domingo, 29 de setembro de 2019

Amazônia pode desaparecer como floresta

A Amazônia pode desaparecer como floresta e isso vai impactar o mundo todo.
Amazônia: Cerca de 20% da floresta já foi devastada, porém perda de 25% a 40% da área original pode ser irreversível.
O programa Ambiente É o Meio conversou com o engenheiro, pesquisador e coordenador do Programa Amazônia, do INPE- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Cláudio Aparecido de Almeida, sobre a monitoração do desmatamento na Amazônia.
O Programa Amazônia fornece dados e imagens de sensoriamento remoto para observar e monitorar o desmatamento e, também, os tipos de agricultura. Almeida conta que, até 2018, cerca de 20% da floresta original já havia sido desflorestada. Para ele, os dados são preocupantes, pois “modelos climáticos recentes apontam que, se o desmatamento eliminar entre 25% e 40% do tamanho original da floresta, não haverá mais retorno”.
O pesquisador conta que, somente no ano passado, houve desmate de cerca de 7,5 mil km². Entre os vetores estão ambientes de pastagem, cerca de 60% da área desflorestada e agricultura, como soja ou algodão, 6%. “É importante nos atentarmos para essa questão, pois estamos chegando próximos a um ponto em que não haverá mais retorno. A Amazônia pode desaparecer como floresta e isso vai impactar o mundo todo.”
Ambiente É o Meio é uma produção da Rádio USP Ribeirão Preto em parceria com professores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP e Programa USP Recicla da Superintendência de Gestão Ambiental (SGA) da USP.
Sintonize Ambiente É o Meio em 107,9 MHz na Rádio USP Ribeirão ou em 93,7 MHz na Rádio USP São Paulo, todas as quartas-feiras, a partir das 13 horas. Reprise aos domingos, às 17h30, nas duas emissoras. (ecodebate)

Governo brasileiro na contramão da sustentabilidade

Charge de Roque Sponholz, in https://www.humorpolitico.com.br
A maioria do povo brasileiro acreditou que o sujeito oculto seria a solução dos problemas de nossa sociedade, embora sejamos carentes de soluções reflexivas para quase todos nossos problemas. Apesar dos conflitos, o país vinha adotando políticas ambientais e de controle de queimadas que se tornaram um modelo de preservação ambiental para o mundo, embora a partir dos governos de Dilma e Temer as queimadas na Amazônia aumentaram de forma substancial. Contudo, no governo atual, o céu de fumaça tomou conta da região em níveis nunca vistos, depois da adoção de políticas voltadas para a devastação do maior jardim da natureza. Em resumo, a proposta ambiental do governo Bolsonaro assombrou o mundo.
A revolta nacional e, principalmente, internacional levou o governo a dar marcha ré no seu discurso agressivo e, pelo menos, propôs apagar as chamas. A consciência mundial de consumo sustentável e a fama de que o Brasil está adotando políticas ambientais predatórias surgiram imediatamente, de todos os lados, principalmente nos países desenvolvidos, que poderiam e ainda podem atingir em cheio a economia brasileira, com consequências desastrosas, prejuízos incalculáveis e o desemprego em massa. O boicote mundial aos produtos brasileiros é uma ameaça assustadora e medidas devem ser tomadas para amenizar o problema. O agronegócio no Brasil, reconhecido por não ter boas práticas de preservação ambiental, poderá adotar medidas para desfazer sua imagem predatória, mesmo tendo apoiado o atual governo. As grandes corporações mundiais começam a repensar a questão ambiental, na suas práticas de desenvolvimento sustentável.
Nos Estados Unidos, por exemplo, muitos Estados americanos e grandes empresas não seguem a política ambiental do governo Trump. As grandes montadoras, na Califórnia, por exemplo, são contrárias às suas políticas ambientais. Assim sendo, o setor do agronegócio no Brasil deve investir em pesquisas nas universidades para mostrar seu engajamento com a sustentabilidade. Eliminando as queimadas não resolve o problema. O que importa é a política de desmatamento da Amazônia, uma vez que, como já foi dito, “refazer a imagem do Brasil não é tarefa fácil”, diante do discurso do atual governo, que não se limita apenas às questões ambientais, mas a questões ideológicas falsas e infundadas, que tentam camuflar o repúdio às práticas democráticas, institucionalizadas no país a duras penas.
Relatório mostra que o Brasil vai na contramão dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
O medo que se tem é que as práticas avançadas de Responsabilidade Social Corporativa e de Sustentabilidade Social sejam vistas no discurso ideológico do atual governo como práticas comunistas. A moderna administração está cada vez mais dando atenção a forma como as empresas possam alinhar a sustentabilidade social com a competitividade e as pesquisas em Responsabilidade Social Corporativa e Sustentabilidade insistem de forma consistente que as empresas precisam mudar sua cultura corporativa para habilitar um enfoque integrado contemplando questões econômicas e sociais.
A sustentabilidade social implica em avançar em práticas democráticas, participação, inovações sociais, igualdade objetiva e subjetiva de oportunidades, diversidade cultural, solidariedade e tolerância e não intolerância e obscurantismo.
Recente relatório da ONG Amazon Watch denunciou práticas destrutivas de várias multinacionais na Amazônia, entre elas a JBS, Bunge, Cargill e o banco Santander. É possível que estas empresas apresentem comprometimentos com a sustentabilidade e governança em seus relatórios. Contudo, é preciso esclarecer que muitas destas empresas apresentam um conceito de sustentabilidade muito estreito, chamado de sustentabilidade fraca e que se limita a manter a continuação de suas atividades como sempre. Os próprios nativos da região reclamam das atividades destas empresas, ou seja, as atividades do agronegócio são incompatíveis com as atividades dos nativos. Isto demonstra a falta de um plano de desenvolvimento sustentável na região.
A região Amazônica é carente de conhecimento em todas as áreas para o seu desenvolvimento. Cabe ao agronegócio incentivar atividades de pesquisas sobre as práticas e gestão de negócios na região, entre outras, integrando todos os setores produtivos da região. Por sua vez, estas empresas devem mostrar para o mundo suas práticas de responsabilidade e sustentabilidade social e sua defesa não só da soberania nacional, mas a defesa e soberania da Mãe Terra. Portanto, podemos supor que a sustentabilidade social está expressa na cultura corporativa e está dentro da Responsabilidade Social Corporativa, onde estratégias, políticas e sistemas gerenciais podem assegurar considerações sociais juntamente com as questões econômicas.
O cuidado da natureza é um cuidado social e deve fazer parte da sustentabilidade social. Neste sentido, o planejamento e a implementação da sustentabilidade social deve ganhar importância para todos os dirigentes do setor do agronegócio no Brasil, mesmo contrariando políticas governamentais de devastação da natureza, que premiam a ignorância e o obscurantismo, em detrimento do desenvolvimento e da criação do conhecimento.
Brasil acelera na contramão do desenvolvimento sustentável.
Na esfera federal, políticas recentes representam retrocessos em mudanças do clima e conservação da biodiversidade, mas o quadro pode ser amenizado pelos municípios. (ecodebate)

