quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Emissões de gases estufa subiram 1,6% ao ano entre 2008 e 2017

Emergência Climática – Emissões de gases de efeito estufa subiram 1,6% ao ano entre 2008 e 2017.
A ONU Meio Ambiente divulgou uma retrospectiva de dez anos de seu Relatório de Emissões — uma publicação que compara os níveis de emissão de gases de efeito estufa para evitar os piores impactos das mudanças climáticas.
O mundo parece ter passado a última década fazendo exatamente o oposto do que deveria. Apesar dos avisos nos relatórios anuais, as emissões de gases de efeito estufa cresceram a uma média de 1,6% ao ano entre 2008 e 2017. De fato, essas emissões são agora quase exatamente o que os primeiros relatórios projetavam para 2020 se o mundo não alterasse seus modelos de crescimento insustentáveis e poluentes.
Com as políticas atuais em vigor, o mundo caminha para um aumento de temperatura de 3,5°C neste século.
A ONU Meio Ambiente divulgou em 22/09/19 uma retrospectiva de dez anos de seu Relatório de Emissões — uma publicação que compara os níveis de emissão de gases de efeito estufa para evitar os piores impactos das mudanças climáticas.
O mundo parece ter passado a última década fazendo exatamente o oposto do que deveria. Apesar dos avisos nos relatórios anuais, as emissões de gases de efeito estufa cresceram a uma média de 1,6% ao ano entre 2008 e 2017. De fato, essas emissões são agora quase exatamente o que os primeiros relatórios projetavam para 2020 se o mundo não alterasse seus modelos de crescimento insustentáveis e poluentes.
Com as políticas atuais em vigor, o mundo caminha para um aumento de temperatura de 3,5°C neste século, em comparação com os níveis pré-industriais. Isso está muito além dos objetivos do Acordo de Paris, que visa limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C, ou pelo menos bem abaixo de 2°C.
Se este mundo mais quente se concretizar, todas as previsões de impactos climáticos catastróficos se tornarão realidade. Elevação do nível dos mares, eventos climáticos extremos e danos incalculáveis ​​às pessoas, prosperidade e natureza.
“A última década não trouxe a queda nas emissões de gases de efeito estufa que queríamos, isso é verdade. Mas, de várias maneiras, estamos em um lugar melhor do que há dez anos”, afirmou a diretora-executiva do PNUMA, Inger Andersen.
“Grandes avanços na conscientização, na tecnologia e na vontade de agir significa que agora estamos prontos para reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa”, acrescentou.
Uma plataforma para ação
O resumo de dez anos apresenta uma série de desenvolvimentos encorajadores que ocorreram: o foco político na crise climática é o mais alto de todos os tempos, inclusive por meio do Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas, e os eleitores e manifestantes, principalmente os jovens, estão deixando cada vez mais claro que a crise climática é a prioridade número um.
Cidades, regiões e empresas não estão esperando imposições de governos centrais. Cerca de 7.000 cidades de 133 países, 245 regiões de 42 países e 6.000 empresas com receita de pelo menos 36 trilhões de dólares se comprometeram a reduzir suas emissões.
Além disso, a tecnologia para reduzir de forma rápida e econômica as emissões melhorou significativamente. A energia renovável é um exemplo. Crescimento explosivo significa que a energia limpa evitou a emissão de aproximadamente 2 bilhões de toneladas de dióxido de carbono em 2017, pois forneceu cerca de 12% do suprimento global de eletricidade. A instalação de tecnologias agora está mais barata do que nunca.
Tudo isso é um progresso fantástico, mas não chega perto do suficiente. De acordo com o resumo dos dez anos, as nações devem pelo menos triplicar o nível de ambição refletido em suas promessas climáticas sob o Acordo de Paris — conhecidas como contribuições nacionalmente determinadas ou NDCs — para alcançar a meta de um mundo abaixo de 2°C. Devem aumentar a ambição pelo menos cinco vezes para a meta de 1,5°C.
Será crucial uma ação forte dos membros do G20, que juntos representam 80% de todas as emissões de gases de efeito estufa. Essa ação ainda não foi vista, de acordo com um capítulo preliminar do Emission Gap Report, que foca nas maneiras pelas quais o G20 pode aumentar a ambição climática.
Opções para cortes rápidos nas emissões são abundantes
No entanto, como revelam o resumo e o capítulo preliminar, o G20 e outras nações têm dezenas de opções para cumprir as metas de Paris. Ao usar apenas tecnologias comprovadas, o mundo poderia cortar 33 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente por ano até 2030. Isso é mais da metade das emissões globais anuais de gases de efeito estufa atuais. É mais do que suficiente para permanecer no caminho para o objetivo de 1,5°C.
Cerca de dois terços desse potencial estão disponíveis em áreas onde um rápido progresso é possível: energia solar e eólica, aparelhos eficientes, automóveis de passageiros eficientes, reflorestamento e interrupção do desmatamento. Apenas uma fração desse potencial é capturada em compromissos nacionais sob o Acordo de Paris.
E ainda há muitas outras oportunidades.
O fim dos subsídios aos combustíveis fósseis reduziria as emissões globais de carbono em até 10% até 2030. A redução de poluentes climáticos de curta duração — como fuligem e metano — pode reduzir as temperaturas rapidamente, pois estes não permanecem na atmosfera da mesma maneira que o dióxido de carbono.
Além dessas iniciativas, a Emenda Kigali ao Protocolo de Montreal é um compromisso internacional de reduzir o uso de gases com alto potencial de causar aquecimento, conhecidos como HFCs, na indústria de refrigeração. Esta alteração pode resultar em até 0,4 °C de redução no aquecimento. Se a indústria melhorar a eficiência energética ao mesmo tempo, poderá dobrar os benefícios climáticos.
Mais uma década sem cortes significaria desastre
Em novembro, a ONU Meio Ambiente publicará a décima edição do Emission Gap Report. Ele detalhará o tamanho dos cortes anuais de emissões necessários para permanecer no caminho certo para cumprir as metas do Acordo de Paris. Isso informará os negociadores dos países que se reunirão para a próxima rodada de negociações climáticas sob a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (CQNUMC).
Já sabemos que esses cortes terão de ser significativos. Todo ano de ação atrasada significa que os cortes se tornam maiores, mais caros e mais impraticáveis. Se chegarmos a 20 anos de Emission Gap Report e as emissões ainda não tiverem caído, o mundo enfrentará um desastre. Simplesmente não podemos dispor de mais uma década perdida.
Na Cúpula de Ação Climática, nas negociações climáticas de dezembro em Santiago do Chile, em todos os escritórios do governo, salas de diretoria, empresas e residências todos os dias, precisamos fazer muito mais a respeito da questão climática para garantir a segurança de gerações futuras, alertou a ONU Meio Ambiente.
A agência das Nações Unidas divulgou o resumo de dez anos na Cúpula de Ação Climática da ONU como parte de um pacote que analisa os avanços na ciência climática. O capítulo preliminar do G20 foi lançado de forma independente como mais uma contribuição para a Cúpula. (ecodebate)

