sexta-feira, 31 de julho de 2015

Filtragem de água de chuva na Amazônia

As civilizações antigas já valorizavam e desenvolveram importantes obras para captação, armazenamento e aproveitamento de água das chuvas. Particularmente é notável a contribuição dos árabes durante o período em que habitaram o sul da Espanha e tornaram mais conhecidas técnicas que já datavam de milhares de anos. Existem registros de utilização por pretéritas civilizações em várias localidades.
O jornal Beira-Rio, da Universidade Federal do Pará, em sua edição eletrônica de número 120, datada de agosto e setembro de 2014, descreve em detalhe atividade do grupo interno da instituição, para pesquisa e aproveitamento de água de chuva na Amazônia para saneamento e meio ambiente. Pode ser paradoxal, mas não é. Em local de tanta disponibilidade de recursos hídricos, como a Amazônia, venha a se depender da água da chuva, que por sinal representa fenômeno intempéricos também abundante na região. Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), a região norte responde por cerca de 81% dos recursos hídricos do país e cerca de 12% da água doce superficial do planeta.
As águas doces superficiais da região amazônica pouco estão pouco disponíveis para utilização, pois a região carece de saneamento básico e também de ações que contribuam para potabilização da água. Ou seja as águas são frequentemente contaminadas por esgotos e outros efluentes e não recebem os devidos tratamentos físicos e químicos. Apenas parte das águas da região, estão disponibilizadas para consumo humano em condições adequadas.
Como se sabe, a pluviosidade naquela região equatorial é elevada em boa parte do ano. E as águas da chuva quando devidamente filtradas apenas no aspecto físico, quando liberadas de particulados físicos que se encontram na atmosfera e contaminam as precipitações pluviométricas, é uma água de inegável qualidade. Não há contaminação química em águas de chuvas.
Então a instalação de filtragens físicas em coletores é uma boa solução para utilização das águas em excelentes condições. Coletores podem ser todos os telhados ou a cobertura de edificações, que sejam higienizadas 2 ou 3 vezes ao ano, para diminuir a contaminação por resíduos, particularmente de natureza física.
Os estudos do grupo de aproveitamento de água da chuva da Instituição, para uso em saneamento e meio ambiente (GPAC), através de estudos e levantamentos, estima que esta solução pode resolver a carência de água potabilizada na cidade de Belém, estimada em valor próximo a 200 mil habitantes, chegando a ter seu potencial elevado para o dobro na época de maior pluviosidade.
A água de chuva filtrada poderia ser utilizada para todas as finalidades domésticas, particularmente para fins sanitários em geral, sendo resguardada a ação de preparo de alimentos. Os sistemas de abastecimento são sempre concebidos em relação às finalidades previstas, destaca o Prof. Dr. Ronaldo Mendes, coordenador da pesquisa. Dentro de realidades tão diferentes como as propiciadas por este país continente, é necessário adotar soluções específicas e regionalizadas, que possam compatibilizar inclusive a utilização de sistemas mistos de abastecimento, desde que sejam cuidadosamente planejados, dimensionados e universalizados.
Outros usos, além da demanda urbana, já estão sendo pesquisados pelo agrupamento da instituição, destacando-se o uso para irrigação, quando as características da água sofrem ainda menores restrições, ou seja, se viabilizam de forma mais fácil. A Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) já demonstrou interesse pelo trabalho, buscando firmar parcerias.
Poucos lugares são tão beneficiados pela presença de água doce quanto a região amazônica e a região norte do país em geral. É necessário transformar e potencializar esta riqueza como instrumento de desenvolvimento efetivo. Pois a região norte apresenta muitas populações empobrecidas e vulnerabilizadas por vários fatores, incluindo dificuldades de infraestrutura em geral e ausência de persistência em políticas locais, adaptadas às peculiaridades regionais.
A cidade de Belém tem grande deficiência na coleta e tratamento de esgotos, o que torna vulnerável até mesmo os aquíferos subterrâneos, principalmente quando são reservatórios de pequena ou de baixa profundidade.
Neste cenário, se desenha novamente a necessidade de que os órgãos e entidades gestoras atuem de forma mais proativa e não preconceituosa, criando novos modelos e adaptando soluções inéditas e inovadoras para solucionar graves e antigos problemas ambientais e sociais que acometem grandes parcelas de população.
O prof. Dr. Ronaldo Mendes destaca que a próxima meta é implantar o sistema de captação e uso em todo campus da Universidade Federal do Pará e para tanto já existe patrocínio de uma empresa privada que fornecerá os equipamentos necessários e a implantação se dará em breve intervalo de tempo.
Não importa se são usados recursos públicos ou se são viabilizadas iniciativas privadas para incremento de inovações. Empreendimentos privados que em geral para se viabilizarem, arregimentam e viabilizam retornos econômicos. O meio ambiente agradece igualmente e quanto mais soluções sustentáveis forem viabilizadas inclusive em nível de retornos econômicos, maior e melhor é a garantia de perenização das situações que melhoram a qualidade ambiental e a qualidade de vida das populações. (ecodebate)

Brasil demorará 65 anos para reduzir desperdício d’água

Brasil pode demorar 65 anos para reduzir desperdício de água.
“A grande questão é que hoje não há uma evolução no indicador de redução de desperdício de água. A evolução é muito lenta, e por isso a nossa projeção é de que demore tanto tempo para se reduzir o índice de desperdício”, diz o consultor do Instituto Trata Brasil.
O índice de desperdício de água potável no Brasil é de 37% durante o processo de distribuição, valor que equivale a seis Sistemas da Cantareira, segundo pesquisa realizada recentemente pelo Instituto Trata Brasil. A perda de água causada por conta de vazamentos, pelo uso de hidrômetros adulterados, por ligações clandestinas e pela manutenção inadequada das redes pode ser resumida a dois fatores: “falta de gestão e falta de manutenção”, afirma Pedro Scazufca na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone.
“Onde há perdas físicas, é necessário fazer uma troca adequada das redes, além da manutenção, verificando se existem vazamentos. Em relação às perdas comerciais, é necessário fazer uma troca adequada dos hidrômetros, substituí-los constantemente, ter um parque de hidrômetros com uma idade de no máximo cinco anos, para que haja uma medição correta de quanta água está chegando nas casas das pessoas”, explica.
De acordo com Scazufca, apesar de os dados do desperdício de água serem “muito elevados”, a redução do desperdício de 37% para 15% deve ser atingida somente em 2080. “Basicamente este é o motivo: estamos evoluindo de maneira muito lenta, embora tenhamos algumas cidades que fogem à regra, a exemplo de Limeira e Campinas, que têm índices menores de desperdício. Em geral, as cidades não estão evoluindo. Em aproximadamente dez capitais brasileiras há perdas maiores do que 50%”. Entre as cidades em que há maior desperdício, destacam-se as da região Norte e Nordeste. Em Manaus, por exemplo, os indicadores registram 75% de desperdício.
Pedro Scazufca é mestre em Economia pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo – USP e bacharel em Economia pela Faculdade de Economia e Administração da USP. É um dos organizadores do livro A Economia do Saneamento no Brasil. Atualmente também atua como consultor do Instituto Trata Brasil.
IHU On-Line - Segundo estudo do Instituto Trata Brasil, o desperdício de água no país equivale a seis Cantareiras. Qual é o significado desse valor?
Pedro Scazufca - Os dados do desperdício de água são muito elevados; a média de desperdício no Brasil é de 37% e já esperávamos realmente um resultado ruim, um resultado que mostra o desperdício em termos de perdas físicas, causado basicamente por vazamentos, mas também perdas comerciais, que são os famosos “gatos”, ou seja, há muitas ligações clandestinas e hidrômetros adulterados.
Em relação às perdas físicas, basicamente elas dependem de uma manutenção inadequada da rede, e as redes são muito antigas. Então, por conta de essas redes serem antigas e não terem a manutenção adequada, ocorrem os vazamentos. Em relação às perdas comerciais, esse é um problema que existe por conta do comportamento inadequado dos cidadãos, infelizmente, que fazem ligações clandestinas ou fazem adulterações no hidrômetro para que ele meça um valor menor de água do que o que está sendo consumido.
IHU On-Line - Como é possível resolver esses problemas que geram desperdício?
Pedro Scazufca - Na verdade existe um problema de gestão e outro de falta de manutenção. Onde há perdas físicas, é necessário fazer uma troca adequada das redes, além da manutenção, verificando se existem vazamentos. Em relação às perdas comerciais, é necessário fazer uma troca adequada dos hidrômetros, substituí-los constantemente, ter um parque de hidrômetros com uma idade de no máximo cinco anos, para que haja uma medição correta de quanta água está chegando na casa das pessoas.