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Diferenças entre a reciclagem e a reutilização de resíduos

Quais as diferenças entre a reciclagem e a reutilização de resíduos?
Reciclagem e reutilização de resíduos – quais são as diferenças entre os métodos.
De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), a taxa de reciclagem no Brasil teve um aumento mínimo – passando de 2% para 3% de 2016 para 2017. Isto é, mais de 7 milhões de toneladas de lixo por ano continuam sendo descartados de forma irregular. Se calcularmos o prejuízo em reais, o país perde entre R$ 8 bilhões a R$ 10 bilhões por ano com falhas na reciclagem de resíduos sólidos urbanos, sem considerar ainda resíduos industriais.
Um dos pontos que ainda gera muitas dúvidas é qual a melhor prática a se utilizar na hora de descartar os resíduos gerados nos processos produtivos e no consumo de nossas casas – reciclagem ou reutilização? Apesar de terem o mesmo objetivo, combater o desperdício, os processos são diferentes.
Para se ter uma ideia, a reciclagem é um método que consiste em transformar um resíduo em algo novo. Ou seja, o propósito aqui é que o material seja reprocessado e inserido novamente em um novo ciclo de produção. Vale lembrar que quando separamos os resíduos orgânicos degradáveis como copos e canudos biodegradáveis, cascas de frutas, legumes, entre outros, ou até mesmo alimentos, esses itens também se enquadram no conceito da reciclagem, mas para isso, eles precisam ser compostados.
Acredito que boa parte das pessoas sabem quais são os tipos de materiais que podem e devem ser reciclados. Em muitos estabelecimentos residenciais e comerciais, é possível encontrarmos diversos pontos de coletas identificados, como por exemplo, vidro, papel, metal, plástico, componentes eletrônicos, entre outros, auxiliando na educação do consumidor quando o assunto é descarte correto. Quando fazemos nossa parte na hora de descartar nosso resíduo, contribuímos para um mundo mais sustentável e econômico, sem desperdícios. De acordo com dados do IPEA, quando os resíduos são separados corretamente na coleta seletiva doméstica, o índice de aproveitamento supera 70%. Porém, a mesma pesquisa também aponta que somente 8% das cidades brasileiras têm uma estrutura adequada para a reciclagem.
Quando o assunto é a reutilização, é preciso entender que o material é transformado em um novo produto que pode ser reaproveitado em diversas possibilidades. Para ficar mais fácil o entendimento, o descarte de papéis usados pode ser utilizado como bloco de notas, as garrafas PETs, muitas vezes, são feitas de objetos de decoração e por aí vai. Quem nunca utilizou um pote de sorvete usado para guardar algo, não é mesmo? Temos inúmeras possibilidades de reutilização de produtos. O que precisamos entender é que quando você opta por reutilizar alguns materiais, você está colaborando para a gestão do resíduo, reaproveitamento da matéria-prima que seria descartada incorretamente nos mais de 3 mil lixões que temos espalhados pelo país.
Por fim, independente do processo em que você opte por usar, a mensagem que fica é entender a importância e o impacto de ambos para o meio ambiente. Quando não utilizamos nenhum e nem outro, contribuímos negativamente para o impacto ambiental urbano. Se cada um fizer a sua parte, tenho certeza que iremos evoluir bastante no quesito – reciclagem e reutilização de resíduos. Pensem nisso!
Renato Paquet é formado em Ecologia com ênfase em economia circular e gestão na UFRJ, Diretor Presidente de Cleantechs da Associação Brasileira de Startups e fundador da Polen, uma startup de sustentabilidade que realiza a logística reversa e transforma resíduos em matéria-prima e para mais de 800 empresas no Brasil e em 6 países. (ecodebate)

Revitalização de Pequenas Bacias Hidrográficas

Resenha: Revitalização de Pequenas Bacias Hidrográficas (eBook Kindle)
(Disponível na Amazon, em formato digital, eBook Kindle)
O livro trata bacia hidrográfica como “fábrica natural de água”. Ela recebe volumes de chuva como matéria-prima, processa, devolve parte à atmosfera por evapotranspiração, importante para manter o ciclo hidrológico, armazena outra parte em aquíferos e libera volumes também para os córregos. Se a fábrica opera direito, sabendo que o fornecimento de matéria-prima é concentrado nos períodos chuvosos, ela guarda boa parte dos volumes recebidos em aquíferos para abastecer nascentes e córregos, mesmo nos períodos de estiagens.
Por que revitalizar essa fábrica? Porque com o aumento da ocupação humana as superfícies das bacias hidrográficas passaram a não ter bons comportamentos hidrológicos; passaram a não processar adequadamente os volumes de água recebidos pelas chuvas. Como resultante, temos visto o aumento de cheias e inundações e escassez de água nas épocas de estiagens para atendimento das necessidades de consumo.

E quais são as principais fontes de água capazes de atender as demandas de consumo ao longo de todo o ano, na maioria das regiões brasileiras. São os aquíferos ou lençóis subterrâneos, quer por meio de poços rasos ou profundos, quer pelas nascentes e os respectivos córregos formados. Salvar aquíferos, nascentes e córregos é, portanto, a tarefa de quem quer garantir abastecimento de água ao longo dos anos.
Por que adotar pequenas bacias e concentrar atenção em córregos e não em rios? Porque as grandes bacias hidrográficas são formadas pelo ajuntamento de pequenas e os rios pelo ajuntamento de córregos. E nada mais próprio e eficiente do que tratar os problemas em suas origens e em unidades menores, facilitando análises mais detalhadas dos ecossistemas hidrológicos envolvidos.

