão mais afetadas por esses eventos no Brasil estão localizadas na região Sul do país, nos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. A cidade de Porto Alegre e o Vale do Jataí foram apontados como as duas localidades mais críticas na análise de riscos relacionados a inundações.

Os resultados foram corroborados por projeções climáticas para a América do Sul reportadas nos últimos relatórios publicados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que indicam que o aumento entre 1,5º C e 5,5º C da temperatura no sudeste da América do Sul, projetado para até o fim do século 21, causará um aumento de enxurradas e deslizamentos de terra especialmente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil.

“É preciso maior prevenção e melhora na preparação para essas chuvas intensas, que vão continuar aumentando. Por isso, é preciso pensar em como proteger a população vulnerável e as propriedades expostas aos riscos”, avaliou Marengo.

Distribuição geográfica de (A) o índice de vulnerabilidade-exposição para deslizamentos de terra (VE L), (B,D) o conjunto médio e desvio padrão do índice histórico de riscos climáticos para deslizamentos de terra (CH L), respectivamente. Mapas (C) e (E) mostram a média do conjunto e o desvio padrão do índice de impacto do potencial histórico para deslizamentos de terra (PI L). (ecodebate)

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Secas e degradação: sul da Amazônia em situação crítica

Desde 2015, a Amazônia tem sido mais lenta para se recuperar do aumento dos eventos de seca, mas, em geral, a floresta tropical ainda mostra uma resiliência notável.

Pesquisa internacional mostra que a degradação florestal devido à seca tem sido mais pronunciada no sul da Amazônia, onde o impacto humano é maior.

Desde a virada do século, quatro secas extremas ocorreram na floresta amazônica. Secas desse tipo normalmente devem ocorrer apenas uma vez por século. Isso mostra um aumento evidente nas secas na maior floresta tropical do nosso planeta.

Em um novo estudo, publicado no PNAS, pesquisadores analisam se e em que medida a floresta amazônica pode suportar essas mudanças nas condições.

Pesquisa revela impacto das secas na degradação das terras da Amazônia

Estudo mostra como o desmatamento associado às secas severas impulsionou o processo de degradação das terras na Amazônia.

Ponto de inflexão não (ainda) alcançado

Os pesquisadores usaram imagens mensais de satélite de 2001 a 2019 para determinar como a vegetação reage a repetidos períodos de seca.

Seca extrema na Amazônia em outubro/2023.

Os resultados do estudo mostram que, por enquanto, a floresta amazônica ainda não vai chegar a esse tipo de ponto de inflexão. Os pesquisadores também descobriram que, principalmente, a intensidade e a duração dos períodos de seca levaram à degradação florestal, mais do que o número de períodos de seca. (ecodebate)

Temperaturas extremas aumentam o risco de mortalidade por AVC

Temperaturas extremas aumentam o risco de mortalidade por acidente vascular cerebral.
Altas temperaturas podem aumentar riscos de AVC

Em uma grande investigação multinacional da relação entre temperaturas extremas e mortalidade por acidente vascular cerebral, os pesquisadores descobriram que, de cada 1.000 mortes por AVC isquêmicos ou hemorrágicos, cerca de 11 eram atribuíveis a dias frios e quentes extremos.

O estudo também descobriu que os países de baixa renda têm uma carga mais alta de mortalidade por AVC hemorrágico relacionado ao calor do que os países de alta renda.

Os pesquisadores preveem um aumento nos acidentes vasculares cerebrais fatais, bem como uma crescente disparidade na mortalidade por acidente vascular cerebral entre países de alta e baixa renda, à medida que as mudanças climáticas continuam a aumentar e as temperaturas se tornam mais extremas.

O calor extremo e o frio extremo estão associados ao aumento dos riscos de morte por acidente vascular cerebral isquêmico e hemorrágico, de acordo com um novo estudo liderado pela Harvard T.H. Chan School of Public Health. Os pesquisadores descobriram que a ligação entre temperaturas extremas e a mortalidade por acidente vascular cerebral foi mais forte em países de baixa renda do que em países de alta renda.

Pesquisas anteriores sobre a relação entre temperaturas extremas e mortalidade por AVC produziram resultados mistos ou inconclusivos. A maioria dos estudos foi limitada a cidades ou países individuais, principalmente de alta renda, e poucos diferenciaram entre os subtipos de AVC.

Para resolver essas lacunas, os pesquisadores alavancaram a Multi-City Network Multi-Country, um consórcio global de saúde ambiental, para construir um banco de dados multirregional multinacional de mortalidade por AVC isquêmico e hemorrágico. O banco de dados foi composto por mais de 3,4 milhões de mortes por AVC isquêmico e mais de 2,4 milhões de mortes por AVC hemorrágicas, relatadas entre 1979 e 2019 em 522 cidades em 25 países.

O estudo descobriu que, para cada 1.000 mortes por acidente vascular cerebral isquêmica ou hemorrágica, cerca de 11 eram atribuíveis a dias frios ou quentes extremos. Desses 11 óbitos, os mais frios e os mais quentes 2,5% dos dias contribuíram para 9,1 e 2,2 óbitos em excesso, respectivamente. De cada 1.000 golpes hemorrágicos, os mais frios e mais quentes 2,5% dos dias contribuíram para 11,2 e 0,7 mortes em excesso.

O estudo também descobriu que os países de baixa renda suportam uma carga maior de mortalidade por acidente vascular cerebral hemorrágico relacionado ao calor do que os países de alta renda e podem suportar uma carga maior de mortalidade por acidente vascular cerebral hemorrágico relacionado ao frio também (embora as evidências fossem sugestivas, não conclusivas). Não encontrou uma relação entre o produto interno bruto dos países e o risco de mortalidade por AVC isquêmico relacionado à temperatura.

Os pesquisadores levantaram a hipótese de que melhores sistemas de controle de temperatura interna e taxas mais baixas de trabalho ao ar livre em países de alta renda, bem como cuidados de saúde de pior qualidade em países de baixa renda, podem explicar as disparidades. Eles observaram que um estudo mais aprofundado é necessário para descobrir os fatores da maior carga de mortalidade por acidente vascular cerebral hemorrágico relacionado à temperatura e identificar intervenções úteis.

As limitações do estudo incluíram que era limitado em seu escopo geográfico – configurações rurais e países do sul da Ásia, África e Oriente Médio estavam sub-representados – e que a demografia de nível individual não foi coletada ou examinada.

Além disso, o estudo se concentrou apenas em mortes por AVC; pesquisas adicionais sobre a incidência de acidentes vasculares cerebrais não fatais forneceriam uma maior compreensão da carga real de temperatura e acidentes vasculares cerebrais. (ecodebate)

O que um estudo do MIT revela sobre comida, energia e desigualdade em 2050

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