domingo, 31 de março de 2019

Aquecimento global de 0,5°C causará drásticos riscos de inundação e seca

Meio grau de aquecimento global pode causar diferenças drásticas nos riscos compostos de inundação e de seca.
O aumento da temperatura global também intensificará o ciclo hidrológico, alterando significativamente a frequência e a intensidade das chuvas.
Em 2015, para combater as ameaças urgentes impostas pelas mudanças climáticas, a maioria dos países do mundo se uniu para estabelecer o Acordo de Paris: um plano ambicioso para evitar que a temperatura global suba 2°C acima dos níveis pré-industriais. É urgente trabalhar para limitar ainda mais esse aumento de temperatura a 1,5°C.
Esses números aparentemente pequenos podem mascarar o impacto e a complexidade que as mudanças na temperatura global representam. Por exemplo, o aumento da temperatura global também intensificará o ciclo hidrológico, alterando significativamente a frequência e a intensidade das chuvas. Enchentes, secas, deslizamentos de terra e insegurança alimentar e hídrica são apenas alguns dos muitos perigos das mudanças resultantes nos padrões de precipitação.
Para entender o que o futuro pode comportar e para moldar as políticas e comportamentos que guiam esse resultado, pesquisadores da Universidade de Tóquio, juntamente com colaboradores internacionais, desenvolveram uma nova métrica para avaliar a intensificação dos períodos de chuva e seca sob os efeitos do aquecimento global. aquecimento. Eles chamam isso de “índice de intensificação hidrológica evento-a-evento”, ou E2E, conforme descrito em um novo estudo publicado na Scientific Reports.

Diariamente ouvimos falar sobre as consequências do aquecimento global, um tema frequentemente abordado na mídia. Esse fenômeno, ao contrário do que muitos imaginam, não é responsável apenas pelo aumento da temperatura, mas pode causar danos severos à sociedade e ao meio ambiente, trazendo prejuízos à saúde, à economia e à vida de muitas espécies animais e vegetais.
“O E2E combina intensidade de precipitação agregada normalizada e comprimento de seca para captar a interconexão de feixes secos e úmidos adjacentes e a intensificação de seus turnos de fase”, explica o autor correspondente Hyungjun Kim.
A equipe de pesquisa conduziu experimentos conjuntos de múltiplos modelos para comparar a E2E entre os cenários com 1,5°C e 2°C de aquecimento. No geral, o aquecimento foi associado a um claro aumento na E2E, com aumento adicional significativo de 1,5°C para 2°C de aquecimento.
Além disso, o estudo revelou tendências geográficas em mudanças na intensidade da chuva sob esses cenários de aquecimento. Por exemplo, precipitações mais intensas são previstas em grande parte da América do Norte e Eurásia, enquanto secas mais intensas são projetadas para a região do Mediterrâneo. Outro achado importante foi que a intensificação mais extrema seria cerca de 10 vezes maior que a intensificação média.

Cenas de seca como essa podem ser cada vez mais comuns no final do século.
“Nossos resultados sugerem que eventos extremos, secos e úmidos, irão coexistir cada vez mais, como a mudança da seca extrema para inundações severas que vimos na Califórnia no passado recente”, disse o principal autor Gavin D. Madakumbura. “Pelo menos em termos de mitigação de desastres e segurança hídrica, haveria benefícios significativos em limitar o aquecimento global a 1,5°C para reduzir a intensificação da variabilidade entre os eventos”.
Assista ao vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=7RygVNrKMs0(ecodebate)

A retaliação do lixo

Moradores de Watamu, no Quênia, trabalham coletando plástico nas praias.
São 332 barragens nas cabeceiras do Rio São Francisco. Cerca de 70% cheias de rejeitos da mineração. Basta estourar a de Congonhas do Campo, com rejeitos de metais pesados para minerar o ouro, que o Velho Chico estará morto por 100 anos, calculam especialistas da área.
Então, Brumadinho e Mariana, que não mandaram aviso, avisaram que estamos com uma barragem de rejeito amarrada em cada pescoço. Nós somos 18 milhões de pessoas no Vale do São Francisco, sem falar agora dos paraibanos que bebem também dessa água.
Mas, o aviso da velha mídia é que na região de Caldas, também Minas Gerais, há uma represa com rejeitos de material radioativo. Isso mesmo. É a bacia do Rio Grande, portanto do Paraná, portanto do Prata. Só na bacia do Grande são 9 milhões de pessoas. O povo, a Universidade e o MPF alertam para a insegurança da barragem diante de acontecimentos incomuns na parede, leia-se vazamentos e infiltrações. Porém, a Indústrias Nucleares do Brasil (INB) já disse que não tem mais de 1 bilhão de reais (Sic!) para desativar a barragem.
Natureza, antes exuberante, agora agoniza e morre.
Papa Francisco já disse que essa economia mata. Mata pessoas e mata a natureza. Não há duas crises, há apenas uma crise de civilização. Na verdade, ninguém sabe qual a segurança de rejeitos radioativos e de mineração em toda face da Terra. Uma bomba pode aparecer nas nossas vidas a qualquer momento.
Enquanto isso, o povo da região de Itacuruba, Pernambuco, se manifesta mais uma vez contra a instalação de mais uma usina nuclear, dessa vez no Baixo São Francisco. Horror em cima de horror.
Nem vamos falar do plástico que ocupa os oceanos, da contaminação por metais pesados da agricultura, dos hormônios e antibióticos lançados em toneladas nas águas. O capital não pode medir as suas próprias consequências, tem apenas que seguir em frente.
O lixo que abraça o mar e polui o mundo.
A retaliação do lixo vai se tornando fantástica. Para quem gosta do caos, somando a vingança do lixo com a vingança de Gaia – vide Moçambique -, o espetáculo vai sendo dantesco e inimaginável, apocalíptico. Ninguém vai poder reclamar da falta de emoção. Divirtam-se. (ecodebate)