Mudanças climáticas afetarão biodiversidade de áreas de proteção ambiental

Emergência Climática – Mudanças climáticas podem afetar a biodiversidade de áreas de proteção ambiental.
Em levantamento feito por pesquisadores da Unicamp, 258 regiões foram classificadas como de “vulnerabilidade média” e 17 como “altamente suscetíveis”. Amazônia, Mata Atlântica e Cerrado concentram áreas de maior risco.
O Brasil é o país que abriga a maior concentração de ecossistemas tropicais em áreas protegidas, mas uma parcela considerável dessas reservas pode estar vulnerável às mudanças climáticas em curso no planeta. É o que indica um estudo apoiado pela FAPESP e publicado no periódico Conservation Biology.
Sob coordenação de David Montenegro Lapola, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a pesquisa avaliou 993 áreas protegidas em todo o território nacional. A investigação teve início durante a iniciação científica de Fernanda Sueko Ogawabolsista da FAPESP.
Foram consideradas todas as áreas com mais de 50 quilômetros quadrados (km2), incluindo parques nacionais, estações ecológicas, reservas de desenvolvimento sustentável e terras indígenas demarcadas pela Fundação Nacional do Índio (Funai).
A equipe estimou a resiliência dessas unidades e comparou os resultados com a mudança climática projetada para elas, com base em indicadores fornecidos por instituições governamentais e estudos anteriores. Das 993 regiões avaliadas, 258 foram classificadas como de “vulnerabilidade média” e 17 como “altamente suscetíveis” às mudanças.
Metodologia da pesquisa
As projeções de mudança climática usadas vieram do Regional Climate Change Index (RCCI), índice desenvolvido em 2012 pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Já o provável impacto das alterações e a capacidade de adaptação local foram verificados com dados sobre a integridade da vegetação nativa na área e nos seus arredores, o nível de isolamento e o tamanho da área.
Cálculos do risco ambiental atrelado ao clima, averiguados em outros trabalhos, também foram considerados. “Por exemplo, na Amazônia existe a hipótese de que mudanças extremas transformem a vegetação em Cerrado. Já o Pampa pode virar uma floresta”, disse Lapola.
Com os dados em mãos, o grupo criou um eixo que comparou os níveis das mudanças previstas para aqueles territórios e a resiliência para adaptação. “Essa classificação é a novidade da pesquisa, que nos permite ainda sugerir estratégias mais adequadas a cada local”, explicou Lapola.
As 17 áreas classificadas como sendo de alto risco de impacto ambiental e de baixa resiliência cobrem 20.611 km2 e estão divididas entre Mata Atlântica (7), Cerrado (6) e Amazônia (4). Já as 258 que apresentam resiliência e risco moderados foram enquadradas em uma categoria de vulnerabilidade média.
Ao todo, são mais de 750.000 km2 de áreas de vegetação nativa que podem estar em risco nas próximas décadas.
Os impactos
As áreas protegidas são importantes para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. “Elas representam um grande estoque de carbono e mantêm o funcionamento do ecossistema, preservando polinizadores, recursos hídricos e serviços ligados às nossas necessidades básicas e à segurança alimentar", disse o biólogo Carlos Joly, coordenador do Programa BIOTA- FAPESP e coautor do estudo.
Por outro lado, as alterações na temperatura e na precipitação previstas para os próximos anos podem afetar essas áreas, como mostrou a pesquisa brasileira – a primeira a fazer uma análise focada em unidades de conservação.
“Trabalhos mostram que as mudanças podem afetar a distribuição de espécies de árvores e a sobrevivência de determinadas espécies de animais”, contou Joly.
Além da biodiversidade, cabe destacar que muitas dessas áreas são povoadas por populações tradicionais – indígenas, caiçaras, ribeirinhos e produtores agrícolas. Das reservas classificadas no estudo como alta ou medianamente vulneráveis, mais de 80% são terras indígenas. “Esse é um ponto especial de atenção, pois há pouquíssimas discussões sobre o manejo e adaptação dessas populações frente às mudanças do clima, de modo que elas e seu modo de vida continuem existindo”, disse Lapola.
Estratégias de adaptação
O trabalho propõe ainda quatro estratégias de adaptação baseadas na vulnerabilidade de cada área, também sustentadas por pesquisas anteriores. Para aquelas em menor risco, pouca ou nenhuma intervenção seria necessária, mas é importante cuidar da manutenção de modo que sirvam como uma espécie de “reservatório” e auxiliem na restauração dos arredores e de áreas protegidas vizinhas.
Na faixa mediana, o monitoramento e as ações de preservação devem ser o foco. Já para regiões mais vulneráveis, a sugestão é que as intervenções sejam mais incisivas, como o deslocamento de espécies, reflorestamento da vegetação original e ações de manejo de populações tradicionais – decisões a serem tomadas em casos mais extremos de risco à biodiversidade.
Um ponto considerado fundamental por Lapola e por Joly para proteger os biomas brasileiros é o aumento da conectividade entre as reservas. “O ideal é ter corredores de áreas protegidas, onde um núcleo se conecta com outro. Isso oferece uma proteção maior e expande o hábitat das espécies”, disse Lapola.
“Por exemplo, um sapo que vive entre 20°C e 25°C e se movimenta rápido, vai querer se mudar caso sinta a temperatura aumentando, mas não terá outro ambiente de floresta próximo para ir se a área protegida que compreende seu hábitat for pequena e pouco conectada”, explicou.
A falta de conectividade, no levantamento, foi medida pelo isolamento da área – uma análise da vegetação nativa em um raio de 10 km. O desmatamento é um dos fatores que acabam afastando uma região de vegetação nativa da outra. “Tanto que, na Amazônia, as áreas mais vulneráveis são as que já sofrem com o desmatamento”, disse Lapola.
Os próximos passos no estudo sobre as transformações das áreas protegidas no Brasil deverão envolver análises mais específicas, considerando os contextos regionais que influenciam na vulnerabilidade e no planejamento de ações de conservação.
Os autores destacam, contudo, que é mais urgente responder a demandas que ameaçam as áreas preservadas atualmente, como discussões sobre posse de terras, ocupação ilegal, desmatamento, risco de fogo, falta de profissionais envolvidos e de recursos para a manutenção dessas regiões.
“Ainda há muito que estudar, mas o trabalho chama a atenção para a necessidade de incluir as mudanças climáticas no planejamento governamental para essas áreas”, afirmou Joly. “Acima de tudo, é preciso aumentar a conscientização sobre a importância das áreas protegidas em um futuro de clima incerto”. (ecodebate)

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Relatório do IPCC sobre clima, população e fome no mundo

