sábado, 31 de outubro de 2015

Lixo eletrônico com os dias contados

Estado elabora documento sobre descarte de PCs e outros equipamentos eletrônicos.
Quando você está disposto a trocar de computador, certamente o primeiro pensamento é na alegria que o novo bem vai lhe trazer. Algumas pessoas, dependendo do valor do produto adquirido, também se preocupam com a quantidade de parcelas a pagar. A maioria dos usuários, no entanto, não reflete sobre o destino do antigo PC ou impressora, relegando a último plano a importância do descarte dos resíduos eletrônicos.
O destino final desses componentes e suas consequências para a sociedade foram o tema principal do Seminário Internacional de Resíduos de Equipamentos Eletroeletrônicos, realizado pelo Porto Digital. Ao fim do evento, 40 representantes de diversas instituições, como governo, faculdades e empresas privadas, se reuniram para elaborar um termo de referência sobre boas práticas de gestão de resíduos sólidos eletrônicos.
Apesar do nome extenso, o documento tem um objetivo bastante simples: dar mais visibilidade à discussão sobre o que fazer com os aparelhos eletrônicos que vão para o lixo. O termo de referência deve ficar pronto após o carnaval. Ele será um conjunto de propostas que entregaremos ao Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) para que incluam em suas diretrizes sobre o tema`, informa a consultora do Porto Digital e responsável pelo seminário, Joana Sampaio.
De acordo com ela, os projetos de reciclagem de resíduos eletrônicos são incipientes do ponto de vista legislativo e prático. ´No Recife, temos oficialmente apenas dois pontos de coleta, que são o Centro de Recondicionamento de Computadores (CRC) e o Centro de Democratização da Informática (CDI). Em 2010, começou a ser estruturada a Política Nacional de Resíduos Sólidos, mas falta um direcionamento mais específico para o lixo eletrônico, defende a consultora.
No âmbito estadual, a lei 13.908 prevê que empresas produtoras e distribuidoras de equipamentos de informática são responsáveis por recolher, reciclar ou destruir seus resíduos eletrônicos. Em São Paulo, um decreto legislativo também obriga os fabricantes, comerciantes e importadores a recolherem o lixo eletrônico e darem o destino adequado.
Para Joana Sampaio, é preciso desvincular o lixo eletrônico dos resíduos sólidos. Produtos como PCs e celulares possuem componentes específicos, que podem causar danos ao meio ambiente. A ampliação dos pontos de coleta, ainda deficitária, já seria uma iniciativa. A própria Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb), quando recebe algum produto acaba passando para o CRC`, informa, explicitando a falta de opção para quem deseja se desfazer da antiga máquina. (portodigital)