Depois de tratar dos fundamentos hidrológicos com cuidado e com linguagem simples, o livro mostra como escolher e dimensionar estruturas de conservação para fazer com que a pequena bacia possa ter comportamento eficiente para suprir demandas de água para usos diversos. A falta dos fundamentos hidrológicos está na raiz do fracasso de muitos projetos já implantados em bacias hidrográficas brasileiras.
Formato: eBook Kindle - Tamanho do arquivo: 7133 KB - Vendido por: Amazon Serviços de Varejo do Brasil Ltda.
Idioma: Português - ASIN: B07X7PN4VH (ecodebate)

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Solos serão afetados pelas mudanças climáticas, impactando água e alimentos

Os solos podem ser afetados pelas mudanças climáticas, impactando a água e os alimentos.
Mudanças Climáticas – Estudo mostra como o aumento da chuva pode reduzir a infiltração de água nos solos.
Costas, oceanos, ecossistemas, clima e saúde humana enfrentam impactos das mudanças climáticas, e agora solos valiosos também podem ser afetados.
As mudanças climáticas podem reduzir a capacidade dos solos de absorver água em muitas partes do mundo, de acordo com um estudo conduzido por Rutgers. E isso pode ter sérias implicações no abastecimento de água subterrânea, produção e segurança de alimentos, escoamento de águas pluviais, biodiversidade e ecossistemas.
“Como os padrões de chuva e outras condições ambientais estão mudando globalmente como resultado das mudanças climáticas, nossos resultados sugerem que a forma como a água interage com o solo pode mudar consideravelmente em muitas partes do mundo e fazê-lo rapidamente”, disse o coautor Daniel Giménez, um cientista do solo e professor do Departamento de Ciências ambientais na Rutgers University-New Brunswick. “Propomos que a direção, magnitude e taxa das mudanças sejam medidas e incorporadas nas previsões de respostas dos ecossistemas às mudanças climáticas”.
A água no solo é crucial para armazenar carbono, e as mudanças no solo podem influenciar o nível de dióxido de carbono no ar de uma maneira imprevisível, segundo Giménez, da Escola de Ciências Ambientais e Biológicas. O dióxido de carbono é um dos principais gases do efeito estufa relacionados às mudanças climáticas.
Giménez foi coautor de um estudo publicado na revista Nature no ano passado, mostrando que os aumentos regionais na precipitação devido às mudanças climáticas podem levar a menos infiltração de água, mais escoamento e erosão e maior risco de inundações repentinas.
Se a chuva se infiltrar ou escorrer do solo determina quanta água estará disponível para as plantas ou evaporará no ar. Estudos têm mostrado que a infiltração de água no solo pode mudar de uma a duas décadas com o aumento das chuvas, e as mudanças climáticas devem aumentar as chuvas em muitas áreas do mundo.
Durante um experimento de 25 anos no Kansas, que envolveu a irrigação do solo da pradaria com aspersores, uma equipe de cientistas liderada por Rutgers descobriu que um aumento de 35% na precipitação levou a uma redução de 21% a 33% nas taxas de infiltração de água no solo e apenas um pequeno aumento na retenção de água.
As maiores mudanças foram ligadas a mudanças nos poros ou espaços relativamente grandes do solo. Os poros grandes capturam a água que as plantas e os micro-organismos podem usar e isso contribui para o aumento da atividade biológica e da ciclagem de nutrientes no solo e diminui as perdas do solo por erosão.
Com o aumento das chuvas, as comunidades vegetais tinham raízes mais espessas que entupiam os poros maiores e havia ciclos menos intensos de expansão do solo quando a água era adicionada ou de contração quando a água era removida.
O próximo passo é investigar os mecanismos que impulsionam as mudanças observadas, a fim de extrapolar as descobertas para outras regiões do mundo e incorporá-las nas previsões de como os ecossistemas responderão às mudanças climáticas. Os cientistas também querem estudar uma ampla variedade de fatores ambientais e tipos de solo, além de identificar outras mudanças no solo que podem resultar de mudanças no clima.
O principal autor é Joshua S. Caplan, ex-associado de pós-doutorado de Rutgers atualmente na Temple University. Cientistas da Universidade da Califórnia, Riverside, Universidade do Kansas, Kansas State University e Colorado State University contribuíram para o estudo.
O aumento da irrigação por aspersores na Estação Biológica Konza Prairie, nas colinas de Flint, no nordeste do Kansas, alterou o sistema de poros do solo de um solo da pradaria. (ecodebate)

Serão fiscalizados frigoríficos que não assumem compromissos de controle de origem da carne

Desmatamento na Amazônia Legal: frigoríficos que não assumiram compromissos de controle de origem da carne devem ser fiscalizados.
Quarenta e três frigoríficos de estados da Amazônia Legal que ainda não firmaram compromissos públicos de controle da origem de matéria-prima deverão receber fiscalização especial do Ministério do Meio Ambiente e do IBAMA. É o que pede o Ministério Público Federal (MPF), em recomendações enviadas aos órgãos ambientais em 04/09/19. O documento lista 13 medidas urgentes para conter o desmatamento e as queimadas registradas na floresta. Uma das providências é justamente a fiscalização nas empresas frigoríficas listadas na recomendação, já que elas não se comprometeram a verificar a origem da carne e a criação de gado responde por boa parte do desmatamento ilegal registrado na Amazônia.
Ao todo, devem receber a fiscalização dez empresas no Acre, nove no Tocantins, oito em Rondônia, sete no Mato Grosso, três em Roraima, duas no Amapá, duas no Maranhão, uma no Amazonas e uma no Pará (veja a lista completa das empresas abaixo). As recomendações são assinadas pela Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural (4CCR) e pelos procuradores da República que atuam na Amazônia Legal.
Carne legal – A verificação da procedência da carne é uma das formas mais eficazes de combate ao desmatamento ilegal. Em 2009, o MPF lançou o projeto Carne Legal, com o objetivo de monitorar e fazer o controle ambiental da cadeia produtiva da pecuária na Amazônia. Mais de 30 empresas que vendem gado, carne ou couro bovinos produzidos na região amazônica já assinaram o TAC da Carne, um acordo que prevê diversas obrigações, entre elas a de não adquirir gado criado em áreas de desmatamento ilegal ou de fornecedores em desconformidade com a legislação trabalhista e ambiental.
O projeto Carne Legal, desenvolvido pelo Grupo de Trabalho Amazônia da Câmara de Meio Ambiente do MPF, já ganhou diversos prêmios, tendo sido reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como um avanço na preservação ambiental.
Lista das empresas que devem ser fiscalizadas:
Nome da empresa
Município
Frigorífico Boi Bom
Acrelândia/AC
Frigoporto
Porto Acre/AC
C.R.O. Ribeiro
Senador Guiomard/AC
Alexandrino
Brasiléia/AC
Matadouro Refúgio
Feijó/AC
Organizações G.C. Ltda
Plácido de Castro/AC
J.P. – A.J. Rodrigues de Mesquita Imp. e Exp.
Epitaciolândia/AC
Boi Verde – Cooperativa dos Agricultores e Pecuaristas de Tarauacá
Tarauacá/AC
Frisacre – Frigorífico Santo Antonio do Acre Ltda
Rio Branco/AC
Frigorífico Nosso Ltda
Senador Guiomard/AC
Frimap – Matadouro Braga Empreendimentos Ltda
Macapá/AP
Friaap – Frigorífico Amazônia Empreendimentos
Santana/AP
Bovinorte
Itacoatiara/AM
Frigodhias – Frigorífico Dhias Ltda
Axixá/MA
Fribal – Comércio de Carne Ltda
Igarapé do Meio/MA
Frigorífico Rondonópolis
Rondonópolis/MT
Nutrifrigo Alimentos Ltda
Primavera do Leste/MT
Matadouro Juba
Cáceres/MT
Frigorífico Alvorada
Alta Floresta/MT
Brasfri S/A
Nova Monte Verde/MT
VPR Brasil – Importações e Exportações Ltda
São José do Rio Claro/MT
Mataboi Alimentos S/A
Rondonópolis/MT
Frinort
Tomé-Açu/PA
Frigorífico Rondônia
Ji-Paraná/RO
Frigocal – Frigorífico Cacoal
Cacoal/RO
Frigorífico Roma
Guajará Mirim/RO
Frigorífico Dallas
Ariquemes/RO
Distriboi – Indústria, Comércio e Transporte de Carnes
Cacoal/RO
Frigon – Frigorífico Irmãos Gonçalves
Jaru/RO
Frigomil – Frigorífico Mil Ltda
Pimenta Bueno/RO
Frigoari – Frigorífico Ariquemes S/A
Ariquemes/RO
Frigorífico ABF Boi Norte Ltda
Caracaraí/RR
Frican – Defanti e Defanti Ltda
Cantá/RR
Mafir – Matadouro Frigorífico de Roraima
Boa Vista/RR
Assocarne Frigorífico
Araguaína/TO
Frigorífico Jatobá – Comercial de Carnes Brasil Ltda
Porto Nacional/TO
Frigorífico Savana
Silvanópolis/TO
Indústria e Comércio de Carnes e Derivados Boi Brasil Ltda
Alvorada/TO
Indústria de Carnes e Derivados Bonutt Ltda
Araguaína/TO
Frigorífico Paraíso Ltda
Paraíso do Tocantins/TO
Novo Progresso – Alimentos A.M.I.
Araguaçu/TO
Cooperativa dos Produtores de Carne e Derivados de Gurupi
Gurupi/TO
Boiforte Frigoríficos Ltda
Araguaína/TO
 