Para satisfazer a gula de poucos e matar a fome de muitos, destrói-se a vida no Planeta” - J.E.D. Alves (12/08/2019)
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, publicou o relatório “Climate Change and Land”, no dia 08 de agosto de 2019, onde aborda a relação entre o uso da terra e seus efeitos sobre a mudança climática. O relatório, que não apresentou escassez de notícias ruins, foi resultado de dois anos de trabalho de 103 cientistas de 52 países, que participaram voluntariamente do estudo.
Os solos têm se aquecido duas vezes mais rápido que o Planeta. A Terra como um todo aqueceu apenas 0,87 graus Celsius, enquanto a parte terrestre do Planeta aqueceu 1,5°C e pode chegar a 3°C rapidamente. Mais de 70% da terra sem gelo do planeta já é moldada pela atividade humana. À medida que as árvores são derrubadas e as fazendas tomam seu lugar, essa terra gerada por humanos emite cerca de um quarto da poluição global por gases do efeito estufa a cada ano, incluindo 13% de dióxido de carbono e 44% do metano.
O relatório relacionou o crescimento da população mundial e o aumento do consumo per capita de alimentos (ração, fibra, madeira e energia) ao aumento sem precedentes do uso de terra e da água doce para a produção comida. O aumento da produção e consumo de alimentos contribuíram para o aumento das emissões líquidas de gases de efeito estufa (GEE), perda de ecossistemas naturais e diminuição da biodiversidade. Ou seja, para alimentar um número crescente de humanos toda a base natural do Planeta tem sido danificada ou destruída.
 A humanidade tem tido sucesso na redução do percentual de pessoas passando fome. O gráfico abaixo, do portal “Our Word in Data”, permite uma clara visão sobre o percentual de pessoas passando fome no mundo, considerando o total populacional. A taxa de mortes por conta da fome teve o seu maior valor na década de 1870, quando atingiu 1.426 mortes para cada 100 mil habitantes no mundo. A taxa caiu nas décadas seguintes, embora tenha tido picos de cerca de 800 mortes por 100 mil nas décadas de 1920 e 1940.
A partir da década de 1970 as taxas caíram significativamente, ficando em 88 por 100 mil habitantes em 1970, 43 por 100 mil na primeira década do século XXI e em apenas 3 mortes por 100 mil habitantes entre 2010-16. Ou seja, houve uma grande redução dos “famélicos da Terra”.
Mas, se a chamada “revolução verde” e a expansão da pecuária viabilizaram uma maior dieta per capita e o crescimento da população mundial, ao mesmo tempo, houve um processo de degradação dos solos e das fontes de água e um aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE) em decorrência da intensificação do uso da terra. O avanço científico e tecnológico e o aumento generalizado dos combustíveis fósseis possibilitaram a redução da fome no mundo, que, em 2015, atingiu o nível mais baixo da história.
Porém, a insegurança alimentar e a desnutrição global aumentaram nos últimos 3 anos e podem aumentar ainda mais no futuro próximo, pois existe um círculo vicioso entre o processo de uso insustentável da terra e as mudanças climáticas. A produção atual de alimentos está comprometendo a produção futura devido à degradação dos solos e das fontes de água potável. O espectro da fome deve voltar a assustar o mundo no século XXI.
A edição do relatório anual da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) sobre o “O estado da segurança alimentar e da nutrição no mundo”, divulgado no dia 15 de julho de 2019, mostra os números do aumento global da insegurança alimentar.
A quantidade de pessoas que não tiveram acesso suficiente a alimentos, em 2005, foi de 947,2 milhões (representando 14,5% do total populacional mundial) e este número caiu para 785,4 milhões (10,6%) em 2015, conforme mostra o gráfico abaixo. Porém, a subnutrição subiu nos últimos três anos e atingiu 821,6 milhões de pessoas (10,8% do total) em 2018. Isto mostra que existe um grande desafio para se alcançar a meta 2 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que prevê fome zero até 2030.
A pobreza e a subnutrição acontecem com mais intensidade nos países onde as taxas de fecundidade estão acima do nível de reposição, pois existe uma relação direta entre o maior número de filhos e as carências de renda e acesso à alimentação. A maior incidência e o maior aumento da subnutrição ocorreu exatamente na África Subsaariana (onde a fecundidade é mais alta), que tinha uma taxa de subnutrição de 24,3% em 2005, caiu para 20,9% em 2015 e subiu para 22,8% em 2018. Cenários catastróficos voltam a assustar a população mundial.
É claro que o consumo de alimentos per capita nos países ricos é muito maior do que nos países pobres. Mas o alto crescimento populacional também é um fator que contribuiu para o desmatamento, a erosão dos solos e a crise hídrica.
Por exemplo, Moçambique – com população multiplicada por 10 vezes em 100 anos (passando de 6,2 milhões de habitantes em 1950, para 30,5 milhões em 2018 e 68 milhões estimados em 2050) – vive uma situação de colapso ambiental. As figuras abaixo mostram como o país foi desflorestado de maneira implacável e rápida num período de duas décadas. As imagens de satélite mostram o desmatamento em Moçambique de 2000 (esquerda) para 2012 (centro) e as projeções para 2019 (direita), segundo dados do próprio governo de Moçambique.
Moçambique tinha uma situação confortável de superávit ambiental, segundo os dados da Global Footprint Network. Em 1961, a biocapacidade per capita era de 6,6 hectares globais (gha) para uma pegada ecológica per capita de somente 0,83 gha. Porém, mesmo mantendo uma pegada ecológica muito baixa (de 0,87 gha em 2014) a biocapacidade do país diminuiu radicalmente e atingiu apenas 1,7 gha em 2016. No ritmo dos últimos 50 anos, Moçambique terá déficit ambiental na próxima década.
São inúmeros os exemplos de países que degradam o meio ambiente por excesso de consumo, de um lado, e por excesso de população, por outro lado. O Haiti é um exemplo na América Latina. A expansão da população, por um lado, e o aumento do consumo per capita, de outro, faz com que as atividades antrópicas ultrapassem as fronteiras planetárias e coloquem no horizonte um futuro de aumento da fome e de grande crise hídrica.
Atender a demanda atual de alimentos por meio da degradação dos ecossistemas é um tiro no pé. As práticas agrícolas que utilizam grandes quantidades de insumos externos, como fertilizantes inorgânicos, pesticidas e outros agrotóxicos, podem superar as restrições específicas do solo à produção agrícola no curto e médio prazos. Essas práticas levaram a aumentos consideráveis ​​na produção geral de alimentos. No entanto, especialmente nos sistemas gerenciados de forma mais intensa, isso resultou em degradação ambiental contínua, particularmente no solo, vegetação e recursos hídricos.
Os níveis de matéria orgânica do solo estão em declínio e o uso de insumos químicos está se intensificando (Dailykos, 06/09/2019). No longo prazo haverá:
Deterioração da qualidade do solo e redução da produtividade agrícola devido à depleção de nutrientes, perda de matéria orgânica, erosão e compactação;
Poluição do solo e da água através do uso excessivo de fertilizantes e uso e disposição inadequados de resíduos animais;
Maior incidência de problemas de saúde humana e do ecossistema devido ao uso indiscriminado de pesticidas e fertilizantes químicos;
Perda de biodiversidade devido ao uso de número reduzido de espécies sendo cultivadas para fins comerciais;
Perda de características de adaptabilidade quando espécies que crescem sob condições ambientais locais específicas são extintas;
Perda de biodiversidade benéfica associada a culturas que fornece serviços ecossistêmicos, como polinização, ciclagem de nutrientes e regulação de surtos de pragas e doenças;
Salinização do solo, esgotamento dos recursos de água doce e redução da qualidade da água devido a práticas de irrigação insustentáveis ​​em todo o mundo;
Perturbação dos processos físico-químicos e biológicos do solo como resultado de lavoura intensiva, corte e queima.
O fato é que não está garantida a produção de alimentos para o futuro. Em vez de um crescimento infinito, o mundo precisa de decrescimento demoeconômico para evitar um colapso ambiental (e civilizacional). Indubitavelmente, o caminho atual é insustentável e, se nada for feito para um redirecionamento, a humanidade e a vida na Terra não terão futuro num Planeta de terra arrasada. (ecodebate)

