quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Reduzir o aquecimento global requer esforço sem precedentes

Reduzir o aquecimento global requer esforço sem precedentes, diz ONU.
Relatório do IPCC alerta para a urgência de tomar medidas para reduzir 45% das emissões de carbono em pouco mais de dez anos e evitar aquecimento acima de 1,5ºC.
Cenas de seca como essa podem ser cada vez mais comuns no final do século.
Enquanto o Brasil começava a conhecer alguns de seus novos governantes na noite de 07/10/18 na Coreia do Sul, uma reunião com cientistas e autoridades de diversos países ligadas à ONU divulgou notícias que dizem respeito a todos os brasileiros, e demais habitantes do planeta, embora poucos se deem conta.
O Acordo de Paris, assinado em 2015 na Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima, traçou os objetivos a serem atingidos pelas nações para evitar que o aquecimento global chegue ao final do século abaixo dos 2°C, com uma meta ideal de 1,5°C.
Em seguida, encomendou ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) um estudo que colocasse em números o desafio de atingir a meta, e as possíveis consequências de não fazê-lo. São milhares de cientistas trabalhando de forma colaborativa, analisando os mesmos conjuntos de dados e estudos, para chegar a um consenso. Um trabalho de anos para chegar aos resultados divulgados na manhã coreana, e eles não são muito animadores.
“Uma das principais mensagens que saem deste relatório é que já estamos vendo as consequências de 1°C de aquecimento global através de condições climáticas mais extremas, aumento do nível do mar e diminuição do gelo do Ártico, entre outras mudanças", disse Panmao Zhai, co-presidente do Grupo de Trabalho do IPCC I.
Vamos começar pelas boas notícias: é possível atingir a meta. Se começarmos a reduzir drasticamente a emissão de dióxido de carbono, o CO2, até zerar por volta de 2050, e de outros gases, como metano, talvez consigamos impedir que a temperatura global ultrapasse 1,5°C. Mas quando reduzir drasticamente não é força de expressão. Com 45% do corte já até 2030.
O problema é que estamos muito aquém do necessário. Se as emissões continuarem do jeito que estão, chegaremos a 1,5°C em 2040. Mesmo se atingidos os objetivos das nações individualmente com o Acordo de Paris, que no caso do Brasil é de reduzir 37% das emissões de carbono até 2025 e “possível” redução de 43% até 2030, chegamos ao ano 2100 acima dos 3°C.
O Relatório Especial do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, revelado na Coreia do Sul, indica que o aquecimento global ainda pode ser limitado a 1,5ºC. Se essa subida do termómetro não for contida, os efeitos do aquecimento serão trágicos à escala mundial, advertem os cientistas.
Solo ressecado próximo ao rio Nilo Branco, em Cartum, Sudão.
Com o aquecimento limitado em 1,5°C, o impacto será principalmente sentido pelas populações mais pobres. A agricultura perde produtividade, acarretando aumento dos preços dos alimentos, insegurança alimentar e fome. Fortes ondas de calor e inundações costeiras podem obrigar deslocamentos de populações. Mais de 100 milhões de pessoas podem entrar para a pobreza. O número de pessoas subnutridas no mundo poderia ser de 25 milhões a menos até o final do século do que sob o aquecimento de 2°C.
"Todo aquecimento importa, especialmente a partir de 1,5°C. Aumenta o risco associado a mudanças duradouras ou irreversíveis, como a perda de alguns ecossistemas", disse Hans-Otto Pörtner, copresidente do IPCC - grupo de trabalho II.
Problemas graves, mas que são possíveis de contornar. Basta que a humanidade queira. Mas, se chegar a 2°C, aí não vai ter muito o se que fazer. Países que são compostos por pequenas ilhas, como Tuvalu e Kiribati, vão desaparecer. A maioria das ondas de calor vai provocar sérios impactos à sociedade, com mortes, incêndios florestais e perdas de produção. Em países tropicais, como o Brasil, ondas de calor vão ocupar pelo menos metade do verão.
Poluição
Limitar a elevação da temperatura a 1,5°C, em comparação com os 2°C, pode prevenir cerca de 153 milhões de mortes prematuras por poluição do ar em todo o mundo até 2100 - cerca de 40% das mortes nos próximos 40 anos. Esse é um benefício tão grande que, em termos econômicos, pode até ser maior do que o custo total de reduzir as emissões de carbono na maioria dos principais países emissores.

