quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Clima está mudando diante dos nossos olhos

Clima está mudando diante dos nossos olhos, alerta a Organização Meteorológica Mundial
Supertempestade Sandy é citado como exemplo de evento extremo que evidencia a mudança climática. Foto de satélite NASA/NOAA.
De acordo com a WMO, 2012 deve ficar entre os anos mais quentes dos últimos tempos – O fato do gelo ártico ter derretido a um nível recorde neste ano mostra, assim como outros extremos climáticos, que a “mudança do clima está diante dos nossos olhos”, disse a Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês), uma das agência da ONU, em 28/11/12.
Os primeiros dez meses de 2012 ficaram em nono lugar na lista dos períodos mais quentes desde que os registros começaram, em meados do século 19, mesmo com os meses iniciais ficando mais frios por causa do fenômeno “La Niña”, mostrou um relatório do WMO apresentado em Doha, durante a Convenção do Clima da ONU.
Várias regiões registraram secas, enchentes e ondas de calor extremos. O número de ciclones em todo o mundo ficou estável, mas alguns, como a Supertempestade Sandy, que atingiu o Caribe e os Estados Unidos, foram especialmente devastadores, avalia a WMO.
“A extensão do gelo no Ártico atingiu um tamanho mínimo recorde. A taxa alarmante do degelo neste ano destacou o alcance das mudanças que estão ocorrendo nos oceanos e na biosfera”, disse Michel Jarraud, chefe da base da WMO em Genebra, na Suíça.
“A mudança climática está bem diante dos nossos olhos e persistirá como resultado das concentrações dos gases de efeito estufa na atmosfera, que cresceu de forma constante e que atingiu um novo recorde”, disse Jarraud. Eventos naturais que costumam esfriar a temperatura, como a La Niña “não alteram a tendência de aumento de temperatura verificada como resultado das atividades do homem”, disse o representante da agência.
Alguns dados
O levantamento mostrou que a temperatura das superfícies terrestre e oceânica dos primeiros nove meses de 2012 foi cerca de 0.45ºC superior ao período correspondente nos anos entre 1961 e 1990, que apresentam média de 14,2ºC.
Em todo o mundo, foi verificado que os ciclones tropicais ficaram próximos da média de 85 tempestades registradas entre 1991 e 2010, somando 81 eventos neste ano. O tufão Sanba, que atingiu as Filipinas, o Japão e a península coreana foi o mais forte.
A bacia atlântica teve uma temporada de furacões acima da média pelo terceiro ano consecutivo. O principal deles foi Sandy, que atingiu nações insulares no Caribe e os Estados Unidos.
As altas temperaturas afetaram principalmente a América do Norte, o sul da Europa, o oeste e o centro russo e o noroeste da Ásia, mostrou o levantamento da WMO. Ondas de calor atingiram boa parte dos Estados Unidos e a Europa entre março e maio.
Cerca de 15 mil recordes diários de calor foram quebrados por todos os Estados Unidos. Secas também atingiram várias partes dos Estados Unidos e parte da Rússia, Europa e China.
“Várias partes do oeste africano e da região do Sahel, incluindo Níger e Chade, sofreram com grandes enchentes entre julho e setembro por causa de uma monção bastante ativa”, revelou o levantamento. (EcoDebate)

Clima – ceticismo ou esperança?

É significativo que, ainda com os escombros da passagem da supertempestade Sandy à vista, em suas primeiras palavras após a reeleição o presidente Barack Obama tenha dito: “Queremos que nossos filhos vivam num país que não seja enfraquecido por desigualdades e que não seja destruído pelo aquecimento global”. Poucas horas antes, ainda na campanha eleitoral, seu adversário, o republicano Mitt Romney, havia dito não saber o que provoca mudanças climáticas. Já Obama dissera que “negar as mudanças climáticas não as fará deixar de acontecer”.
É importante porque estamos a poucos dias de se iniciar a 18.ª reunião da Convenção do Clima (a COP-18), que reunirá quase 200 países em Doha, no Catar. E numa hora em que, segundo a secretária da convenção, Christiana Figueres, as promessas atuais de redução de emissões de gases de efeito estufa no mundo não são suficientes para atingir o objetivo de conter em 2 graus Celsius, até 2050, o aumento da temperatura da Terra – limite além do qual as consequências serão muito dramáticas (a Blue Planet, instituição que reúne os Prêmios Nobel alternativos do meio ambiente, acha que o aumento ficará em 3 graus, no mínimo, e poderá chegar a 5 graus até o fim do século; outras instituições mencionam 6 graus ou mais).
Mas continua tudo muito difícil. Há quem pense que China e Índia já recuaram da decisão de aceitar, até 2015, um compromisso “vinculante” de todos os países de reduzir suas emissões a partir de 2020. Representantes norte-americanos chegam a dizer que é preciso haver uma declaração “criativamente ambígua”, “flexível e dinâmica” (sem objetivos específicos), e um deles opinou que melhor seria “cada país decidir por si mesmo o caminho a tomar”. Já a Agência Internacional de Energia entende que o caminho mais curto e eficaz será dobrar a produção de energia elétrica e outras fontes não poluentes até 2050 (hoje a primeira está em pouco mais de 16% do total, ante 67% das energias fósseis, 12,8% da nuclear e 3,6% de outros formatos). Mas China e Índia, principalmente, embora venham avançando na implantação de formatos não poluentes, também vêm ampliando a produção de energia a partir do carvão, sua principal fonte, diante da necessidade de ampliar o fornecimento – na Índia 600 milhões de pessoas ainda não dispõem de energia elétrica.
Para complicar mais, continua a discussão entre países “emergentes” e industrializados, com os primeiros entendendo que a responsabilidade de redução de emissões deve caber aos segundos, que emitem poluentes há mais tempo, desde o início da Revolução Industrial, e estes retrucando que hoje os não industrializados já emitem mais que eles – e sem uma redução correspondente nesse “novo mundo” não haverá uma queda suficiente nas emissões globais (pouco menos de 40 bilhões de toneladas anuais de dióxido de carbono). E ainda há outros complicadores em cena: que se fará, por exemplo, para reduzir as emissões na cadeia que envolve a agricultura e a produção de alimentos (29% do total), na hora em que será preciso alimentar mais 2 bilhões de pessoas e eliminar a fome de 1,3 bilhão?
O Banco Mundial mostra que os ângulos econômicos da questão têm forte peso nas decisões: as emissões aumentam 0,73% para cada 1% de alta no PIB, mas só diminuem 0,47% a cada queda de 1% (Nature Climate Change, 8/10). E como a expansão econômica neste século pode levar o PIB mundial a pelo menos US$ 235 trilhões, podendo chegar até a US$ 550 trilhões (está por volta de US$ 70 trilhões), não se tem como excluir um panorama preocupante, que leve a temperatura planetária a aumentar até 6,4 graus Celsius. Hoje os subsídios a energias renováveis estão em apenas US$ 70 bilhões anuais, muitas vezes menos que os subsídios para os combustíveis fósseis, principalmente petróleo.
“Vivemos uma emergência planetária”, diz o conceituado cientista James Hansen, da Nasa. E ganha logo apoios, diante das notícias de que o gelo do Ártico se reduziu à menor área de todos os tempos (3,4 milhões de quilômetros quadrados). Há quem pense – como o cientista Peter Wadhams, da Universidade de Cambridge (The Guardian, 17/9) que ele poderá “desaparecer” em quatro anos. Mas sob o gelo há uma quantidade gigantesca de metano que poderá ser liberada (e o metano é pelo menos 21 vezes mais prejudicial na atmosfera que o carbono). Já há uma corrida de empresas norte-americanas, russas, chinesas e outras para explorar ali o petróleo e o gás antes inacessíveis. Entretanto, mesmo diante de fatores dramáticos, há quem continue a duvidar de perspectivas tão ameaçadoras. Mas os “céticos do clima” perderam há pouco uma de suas vozes mais fortes, Richard Muller, físico da Universidade de Berkeley, segundo quem “há fortes evidências de que os humanos tenham mudado o clima planetário”.
Com tudo isso, Yvo de Boer, ex-secretário-geral da Convenção do Clima, pensa que “um acordo agora parece impossível”, ainda que já se saiba que o próximo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, a ser divulgado em 2013, “será chocante” (Watoday, 7/11). Por isso é importante que cada país defina sua metas de redução de emissões, independentemente das negociações em Doha. Até porque estas terão um complicador: as negociações sobre prorrogar (ou não) o Protocolo de Kyoto, de 1997, que expira este ano e é o único acordo internacional que define metas obrigatórias de redução (5,2%) de emissões para os países industrializados. Os Estados Unidos já não o ratificaram e agora Rússia, China e Canadá dizem que não aceitam a prorrogação (o Brasil quer, pois é o terceiro país em volume de recursos recebidos para financiamento de projetos que reduzam emissões, e estes já movimentaram dezenas de bilhões de dólares no mundo).
Neste panorama mundial de desastres, e com o Brasil enfrentando inundações, calor e secas inéditos em muitas décadas, vamos ver que posição tomaremos em Doha. (EcoDebate)

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Plásticos ameaçam vida no Mediterrâneo

Bilhões de fragmentos plásticos ameaçam vida no Mediterrâneo
Cerca de 250 bilhões de pedaços microscópicos de plástico flutuam no mar Mediterrâneo, representando uma ameaça à biodiversidade marinha. Esse impacto reverbera na cadeia alimentar, segundo estimativas feitas por biólogos marinhos da França e da Bélgica. As conclusões vieram da análise de amostras de água coletadas em julho nas costas da França, do norte da Itália e da Espanha a uma profundidade de 10 a 15 centímetros.
Noventa por cento das amostras, coletadas por voluntários da Expedição Mediterrâneo em Perigo (MED, na sigla em inglês), continham esses fragmentos. O peso médio de cada um deles é de 1,8 miligrama, “que superam, grosso modo, as 500 toneladas em todo o Mediterrâneo”, disse François Galgani, do Instituto Francês de Exploração do Mar (Ifremer).
A amostragem cobriu apenas as águas superficiais e deu uma avaliação preliminar do problema. Coletas futuras, na costa de Gibraltar, Marrocos, Argélia, Tunísia, Sardenha e sul da Itália serão feitas em 2011 para uma análise mais abrangente.
Entenda a ameaça - Pequenos fragmentos plásticos são uma ameaça permanente no mar, pois se misturam ao plâncton e são confundidos com ele. Pequenos peixes se alimentam deles e, mais tarde, são comidos por predadores maiores e assim sucessivamente por toda a cadeia alimentar. Há evidências de que isso provoca danos acumulados até nas maiores formas de vida marinha, como focas, tartarugas e baleias. Ingeridos, os compostos plásticos obstruem o aparelho digestivo dos animais, causam lesões no estômago e liberam compostos tóxicos.
“A única solução para o problema é conter os microfragmentos nas fontes”, disse o integrante da Expedição MED, Bruno Dumontet. O grupo está lançando uma petição online para exigir da União Europeia (UE) o estabelecimento de regras sobre o descarte e a biodegradabilidade de bens de consumo. (fsj.edu)