As geleiras peruanas estão desaparecendo em ritmo alarmante

Emergência Climática – As geleiras peruanas estão desaparecendo em ritmo alarmante.
Aquecimento global é causado pelo homem e deve aumentar, diz IPCC.
O Peru abriga 71% das geleiras tropicais no mundo, que são uma fonte de água para milhares de pessoas, mas 22% dessa área de geleiras desapareceu nos últimos 30 anos.
Em certas cadeias de montanhas nos Andes, como a Cordilheira Blanca, as geleiras estão se retirando a uma taxa acelerada desde os anos 80.
É do conhecimento geral que as geleiras estão derretendo na maioria das áreas do mundo. A velocidade com que as geleiras tropicais nos Andes peruanos estão recuando é particularmente alarmante, no entanto. 
Na primeira investigação detalhada de todas as cadeias de montanhas do Peru, uma equipe de pesquisa da Friedrich-Alexander-Universität Erlangen-Nürnberg (FAU) constatou uma redução drástica de quase 30% na área coberta por geleiras entre 2000 e 2016. A equipe também observou que as atividades do El Niño tiveram um efeito significativo no estado das geleiras. Seus resultados foram publicados na revista ‘The Cryosphere’ (DOI: 10.5194 / tc-13-2537-2019 ).
Geleiras tropicais existem ao redor do equador em altitudes acima de 4000 metros. O Peru é o lar de 92% de todas as áreas cobertas por geleiras nos trópicos. Devido à sua localização geográfica, as geleiras tropicais são particularmente sensíveis às flutuações e mudanças no clima. Em certas cadeias de montanhas nos Andes, como a Cordilheira Blanca, as geleiras estão se retirando a uma taxa acelerada desde os anos 80. Medições do balanço de massa de geleiras individuais também mostraram uma perda significativa de gelo.
Primeiras medições em toda a região
Até agora, não havia nenhuma medição uniforme e em toda a região de mudanças na massa e na área das geleiras no Peru. Uma equipe de pesquisadores liderada pelo Dr. Thorsten Seehaus, Instituto de Geografia da FAU, trabalhou em conjunto com colegas do Peru para medir as mudanças nas geleiras nos Andes peruanos entre 2000 e 2016 usando dados de satélite. Os geógrafos mapearam as mudanças na extensão da geleira usando imagens do Landsat. Eles identificaram um recuo glacial de 29% durante o período de investigação. Um total de 170 das geleiras anteriores a 1973 desapareceu completamente, uma área aproximadamente equivalente a 80.000 campos de futebol. Além disso, eles observaram uma taxa de recuo no período de 2013 a 2016 quase quatro vezes maior do que nos anos anteriores.
Cordilheira Apolobamba.
Os pesquisadores também acompanharam mudanças no volume e na massa das geleiras usando imagens de satélite. Eles usaram dados da “Missão de topografia de radar de transporte” alemã-americana de 2000 e do satélite alemão TanDEM-X que está ativo desde 2010. Durante todo o período, eles identificaram uma perda de gelo de quase oito gigatoneladas. Isso equivale a aproximadamente 10% da massa de gelo existente ou a um volume de água equivalente a aproximadamente dois quilômetros cúbicos. Os pesquisadores observaram que a taxa de perda de massa de gelo após 2013 foi aproximadamente quatro vezes maior que nos anos anteriores.
A taxa consideravelmente maior de encolhimento nas geleiras entre 2013 e 2016, tanto em termos de área quanto de massa, se correlaciona com as intensas atividades do El Niño experimentadas na época, ou seja, correntes de água incomuns no Pacífico equatorial. As variações climáticas típicas desencadeadas pelo El Niño nos Andes peruanos são aumento da temperatura, redução da precipitação e atraso na estação chuvosa. Esses fatores levam ao aumento do derretimento glacial e explicam a maior taxa de perda de gelo observada.
Wamantay, Cordilheira Vilcabamba.
Geleiras como fonte de água
As geleiras do Peru são uma fonte valiosa de água, pois armazenam a precipitação na forma de neve e gelo e a liberam novamente na forma de água derretida durante a estação seca e os períodos de seca. Eles têm uma contribuição valiosa para compensar os períodos secos e garantir que rios como o Rio Santa, na Cordilheira Blanca ou o Rio Vilcanota - Urubamba, na região ao redor de Cusco, continuem a fluir. O fornecimento de água potável, a irrigação de projetos agrícolas em larga escala e as usinas hidrelétricas dependem de um fornecimento contínuo e confiável de água. Portanto, as geleiras desempenham um papel socioeconômico importante na região. No entanto, as previsões preveem que a quantidade máxima de água que pode ser obtida com o derretimento das geleiras já foi excedida em certas áreas dos Andes.
Menos gelo, riscos mais naturais
A retirada das geleiras também aumenta o risco de riscos naturais, como as ondas de inundação causadas pelas inundações glaciais dos lagos. O derretimento das geleiras leva à formação de lagos em áreas que antes eram cobertas por gelo. A água é frequentemente retida pelas antigas morenas terminais deixados pela geleira. Se as avalanches de gelo ou rocha terminarem no lago ou o gelo no centro das morenas derreter ou se desgastar, a barragem poderá quebrar ou transbordar. Isso leva ao lago glacial que esvazia sem aviso prévio, enviando uma onda destrutiva de inundação pelo vale. Uma onda de inundação como essa destruiu um terço da cidade de Huaraz em 1941. Na Cordilheira Blanca, desastres naturais relacionados a geleiras mataram mais de 25.000 vítimas entre 1941 e 2003. Daqui resulta que o rastreamento de mudanças nas geleiras também é importante de um civil ponto de vista de proteção.
Os resultados deste estudo fornecem uma base importante para prognósticos melhores e aprimorados de como se espera o desenvolvimento de geleiras, para o planejamento nacional de gerenciamento de água e avaliações globais de como as geleiras estão mudando. (ecodebate)

domingo, 27 de outubro de 2019

A sustentabilidade segundo Lester Brown, Parte 2/2

Colocado diante de manifestação realizada no seu último livro, o senhor lança o desafio de reduzir as emissões de dióxido de carbono em 80% até 2020.
Na sua opinião, quais são os principais desafios para construir uma economia de baixa emissão de carbono, então aduz, “o mercado faz várias coisas bem, mas uma das coisas que não faz é incorporar impactos indiretos da queima de combustíveis fósseis. Por exemplo, ele não inclui o custo da mudança climática no preço da energia gerada pelo petróleo ou no preço da gasolina. Assim, os preços seriam muito mais altos do que são e, portanto, mais honestos e verdadeiros. Quando compramos um galão de gasolina nos EUA, pagamos pela extração do petróleo, o transporte do produto para uma refinaria, a produção da gasolina e então, o transporte da gasolina para uma estação servil. Não se contabiliza o custo da mudança climática. Se reestruturarmos os tributos, reduzindo o imposto de renda e aumentando a taxação de atividades ambientalmente destrutivas, podemos levar o mercado a contar a verdade ambiental. Ao fazermos isso, a economia energética começará, muito rapidamente, a se reestruturar e a responder aos sinais de preço do mercado. Essa é a medida mais importante para nos mover em direção a uma economia de baixa emissão de carbono. Enquanto isso, precisamos subsidiar o desenvolvimento das fontes renováveis de energia – eólica, solar e geotérmica – com impostos atraentes”.
Sobre como fica o Protocolo de Kyoto nessa perspectiva, argumenta “há mais de uma década, houve a negociação do Protocolo de Kyoto”. Agora estamos próximos de negociar um sucessor para o acordo que expira em 2012. Minha conclusão é que acordos climáticos, negociados internacionalmente, não dão certo. A razão para isso é simples. Nenhum governo concorda em fazer mais do que os outros países se dispõem a fazer. O resultado é um acordo com padrões mínimos. O próprio Protocolo de Kyoto constitui um bom exemplo disso. Deveríamos ter nos afastado dele com algumas metas de cortes de emissões dramáticas, mas não o fizemos.
Concordamos que os países industrializados cortassem as emissões em torno de 7%. O fato é que a maioria deles não está nem perto de atingir essa meta de percentual. Acredito que não temos tempo para continuar negociando novos acordos climáticos para reduzir as emissões de carbono. Por isso, temos que pensar em uma maneira de diminuir drasticamente as emissões. Se quisermos ter uma chance decente de salvar a civilização, teremos que cortar as emissões de carbono algo em torno de 80% até 2020. “Isso soa ousado, mas está começando a gerar uma mobilização semelhante a dos tempos de guerra para reestruturar a economia energética dos EUA e mudar a matriz”.
Questionado sobre quais os caminhos alternativos aos acordos internacionais, referiu “acredito em ações locais. Muitos governos começarão a cortar rapidamente as emissões de seus países. Na Nova Zelândia, por exemplo, a primeira ministra Helen Clark tomou decisões importantes, independentemente de qualquer negociação internacional. Seu país se comprometeu a aumentar o uso de fontes renováveis para geração de energia elétrica dos atuais 70% para 90% até 2020. Também assumiu o compromisso de reduzir pela metade o uso de combustível para carros por habitante até 2040. Vai plantar cerca de 200 mil hectares de árvores, algo em torno de 31 árvores por habitante, número significativo para o sequestro de carbono. Nos EUA, observa-se um extraordinário movimento político, especialmente nos últimos 18 meses, de oposição às novas usinas termoelétricas alimentadas com carvão. E esse movimento tem influenciado Wall Street. Alguns dos maiores bancos, como o JP Morgan, o CitiBank e o Morgan Stanley, entre outros, criaram os “Carbon Principles”. Com base neles, afirmaram que não financiarão mais empresas de energia para a construção de novas usinas termoelétricas a carvão, a não ser que esses projetos possam demonstrar a viabilidade econômica das plantas, depois que o governo americano impor restrições às emissões de carbono. Mas como ninguém sabe quais seriam essas restrições e os custos para atendê-las, não há como mostrar a viabilidade econômica dos projetos”.
Por fim, sobre quais deveriam ser os principais desafios para um estilo de vida mais sustentável nas cidades, Lester Brown assevera, “pela primeira vez na história da humanidade existem mais pessoas vivendo nas cidades do que fora delas. Em decorrência disso, estamos vivenciando crises em questões fundamentais como a mobilidade. As tecnologias de transporte funcionam em comunidades-modelo. Cresci em uma comunidade de fazendeiros onde sem os carros teríamos enorme dificuldade de locomoção. Mas à medida que os carros se multiplicam nas cidades, descobrimos que eles promovem, na verdade, a imobilidade. Em Londres, por exemplo, a velocidade média de um carro é menor do que a de uma carruagem do século 20. Ainda sim, investimos grandes quantias de dinheiro em carros que podem andar mais rápido. Por isso, as grandes cidades de países ricos e em desenvolvimento estão repensando os transportes. A melhor alternativa é o transporte público rápido. A experiência do sistema de ônibus de Curitiba é um modelo inspirador para prefeitos de vários lugares do mundo. Observo com interesse o que as cidades estão fazendo para abrir espaço ás bicicletas. Na China, por exemplo, houve um movimento na direção de substituir as bicicletas pelos carros. Mas, diante das evidências de que isso não daria certo, já se planeja seriamente como restaurar o equilíbrio entre os dois tipos de veículo”. (ecodebate)