sexta-feira, 29 de março de 2019

Ciclone Idai foi "alarme" sobre mudança climática

Ciclone Idai foi "alarme" sobre mudança climática, diz secretário-geral da ONU.
Casas são vistas em meio a enchente após passagem do ciclone Idai, em Buzi, perto de Beira, em Moçambique 24/03/2019.
A passagem mortífera do ciclone Idai deixou cerca de 1,85 milhão de pessoas precisando de assistência em Moçambique, uma catástrofe que o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, classificou nesta terça-feira como "mais um alarme sobre os perigos da mudança climática".
Guterres descreveu o Idai, que derrubou casas e provocou enchentes enormes depois de atingir Moçambique perto do porto de Beira em 14 de março, como "uma tempestade anormalmente feroz e prolongada".
O ciclone ainda avançou sobre o Zimbábue e Maláui, matando ao menos 686 pessoas nos três países do sul africano. Em Moçambique, o mais assolado, dezenas de milhares de lares foram destruídos e centenas de milhares de pessoas foram deslocadas ao longo de uma área de cerca de 3 mil quilômetros quadrados – quase o tamanho de Luxemburgo.
Só 2% dos US$ 337 milhões necessários foram doados a três países afetados.
"Ao menos um milhão de crianças precisam de assistência urgente, e este número pode muito bem crescer. Tememos que vilarejos inteiros tenham sido arrasados em locais que ainda não alcançamos", disse Guterres aos repórteres na ONU.
Há relatos de que um bilhão de dólares de infraestrutura foram destruídos, acrescentou.
Embora cientistas observem que eventos climáticos isolados não possam ser atribuídos à mudança climática, também dizem que o aquecimento global está causando episódios mais extremos de chuvas e tempestades, ondas de calor sufocantes, colheitas cada vez menores e uma escassez de água cada vez maior em todo o mundo.
O ciclone Idai, que provocou enchentes enormes depois de atingir Moçambique em 14/03/19 matando em torno de 700 pessoas.
O recuo das águas das enchentes em Moçambique está permitindo mais acesso às áreas afetadas e uma avaliação melhor do quanto as pessoas perderam. (noticiasagricolas)

Mudança climática é agora, não precisa esperar o futuro para ver os efeitos

As mudanças climáticas estão acontecendo agora e não precisamos esperar o futuro para ver os efeitos.
“Diálogos na USP” discute as mudanças climáticas e possíveis soluções – Especialistas garantem que a solução passaria por medidas de Estado.
A Organização das Nações Unidas vem alertando que a meta do Acordo de Paris, assinado em 2015, de limitar o aumento da temperatura média global “abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais”, corre o sério risco de não ser alcançada. Isso porque as principais economias, incluindo os Estados Unidos e a União Europeia, estão aquém de suas promessas.
Impactos das mudanças climáticas pelo mundo, pela poluição, são inevitáveis.
O planeta está agora quase um grau mais quente do que estava antes do processo de industrialização, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM). Os 20 anos mais quentes da história foram registrados nos últimos 22 anos, sendo que os anos de 2015 a 2018 ocupam os quatro primeiros lugares do ranking, diz a OMM. O ano passado, por exemplo, bateu todos os recordes. Se essa tendência continuar, as temperaturas poderão subir de 3 a 5 graus até 2100.
Mas, afinal, o quão quente o planeta ficou e o que podemos fazer em relação a isso?
Para falar sobre mudanças climáticas e as possíveis soluções, o Diálogos na USP recebeu os professores Emerson Galvani, do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, presidente da Associação Brasileira de Climatologia entre 2008 e 2010, e Marcelo Marini Pereira de Souza, titular da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e presidente da Associação Brasileira de Avaliação de Impacto.
Marcelo Marini alerta para o fato de que as mudanças climáticas já estão ocorrendo, não é algo que ocorrerá no futuro. “Não é um clique para daqui a pouco, esse clique já aconteceu”, comenta. Segundo o professor, os problemas não têm apenas viés econômico, mas também um grande impacto ambiental, sendo que “o grande problema ambiental hoje é a perda de biodiversidade”, causada principalmente pela ação humana e por essas mudanças no clima. “O ser humano insiste em contribuir com esse processo e não atender às questões globais, atendendo apenas aos interesses econômicos”, afirma.
Emerson Galvani destaca que não há mais dúvidas de que o planeta está esquentando: “Hoje já é consenso que a temperatura está aumentando, tanto em áreas urbanizadas quanto não urbanizadas”. De acordo com o professor, a causa seria “uma força natural, associada aos ciclos geológicos, e uma força humana”. Ele cita como exemplo de força humana os veículos que utilizamos no dia a dia e que liberam gases estufa.
A solução passaria por medidas de Estado, não apenas de um governo, comenta Galvani. “Uma política pública, continuada, independentemente do partido que esteja no poder”, complementa. O professor destaca mudanças ocorridas no Brasil nos últimos governos, apontando para a mudança no Ministério do Meio Ambiente, “que perdeu grande parte das suas funções e está atrelado aos grandes latifúndios”. Isso tudo pode ser prejudicial para ambos os lados, “gerando uma desorganização das atividades do agronegócio e das atividades de preservação e conservação ambiental”.
Já Marini atenta para o fato de a sustentabilidade só ter entrado em pauta por ter se tornado algo importante para a economia mundial: “O mercado internacional passou a considerar o meio ambiente, porque senão o investidor perde reputação”. Porém, o professor acredita que “a questão ambiental não pode estar a reboque das questões econômicas, ela tem a sua roupagem”. Essa sobreposição dos interesses financeiros estaria contribuindo para a perda das questões da área ambiental.

Emerson Galvani e Marcelo Marini Pereira de Souza.
Assista ao vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=l5GCXIvjXjo. (ecodebate)