À medida que as temperaturas sobem, as áreas protegidas começam a desaparecer. Em 2°C, 25% das 80.000 espécies de plantas e animais nas áreas mais ricas do mundo, como a Amazônia e Galápagos, podem enfrentar a extinção local até o final do século. Temperaturas de aquecimento podem afetar o comportamento de insetos e animais, causando um efeito cascata que afeta ecossistemas inteiros.
Sendo isso só uma pequena parte de uma longa lista de consequências que não deixam ninguém ileso. É preciso mudar, e agora, recomenda o IPCC. "Limitar o aquecimento a 1,5°C é possível dentro das leis da química e da física, mas isso exige mudanças sem precedentes", disse Jim Skea, copresidente do IPCC - grupo de trabalho III.
Para começar, o uso de combustível fóssil deve cair rapidamente. Principalmente o carvão, que deve ser quase totalmente eliminado por volta de 2040. O uso de petróleo também precisa cair ao longo do século.
Alcançar o 1,5 °C será muito mais fácil, mais barato e menos prejudicial se os governos tomarem medidas imediatas para mudar para energia limpa. O investimento contínuo em usinas de combustível fóssil significaria que futuros cortes teriam que ser mais drásticos. Se a energia eólica e solar continuar crescendo entre 25% e 30% por ano até 2030, então pode começar a crescer mais devagar, de 4% a 5%. Assim, o setor de energia elétrica estaria completamente descarbonizado na metade do século.
A indústria, diretamente responsável por 21% das emissões globais, deve encontrar meios de cortar suas emissões até 2050, e o transporte tem de passar a ser elétrico. Se cerca de 70% dos veículos forem elétricos até 2050, as emissões globais anuais de dióxido de carbono cairiam para o equivalente a cerca de 8% das emissões totais atuais. Mas isso não basta. É preciso planejamento urbano, de modo que diversas formas de transporte, como caminhada, bicicleta, trem, bonde, ônibus, se integrem para atender de forma fácil o cidadão, além de políticas públicas que desestimulem o uso do carro.
No prato
Nossa comida também precisa mudar. O que as pessoas comem é um fator importante que determina o estado da floresta e dos solos. A produção de carne, frutos do mar, ovos e laticínios é responsável por quase 60% das emissões relacionadas aos alimentos, apesar de contribuir com apenas 37% de proteína e 18% de calorias.
Quanto mais carne, peixe, laticínios e ovos as pessoas comem, mais difícil será limitar o aquecimento a 1,5°C. Mudar o hábito de comer mais de 100 gramas de carne por dia para comer menos de 50 gramas pode reduzir as emissões da comida de uma pessoa em 35%. Mudar para uma dieta vegetariana poderia reduzir as emissões em 47%, e mudar para uma dieta vegana poderia reduzir as emissões em 60%.
Florestas
Proteger os ecossistemas e prevenir a destruição de florestas são formas importantes de reduzir as emissões de carbono. O desmatamento deve ser zerado. Como as árvores e plantas absorvem CO2, o plantio florestal em grande escala e a restauração de ecossistemas danificados, como pântanos e mangues, também são métodos potencialmente significativos de remover carbono da atmosfera e também trazem muitos benefícios, incluindo filtração melhorada de água, proteção contra inundações, saúde do solo e habitat da biodiversidade.

Atualmente o solo libera mais gases de efeito estufa do que absorve, sendo responsável por cerca de 24% das emissões. Alguns cientistas sugeriram que esse processo, chamado de "Bioenergia com Captura e Armazenamento de Carbono" (BECCS), poderia ser uma forma relativamente barata de remover o carbono da atmosfera. Mas a tecnologia ainda está em fase de testes e o uso da BECCS em larga escala pode ter sérias consequências para o uso da terra e da água doce, a biodiversidade e o funcionamento dos sistemas naturais.
Limitar o aquecimento do planeta a 1,5°C requer ação mais ampla e rápida.
Passando por diversos aspectos das nossas vidas, o relatório IPCC tem o objetivo de servir de base para que governantes e idealizadores de políticas públicas pelo planeta construam uma sociedade que vá ao encontro de uma economia com carbono neutro. Uma medida urgente e inadiável, embora pensar nisso seja difícil na noite em que o candidato à Presidência da República mais votado do primeiro turno das eleições, com mais de 49 milhões de votos, Jair Bolsonaro (PSL), declara abertamente sua intenção de acabar com o Ministério do Meio Ambiente, fazendo uma fusão com o Ministério da Agricultura. (globo)

Recifes de coral no mundo enfrentam ‘futuro extremamente sombrio’

Mudanças Climáticas: Recifes de coral no mundo enfrentam ‘futuro extremamente sombrio’.
Os recifes de coral fornecem alimentos e meios de subsistências para centenas de milhares de pessoas do mundo e mais de um quarto da vida marinha depende deles.
Mudanças climáticas – Reunião no Egito pede ações urgentes para travar o problema; situação pode persistir mesmo com níveis de aquecimento global em 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais, até 90% dos recifes de coral serão perdidos nas próximas décadas.
ONU News
Reunião no Egito pede ações urgentes para travar o problema; situação pode persistir mesmo com níveis de aquecimento global em 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais, até 90% dos recifes de coral serão perdidos nas próximas décadas.
Representantes de mais de 100 países que fazem parte da Convenção sobre Diversidade Biológica, CDB, estão reunidos em Sharm El Sheikh, no Egito. O objetivo é iniciar um processo de dois anos para adotar uma estrutura global que proteja a biodiversidade, incluindo os recifes de coral.
Os dados mais recentes do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, IPCC, estimam que mesmo que as ações necessárias sejam tomadas para manter o aquecimento global em 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais, 70% a 90% dos corais serão perdidos nas próximas décadas.
Relatório do Ipcc destaca que falta ações em relação à mudança climática.
Ações Urgentes
Os recifes de coral fornecem alimento e meios de subsistência para centenas de milhares de pessoas no mundo e mais de um quarto da vida marinha depende deles. Esses ecossistemas também fornecem proteção de desastres naturais para comunidades e áreas costeiras. De acordo com a ONU Meio Ambiente, se “ações urgentes não forem tomadas, eles serão perdidos para sempre.”
O encontro anunciará uma nova coalizão formada por organizações de conservação intergovernamentais e internacionais além de fundações privadas. A mensagem do grupo é de que é preciso uma “liderança ousada para salvar os recifes de coral da quase extinção até a metade do século”.
Parceria
Entre a nova parceria estão diversas organizações, incluindo a ONU Meio Ambiente, a Iniciativa Internacional para os Recifes de Coral e o Fundo Mundial para a Natureza, WWF. A coalizão pretende aumentar a consciência sobre a crise dos recifes de coral e apelar para que os governos tomem as medidas necessárias.
O diretor da ONU Meio Ambiente, Erik Solheim, disse que “no momento as explosões de cores e vida que ficam no fundo no mar enfrentam um futuro extremamente sombrio, e que as expectativas em relação à coalizão não poderiam ser maiores.” Solheim acrescentou que “a proteção dos recifes de corais precisa se tornar uma prioridade mundial”.
Coalizão pretende aumentar consciência sobre crise dos recifes de coral e apelar para que governos tomem medidas necessárias.
Ameaças
O relatório do IPCC destaca que a falta de ações em relação à mudança climática resultará em perdas ainda maiores dos recifes de coral. Porém, a redução de ameaças não climáticas tem o potencial de melhorar a recuperação mais resiliente após impactos como eventos de branqueamento.
Práticas contra estas ameaças também podem ajudar a conservar os ecossistemas na medida em que eles enfrentam um estresse térmico sem precedentes.
De acordo com a ONU Meio Ambiente, a mudança climática não é a única ameaça que os recifes de coral enfrentam.