Os giros oceânicos e as ilhas de plástico

Junção de dejetos deu origem no Pacífico Norte à primeira “ilha de lixo”. Após o tsunami japonês, as costas canadenses e californianas foram tomadas por dejetos vindo do Oriente, observa Jorge Pablo Castell.
Detritos plásticos põem em risco a vida de animais marinhos
A fama de uma ilha nada glamorosa correu mundo via internet. Trata-se da ilha de plástico do Pacífico Norte formada por dejetos pouco degradáveis, entre os quais sacolas, fragmentos de garrafas PET e bolinhas plásticas de cerca de 5mm de diâmetro, matéria prima para a fabricação de outros artefatos, e que caem dos contêineres no transporte oceânico. Com a ação dos ventos e da rotação terrestre, bem como das correntes marítimas, formam-se os “giros oceânicos”, responsáveis por concentrar em um local o que há de dejetos flutuantes. “No Hemisfério Norte temos o Giro do Pacífico e o Giro do Atlântico (ambos no sentido horário) e no Sul os giros do Pacífico, Atlântico e Índico (em sentido anti-horário)”, explica o oceanólogo Jorge Pablo Castello na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. O pesquisador fala, também, sobre Kamilo Beach, pequena praia situada no Sudoeste do Havaí que se converteu “num depósito de lixo flutuante transportado pela água, particularmente durante os períodos de alta maré”. Trata-se de uma “coincidência desafortunada entre a geografia da Ilha e o fluxo das correntes marinhas”, completa. Castello menciona o desconhecimento geral das pessoas sobre os oceanos e sua relevância para a vida humana “como fonte de alimento, energia, e o papel modulador do clima da Terra”.
Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade de Buenos Aires – UBA, Jorge Pablo Castello é doutor em Oceanografia Biológica pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG, onde leciona no Instituto de Oceanografia. É autor de Diagnóstico ambiental e oceânico da região sul e sudeste do Brasil (Rio de Janeiro: Fundespa, 1994).
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Quais são os principais problemas que a comunidade científica detectou nos oceanos?
Jorge Pablo Castello – Entre os principais problemas detectados podem ser indicados os seguintes:
– acidificação das águas marinhas (relacionado com o aumento do CO2 na atmosfera);
– aumento do nível médio do mar;
– aumento da temperatura das águas da superfície do mar e suas consequências sobre a distribuição geográfica, reprodução, migração e produtividade das espécies marinhas;
– perda de biodiversidade e, naqueles ecossistemas impactados pela pesca, simplificação/alteração das cadeias tróficas com desaparição dos chamados predadores de topo que funcionam como reguladores do sistema;
– poluição e contaminação, particularmente nas regiões costeiras;
– pressão antrópica e descaraterização dos ambientes naturais costeiras (ocupação imobiliária, obras de engenharia, remoção de areias, dejetos de todo tipo, etc.);
– conhecimento insuficiente das águas profundas, embora esse quadro tenha começado a mudar no presente com o maior uso de ROVs (Remote Operated Vehicles) e minissubmarinhos automatizados e tripulados.
IHU On-Line – Uma “ilha de plástico” foi detectada no Oceano Pacífico. Onde ela fica exatamente e como podemos compreender a formação desse lixão, e o que ele representa em termos de riscos para o ecossistema oceânico?
Jorge Pablo Castello – A chamada “ilha de plástico” é formada por muitos dejetos que flutuam na superfície e são pouco degradáveis. Entre esses plásticos, além das sacolas, seus fragmentos e garrafas PET, encontram-se pequenas bolinhas (pellets) de aproximadamente 5 mm de diâmetro, que constituem a matéria prima para fabricação de artefatos plásticos. Esses objetos aparecem na superfície do mar porque caem de navios que os transportam em contêineres e que são perdidos durante temporais. Outros, como as garrafas e sacos plásticos, são levados até o mar pelos rios e as chuvas desde as costas. Outros produtos perdidos pelos navios são mais pesados e afundam; estão presentes nos oceanos, mas não são vistos. Ainda podem ser encontrados panos de redes de espera que foram perdidos pelos barcos pesqueiros e, como ainda possuíam boias e o material pode ter baixa densidade, continuam “pescando”, provocando uma mortalidade indesejada.
Os riscos conhecidos afetam aves e tartarugas marinhas, peixes e até mamíferos que ingerem essas partículas flutuantes (possivelmente confundidas com alimento) provocando danos no sistema digestivo das espécies.
Os “giros” do Oceano
A primeira “ilha de lixo” foi localizada no Pacífico Norte uma vez que o chamado Giro do Pacífico (que rota no sentido horário) tende a concentrar esse material em seu centro dinâmico. Recentemente apareceram frente às costas de Canadá e da Califórnia muitos dejetos flutuantes (e até um barco de pesca) que foram arrancados do litoral japonês durante o último tsunami. No entanto, um informe recente das Nações Unidas relata que esse fenômeno já não é mais restrito ao Pacífico Norte, estando também presente nos outros oceanos. Isso coloca em evidência a magnitude do problema.
No Hemisfério Norte temos o Giro do Pacífico e o Giro do Atlântico (ambos no sentido horário) e no Sul os giros do Pacífico, Atlântico e Índico (em sentido anti-horário). Em todos os casos os giros oceânicos são o resultado da ação dos ventos que transferem energia à lamina de água da superfície e da rotação terrestre (conhecida como Força de Coriolis). O efeito desses giros é que a água da superfície converge para o centro, fazendo com que as partículas plásticas flutuantes fiquem agregadas.
IHU On-Line – Do lixo encontrado nessa área do Pacífico, 27% é composto por sacolas plásticas. Qual é a responsabilidade das empresas e da sociedade civil nessa realidade?
Jorge Pablo Castello – Sem dúvida, existe uma responsabilidade compartilhada tanto pelos fabricantes (que atendem a uma demanda) como pelos usuários, comerciais e domésticos. Como mencionei, os sacos plásticos que são achados provém da região costeira, levados pelos rios e as chuvas. Mudanças de comportamento, como o uso de sacos biodegradáveis ou simplesmente de papel reciclado, ou ainda o consumidor sempre levando sua própria bolsa ao supermercado, são alternativas indicadas.
IHU On-Line – Que outras áreas além do “lixão do Pacífico” concentram tantos dejetos trazidos pelas correntes marítimas?
Jorge Pablo Castello – Até onde sei, o do Pacífico é o maior de todos e, também, o que recebeu maior atenção até o presente. No entanto, é possível que com o aprofundamento e maior extensão dos estudos outros “lixões” venham a ser conhecidos. É importante ressaltar que desde longa data existe esse comportamento de considerar os mares e os oceanos como verdadeiros espaços que “podem aceitar qualquer descarte”. Claro que esta é uma percepção completamente errada, mas que se pode entender visto a extensão deles. Assim, depois da I Guerra Mundial, tanto os países aliados como a Alemanha descartaram no Mar Báltico enorme quantidade de barris contendo o princípio ativo do tristemente célebre gás mostarda. Esses barris se depositaram no fundo e, com a ação do tempo e a corrosão da água de mar, começaram a vazar seu conteúdo entre 30 a 40 anos mais tarde. Isso ocasionou inúmeros problemas, particularmente aos pescadores, que tiveram a infelicidade de enganchar os barris em suas redes de pesca de fundo. Grandes cidades (que com frequência se localizam em áreas costeiras) já usaram o mar como depósito de lixo urbano. O caso mais emblemático é o de Nova Iorque.
IHU On-Line – O que explica que Kamilo Beach tenha se tornado um lixão a céu aberto, recebendo, sobretudo, lixo vindo do Japão e Coreia do Sul? Qual é a responsabilidade dos governos desses países sobre o estado dessa praia havaina?
Jorge Pablo Castello – A praia de Kamilo (pequena, pois tem algo como 500m de extensão) se encontra no extremo sudoeste da Ilha do Havaí e, por uma coincidência desafortunada entre a geografia da Ilha e o fluxo das correntes marinhas, acabou se convertendo num depósito do lixo flutuante transportado pela água, particularmente durante os períodos de alta maré. Quanto à responsabilidade, esta é uma questão de educação e políticas ambientais, ou melhor, da falta delas.
IHU On-Line – Como podemos compreender o surgimento da ilha de Tilafushi, nas Ilhas Maldivas?
Jorge Pablo Castello – Tilafushi é uma ilha artificial “construída” sobre e em torno de um recife próximo aproveitando o corpo lacunar central do atol de Kaafu a oeste de Malé, uma das Ilhas Maldivas (a Oeste da Índia). Ela foi construída em 1990 com o único propósito de instalar ali um lixão municipal. De fato o lixo, transportado por barcaças, provém dos grandes assentamentos e resorts turísticos que se encontram na região e que proporcionam, junto com a pesca, a quase única fonte de ingresso econômico deste pequeno país, a República das Maldivas. Nesse caso trata-se de um efeito indesejado da indústria e dos grandes interesses turísticos. A alternativa ao lixão seria a incineração dos resíduos, mas os custos e a contaminação associada a ela tornaram-na uma opção inviável.
IHU On-Line – Por que a percepção que as pessoas têm do mar é muito limitada? Persiste uma aura mágica em torno dos oceanos, relegando sua importância a um plano muito mais ligado ao turismo do que a sua importância para os ecossistemas?
Jorge Pablo Castello – Em minha opinião, essa concepção limitada é produto de nossa maneira de perceber o ambiente que nos rodeia. O ser humano é essencialmente um “animal óptico” e terrestre. A água, como habitat, é um meio estranho ao ser humano. A visão é o nosso sentido mais precioso, e dele muito dependemos para obter e formar imagens do mundo que nos rodeia.
Assim, a grande maioria das pessoas tem uma noção mais realista das florestas, planícies, rios, montanhas, etc. No entanto, com relação ao mar a situação é diferente. O que vemos do mar se relaciona com suas interfaces: as costas, praias, costões rochosos e a superfície. Esta última se estende por milhares de quilômetros com pouca variação relativa com relação à cor e forma (cor esverdeada sobre as plataformas continentais ou azulada na região oceânica onde a profundidade ultrapassa os 150m) ou uma superfície lisa ou rugosa devido às ondas geradas pelo vento. Já abaixo da superfície, nada se encontra ao alcance direto de nossa visão. Para isso, necessitamos de aparelhos (redes, câmeras de TV, fotografias, minissubmarinhos, instrumentos coletores de água ou de seres vivos). Ou seja, nossa percepção dos mares e oceanos é limitada ou, em todo caso, muito mais limitada que aquela que temos do mundo emerso.
O turismo e lazer são praticados na região de interface costeira (praias, dunas, lagoas, recifes de corais, etc.) e, quando se pratica natação, vela ou navegação, na interface da superfície da água com a atmosfera. Aquilo que é jogado fora ou flutua ou afunda, portanto, só vemos o que flutua… A superfície dos mares compõe quase 71% da superfície do planeta. A relevância dos oceanos para a vida humana, como fonte de alimento, energia, e o papel modulador do clima da Terra são funções e “serviços” do ecossistema marinho são conceitos relativamente recentes na perspectiva histórica da civilização.
IHU On-Line – Em quais aspectos o estudo dos mares precisa recorrer à transdisciplinaridade?
Jorge Pablo Castello – Eu diria que praticamente em todos. A transdisciplinaridade (ou interdisciplinaridade) e a multidisciplinaridade são exigências científicas necessárias para melhor entender o significado dos processos naturais e de como o homem neles eles interfere.
IHU On-Line – Por que o mar é concebido como dotado de recursos inesgotáveis e com capacidade de absorver todos os dejetos? O que essa mentalidade representa para o ecossistema marinho em particular, e à vida em terra firme?
Jorge Pablo Castello – A concepção sobre recursos marinhos inesgotáveis é muito antiga. Na história moderna, um destacado cientista como Sir Thomas Huxley (grande amigo e defensor de Charles Darwin ) disse, em 1883 na Real Sociedade Britânica, que não havia necessidade de controlar a pesca, pois a capacidade produtiva dos estoques era praticamente infinita. Ou seja, acreditava-se que a pesca não tinha capacidade de comprometer a estabilidade e a reposição dos estoques pesqueiros. Porém, pouco antes das duas grandes guerras foi possível verificar que a pesca, sim, podia exercer alterações profundas na abundância, reprodução e crescimento dos estoques pesqueiros. Essa ação negativa foi acelerada com o avanço das tecnologias de pesca e da localização dos cardumes impulsionadas pelo aumento da demanda para consumo humano e obtenção de farinhas e óleos (indústria de redução de pescado para fabricação de rações para aves, suínos, cultivos de camarões e de peixes carnívoros como os salmões). No presente, é estimado que apenas 25% dos estoques mundiais são bem administrados (de maneira sustentável). O resto se encontra superexplorado, explorado ao máximo ou em colapso.
Efeito perverso
É importante ressaltar que muitas pescarias no mundo desenvolvido e em vias de desenvolvimento recebem generosos subsídios econômicos dos mais diversos tipos: para compra de redes, aparelhos de navegação e localização de cardumes, combustível subsidiado, créditos baratos – do tipo “de pai pra filho”, aquisição de novos barcos, etc. Esses subsídios têm um efeito perverso, porque graças a eles muitas pescarias que seriam economicamente inviáveis, pelos baixos níveis de abundância, são mantidas em atividade prejudicando e inviabilizando a recuperação biológica dos estoques. Embora a sustentabilidade tenha sido concebida teoricamente como um conceito multidimensional – social, econômico e biológico –, o que tem acontecido na prática, ano após ano, e a dominância da dimensão econômica sobre todas as outras, sem entender que sem a sustentabilidade biológica não podem existir as restantes. (EcoDebate)