IHU On-Line - A estimativa do Trata Brasil é de que o país alcance um nível de desperdício de 15% em 2080. Por que a expectativa é de que isso ocorra somente num prazo tão distante?
Pedro Scazufca - A grande questão é que hoje não há uma evolução no indicador de redução de desperdício de água. A evolução é muito lenta, e por isso a nossa projeção é de que demore tanto tempo para se reduzir o índice de desperdício. Basicamente este é o motivo: estamos evoluindo de maneira muito lenta, embora tenhamos algumas cidades que fogem à regra, a exemplo de Limeira e Campinas, que têm índices menores de desperdício. Em geral, as cidades não estão evoluindo. Em aproximadamente dez capitais brasileiras, há perdas maiores do que 50%.
IHU On-Line - Em quais regiões há maiores evidências de desperdício de água?
Pedro Scazufca - Pelas informações que foram verificadas, a região Norte é onde existem maiores perdas de água, seguida da região Nordeste.
IHU On-Line - Segundo o Instituto, o desperdício anual de água equivale a R$ 8 bilhões que deixam de retornar ao saneamento básico. Que investimentos poderiam ser feitos com esse valor?
Pedro Scazufca - Essa estimativa de R$ 8 bilhões de reais é o total perdido, mas, como você falou, a meta é diminuir o índice de desperdício de água de 37% para chegar a aproximadamente 15%. Assim, não é possível reverter tudo isso, mas se deste valor de R$ 8 bilhões conseguíssemos reverter uns R$ 5 bilhões, estimamos que será necessário, por ano, investimentos da ordem de R$ 15 a 16 bilhões para que seja universalizado o saneamento até o ano de 2033, que é a meta do Plano Nacional de Saneamento.
IHU On-Line - Que medidas poderiam ajudar a reduzir o desperdício de água na rede de distribuição? Trata-se de investimento em tecnologia, melhoramento da gestão?
Pedro Scazufca - A gestão do Saneamento é feita pelas prestadoras de serviço e por cada município. Essas prestadoras podem ser companhias estaduais, que atendem hoje cerca de 70% da população; há também companhias municipais, que atendem cerca de 20% das operações. Então, por exemplo, em São Paulo, a Sabesp é uma companhia estadual que atende 365 municípios, mas em Campinas, por outro lado, o serviço é feito por uma empresa municipal. Há também empresas privadas, que atendem cerca de 10% da população; por exemplo, em São Paulo, há o caso de Limeira, onde é uma empresa privada que faz a prestação de serviço. Assim, são essas prestadoras de serviço que têm a obrigação de fazer a gestão e de melhorar essa gestão.
IHU On-Line - Há um comparativo no sentido de verificar se os locais em que há maior desperdício de água são atendidos por empresas estatais ou privadas?
Pedro Scazufca - Na verdade, os resultados aos quais chegamos mostram que temos tanto empresas privadas quanto empresas municipais ou estaduais onde há casos de sucesso. Dessa forma, não dá para atribuir a responsabilidade somente ao setor privado ou somente ao setor público, por exemplo. Agora, o que sabemos e o que acompanhamos é que há, sim, casos de municípios que iniciaram uma gestão privada e tiveram um sucesso de reduzir as perdas; isso realmente observamos. (ecodebate)

Solução está no estudo das bacias hidrográficas

Crise hídrica: a solução está no estudo das bacias hidrográficas
“Com exceção dos habitantes do Semiárido, os brasileiros foram criados sob o conceito de que água era um bem abundante, livre e sem valor econômico”, afirma o engenheiro florestal.
Há 48 anos, desde que criou a disciplina de hidrologia e manejo de bacias hidrográficas, Osvaldo Ferreira Valente afirma que convive com “a frustração de ver a produção de água ainda ser tratada com alta dose de empirismo e de soluções do tipo ‘salvadoras da pátria’”. Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, ao ser questionado sobre como resolver a crise hídrica que já atinge algumas cidades brasileiras, o engenheiro florestal é categórico ao sugerir que seja feito um “estudo hidrológico do comportamento das bacias formadoras do Sistema, incluindo informações sobre geologia e solos e procedimentos adotados no uso da terra”.
Contudo, comenta, ainda há quem repita “aquele conselho tão recorrente e perigoso para quem pergunta o que fazer para salvar uma nascente e recebe a resposta simplista: cerque-a e plante árvores”. “Se isso fosse verdade”, pontua, “seria facílimo e barato resolver os problemas de abastecimento de água para as nossas variadas necessidades”.
De acordo com Valente, depois de um estudo hidrológico para saber como se dá o comportamento das bacias hidrográficas, é preciso “considerar os aspectos socioeconômicos dos ecossistemas familiares, principalmente dos que ocupam áreas rurais. Depois disso, fixar metas de produção de água para os próximos cinco anos e, a partir delas, dimensionar as estruturas de recarga artificial de aquíferos”.
Osvaldo Ferreira Valente explica ainda que as “crises de água existem porque ainda não respeitamos os conceitos de hidrologia referentes às pequenas bacias, onde tudo começa, e não aplicamos os princípios e as tecnologias necessárias para os seus manejos”. Segundo ele, é preciso explicitar que “a bacia hidrográfica é a responsável por receber e processar os volumes de água recebidos das chuvas. E que é dela, portanto, a responsabilidade de manter os cursos d’água, seja ele um córrego, riacho, ribeirão ou um grande rio. Essa falta pode ser a explicação para a concentração de atenções nas calhas dos cursos d’água em si, ou no máximo em suas áreas ciliares, esquecendo que eles são produtos dos comportamentos das bacias que os formam. Por isso, eu sempre estou cobrando que as pessoas deixem de mergulhar nos rios e passem a ‘mergulhar’ nas suas bacias”, salienta.
Segundo o engenheiro, apesar das iniciativas de reflorestar o Sistema Cantareira, “dificilmente conseguiríamos aumentar substancialmente a cobertura florestal nas bacias” que formam o Sistema. “Talvez, com o novo Código Florestal, possamos, em alguns anos, passar a cobertura atual de 21,5% para 28%. Tal aumento seria pouco relevante para a elevação da produtividade de água. Há até o risco de, num horizonte de 30 anos, o aumento de a cobertura florestal provocar uma diminuição da produtividade”, explica.
Osvaldo Ferreira Valente é engenheiro florestal, especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas. É professor titular, aposentado, da Universidade Federal de Viçosa – UFV e autor de dois livros sobre o assunto, intitulados Conservação de nascentes – Produção de água em pequenas bacias hidrográficas e Das chuvas às torneiras – A água nossa de cada dia. Depois de aposentado, tem dedicado o seu tempo em consultorias de projetos de manejo de bacias, principalmente na capacitação e treinamento de equipes envolvidas, e na divulgação científica de conhecimentos relacionados com a produção de água.
IHU On-Line - Quais são as razões das crises de abastecimento de água que se vê no Brasil nos dias de hoje?
Osvaldo Ferreira Valente - Com exceção dos habitantes do Semiárido, os brasileiros foram criados sob o conceito de que água era um bem abundante, livre e sem valor econômico. A Lei 9.433, de janeiro de 1997, a Lei das Águas, procurou mudar esse sentimento, dizendo, em seu primeiro artigo:
Item II - a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico.
Item V - a bacia hidrográfica é a unidade territorial para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos.
Mas talvez tenha faltado dizer, mais explicitamente, que a bacia hidrográfica é a responsável por receber e processar os volumes de água recebidos das chuvas. E que é dela, portanto, a responsabilidade de manter os cursos d’água, seja ele um córrego, riacho, ribeirão ou um grande rio. Essa falta pode ser a explicação para a concentração de atenções nas calhas dos cursos d’água em si, ou no máximo em suas áreas ciliares, esquecendo que eles são produtos dos comportamentos das bacias que os formam. Por isso, eu sempre estou cobrando que as pessoas deixem de mergulhar nos rios e passem a “mergulhar” nas suas bacias.
É claro que saneamento é importante, com combate contínuo à poluição das águas. É claro que a mata ciliar é importante, como proteção à biodiversidade e como barreira de acesso direto aos leitos. Mas dois aspectos devem ficar bem claros: primeiro, que a poluição só poderá ser um problema se existir água correndo no leito; segundo, que as áreas ciliares não podem ser responsabilizadas pelas quantidades de água produzidas pelas bacias, pois elas representam no máximo 10% das superfícies das mesmas.