quarta-feira, 27 de março de 2019

Conflito intergeracional, mudança climática e Terra inabitável

O conflito intergeracional, as mudanças climáticas e a Terra inabitável.
“Não peçam aos seus filhos respostas para a bagunça que vocês fizeram” - Greta Thunberg.
A população humana vem crescendo de geração em geração. Calcula-se que no início do Holoceno (há cerca de 12 mil anos) o número de pessoas no mundo não ultrapassava 5 milhões de habitantes, mas cresceu e chegou em torno de 250 milhões no ano 1 da Era Cristã, saltou para 1 bilhão de pessoas em 1800 e deve atingir 8 bilhões de habitantes em 2023. Segundo estimativas do Population Reference Bureau (PRB), já nasceram no Planeta, desde o surgimento do Homo sapiens, algo em torno de 108 bilhões de pessoas.
Em geral, as gerações mais velhas deixaram uma herança positiva para as gerações mais novas, tanto em termos materiais, quanto em termos espirituais. Nos últimos 200 anos, houve uma expressiva redução da mortalidade infantil, um aumento significativo da esperança de vida ao nascer e uma melhoria das condições de vida da população mundial, com avanços na educação, saúde, moradia, etc. Isto é o que se chama de mobilidade social ascendente ou ciclo intergeracional ascendente, já que, na média, a vida dos filhos melhora em relação à vida dos pais.
Contudo, a ascensão das gerações humanas ocorreu às custas da involução da biodiversidade, da diminuição da riqueza natural e da degradação dos ecossistemas. Enquanto a humanidade enriquecia o meio ambiente empobrecia. A ECOnomia avançou degradando a ECOlogia, mas é a primeira que depende da segunda e não o contrário. Ou seja, o ser humano depende da natureza e a natureza floresce melhor com mais abelhas e insetos e com menos seres humanos.
O fato é que o Planeta caminha para um colapso ambiental que pode se transformar em um colapso civilizacional. Como diz o jornalista David Wallace-Wells, caminhamos para uma “Terra inabitável”, pois além dos diversos elementos de degradação (como a acidificação dos solos, águas e oceanos, a precarização dos ecossistemas e os desastres climáticos extremos: secas, chuvas, furacões e inundações de grandes proporções), o aquecimento global vai ser abrangente, terá um impacto muito rápido e vai durar muito tempo. Isto quer dizer que os efeitos danosos das mudanças climáticas vão se agravar no futuro e, embora todas as gerações já estejam sendo atingidas, são as crianças e jovens que nasceram no século XXI que vão sentir as maiores consequências do colapso ambiental.
O padrão de vida adotado nos últimos 200 anos (desde o início do uso generalizado dos combustíveis fósseis e do consumismo extremo) está provocando a 6ª extinção em massa das espécies, reduzindo a biocapacidade da Terra, aquecendo o Planeta e levando a humanidade para o rumo do abismo. Evidentemente, são as novas e a futuras gerações que irão pagar o maior preço pelo irresponsável estilo de vida das antigas e atuais gerações de humanos.
Desta forma, torna-se impactante quando uma estudante sueca de 16 anos, Greta Thunberg, lidera um movimento global contra as mudanças climáticas e chama a atenção dos adultos para o caos climático que já provoca tantas destruições e que deve se agravar nos tempos vindouros. O evento de caráter revolucionário ficou conhecido como: “Greve Global pelo Futuro: um movimento de estudantes contra a inércia dos adultos”
As manifestações em 15 de março de 2019, foram as maiores mobilizações globais contra as mudanças climáticas antropogênicas de todos os tempos. Ao todo, aconteceram pelo menos 2 mil eventos, em mais de 1.300 cidades, ocorridos em 123 países, envolvendo milhões de estudantes.
Greta Thunberg (que foi indicada para o Prêmio Nobel da Paz) disse: “Precisamos urgentemente de uma visão holística para lidar com a crise de sustentabilidade total e o desastre ecológico em curso. E é por isso que eu sempre digo que precisamos começar a tratar a crise pelo que ela é. Porque só assim – e só guiados pela melhor ciência disponível (como está claramente afirmado em todo o Acordo de Paris) – é que podemos começar a criar juntos uma saída global”. Mas ela reclama dos críticos que dizem que os jovens não oferecem soluções para a crise ecológica: “Como vocês podem jogar esse fardo sobre nós?”.
Mas o que ecoa mais forte por parte de todo este movimento da juventude mundial contra o desastre ecológico é a frase de Greta direcionada às gerações ascendentes: “Não peçam aos seus filhos respostas para a bagunça que vocês fizeram”.
Este alerta vem modificar a relação existente entre as gerações, base de um relacionamento que prevaleceu nos últimos 12 mil anos (quando havia estabilidade homeostática do clima durante o Holoceno). No passado, os filhos agradeciam aos pais por terem nascidos e davam crédito e reconhecimento por receberem um herança positiva.
Mas atualmente, os filhos questionam os pais pela bagunça onde eles nasceram. As crianças e adolescentes estão começando a perceber que estão recebendo uma “herança maldita” e que vão ter que pagar pelo passivo ambiental deixado pelas gerações mais velhas. A crise ecológica e climática está acirrando o conflito intergeracional e agravando o mal-estar civilizacional.
Os 108 bilhões de humanos que já passaram pela Terra – onde quer que estejam – vão ter que pedir desculpas para as futuras gerações. E algumas pessoas já estão fazendo cobranças. O indiano Raphael Samiel, de 27 anos, decidiu entrar na justiça contra os próprios pais, que o conceberam sem o seu consentimento. Ele disse: “É errado trazer crianças ao mundo porque elas têm que tolerar o sofrimento ao longo da vida”. Os movimentos GINK (Green Inclination, No Kids) e “BirthStrike” (greve de nascimento por causa do aquecimento global) já compreenderam que o ambiente não é favorável às gerações descendentes.
Catástrofe climática: a Terra inóspita e inabitável.
É complicado e embaraçoso os país sentirem culpa pela geração de filhos. Mas esta é a tristonha realidade global. Por isto, a esperança contra o apocalipse climático está depositada nas “Sextas-feiras pelo futuro”. (ecodebate)