O que fazer com o lixo?

No fim da linha do ciclo do consumo e do desperdício, o lixo é fonte de poluição e agravos à saúde mas também de lucros.
O maior navio já construído pelo homem é um superpetroleiro de nome Knock Nevis. O navio – desmontado em 2010 – tinha um comprimento equivalente a quatro campos de futebol e a largura de um prédio de 23 andares. E era capaz de transportar, de uma só vez, uma carga com peso máximo de 564 mil toneladas.
Mas mesmo esse colosso se apequenaria se tivesse que desempenhar a inglória tarefa de transportar o lixo domiciliar gerado anualmente no mundo: uma montanha de 730 milhões de toneladas, que necessitariam de 1,3 mil viagens do Knock Nevis. Isso porque estamos falando só do rejeito gerado nos domicílios. Se tivesse que transportar a somatória do lixo que é gerado anualmente por todas as atividades humanas levadas a cabo no mundo – estimadas em 30 bilhões de toneladas -, o maior navio da história precisaria fazer mais de 53 mil viagens.
Aí você pergunta: transportar para onde? Pois é, como se não bastasse, o transporte é só um dos componentes desta equação. Arranjar um lugar para dispor de todo esse lixo de maneira a provocar o menor impacto possível é um desafio tão grande quanto transportá-lo, se não maior. No lixo podem ser encontrados vários agentes patogênicos e resíduos químicos com potencial para afetar nossa saúde; o lixo é capaz de impactar negativamente o meio ambiente de diversas formas, poluindo o solo, a água e o ar. Para piorar, o descarte do lixo gera um problema na medida em que ninguém quer morar perto de depósitos de rejeitos que, via de regra, acabam sendo instalados próximos a populações pobres em áreas periféricas.
Enfim, o lixo – desde sua geração até sua disposição final – é um tema que extrapola discussões meramente técnicas, trazendo à baila questões políticas, econômicas, sociais e éticas, como você verá ao final desta reportagem, que busca dar um panorama das principais dificuldades para o manejo do lixo hoje no Brasil, as soluções possíveis e as estratégias que vêm sendo apresentadas como soluções, mas que trazem em si mesmas outros problemas.
Política Nacional de Resíduos Sólidos
Mas por que falar de lixo agora? A explicação está na lei 12.305, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), estabelecendo diretrizes e metas para a área de gerenciamento do lixo no país, além de criar instrumentos para que os três entes federados, o setor produtivo e a sociedade civil se articulassem no sentido de garantir o descarte ambientalmente adequado dos chamados resíduos sólidos comumente chamados de lixo. Essa denominação engloba desde o que é gerado nos domicílios até o que é produzido pela atividade mineradora, passando por resíduos de serviços de saúde, industriais, entre outros. A lei estipulou um prazo de dois anos para que todos os municípios e estados que desejassem receber recursos federais destinados a essa área elaborassem planos de gestão de resíduos, que deveriam apresentar um diagnóstico de todo o lixo gerado em seus territórios, especificando volume, caracterização e as formas de destinação e disposição final adotadas, além de uma série de outros itens, como: a identificação de áreas favoráveis para a disposição ambientalmente adequada dos resíduos; regras para seu transporte; planilhas de custo e metas para redução, reutilização, coleta seletiva e reciclagem, no sentido de reduzir a quantidade de resíduos que efetivamente precisaria ser descartada.
O prazo terminou em agosto deste ano, e o balanço não é dos mais animadores. Segundo Silvano Silvério, diretor de ambiente urbano do Ministério do Meio Ambiente (MMA), a estimativa do governo é de que cerca de 550 municípios elaboraram ou estão elaborando seus planos de gestão, e deverão receber recursos do MMA. Isso representa em torno de 10% dos 5.565 municípios brasileiros. No mais, diz Silvério, 17 estados e o Distrito Federal estão elaborando seus planos com recursos do MMA. “Ressaltando que 2012 não é o prazo para terem seus planos elaborados, e sim para acessar recursos da União. O que não impede e nem desobriga os municípios e estados de elaborarem seus planos, que são instrumento da PNRS e são, portanto, obrigatórios”, afirma. Com o fim do prazo, ele diz que o governo avalia a possibilidade de continuar apoiando a elaboração dos planos.
Maurício Waldman, pós-doutor em resíduos sólidos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acredita que muitos dos municípios que concluíram seus planos de gestão de resíduos no prazo o fizeram de maneira incompleta. O pesquisador cita o caso de São Paulo, onde, segundo ele, “a prefeitura, para atender a exigência de fazer um plano até esse ano, fez um que não especifica metas, custos de implantação, só faz promessas. Ninguém quis se comprometer”. Para Waldman, estabelecer o prazo para elaboração até 2012, as vésperas de uma eleição municipal, foi equivocado. “Eu não consigo imaginar nenhum prefeito deixando um plano destes de graça para o seu sucessor. Tem uma questão aí que é política”, aponta. Segundo ele, uma das dificuldades é inerente à forma como os cargos são preenchidos na maioria das prefeituras. “Não necessariamente quem está à frente de uma secretaria de obras ou de uma secretaria de meio ambiente é da área. Em geral é uma pessoa que está na composição política do partido que entrou e é contemplada com esse cargo”, situa. Além disso, diz, em geral o aparato administrativo das prefeituras não tem uma concepção muito clara de tudo o que envolve o gerenciamento do lixo. “Na cabeça de muitos administradores, qual é o grande problema do lixo? É não deixá-lo acumulado na calçada porque é esteticamente ruim, a população reclama. Então a ideia é tirar o lixo da calçada. Mas para onde ele vai? Aí é outra historia”, afirma.
Quantidade e destinação do lixo domiciliar
Maurício levanta uma questão fundamental: quanto lixo é gerado nos municípios brasileiros todos os dias e o que é feito com ele? Os dados consolidados mais recentes são de 2008, e estão na Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo ela, a coleta regular de resíduos sólidos é feita em quase 90% dos domicílios do país, sendo que na área urbana esse percentual passa de 98%; na área rural, contudo, a coleta só chega a 33% dos domicílios. Em 2008, foram coletadas 183,5 mil toneladas por dia de resíduos sólidos urbanos (provenientes das residências e estabelecimentos comerciais e de serviços) no país.
Segundo a Política Nacional de Resíduos Sólidos, atualmente o local mais adequado para receber esse lixo são os aterros sanitários, empreendimentos que devem receber licença ambiental dos órgãos ambientais estaduais para funcionar e obedecer a uma série de critérios técnicos: o local tem de ser cercado para barrar a entrada de estranhos; o lixo deve ser coberto por terra e, por baixo, receber uma manta de polietileno para evitar que o chorume – resíduo altamente tóxico proveniente da decomposição do lixo – contamine corpos d’água; o terreno deve possuir uma unidade de tratamento de chorume e uma usina de captação do metano, gás também produzido na decomposição da matéria orgânica e que é um dos causadores do efeito estufa; entre outros critérios. Em 2008, existiam 1.723 empreendimentos desse tipo no Brasil, que receberam 110 mil toneladas diárias de lixo, ou seja, 58,3% do total produzido. Este número vem crescendo: dez anos antes, de acordo com o IBGE, esse percentual era de 35,4%.
Sobram então aproximadamente 73 mil toneladas diárias de lixo (41,7% do total) que não foram dispostos em aterros sanitários e, portanto, segundo a lei, foram despejados de forma inadequada do ponto de vista ambiental. E é justamente esse um dos principais desafios para os municípios brasileiros na área de gerenciamento dos resíduos hoje. Segundo a PNSB 2008, dessas 73 mil toneladas/dia, 37,3 mil (19,8% do total) foram dispostas nos chamados vazadouros a céu aberto, ou simplesmente, lixões. Outras 36,6 mil toneladas/dia (19,4%) de resíduos foram para os aterros controlados, que oficialmente são uma mistura entre lixão e aterro sanitário, mas que não atendem a todos os critérios para serem classificados como aterros sanitários e, por isso, não são considerados adequados para disposição final do lixo.
A erradicação dos lixões e dos aterros controlados é um dos pontos focais da Política, tanto que a lei estipulou um prazo de quatro anos após sua aprovação para que os 5.565 municípios brasileiros passassem a descartar todo o seu lixo em aterros sanitários. O prazo termina em 2014, e a tarefa, pelos dados do IBGE, não será das mais fáceis: em 2008, existiam 2.906 lixões e 1.310 aterros controlados no país. Esse quadro, no entanto, já foi muito pior: em 1998, eram 4.642 lixões e 1.231 aterros controlados, que, juntos, recebiam 56,7% do lixo gerado no país na época. Este percentual caiu para 39,2% em 2008, segundo o IBGE. Para Silvano Silvério, o histórico dá motivos para otimismo. “Ele mostra que mesmo antes da política, sem apoio financeiro do governo federal, houve um bom aumento na destinação dos resíduos em aterros sanitários”, aponta. Segundo o diretor de Ambiente Urbano do MMA, o governo federal ainda estuda a possibilidade de apoiar os municípios nessa empreitada. “Essa é uma agenda tipicamente municipal, e, portanto, ainda não temos nenhuma definição se vamos apoiar ou não, mas o que eu posso dizer é que isso está em discussão”.