(ecodebate)

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Desertificação atinge 13% do semiárido brasileiro e ameaça a caatinga

Estimativa é do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis). Processo é causado pela ação humana e por mudanças climáticas.
Desertificação ameaça áreas da caatinga e pode ser irreversível
Único bioma exclusivamente brasileiro, a caatinga sofre. O famoso chão rachado faz pensar num ambiente onde a terra dá pouco e pede muito das pessoas que vivem ali. Mas é a própria ação humana que tem colocado a caatinga em risco. A ponto de, em algumas áreas, a situação chegar a um estágio quase irreversível: a desertificação.
De acordo com estimativas do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens e Satélites (Lapis), ligado à Universidade Federal de Alagoas (Ufal), 12,85% do semiárido brasileiro enfrenta o processo de desertificação. Ou seja, considerando uma área total de 982.563,3 km² dessa região, 126.336 km² estão se transformando em deserto – conforme monitoramento realizado entre 2013 e 2017 e divulgado no início de julho.
Esse território, que basicamente é o que conhecemos como o sertão no Nordeste brasileiro, tem quase o tamanho da Grécia.
Vegetação da caatinga está adaptada ao clima seco, mas o processo de desertificação remove a cobertura do solo e dificulta a regeneração das plantas.
O cenário é ainda mais alarmante se olharmos para as chamadas "áreas suscetíveis a desertificação" (ASDs) do Nordeste brasileiro, nas quais o processo de formação de pequenos desertos pode se instalar se os fatores contribuintes forem mantidos. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, elas constituem:
1.340.863 km² (16% do território brasileiro) – equivalente às áreas somadas de França, Alemanha, Itália e Holanda;
1.488 municípios (27% do total do país);
Partes dos 9 estados da região Nordeste e de 2 estados do Sudeste (Minas Gerais e Espírito Santo);
31,7 milhões de habitantes (17% da população brasileira);
85% das pessoas pobres do país.
Nesta série de reportagens do Desafio Natureza sobre a desertificação, o G1 observou territórios degradados e preservados da caatinga, ouviu pessoas locais sobre como a destruição do bioma pode afetar suas vidas, e acompanhou projetos que tentam reverter a desertificação.
Abaixo, entenda o que é a desertificação e por que ela ameaça a conservação da caatinga no Sertão nordestino.
O que é a desertificação?
É um dos processos mais graves de degradação da terra. Ela ocorre exclusivamente nas regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas do planeta, conforme a definição das Nações Unidas (ONU). A rigor, a degradação observada em outras regiões, mais úmidas, não é desertificação.
Isso porque, nas regiões secas, o solo é naturalmente mais frágil, com pouca água e pouca matéria orgânica (carbono). A retirada da cobertura vegetal – desmatamento – deixa a terra exposta ao sol e agrava a situação. O solo fica rapidamente arenoso ou rochoso. Sem nutrientes e sem água, é quase impossível que novos seres vivos se estabeleçam.
A desertificação pode ser despertada por vários fatores, especialmente os eventos climáticos e a ação humana. Pode ser consequência da elevação das temperaturas. Mas também acentua seus efeitos, num ciclo vicioso.
Ampla área do semiárido brasileiro está suscetível ao processo de desertificação.
De acordo com a Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), mais de 2,7 bilhões de pessoas são prejudicadas pela desertificação em todo o mundo.
Outra estimativa, usada pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) em relatório divulgado no início de agosto, é de que 50% da caatinga passa por alguma forma de degradação, inclusive a desertificação. O dado se refere a 2005. Cerca de 8% do território do Brasil enfrenta algum tipo de degradação, sendo a caatinga o bioma menos preservado.
Oficialmente, os chamados "núcleos de desertificação" são áreas onde o problema se manifesta de forma mais acentuada no Nordeste brasileiro: Seridó (RN/PB), Cariris Velhos (PB), Inhamuns (CE), Gilbués (PI), Sertão Central (PE), Sertão do São Francisco (BA).
O solo argiloso, típico do semiárido brasileiro, racha quando seca.
Não é a mesma coisa que seca
Segundo o pesquisador Aldrin Pérez-Marin, do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), que estuda o problema com indicadores de qualidade dos solos, 85% do semiárido brasileiro está em processo de desertificação moderado e 9% está efetivamente desertificado. Ou seja, nesses 9% identificados pelo Insa, a reversão do processo é quase impossível.
Pérez-Marin ressalta que a desertificação não é sinônimo de seca.
A seca é período do ano em que chove pouco em algumas regiões do planeta. "É um fenômeno natural que ocorre em quase metade da Terra, mais comum do que parece", diz.
Cerca de 60% de tudo o que chove em um ano no semiárido cai em apenas um mês, acrescenta. E 30%, num único dia. As secas vêm ocorrendo no semiárido brasileiro, em média, a cada 26 anos. Porém, a tendência é que, no futuro, haja uma redução da quantidade de chuvas e sua frequência seja mais variável.
Em outras palavras, chove, sim, no sertão. Mas as chuvas caem de uma só vez e demoram pra voltar. Quando chove pouco, temos uma longa "estiagem" – ou "seca".