1 bilhão litros de chorume são despejados na Baía de Guanabara por ano

Um bilhão de litros de chorume são despejados todo ano na Baía de Guanabara.
No Dia Mundial da Água é comemorado este ano, no Rio de Janeiro, com a constatação de que um bilhão de litros de chorume são despejados na Baía de Guanabara todo ano, de acordo com denúncia do Movimento Baía Viva. Chorume é o líquido poluente de cor escura e mau cheiro, originado de processos biológicos, químicos e físicos da decomposição de resíduos orgânicos.
O vazamento de chorume proveniente do lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, foi objeto de reunião esta semana no Ministério Público Federal de São João de Meriti com pescadores artesanais da região, acompanhados do coordenador do Baía Viva, o ambientalista Sérgio Ricardo. As empresas que respondem pelas estações de tratamento desse resíduo não foram convidadas para o encontro, o mesmo ocorrendo em relação ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea).
De acordo com o procurador do MPF, Julio José Araujo Júnior, foi uma audiência informativa sobre os caminhos que vêm sendo conduzidos pelo órgão desde o ano passado, incluindo o ajuizamento de uma ação judicial este ano, pedindo a nulidade de um acordo firmado entre o estado do Rio de Janeiro, por meio do Inea, e a empresa Gás Verde, vencedora da licitação para reparação dos danos ambientais do lixão de Gramacho e tratamento do chorume. A ação defende a necessidade de os pescadores participarem do processo. “Por isso, sustenta que o acordo é nulo”, disse o procurador.
Cronograma
O objetivo foi aprofundar o diálogo com os pescadores e garantir o estabelecimento de um cronograma de cobrança em relação ao estado e ao Inea de várias reparações que vão ser definidas posteriormente quanto aos pescadores. Araujo Júnior admitiu que durante os próximos encontros poderá ser analisada a criação de uma compensação ambiental emergencial pelos danos causados aos pescadores artesanais. Os pescadores das comunidades da Chacrinha e Saracuruna, em Duque de Caxias, não estão conseguindo sobreviver da pesca de caranguejos no manguezal e no Rio Sarapuí, devido à elevada poluição.
“Com o chorume que está sendo despejado, as pessoas não têm mais condições de se sustentar da pesca. Estão catando garrafas PET e latinhas no manguezal. Mas até isso acabou. E agora? Não há sobrevivência mais. Só encontramos lixo, como pneu, madeira”, disse o presidente da Colônia de Pesca de Duque de Caxias, que conta com 120 associados, Gilciney Lopes Gomes. Segundo o pescador, as famílias estão desesperadas, sem saber o que fazer.
O ecologista Sérgio Ricardo, coordenador do Movimento Baía Viva, destacou que as principais fontes do vazamento de chorume na Baía de Guanabara são os lixões de Gramacho, em Duque de Caxias, e o de Itaóca, em São Gonçalo.
O procurador da República disse que há uma decisão judicial para que se implante mais estações de tratamento nessas áreas. Uma série de novos encontros deve ocorrer em abril próximo.
Estações de tratamento
O ambientalista Sérgio Ricardo afirmou que desde 2012, o Inea não exigiu a implantação de estações de tratamento de chorume de todos os aterros sanitários e lixões que foram desativados. “O Inea licenciou novos aterros sanitários da região metropolitana e não exigiu a estação de tratamento de chorume. Então, está todo mundo produzindo chorume e lançando no meio ambiente. Vai tudo para a Baía”, afirmou o coordenador do Baía Viva.
Outro problema, segundo ele, é que a quantidade estimada de chorume estocado em lagoas de estabilização ou tanques de acumulação nos aterros sanitários e lixões licenciados ou controlados, alcança 500 mil metros cúbicos, ou o equivalente a 500 milhões de litros de chorume altamente poluente. “A cada momento que chove, isso transborda, invade os manguezais e o pescador se lasca”, comentou Ricardo.
O Inea informou que fiscaliza os aterros sanitários licenciados pelo órgão, que estão instalados no entorno da Baía de Guanabara, e não constatou vazamento de chorume recente. O Inea afirmou que “realiza rotineiramente operações para reprimir e interditar lixões clandestinos situados às margens da Baía de Guanabara. As ações de fiscalização são deflagradas a partir de um trabalho de inteligência, que o Inea vem realizando na região, e também por meio de denúncias. A população pode denunciar por meio da Ouvidoria do Inea pelo telefone 2332-4604”, disse o instituto, em nota.
Nota de esclarecimento,
Sobre a reportagem publicada pela Agência Brasil “Um bilhão de litros de chorume são despejados na Baía de Guanabara”, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) esclarece que:
• Não há base técnica alguma para tais afirmações. Aterros sanitários possuem licenciamento ambiental e são estruturas executadas e operadas dentro de normas de engenharia e pelas legislações vigentes. Quando ocorre um vazamento em local licenciado, o mesmo é imediatamente identificado e iniciados os processos administrativos e operacionais necessários para garantir a segurança ambiental.
• Atualmente, os aterros sanitários possuem cerca de 310 mil metros cúbicos, ou seja, 310 milhões de litros de chorume acumulados nas lagoas para TRATAMENTO.
• O Inea fiscaliza os aterros sanitários licenciados por esse instituto, que estão instalados no entorno da Baía de Guanabara, e não constatou vazamento de chorume recente.
• O órgão ambiental estadual realiza rotineiramente operações para reprimir e interditar lixões clandestinos situados às margens da Baía de Guanabara. As ações de fiscalização são deflagradas a partir de um trabalho de inteligência, que o Inea vem realizando na região, e também por meio de denúncias. A população pode denunciar por meio da Ouvidoria do Inea pelo telefone 2332-4604.
• Em Jardim Gramacho, o Inea já multou a empresa Gás Verde por vazamento de chorume. A licença ambiental da mesma encontra-se suspensa até que ela cumpra todas as condicionantes impostas no Termo de Ajustamento de Conduta, (TAC), celebrado entre a empresa e o Inea. Pelo TAC, a empresa se comprometeu a investir R$ 9 milhões, em ações divididas em emergenciais, estudos ambientais de investigação da qualidade do solo e da água subterrânea, estudos geotécnicos e intervenções operacionais, dentre elas, a execução de melhorias na Estação de Tratamento de Chorume. (ecodebate)