Os 2.906 lixões do país estão distribuídos por 2.810 municípios, de acordo com a pesquisa do IBGE. Trocando em miúdos, 50,5% das cidades brasileiras têm como principal forma de destinação de seus resíduos os lixões. Erradicá-los, diz Silvério, “é um desafio grande para os municípios, e a destinação adequada até 2014 vai depender de como os prefeitos vão se colocar frente a essa meta que a lei impõe”. Um instrumento previsto na lei e que poderia contribuir nessa tarefa, diz, são as ações consorciadas entre vários municípios para a implantação e operação de aterros sanitários, principalmente para os municípios de pequeno porte, que sozinhos não produzem a quantidade de lixo suficiente para que seja viável economicamente a instalação de um aterro sanitário. Segundo o IBGE, 98,5% dos lixões e 93,5% dos aterros controlados localizam-se em cidades pequenas, com até 100 mil habitantes. De acordo com Silvério, o custo total para adequar a destinação final do lixo ao disposto na lei no Brasil inteiro é da ordem de R$ 10 bilhões.
Os dados do IBGE mostram que a incidência de lixões não é uniforme no país (veja mapa ao lado), e tende a ser maior nas cidades pequenas. Além disso, o uso dos lixões como forma de descarte dos resíduos é mais comum nas regiões mais pobres: dos 2.906 lixões citados na PNSB, 1.655 estavam na região Nordeste, 388 no Norte e 349 no Centro-Oeste. Enquanto no Brasil como um todo metade dos municípios tem lixões, nessas regiões a situação é bem mais preo-cupante: no Nordeste, esse índice chega a 89%; no Norte, a 84%; e no Centro-Oeste, a quase 73%. Já no Sul, que concentra 805 dos 1.723 aterros sanitários do país, apenas 15,3% dos municípios têm lixões; e no Sudeste, que tem 605 aterros sanitários, 18,4% dos municípios.
Para João Alberto Ferreira, professor do departamento de Engenharia Sanitária da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), parte da explicação está nos altos custos de implantação de um aterro sanitário. “Do ponto de vista de um administrador público acostumado com um lixão, o aterro sanitário é muito caro. Se hoje uma prefeitura gasta R$ 3 por tonelada depositada em lixão, ela vai passar a gastar até R$ 50 com o aterro”, revela. Supondo que esta barreira seja transposta, diz Ferreira, é provável que o prefeito tenha dificuldade de encontrar empresas interessadas. “Se fizer uma licitação para contratar uma empresa grande que hoje opere no Brasil, muitas não se interessam por um município de pequeno porte porque não tem viabilidade econômica”.
Maurício Waldman aponta que mesmo que o histórico nacional mostre uma evolução na disposição adequada de rejeitos, é preciso ir um pouco mais a fundo para ter a dimensão real do tamanho do problema. “Se você pegar o mapa dos municípios do Brasil onde tem lixão, embora a maior parte do lixo vá para os aterros, vê-se que eles estão nas cidades mais populosas e ricas. A maior parte das cidades tem lixões, e estão onde? Na Amazônia, no pantanal, em áreas de mangue, ou seja, em áreas de interesse ambiental”, destaca, completando: “É complicado, não só pelos lixões em atividade, mas também pelos que estão sendo desativados sem nenhum laudo”. Waldman estima em mais de 15 mil o número de lixões no país, contando os que foram desativados mas ainda oferecem riscos à saúde.
Lixo e saúde
Antes de ler esta parte da reportagem, cabe uma advertência: evite continuar se tiver acabado de comer. O conselho não é gratuito: falar de todos os agravos para a saúde e para o meio ambiente que o lixo pode causar é meio tenebroso, e pode provocar náusea e indigestão em pessoas suscetíveis. Por isso mesmo, é importante para quem estuda, trabalha ou simplesmente tem interesse na área da saúde.
Doutor em saúde pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), João Alberto Ferreira lista, no artigo ‘Aspectos de saúde coletiva e ocupacional associados à gestão dos resíduos sólidos municipais’, algumas das formas pelas quais o lixo pode afetar a saúde e o meio ambiente. “Microorganismos patogênicos ocorrem nos resíduos sólidos municipais mediante a presença de lenços de papel, curativos, fraldas descartáveis, papel higiênico, absorventes, agulhas e seringas descartáveis e camisinhas”, diz o pesquisador. Ele cita como exemplos os microorganismos responsáveis por doenças do trato intestinal e dermatites e o vírus causador da hepatite B.
A transmissão indireta de doenças pode se dar pelos vetores que encontram abrigo e alimento no lixo. No artigo ‘Resíduos sólidos e saúde pública’, Cristina Lucia Sisinno, também doutora pela Ensp, afirma que no caso do lixo esses vetores são principalmente roedores e insetos. Os primeiros, diz ela, “podem estar implicados na transmissão de um grande número de doenças”, para em seguida listar as principais: peste bubônica, tifo, leptospirose e salmonelose, entre outras. Já entre os insetos que proliferam no lixo, destacam-se as moscas, mosquitos pulgas e baratas, que podem atuar na transmissão de doenças que vão desde diarreias infecciosas até peste bubônica, passando por malária, dengue e febre amarela.
Como se não bastasse, Ferreira lembra ainda uma situação que segundo ele é recorrente nos lixões do país: a utilização do lixo como fonte de alimento de animais criados em sítios nas proximidades. “É muito comum ter porcos e vacas nos lixões, e a pergunta é: quem consome essa carne? Ela pode estar sendo consumida sem que se tenha ideia de onde veio. Em todas as cidades temos controle muito eficiente da vigilância sanitária sobre o consumo da carne de porco e de vaca nas feiras livres? Duvido”, opina.
Impactos ambientais
A decomposição do lixo gera dois resíduos com potencial enorme de impactar o meio ambiente: o chorume e o gás metano. O chorume, como aponta Cristina Lucia Sisinno no artigo ‘Impacto ambiental dos grandes depósitos de resíduos urbanos e industriais’, é formado quando a água da chuva e a umidade presente no próprio lixo passam através dos resíduos dissolvendo componentes orgânicos e inorgânicos e produtos em decomposição, “formando um líquido altamente poluente e de complexa composição”. Estudos da United States Environmental Protection Agency [em português, Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos], citados por Cristina, relacionaram mais de 100 substâncias consideradas perigosas para a saúde humana em amostras de lixo urbano, como arsênio, antimônio, chumbo e mercúrio. “Atingindo os lençóis d’água subterrâneos – fonte de abastecimento de água para a população em muitos locais -, o chorume poluirá poços, podendo provocar endemias, desencadear surtos epidêmicos ou provocar intoxicações. Por ser comum na carga de chorume a presença de microorganismos indicadores de poluição fecal, as águas superficiais receptoras de chorume também terão uso limitado”, escreve Cristina.
Já o metano, escreve a autora, é o componente predominante do biogás. Este, por sua vez, é gerado quando a matéria orgânica presente no lixo é fermentada por microorganismos em um ambiente impermeável ao ar. Além de ser inflamável, o que torna comum a ocorrência de combustão espontânea do lixo nas áreas de descarte, o metano, segundo João Alberto Ferreira, é um dos gases causadores do efeito estufa, sendo 21 vezes mais impactante nesse sentido que o dióxido de carbono. Uma das maneiras de se lidar com o biogás, nos aterros sanitários, é queimando-o, o que de acordo com Cristina constitui uma fonte de poluição do ar. Ferreira complementa: “Num aterro de grande porte, são 200 viagens por dia de caminhões de lixo, e com isso há a emissão local de barulho, dióxido e monóxido de carbono. Além disso um aterro grande movimenta 10 mil toneladas de lixo por dia. Uma vizinhança relativamente próxima vai sentir o cheiro e vai sofrer os impactos do material particulado, que causa problemas para a atmosfera local”.
Reciclagem
Por tudo isso é que a PNRS colocou como prioridade a erradicação dos lixões e a instalação de aterros sanitários para dar conta de receber todo o lixo produzido no país, mas a disposição “ambientalmente adequada” é apenas a última etapa de um processo que deve também integrar a reutilização e a reciclagem de materiais com vistas a reduzir a quantidade que precisa efetivamente ser descartada. E de acordo com os números do IBGE, essa é uma parcela pequena do total de resíduos sólidos produzidos diariamente nos domicílios brasileiros, em torno de 16% do total. Das 183 mil toneladas diárias de resíduos produzidos em 2008, 58,6 mil toneladas foram de materiais recicláveis, como o vidro, o papel, papelão, plásticos e metais, o que representa 31,9% do total. Nesse aspecto, pelo menos segundo as estatísticas, a situação não é das piores: em 2008, o percentual de reciclagem do alumínio, aço, papel e papelão ultrapassou os 35% do total. Por outro lado, essa taxa ficou em torno dos 20% para vidros e plásticos.