O negócio bilionário do lixo eletrônico

Em 2014, o mercado brasileiro de equipamentos eletrônicos movimentou R$ 2,5 bilhões. A cada minuto, foram vendidos no País 104 smartphones, 19 computadores e 18 tablets. Daqui a algum tempo – não muito – esses aparelhos serão substituídos por outros. Estes, por uma nova geração de produtos, que também serão trocados pouco depois. Do ponto de vista econômico, o ciclo é fundamental, porque gera negócios e, portanto, lucro. Mas ele traz um problema: o lixo eletrônico, conhecido como e-lixo. Um relatório divulgado recentemente pela Organização das Nações Unidas prevê que o mundo terá 50 milhões de toneladas de resíduos em 2017. Os dados ainda mostram que, todos os anos, até 90% desse material, com valor estimado em US$ 19 bilhões, são comercializados ilegalmente ou jogados no lixo comum.
De acordo com cálculos da ONU, o mercado global de resíduos eletrônicos, desde a coleta até a reciclagem, movimenta em torno de US$ 400 bilhões por ano. “É um setor super-rentável”, diz Ana Maria Luz, presidente do Instituto GEA, ONG especializada em educação ambiental. “Falta apenas implementar políticas públicas e privadas para estimular esse mercado.” A ONU reconhece que o assunto está começando a figurar na agenda política internacional, embora ainda seja subestimado. O e-lixo produzido no mundo varia de acordo com a riqueza e a consciência ambiental de cada país. Vão desde os 63 quilos gerados por uma pessoa do Catar (que detém a renda per capita mais alta do mundo) passando pelos 30 quilos dos americanos, os 18 de quilos de um espanhol e os sete quilos de um brasileiro. Detalhe: o Brasil recicla apenas 2% de seu e-lixo. “As pessoas não sabem o que fazer com esses resíduos”, afirma a bióloga Aline Mellucci, coordenadora do Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática da USP. Ao lado do técnico André Rangel, ela comanda o departamento da universidade que recicla cerca de 100 toneladas de lixo eletrônico, o que equivale a 90% de equipamentos de informática da própria universidade.
O Brasil foi o primeiro País da América do Sul a criar, em 2010, uma lei para regulamentar o setor. Até agora, porém, ela não entrou em vigor. “Estamos acertando alguns pontos com os empresários e esperamos a assinatura de um acordo até o final do ano”, diz Beatriz Martins Carvalho, coordenadora de desenvolvimento sustentável do Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior. Cálculos do governo estimam que a reciclagem do lixo eletrônico tem potencial para gerar dez mil empregos e injetar R$ 700 milhões na economia brasileira. “O nosso maior problema é que não conhecemos com profundidade esse mercado”, diz Beatriz. “Não temos dados suficientes sobre a indústria de reciclagem, a quantidade de resíduos produzidos e como resolver os problemas de coleta e reciclagem em um País de tamanho continental como o Brasil.”
Criar parcerias com os diferentes agentes da cadeia de reciclagem tem sido uma estratégia de sucesso. O Instituto GEA, em conjunto com universidades como a USP, capacita coletores de resíduos, ensinando-os a separar o lixo eletrônico adequadamente. Em dois anos, a parceria já treinou mais de 300 catadores. Graças a ações desse tipo, algumas cooperativas de lixo aumentaram seus ganhos em até 900%. “A gente aprende que reciclar o lixo eletrônico não é importante apenas para o meio ambiente, mas também para valorizar o nosso trabalho”, afirma uma das participantes do curso da USP, Marli Monteiro Andrade, presidente da Cooperativa de Catadores de Cotia, na região metropolitana de São Paulo. “No ano passado, trabalhamos 140 toneladas de resíduos, sendo que 15% eram lixo eletrônico, o que proporcionou uma renda mensal de R$ 2,2 mil para cada um dos 32 cooperados”, comemora Marli. “Só não crescemos mais por falta de produtos e espaço.” (sesconfloripa)