Em resumo, as crises de água existem porque ainda não respeitamos os conceitos de hidrologia referentes às pequenas bacias, onde tudo começa, e não aplicamos os princípios e as tecnologias necessárias para os seus manejos.
IHU On-Line - Que elementos não estão sendo discutidos com a devida prioridade e cuidado quando se trata das crises de abastecimento de água?
Osvaldo Ferreira Valente - Parte da resposta já foi dada na pergunta anterior. Mas vale a pena acrescentar que no primeiro artigo da Lei 9.433, o Item I afirma ser a água um bem de domínio público. O que quer dizer isso? Que a água que nasce e corre pela propriedade rural de alguém não lhe pertence e que quaisquer coletas feitas devem estar previamente autorizadas pela Agência Nacional de Águas - ANA, ou por seus representantes estaduais. É o princípio da outorga. Ora, se o poder público chamou para si a propriedade do recurso, inclusive cobrando por isso, quando o consumo não for considerado insignificante, cabe a ele cuidar do mesmo. Pelo menos oferecendo suporte técnico e financeiro aos donos das propriedades onde nascem e correm os pequenos cursos d’água.
Os comitês e as agências de bacias, também criadas pela Lei 9.433, ainda estão descobrindo a melhor maneira de atuarem. Uma dificuldade é que elas têm de operar no sistema de licitação e aí o processo fica muito frio para a lida com as áreas rurais. Ganham empresas que não têm nenhuma ligação com o meio social e econômico e não conseguem estabelecer a empatia necessária com as comunidades. Acabam o trabalho, desmancham os acampamentos e vão embora. Em pouco tempo todos os trabalhos desenvolvidos estarão perdidos. O sucesso só vai ser alcançado quando as atividades forem desenvolvidas sob a metodologia da extensão rural. Outro fato preocupante é a concentração de recursos arrecadados no saneamento, campo dominado por empresas de engenharia que estão muito mais estruturadas para fazer pressão junto às agências.
Os comitês precisam, também, buscar mais assessoria especializada em produção de água para estabelecerem as prioridades de aplicação dos recursos arrecadados com a cobrança pelo uso da água. Assessoria em hidrologia aplicada às pequenas bacias, em geologia e solos, em tecnologias de manejo de ecossistemas hidrológicos e em conscientização e capacitação de ecossistemas familiares que interagem com os hidrológicos. A hidrologia aplicada a pequenas bacias (hidrologia de produção de água) tem especificidades que não são contempladas pela hidrologia comumente ensinada na maioria dos nossos cursos de engenharia, que se concentra na análise de vazões de cursos d’água.
“O problema maior do Cantareira é estar localizado em cabeceiras de rios, que, hidrologicamente, não são capazes de produzir vazões compatíveis com grandes demandas”
IHU On-Line - O senhor sinaliza que, ao contrário do que muitos especialistas estão afirmando, o reflorestamento não é a única solução para aumentar a produção de água de mananciais de abastecimento. Qual é a importância do reflorestamento nesse processo e quais são as alternativas?
Osvaldo Ferreira Valente - É evidente a importância da floresta natural na conservação ambiental, na manutenção da biodiversidade e no oferecimento de variados serviços ambientais. Mas tudo isso não pode ser confundido com um comportamento sempre positivo na produção de quantidade de água. Aquelas imagens de nascentes e córregos brotando ou correndo límpidos pelo interior de florestas estão perfeitamente de acordo com qualidade de água, mas nem sempre com quantidade produzida.
Em artigo recente, de minha autoria, publicado pelo Jornal da Ciência – SBPC e republicado pelo Portal EcoDebate) em 09/07/2015, sob o título de “Florestas e produção de água”, tive a oportunidade de discutir o assunto com base em duas teses de doutorado e outra de mestrado, defendidas na USP. São dados científicos, portanto, mostrando que as produtividades de água de bacias cobertas por florestas naturais, estudadas nas teses, variaram de 15,43 L/Km2.s a 2,4 L/Km2.s, nos meses de agosto, que são meses centrais dos períodos de estiagens nas regiões estudadas. Fiz questão de usar as teses para não deixar dúvidas sobre a confiabilidade das informações. As bacias estudadas estavam cobertas com florestas secundárias e com mais de 30 anos. A bacia que produziu 2,4 L/Km2.s está com vazão superficial zerada em agosto, nos últimos três anos. Há informações um pouco empíricas e, portanto, servindo apenas como notícia, de que ela produzia 6,28 L/Km2.s, na década de 1960, quando a bacia estava começando o processo de regeneração natural.
Há muitos trabalhos científicos mostrando que florestas naturais possibilitam velocidades de infiltração que podem chegar a mais de 60 mm/h, tendo, assim, capacidade de evitar enxurradas na maioria das chuvas intensas por ela recebidas. Por que, então, a baixa produtividade de 2,4 L/Km2.s, ou até de zero?
Tudo vai depender de disponibilidades de água no solo e do balanço de energia do meio. Numa área degradada, ou de culturas agrícolas que explorem pequenas profundidades de solo, poderá haver transferência de muita energia para a floresta que, ao explorar camadas mais profundas do solo, poderá provocar altas taxas de evapotranspiração, dificultando o armazenamento de água nos aquíferos subterrâneos. É como se a área florestal se comportasse como uma ilha consumidora da energia não utilizada pelas áreas vizinhas. O assunto é, portanto, muito mais complexo do que parece à primeira vista. A localização e a implantação de florestas para produção de água devem ser precedidas de estudos sobre balanço de energia na região.
Se os reflorestamentos não se mostrarem confiáveis para aumentar a produção de água, poderemos adotar tecnologias de abastecimento artificial de aquíferos, tais como os terraços de bases estreitas nas encostas, as caixas de captação de enxurradas nas áreas mais torrenciais, ou ao longo de estradas, e as barraginhas, quando em áreas mais planas ou ligeiramente onduladas. Também práticas vegetativas, como os cultivos em contorno, a rotação de pastagens e os plantios diretos. Mas todas essas tecnologias precisam ser dimensionadas e localizadas sob os princípios hidrológicos aplicados a pequenas bacias hidrográficas.
IHU On-Line - Para além do reflorestamento, o que seria uma alternativa para revitalizar o Sistema Cantareira?
Osvaldo Ferreira Valente - No artigo mencionado na resposta anterior há referências a propostas que correm na mídia e que pretendem resolver a questão com reflorestamentos. Mostrei, lá, que dificilmente conseguiríamos aumentar substancialmente a cobertura florestal nas bacias que formam o Sistema Cantareira. Talvez, com o novo Código Florestal, possamos, em alguns anos, passar a cobertura atual de 21,5% para 28%. Tal aumento seria pouco relevante para a elevação da produtividade de água. Há até o risco de, num horizonte de 30 anos, o aumento de a cobertura florestal provocar uma diminuição da produtividade. Este perigo foi mostrado em tese recente de doutorado na USP.
Estudo hidrológico
O que fazer, então? Primeiro, um estudo hidrológico do comportamento das bacias formadoras do Sistema, incluindo informações sobre geologia e solos e procedimentos adotados no uso da terra. Segundo, considerar os aspectos socioeconômicos dos ecossistemas familiares, principalmente dos que ocupam áreas rurais. Depois disso, fixar metas de produção de água para os próximos cinco anos e, a partir delas, dimensionar as estruturas de recarga artificial de aquíferos, já mencionadas na resposta anterior. Programar e desenvolver, também, programas de melhorias de procedimentos de cultivo da terra. Tais programas devem ser implantados com metodologias de extensão rural, ou seja, por instituições ou organizações que detenham tal expertise e não por empresas de engenharia especializadas em execução de obras de infraestrutura.
Mas não é só o meio rural que deve ser responsável pelo abastecimento dos aquíferos. As áreas urbanas também podem colaborar, facilitando infiltração. O geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, grande estudioso das inundações urbanas, tem publicado artigos e livro com propostas para aumentar a infiltração de água nos espaços das cidades. Recentemente ele teve oportunidade de expor suas ideias no congresso da SBPC, em São Carlos/SP (com resenha publicada pelo EcoDebate,17/07/15). Ele fala em sarjetas drenantes, em calçadas com áreas verdes, em adoção de pisos permeáveis, etc. Muitas cidades brasileiras já obrigam a construção de cisternas de infiltração junto às construções.