O problema aparece quando analisamos mais pormenorizadamente esses números: segundo comunicado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre resíduos sólidos, de 2012, a participação da coleta seletiva formal – presente em apenas 18% dos municípios, sendo que na maioria deles ela só cobre alguns bairros – no montante reciclado foi de 0,7% para os metais, 7,5% para papel e papelão, 10,4% para o vidro e 17,7% para os plásticos. “Produtos como latas de alumínio e PET têm um nível alto de reciclagem por conta de um trabalho semiescravo, dependente de gente que está catando lixo na rua em condições degradantes”, conclui João Alberto Ferreira. Segundo o Ipea, os catadores hoje somam entre 400 mil e 600 mil pessoas, das quais apenas 10% estão organizados em cooperativas. Sua renda mensal média varia entre R$ 420 e R$ 520.
Segundo Severino Lima Júnior, da articulação nacional do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), um aspecto positivo da Política Nacional de Resíduos Sólidos foi a inclusão dos catadores no texto da lei, de modo a evitar que esses trabalhadores, que já vivem sob condições precárias, percam totalmente suas fontes de renda com o encerramento dos lixões. “A PNRS que diz que agora as prefeituras têm obrigatoriedade de contratar cooperativas, a não ser nas cidades onde não haja catadores. E vai além: as prefeituras e os estados, na elaboração de seus planos, têm a obrigação de prever a participação dos catadores se quiserem recursos federais”, afirma Severino. Segundo ele, a ideia é que os catadores recebam apoio para formação de cooperativas – fortalecendo sua organização e seu poder de barganha frente à indústria da reciclagem – e com a inclusão destas nos programas de coleta seletiva formais. “Muitas prefeituras não querem reconhecer o papel e a importância do catador no ciclo de destinação adequada dos resíduos, pelas dificuldades que têm algumas cooperativas em termos de organização e também pela dificuldade de algumas prefeituras perderem o vício de contratação de empresas terceirizadas”, avalia Severino. Segundo ele, mais de 90% do material que é reciclado no país passa pela mão de um catador, seja em lixões, na rua, em cooperativas ou por programas oficiais de coleta seletiva.
Vidro, plástico, metais, papel e papelão não são os únicos materiais que podem ser reaproveitados. Segundo o IBGE, 51,4% do lixo produzido no Brasil em 2008 foi de matéria orgânica. Entretanto, das 94 mil toneladas diárias, apenas 1,5 mil, ou 1,6% do total, foram encaminhados para tratamento via compostagem, para ser usado como adubo. E isso é um problema, porque é justamente o lixo orgânico que, ao se decompor nos aterros e lixões, causa os maiores problemas para o meio ambiente e para a saúde pública. “As cidades fariam mais se debitassem do IPTU o dinheiro para todo mundo ter uma composteira do que fazer essas grandes operações de coleta de resíduos com caminhões compactadores, estações de transbordo. Só que se você fizer composteira doméstica quem vai reclamar são as empresas coletoras de lixo”, diz Maurício Waldman, lembrando que as empresas ganham por tonelada de material coletado e, portanto, não interessa sua composição. E como você verá adiante, atualmente essa não é a única forma que o setor privado dispõe para gerar dinheiro a partir do lixo, principalmente da fração orgânica.
“A reciclagem”, escreve Waldman no livro ‘Lixo: cenários e desafio e desafios’, “além de não se contrapor à dinâmica geral do processo de acumulação de capital, contribui, pelo contrário, para sua reprodução em outro patamar, agora reclamando uma lógica ‘sustentável’”. Ele lembra que a reciclagem está atualmente monopolizada por cinco itens – vidro, papel, plástico, aço e alumínio -, que são os mais valorizados do ponto de vista econômico. “Deste modo, mesmo que a performance da atividade recicladora detenha sinonímia com a ‘defesa da natureza’, trata-se de iniciativa fortemente pautada pela viabilidade econômica, que determina seus fluxos e progressos”, aponta no texto. A baixa inserção dos resíduos orgânicos nos ciclos de reciclagem, para Waldman, demonstra essa íntima relação da indústria recicladora com as dinâmicas de mercado.
O lucro do lixo
Você deve se lembrar que o Rio de Janeiro sediou, em junho deste ano, a Rio+20, evento da Organização das Nações Unidas (ONU) que reuniu governantes de centenas de países para discutir soluções para a crise ambiental. Talvez você se lembre também que a conferência deixou como legado oficial a proposta de economia verde, que basicamente propõe que a financeirização da natureza – por meio de mecanismos de mercado – é a melhor solução para os problemas ambientais. Mas o que o lixo tem a ver com isso? Muito, e uma das chaves para entender essa relação está numa pequena sigla: MDL, ou Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. Fabrina Furtado, doutoranda do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ippur/UFRJ), explica que o MDL foi criado com o Protocolo de Kyoto, compromisso internacional assinado em 1997 no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que estabeleceu que os países ditos desenvolvidos deveriam reduzir suas emissões de gases de efeito estufa em 5,2% (com base nos índices do ano 1990) até 2009. “Esse protocolo também estabeleceu o que eles chamam de mecanismos de flexibilização, que permitem que os países ricos possam atingir suas metas de forma mais flexível”, afirma Fabrina, completando que, entre estes mecanismos, estão a comercialização de carbono e o MDL, que devem ser analisados conjuntamente. “A comercialização do carbono permite que as empresas comprem e vendam sua poluição. Exemplo: há duas empresas, uma na Alemanha e outra na Inglaterra, as duas têm metas de redução, só que uma consegue reduzir muito mais do que é obrigada e a outra não consegue atingir sua meta. Em vez de ela mudar sua forma de produzir e diminuir suas emissões, ela compra o excesso da outra empresa”, explica. O MDL, por sua vez, foi a forma encontrada para integrar os países ‘em desenvolvimento’ nesse comércio. “Os países ricos, com compromisso de redução das emissões de CO2, em vez de reduzirem as emissões, podem investir em projetos que teoricamente devem reduzir ou remover CO2 da atmosfera elaborados por empresas nos países em desenvolvimento. Esses projetos geram um ativo financeiro que pode ser comercializado depois de passar pelo que se chama de ciclo de projeto do conselho executivo do MDL na ONU”, diz. A última etapa deste processo é o registro do projeto nesse conselho e, a partir daí, ele pode gerar créditos que são vendidos e comprados através da própria ONU.
E adivinhe qual foi o primeiro país do mundo a registrar um projeto de MDL na ONU? Acertou quem falou o Brasil. E o projeto pioneiro foi justamente o do aterro sanitário Novagerar, em Nova Iguaçu, estado do Rio, em 2004. Entre os projetos passíveis de serem registrados como MDL pela ONU – e portanto de receberem créditos para serem comercializados – estão vários que dizem respeito aos aterros sanitários, e uma das possibilidades é a captação do biogás para geração de energia elétrica, que também foi implementada no aterro controlado de Gramacho, em Duque de Caxias (RJ), que antes de ser fechado, no inicio de 2012, era o maior da América Latina. A energia gerada ali, afirma Fabrina, será vendida para a Reduc, refinaria da Petrobras localizada na mesma cidade. Segundo ela, o país hoje é o 3° do mundo em número de projetos de MDL registrados na ONU, com 213, sendo 33 na área de gestão de aterros sanitários.
Soluções paliativas para um problema estrutural
Para Fabrina, o principal problema deste tipo de iniciativa está na sua lógica, “que diz que os problemas ambientais ocorrem porque não tem produto nem propriedade de direito sobre a natureza”. “Isso despolitiza o debate sobre mudanças climáticas, reduzindo-o a uma questão de emissão de carbono, que por sua vez é reduzido a um cálculo matemático de emissões que podem ser trocadas. E exclui de todo esse processo a discussão sobre o modelo de desenvolvimento e justiça ambiental. São feitas mudanças aqui e ali mas no longo prazo não se têm grandes melhorias, porque o problema na verdade é estrutural. As questões deveriam ser: por que se gera tanto lixo, de onde ele vem, quais as populações que são mais diretamente afetadas pela degradação ambiental que ele provoca” protesta.
Além disso, ela afirma que o MDL acaba legitimando o direito de poluir. “A causa real da geração da poluição e os impactos socioambientais são ignorados. Tanto é que são as empresas que mais precisam mudar suas formas de atuar que compram créditos, porque é mais barato”, afirma. A maioria dos projetos de MDL, diz Fabrina, são problemáticos. “Hoje há projetos que recebem créditos e têm diversos impactos sociais e ambientais, como por exemplo a Thyssen Krupp, que recebe crédito de carbono mesmo sendo uma empresa denunciada por crimes ambientais, violação de direitos, relação com milícia”, critica. No caso de Gramacho, aponta, o Ministério Público Federal entrou com ação contra a concessionária do aterro hoje desativado, denunciando o vazamento de chorume nas águas da Baía da Guanabara e a falta de monitoramento ambiental do projeto que, na análise de Fabrina, ganha para continuar poluindo.
Incineração