A pesca excessiva, a poluição e o desenvolvimento costeiro também causaram grandes perdas nos últimos 30 anos.
Assista ao vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=UycuivW7LdQ (ecodebate)

Novo mapa descreve a degradação ambiental em toda a Terra, entre 1992 e 2015

Degradação Ambiental – Ao comparar 24 anos de imagens de satélite, o mapa ajuda a iluminar desastres como o encolhimento do Mar de Aral e o que motiva os “refugiados do clima” a fugir.
Monitorar as mudanças globais na cobertura da terra é importante devido às preocupações sobre seu impacto no meio ambiente e no clima.
Um novo mapa da Universidade de Cincinnati ilustra uma força motivadora por trás das caravanas de migrantes que deixam a Guatemala e Honduras para chegar aos Estados Unidos.
O professor de geografia da UC Tomasz Stepinski criou o novo mapa mundial mostrando mudanças dramáticas no uso da terra ao longo do último quarto de século. Stepinski, professor da Faculdade McMicken de Artes e Ciências da Universidade da Califórnia, transformou imagens de satélite de alta resolução da Agência Espacial Européia em um dos aspectos mais detalhados até agora sobre como as pessoas estão reformulando o planeta.
“Neste exato momento, há caravanas de pessoas caminhando para os Estados Unidos. Muitas delas vêm da Guatemala”, disse Stepinski.
Agências de notícias como o The Guardian chamaram alguns dos migrantes da América Central de “refugiados da mudança climática”, já que muitos estão fugindo de anos sucessivos de quebra de safra. Mas Stepinski disse que a mudança climática conta apenas parte da história. Seu mapa mostra como a Guatemala tem sofrido um desmatamento generalizado.
“E eles perderam a floresta porque as pessoas usam madeira como combustível”, disse Stepinski. “É uma parte da crise dos refugiados”.
O projeto foi publicado no International Journal of Applied Earth Observation e Geoinformation .
O mapa digital ilustra como 22 por cento da superfície habitável da Terra foi alterada de forma mensurável, principalmente da floresta para a agricultura, entre 1992 e 2015.
“É muito informativo. Não há nada como isso”, disse Stepinski. “Há mapas de perda de floresta, mas nenhum mapa mostra tudo.”
O mapa conta uma nova história onde quer que você olhe, desde as perdas de terras úmidas no sudeste dos Estados Unidos até a devastação do Mar de Aral até o desmatamento nos trópicos e florestas tropicais temperadas.
“Claro, isso aumenta os alarmes. Mas eles não são novos”, disse Stepinski. “Nós já sabíamos sobre o desmatamento ou a perda de terras úmidas ou o aumento da urbanização. Mas agora podemos ver exatamente onde tudo isso está acontecendo”, disse ele.
A Agência Espacial Europeia, em 1992, começou a capturar imagens de satélite da Terra para estudar as mudanças climáticas, disse Stepinski. A cobertura da superfície pode influenciar drasticamente a temperatura, dependendo de absorver ou refletir a luz do sol. Da mesma forma, a cobertura florestal absorve mais dióxido de carbono do que os centros comerciais.
“A grande conquista da Agência Espacial Europeia era garantir que as imagens de satélite fossem compatíveis de ano para ano, para que você pudesse compará-las”, disse Stepinski.
Stepinski disse que o mapa mostra como recursos naturais finitos estão sendo explorados em escala global.
Área de Preservação Permanente perde as características no Águas Claras em Manaus.
“O que torna isso tão deprimente é que ele está examinando uma escala de tempo mais curta do que a nossa vida”, disse Stepinski.
Um dos exemplos mais óbvios de mudança no uso da terra é encontrado em torno das cidades, disse o principal autor do estudo e ex-colega de pós-doutorado em UC, Jakub Nowosad.
“O impacto direto das ações humanas é refletido nos padrões de urbanização. Por exemplo, você pode ver a suburbanização e a densificação de cidades na América do Norte e na Europa”, disse Nowosad, agora professor assistente na Universidade Adam Mickiewicz na Polônia.
O pesquisador de geografia da UC, Pawel Netzel, também contribuiu para o projeto.
Nowosad disse que o oeste da China tem visto uma vasta urbanização, enquanto o desenvolvimento mais óbvio da Índia foi em suas cidades menores.
“Espero que este mapa torne as pessoas mais conscientes do impacto humano em nosso planeta”, disse Nowosad. “Como sociedade, precisamos estar mais bem informados sobre a escala das mudanças que fazemos na Terra e, em minha opinião, essa consciência pode influenciar futuras mudanças nas políticas ambientais.”
Nowosad disse que seu mapa não faz inferências sobre o que os próximos 24 anos podem trazer. Mas os dados demográficos sugerem que a nossa pegada só ficará maior.
“A população humana ainda está aumentando, criando mais demanda por terra e recursos naturais”, disse Nowosad. “Além disso, sabemos que as sociedades nos países desenvolvidos usam mais recursos; portanto, com o crescente desenvolvimento nos países mais pobres, podemos esperar que a pressão sobre a terra seja ainda maior do que o previsto apenas como efeito do crescimento populacional”.
As imagens de satélite são tão detalhadas que os geógrafos da UC podem organizá-las em redes de 300 metros quadrados chamadas de pixels. Cada pixel identificou mudanças entre 22 categorias de uso da terra, descrevendo vários tipos de terras agrícolas, florestas, zonas úmidas, pastagens ou desenvolvimento urbano. Mas os pequenos tamanhos de pixel e um grande número de variáveis tornaram a análise global praticamente impossível. Nesta encarnação, o mapa parecia uma tigela de seixos frutados.
Assim, Stepinski organizou os pixels em quadrados maiores de 9 quilômetros e reduziu o número de usos da terra para nove tipos, refletindo descrições mais amplas, como agricultura, floresta ou desenvolvimento. Ao comparar as diferenças entre os mapas de 1992 e 2015, ele usou três tons de cor para identificar a extensão da mudança de um uso da terra para outro.
Logo a história dos últimos 25 anos começou a tomar forma. O mapa mostra que o deserto do Saara no norte da África está crescendo.
“Esta é a área de transição chamada Sahel. E, se você notar, verá as perdas das pastagens por causa das mudanças climáticas – mais desertificação”, disse Stepinski.
O mapa dos Estados Unidos mostra enormes perdas de terras úmidas no sudeste, junto com a crescente urbanização fora das cidades.
O mapa ilustra o dramático desaparecimento do Mar de Aral, que secou na década de 1990, depois que agricultores do Cazaquistão e do Uzbequistão desviaram seus afluentes para campos de algodão.
“Foi um desastre total. Este foi um grande lago de água salgada alimentado por dois rios. Eles desviaram água para o algodão e o mar secou em pastagens”, disse Stepinski. “Hoje, você vê enormes barcos sentados no meio dos campos.”
Stepinski já usou mapas antes para contar histórias fascinantes semelhantes. O site de notícias Quartz em 2017 chamou seu mapa de diversidade racial nos Estados Unidos de “insanamente detalhado”. No início deste ano, ele usou dados do WorldClim para comparar climas em qualquer lugar da Terra e projetar como o clima deve mudar nos próximos 50 anos.
Seu último projeto apresentou desafios únicos.
Como muitos mapas mundiais tendem a exagerar o tamanho dos países mais distantes do equador, Stepinski traçou seus resultados usando um mapa de projeção desenvolvido em 1943 por Buckminster Fuller, que mostra o tamanho comparativo dos continentes. Mas isso exigia que a UC desenvolvesse um software especial que manteria a integridade dos dados para a tradução.
Enquanto o mapa conta a história do desenvolvimento em traços largos, os pesquisadores podem examinar qualquer parte dele detalhadamente. O mapa apresenta dados de cada pixel de 300 m2.
Uma parte do novo mapa mundial do professor de geografia UC Tomasz Stepinski mostra a mudança de paisagens na América do Norte e do Sul. Branco indica pouca ou nenhuma mudança. Tons mais escuros indicam a maior taxa de mudança em cada categoria. (ecodebate)