segunda-feira, 25 de março de 2019

A água nos quatro cantos do Brasil

Dia 22 de março é comemorado o Dia Mundial da Água. Do leste ao oeste do Brasil, da caatinga à Amazônia. A água é fundamental para o homem, a natureza e a vida. O país detém cerca de 12% de toda água superficial do planeta e talvez seja este fato que torna o Brasil uma potência capaz de integrar conservação da biodiversidade e desenvolvimento sócio econômico.
No Dia Mundial da Água, três especialistas, com trabalhos focados em três biomas distintos, destacam a importância deste recurso nas diferentes realidades brasileiras.
Por Mariana Pupo
A Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro e um dos mais ameaçados do país, é uma região com um índice pluviométrico menor do que outras regiões do país. De todas as regiões semiáridas do mundo é a mais populosa, com cerca de 27 milhões de pessoas, necessitando de água diariamente e somado a isso, os efeitos do aquecimento global tem acentuado cada vez mais a escassez hídrica na região. A Associação Caatinga, ONG focada em promover a conservação e a valorização do bioma, atua desde 1998, no Ceará, e empregamos esse objetivo em variadas ações de projetos. Para Daniel Fernandes, coordenador geral da Associação Caatinga, a proteção das florestas deve ser o princípio básico para conservação dos biomas brasileiros, assegurando a disponibilidade hídrica e diminuição dos efeitos do aquecimento global. “É o caminho que precisamos seguir para termos uma ambiente ecologicamente equilibrado e segurança hídrica para as presentes e futuras gerações”, destacou.
Em seus 20 anos de atuação, a instituição construiu aproximadamente 180 cisternas de placas em 24 comunidades, nove sistemas Bioágua, que consiste no reaproveitamento da água para irrigação destinada à produção de alimentos, em oito comunidades e deverá produzir mais cinco ainda em 2019. Com eles, as famílias poderão aumentar a produção de alimentos e oferta de água, já que aproximadamente 300 litros serão reusados diariamente. Todas estas ações têm forte aderência com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e com a Década de Recuperação dos Ecossistemas (2021/2030) estabelecidos pela ONU. Para Fernandes, são essas iniciativas que permitem a transformação da comunidade com desenvolvimento local sustentável. “É de suma importância a implementação, de forma célere, de ações que busquem mitigar os efeitos do aquecimento global e promovam condições de adaptação à semiaridez, como, por exemplo, tecnologias sociais de saneamento, armazenamento e reuso de água,” ressalta.
A Amazônia, tão conhecida pela sua floresta, tem um outro lado. A bacia do Amazonas drena em torno de 40% do território da América do Sul e no Brasil esse percentual ultrapassa os 60% do território nacional. Se considerado o fluxo de água que circula pela atmosfera em forma de vapor e ainda abastece outras bacias ao Sul, temos por aí uma dimensão do quanto é importante é a conservação da região, não só para o Brasil. Em termos de vazão total do Amazonas, há uma estimativa que gira em torno de 230.000 m3/segundo, é o maior fluxo hidrográfico de água doce do planeta. Atuando desde 2013 na Amazônia, a WCS Brasil promove a Iniciativa Águas Amazônicas (IAA), que tem a proposta de mostrar o “lado b” da floresta. A IAA, até o momento, gerou uma base de informações sobre águas, paisagens aquáticas, biodiversidade e pesca na Amazônia e propôs uma nova classificação da Bacia amazônica levando em consideração não só as calhas de rios, mas também suas planícies de inundação. Atualmente, está buscando construir propostas voltadas ao manejo integrado de bacias hidrográficas e gerando subsídios para ações de manejo e conservação que levem em consideração o aumento da proteção das águas e paisagens aquáticas na Amazônia.
Para Carlos Durigan, diretor executivo da WCS Brasil, a importância da água na Amazônia ultrapassa as fronteiras territoriais. “Além da importância da disponibilidade do recurso em si para as mais de 25 milhões de pessoas que vivem na região, é preciso considerar também a manutenção para os serviços ecossistêmicos associados a esse enorme volume de água em escala regional e global. É a manutenção da maior biodiversidade do planeta!”, reforça.
Na região Sudeste, a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) busca entender a importância da água, considerando sua disponibilidade, qualidade e variabilidade, bem como aspectos relacionados ao uso e gestão deste recurso nas diferentes regiões do país. “É ponto crítico para assegurar o desenvolvimento sustentável no país. Para isso, buscamos integrar diversas ferramentas para entender de que maneira a água contribuirá para o crescimento social, econômico e ambiental do Brasil, mantendo as atividades produtivas nos diferentes biomas, assegurando seu uso sustentável e garantindo a conservação deste recurso chave para o país”, afirma Walfredo Schindler, Diretor superintendente da FBDS. (ecodebate)

Extração de água subterrânea prejudica as florestas de várzea europeia

Extração de água subterrânea está prejudicando cada vez mais as florestas de várzea na Europa.
Florestas de várzea na Europa sob ameaça – Pesquisadores da Universidade de Friburgo alertam sobre os efeitos da seca no verão e da competição por águas subterrâneas.
Uma floresta de várzea dominada por carvalhos.
Uma equipe do Instituto de Ciências Florestais da Universidade de Freiburg mostra que a extração de água subterrânea para a indústria e para as residências está prejudicando cada vez mais as florestas de várzea na Europa, devido à crescente intensidade e duração dos períodos de seca no verão. Os cientistas publicaram seus resultados na revista Frontiers in Forests and Global Change.
Florestas de várzea dominadas por carvalhos estão entre as mais ameaçadas na Europa. Através da conversão para terras aráveis e pastagens, bem como assentamentos, eles perderam a maior parte de sua distribuição original. A regulação do rio e a drenagem também mudaram o equilíbrio hidrológico natural. A introdução de pragas e doenças dizima as espécies de árvores nativas, como o olmo e a cinza. Ao mesmo tempo, essas florestas desempenham um papel importante no controle de inundações e proteção da biodiversidade.
A raiz do estudo da equipe de Freiburg foi a observação de que a vitalidade de árvores antigas nas florestas de carvalhos do vale do Reno diminuíra significativamente, e sua mortalidade parecia ter aumentado acentuadamente.
Ecologista florestal Prof. Dr. Jürgen Bauhus, do grupo de trabalho, em seguida, investigou se essas tendências também poderia ser discernida a partir dos padrões de crescimento das árvores e se eles estavam ligados com a extração generalizada das águas subterrâneas para a indústria e as famílias. O bombeamento de água pode reduzir o nível do lençol freático a ponto de que nem mesmo os carvalhos de raízes profundas possam alcançá-lo.
Extração de água subterrânea.
Assim, os cientistas florestais estudaram os anéis anuais de crescimento de árvores jovens e velhas em locais com e sem notável extração de água subterrânea, em três florestas de carvalho inglês no vale do Reno, entre o Freiburg Mooswald e o Hessisches Ried perto de Lampertheim.
A análise das conexões estatísticas entre a largura dos anéis de crescimento e os dados climáticos mostra que o crescimento anual dos carvalhos é afetado negativamente pela seca no verão. Em locais com a diminuição das águas subterrâneas, a sensibilidade do crescimento do carvalho às secas do verão aumentou acentuadamente desde o início da extração de água subterrânea, que começou há 49 anos ou antes nos diferentes locais de estudo.
Em contraste, a sensibilidade do crescimento anual do anel permaneceu relativamente estável ao longo do tempo em carvalhos em locais sem extração de água subterrânea. Georgios Skiadaresis, estudante de doutorado e principal autor do estudo, diz: “Os carvalhos com contato com a água subterrânea podem se recuperar melhor em fases de condições climáticas favoráveis, como pode ser observado pelo maior crescimento anual do anel. Mas é muito menos o caso dos carvalhos sem contato com as águas subterrâneas. A hipótese dos pesquisadores de que os carvalhos são menos afetados pela diminuição das águas subterrâneas, porque seu sistema radicular pode ser mais adaptável do que o dos velhos carvalhos, não foi confirmada”.
Poço de captação abandonado por falta de água.
Os resultados do estudo mostram claramente que a extração de água subterrânea abaixo das florestas de várzea vai piorar os efeitos negativos das mudanças climáticas. Os autores indicam que estratégias adaptativas em outros setores, como a irrigação pela agricultura, não devem ocorrer às custas da saúde dessas florestas. Eles recomendam reduzir, em vez de aumentar a extração de água subterrânea das florestas de várzea, para manter a vitalidade das árvores nesses ecossistemas em longo prazo. (ecodebate)