Ondas de calor aumentarão substancialmente até meados do século

Emergência Climática – Ondas de calor podem aumentar substancialmente até meados do século, diz novo estudo.
Onda de calor extremo, em julho de 2019.
Nosso planeta está assando sob o sol neste verão, quando as temperaturas atingem as mais quentes já registradas e as ondas de calor se espalham pelo mundo. Enquanto o clima continua quente, os cientistas esperam que a frequência e a intensidade das ondas de calor aumentem. No entanto, um aspecto comumente esquecido é o tamanho espacial das ondas de calor, apesar de suas importantes implicações.
Pela primeira vez, em um novo estudo, cientistas financiados em parte pelo Programa de Observação e Monitoramento Climático do Escritório do Programa Climático da NOAA examinaram esse aspecto sob dois cenários diferentes. Eles descobriram que em meados do século, em um cenário de emissões médias de efeito estufa, o tamanho médio das ondas de calor poderia aumentar em 50%. Sob altas concentrações de gases de efeito estufa, o tamanho médio pode aumentar em 80% e as ondas de calor mais extremas podem dobrar de tamanho.
“À medida que o tamanho físico dessas regiões afetadas aumenta, mais pessoas ficam expostas ao estresse térmico”, disse Brad Lyon, professor associado de pesquisa da Universidade do Maine e principal autor do novo artigo publicado na Environmental Research Letters . “Ondas de calor maiores também aumentariam as cargas elétricas e o pico de demanda de energia na rede, à medida que mais pessoas e empresas ligassem o ar condicionado em resposta”.
Além do tamanho da onda de calor e da população exposta, os autores descobriram que atributos relacionados como duração, magnitude e graus-dia de resfriamento (uma medida para uso de energia) poderiam aumentar substancialmente. No entanto, Lyon observou que esses resultados não eram particularmente surpreendentes.
“Um aumento em atributos como magnitude e duração é consistente com as expectativas de um clima quente”, disse Lyon. “O que há de novo em nosso estudo é a maneira como os calculamos, o que nos permitiu considerar o tamanho como uma nova dimensão de onda de calor”.
O tamanho das ondas de calor é importante para as comunidades.
Pesquisas anteriores geralmente calculavam estatísticas de ondas de calor no nível local – computando atributos como frequência para cada local ou ponto de grade e, em seguida, agregando os resultados para ver padrões espaciais. Neste estudo, os autores acompanharam ondas de calor e quantificaram seus atributos como regiões conectadas que se movem e mudam de tamanho e força ao longo da vida.
“É como assistir o que grupos de pessoas estão fazendo enquanto se movem juntos em um parque, em vez de apenas contar quantas pessoas de todos esses grupos entraram no parque”, disse Lyon.
Os autores explicaram que o estresse adicionado de uma onda de calor contínua em uma região é muito diferente das condições dispersas que se somam a uma área do mesmo tamanho.
“Se você tiver uma grande onda de calor contígua em uma área altamente povoada, seria mais difícil atender a demanda elétrica máxima do que em várias áreas com ondas de calor menores que, quando combinadas, são do mesmo tamanho”, disse Tony Barnston, chefe de previsão do Instituto Internacional de Pesquisa da Universidade de Columbia para Clima e Sociedade e coautor do artigo.
Ao analisar as ondas de calor sob essa perspectiva, os autores puderam avaliar como o tamanho de uma onda de calor, além de fatores como sua intensidade e frequência, pode impactar as comunidades.
Considere o tamanho da onda de calor no planejamento futuro
Os autores observam que sua nova abordagem poderia ajudar as concessionárias a testar a capacidade de seu sistema de energia para atender aos requisitos de demanda durante ondas de calor espacialmente extensas. Essas informações podem informar as decisões de gerenciamento e o planejamento para o futuro.
“O tamanho da onda de calor é outra dimensão do calor extremo em que as pessoas não necessariamente pensam”, disse Lyon. “É um ponto de vista diferente para vê-los e avaliar seus impactos”.
“E, como o estudo sugere, se os gases de efeito estufa e, consequentemente, os tamanhos das ondas de calor continuarem a aumentar, o mesmo ocorreria com os impactos nos sistemas de energia e saúde pública de nosso país”.
Influência humana no clima é principal causa do aquecimento.
O aumento das temperaturas é evidente e cada uma das últimas três décadas tem sido sucessivamente mais quente.
Aquecimento global: de acordo com o documento, as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso aumentaram para níveis sem precedentes nos últimos 800 mil anos. (ecodebate)

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A sustentabilidade segundo Lester Brown, Parte ½

Para Lester Brown, um dos mais importantes pensadores ambientais do mundo, a injeção de recursos dos governos norte-americano e europeus não será suficiente para tornar mais sustentável a combalida economia internacional. O momento urgente sugere um plano B.
A transição para a sustentabilidade passa, segundo ele, por taxar atividades baseadas na queima de combustíveis fósseis, incentivar o desenvolvimento e uso de energias renováveis criando novos empregos. Em seu livro, “Plan B 3.0: mobilizing to save civilization” (Plano B 3.0: mobilização para salvar a civilização, ainda sem tradução para o português), Brown mostra que evitar o declínio da economia significa impedir o colapso da civilização.
Afirma Lester Brown “as corporações precisam reconhecer que seu futuro é inseparável do futuro da civilização e que elas também são responsáveis pela manutenção da vida na Terra. Devem, portanto, contribuir com a construção de uma economia global sustentável. Sem isso, vamos enfrentar um colapso. Nenhuma companhia terá lucro avançando na escalada rumo à destruição. Precisamos rever rapidamente a economia global e particularmente a matriz energética por meio de políticas econômicas que reestruturem taxas e pressionem o mercado a contar a verdade ambiental”, ressalta o especialista.
A “verdade ambiental” a que se refere Brown diz respeito à inabilidade do mercado em incorporar impactos indiretos, também conhecidos em economia como externalidades, que são causados ao meio ambiente e à sociedade pelas atividades econômicas. A inversão dessa lógica, que seria favorecer as tecnologias e práticas mais limpas em detrimento das baseadas na queima de combustíveis fósseis, representa uma oportunidade para criar novos postos de trabalho.
Apresentar a visão de um futuro sustentável e também os meios práticos para construí-la tem sido a missão de Brown ao longo de 40 anos dedicados à militância ambiental. Em 1974, ele fundou o “Worldwatch Institute”, uma organização sem fins lucrativos especializada na análise das questões ambientais globais. Em 1984, lançou a série de relatórios “O Estado do Mundo”. Traduzido para as principais línguas, os documentos alcançaram status semioficial, tornando-se uma espécie de “Bíblia” do movimento ambiental. Em 2001, Brown criou a “Earth Policy Institute”, do qual ainda hoje é presidente. A organização passou a disseminar informações na área ambiental utilizando, como suporte, uma rede mundial de editores, principalmente na Internet.
Apesar de entusiasta do termo desenvolvimento sustentável, Brown acredita que ele não seja muito empolgante. Em sua opinião, a associação de aspectos sociais e políticos à discussão, inicialmente apenas ecológica e esvaziou o sentido do conceito. “Ao se tornar tão ampla, a sustentabilidade passou a significar pouco. O termo não mobiliza as pessoas”, ressalta Brown.