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Apenas nove estados brasileiros monitoram a qualidade do ar

Qualidade do Ar – “Abaixa cobertura de estações de monitoramento significa que na maior parte do país a população não sabe o ar que está respirando”
Dos 27 estados do Brasil, apenas nove realizam o monitoramento da qualidade do ar. São eles Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Distrito Federal.
Embora o estado com melhor cobertura do monitoramento seja São Paulo, em geral, a cobertura da rede é insuficiente no país, sendo mais crítica nas regiões Nordeste e Centro-Oeste; e no Norte, onde não há nenhum monitoramento. Atualmente sete poluentes são regulados no Brasil por seus reconhecidos danos à saúde: partículas totais em suspensão (PTS), partículas inaláveis (MP10), fumaça, dióxido de enxofre (SO2), dióxido de nitrogênio (NO2), monóxido de carbono (CO) e ozônio (O3). Sendo que o material particulado fino (MP2,5) e o ozônio são os poluentes cujo o controle das concentrações é mais desafiador. Esses poluentes são pouco acompanhados, apesar de seus impactos à saúde, o MP2,5 é monitorado em apenas quatro estados e o ozônio, em sete.
Esses e outros dados sobre a poluição do ar no Brasil estão compilados na nova versão da Plataforma Nacional de Qualidade do Ar (http://qualidadedoar.org.br/) desenvolvida e lançada dia 14/11/18 pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (http://energiaeambiente.org.br/), organização sem fins lucrativos que produz dados técnicos para influenciar políticas públicas. A ferramenta online é a única no país a reunir dados de concentração de poluentes e a indicar as ultrapassagens dos padrões nacionais e das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), o que pode auxiliar especialistas e gestores na avaliação dos efeitos da poluição do ar na saúde.
A baixa cobertura de estações de monitoramento significa que na maior parte do país a população não sabe o ar que está respirando”, diz a meteorologista Beatriz Oyama, analista de qualidade do ar do IEMA. “O monitoramento de qualidade do ar é uma ferramenta importante para a gestão pública.” Com monitoramento adequado nas cidades, é possível saber quando o ar está inadequado e tomar medidas para reduzir as emissões de poluentes, como restringir algumas atividades industriais e o uso de automóveis e incentivar o uso do transporte público. No limite, é possível recomendar que os cidadãos e os profissionais de saúde fiquem mais alertas nos dias mais críticos.
O monitoramento pode ajudar a identificar as fontes poluentes, como indústrias específicas ou locais com trânsito intenso de veículos, e agir para reduzir essas emissões. Medir a qualidade do ar é também um dos instrumentos relevantes para verificar a eficácia do programa de controle veicular (Proconve), que regulamenta a tecnologia dos motores e a qualidade dos combustíveis. Também é uma informação necessária para o poder público autorizar a instalação de novas indústrias em áreas sensíveis para a saúde da população.
Referência para a OMS desde 2016, a nova versão da Plataforma do IEMA disponibiliza informação detalhada sobre a distribuição das estações de monitoramento e sobre as variações das concentrações de poluentes monitorados. Ela também está mais interativa e prática de consultar, mas a maior novidade são os dados de concentração por hora do dia. Eles permitem saber, por exemplo, quais são os horários do dia com picos de um tipo específico de poluente, os meses do ano em que se observam maiores concentrações.
Uma vez que cada estado tem sua metodologia para calcular concentrações de poluentes, após estudar essas diferentes metodologias adotadas, a plataforma do IEMA empregou o método utilizado pela maior parte dos estados para padronizar os cálculos tornando dados de diferentes estados comparáveis.
Entre os poluentes atualmente medidos no Brasil, os únicos que não apresentam uma tendência clara de queda são o material particulado fino e o ozônio. Assim, esses são os poluentes que mais preocupam por representarem altos riscos para a saúde quando em concentrações elevadas.
O material particulado mais fino (MP2,5) é um dos maiores responsáveis por doenças respiratórias e cardiovasculares no mundo. Ele é emitido pela queima de combustíveis nas indústrias e nos veículos, essa segunda fonte se torna ainda mais relevantes nos centros mais urbanizados. Também é formado na atmosfera a partir de reações químicas com outros gases e poluentes. Embora o MP2,5 tenha seus danos à saúde cientificamente comprovados, somente quatro estados fazem o monitoramento desse poluente: Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, e Espírito Santo, sendo que somente nesses dois últimos o MP2,5 é regulado. Na Plataforma de Qualidade do Ar, é possível verificar como a concentração de material particulado evoluiu em vários pontos do país. Na estação do bairro de Cerqueira César, na região da Avenida Paulista, da cidade de São Paulo, a concentração média anual de material particulado teve uma queda de 24 para 16 microgramas por metro cúbico entre os anos 2000 e 2009. Depois começou a oscilar sem queda aparente. Sempre acima da concentração de 10 microgramas por metro cúbico, recomendada pela OMS.