"A desertificação é um fenômeno antrópico, causado pelo ser humano e pelo seu modelo de desenvolvimento. Portanto, a desertificação é um fenômeno provocado (pelo homem)." – Aldrin Pérez-Marin, do Insa.
Adotada em 1994, uma convenção da ONU estabeleceu alguns parâmetros para combater a desertificação no mundo, o que também é uma das metas de desenvolvimento sustentável. O Brasil é signatário da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos das Secas (UNCCD), junto a outros 192 países.
Causas no Nordeste brasileiro
O desflorestamento é "o principal algoz da caatinga", diz o coordenador do Lapis e professor do Instituto de Ciências Atmosféricas (Icat), Humberto Barbosa. "Não temos números precisos sobre o desmatamento da caatinga, não sabemos as taxas anuais, e isso dificulta implementar políticas públicas."
O levantamento do Lapis usa o sistema alemão "EUMETCast" para monitorar a caatinga com dados de satélites europeus. Pesquisadores observam diariamente a cobertura vegetal no semiárido brasileiro. "Assim, podemos ter dados de alta frequência temporal para o monitoramento de áreas afetadas por seca e degradação", diz Barbosa, que é correspondente do IPCC no Brasil. "Os dados áreas têm sido validados com informações obtidas com drone".
Levantamento do Lapis/Unal sobre áreas em processo de desertificação.
O estudo mostra que o fenômeno da desertificação se intensificou no semiárido brasileiro nos últimos 10 anos.
"Até hoje a caatinga é pressionada pelo extrativismo. E nos últimos 10 anos houve fortes secas, como em 2012 a 2016, exercendo grande pressão climática na região. Isso acelerou os processos causados pelo ser humano." – Humberto Costa, do Lapis.
As intervenções humanas mudam os padrões locais de temperatura e chuva. O desmatamento da caatinga ocorre principalmente por meio de:
Ciclo da desertificação no semiárido brasileiro.
Como conter a desertificação
Para conter a expansão da desertificação na caatinga é preciso controlar os impactos da ação humana e manter algumas áreas preservadas, em pequenos territórios protegidos ou mesmo em Unidades de Conservação (UCs).
Isso também demanda um grande esforço de conscientização da população local, para que compreenda as consequências do desmatamento da caatinga. Uma das principais atividades econômicas no sertão brasileiro, a criação de caprinos e ovinos soltos na caatinga precisa ser conciliada com a conservação do ambiente natural.
Área desertificada em Canudos (BA) por causa das queimadas e da criação de animais.
Quando a caatinga perde a vegetação, chuvas carregam a superfície do solo e deixam poucos nutrientes, favorecendo a desertificação.
Técnico agrícola e sócio fundador do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), José Moacir dos Santos trabalha junto aos pequenos produtores promovendo um manejo mais adequado das áreas em risco de desertificação.
"A retirada de madeira para lenha, para estaca, para construção, e as queimadas para fazer roça de pasto ou, simplesmente, para queimar os cactos e dar de comer aos animais, ajudaram a provocar a desertificação", recorda Santos.
"A desertificação existe sim, mas não são grandes áreas contínuas. Na verdade, é exatamente onde o ser humano desenvolveu alguma atividade, de pecuária ou de agricultura, que o problema está mais evidente." – José Moacir dos Santos, do IRPAA.
Outra parte do desafio de conter a desertificação é que, numa área desertificada, a recuperação do solo não acontece naturalmente. No semiárido, as chuvas são pouco distribuídas ao longo do ano, e reverter a degradação é mais difícil do que em biomas de clima mais úmido, como a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica.
O coordenador do Centro de Conservação e Manejo de Fauna da Caatinga, Luiz Cesar Pereira, explica que o processo natural de "sucessão da vegetação" que ocorre em outros biomas não é tão fácil de ser retomado na caatinga.
Grandes empreendimentos, como a construção de estradas e canais de irrigação, também podem provocar desertificação.
"Na Mata Atlântica e na Amazônia, as primeiras famílias de plantas, leguminosas e euforbiáceas, colonizam o solo num processo natural. Elas dão condições para que outras famílias cheguem. Mas, na caatinga, por falta de umidade, isso não acontece da mesma forma", conta Pereira.
"No processo evolutivo, as espécies da caatinga se adaptaram ao clima daqui. Mas a evolução levou muito tempo para montar esse sistema. Agora, nós chegamos aqui e, numa velocidade muito rápida, eliminamos essas espécies [de animais e plantas] do sistema." – Luiz Cesar Pereira, do Cemafauna.
Para recuperar áreas já degradadas da caatinga, é preciso intervir e tentar trazer de volta os nutrientes do solo. Aos poucos, as plantas nativas podem se restabelecer, começando pelas rasteiras até as árvores, e atrair os animais. O retorno da vegetação também permite restabelecer padrões climáticos e o regime de chuvas normal.
As folhas e galhos secos são paisagem típica no tempo de seca na caatinga. Mas, quando chove onde há vegetação, o sertão fica verde e floresce.
Área preservada da caatinga no Parque Nacional da Serra da Capivara.
Pássaros na caatinga. (g1)