Perguntado sobre como avalia a evolução do conceito da sustentabilidade, se manifestou, “o conceito de desenvolvimento sustentável evoluiu nos últimos 35 anos”. A princípio, falávamos apenas de sustentabilidade ecológica, mas o termo tem sofrido mutações para incluir a sustentabilidade social e política. Em alguns pontos, isso é tão amplo que não chega a significar muito.
Embora intelectualmente útil, o termo sustentabilidade parece não empolgar e mobilizar as pessoas. Por isso, no “Earth Policy Institute”, começamos a falar sobre salvar a civilização em vez de desenvolvimento sustentável porque é disso que realmente se trata. Assim, a discussão adquire um senso de urgência muito maior quanto ao que está em jogo.

Provocado a opinar de que maneira a crise econômica, ambiental e social que vivemos atualmente está relacionada com a teoria econômica de base mecanicista, argumentou que “o modelo mental por trás da crise financeira é o mesmo que criou a crise ambiental e a insustentabilidade da economia em termos ambientais”.
Esse modelo valoriza o presente em vez de se expandir para o futuro. Isso nos leva não apenas a déficits econômicos e a parte central dessa crise que são os déficits ecológicos, que são parte central da crise ambiental hoje vivida. Mudança climática, desmatamento, erosão do solo, colapso de algumas indústrias de pesca ou a queda de aquíferos dizem respeito, de um jeito ou de outro, a déficits ecológicos. Em suas origens, a crise econômica mundial está muito ligada à crise ambiental que estamos experimentando já há algum tempo.
Indagado sobre quais deveriam ser a base de novos modelos econômicos e mentais capazes de nos conduzir para uma sociedade sustentável asseverou “na verdade, o único modelo que pode salvar a civilização é aquele que satisfaz as necessidades atuais sem prejudicar a capacidade das futuras gerações atenderem as suas próprias. Se continuarmos, por exemplo, a queimar combustíveis fósseis em larga escala, aumentando a temperatura da atmosfera, as camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida derreterão. Com isso, veremos um aumento enorme no nível do mar e, por consequência, um enorme caos. Em uma região como a Ásia, por exemplo, o derretimento dos glaciais nas montanhas do Himalaia, ao norte da Índia, ou do planalto do Tibete, alimentará os rios da região fora dos períodos das monções. Se essas camadas de gelo derreterem completamente com o aumento da temperatura, os rios desaparecerão na época de seca, prejudicando fazendeiros que dependem desses cursos d’água para irrigação. Isso não é apenas importante para países como a Índia e China, mas para todo o mundo, na medida em que poderemos viver a escassez de alimento em uma escala inimaginável. (ecodebate)

Água e Sínodo da Amazônia

A Ciência tem mostrado repetidamente a importância da floresta para manter o ciclo da água em todo o planeta. O desmatamento afeta todo este ciclo e os ecossistemas presentes nos rios e lagos. Com a água tornando-se um dos assuntos mais importantes do século, quem em sã consciência imagina que devastar as terras amazônicas é um bom negócio? Sem a floresta não teremos água no futuro na mesma quantidade que temos atualmente porque as duas estão intimamente interligadas para a mútua sobrevivência. Água e terra são frequentemente percebidas como coisas separadas porque muitos de nós ainda percebemos erroneamente os vários elementos da natureza desconectados entre si. Um Território só existe por cause da harmonia entre os seus elementos naturais.
Parte da floresta amazônica brasileira está sendo desmatada por grandes corporações do Canadá, da Europa, do Japão e dos Estados Unidos direta ou indiretamente. Algumas das companhias madeireiras terceirizam o serviço do desmate para empresas brasileiras e assim podem escapar da fiscalização e das denúncias de desmatamento ilegal naquela área. Comunidades são afetadas já que muitos dos seus habitantes sobrevivem da extração da borracha das seringueiras. Sem as árvores, não há trabalho para as famílias que acabam migrando para as favelas das grandes cidades como Manaus e Belém. A exploração desequilibrada da natureza força as pessoas a deixarem não apenas o lugar onde cresceram, mas também uma maneira tradicional de viver na floresta que foi desenvolvida por gerações que fazem delas os Povos das Florestas e das Águas. Cientistas também têm demonstrado que a presença humana, iniciada com as migrações dos grupos originários, foi muito importante para o aumento da biodiversidade do bioma da Amazônia. Isso prova que o problema não é ter humanos vivendo nas matas, mas como eles interagem com o meio em que vivem.
Depois de desmatar e exportar a madeira, a terra recebe o pasto para o gado ou a plantação de soja. Ironicamente, o Brasil se tornou um dos maiores produtores de soja no planeta sem que a sua população brasileira seja uma consumidora desta leguminosa.
A floresta também está sendo ameaçada pela extração de minério. Multinacionais estão explorando os mais diversos tipos de minérios na Amazônia, principalmente no Pará, causando prejuízos às comunidades locais através da poluição das suas terras e dos seus rios e igarapés. Os produtos químicos jogados nestes mananciais levariam décadas para desaparecer se o trabalho de limpeza fosse iniciado agora, o que não é, infelizmente, o que está acontecendo.
Some-se aos problemas citados acima a construção das grandes barragens a exemplo de Belo Monte. Elas desviam o curso dos rios interferindo na vida aquática, causando mudanças no ecossistema local, além de deslocar milhares de pessoas causando grandes prejuízos na vida econômica dos moradores da região. Não esqueçamos que 70% da água doce no Brasil está naquela região e existem muitas empresas do Mercado da Água de olho nos mananciais amazônicos. Com a onda de privatização das nossas águas, perder o controle sobre a Amazônia é uma questão de soberania para o nosso país.
Em meio a toda esta crise, o Sínodo da Amazônia acontecerá em Roma entre os dias 6 a 27 de outubro com delegados e delegadas de várias partes da Amazônia do Brasil e de outros países da região para discutir vários destes problemas. Será uma grande oportunidade para mostrar ao mundo porque pessoas como Chico Mendes e Irmã Dorothy Stang eram tão apaixonados pela sacralidade da Amazônia com milhões de espécies de animais e vegetais e pelos povos que lá habitam.
Será também uma oportunidade para chamar a atenção para o fato de que muitos políticos que estão no poder tomando decisões cruciais para aquela área do planeta não têm o conhecimento necessário para tal por não entenderem a dinâmica da natureza amazônica e, por causa disso, estão promovendo desastrosos projetos de desenvolvimento. Por outro lado, há também certos ambientalistas que pregam o despovoamento naquela região como uma forma de preservá-la como se a Amazônia fosse um santuário intocável. São extremos que não respeitam com a realidade dos Povos das Florestas e das Águas e suas formas tradicionais de viver. Estes Povos já dialogam com as tecnologias e sistemas modernos de produção sem desequilibrar o meio ambiente. Sem dúvida, o ideal é promover cada vez mais este diálogo sem imposição do poder econômico e interferência de “alienígenas” com os seus kits de ferramentas importadas com soluções mágicas. A autonomia daqueles Povos nas decisões sobre o lugar onde vivem é essencial para a preservação da Amazônia.