O ozônio é outro poluente que tem apresentado concentrações bem acima dos valores recomendados pela OMS. Quem se expõe a ele regularmente, corre risco de desenvolver asma e outras doenças cardiovasculares e de ter sua capacidade pulmonar reduzida. Como não é emitido diretamente por nenhuma fonte poluente, o controle do ozônio é um grande desafio. Ele é formado durante o dia, a partir da reação entre poluentes originados de processos incompletos de queima (combustíveis, queimadas).
A Plataforma de Qualidade do Ar também permite verificar as concentrações de ozônio em várias cidades.  A máxima média de 8 horas de ozônio, no Parque do Ibirapuera em São Paulo, variou entre cerca de 200 e 160 microgramas por metro cúbico entre os anos de 2013 e 2016. Ou seja, ainda acima das recomendações da OMS, de 100 microgramas por metro cúbico.
A plataforma mostra como os poluentes mais críticos hoje são o MP2,5 e O3, além dos demais poluentes regulados. Por outro lado, a boa notícia da plataforma é que outros poluentes apresentam queda. É o caso de material particulado (MP10), o dióxido de enxofre (SO2), monóxido de carbono (CO) e dióxido de nitrogênio (NO2). Todos esses poluentes têm apresentado uma tendência de redução das concentrações ao longo dos anos e, na maioria das estações, têm atendido as recomendações da OMS. (ecodebate)

Antártida está se tornando parecida com a Groenlândia

Com o degelo, a Antártida está se tornando mais parecida com a Groenlândia?
Em uma nova perspectiva, cientistas pedem mais atenção ao derretimento da superfície da Antártida.
A Antártida é alta e seca e, na maioria das vezes, muito fria, e é fácil pensar no gelo e na neve trancados em um freezer, protegidos do derretimento, exceto em torno de suas costas baixas e plataformas de gelo flutuantes. Mas essa visão pode estar errada.
A água de degelo está agora se acumulando na superfície do gelo interior da Antártica e em lagos maiores e mais numerosos nas plataformas de gelo que cercam o continente. Isso cria tensões que poderiam romper as plataformas de gelo, que sustentam o gelo interior, de forma mais rápida para o oceano. E os modelos sugerem que, até o final deste século, será um ar mais quente – em vez de água do oceano mais quente – que desempenhará o maior papel na condução das contribuições da Antártida para a elevação do nível do mar.
“É crucial que desenvolvamos uma melhor compreensão da dinâmica dos 190 pés (58 m) de aumento potencial do nível do mar da Antártida, congelados no continente”, disse Alison Banwell , bolsista visitante da CIRES* e coautora de uma avaliação publicada na Nature Climate Change . “Nós ganhamos algumas percepções da Groenlândia, onde há muito mais derretimento superficial ocorrendo hoje, e uma série de diferentes processos estão em jogo. Por exemplo, se houver derretimento suficiente da superfície no gelo triturado da Antártida, parte dessa água poderá chegar até a base da camada de gelo e afetar o fluxo do gelo no oceano, como já ocorre em grande parte da camada de gelo da Groenlândia”.
Em suas perspectivas, Banwell e seus colegas – do Observatório da Terra Lamont-Doherty da Universidade de Colúmbia e da Universidade Rowan – identificam lacunas importantes na compreensão dos cientistas sobre a Antártida. Eles discutem a necessidade de mais pesquisas sobre, por exemplo, como a neve no continente se compacta em fogo e depois o gelo; como e se o derretimento da superfície pode finalmente atingir a base da camada de gelo; e a possibilidade de lagos de superfície e subsuperfície mais comuns se formarem em plataformas de gelo.
Compreender e ser capaz de prever a ocorrência de tais processos é crucial para os cientistas que querem entender o aumento do nível do mar global e os riscos para os habitantes do litoral em todo o mundo.
A parte leste da calota polar da Antártica se manteve estável nos últimos 8 milhões de anos, apontou estudo de um time de cientistas de universidades dos Estados Unidos e da Nova Zelândia. Dessa forma, o leste da Antártica deve se manter à medida que avança o presente aquecimento global.
Em última análise, compreender o futuro da Antártida requer o reconhecimento de que o continente está mudando de novas maneiras, disse Banwell. “E isso, em última análise, requer um esforço multidisciplinar e internacional crescente. Precisamos de observações hoje, de equipes de campo em terra, aviões e satélites, e é crucial que os modelos de gelo e clima sejam capazes de representar com precisão os diversos processos que afetam o derretimento, a hidrologia e a dinâmica da camada de gelo da Antártica”. (ecodebate)