Produtividade da água
É fundamental, para sucesso da operação, que deixemos de lado aquela ideia de que basta cercar as áreas de preservação permanente em torno das nascentes e dos cursos d’água e plantar árvores, para o problema estar resolvido. Em algumas situações, a mata ciliar que passar a se desenvolver poderá até provocar diminuição de vazões. Isso se nada for feito na bacia para compensar o efeito de uma área que pode ser importante em questões ambientais, mas não garantidora de aumento de produtividade de água. Os volumes infiltrados nessas áreas são rapidamente drenados pelos cursos d’água; não ficam armazenados nos aquíferos até os períodos de estiagens. Por outro lado, nos meses secos, na maioria das regiões brasileiras, já há energia disponível no meio para provocar aumento da taxa de transpiração, lembrando que muitas dessas áreas ficam úmidas o tempo todo, por serem regiões de passagem de água dos aquíferos para as nascentes e cursos d’água. Podem garantir, portanto, suprimento contínuo de água para o fenômeno da transpiração.
Sei que esta minha análise poderá ser contestada por muitos e eu estou aberto ao contraditório, desde que ele venha consubstanciado por trabalhos científicos, com valores de vazões medidas antes e ao longo do desenvolvimento da mata ciliar.
IHU On-Line - Em que consiste sua proposta de que, dada a demanda para resolver a crise hídrica no curto prazo, deve-se armazenar água em represas e em reservatórios urbanos? Quais as vantagens desse procedimento?
Osvaldo Ferreira Valente - Vamos começar analisando, por exemplo, o comportamento provável das bacias que compõem o Sistema Cantareira. Os 2.280 km2 do Sistema recebem das chuvas, em anos hidrológicos normais, em torno de três bilhões de metros cúbicos de água. A outorga para o abastecimento das áreas metropolitanas é de 36 m3/s. Isso representa o consumo de algo em torno de 1,2 bilhão de metros cúbicos por ano. Se for feito um bom trabalho de manejo das bacias envolvidas, será possível colocar 17% dos volumes de chuvas nos aquíferos, totalizando 0,5 bilhão de metros cúbicos, o que representa apenas 42% do consumo demandado. Portanto, a captação a fio d’água não daria conta do recado.
Quais são as alternativas para completar a demanda? Investir em represas com capacidades de acumulação suficientes para completar as vazões necessárias; investir em armazenamento de água de chuva em reservatórios domésticos e industriais, visando aliviar o abastecimento das concessionárias.
O problema maior do Cantareira é estar localizado em cabeceiras de rios, que, hidrologicamente, não são capazes de produzir vazões compatíveis com grandes demandas, como a da região metropolitana de São Paulo. Tenho pouca simpatia pela reservação superficial, mas tenho que aceitá-la para São Paulo. Em inúmeras outras situações, espalhadas pelo território brasileiro, um bom trabalho de manejo de bacias hidrográficas será capaz de produzir o necessário para abastecimento das populações, sem reservação superficial.
“É fundamental que deixemos de lado aquela ideia de que basta cercar as áreas de preservação permanente em torno das nascentes e dos cursos d’água e plantar árvores, para o problema estar resolvido”
IHU On-Line - O senhor mencionou em artigo recente a necessidade de investir em tecnologias para aumentar a rugosidade das superfícies das bacias hidrográficas, o que dificultaria a formação das enxurradas e favoreceria a infiltração de água no solo. Que tecnologias são essas? Há exemplos de locais em que essas tecnologias foram aplicadas? O Brasil já dispõe delas?
Osvaldo Ferreira Valente - As tecnologias já foram mencionadas nas respostas anteriores. Elas são capazes de diminuir a velocidade de escoamento superficial, dando tempo para que boa parte dos volumes recebidos pelas chuvas possa infiltrar no solo, primeira condição de ter aquíferos bem abastecidos. Vale lembrar que a curva de quantidade de água infiltrada eleva-se com o tempo.
Entre os anos 1999 e 2005, tivemos a oportunidade de testar várias dessas tecnologias na região de Viçosa/MG, com financiamento da concessionária de abastecimento da cidade (Serviço Autônomo de Água e Esgoto, SAAE-Viçosa), tendo conseguido, em alguns casos, até dobrar vazões de pequenas bacias em curto espaço de tempo. Esses estudos foram inclusive premiados pela Agência Nacional de Águas - ANA e estão disponíveis em um relatório que eu posso disponibilizar para quem tiver interesse.
A ANA também já vem financiando a aplicação dessas tecnologias em algumas bacias, através do seu programa chamado “Produtor de Água” (mais informações no site da Agência). Na região de Viçosa, a ANA já está financiando o segundo projeto, com objetivo de criar condições para o Pagamento por Serviços Ambientais – PSA.
IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Osvaldo Ferreira Valente – O manejo de bacias hidrográficas, ensinado em várias instituições do país, está aí para nos mostrar como a bacia deve ser organizada para receber os volumes de chuvas anuais e processá-los adequadamente, evitando cheias e inundações e armazenando água nos aquíferos para as demandas dos períodos de estiagens.
Tenho a satisfação de ter criado a primeira disciplina de “hidrologia e manejo de bacias hidrográficas” no país em 1967, efetivamente lecionada para alunos de engenharia florestal da então Universidade Rural do Estado de Minas Gerais, hoje Universidade Federal de Viçosa. Por outro lado, depois de 48 anos dedicados ao assunto, convivo com a frustração de ver a produção de água ainda ser tratada com alta dose de empirismo e de soluções do tipo “salvadoras da pátria”. Ainda sou obrigado a ouvir aquele conselho tão recorrente e perigoso para quem pergunta o que fazer para salvar uma nascente e recebe a resposta simplista: cerque-a e plante árvores. Se isso fosse verdade, seria facílimo e barato resolver os problemas de abastecimento de água para as nossas variadas necessidades. (ecodebate)

quarta-feira, 29 de julho de 2015

E quando a crise hídrico/elétrico bate à porta?

Mudança de hábitos pode ser a chave para afastar o fantasma do racionamento
O brasileiro convive mais uma vez com a necessidade de economia de recursos básicos, como água e luz. O aumento das tarifas de energia elétrica e a falta d’água em pontos variados do país são sinais de que algumas (ou muitas) coisas não vão bem. Um exemplo claro é a recente implementação das bandeiras tarifárias, que indicam ao consumidor quando a energia está mais cara ou quando houve redução de cobrança, prática inédita no país.
De acordo com o professor do ISAE/FGV e coordenador do MBA em Setor Elétrico da instituição, Diogo Mac Cord de Faria, o Brasil está no limite de sua geração de energia. A falta de gestão aliada a condições climáticas desfavoráveis, segundo ele, é a receita do caos. Mac Cord explica que, atualmente, não construímos mais usinas com reservatório, apenas a fio d’agua, como são chamadas as usinas que operam apenas com o rio não represado. “Isso significa que, quando chove, temos energia. Quando não chove, não temos. Com o Brasil entrando numa crise econômica, as previsões são de retração no mercado elétrico, o que nos salva, por hora, de um apagão ainda neste ano”, alerta Mac Cord.
A solução, segundo o professor, é iniciar um racionamento moderado, evitando consequências mais graves num futuro próximo. Nas residências, é possível praticar cortes “simples” como a diminuição do uso do ar condicionado e do chuveiro elétrico. Para Mac Cord, “este deve ser o principal objetivo dos consumidores residenciais”.
Dados X Soluções
A margem de redução para o brasileiro é pequena, o que dificulta ainda mais as opções de economia doméstica. O Banco Mundial indica que, enquanto os brasileiros consomem 2.400 kWh por ano, os argentinos consomem quase 3.000 kWh. Em outro comparativo, desta vez com os americanos, mostrou que utilizamos 20% menos energia que eles. Esse cenário evidencia que é preciso buscar caminhos alternativos para poupar mais. Entre eles, segundo o professor, estão a construção de mais usinas com reservatórios e o planejamento cauteloso, “com responsabilidade, mas sem preconceito”, de geração nuclear.
Sertão urbano: como resolver?
A crise hídrica também é fator preocupante e diretamente atrelado à crise elétrica. Tudo por um motivo simples: o aumento da utilização das termelétricas como medida preventiva ao uso das hidrelétricas elevou proporcionalmente as tarifas de luz. Além disso, segundo o docente do ISAE/FGV, Cleverson V. Andreoli, a falta de recursos para investimentos em diversas áreas fez com que os governos diminuíssem a margem de segurança dos projetos hidráulicos, que devem prever um grande período de recorrência para evitar comprometimento no abastecimento público.
Uma das soluções em longo prazo apontadas por Andreoli é a criação de legislações mais estimulantes às boas práticas ambientais, como a construção de casas sustentáveis que devem ser planejadas desde a concepção do projeto. “Leis excessivamente restritivas acabam por prejudicar o meio ambiente. É preciso garantir a segurança, mas sem desestimular ações sustentáveis importantes para evitar situações como as vividas hoje”, explica o professor.