sábado, 23 de março de 2019

Água: ninguém fica para trás

Um recurso tão presente na vida cotidiana que, muitas vezes, só notamos sua importância quando falta: é assim que muitos de nós tratamos a água potável.
O tema selecionado pela ONU para reflexão no 22 de março, Dia Internacional da Água – Water for all: living no one behind (‘Água para todos: não deixando ninguém para trás’, em tradução livre) – nos lembra algo interessante: o ato quase mágico da água surgindo de uma torneira, ao qual estamos acostumados, não é uma realidade para considerável parte da população mundial.
Se a falta de água potável parece um fato muito distante, basta relembrar o ocorrido em diversas regiões do estado de São Paulo num passado recente, em 2014 e 2015, quando um período prolongado de estiagem levou o abastecimento de muitas cidades a níveis críticos de escassez. Nessa época, para muitos de nós, o simples ato de lavar roupas ou tomar um banho tornou-se um desafio diário.
Situação muito comum em outras áreas do país. Dados do Plano Nacional do Saneamento de 2013 mostram que no Brasil, em 2010, apenas 60% da população contava com abastecimento adequado. Do restante, 64 milhões (33,9%) de brasileiros contavam com abastecimento precário e cerca de 13 milhões (6,8%) de pessoas, sequer com isso.
O caso mais emblemático em território nacional é o do semiárido, que enfrenta períodos de estiagem frequentes e problemas referentes à qualidade das águas nas fontes, muitas delas inadequadas ao consumo humano. Mas há outras regiões em que o acesso à água potável também não é fácil: muitas das comunidades ribeirinhas da região amazônica, povoados construídos praticamente sobre os grandes rios e igarapés, não tem acesso a ela. Nesse caso, o fator limitante não é a falta do recurso, mas a qualidade da água disponível, muitas vezes imprópria para consumo devido a contaminantes.
E não é só em regiões distantes que isso acontece. Nas zonas rurais de muitos municípios ou até em alguns nichos específicas dentro de áreas urbanas, inclusive na região Sudeste, por uma série de motivos diferentes, muitas vezes o acesso à água é precário, limitado ou inexistente.
Uma vez que não existe solução que possa ser aplicada de modo amplo e indiscriminado, é preciso analisar cada situação. Soluções simples, implementadas com os cuidados técnicos necessários, muitas vezes podem ser as mais adequadas. O aproveitamento de águas de chuva, como forma de permitir o abastecimento mais seguro em locais onde o acesso à água potável é problemático, é um exemplo. Intensamente adotado na região semiárida brasileira, também foi uma das soluções complementares de abastecimento mais utilizadas durante o período de escassez hídrica pela qual a região Sudeste passou entre 2013 e 2015.
Por outro lado, soluções mais complexas exigem o manejo integrado de águas urbanas, abordando todo o seu ciclo e estabelecendo alternativas para que as águas sejam utilizadas de forma eficiente. Desenvolvimento, avaliação e uso de equipamentos sanitários economizadores, estruturação de programas de uso eficiente de água e acompanhamento de consumo, uso de fontes alternativas como forma de abastecimento complementar e até mesmo o manejo das águas de drenagem urbana, além do correto tratamento dos esgotos gerados para evitar a contaminação de mananciais, podem fazer parte de programas mais complexos para locais onde existe o abastecimento de água potável, mas a disponibilidade hídrica torna-se crítica para guarnecer a população existente. É o caso de um bom número de regiões metropolitanas brasileiras.
Água para todos: não deixando ninguém para trás.
Não deixar ninguém para trás significa garantir a disponibilidade e o manejo sustentável da água para todos, como estabelece o Objetivo 6 do Desenvolvimento Sustentável da agenda 2030 da ONU, da qual o Brasil é um dos países signatários. Significa olhar para esses locais e buscar alternativas efetivas para garantir o acesso à água, sempre empregando tecnologias adequadas. (ecodebate)

Água no Brasil ficará mais escassa sem uma gestão eficiente

Sem gestão eficiente da água no Brasil, ela será cada vez mais escassa.
A água é um bem inesgotável?
Apesar de, durante muitos anos, ter sido considerada um recurso natural infinito, há algumas décadas, o mundo compreendeu que o mau uso da água pode, sim, ocasionar a sua escassez. Por essa razão, inclusive, a Organização das Nações Unidas instituiu o dia 22 de março como o Dia Mundial da Água. O intuito foi alertar a população sobre a necessidade de refletir sobre a importância da preservação da água para a sobrevivência dos ecossistemas e sobre as medidas práticas a serem adotadas.
No campo jurídico, aproveitamos esta oportunidade para debater o que houve de progresso nos últimos anos em termos de políticas públicas de gestão da água, em especial após o Brasil sediar, pela primeira vez, o Fórum Mundial da Água no ano passado. Entre os diversos produtos do referido Fórum, merece destaque o compromisso do governo federal de adotar políticas e planos nacionais de gestão integrada de recursos hídricos a fim de garantir o direito constitucional de acesso à água.
No entanto, se fizermos um balanço deste último ano, nota-se que, embora haja uma quantidade significativa de projetos de lei sobre a correta gestão da água, pouco se evoluiu efetivamente em termos práticos – em especial no que se refere ao desenvolvimento de estratégias potenciais como educação, transferência de tecnologia, incentivos econômicos, mercados, dentre outros.

A água no Brasil: da abundância à escassez.
Embora o governo anterior tenha iniciado o processo de revisão e atualização do Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) e de seu marco legal por meio da Medida Provisória n. 868/2018, os projetos de lei que preveem incentivos econômicos e subsídios para adoção de tecnologias mais sustentáveis no que tange à gestão da água não saíram do papel. Projetos de Lei como o PL n. 495/2017, que regulamenta a criação de um “mercado de água”, e os PLs n. 5733/2009; 182/2015; 377/2015; e outros, que regulamentam incentivos à adoção de práticas mais sustentáveis, não evoluíram no Legislativo.