Qual é a importância do Brasil no Acordo do clima de Paris

Assista ao vídeo “Diálogos Talanoa Brasil”
“Não existe plano B porque não existe planeta B” - (Ban Ki-moon, ex-secretário geral das Nações Unidas, sobre as mudanças climáticas). 
À primeira vista, para quem conhece pouco sobre mudanças climáticas, a expressão Contribuição Nacionalmente Determinada e sua sigla em inglês, NDC, parecem misteriosas. Mas não são. Para compreendê-las, vamos começar com o princípio de que cada país precisa fazer sua parte – dar sua contribuição – para diminuir as emissões de carbono, reduzir o aquecimento global e a probabilidade de ocorrência de eventos extremos, como secas, inundações e furacões.
Esse compromisso foi firmado em dezembro de 2015 durante a COP21 (a 21ª Convenção das Partes sobre Mudança do Clima) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. À época, assinou-se o Acordo de Paris, que busca manter o aumento da temperatura global bem abaixo de 2ºC (em relação aos níveis pré-industriais). O acordo entrou em vigor em 4 de novembro de 2016 e até hoje, dos 197 países que fazem parte da Convenção, 180 ratificaram o acordo. Com o acordo, cada país estabeleceu sua NDC e a contribuição prometida pelo Brasil é considerada uma das mais ambiciosas.
O país comprometeu-se a implementar ações para, até 2030, reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 43% em relação ao nível registrado em 2005. A fim de alcançar a meta, o Brasil pretende adotar medidas que incluem, entre outras:
 ​Aumentar a participação de fontes renováveis (eólica e solar) no mix de energia do país para 45%. Para isso, o país planeja aumentar a participação de fontes renováveis e não-hidráulicas em seu mix energético de 28 para 33%; aumentar a participação da bioenergia sustentável (biocombustíveis e biomassa) para 18%; e expandir o uso de combustíveis não-fósseis e de fontes de energia renováveis (excluindo a energia hídrica) para pelo menos 23% do mix energético do país;
Aumentar a eficiência energética no setor elétrico em 10% e promover tecnologia limpa e eficiência energética nos setores industrial e de transporte;
Alcançar, na Amazônia brasileira, zero desmatamento ilegal até 2030 e compensar as emissões de gases de efeito estufa da supressão legal de vegetação até 2030;
Restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas;
Restaurar mais 15 milhões de hectares de pastagens degradadas até 2030 e a melhoria de 5 milhões de hectares de sistemas integrados de lavoura-pecuária-floresta (ICLFS) até 2030.
Os projetos do Banco Mundial contribuem para apoiar o Brasil no cumprimento das NDCs. Impulsionam setores como energias limpas, agricultura de baixo carbono e redução do desmatamento, prioritários na contribuição nacionalmente determinada pelo país.
Exemplo desses projetos é o FIP CAR, de US$ 32,5 milhões, que está sendo executado pelo Serviço Florestal Brasileiro do Ministério do Meio Ambiente. O projeto tem por objetivo a implementação do Cadastro Ambiental Rural em municípios selecionados no Cerrado como estratégia para promover a redução do desmatamento e da degradação florestal e a melhoria da gestão sustentável das florestas.
Há também o projeto FIP ABC Cerrado (foto acima), de US$ 10,6 milhões, desenvolvido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em parceria com a Embrapa e o Serviço Nacional de Aprendizado Rural. Com assistência técnica e gerencial, o projeto estimula fazendeiros a adotar e investir em práticas sustentáveis para reduzir as emissões de gases de efeito estufa em suas propriedades, visando também aumentar a produtividade com sustentabilidade.
Já o FinBRAZEEC, de US$ 200 milhões, oferece um veículo financeiro inovador para ajudar a superar alguns dos principais obstáculos ao financiamento da infraestrutura energética no Brasil, em particular no segmento de eficiência energética. O objetivo é mobilizar mais de US$ 1,1 bilhão para criar novos mercados nas áreas de modernização da iluminação pública e eficiência energética industrial.
Paisagens Sustentáveis da Amazônia, com a concessão de US$ 60 milhões do Fundo Mundial para o Meio Ambiente e um cofinanciamento de US$ 370 milhões, ajudará a aumentar a área florestal sob proteção, restauração e manejo sustentável na Amazônia brasileira pelos próximos seis anos, por meio da criação de áreas protegidas, da consolidação das já existentes no âmbito do programa Áreas Protegidas da Amazônia e de mecanismos de suporte à sustentabilidade financeira de longo prazo do sistema de áreas protegidas da Amazônia brasileira. Ao todo, 63 milhões de hectares serão preservados pelo programa ARPA, a maior iniciativa de conservação de floresta tropical na história.
Mais ambição
Nem todos os países impuseram-se metas tão ousadas quanto as do Brasil, o que preocupa especialistas no tema. Segundo algumas projeções internacionais, todas as NDCs que formam a base do Acordo de Paris cobrem somente em torno de um terço das reduções de emissões necessárias para alcançar os objetivos de contenção da temperatura global.
Para inspirar o aumento do nível de ambição das ações promovidas pelas partes do Acordo, estão sendo realizados os Diálogos Talanoa. Lançado durante a COP23, em novembro de 2017, liderada pela presidência de Fiji, o diálogo tem o objetivo de coletar contribuições, histórias e ideias das partes e dos atores envolvidos no processo, sobre os esforços coletivos e desafios para atingir os objetivos de longo prazo e informar a preparação das NDCs. Essas contribuições serão apresentadas durante a COP24, em Katowice (Polônia), em dezembro de 2018. Os Diálogos Talanoa se baseiam em três perguntas relacionadas a ações climáticas: onde estamos? Aonde queremos chegar? Como chegar lá?
Além de apoiar uma série de projetos que fortalecem as NDCs brasileiras, o Banco Mundial apoiou recentemente o Diálogo Talanoa Brasil, cuja história contamos no vídeo do evento. Foram convidados alguns representantes do setor público e privado e líderes da sociedade civil para um diálogo participativo, inclusivo e transparente sobre o que deve ser considerado na implementação das contribuições brasileiras. Outros diálogos mais amplos com sociedade civil, setor privado e ONGs já estão sendo programados.
Clima e pobreza
Como responsáveis diretos pelo aquecimento global, nós temos a missão de reduzir emissões para evitar as catástrofes climáticas que representam riscos iminentes à manutenção dos ecossistemas e de novas gerações. Hoje somos 7,6 bilhões de pessoas, somando 0,01% de todas as formas de vida na Terra. Porém, nós já causamos a extinção de 83% de todos os mamíferos e 50% de todas as plantas do planeta, em especial nos últimos 50 anos, que muitos cientistas definem como a sexta extinção em massa de vida nos 4 bilhões de anos de história da Terra.
Hoje, a temperatura global está 1.2ºC acima dos níveis pré-industriais e sem ações urgentes para reduzir vulnerabilidade, mudanças climáticas podem levar 100 milhões de pessoas à pobreza em dez anos. Na verdade, os impactos climáticos sobre a pobreza são muito maiores do que imaginávamos até poucos anos atrás. Um novo relatório do Banco Mundial indica que o impacto anual de desastres naturais extremos já é equivalente a US$ 520 bilhões em perda na capacidade de consumo. Por isso, todas as ações direcionadas à redução das mudanças do clima, incluindo as NDCs, estão intrinsecamente associadas à missão do Banco Mundial de erradicar a pobreza extrema.
O presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, faz um alerta sobre isso: "Choques climáticos severos podem reverter décadas de progresso contra pobreza. Tempestades, enchentes e secas têm graves consequências econômicas e sociais, sendo que os mais pobres comumente pagando os preços mais altos. Criar resiliência a esses desastres não só fazem sentido econômico, mas é moralmente imperativo."
Agora que as NDCs não são mais um mistério, fica mais fácil saber como o Brasil está agindo para enfrentar as mudanças climáticas e contribuir para um futuro mais sustentável. (worldbank)