Áreas desertificadas no semiárido ocupam 13% da região

Em 13 anos, as áreas suscetíveis à desertificação no Semiárido são agora quase desérticas e ocupam 13% da região.
Em 2006, no Semiárido havia áreas suscetíveis à desertificação. Eram 6 núcleos – Cabrobó (PE), Gilbués (PI), Inhamus (CE), Irauçuba (CE), Jaguaribe (CE) e Seridó (PB e RN) – que foram divulgados no Plano Nacional sobre Mudança do Clima, o PAN da Desertificação. Hoje, esses núcleos agravaram em muito a situação de degradação e se tornaram o epicentro das áreas quase desérticas do Semiárido que passaram a existir em pouco mais de uma década. No total, o Semiárido tem hoje 13% do seu território classificada como quase desértica.
É o que apontou o Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélite (Lapis), ligado à Universidade Federal de Alagoas (Ufal). “O total que a gente chegou de áreas de todo o Semiárido brasileiro, incluindo o Norte de Minas Gerais, está em torno de 13% de áreas quase desérticas, que estão em níveis de degradação muito alto. Mas existem outros níveis intermediários que estão acelerando em função do uso da terra, das secas, em função da ocupação do solo”, assegura Humberto Barbosa, coordenador do Lapis, que coordena um sistema de recepção de dados em tempo real e tem a capacidade de gerar informações da cobertura vegetal na frequência diária. O monitoramento da cobertura vegetal é o principal indicador de degradação ambiental utilizado pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD).
Imagem de satélite de agosto passado que demonstra a umidade do semiárido.
Em julho passado, o Lapis divulgou este dado alarmante, mas houve pouca repercussão nos veículos de comunicação. Talvez, esse fato seja só mais uma prova da pouca importância que a região semiárida, o bioma Caatinga e as famílias que vivem nele têm para o Brasil. Um ecossistema que, em tempos de alterações climáticas mundiais, tem muito a ensinar no quesito produção de alimentos em condições de pouca água e alta temperatura.
Na entrevista abaixo, o professor Barbosa, com formação em meteorologia, mestrado em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e doutorado em Solo, Água e Ciências Ambientais pela Universidade do Arizona, discorre sobre as principais vulnerabilidades do Semiárido, em diversas dimensões, que contribuem para a ampliação da degradação a passos largos.
Segundo o professor, tais vulnerabilidades são alimentadas pela ausência de políticas públicas direcionadas para minimizar este processo de degradação. “Políticas públicas não podem ser implementadas se você não tem informações. Pelo menos de conter o desmatamento sem saber quais são as taxas, em que ano esse desmatamento tem acontecido. Então, as áreas suscetíveis, as áreas degradadas que a gente destacou mais recentemente é mais em função de falta de políticas públicas para conter este desmatamento no Semiárido“.
Na entrevista, o coordenador do Lapis também lança um olhar específico para a condição da mulher nos territórios que estão se tornando inférteis e impróprios à vida. Esta questão mereceu destaque no recente relatório do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas que busca compreender as mudanças climáticas em curso e conta com cientistas e especialistas do mundo todo.
Neste relatório lançado há dois meses em Genebra na versão direcionada para os formuladores de políticas públicas de todo o mundo, o professor Barbosa coordenou uma equipe internacional e multidisciplinar de pesquisadores para a elaboração do capítulo sobre degradação da Terra. “Foi a primeira vez que o IPCC colocava a questão da superfície terrestre nas emissões. Qual era a contribuição da superfície terrestre nas emissões, principalmente, do metano, do óxido nitroso e do CO2 indiretamente?”, disse ele.
Nascido no interior da Paraíba, com avós sertanejos e uma influência fortíssima de um de seus avós, considerado por ele como “ambientalista por preservar muito a cobertura vegetal no sítio”, o professor Barbosa explicou, de forma didática, como se dá o ciclo de degradação. Tudo começa com o desmatamento, hoje em dia, intensificado pela produção de biomassa, agronegócio e criação de animais de grande porte, como os bovinos, em áreas pequenas.
O relato do pesquisador Humberto Barbosa acerca da vulnerabilidade do semiárido foi feito à Verônica Pragana, publicado por Articulação do Semiárido – ASA, 05/09/2019.
Eis o relato.
2006: áreas vulneráveis à desertificação
Primeiro, a gente participou do PAN de desertificação [Plano Nacional sobre Mudança do Clima], que foi uma ação do governo federal com estados e com agências de Estados pra monitorar essas áreas de desertificação.
Até então, eram cinco núcleos de desertificação espalhados pelo Semiárido e havia interesse do Governo Federal de implementar um sistema precoce de monitoramento de seca, de desertificação e de áreas degradadas.
Até 2006, esse plano serviu como referência para mapeamento das áreas de desertificação. Porém não houve sequência, outras ações para complementar o mapeamento dessas áreas degradadas ou suscetíveis à desertificação. Daí a gente começou tomar a decisão de dar sequência, de continuar mapeando, buscando outras informações.
A partir de 2006, nós começamos a perceber que as áreas do entorno dos núcleos de desertificação começaram a ampliar a degradação neste entorno. A gente começou a melhorar a metodologia, começamos a colocar níveis de degradação, colocamos três níveis. Não eram níveis de suscetibilidade, eram níveis mesmo de degradação a partir da cobertura vegetal.
A UNCCD, que é a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, tinha a cobertura vegetal como o único indicador das áreas degradadas. Então, a cobertura era a principal métrica pra dizer se a área estava degradada.
A gente adotou isso também, olhando primeiro a cobertura vegetal ao longo tempo, desenvolvendo metodologia para saber. A gente classificou em três níveis, o nível 3 é o que a gente chama de quase deserto, aquela região que está no nível mais alto de degradação e que coincide com os núcleos de desertificação que o PAN de 2006 mapeou e redefiniu como núcleos de desertificação.
2019: 13% de área quase desértica no Semiárido
O total que a gente chegou de áreas de todo o Semiárido brasileiro, inclui o Norte de Minas Gerais, está em torno de 13% de áreas quase desérticas, que estão em níveis de degradação muito alto. Mas existem outros níveis intermediários que estão acelerando em função do uso da terra, das secas, em função da ocupação do solo.
A gente tem uma área, por exemplo, se você pegar o Seridó, que se estende pelo Cariri paraibano e ainda pega parte do Rio Grande do Norte, é uma das áreas que você tem ocupação humana, você tem a produção de serviço para o rebanho leiteiro, É uma área bastante rica no sentido de ter uma produção econômica, mas é uma área extremamente degradada nos últimos anos e que as secas e o processo de degradação, de desmatamento e de empobrecimento ali também têm aumentado nos últimos anos.
Primeira vulnerabilidade do Semiárido: a desertificação
O que a gente tem percebido hoje de vulnerabilidade do Semiárido brasileiro, a gente classifica em seis tipos de vulnerabilidades. E, a maior delas ou uma das principais, é a desertificação. A desertificação tem um processo em resposta a vários outros processos que ocorrem no uso da terra.