Ora, não dá para discutir uma gestão eficiente da água se não pensarmos na aplicação de políticas públicas integradas, articuladas e intersetoriais. Vide, por exemplo, o Projeto Oásis, desenvolvido há 12 anos pela Fundação Grupo Boticário. Trata-se de um instrumento de política pública econômica, o Pagamento por Serviços Ambientais, que promove a valorização dos ambientes naturais por meio de mecanismos de incentivo financeiro a proprietários que se comprometam com a conservação das áreas naturais e a adoção de práticas conservacionistas de uso do solo.
Outro exemplo é o adotado em Tóquio, que não apenas investiu em tecnologias limpas, como inseriu a temática de educação ambiental nas escolas do município desde a década de 1970, criando, inclusive, programas de capacitação técnica. Nota-se, portanto, que, apesar das discussões terem avançado, a gestão eficiente da água ainda depende de políticas públicas regionais e setoriais de amplo descortino político e que não apenas punam, mas que também incentivem a adoção de técnicas de preservação ambiental.

Especialistas apontam que uma das principais causas para a crise hídrica é o uso inadequado do solo.
Sem incentivos econômicos e educação ambiental, não há como se discutir melhorias na gestão eficiente da água no Brasil. (ecodebate)

sexta-feira, 22 de março de 2019

A Água é um negócio ou um direito?

Temos muitas razões para lembrar da importância do Dia Mundial da Água, instituído pela ONU em 22 de março de 1992. Algumas delas, como a quantidade de água potável no planeta ou a porcentagem de água do corpo do ser humano, são dados que acabamos aprendendo na escola, porém, muitas vezes esquecemos ou não ligamos. Mas quando falta água ou quando é demasiado o montante, vide as enchentes desta época no sudeste do país, vira tema de jornais, noticiários e redes sociais. E o mais interessante é que, rapidamente, todos viram especialistas sobre o tema e defendem ou atacam.
Um dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, estabelecido em 2015, como um “sonho” comum dos seres humanos deste planeta, é o ODS número 6, que é sobre “Água Potável e Saneamento”. Neste ODS 6 (https://nacoesunidas.org/pos2015/ods6) o objetivo é assegurar a disponibilidade e a gestão sustentável da água e saneamento para todos. E quebra em mais metas, como até 2030 alcançar o acesso universal e equitativo a água potável e segura para todos.  E tem uma meta muito instigante, que é apoiar e fortalecer a participação das comunidades locais para melhorar a gestão da água e saneamento. São seis metas neste objetivo e dois subtópicos.
Porém, com toda esta clareza, muitos especialistas na área hídrica batalhando para mostrar a importância deste bem essencial aos seres humanos, congressos, discussões, por que ainda, segundo a página da ONU (https://nacoesunidas.org/acao/agua/), milhões de toneladas de esgoto tratado inadequadamente e resíduos agrícolas e industriais são despejados nas águas de todo o mundo?
Grandes empresas acabam não gerenciando os seus riscos ambientais e poluindo rios e mares com os seus produtos ou subprodutos do seu processo produtivo como vemos no Brasil e no mundo. Dois terços da população mundial em 2017 vivem em áreas que passam pela escassez de água pelo menos um mês por ano.  Relatórios sobre estes dados são feitos anualmente como o Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos (World Water Development Report – WWDR) (http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/natural-sciences/environment/wwdr/). Então, o problema não é a falta de pesquisas, dados ou alertas de especialistas e estudiosos.
desde janeiro de 1997, conhecida como Lei das Águas que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH). Ela coloca que a água é considerada um bem de domínio público e um recurso natural limitado, dotado de valor econômico. Esta gestão da água deve proporcionar os seus vários usos de forma descentralizada e participativa. E tem que contar com a participação do Poder Público, dos usuários e da comunidade. E se tiver uma situação de escassez o uso prioritário é para o consumo humano e para a dessedentação de animais.  E o segundo artigo da Lei é mais bacana: “Assegurar a disponibilidade de água de qualidade às gerações presentes e futuras, promover uma utilização racional e integrada dos recursos hídricos e a prevenção e defesa contra eventos hidrológicos (chuvas, secas e enchentes), sejam eles naturais, sejam decorrentes do mau uso dos recursos naturais”.
Pois é, estamos assegurados, mas para que isso aconteça temos que estar cientes e cobrar dos governantes, ou seja, educar as pessoas para este conhecimento. Um conhecimento essencial para a nossa sobrevivência, lembrando mais uma vez que a água é uma das bases da nossa vida.
As empresas sabem disso muito bem, principalmente, para que seus negócios continuem, tenham perenidade e se sustentem. As empresas de bebidas alcoólicas e não alcoólicas, por exemplo, dependem da água como o seu insumo principal. A agricultura e a pecuária dependem deste recurso para trabalhar e produzir. A mineração, as montadoras, os megacomputadores dos bancos e muitas outras empresas dependem da energia que vem da água das hidrelétricas, nossa maior matriz. Ou seja, a água é essencial na nossa cadeia produtiva e no PIB do país. Tenho um grande amigo professor que sempre dizia que, na verdade, não exportamos grãos, cana, carne, minério de ferro ou qualquer outro insumo para os outros países. Na verdade, exportamos água em forma de carne, grãos, minério de ferro, etc. Os nossos principais negócios dependem diretamente ou indiretamente da água.
A água é um dos pilares da economia brasileira e só continuaremos tendo esta abundância se cuidarmos das nossas fontes, não poluirmos e tudo o que geralmente se aprende na escola (de novo). Mas precisamos sair do conceito e das leis escritas e passarmos para a ação, cobrança e fiscalização. E isso é trabalho do governo, da sociedade e das empresas. Se não fizermos isso urgente não conseguiremos “assegurar a disponibilidade de água de qualidade às gerações presentes e futuras”. (ecodebate)