domingo, 25 de novembro de 2018

Qual é a importância do Brasil no Acordo do clima de Paris

Aquecimento Global – Qual é a importância do Brasil no Acordo do clima de Paris.
Em artigo publicado na imprensa brasileira, o especialista sênior do Banco Mundial, Alexandre Kossoy, explica detalhadamente os compromissos que o Brasil assumiu para combater o aquecimento global.
O profissional do organismo financeiro alerta que as mudanças climáticas podem levar à pobreza 100 milhões de pessoas em todo o mundo, pelos próximos dez anos. Para o analista, preparar-se para os futuros desastres naturais extremos e ajudar a evitá-los faz sentido economicamente e é também um imperativo moral.
Reduzir emissões de gases do efeito estufa é uma responsabilidade assumida por todos os países signatários do Acordo de Paris.
“Não existe plano B porque não existe planeta B” - (Ban Ki-moon, ex-secretário-geral das Nações Unidas, sobre as mudanças climáticas).
À primeira vista, para quem conhece pouco sobre mudanças climáticas, a expressão Contribuição Nacionalmente Determinada e sua sigla em inglês, NDC, parecem misteriosas. Mas não são. Para compreendê-las, vamos começar com o princípio de que cada país precisa fazer sua parte – dar sua contribuição – para diminuir as emissões de carbono, reduzir o aquecimento global e a probabilidade de ocorrência de eventos extremos, como secas, inundações e furacões.
Esse compromisso foi firmado em dezembro de 2015 durante a COP21 (a 21ª Convenção das Partes sobre Mudança do Clima) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. À época, assinou-se o Acordo de Paris, que busca manter o aumento da temperatura global bem abaixo de 2ºC (em relação aos níveis pré-industriais). O acordo entrou em vigor em 4 de novembro de 2016 e até hoje, dos 197 países que fazem parte da Convenção, 180 ratificaram o acordo. Com o acordo, cada país estabeleceu sua NDC e a contribuição prometida pelo Brasil é considerada uma das mais ambiciosas.
O país comprometeu-se a implementar ações para, até 2030, reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 43% em relação ao nível registrado em 2005. A fim de alcançar a meta, o Brasil pretende adotar medidas que incluem, entre outras:
​Aumentar a participação de fontes renováveis no mix de energia do país para 45%. Para isso, o país planeja aumentar a participação de fontes renováveis e não hidráulicas (eólica e luz solar) em seu mix energético de 28 para 33%; aumentar a participação da bioenergia sustentável (biocombustíveis e biomassa) para 18%; e expandir o uso de combustíveis não-fósseis e de fontes de energia renováveis (excluindo a energia hídrica) para pelo menos 23% do mix energético do país;
Aumentar a eficiência energética no setor elétrico em 10% e promover tecnologia limpa e eficiência energética nos setores industrial e de transporte;
Alcançar, na Amazônia brasileira, zero desmatamento ilegal até 2030 e compensar as emissões de gases de efeito estufa da supressão legal de vegetação até 2030;
Restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas;
Restaurar mais 15 milhões de hectares de pastagens degradadas até 2030 e a melhoria de 5 milhões de hectares de sistemas integrados de lavoura-pecuária-floresta (ICLFS) até 2030.
Os projetos do Banco Mundial contribuem para apoiar o Brasil no cumprimento das NDCs. Impulsionam setores como energias limpas, agricultura de baixo carbono e redução do desmatamento, prioritários na contribuição nacionalmente determinada pelo país.
Exemplo desses projetos é o FIP CAR, de US$ 32,5 milhões, que está sendo executado pelo Serviço Florestal Brasileiro do Ministério do Meio Ambiente. O projeto tem por objetivo a implementação do Cadastro Ambiental Rural em municípios selecionados no Cerrado como estratégia para promover a redução do desmatamento e da degradação florestal e a melhoria da gestão sustentável das florestas.
Há também o projeto FIP ABC Cerrado, de US$ 10,6 milhões, desenvolvido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em parceria com a Embrapa e o Serviço Nacional de Aprendizado Rural. Com assistência técnica e gerencial, o projeto estimula fazendeiros a adotar e investir em práticas sustentáveis para reduzir as emissões de gases de efeito estufa em suas propriedades, visando também aumentar a produtividade com sustentabilidade.