A captação de biogás é só uma das possibilidades de se lucrar com o lixo que o mercado de carbono abre para as empresas do setor. Outra delas é a incineração do lixo, também com o intuito de gerar energia ‘limpa’ e reduzir a emissão de gases de efeito estufa. Não por acaso, a PNRS não proibiu a incineração do lixo, o que para especialistas da área deixou a porta aberta para que ela fosse considerada uma forma ambientalmente adequada de destinação dos resíduos sólidos. Segundo Elisabeth Grimberg, coordenadora de resíduos sólidos do Instituto Pólis, essa é uma das principais falhas da lei. “Vai se queimar materiais com alto teor de combustão que ainda tem um ciclo de vida a cumprir como os plásticos, papéis e papelão, que são materiais que, se você recicla, trazem economia de energia, de água e de matéria prima”, aponta.
O Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis também se posicionou contra a incineração. “Conhecemos vários modelos de reaproveitamento energético através da incineração na Europa, e reconhecemos que em alguns essa tecnologia serve, mas porque não há catadores na matriz da cadeia de reciclagem deles. No Brasil temos 600 mil catadores e se você implantar a incineração vai matar essas famílias de fome”, critica Severino, concluindo: “A Europa em si já está discutindo a questão energética e está querendo ampliar o papel da energia eólica e solar. Por isso muitos países estão com equipamentos parados querendo vender para a América Latina. É uma forma de eles darem destinação a equipamentos que vão ficar em desuso”. Por fim, a energia produzida a partir da queima do lixo, propagandeada como ‘limpa’, tem impactos ambientais relevantes. Segundo documento produzido pela organização não-governamental Gaia (Grupo de Ação e Intervenção Ambiental), por mais que mecanismos de controle da poluição do ar presentes em modelos novos de incineradores retenham alguns dos elementos poluentes, eles são “transferidos para outros subprodutos, tais como os diferentes tipos de cinza e na fumaça, que resultam da queima, e para a lama que se vai concentrando nos filtros d’água, todos eles inevitavelmente despejados no meio ambiente”. Além disso, afirma a entidade, os incineradores emitem mais dióxido de carbono por unidade de geração de eletricidade do que usinas movidas a carvão, por exemplo.
Seropédica: lixo e injustiça ambiental
Ninguém quer morar perto de um depósito de lixo, certo? Essa constatação, embora óbvia, traz à tona um problema frequente na área de gerenciamento do lixo, mas que é pouco abordado: a falta de transparência no processo de escolha dos locais destinados a receberem os rejeitos, que em geral, acabam próximos a populações com menores possibilidades de fazerem valer seus direitos. A questão da disposição do lixo tem papel central na discussão sobre essas situações que, segundo uma certa corrente de ambientalistas, configuram injustiças ambientais.
Talvez um exemplo recente facilite o entendimento. Em junho deste ano, o maior lixão da América Latina, no Jardim Gramacho em Duque de Caxias, região metropolitana do Rio de Janeiro, encerrou suas atividades depois de 34 anos recebendo o lixo gerado no Rio e em outras cidades da região. Com o fechamento, as 7 mil toneladas de rejeitos que o local recebia diariamente passaram a ser levadas para um aterro construído com essa finalidade na cidade de Seropédica, a cerca de 70 quilômetros do centro do Rio, que mal nasceu e já é o maior aterro sanitário do país em volume de lixo recebido: segundo o Ministério das Cidades, são 3 milhões de toneladas por ano.
Contudo, José Cláudio Alves, decano de extensão da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) – instituição localizada em Seropédica e que vinha acompanhando esse processo -, afirma que a implantação do novo aterro foi marcado por diversas irregularidades. Para começar, diz ele, leis do município tiveram que ser alteradas para permitir a instalação do aterro. Primeiro, era preciso permitir que lixo de outra cidade, no caso o Rio, fosse depositado ali; a segunda alteração pressupunha diminuir o tamanho de uma Área de Preservação Ambiental (APA) exatamente sobre o local destinado a receber o aterro. “O local é parte da Serra dos Órgãos, que é onde você tem a captação das águas para alimentação do aquífero Piranema”, diz José Cláudio. A terceira alteração na lei era a permissão de que uma empresa privada gerenciasse isso, e a quarta, a criação de uma área de saneamento ambiental, destinada à instalação do aterro e que, segundo ele, é do tamanho do campus da UFRRJ, em torno de 3,6 mil hectares. “Essas alterações foram propostas na Câmara dos Vereadores numa sexta-feira e aprovadas na segunda. Foram feitas e aceitas a toque de caixa. Isso garantiu que o empreendimento viesse a existir”, revela.
Segundo o decano de extensão da UFRRJ, a universidade procurou o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), órgão ambiental responsável por conceder a licença ambiental do aterro sanitário, para denunciar os possíveis impactos da sua instalação sobre um aquífero. “Nós levamos laudos sobre a situação do aquífero, que é de solo sedimentar, arenoso -, escavando meio metro já se encontra água. É um aquífero frágil, que pelos estudos da Rural, daria para abastecer 140 mil pessoas. Mas o Inea acatou o estudo de impacto ambiental da própria empresa que instalaria o aterro, que dizia que não havia corpos hídricos nesse local, o que não é verdade: eles inclusive aterraram pequenas nascentes e córregos que corriam nesse espaço do empreendimento”, argumenta.
Como se não bastasse, José Cláudio ainda aponta várias falhas de engenharia no empreendimento, que colocam em risco o equilíbrio do ecossistema da região. “Até hoje eles não têm o centro de tratamento de chorume. Transportam o chorume em tanques de Seropédica até Águas de Niterói. Eu e algumas pessoas fizemos um documentário: fomos até o aterro de Nova Iguaçu, que é da mesma empresa, coletamos água a 50 metros de distância do empreendimento e fizemos análise. A água já estava toda contaminada pelo lixo, com fósforo e amônia. A meu ver, o mesmo está acontecendo em Seropédica: não há nenhum controle sobre esse chorume, e o aquífero, a essa altura do campeonato, já deve estar bastante contaminado”, diz.
Para ele, o aterro de Seropédica é um caso emblemático de injustiça ambiental. “Eles tentaram fazer esse empreendimento em Paciência, na Zona Oeste do Rio, só que lá tem uma população eleitoral muito grande e houve um movimento bem forte com parlamentares. Quando eles viram que lá não iriam conseguir, escolheram Seropédica, onde a população eleitoral é muito pequena, muito mais pobre, com capacidade de mobilização inferior”, aponta. E conclui: “O Inea deveria cumprir o seu papel e não cumpre. Ele é um órgão absolutamente refém de interesses políticos”.
Dilemas
Como você pôde ver, os desafios que o lixo coloca são imensos, a começar porque sua geração não para de crescer no Brasil, tanto em termos absolutos quanto per capita, com a inserção econômica, via consumo, de grandes parcelas da população. Para ilustrar, bastam alguns dados presentes no livro ‘Lixo: cenários e desafio e desafios’, de Maurício Waldman: enquanto a população brasileira aumentou 15,6% entre 1991 e 2000, a produção de lixo domiciliar expandiu-se 49%. Isso porque estamos falando apenas do lixo domiciliar, que embora cause maior comoção do ponto de vista da opinião pública, representa apenas 2,43% do total do lixo mundial. Tanto que, de acordo com o autor, “prevê-se que a logística de descarte dos rejeitos entrará em colapso em muitas nações, inclusive pela falta de espaço”. Mesmo em países como o Brasil, que possui áreas disponíveis, elas situam-se muito longe da fonte geradora, “pressupondo para alcançá-las uma remuneração proibitiva pelo frete dos resíduos”, diz ele.
Como aponta Waldman, tratar da questão do lixo sem questionar o consumo (e a consequente geração de lixo) como indicativo de desenvolvimento, é impossível. Você já reparou que produtos como eletrodomésticos, celulares, computadores e até veículos têm vida útil cada vez mais curta? Pois isso não é por acaso, e a razão tem um nome pomposo: a obsolescência, que se dá quando um produto já é fabricado de modo a se deteriorar rapidamente ou quando ganha uma repaginação, que pode ser, por exemplo, um novo layout ou novas funções. Waldman escreve que a obsolescência tem como função impulsionar os ciclos de reprodução do capital. “Quanto mais rápida for a substituição das mercadorias, tanto mais encorpado será o giro do dinheiro”, aponta. Em termos econômicos, continua, a obsolescência “promove a ampliação dos ganhos financeiros, visto que, precarizando a durabilidade das mercadorias, permite o rebaixamento do seu custo. Quanto antes e quanto mais os produtos se tornarem inúteis, tanto maiores serão os lucros, ainda que a contrapartida seja sobre-explorar os recursos naturais e, é claro, maximizar a geração de lixo”.
Como indaga outro trecho de seu livro: “O mundo tem assistido a uma sobre-exploração de recursos sem que nem mesmo as necessidades mínimas de parte significativa da humanidade estejam sendo atendidas. Ora, como então imaginar a ampliação deste modelo? Com certeza não existem recursos suficientes. Caso o padrão das sociedades afluentes fosse estendido para toda a população mundial, seriam necessários três planetas Terra para sustentar os humanos”. (EcoDebate)