As mudanças climáticas ampliam os extremos: as secas e as chuvas ficam mais intensas e este fenômeno já começa a cobrar atitudes na rotina dos brasileiros. Para Andreoli, não é preciso esperar o Governo decretar regras de racionamento, uma vez que estamos numa situação de risco iminente. Entre as medidas práticas que podem ser executadas para evitar o desperdício no dia a dia, estão:
* Diminuir a carga de freezers e geladeiras e regular a temperatura;
* Evitar o uso de equipamentos de grande consumo de energia elétrica em horários de pico (das 18h às 21h)
* Desligar da tomada equipamentos em stand by, como TVs e rádios;
* Apagar a luz ao sair do recinto e desligar a televisão quando não estiver assistindo;
* Na compra de novos equipamentos elétricos e eletrônicos, dê preferência ao que tem certificação de eficiência Procel;
* Substitua as lâmpadas incandescentes por fluorescentes;
* Passar toda a roupa de uma só vez, evitando consumo excessivo de energia;
* Preferir chuveiros a gás. Caso não seja possível, reduzir o tempo de banho em chuveiros elétricos;
* Instalar descargas com função dupla, que dosam a quantidade de água despendida por funcionalidade;
* Fechar a torneira ao escovar os dentes ou se ensaboar;
* Aproveitar água da chuva para reutilização em atividades domésticas. (ecodebate)

Seca no Nordeste e a má gestão dos recursos hídricos

Seca no Nordeste e as consequências da má gestão dos recursos hídricos
“A prioridade no momento é fazer medidas de curto prazo, porque estamos atravessando a maior seca do século, temos o maior problema de carro-pipa da história, e esse já é um indicador da falência do sistema de abastecimento na região”, adverte o engenheiro hidráulico.
O primeiro diagnóstico acerca da seca mais intensa do último século que atinge o Nordeste brasileiro, é de que existe água disponível para o consumo humano no Ceará, na Paraíba e no Rio Grande do Norte, mas para ter acesso a ela é preciso resolver o problema da má gestão dos recursos hídricos na região, afirma João Abner Guimarães Júnior à IHU On-Line.
Na entrevista a seguir, concedida por telefone, o engenheiro hidráulico explica que a seca continua agindo na região, e os caminhões-pipa chegam a transitar 300 quilômetros para buscar água no litoral nordestino e abastecer as cidades do interior do Rio Grande Norte, por exemplo, a um custo de até 100 reais o metro cúbico da água.
Entre as regiões que enfrentam uma situação de crise de abastecimento de água para o consumo humano, João Abner Guimarães Júnior destaca a situação de Seridó, no sertão nordestino, que poderia ser abastecida pela barragem Armando Ribeiro Gonçalves, que fica a 70 quilômetros de distância. “As duas maiores cidades da região, entre elas, Caicó, que tem 50 mil habitantes, estão na iminência de colapso total de água, apesar de ter água na região”, informa.
De acordo com o professor, a situação de falta de acesso à água não é uma peculiaridade do Rio Grande do Norte, ao contrário, “se repete na Paraíba e, por incrível que pareça, no Ceará também, que é o estado que detém 50% das reservas de água do Nordeste”.
Para resolver esse quadro, o engenheiro hidráulico propõe a construção de adutoras de caráter regional, “as quais seriam sustentadas pelos maiores reservatórios, aqueles que têm reserva de água substancial apesar da seca”. Segundo ele, essas obras tornariam a água que já está disponível nos estados acessível à população. Contudo, lamenta, atualmente esses empreendimentos competem recursos públicos da União com a obra da transposição do Rio São Francisco, “que, se funcionar, só vai beneficiar menos de 5% do semiárido”, adverte.
João Abner Guimarães Júnior é doutor em Engenharia Hidráulica e Saneamento, professor nos cursos de Engenharia Sanitária e Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. Sobre a transposição do Rio São Francisco, publicou diversos artigos, tais como A transposição do Rio São Francisco e o Rio Grande do Norte, O lobby da transposição e O mito da transposição.
IHU On-Line - O senhor informa que hoje em Seridó, no Rio Grande do Norte, se enfrenta a maior seca da história, mas, ao mesmo tempo, na região existe a segunda maior reserva de água. Qual é o problema que faz com que na região muitas cidades enfrentem uma crise de abastecimento hídrico?
João Abner Guimarães Júnior Exato. A 70 quilômetros da cidade de Seridó, encontra-se a segunda maior reserva de água do Nordeste. A seca, na verdade, atinge a agricultura, a pecuária e o consumo de água humano. Seridó tem tradição na pecuária, e a economia da região está sofrendo um efeito prolongado por causa da seca há quase quatro anos, e não adianta sugerir que seja feito um processo de irrigação, porque não tem água para irrigação. Apesar dessa situação, é preciso ter foco na questão do abastecimento humano. Hoje há um recorde de caminhões-pipa circulando no Nordeste, e temos de enfrentar essa questão, porque esse é o sistema de abastecimento mais absurdo do mundo, que está entregando água no interior do estado do Rio Grande do Norte a um custo que chega a até 100 reais o metro cúbico da água.
Esse tipo de situação tem solução, porque tem água no Nordeste, e a seca está nos mostrando isso. Mas, mesmo assim, 70% da população do Rio Grande do Norte é abastecida pela água que vem do litoral, e 40% da população do interior tem à sua disposição a segunda maior barragem acima do Rio São Francisco, a barragem Armando Ribeiro Gonçalves. Além disso, existem outras duas reservas de água, mais duas barragens menores, as quais têm boas reservas de água subterrânea. Então, o primeiro diagnóstico é justamente esse, de que a seca está mostrando que tem água no Nordeste, no Ceará, na Paraíba, mas o que existe é um problema de gestão dessa água. Numa situação como essa que estamos enfrentando atualmente, o consumo humano deve ser prioritário, e por isso precisamos de estrutura para alocar essa água de modo que ela seja usada para o abastecimento.
As maiores cidades da região de Seridó ficam a 70 quilômetros dessa barragem, mas elas não são abastecidas com a água da barragem. As duas maiores cidades da região, entre elas, Caicó, que tem 50 mil habitantes, estão na iminência de colapso total de água, apesar de ter água na região. Existem 700 milhões de metros cúbicos de água armazenados, apesar da ausência de uma política de gestão de água das barragens. A barragem se encontra com a comporta aberta, e está liberando 5 mil litros de água por segundo, e o consumo do estado é de 6 ou 7 mil litros. Então, isso mostra que tem água para o abastecimento.
IHU On-Line - Via a barragem Armando Ribeiro Gonçalves, é possível abastecer a cidade, deixando assim de utilizar os caminhões-pipa?
João Abner Guimarães Júnior Sim, via adutoras. Temos uma tradição de adutoras na região. A maior delas tem 350 quilômetros e a segunda maior tem 250 quilômetros, e outra ainda tem 170 quilômetros. Então, se houvesse uma adutora que capturasse a água dessa barragem e abastecesse essas cidades, ela seria a quarta maior adutora do estado. Ela ainda não foi construída, mas não há um problema técnico que impeça que isso seja feito.
Para você ter uma ideia, essa barragem hoje está abastecendo cidades e comunidades rurais da região mais alta do estado, que é a Chapada da Borborema, que tem um desnível de 700 metros, ou seja, a água está sendo bombeada por cima dessa chapada. Então, se há condições de levar água a essa região, também há condições de levar água para Caicó, que está a 70 quilômetros de distância da barragem. Então, tecnicamente é tudo muito viável e economicamente também. Uma adutora que resolveria o problema de água em Caicó custaria em torno de 35 milhões, ou seja, quase nada em relação ao que o governo federal vem investindo na área de recursos no Nordeste.
“Quase toda a população das cidades urbanas do interior que não tem acesso à água potável está comprando a água que vem de Natal”
IHU On-Line - E qual é a distância que os caminhões-pipa percorrem para buscar água e abastecer as cidades que estão enfrentando crise de abastecimento?
João Abner Guimarães Júnior O mais grave é que os caminhões-pipa estão pegando água no litoral para abastecer as zonas rurais das cidades que vão entrar em colapso por conta da falta de abastecimento. Às vezes, a distância entre a região em que se pega água e onde se abastece chega a ser de até 300 quilômetros. Quer dizer, o carro-pipa não está pegando água da barragem mais próxima, o que é um absurdo. Por isso, o governo do estado tem de preparar uma infraestrutura para que o carro-pipa pegue água das reservas do interior, porque isso geraria um custo muito menor e seria possível abastecer as cidades num tempo menor também.