Já o FinBRAZEEC, de US$ 200 milhões, oferece um veículo financeiro inovador para ajudar a superar alguns dos principais obstáculos ao financiamento da infraestrutura energética no Brasil, em particular no segmento de eficiência energética. O objetivo é mobilizar mais de US$ 1,1 bilhão para criar novos mercados nas áreas de modernização da iluminação pública e eficiência energética industrial.
Paisagens Sustentáveis da Amazônia, com a concessão de US$ 60 milhões do Fundo Mundial para o Meio Ambiente e um cofinanciamento de US$ 370 milhões, ajudará a aumentar a área florestal sob proteção, restauração e manejo sustentável na Amazônia brasileira pelos próximos seis anos, por meio da criação de áreas protegidas, da consolidação das já existentes no âmbito do programa Áreas Protegidas da Amazônia e de mecanismos de suporte à sustentabilidade financeira de longo prazo do sistema de áreas protegidas da Amazônia brasileira. Ao todo, 63 milhões de hectares serão preservados pelo programa ARPA, a maior iniciativa de conservação de floresta tropical na história.
Mais ambição
Nem todos os países impuseram-se metas tão ousadas quanto as do Brasil, o que preocupa especialistas no tema. Segundo algumas projeções internacionais, todas as NDCs que formam a base do Acordo de Paris cobrem somente em torno de um terço das reduções de emissões necessárias para alcançar os objetivos de contenção da temperatura global.
Para inspirar o aumento do nível de ambição das ações promovidas pelas partes do Acordo, estão sendo realizados os Diálogos Talanoa. Lançado durante a COP23, em novembro de 2017, liderada pela presidência de Fiji, o diálogo tem o objetivo de coletar contribuições, histórias e ideias das partes e dos atores envolvidos no processo, sobre os esforços coletivos e desafios para atingir os objetivos de longo prazo e informar a preparação das NDCs. Essas contribuições serão apresentadas durante a COP24, em Katowice (Polônia), em dezembro de 2018. Os Diálogos Talanoa se baseiam em três perguntas relacionadas a ações climáticas: onde estamos? Aonde queremos chegar? Como chegar lá?
Além de apoiar uma série de projetos que fortalecem as NDCs brasileiras, o Banco Mundial apoiou recentemente o Diálogo Talanoa Brasil, cuja história contamos no vídeo do evento. Foram convidados alguns representantes do setor público e privado e líderes da sociedade civil para um diálogo participativo, inclusivo e transparente sobre o que deve ser considerado na implementação das contribuições brasileiras. Outros diálogos mais amplos com sociedade civil, setor privado e ONGs já estão sendo programados.
Clima e pobreza
Como responsáveis diretos pelo aquecimento global, nós temos a missão de reduzir emissões para evitar as catástrofes climáticas que representam riscos iminentes à manutenção dos ecossistemas e de novas gerações. Hoje somos 7,6 bilhões de pessoas, somando 0,01% de todas as formas de vida na Terra. Porém, nós já causamos a extinção de 83% de todos os mamíferos e 50% de todas as plantas do planeta, em especial nos últimos 50 anos, que muitos cientistas definem como a sexta extinção em massa de vida nos 4 bilhões de anos de história da Terra.
Hoje, a temperatura global está 1,2ºC acima dos níveis pré-industriais e sem ações urgentes para reduzir vulnerabilidade, mudanças climáticas podem levar 100 milhões de pessoas à pobreza em dez anos. Na verdade, os impactos climáticos sobre a pobreza são muito maiores do que imaginávamos até poucos anos atrás. Um novo relatório do Banco Mundial indica que o impacto anual de desastres naturais extremos já é equivalente a US$ 520 bilhões em perda na capacidade de consumo. Por isso, todas as ações direcionadas à redução das mudanças do clima, incluindo as NDCs, estão intrinsecamente associadas à missão do Banco Mundial de erradicar a pobreza extrema.
O presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, faz um alerta sobre isso: “Choques climáticos severos podem reverter décadas de progresso contra pobreza. Tempestades, enchentes e secas têm graves consequências econômicas e sociais, sendo que os mais pobres comumente pagando os preços mais altos. Criar resiliência a esses desastres não só faz sentido econômico, mas é moralmente imperativo”.
Nunca foi tão importante colocar num mesmo patamar os esforços para reforçar a economia, considerar os impactos sociais e reduzir os danos ambientais causados pelos negócios.
Agora que as NDCs não são mais um mistério, fica mais fácil saber como o Brasil está agindo para enfrentar as mudanças climáticas e contribuir para um futuro mais sustentável. (ecodebate)