Hoje, o processo de degradação é muito ligado, principalmente, ao desmatamento da Caatinga. Esse desmatamento ocorre principalmente para a produção de biomassa para gerar energia e a gente tá falando do carvão que vai alimentar as padarias e outros setores produtivos.
Some-se a isso as secas. A gente teve [seca] desde 2011, embora na literatura comece em 2012, mas a gente já tinha percebido sinais de variações de precipitação, ou seja, o regime de chuva abaixo da média, a partir de 2011 até 2016, início de 2017, olhando isso de uma forma mais generalizada.
Então foram quase seis a sete anos consecutivos, seis anos de algumas regiões, até sete anos em algumas áreas do Semiárido, onde a seca foi muito intensa e consecutiva.
A gente não tinha visto um registro de seca que tivesse a intensidade e a permanência dela e isso foi o fator também muito acelerador dessas áreas degradadas.
2012 foi um momento em que a Caatinga teve um momento muito crítico em função não só do uso da terra – desmatamento, queimadas, superpastoreio, mas, em cima disso, a ação climática natural. As secas extremas aceleraram os processos. A gente fez um mapeamento em 2012/2013 e percebeu que as áreas aumentaram em uma taxa muito mais intensa do que a gente tinha visto nos outros anos.
Degradação nos estados
Em média, botando a degradação como um todo, colocando todos os níveis, a gente está numa escala média de 23% de todos os estados, incluindo uma parte do Norte de Minas Gerais. Mas, no Nordeste, está em torno de 23% a 27% de áreas degradadas.
Se a gente pegar Alagoas e somar os níveis de degradação, vamos para um nível de 23% a 25%, o que é alto. Quando eu cheguei aqui, há 10 anos, eu comecei a perceber uma mudança no sertão de áreas [degradadas] aumentando. A gente via muito na Paraíba, Pernambuco, Ceará, naqueles estados onde as secas são muito mais intensas, onde o processo de ocupação acontece com mais intensidade.
Foi um dos primeiros sinais que mais me chamou atenção. Quando eu comecei a mapear, foi como Alagoas nos últimos anos, no Sertão alagoano, bem no centro do mapa de Alagoas, tem áreas com processo de degradação muito alto, alguns já chegando quase no último nível. O que foi a nossa grande surpresa. Porque Sergipe e Alagoas eram estados que a gente olhava a degradação no nível baixo, médio em função de secas, em função da ocupação, isto tudo tem acelerado o processo.
Degradação e IDH
Houve uma preocupação nossa também, mais aqui em Alagoas, de estabelecer as áreas que a gente mapeou de áreas degradadas com o Índice de Desenvolvimento Humano. Não foi nenhuma surpresa que as áreas mais degradadas havia uma correlação alta com os dados censitários do IBGE de índice de desenvolvimento baixo. Então isso também nos preocupou.
A gente queria aprofundar mais isso com os dados censitários socioeconômicos embora para o IBGE não tem essa alta frequência. A escala é municipal, a gente estava trabalhando em uma escala menor do que a do município. Esses são gargalos que a gente espera que nos próximos anos possamos aperfeiçoar e envolver mais a questão socioeconômica.
Mulher, mudanças climáticas e a degradação ambiental
O que a gente tem mais chamado atenção agora, assumindo o papel como líder autor de uma publicação sobre a degradação da terra pelo IPCC, é a questão de gênero nas regiões degradadas. As mulheres e os jovens são os mais impactados pelas mudanças climáticas, mas também na degradação.
Elas estão nesta região e os homens terminam migrando, mas tem um ponto fundamental que a gente levantou nas referências bibliográficas: elas têm pouco papel na tomada de decisão da terra.
A terra ainda é muito machista, ainda está ligada à decisão do homem: a venda, o conhecimento, a formação técnica é muito colocada para o homem, esquece que a mulher está ali na situação de seca extrema ou alguma situação desfavorável que o homem larga aquela terra mas muita dessas mulheres permanecem.
Mas a transferência de conhecimento ainda é feito para o homem. A decisão sobre a terra é do homem: vou vendê-la, vou buscar conhecimento… é muito centrada no homem. Na verdade já existem algumas áreas fora da América Latina que as mulheres detém um conhecimento e elas foram treinadas exatamente para que elas pudessem, na tomada de decisão, serem mais favorecidas.
O problema não é só elas ficarem com o com problema. É como elas estão preparados para lidar com o problema. Porque elas não têm a tomada de decisão, elas não têm o conhecimento e as variações climáticas extremas e o uso do solo estão deixando essas terras improdutivas. Então, se ela depende da sua subsistência dessa área, ela vai ter que a migrar para outras áreas.
O conhecimento tem que ser melhor direcionado para a questão do problema. Nesta questão, a mulher é a solução.
Políticas públicas
Até 2006, o governo federal reconhece o PAN de 2006 – de mapeamento de área suscetíveis à desertificação – como uma ação. Uma ação governamental oficial, porém depois a gente percebeu que esse mapeamento começou a ser feito independente por agências governamentais com metodologias que não eram equalizados. Cada um dava uma metodologia diferente para mapear essas áreas suscetíveis à desertificação após o PAN de 2006.
Aí, essas iniciativas individuais do IBAMA e outros órgãos governamentais já não tinham esse respaldo oficial de uma ação governamental e as metodologias eram as divergentes e os números também começaram a ficar divergentes. Esse fez com que o governo federal, principalmente em 2012 quando estava numa boa situação econômica e o país tinha reuniões e tratados e acordos internacionais, havia um desconforto do governo federal na questão do Semiárido porque a gente não tinha informações oficiais de qual era o desmatamento, quais eram as taxas de desmatamento do Semiárido.
Tinha as taxas de desmatamento da Amazônia, através do Prodes [realiza o monitoramento por satélites do desmatamento por corte raso na Amazônia Legal e produz as taxas anuais de desmatamento na região, que são usadas pelo governo brasileiro para o estabelecimento de políticas públicas], do INPE que desenvolveu uma metodologia desde 1988. A gente não tinha, não tem isso do Semiárido, nem por alguma agência.
A gente não tem uma série de informações sobre qual é o desmatamento na região semiárida brasileira. Políticas públicas não podem ser implementadas se você não tem informações. Pelo menos de conter o desmatamento sem saber quais são as taxas, em que ano esse desmatamento tem acontecido. Então, as áreas suscetíveis, as áreas degradadas que a gente destacou mais recentemente é mais em função de falta de políticas publicas para conter este desmatamento no Semiárido. Lembrando que 30% da matriz energética vem da biomassa, da lenha que é tirada da Caatinga. É o que a gente vê de consenso entre alguns órgãos estaduais, agências, em média 30% da energia do Nordeste vem da Caatinga.
Então, as regiões semiáridas, embora tenham um fórum político que é a UNCCD, que é o órgão das convenções de combate à seca, não despertou para políticas públicas se a gente comparar com a Amazônia, que têm tratamento completamente diferenciado se a gente olhar para políticas públicas nacionais e internacionais.