Alguns caminhões-pipa particulares estão atendendo parte da população e cobrando 100 reais o metro cúbico da água, como eu disse antes. Quase toda a população das cidades urbanas do interior que não tem acesso à água potável está comprando a água que vem de Natal.
IHU On-Line - Quantas cidades do Rio Grande do Norte estão enfrentando esse problema de abastecimento?
João Abner Guimarães Júnior Praticamente todas as cidades que estão fora dos sistemas de adutoras. A estimativa é de que até o final do ano cerca de 40 cidades terão o sistema de abastecimento completamente comprometido; isso representa 20% da população. Por sorte, temos uma grande rede de adutoras, que se estendem por mais de dois mil quilômetros, e que atendem mais de 50% das cidades do interior do estado.
Então, hoje tem dois tipos de consumidores de água no interior do estado: os consumidores privilegiados, que têm acesso à água potável, que é fornecida pelo sistema de adutoras; e aqueles que estão fora do sistema e que estão enfrentando o colapso do abastecimento de água.
Mas essa situação do Rio Grande do Norte se repete na Paraíba e, por incrível que pareça, no Ceará também, que é o estado que detém 50% das reservas de água do Nordeste. No Ceará existem várias cidades que não estão sendo abastecidas pelos maiores reservatórios de água e isso é uma grande contradição, porque os maiores reservatórios de água atendem à irrigação para uso agrícola, embora, com a crise, esteja sendo restringido o acesso hídrico aos pequenos agricultores. As áreas de irrigação de maior escala estão sendo atendidas por cinco metros de água por segundo, que está sendo liberada pela comporta da barragem Armando Ribeiro Gonçalves, atendendo as exigências de irrigação para a exportação, principalmente da banana.
De outro lado, muitas cidades do Ceará também não têm acesso à água das grandes barragens e são sustentadas por reservatórios menores, que já secaram. Essa é uma realidade do Ceará, da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do interior de Pernambuco também.
“A estimativa é de que até o final do ano cerca de 40 cidades terão o sistema de abastecimento completamente comprometido; isso representa 20% da população”
IHU On-Line - A solução do abastecimento de água para o consumo depende da construção de novas adutoras?
João Abner Guimarães Júnior Sim, na prática seria preciso uma infraestrutura de adutoras de caráter regional, as quais seriam sustentadas pelos maiores reservatórios, aqueles que têm reserva de água substancial apesar da seca.
Defendo que essa rede de adutoras deve se estender para a zona rural, porque a população rural está cada vez menor, e corresponde a cerca de 20% dos municípios do sertão. Como o consumidor rural consome menos que o consumidor urbano, um acréscimo de 10% a mais nessas vazões que comprometem a reserva de água da região resolveria o abastecimento de água rural. Defendo um programa de água para todos, com adutoras, usando como exemplo o Programa Luz para Todos. O custo para levar energia para todas as casas do Nordeste foi de aproximadamente mil reais por pessoa e, segundo minha estimativa, com um valor menor do que esse, entre 500 e mil reais, é possível levar água através de uma adutora para todas as pessoas da região. Esse deveria ser o principal projeto do governo federal para acabar com o carro-pipa do Nordeste.
IHU On-Line -  Quantas adutoras seriam necessárias?
João Abner Guimarães Júnior Na verdade, as maiores adutoras no meu estado já estão prontas, e a única região que não tem adutoras é a de Seridó. A outra região que está numa situação de colapso de abastecimento, que é a região de Alto Oeste, está quase concluindo o projeto de um grande adutor, que será abastecido pela segunda maior barragem da região, e essa localidade resolverá o problema em relação ao abastecimento urbano. O que defendo é que as adutoras que hoje atendem a população urbana têm capacidade de atender a população rural.
IHU On-Line - E qual tem sido o papel da indústria da seca nesse período de crise intensa?
João Abner Guimarães Júnior A indústria da seca está atuando como sempre atuou. Se você for ver os investimentos do governo federal para o Nordeste, verá que existe uma ampliação de recursos para infraestrutura hídrica para os períodos de seca como esse que estamos enfrentando, e a indústria da seca atua nessa plataforma. Nesse momento, a obra que o governo federal está desenvolvendo na região é a transposição do Rio São Francisco, que está com muitas dificuldades por conta da restrição de recursos que o governo está fazendo com todos os investimentos, e isso vai atingir diretamente a obra da transposição.
De outro lado, está havendo uma forte articulação das bancadas do estado da Paraíba para pressionar o governo federal a retomar as obras da transposição do Rio São Francisco, como se isso fosse uma prioridade. Mas a prioridade no momento atual é fazer medidas de curto prazo, porque estamos atravessando a maior seca do século, temos o maior problema de carro-pipa da história, e esse já é um indicador da falência do sistema de abastecimento humano na região. Então, a prioridade deveria ser insistir em tornar a água que já existe aqui, acessível, ou seja, deveria se investir num projeto que permitisse que essa água chegasse às pessoas de um modo que não seja através do carro-pipa, como está chegando hoje.
“Nós estamos pagando o preço da obra da transposição agora, com essa seca”
IHU On-Line - Como está acontecendo o debate público sobre essa proposta de construir adutoras e encontrar outros meios de tornar a água existente acessível à população? Como o poder público se manifesta?
João Abner Guimarães Júnior Tentei no ano passado dar início a esse debate, durante o período eleitoral. À época, fizemos uma mobilização pedindo uma solução definitiva para o abastecimento de água. A população se mobilizou, fechou as duas principais ruas da cidade, e houve uma promessa do governo do estado de resolver o problema, mas os recursos que deveriam ter vindo para a construção da obra não estão chegando.
Para se ter ideia, no Rio Grande do Norte está sendo construída a segunda maior barragem do estado, que é a barragem de Oiticica, e a prioridade em relação às verbas é para essa barragem. Há pouco tempo o Ministro da Integração esteve aqui anunciando recursos para a seca, mas a maior parte dos recursos foi para a barragem. Entretanto, o fato é que essa obra não vai resolver em nada o problema da seca atual. Então, está faltando foco em soluções de caráter de curto prazo e emergencial. O debate não é fácil, mas no próximo mês teremos uma nova discussão na Assembleia para tratar desse assunto. Alguns deputados já estão começando a se interessar por essa temática, mas a maioria deles quer fortalecer o lobby para dar continuidade à transposição do Rio São Francisco.
IHU On-Line - Como a obra da transposição dificulta o enfrentamento da seca na região Nordeste?
João Abner Guimarães Júnior O principal problema é que esse é o único projeto que o governo federal tem para o Nordeste e para o semiárido. Isso é o mais absurdo. Já comprovamos a incapacidade dessa obra, porque ela terá uma influência de apenas 5% no semiárido. Então, como um projeto que, se funcionar, só vai beneficiar menos de 5% do semiárido, pode ser encarado como obra prioritária? E como essa pode ser a única obra que o governo tem para a região em relação aos recursos hídricos?
Essa obra se transformou num grande atoleiro, porque consome muitos recursos públicos. Para o Nordeste, teria sido melhor se essa obra já estivesse concluída, porque pelo menos poderíamos comprovar logo a sua ineficiência, mas enquanto a obra não for concluída, ela ainda vai continuar consumindo muitos recursos e vai disputar recursos do orçamento da União, especialmente numa época como essa, de crise, com todo e qualquer investimento que seja feito na região. Por isso digo que, na hora em que o meu estado embarcou nesse projeto da transposição, é como se ele tivesse vendido a alma ao demônio. Nós estamos pagando o preço da obra da transposição agora, com essa seca. Mas, neste momento, seria preciso foco e esforço para aplicar dinheiro em obras efetivas, que tivessem um efeito imediato.
Não tem como avaliar o malefício que uma obra dessas não só vem trazendo, como vai trazer para o futuro. A transposição sinaliza a paralisação do Estado brasileiro em adotar ações mais efetivas na região.
“A transposição sinaliza a paralisação do Estado brasileiro em adotar ações mais efetivas na região”.
IHU On-Line - Que relação estabelece entre a Operação Lava Jato e a obra da transposição do Rio São Francisco?
João Abner Guimarães Júnior Tudo faz parte da mesma conjuntura, não temos como separar uma coisa da outra, porque os atores são os mesmos e os interesses também. O primeiro ponto que deveríamos destacar é a falta de compromisso com os aspectos técnicos, ou seja, como uma obra dessas, em seu laudo ambiental, não detectou nenhum impacto ao rio.