O Sínodo Amazônico e a Fraternidade Franciscana.
Este Sínodo pode ter a magnitude vulcânica do Vaticano II, afirma Presidente da Família Franciscana do Brasil. (ecodebate)

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Jogo de empurra deixa população no escuro sobre presença de agrotóxico na água

Omissão e jogo de empurra deixam população no escuro sobre presença de agrotóxico na água.
Resumo: Não há nenhuma punição para cidades que burlam a lei ao não enviar dados sobre pesticidas ou que não agem quando teste sugere contaminação.
Não importa em qual parte do país você mora: pode ser difícil ou mesmo impossível saber se o copo de água que você está bebendo tem ou não agrotóxico e, pior, se a concentração do pesticida está acima do limite considerado seguro no Brasil.
O problema veio à tona após a publicação, pela Repórter Brasil e Agência Pública em parceria com a organização suíça Public Eye, da reportagem “Coquetel” com 27 agrotóxicos foi achado na água de 1 em cada 4 municípios”. Nela, um mapa interativo feito com base nos dados do Ministério da Saúde, coletados entre 2014 e 2017, mostrava os pesticidas encontrados nas torneiras do país, destacando quais municípios tinham índices acima do limite considerado seguro.
O mapa, divulgado em abril deste ano, trouxe pela primeira vez os dados nacionais de forma clara, de modo que o público não especializado pudesse entender. A publicação gerou grande repercussão, com mais de 400 veículos de mídia discutindo os resultados de suas cidades. Além do grande interesse público sobre esses dados, a repercussão revelou também que há uma série de falhas no monitoramento e na responsabilização dos órgãos envolvidos.
Há cidades, como Brasília e Recife, que descumprem a legislação ao não enviarem ao Ministério da Saúde os resultados dos testes sobre agrotóxicos na água. E outras como Bauru (SP), onde nenhuma providência foi tomada pela Vigilância Ambiental mesmo depois que os dados apontaram concentração de pesticidas na água 160 vezes acima do valor permitido – o que indicaria um risco iminente à população que bebe essa água. Também há empresas de abastecimento que minam a credibilidade do banco de dados ao enviar os resultados dos testes usando parâmetros diferentes dos estabelecidos pelo Ministério da Saúde, caso de São Carlos (SP), Porto Alegre (RS), Viçosa (MG) e Balneário Camboriú (SC).
É um ambiente de desregulação total”, afirma o procurador do Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul, Marco Antonio Delfino de Almeida, sobre a estrutura que gira em torno do Sisagua, o sistema criado pelo Ministério da Saúde para armazenar dados sobre a água e que funciona com o preceito de que a responsabilidade de alimentá-lo corretamente é dividida entre União, estados, municípios e empresas de abastecimento. “Deveria ser papel do poder público analisar, avaliar e trazer esses dados para população de maneira ampla, irrestrita e transparente. Mas isso não acontece.”
Almeida chama atenção para a gravidade de situações em que, mesmo quando os testes não foram enviados ou os resultados indicavam concentração perigosa à saúde humana, não houve fiscalização, cobrança por providências ou penalidades.
No escuro
Casos analisados pela reportagem, em diferentes partes do país, ilustram como uma série de omissões vem deixando a população no escuro quanto à presença de agrotóxicos na água que sai de sua torneira, colocando em risco a saúde das pessoas.
Brasília e Recife, por exemplo, representam um problema que atinge 52% dos municípios brasileiros: os resultados dos testes de 2014 a 2017 não foram enviados ao Ministério da Saúde. Isso significa que os responsáveis não realizaram os testes para medir a presença de agrotóxico na água ou, se fizeram, não enviaram os dados para o Sisagua.
Antes mesmo da divulgação da reportagem, cobramos a inclusão dos números, mas eles não cumpriram”, explicou João Suender, da Vigilância Ambiental da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, explicando que a responsabilidade pela coleta e envio dos dados ao Sisagua é da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb). A Caesb confirmou que houve “inúmeras dificuldades para repassar algumas informações referentes a agrotóxicos, sobretudo devido à falta de padronização existente”.
Suender argumenta que nada pode ser feito para punir a empresa que não envia os dados, já que a regulação do sistema é feita por uma portaria, instrumento que não teria poder de responsabilizar infratores.
Mas esse argumento é rechaçado pelo professor de Direito Administrativo da Universidade Mackenzie, Cecílio Moreira Pires. Ele explica que a portaria é vinculada à lei 6.437 de 1971, que prevê sanções para infrações. “O problema não é ausência de lei e, sim, de fiscalização e monitoramento do que fazem as empresas de abastecimento. O poder público não possui servidores suficientes e habilitados para exercer essa função”, sustenta.
A situação de Brasília se repete nas regiões Norte e Nordeste – onde o mapa publicado em abril pela reportagem revela um grande vazio de dados, já que a maioria dos municípios não envia informações sobre a presença de pesticidas da água. É o caso de Recife, capital pernambucana. A Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) reconheceu o erro e afirmou “que as análises de agrotóxicos estão disponíveis somente até o ano de 2015” e que está em processo de reforma dos laboratórios.
Já a Secretaria de Saúde Municipal informou que “há uma orientação do Ministério da Saúde que elege municípios prioritários para monitoramento de agrotóxicos e Recife não entra nessa lista por ter um perfil urbano, além de não possuir manancial de água para abastecimento local que possa sofrer esse tipo de contaminação”. De fato, segundo a norma do Sisagua, a Vigilância tem a prerrogativa de priorizar em quais cidades confere os dados, mas precisa garantir que todos os municípios enviem os resultados duas vezes ao ano. A nota afirma ainda que a Vigilância Ambiental não testa os agrotóxicos na água, “a não ser que existam evidências epidemiológicas para esse monitoramento”. A secretaria, porém, não esclareceu o que seriam “evidências epidemiológicas” e se alguma vez fez algum teste.
De acordo com o Mapa da Água, porém, nenhuma cidade pernambucana enviou os testes, como prevê a portaria do Sisagua. A Secretaria de Saúde de Pernambuco, por meio de nota, reconheceu a não inserção dos dados e afirmou que eles “foram analisados e serão inseridos no sistema apesar das amostras de vigilância não terem identificado valores que ultrapassassem o limite máximo referente ao padrão [estabelecido pela legislação brasileira]”.
As omissões e o jogo de empurra de Brasília, Recife e de outras cidades que não monitoram a presença de agrotóxicos na água prejudicam o efetivo controle “porque não há uma avaliação crítica ou uma validação dos dados”. É o que sustenta a professora Gisela Umbuzeiro do departamento de toxicologia e genotoxicidade da Unicamp, que conduziu um estudo sobre o Sisagua.
Primeiro, não faz sentido tantos municípios brasileiros não alimentarem o sistema. Depois, mesmo em cidades que armazenam os dados, não existe análise técnica aprofundada do que foi informado”, pontua. Segunda a professora, sem validar essas informações, não é possível conhecer as particularidades de cada região – o que ajudaria no monitoramento. “A depender do tipo de cultivo que é plantado numa região, é possível saber qual agrotóxico é mais utilizado e fazer testes mais específicos de acordo com a realidade local”.
O alarme soou, ninguém reagiu
Outro problema grave evidenciado após a publicação do mapa é o dos municípios que registraram concentração de agrotóxicos acima do que é considerado seguro no país. Nesses casos, ações deveriam ser tomadas para averiguar se os dados estão corretos e encaminhar medidas para resolver o problema. Mas nem mesmo nesses casos providências foram tomadas. É o que aconteceu em Bauru, no interior de São Paulo, onde os números do Sisagua indicavam que seis agrotóxicos foram detectados em concentração acima do Valor Máximo Permitido, em diferentes datas entre 2014 e 2017, sendo que dois dos pesticidas (Clorpirifós e o Aldrin) foram encontrados em dois pontos de coletas diferentes na cidade.