domingo, 25 de novembro de 2012

A população da China em 2100

A China tem a maior população nacional entre todos os países do mundo, desde o início dos registros históricos das civilizações. O “Império do Meio” foi também a maior economia do mundo até o século XVIII. Agora, no século XXI, a China volta, em um patamar mais elevado, a disputar a hegemonia econômica mundial.
A população da China era de 550,8 milhões de habitantes em 1950 e chegou a 1,34 bilhão em 2010. Mas não deve ultrapassar 1,4 bilhão de habitantes e, provavelmente, será ultrapassada pela Índia a partir do ano 2025. A divisão de população da ONU estima, para o ano de 2050, uma população de quase 1,5 bilhão de habitantes na hipótese alta, de 1,29 bilhão na hipótese média e de 1,13 bilhão na hipótese baixa. Para o final do século as hipóteses são: 1,59 bilhões de habitantes, na alta, de 941 milhões, na média, e somente 506 milhões na hipótese baixa.
Ou seja, a população da China pode variar entre 506 milhões e 1,59 bilhão de habitantes em 2100, dependendo fundamentalmente do comportamento das taxas de fecundidade e um pouco menos da migração. No caso da hipótese baixa, a China pode chegar em 2100 com uma população menor do que a que tinha em 1950.
A China tem uma área de 9.596.960 km2, maior do que a área territorial do Brasil. A densidade demográfica em 2010 era de 140 habitantes por km2, bem superior do que a densidade brasileira de 23 hab/km2, mas bem abaixo da densidade demográfica da Índia que estava em 373 hab/km2 em 2010.
Depois de um longo período de declínio econômico, de invasão estrangeira e de guerra civil que empobreceu o país, o Partido Comunista tomou o poder na China continental em 1º de outubro de 1949, enquanto o partido Kuomintang (KMT), que estava no poder desde a instauração da República, migrou para a ilha de Formosa (Taiwan).
No quinquênio 1950-55 a taxa de fecundidade total (TFT) estava em 6,1 filhos por mulher e caiu para 5,4 filhos por mulher no quinquênio seguinte. Porém, com a desorganização econômica e política da Revolução Cultural a TFT voltou a crescer e ficou em 6 filhos por mulher no quinquênio 1965-70. O timoneiro Mao Tsé-Tung chegou a dar várias declarações favoráveis ao crescimento demográfico e à utilização da população como uma arma do poderio do país.
Porém, o alto crescimento populacional se tornou insustentável. Como dizem os chineses: “Ren tai duo!” (demasiada gente!). No início dos anos 70 – ainda na época de Mao Tsé-Tung – o governo adotou uma política para incentivar a a redução do número de nascimentos por meio de três objetivos: a) uma fecundidade menor, b) retardar o nascimento do primeiro filho e c) aumentar o espaçamento entre os nascimentos. Esta política ficou conhecida como: “fecundidade menor, mais tardia e com maior espaçamento entre os filhos” (fewer, later, longer). Com isto, a TFT caiu para 4,8 filhos por mulher em 1970-75 e para 2,9 filhos por mulher em 1975-80.
Mas a despeito da grande queda da fecundidade nos anos 70, o governo comunista adotou a política de controle da natalidade mais draconia já adotada no mundo. A política do filho único, começou em 1979, e a taxa de fecundidade caiu para 2 filhos por mulher em 1990-95 e chegou a 1,6 filhos em 2005-10. O resultado é que a população continuou aumentando apenas porque a estrutura etária era jovem (crescimento pela inércia demográfica), mas o ritmo de incremento tem se desacelerado rapidamente e a população deve começar a diminuir antes de 2030. Segundo a Agencia oficial Xinhua, o 18o Congresso do PCC, de novembro de 2012, discutiu um relatório propondo mudanças na política populacional, pois os dirigentes estão preocupados com o rápido processo de envelhecimento do país.
A divisão de população da ONU estima, na hipótese média, que a TFT vai ficar em 1,8 filhos por mulher em 2050 e em 2 filhos em 2100. Na hipótese alta se acrescenta 0,5 filhos para cima e na hipótese baixa se reduz 0,5 filhos. Ou seja, se a TFT chinesa ficar em torno de 1,5 ou 1,6 filhos por mulher nas próximas décadas, a população da China pode seguir a hipótese baixa e ficar com um montante na casa dos 500 milhões de habitantes em 2100.
A redução da fecundidade na china possibilitou uma mudança na estrutura etária gerando um bônus demográfico que foi bem aproveitado e criou as condições para se retirar cerca de 600 milhões de chineses da situação de pobreza extrema. Porém, a política de filho desrespeita os direitos reprodutivos e gerou um grande desequilíbrio na razão de sexo, pois como a população tem preferência por filhos do sexo masculino, exite muito fetocídio feminino (e femicídio), tendo como resultado um superávit de 52 milhões de homens a mais do que mulheres. Na idade de casar, o excesso de homens (ou a falta de mulheres) torna inviável todos encontrarem uma parceira para casamento. Não é raro homens comprarem ou sequestrarem uma esposa, reforçando as desigualdades de gênero no país.
A China tem sido o país que apresentou o maior crescimento econômico da história, com uma taxa anual de variação do PIB em torno de 10% entre 1980 e 2011. A taxa de mortalidade infantil caiu de 122 mortes por mil nascimentos em 1950-55 para 22 por mil em 2005-10 e a esperança de vida subiu de 44,6 anos para 73 anos no mesmo período. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) subiu de 0,4 em 1980 para 0,68 em 2010. Mas a China, que já disputa o título de primeira potencia econômica mundial, ainda tem muito que avançar na área social.
Em termos ambientais os desafios são ainda maiores, pois o país sofre com a desertificação, a poluição dos rios e lagos, a falta de saneamento básico e a poluição do ar nas cidades. Segundo o relatório Planeta Vivo 2012, da WWF, a China possui uma pegada ecológica per capita de 2,13 hectares globais (gha), mas possui uma biocapacidade per capita muito menor, de somente 0,87 gha. Portanto, o déficit ambiental do país era superior a 200%, em 2008.
Ou seja, a pegada ecológica era mais de 3 vezes a biocapacidade do país. A pegada ecológica total da China (2,13 gha per capita vezes 1,359 bilhão de habitantes) é de 2,89 bilhões de hectares globais (gha), enquanto a pegada ecológica total dos Estados Unidos (7,19 gha per capita vezes 305 milhões de habitantes) é de 2,19 bilhões de gha. A China era responsável pela emissão de 2,4 bilhões de toneladas de CO2 em 1990, passou para 8,3 bilhões em 2010 e 8,9 bilhões em 2011, sendo o maior emissor de gases de efeito estufa do mundo.
Por isto, a China é atualmente o país que mais impacta o meio ambiente global e tem investido no mercado de commodities e comprado alimentos e matérias-primas de outros países do mundo com maior biocapacidade e com superávits ambientais. Portanto, o país mais populoso do mundo afeta não só o seu próprio meio ambiente, mas tem um impacto negativo no resto do mundo.
O decrescimento da população da China nas próximas décadas vai aliviar um pouco a pressão ambiental, mesmo porque os níveis de poluição tornam impossível manter o crescimento dos últimos anos. Mas o país terá que fazer um esforço muito maior para mudar o padrão de produção e consumo no sentido de fazer a pegada ecológica caber dentro da disponibilidade de sua biocapacidade, respeitando as fronteiras planetárias da China e da Terra. (EcoDebate)

A população do Irã em 2100

A República Islâmica do Irã, ou Irã (terra dos arianos) era conhecido como Pérsia e é um país com grande importância geográfica, pois ocupa um lugar estratégico entre a Europa, do lado Ocidental, a Ásia, do lado Oriental, a Rússia, ao Norte e a África e a Índia, ao Sul.
A história do Irã, ou Pérsia, é conhecida desde 3200 a.C. Ao redor de 1500 a.C. fixaram-se várias tribos arianas, entre as quais os Medos e os Persas. Alexandre, o Grande, conquistou a Pérsia em 331 a.C. O Império Romano nunca conseguiu conquistar o território, mas os árabes conquistaram o país por volta do ano 650. O Zoroastrismo, religião da Pérsia, foi gradualmente substituído pelo islã. Em 1979, com a Revolução muçulmana liderada pelo aiatolá Khomeini, o país se tornou uma República Islâmica.
A população do Irã era de 17,4 milhões de habitantes em 1950 e passou para 74 milhões em 2010. O número de habitantes mais do que quadruplicou em 60 anos. Porém, as projeções da ONU indicam uma população, em 2050, de 99 milhões na hipótese alta, de 85,3 milhões na hipótese média e de 73 milhões na hipótese baixa. Para 2100 as três hipóteses são: 109 milhões, 62 milhões e apenas 31,4 milhões na hipótese baixa.
Ou seja, a população atual do Irã pode diminuir um pouco até 2050 e cair para menos da metade até 2100, na hipótese baixa. Esta possibilidade não é impossível, pois o Irã tem sido o país que apresentou a mais rápida transição da fecundidade do mundo. A taxa de fecundidade total (TFT) estava em 6,9 filhos por mulher no quinquênio 1950-55 e caiu ligeiramente para 6,2 filhos em 1970-75. Porém, após a Revolução Islâmica, de 1979, a fecundidade voltou a subir para 6,5 filhos em 1980-85. Porém, em apenas 20 anos a TFT caiu para 1,96 filhos por mulher no quinquênio 2000-05 e deve cair para 1,6 filhos por mulher até 2050, segundo a projeção média da ONU.
Esta queda da fecundidade de 6,5 filhos para 1,96 filhos em apenas 20 anos é um recorde absoluto no mundo, sendo que o Irã já tem uma fecundidade abaixo do nível de reposição, indicando que haverá declínio da população depois que passar o efeito da inércia demográfica.
A redução da fecundidade tem contribuído para a ampliação do bônus demográfico e para a redução das taxas de mortalidade infantil. As taxas de mortalidade infantil estavam em impressionantes 262 mortes de crianças até um ano de idade para cada mil nascimentos no quinquênio 1950-55, caiu rapidamente para 27 por mil no quinquênio 2005-10 e deve atingir 11,9 por mil no quinquênio 2045-50 e 6,4 por em 2095-00. Já a esperança de vida subiu de 38,8 anos, para 72,1 anos, devendo atingir 78,9 anos e 84,2 anos, nos mesmos quinquênios.
Como o Brasil, o Irã vai passar por um rápido processo de envelhecimento. A idade mediana da população era de 22 anos em 1950, caiu para apenas 17 anos em 1990, passou para 27,1 anos em 2010 e deve chegar a 47,2 anos em 2050 e se manter neste patamar até 2100.
A continuidade da queda das taxas de fecundidade pode ajudar ao Irã avançar na qualidade de vida de sua população e a enfrentar os problemas ambientais. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) passou de 0,44 em 1980 para 0,71 em 2011. Porém, o Irã é muito dependente do petróleo e vai ter que se preparar para a era do fim dos combustíveis fósseis. A busca de energia nuclear poderia ser uma saída, mas a possibilidade do país ter uma bomba atômica assusta o mundo ocidental.
A pegada ecológica do país era de 2,66 hectares globais (gha) em 2008, para uma biocapacidade de somente 0,84 gha, de acordo com o relatório Planeta Vivo, da WWF. Portanto, o país possui um déficit ambiental e necessita importar grandes quantidades de alimentos. Mas o país enfrenta um embargo das exportações de petróleo o que dificulta a disponibilidade de divisas.
O aumento do preço dos alimentos foi um dos estopins da Primavera Árabe. O atual governo do Irã já reprimiu a “Primavera de Teerã”. Atualmente, enfrenta uma grande desvalorização da moeda e o aumento da inflação. As tensões estão aumentando na região. Uma explosão social e ambiental no Irã, pode se espalhar por todo o Oriente Médio, aumentando o preço do petróleo e jogando o resto do mundo em uma dura recessão, com grandes danos de qualidade de vida da população mundial. (EcoDebate)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Olímpiadas 2016 e a redução de gases estufa