Todas as denúncias que foram feitas em relação à inviabilidade ambiental e econômica da transposição, e em relação ao próprio custo da água, não foram consideradas. Estima-se que a água oriunda da transposição vai custar 400 milhões de reais por ano, só com a manutenção desse sistema. Mas quem vai pagar essa conta?
Para essa obra poder continuar, ela tem de ter um interesse econômico e político, nos moldes dos que estão sendo denunciados hoje na operação Lava Jato.
IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?
João Abner Guimarães Júnior Teríamos de fazer justiça, porque estamos atravessando um período de seca. Eu já passei outros períodos de seca, vi uma grande seca em 1958, depois em 1970, e assim por diante. Mas, apesar da dificuldade, outro aspecto da seca que tem de ser evidenciado é a importância dos programas sociais que o governo desenvolveu na região, como o Programa Bolsa Família, o Programa Luz para Todos. Se não fossem esses programas sociais, a realidade seria outra. Hoje não enfrentamos problemas relacionados a invasões e saques. Por isso, é preciso avançar na questão do abastecimento de água para consumo humano. É possível, factível e existem recursos para isso, mas é preciso de uma articulação  política para eliminar o carro-pipa do Nordeste. A última seca mostra que nós temos condições de fazer isso, porque temos oferta hídrica; ou seja, a seca nos mostra que a região tem água para o consumo humano, e se nós gerirmos a água adequadamente em relação à população, a realidade da seca será outra. (ecodebate)

Pegada hídrica e o uso de água nas metrópoles

Pegada hídrica e o uso consciente da água nas metrópoles
“O manejo e a gestão da água nas metrópoles poderiam assumir uma nova dimensão ao proporcionar uma reflexão sobre o modelo predominante utilizado hoje para garantir a sua segurança hídrica e o acesso à água por seus habitantes e atividades econômicas”, afirma a engenheira agrônoma.
Além de ser um método para “identificar a quantidade de água alocada durante o processo produtivo”, a pegada hídrica pode ser um instrumento importante no sentido de “contribuir para uma reflexão diferente sobre a presença e a utilização da água no contexto das metrópoles”, acentua Vanessa Empinotti na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line. Nesse sentido, pontua, a pegada hídrica “os auxilia a identificar as diferentes fontes de água utilizadas ou disponíveis para utilização nas metrópoles. Hoje em dia, o sistema de abastecimento de água depende de reservatórios que são alimentados por rios e consequentemente pela chuva. Entretanto, existem outras fontes que poderiam ser adicionadas a esta matriz de abastecimento, como a água subterrânea e as águas provenientes das cisternas que coletam a água da chuva”.
A crise hídrica de São Paulo, exemplifica, demonstra como os recursos locais, a exemplo da água, “são desperdiçados devido à incapacidade de praticar o reuso e reciclagem dos reciclagem dos recursos hídricos e de conciliar várias fontes de água para abastecer uma área com altíssima concentração populacional”. No contexto da metrópole, enfatiza, é essencial pensar em formas de reuso da água, e “o tratamento do esgoto pode se tornar fonte de água para a metrópole, diminuindo assim a dependência da área pela água localizada fora de seu território”.
Vanessa Empinotti é engenheira agrônoma, graduada pela Universidade Federal do Paraná – UFPR, mestre pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e doutora em Ciência Ambiental e Geografia pela Universidade do Colorado, EUA. Atualmente cursa o pós-doutorado na Universidade de São Paulo – USP.
IHU On-Line - Do que trata o conceito de “Pegada Hídrica” e como podemos compreendê-lo dentro do contexto das Metrópoles?
Vanessa Empinotti Enquanto o método da pegada hídrica se concentra em identificar a quantidade de água alocada durante o processo produtivo, o conceito de áiua virtual traz atenção aos fluxos globais de água como consequência da exportação de bens ocorrendo hoje no mundo. Estes fluxos ocorrem devido à exportação de alimentos e do seu impacto sobre a disponibilidade hídrica dos países compradores e produtores desses produtos. Ou seja, o país produtor aloca uma quantidade de água “x” na produção de um grão, por exemplo. Por outro lado, o país que importa este mesmo grão não precisa alocar a sua água para produzir o mesmo alimento uma vez que ele comprou o alimento. Dessa forma, o país importador economizou a sua água e a utilizou em outras atividades.
Assim, é importante observar que não estamos falando do consumo da água ou do seu desaparecimento, e sim de como a água é alocada para a produção de bens. Nesse contexto a Pegada Hídrica se torna o instrumento para quantificar a água alocada durante o processo produtivo, que considera a água proveniente não só de rios, reservatórios ou aquíferos (corpos hídricos), mas também a água proveniente da chuva e, por fim, a quantidade necessária de água para que os índices de qualidade de água sejam respeitados.
No seu cálculo, a Pegada Hídrica considera a água azul, a água verde e a água cinza. A água azul corresponde ao consumo de água superficial e subterrânea, a água verde ao consumo de água da chuva armazenada no solo e a água cinza à quantidade de água necessária para diluir ou degradar a poluição produzida durante o processo produtivo, dessa forma mantendo os níveis de qualidade de água.
“Estrategicamente pensando, quais as prioridades do uso da água?”
Pegada hídrica na metrópole
No contexto da metrópole, a pegada hídrica nos ajuda a entender como a população dessa área não depende apenas da água física presente e disponível no local. Ao consumirmos produtos agrícolas e industriais produzidos em outras regiões, a água disponível nas metrópoles é principalmente alocada para o abastecimento público e atividades econômicas localizadas em seu território. As metrópoles, em geral, não são autossuficientes com relação à produção alimentar ou à geração de energia. Tais recursos são produzidos em outros lugares. Assim as metrópoles são dependentes da importação de água virtual que está presente nos produtos produzidos em outras áreas.
Além disso, a pegada hídrica nos auxilia a identificar as diferentes fontes de água utilizadas ou disponíveis para utilização nas metrópoles. Hoje em dia, o sistema de abastecimento de água depende de reservatórios que são alimentados por rios e consequentemente pela chuva. Entretanto, existem outras fontes que poderiam ser adicionadas a esta matriz de abastecimento como a água subterrânea e as águas provenientes das cisternas que coletam a água da chuva. Dessa maneira, a pegada hídrica contribui na observação e identificação de novas fontes de água e na reflexão sobre o desenvolvimento de sistemas integrados que consideram diferentes fontes de água e sua diferentes utilizações.
Por fim, como a Pegada Hídrica também considera a quantidade de água necessária para diluir os efluentes ou poluentes resultantes do processo produtivo, ela traz a questão da água contaminada, como no caso do esgoto, para dentro da discussão. O tratamento do esgoto pode se tornar fonte de água para a metrópole, diminuindo assim a dependência da área pela água localizada fora de seu território.
Assim, a pegada hídrica pode contribuir para uma reflexão diferente sobre a presença e a utilização da água no contexto das metrópoles, ao possibilitar a identificação de fluxos de água reais e virtuais. Neste sentido, o manejo e a gestão da água nas metrópoles poderiam assumir uma nova dimensão ao proporcionar uma reflexão sobre o modelo predominante utilizado hoje para garantir a sua segurança hídrica e o acesso à agua por seus habitantes e atividades econômicas.
IHU On-Line - Qual tipo de gestão o Brasil adota com relação à água? Qual a importância da transparência da gestão pública nesse processo?
Vanessa Empinotti A transparência pode ocorrer em vários momentos da gestão. Se a gestão for participativa e descentralizada, como definida pela Lei das Águas 9.433, a transparência deveria se concretizar por meio da disponibilização de documentos e informações que irão fundamentar o processo de tomada de decisão. Após as decisões terem sido tomadas, a transparência pode também proporcionar o acompanhamento do andamento das ações e atividades escolhidas. Por outro lado, a transparência também possibilita ao usuário da água acompanhar e monitorar a qualidade da água que ele está recebendo, assim como a sua quantidade, o sistema de distribuição ou a execução do tratamento de esgoto. Assim, é importante notar que a transparência na gestão dos recursos hídricos ocorre em diferentes momentos e também tem funções distintas. Com isso, a transparência não necessariamente pode levar à influência do processo de tomada de decisão, mas pode servir como uma ferramenta de monitoramento de ações propostas. O desdobramento de tais ações poderá fundamentar reinvindicações pela melhora do acesso à água em quantidade e qualidade igual para todos.
“É importante pontuar que existe água suficiente no país, a questão agora é garantir o seu acesso universal”
IHU On-Line - De que forma crises hídricas da Metrópole, como no caso de São Paulo, revelam a dimensão da problemática do tema em nossas sociedades?