A reportagem entrou em contato com os órgãos responsáveis e descobriu que nenhuma ação foi tomada. Das oito irregularidades, quatro foram registradas em pontos de coleta de responsabilidade do DAE (Departamento de Água e Esgoto) e as outras quatro em locais particulares, incluindo um poço (em um instituto de pesquisa local) a cargo da Vigilância Ambiental – ligada à Secretaria Municipal de Saúde. Danielle Depicolli Chiuso, chefe de Seção de Análise de Água do DAE de Bauru, enviou à reportagem os laudos referentes aos pontos que, no Sisagua, mostravam um nível de agrotóxico muito acima do máximo permitido. Nos documentos, no entanto, os índices eram diferentes daqueles enviados ao Sisagua e estavam dentro do autorizado. “Esses laudos mostram que a água de Bauru não estava contaminada e comprovam que apenas houve erro na hora de passar os dados no sistema do Sisagua”, afirma Chiuso.
O erro citado ficaria na conta da Vigilância, que na época era responsável por inserir no Sisagua os dados coletados pelo DAE. Roldão Puci, chefe de Ações de Meio Ambiente da Divisão de Vigilância Ambiental de Bauru, afirmou que os erros podem ter acontecido durante “um mutirão para digitação dos dados” no Sisagua, mas que não havia como confirmar.
O Sisagua é muito pesado, complexo e demorado. Por isso, a gente prefere fazer a checagem no laudo em si. Também é mais simples fazer a conferência in loco do que no Sisagua”, afirma Puci.
Mas a Vigilância Municipal não apresentou os laudos das coletas de pontos de sua responsabilidade que mostravam água contaminada, como uma realizada em dezembro de 2017 no Instituto Lauro de Souza Lima, em que o agrotóxico Clorpirifós, cujo valor máximo permitido é de 30µg/L (micrograma por litro), mostrava um resultado de 5.000µg/L, um índice que, se fosse verdadeiro, ofereceria riscos imediatos à população de Bauru.
Quem, então, deveria vigiar a Vigilância, que não percebeu o problema ou percebeu e não foi atrás? Em qual setor das esferas públicas deveria acender um alerta para checar se esses dados altíssimos seriam erros de digitação ou se, de fato, a água estava com alto grau de contaminação?
A resposta passa pela Secretaria Estadual já que, segundo a portaria do Ministério da Saúde sobre tema, “compete às Secretarias de Saúde do Estados promover e acompanhar a vigilância da qualidade da água, em articulação com os Municípios e com os responsáveis pelo controle da qualidade da água”.
Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo informou que “a responsabilidade de investigação e análise da qualidade da água é do município e das empresas responsáveis pelo abastecimento. O Estado capacita e orienta as vigilâncias municipais para que a análise de dados seja feita de forma correta”.
Metodologia fora do padrão
Reportagem revelou que a concentração de agrotóxico encontrado nas águas das cidades brasileiras está acima do limite considerado seguro
Um terceiro grande problema ficou visível quando a publicação do mapa abriu a “caixa-preta” dos agrotóxicos na água: nem todas as empresas seguem corretamente as orientações do Ministério da Saúde para lançar os resultados no sistema.
Um dos pontos mais delicados foi esclarecido após a divulgação da reportagem, quando algumas empresas de abastecimento reclamaram que estaria errada a interpretação feita pela reportagem – que se baseou na orientação do Ministério da Saúde. O ponto em questão era a leitura de dois códigos: o Limite de Quantificação e o Limite de Detecção.
Foram tantos os questionamentos enviados pelas empresas em decorrência da publicação do mapa que, em junho, o Ministério da Saúde convocou uma reunião técnica com representantes das empresas de abastecimento, do Inmetro, dos laboratórios de saúde pública, das Secretarias de Saúde e da ANVISA para elucidar a metodologia para leitura dos dados.
Algumas empresas alegavam que ao declarar o código “Menor que o Limite de Quantificação” estavam comunicando que não foi possível detectar agrotóxico na água. Mas, segundo Thaís Araújo Cavendish, coordenadora-geral de Vigilância em Saúde Ambiental, o ministério esclareceu que esse resultado na verdade significa que agrotóxicos foram identificados na água, mas em concentrações tão baixas que não puderam ser quantificadas.
Pode parecer uma conversa técnica de químicos, mas a compreensão correta da metodologia é fundamental para que o sistema de vigilância funcione para monitorar e garantir a qualidade da água.
Agora, com a esclarecimento da metodologia por parte do Ministério da Saúde, as empresas ou órgãos públicos que interpretavam errado precisarão corrigir os dados daqui para frente e também retroativamente. A pasta informou que deu até o fim deste mês (outubro) para essa correção acontecer.
Lista dos 27 ampliada
Outra crítica feita ao sistema é a de que os testes buscam apenas 27 ingredientes ativos de agrotóxicos – somente em 2019, o governo aprovou a comercialização de mais de 400 novos produtos agrotóxicos. “É preciso que haja um monitoramento mais amplo, até para se verificar de fato que tipo de agrotóxicos está sendo usado em determinada região”, completa a professora Gisela Umbuzeiro, da Unicamp.
O Ministério da Saúde estuda aumentar o número de ingredientes que precisam ser testados e os valores de referência. Mas, além da lista mínima fixada em âmbito federal, cada estado deve editar normas complementares à norma nacional a fim de atender às especificidades de seus territórios. Um exemplo é a norma editada pelo Rio Grande do Sul, que estabeleceu a obrigatoriedade do monitoramento de agrotóxicos que não constam na lista nacional, mas que são muito usados nas lavouras gaúchas. Atualmente, o estado testa, além dos 27 exigidos por lei, outros 46 pesticidas na água.
Especialistas apontam ainda outros problemas que comprometem a credibilidade dos dados armazenados no Sisagua, como a falta de verificação dos dados fornecidos pelas empresas de abastecimento, que podem ser inseridos pelas próprias empresas.
Não existe uma avaliação crítica do que é colocado. Se, por um lado, as concessionárias precisam analisar as amostras, por outro é necessário que depois exista a verificação se as normas estão sendo atendidas”, reitera Umbuzeiro.
O procurador Almeida aponta ainda um conflito de interesses neste sistema. “Como as próprias empresas que são responsáveis por alimentar o sistema vão registrar a presença de agrotóxicos na sua água?”, questiona.
Cadeia de responsabilidades e penalidades
Segundo o procurador Almeida, todos esses problemas “evidenciam como empresas e órgãos públicos nem sempre cumprem seu papel, o que, na prática, faz com que hoje o Sisagua não funcione efetivamente como ferramenta de verificação”.
Para que a complexa engrenagem funcione, a responsabilização administrativa ou judicial dos órgãos envolvidos deveria começar do local (municipal) para o nacional, segundo Marco Antonio Ghannage Barbosa, Procurador do Ministério Público Federal. Ou seja, primeiro, cobra-se das instâncias municipais (empresas de fornecimento e da vigilância sanitária); depois, das estaduais (Secretaria do Meio Ambiente) e, por fim, Ministério da Saúde e Ministério Público Federal podem atuar para cobrar os responsáveis, com sanções que podem variar de advertências a multas e ações indenizatórias.
Foi esse o caminho trilhado no Mato Grosso do Sul. O procurador Almeida, do Ministério Público, entrou com um pedido na Justiça pedindo que Estado e União garantissem a realização de testes na água de Dourados – por conta da possível relação entre a contaminação da água com o aumento dos casos de câncer na cidade.
Neste caso, o jogo de empurra está perto do fim: uma sentença determinou em agosto que o governo federal pague uma multa de R$ 90 milhões por descumprimento de uma decisão 2016 que determinava a análise da água consumida pela população. A decisão, da qual ainda cabe recurso, determina que o valor seja usado na construção de um laboratório para que, enfim, os testes sejam realizados.
Medidas como estas são fundamentais para garantir que os órgãos envolvidos cumpram seu papel, sobretudo em um cenário atual em que o Governo Federal tem ampliado e acelerado o processo de liberação de novos ingredientes ativos de agrotóxicos para uso no país. No entanto, enquanto mais da metade dos municípios brasileiros não realizarem os testes definidos em lei, grande parte da população brasileira continuará no escuro sobre a real presença de agrotóxicos nas torneiras da sua cidade. (ecodebate)