Crescimento populacional e mudanças climáticas aumenta estresse hídrico

Crescimento populacional e mudanças climáticas vão aumentar o estresse hídrico.
70% do corpo humano é feito de água e 70% da superfície da Terra é coberta pela água” - The Economist (28/02/2019).
A Terra possui muita água (pelo menos quando comparado com outros planetas). Mas os oceanos salgados respondem por 97,5% de todos os recursos hídricos. Outros 1,75% estão congelados, nos polos, nas geleiras, nos glaciares e no permafrost. Assim, a humanidade e as demais espécies vivas da Terra contam com apenas um montante de 0,75% de água potável para o consumo global.
A água potável era suficiente para manter a vida florescendo e prosperando no Planeta, durante milhões de anos. Mas o crescimento da população humana (de cerca de 1 bilhão de habitantes em 1800 para 8 bilhões de habitantes em 2023), aliado ao crescimento da economia e do padrão de consumo transformaram a água potável em uma commodity e em uma mercadoria comercializada ao sabor do mercado, ignorando o direito à água por parte de todos os seres vivos e o direito da própria água. Os problemas, que já são graves hoje em dia, serão agravados em decorrência das mudanças climáticas.
O relatório, “Climate change and population growth are making the world’s water woes more urgent”, da revista britânica, The Economist (28/01/2019), mostra que o mundo já está passando por uma situação de estresse hídrico desesperadora. Um quarto da humanidade – 1,9 bilhão de pessoas, sendo 73% delas na Ásia – vivem em áreas onde a água é potencialmente escassa. O número de pessoas que enfrenta escassez quase duplica se contar aqueles em risco pelo menos um mês por ano. Enquanto isso, o uso global da água é seis vezes maior do que há um século – e estima-se que aumente de 20 a 50% até 2050.
O mundo atual já oferece amplos exemplos de devastação ambiental que servem como um aviso de que o uso da água tem seus limites naturais. Por exemplo, barcos estão encalhados no meio do nada, em meio às águas desaparecidas do que já foi o quarto maior lago salino do mundo, o Mar de Aral, entre o Uzbequistão e o Cazaquistão. No ano passado, a Cidade do Cabo, na África do Sul, evitou apenas por pouco o prêmio indesejado de ser a primeira das grandes cidades do mundo a ficar sem água. Quando a chuva finalmente quebrou o ciclo de uma seca de três anos, os níveis de água nos reservatórios que abasteciam a cidade haviam caído para menos de 20%, e autoridades estavam discutindo a possibilidade de rebocar um iceberg da Antártida para fornecer água para beber. Quatro anos antes, São Paulo também ficou à beira do abismo, com reservatórios reduzidos a 5% da capacidade.
O volume de água utilizado globalmente – cerca de 4.600 quilômetros cúbicos por ano – já está próximo do máximo que pode ser sustentado sem o encolhimento perigoso dos suprimentos. Um terço dos maiores sistemas de águas subterrâneas do mundo correm o risco de secar. Portanto, estima-se que o número de pessoas que vão viver sob forte estresse hídrico suba para 3,2 bilhões até 2050, ou 5,7 bilhões considerando a variação sazonal. E eles não estarão apenas em países pobres, conforme mostra o mapa acima. A Austrália, a Itália, a Espanha e até mesmo boa parte dos EUA sofrerão severa escassez de água. China e Índia – os dois países mais populosos do mundo vão sofrer com a falta d’água e, também, com o derretimento dos glaciares do Himalaia.
Outro exemplo: o Nilo, o maior rio da África, não consegue mais atender a demanda populacional e econômica do continente. A bacia hidrográfica do rio Nilo, abrange uma área de 3.349.000 km² e não dá conta de abastecer as populações dos 10 países que, em maior ou menor proporção, dependem de suas águas. A população conjunta de Uganda, Tanzânia, Ruanda, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi, Sudão, Sudão do Sul, Etiópia e Egito era de 84,7 milhões de habitantes em 1950, passou para 411,4 milhões em 2010, devendo chegar a 877,2 milhões em 2050 e 1,3 bilhão de habitantes em 2100, segundo dados da divisão de população das Nações Unidas. Os problemas de fome, perda de biodiversidade e pobreza humana e ambiental são, cada vez mais, graves na região. A capacidade de carga da bacia hidrográfica do rio Nilo já não suporta o consumo da população atual e suas necessidades econômicas. Já existem diversos conflitos pela disputa da água entre os povos e os países e até uma ameaça de guerra entre o Egito e a Etiópia por conta da construção da barragem do Renascimento Etíope, no Nilo azul.
Extração e uso de recursos naturais aumenta mais do que crescimento populacional, alerta relatório da ONU.
No dia 22 de março é comemorado o Dia Mundial da Água. Esta data foi criada com o objetivo de alertar a população mundial sobre a importância da preservação da água para a sobrevivência de todos os ecossistemas do planeta. O Dia Mundial da Água foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), através de resolução em 21 de fevereiro de 1993, determinando que o dia 22 de março seria a data oficial para comemorar e realizar atividades de reflexão sobre o significado da água para a vida na Terra.
Neste mesmo dia, a ONU lançou a Declaração Universal dos Direitos da Água, que apresenta entre as principais normas:
A água faz parte do patrimônio do planeta;
A água é a seiva do nosso planeta;
Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados;
O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos;
A água não é somente herança de nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores;
A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo;
A água não deve ser desperdiçada nem poluída, nem envenenada;
A utilização da água implica respeito à lei;
A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social;
O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.
Na ilustração abaixo, a esfera à esquerda representa a Terra com toda a água removida. A esfera azul à direita mostra o volume aproximado de toda a água da Terra. O minúsculo ponto azul na extrema direita representa a água doce disponível no mundo. Ainda segundo o Serviço Geológicos dos EUA, outra maneira de visualizar é representando o tamanho da Terra com uma bola de basquete, toda a água do planeta como uma bola de pingue-pongue e toda a água doce disponível seria menor do que um milho de pipoca.
Como se diz: “As guerras do passado foram por terra, as guerras do presente são por petróleo e as guerras do futuro serão por água”. Mas com ou sem guerras, o fato é que os recursos hídricos estão ficando cada vez mais escassos para a humanidade e ainda mais escassos para a biodiversidade. Principalmente, falta políticas adequadas de gestão dos aquíferos e das bacias hidrográficas. Falta também questionar o crescimento econômico pelo crescimento que aumenta a demanda mundial pela água e agrava os problemas de poluição. O que o mundo precisa é mudar o modelo de desenvolvimento marrom e dar início a uma Revolução Azul, para preservar as águas e a vida na água, reduzindo a acidez e ampliando a biodiversidade aquática. O mundo precisa oxigenar a vida política e oxigenar biologicamente a Terra, o Planeta Azul. (ecodebate)