Vanessa Empinotti No caso de São Paulo, a crise hídrica está revelando o papel do governo como principal agente de tomada de decisão juntamente com a empresa responsável pelo abastecimento de água. O sistema de gestão participativo, baseado em comitês de bacias e conselhos de recursos hídricos, não se tornou o espaço de tomada de decisão, o que é preocupante.
Mostra também que a busca por água limpa está impulsionando obras de transposição de rios entre bacias e reservatórios localizados cada vez mais longe da área da metrópole, o que indica uma predileção por ações que garantam a oferta de água sobre a redução do seu consumo. Por fim, está cada vez mais “caro” manter rios mortos que se tornaram canais de esgoto a céu aberto, que cortam as áreas urbanas. Ficou claro que, hoje, a água presente nos rios que atravessam a cidade de São Paulo ou a precipitação que cai na região não são as principais fontes de abastecimento de água da metrópole. Na verdade, esses recursos locais são desperdiçados devido à incapacidade de praticar o reuso e reciclagem dos recursos hídricos e de conciliar várias fontes de água para abastecer uma área com altíssima concentração populacional.
Esta crise evidencia os limites do modelo de abastecimento presente na metrópole, mas até o momento não promoveu o seu ajuste.
IHU On-Line - De que forma, ao exportar commodities agrícolas e minerais, se está exportando também a riqueza hídrica do Brasil? Quais as implicações éticas neste processo?
Vanessa Empinotti Na verdade não se está exportando água, literalmente, quando exportamos commodities ou minerais, o que acontece é que estamos alocando uma quantidade significativa de água para a produção de uma commodity agrícola ou na extração de um mineral. Esta água alocada para produção naquele momento, não será utilizada em outros usos. Então, quando falamos em exportação de água virtual, o que estamos dizendo é que o país que produziu a commodity agrícola alocou a sua água para esta produção naquele momento, enquanto o país que importa o alimento utilizou a sua água em outras atividades que não aquela para produzir o alimento importado. Ou seja, o país importador economiza a sua água, uma vez que ele importa o alimento que vem de outro lugar. Dessa forma o país exportador assume as consequências da utilização da sua água, seja devido à poluição dos corpos hídricos durante o processo produtivo, seja diminuindo a disponibilidade de água naquele momento.
Com isso, se o país é capaz de produzir alimentos, commodities agrícolas ou extrair minerais e ao mesmo tempo garantir a disponibilidade hídrica interna, a exportação de bens que alocam água na sua produção não seria um problema. A questão maior é pensar sobre as melhores maneiras de utilizar a água disponível no país. Estrategicamente pensando, quais as prioridades do uso da água? Na nossa lei (9.433) o uso prioritário é para consumo humano, dessedentação animal e produção. Atualmente a questão hídrica no Brasil reflete a falta de execução de planos elaborados e discutidos nos espaços de negociação participativos como previstos pela lei 9.433. O Brasil é um dos poucos países no mundo que é capaz de conciliar produção de alimentos e geração de energia sem sacrificar o abastecimento humano. Se setores da sociedade não têm acesso à água, não é por falta de legislação ou planos.
A questão maior é refletir sobre a prioridade do uso da água e qual a sua estratégia de alocação. Se a prioridade é o seu acesso democrático, que esse seja o principal mote para orientar as políticas públicas e programas de governo. É importante pontuar que existe água suficiente no país, a questão agora é garantir o seu acesso universal. A produção pode conviver com o acesso universal à água.
“É interessante e triste notar que a agenda ambiental não está nas ruas”
IHU On-Line - Que implicações pode haver na gestão de recursos hídricos feitos por empresas de economia mista com ações no mercado financeiro? Que contradições são evidentes nessa dinâmica?
Vanessa Empinotti No caso de abastecimento público e analisando o que está ocorrendo em São Paulo hoje, podemos observar que o entendimento predominante é que a distribuição da água é um negócio. Em consequência, existe a contradição entre práticas que levem à redução do consumo e práticas que garantam a disponibilidade do recurso, ou seja, de um lado garantir a oferta de água a qualquer custo e do outro promover práticas de redução de demanda. Assim, uma empresa na qual o seu negócio é distribuir água, sua principal estratégia será a de garantir esta oferta por meio da construção de reservatórios, sistemas de distribuição, transposição de águas, dessalinização de água e tratamento do esgoto.
Por outro lado, quando a água é entendida como um direito humano, o objetivo da sua distribuição é torná-la disponível para todos e nas mesmas condições. Nesse caso, a distribuição da água não é um negócio ou produto, onde quem tem dinheiro compra, mas sim um direito que deve ser garantido a todos. Assim, não só medidas para garantir a oferta seriam utilizadas, mas também para diminuir a demanda, uma vez que o objetivo final é garantir que todos tenham acesso à agua em primeiro lugar.
Ou seja, no momento em que a água e sua distribuição são vistas como negócio, ela seguirá as regras de mercado, que nem sempre priorizam a universalização do seu acesso sobre os rendimentos e lucros.
IHU On-Line - Quais são as particularidades do consumo de água no campo, especialmente na agricultura, e na Metrópole?
Vanessa Empinotti A água é alocada de diferentes maneiras e depende das características de produção e da matéria-prima utilizada. No caso dos produtos agrícolas, a alocação de água será maior do que se comparado a algumas práticas industriais ou à prestação de serviços. Isso porque a agricultura produz alimentos por meio do cultivo de plantas, seres vivos que consomem água durante a sua vida. Dessa forma, quando comparamos as diferentes etapas do processo produtivo, a atividade agrícola terá uma pegada hídrica maior que o processo de beneficiamento dos produtos.
Entretanto, é importante observar que para promover a redução da necessidade hídrica das plantas, um dos poucos caminhos é o melhoramento genético que leva ao desenvolvimento de plantas que necessitem de menos água para produzir. Já a metrópole se caracteriza por ter sua água alocada predominantemente para as atividades de abastecimento público e industriais. Hoje, observamos que, das outorgas de uso da água (licenças de uso da água expedidas pelo estado), distribuídas na bacia hidrográfica do alto Tietê, 59% correspondem a licenças para abastecimento público e lançamento de efluentes domésticos, enquanto 39% correspondem à licença para uso da água pela indústria local.
“Questões ambientais não são consideradas problemas enquanto as pessoas tiverem poder de compra”
IHU On-Line - Na sua avaliação, por que o tema dos recursos hídricos não faz parte da agenda política nem do Estado nem da sociedade civil em larga escala? Como avalia a ausência do tema nas manifestações da Multidão em Junho de 2013?
Vanessa Empinotti É interessante e triste notar que a agenda ambiental não está nas ruas. Não só a da água como também de nenhuma outra. Questões ambientais não são consideradas problemas enquanto as pessoas tiverem poder de compra. Quem não tem água ou energia é aquele que não pode pagar por ela. Ao mesmo tempo as manifestações de 2013 indicaram um descompasso entre o aumento da renda, a emergência de uma nova classe média, a diminuição da pobreza com as condições de infraestrutura e serviços presentes no país. A questão não era ambiental nem se preocupava com os níveis de consumo, mas sim de qualidade de vida, sem reconhecer que uma está ligada à outra. A questão ambiental ainda é vista como uma bandeira romântica, enquanto a perspectiva econômica é a que prevalece.
Ainda se dá preferência em garantir as necessidades básicas das pessoas, inclusive água, mas sem pensar como isto está relacionado à forma como transformamos a natureza. Nesse sentido vamos nos acostumando e aceitando a convivência com passivos ambientais, como os rios poluídos que cortam áreas urbanas, a ponto de essa realidade se tornar normal e aceitável. A referência se tornou um rio sujo, e não o limpo.
IHU On-Line - Frente a tal contexto, estamos diante de que tipos de desafios? Que alternativas se tornam viáveis em um cenário social em que aumenta a concentração populacional em Metrópoles que não são sustentáveis do ponto de vista hídrico?
Vanessa Empinotti O desafio é romper com a maneira que pensamos o manejo dos recursos hídricos hoje. A concentração populacional é uma realidade e o modelo de gestão e abastecimento atual não conseguem garantir o acesso à água em condições de seca. A oportunidade que temos agora é de refletir e ajustar. Entretanto, com o aumento da incidência de eventos extremos em períodos mais curtos, se insistirmos pelo modelo atual teremos uma nova crise em pouco tempo. Talvez, agora, com a intensificação e alteração das dinâmicas de precipitação, seremos obrigados a repensar as nossas práticas sob pena de sofrermos cada vez mais. (ecodebate)