A
transição climática em curso no Pacífico — da fase final de uma La Niña fraca
para neutralidade e, possivelmente, para El Niño no segundo semestre — começa a
entrar no radar do setor elétrico brasileiro.
A
avaliação de operadores e meteorologistas indica que o país deve atravessar o
outono e o inverno de 2026 com segurança energética preservada, mas com atenção
crescente à hidrologia, ao consumo e à pressão sobre a rede caso o aquecimento
do Pacífico se consolide na segunda metade do ano.
Os
cenários mais recentes indicam um aumento da probabilidade de El Niño entre
maio e julho. Esse arranjo climático tende a produzir efeitos assimétricos no
território brasileiro: historicamente, o fenômeno aumenta o risco de chuvas
acima da média no Sul e reduz a regularidade das precipitações em partes do
Norte e do Nordeste.
No
Brasil central, o impacto depende menos do volume total de chuva e mais de sua
distribuição ao longo da estação chuvosa.
No
curto prazo, os dados operacionais sugerem um quadro administrável para o
sistema elétrico.
As
projeções hidrológicas indicam que o subsistema Sudeste/Centro-Oeste —
responsável pela maior parte da capacidade de armazenamento do país — deve
iniciar o período seco com níveis razoáveis, embora inferiores aos observados
em anos particularmente favoráveis.
Norte
e Nordeste apresentam reservatórios mais confortáveis, enquanto o Sul segue
como região mais sensível no curto prazo.
Essa
configuração reforça um aspecto estrutural da segurança energética brasileira:
mais importante do que o volume total de chuvas no país é a localização dessas
precipitações.
O
desempenho hidrológico das bacias do Paraná, Grande, Paranaíba, São Francisco e
Tocantins-Araguaia continua sendo determinante para o equilíbrio do SIN
(Sistema Interligado Nacional).
Caso
o El Niño se consolide no segundo semestre, a tendência histórica é de maior
disponibilidade hídrica no Sul e de maior pressão sobre os rios do Norte e do
Nordeste.
No
campo da geração elétrica, o cenário-base ainda não indica necessidade de uso intensivo
de usinas térmicas além do padrão esperado para o período seco.
O
despacho termelétrico deve permanecer complementar, acionado principalmente em
situações operativas específicas, como hidrologia desfavorável ou picos de
consumo.
Episódios
recentes de calor extremo demonstraram que ondas de calor prolongadas podem
elevar rapidamente o consumo de eletricidade, impulsionado principalmente pelo
uso intensivo de aparelhos de ar-condicionado e refrigeração.
Se o eventual El Niño vier
acompanhado de temperaturas acima da média, o sistema elétrico pode enfrentar
picos de carga mais frequentes, sobretudo nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e
Sul.
Mesmo
diante desse risco, a infraestrutura de geração do país continua relativamente
robusta. A matriz elétrica brasileira permanece amplamente baseada em fontes
renováveis, com forte predominância hidrelétrica e crescente participação de
eólica e solar.
O
principal ponto de atenção, portanto, não está apenas na geração, mas também na
capacidade das redes de transmissão e distribuição de lidar com eventos
climáticos extremos.
O
Brasil possui uma extensa malha de transmissão e continua expandindo sua
infraestrutura, mas congestionamentos regionais e limitações locais ainda podem
ocorrer em momentos de forte demanda ou de eventos meteorológicos severos.
Nas cidades, o desafio é ainda mais complexo. A qualidade média do fornecimento de energia vem melhorando nos últimos anos, mas os indicadores regulatórios não capturam plenamente o impacto de tempestades intensas, ventos ou ondas de calor prolongadas sobre redes urbanas.
Em situações desse tipo, interrupções localizadas continuam sendo um risco relevante.
A
síntese do cenário para 2026 é clara. No restante do primeiro semestre, o
sistema elétrico deve operar com relativa estabilidade, ainda beneficiado por
reservatórios razoavelmente abastecidos e por condições hidrológicas
administráveis.
Já
no segundo semestre, a possível consolidação de um El Niño pode trazer maior
volatilidade ao equilíbrio entre geração, consumo e operação do sistema.
Não
há, neste momento, sinais de uma crise energética estrutural no horizonte. Mas
o avanço do fenômeno climático poderá testar, ao mesmo tempo, reservatórios,
consumo e infraestrutura elétrica — um desafio que exigirá monitoramento
permanente das condições hidrológicas e meteorológicas ao longo do ano. (cnn)