Olímpiadas 2016: Rio pretende plantar 34 milhões de mudas de espécies da Mata Atlântica para reduzir emissão de gases estufa
A Secretaria Estadual do Ambiente pretende plantar 34 milhões de mudas de espécies de Mata Atlântica até 2015. O programa de replantio foi anunciado em 13/09/12 pelo secretário Carlos Minc.
O reflorestamento faz parte do plano de encargos assinado pelo governo do estado para a realização dos Jogos Olímpicos de 2016. Uma das obrigações estabelecidas no documento trata da redução das emissões de gases de efeito estufa no período do evento.
Foram demonstradas, por meio de um mapa, as áreas que receberão as mudas. Empresas que, por algum motivo, precisaram desmatar alguma área de preservação ficarão responsáveis pelo replantio. Para fiscalizar os envolvidos no reflorestamento, o cidadão terá, no próximo mês, uma página na internet com acesso a essas informações.
Minc informou que o número de mudas a serem plantadas é mais do que o dobro da necessidade real do estado, que está em aproximadamente 15 milhões de árvores. Ele disse que, para aumentar a precisão dos dados, uma empresa foi contratada para fazer a análise imparcial das áreas degradadas, com previsão de conclusão até dezembro.
A secretaria estima que, com a iniciativa, 5 mil empregos diretos sejam criados. Para suprir a necessidade da produção das mudas, 15 viveiros estão sendo construídos na região noroeste do estado e no Vale do Paraíba. Essas duas regiões vão ganhar também um projeto de criação de renda com a plantação de seringueiras para extração de látex.
“Além de preservar, nós vamos criar muitos empregos. Não é só plantar, é preciso fazer também a manutenção dessas árvores. Isso é um benefício que vai além da redução dos gases [de efeito] estufa durante as Olimpíadas”, destacou Carlos Minc.
De acordo com a secretaria do Ambiente serão investidos, até o final de 2015, cerca R$ 500 mil na iniciativa. A quantia envolve investimentos dos governos federal e estadual, além de recursos de empresas privadas. (EcoDebate)

Copa de 2014 e a emissão de gás carbônico

Copa de 2014 vai emitir mais de 11 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente, aponta estudo
A Copa do Mundo de Futebol de 2014 vai resultar na emissão de mais de 11 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente, de acordo com estudo divulgado em 10/09/12 pela consultoria Personal CO2 Zero. Além do próprio evento esportivo, o estudo considera a etapa de preparação, incluindo a construção e reforma de estádios, a infraestrutura do entorno e o deslocamento internacional.
A quantidade equivale a 46.946 hectares de floresta para sequestro futuro de carbono, cerca de 34,5% do Pantanal, ou ao consumo de energia de 181.254 domicílios brasileiros pelo período de um ano. “Nós estamos falando aí de um terço do Pantanal”, destacou Daniel Machado, consultor responsável pelo estudo, em entrevista à Agência Brasil.
De acordo com o estudo, entre as cidades mais emissoras estão São Paulo, Salvador, Natal e Rio de Janeiro. Juntas, elas respondem por 56,7% das emissões estimadas. A cidade que menos polui, de acordo com o relatório, é Recife.
Considerando somente os dias dos jogos no Brasil, os deslocamentos das delegações e do público dentro do país, as emissões alcançarão mais de 3 milhões de toneladas. Segundo o relatório, isso equivale a mais de 12 mil hectares de floresta ou a 9,3% do Pantanal.
O estudo considera que as 3,6 milhões de pessoas esperadas para a Copa, das quais 3 milhões são brasileiros e 600 mil estrangeiros, provocarão emissões de mais de 5 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente.
“A nossa maior preocupação não é apenas citar que as emissões sejam dessa monta, mas, principalmente, auxiliar na busca de mitigação”, disse Machado, que pretende encaminhar o relatório ao Comitê Organizador Local (COL) da Copa de 2014 e para o Ministério do Esporte.
A sustentabilidade da Copa 2014 foi debatida em Brasília, por representantes das 12 cidades-sede que apresentarão estudos de caso de sustentabilidade a partir das intervenções urbanas já em curso nos municípios.
De acordo com o relatório, a atividade da construção civil, por exemplo, englobando estádios, mobilidade urbana e infraestrutura em aeroportos, deverá responder pela emissão de mais de 5 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente. Isso significa 40,9% do total de emissões ou 0,3% durante o evento. Para mitigar esse impacto, o estudo propõe o uso de matéria-prima alternativa e a adoção de processos produtivos mais sustentáveis. “A busca por materiais em raio inferior a 800 quilômetros do estádio pode fazer diferença”, disse Machado.
No caso dos transportes, o estudo aponta a utilização de biocombustíveis, em especial na aviação e, no longo prazo, investimentos no modal ferroviário. A previsão é que a área de transportes seja responsável pela emissão de 2 milhões de toneladas de gás carbônico equivalente, o que corresponde a 42,9% das emissões totais ou a 67,1% das emissões durante os jogos.
O relatório aponta ainda propostas na área da alimentação, como o fomento de alimentos orgânicos e locais. Na área de energia, o estudo defende o uso de fontes renováveis. “Quando a gente faz isso, a primeira preocupação é reduzir ao máximo possível essas emissões. O segundo passo é, sabendo quanto você emitiu ou está emitindo, neutralizar as emissões para tornar esta Copa um evento verdadeiramente sustentável. Ou sustentável com lastro”.
Outro dado levantado leva em consideração a vida útil dos estádios, considerando um período de 30 anos como parâmetro e o número de jogos que serão realizados no local. Nesse caso, o Castelão, em Fortaleza, com seis jogos, deverá ser o maior emissor da Copa, com 197,98 toneladas de gás carbônico equivalente. Já o estádio mais sustentável durante a Copa, de acordo com o relatório, será a Arena Pantanal, localizada em Cuiabá (MT). A previsão é de que sejam emitidos, neste caso, 37,70 toneladas de gás carbônico equivalente nos quatro jogos que sediará.
Por modais de transporte, o aéreo foi indicado como o maior agente de emissão durante a Copa, respondendo por 60% dos gases de efeito estufa. “Quando você considera as obras das arenas mais a infraestrutura, o transporte aéreo vai ser o segundo maior emissor, perdendo apenas para a construção civil”, ressaltou Machado. (EcoDebate)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Os jogos da fome

A crise alimentar açoita o mundo. Trata-se de uma crise silenciosa, sem grandes anúncios, que não interessa nem ao Banco Central Europeu, nem ao Fundo Monetário Internacional, nem à Comissão Europeia; mas que atinge a 870 milhões de pessoas, que passam fome, segundo indica o relatório “O estado da insegurança alimentar no mundo – 2012”, apresentado no dia 9 de outubro passado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).
Acreditamos que a fome está bem longe de nossos confortáveis sofás; que pouco tem que ver com a crise econômica que nos atinge. Porém, a realidade é bem distinta. Cada vez aumenta mais o número de pessoas que passa fome no Norte. Obviamente, não se trata da mesma fome que atinge aos países da África ou outros; porém, consiste na impossibilidade de ingerir as calorias e proteínas mínimas necessárias; e isso tem consequências sobre nossa saúde e nossas vidas.
Há anos, chegam até nós as terríveis cifras da fome nos Estados Unidos: 49 milhões de pessoas, 16% das famílias, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, que incluem a mais de 16 milhões de crianças. Números que o escritor e fotógrafo David Bacon põe rosto em seu trabalho ‘Hungry By The Numbers’ (Famélicos segundo as estatísticas). As caras da fome no país mais rico do mundo.
No Estado Espanhol, a fome converteu-se também em uma realidade tangível. Sem trabalho, sem salário, sem casa e sem comida. Assim estão muitíssimas pessoas golpeadas pela crise. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2009, calculava-se que mais de 1 milhão de indivíduos tinham dificuldades para consumir o mínimo necessário. Hoje, a situação, ainda sem cifras, é muito pior. As entidades sociais estão superlotadas; e nos últimos dois anos, duplicaram-se as demandas de ajuda por falta de alimentos, para comprar remédios etc. E, segundo informa a organização Save the Children, com cifras de 25% de pobreza infantil, cada vez são mais as crianças que comem somente uma vez ao dia, no restaurante escolar e graças a bolsas de estudo, devido a dificuldades econômicas enfrentadas por suas famílias.
Por isso, não é de se estranhar que, inclusive, o prestigiado jornal estadunidense, The New York Times, publicara, em setembro de 2012, uma galeria fotográfica de Samuel Aranda, ganhador do World Press Photo 2011, que, sob o título ‘In Spain, austerity and hunger’ (Na Espanha, austeridade e fome) retratara as consequências dramáticas da crise para milhares de pessoas: fome, pobreza, despejos, paralisações…; mas, também, muita luta e mobilização. O Estado Espanhol conta com as taxas de pobreza mais elevadas de toda a Europa, ficando atrás somente da Romênia e da Letônia, segundo um relatório da Fundação Foessa. Uma realidade que se impõe e vem a público, apesar de que alguns a querem silenciar.
A crise econômica, por outro lado, está intimamente ligada à crise alimentar. Os mesmos que nos conduziram à crise das hipotecas subprime, que originou o estouro da “grande crise”, em setembro de 2008, são os que, agora, especulam com as matérias primas alimentares (arroz, milho, trigo, soja…), gerando um aumento significativo de seus preços e convertendo-as em inacessíveis para grandes camadas da população, especialmente nos países do Sul. Fundos de investimento, companhias de seguros, bancos… compram e vendem ditos produtos nos mercados de futuros com a única finalidade de especular com os mesmos e fazer negócio. O que existe de mais seguro para investir do que a comida, se todos temos que comer a cada dia…?
Na Alemanha, o Deutsche Bank anunciava lucros fáceis para quem investia em produtos agrícolas no auge. Negócios similares eram propostos por outro dos principais bancos europeus, o BNP Paribas. O Barclays Bank ingressava, em 2010 e 2011, quase 900 milhões de dólares por especular com a comida, segundo dados do World Development Movement. E não temos porque ir muito longe. Catalunya Caixa oferecia a seus clientes grandes benefícios econômicos a custa de investir em matérias primas sob o slogan: “depósito 100% natural”. E o Banco Sabadell contava com um fundo especulativo que operava com alimentos.
Apesar de tudo que falam, a fome não tem tanto a ver com secas, conflitos bélicos etc.; mas com os que controlam e ditam as políticas agrícolas e alimentares e em mãos de quem estão os recursos naturais (água, terra, sementes…). O monopólio do atual sistema agroalimentar por um punhado de multinacionais, com o apoio de governos e instituições internacionais, impõe um modelo de produção, distribuição e consumo de alimentos a serviço dos interesses do capital. Trata-se de um sistema que gera fome, perda da agrodiversidade, empobrecimento camponês, mudança climática… e onde se antepõe o lucro econômico de uns poucos às necessidades alimentares de uma grande maioria.
Os jogos da fome’ era o título de um filme de ficção dirigido por Gary Ross, baseado no Best-seller de Suzanne Collins, onde uns jovens, representando suas comunidades, tinham que enfrentar-se para alcançar o triunfo e ganhar comida, bens e presentes para o resto de suas vidas. Às vezes, a realidade não está muito distante da ficção. Hoje, alguns “jogam” com a fome para ganhar dinheiro. (EcoDebate)