Se a gente olhar em termos de fragilidades, não só socioeconômica, mas climática, hoje o Semiárido é o que mais é impactado. Porém políticas públicas hoje se você ver e abrir as manchetes dos jornais são tudo direcionados para a Amazônia. Não que não seja importante, mas não podemos esquecer que outros ecossistemas no Brasil estão em altíssima condição de vulnerabilidade por falta de clareza de como vai ser o monitoramento, pra que isso baseie decisões municipais, estaduais e do Governo Federal.
Desmatamento e degradação no espaço urbano
A questão da degradação não é só rural no sentido de que o rural hoje é bem diferente do que era há 40, 50 anos mas é também urbano, não pode esquecer que esse uso e ocupação urbano, ele é em função de um desmatamento, de uma ocupação irregular, que as pessoas do campo vieram para essas áreas e se tornaram refém desta situação socioeconômica.
Na maior parte das cidades brasileiras, essas áreas de risco estão localizadas em áreas vulneráveis, são áreas de montanha, de encostas, porque foi devastada a vegetação e foi criada uma estrutura de habitação que não era adequada para isso. Também é uma degradação e uma degradação de origem do desmatamento. Você teve a ocupação indevida daquela área para suprir uma carência habitacional.
O primeiro passo é retirar a vegetação.
O processo começa quando removo a vegetação, essa vegetação já começa a influenciar nas condições de clima. A umidade da vegetação faz com que você harmonize aquela área. Com a vegetação, dá certo equilíbrio ecológico. Você remove essa vegetação aí você já começa a alterar na umidade, na temperatura dessas superfícies. As chuvas já começam a não se distribuir igualmente, ficarem mais fortes em algumas áreas que a gente chama de enxurrada.
Essa intensidade, esses pulsos de chuvas aumentam em algumas áreas mais do que outras e esses pulsos começam arrastar o que a gente chama de nutrientes desse solo, que já é um solo, de certa forma, impactado pelas condições de Semiárido e se remove esses primeiros nutrientes. Outras chuvas vão vindo e as temperaturas vão aumentando.
Então você começa também a fazer com que o lençol freático altere a localização. A evaporação desse lençol freático vai criando uma pequena camada, que a gente chama de sais, que vão ficando em cima da crosta do solo. Na próxima chuva, a água não percola. Então, você começa a gerar erosão. Tudo isso são os processos que acelera a degradação e desertificação. Naquele solo pode chover, mas ele não responde.
Além disso, nos últimos anos, o processo de desmatamento se soma à queimada e ao superpastoreio, que é quando você começa a criar animais de grande porte em áreas pequenas. O problema não é criar animais, o problema é a quantidade de animais numa área pequena e eles vão compactando o solo, degradando esse solo.
Com isso, você acelera o processo de perda de nutrientes. Porque o solo é uma coisa viva, a gente sempre acha que é a vegetação, mas o solo tem nutriente e micro-organismos que precisam desta vegetação para ter equilíbrio ecológico.
À medida que a gente tira essa vegetação, a insolação que é muito alta na região Nordeste do Brasil aumenta esta temperatura e os nutrientes morrem. A gente chegou, há dois anos, a medir a umidade do solo no sertão de Alagoas e eu cheguei a pegar temperatura de 50º com termômetro de solo, queimava a minha mão. E não há pequenos organismos que sobrevivam por 50-60º Celsius.
Contribuição do agronegócio
A retirada da vegetação típica, nos últimos anos, [também acontece] pela ocupação, pelo uso, pelo aumento da população. Isso é uma outra questão. Sempre uso essa referência. Há um século éramos dois bilhões, um pouquinho mais. Hoje somos sete bilhões. E, em 2050, que não tá muito longe, seremos nove bilhões. Ou seja, o número de boquinhas para alimentar tem aumentado e isso traz também certa demanda, uma pressão para intensificação da agricultura, que é um outro ponto que também tem feito que a degradação aumente. Essas áreas desmatadas algumas delas são também utilizadas na agricultura para a produção de alimentos.
A agricultura nossa, no geral, não é sustentável não só pelos fertilizantes, mas pela forma como é a produção de alimentos. Quando as monoculturas são instaladas não tem problemas, mas como o passar do tempo ela começa a extrair um dos nutrientes. A cana-de-açúcar, por exemplo, começa a extrair um determinado nutriente e os demais começam a se exceder e isso vai empobrecendo aquele solo. Esse é um dos problemas, além de algumas delas ter um consumo de água muito alto.
Tem a questão da monocultura para gerar energia, no momento em que a gente tem uma população crescendo, quando a segurança alimentar vai ser decisiva porque você vai ter condições climáticas menos favoráveis a esta agricultura.
Você transformar [o cultivo] em energia é uma questão ética e uma questão também de políticas públicas de como a nossa alimentação vai trazer estas questões de como pegar a cana-de-açúcar para produzir energia. Isso em curto prazo é extremamente rentável economicamente e não tem ainda impacto nas emissões, mas daqui a 50 anos, eu não sei se o modelo tecnológico que a gente tá adotando para transformar a cana-de-açúcar em etanol se vai ser possível em face das alterações climáticas e em face da segurança alimentar e da ética. Em países como a China não se permite você extrair energia de milho, da cana-de-açúcar.
A Caatinga, único ecossistema adaptado às variações climáticas
O código genético da Caatinga tem uma informação que, certamente, precisa ser melhor explorado que é a informação de como essa vegetação se adaptou – essa palavra adaptação é muito importante – a esses extremos de clima.
Você tem um ecossistema aqui no Brasil que, há séculos, vem na adaptação destas variações de secas, que sempre tiveram, sempre foram recorrentes, desde o tempo de D Pedro II.
Ela tem uma informação genética e como essa informação pode ajudar a agricultura que vai ser desafiada porque as alterações climáticas vão trazer menos chuvas, mais altas temperaturas, isso a gente não está falando do Semiárido, tá falando da região centro-sul. E quem melhor se adaptou em termos vegetativos foi a Caatinga, não tem outro ecossistema que tenha enfrentado essas variações climáticas naturais e, agora, antrópicas, se não a Caatinga.
Então destruir a Caatinga é perder esta informação genética de como ela se adaptou, o que fez algumas espécies se adaptarem tanto às transformações tão bruscas e ela continuar ali ainda resistindo.
Quando falamos do conhecimento, esta região semiárida é uma área muito vulnerável. A gente não sabe as áreas onde estas espécies estão suportando melhor estas condições de variações climáticas ou que espécies poderiam estar ajudando a gente a entender e adaptar outras cultivares, principalmente, com a questão da agricultura resistente a baixo volume de chuvas e a altas temperaturas.
Vulnerabilidade institucional
A outra vulnerabilidade é institucional. As nossas agências governamentais, estaduais, todas estas agências que estão na região semiárida brasileira elas são muito vulneráveis, ainda não conseguem atender a necessidade que, nas próximas décadas, de como essa população retirar a sua sobrevivência desse solo que está em condição degradada, que tem alterações climáticas, ou seja, diminuição das chuvas, vários problemas que você precisa ter transferência de capacitação técnica que agências locais teriam que estar fazendo isso. (ecodebate)