Lixo tecnológico e o destino final

Cedir, da USP: o centro pode evitar o despejo de 1 000 PCs por mês em lixões.
A rota do lixo eletrônico.
Iniciativas de reciclagem e uma nova lei podem reduzir o impacto nocivo do descarte de eletrônicos.
Um celular novo, um televisor cheio de recursos, um notebook mais leve - depois de certo tempo, todos têm necessidade ou vontade de comprar novos produtos para substituir os que ficaram obsoletos. Surge, então, um problema: o que fazer com os eletrônicos antigos? É possível doá-los ou vendê-los. Mas na maioria das vezes o destino é o lixo. Com isso, a montanha de resíduos eletrônicos cresce em alta velocidade. De acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), o volume anual de eletrônicos descartados no planeta aumenta 40 000 toneladas todos os anos.
No Brasil, a luz amarela já se acendeu há algum tempo. O relatório da ONU critica a falta de estratégias do país para lidar com o problema. Depois de 19 longos anos de discussão, a Política Nacional de Resíduos Sólidos foi aprovada em março na Câmara dos Deputados. Pela primeira vez, uma lei distribui a responsabilidade sobre os resíduos entre fabricantes, governo e sociedade.
As empresas serão obrigadas a recolher e dar destino adequado a seus produtos, enquanto o governo e os consumidores não podem fazer descaso do assunto. A lei proíbe a eliminação de resíduos onde possa haver contaminação da água ou do solo. Ainda precisa passar pelo Senado e ser sancionada pela Presidência da República. Mas o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, acredita em sua aprovação.
Chumbo na água
O principal problema do lixo eletrônico no país é que ainda não há a prática de dar a ele um destino específico. Poucos fabricantes têm um esquema para recolher produtos descartados. "O material vai parar em aterros sanitários junto com o lixo comum", diz Tereza Carvalho, diretora do Centro de Computação Eletrônica da Universidade de São Paulo (USP). Como os aparelhos contêm metais pesados, como chumbo, níquel e cádmio, as consequências são terríveis para o ambiente.
Matéria prima ou poluição.
Veja o caminho que o lixo tecnológico percorre entre sua casa e o destino final, com ou sem a reciclagem.
Um exemplo está nos monitores e televisores de tubo. Com a popularização das telas de cristal líquido, eles são descartados aos milhares. Cada um contém, em média, 1,4 quilos de chumbo. Uma camada do metal fica logo atrás da tela, para proteger o ser humano dos raios catódicos emitidos pelo tubo de imagem. Se ingerido, o chumbo causa danos ao sistema nervoso e reprodutivo. Uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente limita a quantidade de metais perigosos nos novos monitores, mas não pune o lançamento do lixo tóxico no solo. Em março, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo multou a prefeitura de Bauru por irregularidades em seu aterro sanitário. A falha pode estar ligada à suspeita de contaminação por chumbo do Aquífero Bauru, que abastece mais de 200 cidades em São Paulo e Minas Gerais. Um relatório da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural da cidade apontou um nível de chumbo acima do permitido para os 14 poços monitorados.
Reciclar é preciso
Algumas ONGs, fabricantes e operadoras de telefonia tomaram iniciativas para dar um fim apropriado ao lixo eletrônico. Um dos exemplos é o Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática (Cedir) da USP. (abril)

Lixo eletrônico, oportunidades e crescimento para o Brasil

Lixo eletrônico, uma oportunidade de transformação e crescimento para o Brasil
O rápido descarte de equipamentos antigos produz milhões de toneladas de lixo eletrônico.
Os efeitos da inovação na vida das pessoas chamam a atenção. A tecnologia está presente em celulares, computadores, televisores, geladeiras, enfim, em praticamente tudo o que utilizamos em nosso cotidiano. O mundo sem tecnologia seria a ruína.
Segundo a consultoria IDC (International Data Corporation), de janeiro a dezembro de 2014, os brasileiros compraram cerca de 54,5 milhões em smartphones, 10,3 milhões de computadores e 9,5 milhões de tablets. Dada a crise de 2015, o mercado estima apenas a manutenção desses números. Junte a esse montante os eletrodomésticos, televisores, aparelhos de DVD, geladeiras, micro-ondas e outros consumíveis.
Por um lado, a demanda por aparelhos é importante do ponto de vista econômico, pois auxilia no fortalecimento da cadeia de negócios. Por outro, o rápido descarte de equipamentos antigos produz milhões de toneladas de lixo eletrônico.
É preciso mudar a cultura na busca de um consumo consciente e sustentável e avaliar a necessidade da troca do aparelho tecnológico
No Brasil, estima-se que menos de 5% dos resíduos eletrônicos são devidamente descartados. O restante fica armazenado em depósitos ou são abandonados no meio ambiente.
Em 1965, Gordon Earl Moore, um dos fundadores da Intel, definiu um conceito chamado de “Lei de Moore”, tendo em sua essência a ideia de que o poder computacional deveria dobrar a cada 18 meses. Para a informática, essa “lei” ainda tem se mostrado válida. De certo modo, isso também influencia o restante da indústria e se tornou um acelerador do descarte precoce de equipamentos.
Somos hoje um dos maiores produtores de lixo eletrônico, com mais de 1,4 milhões de toneladas produzidas anualmente, o que representa cerca de 7 kg por habitante. De acordo com a ONU, estamos na dianteira daqueles que fazem o descarte na natureza. Os Estados Unidos, Europa e Japão, por sua vez, reciclam 30% de seus resíduos, sendo que um percentual é exportado para outros países, como a China, Índia e Paquistão, com a justificativa de estimular a “inclusão digital” por meio do reuso.
A reciclagem é uma saída inteligente, pois há mais ouro em uma tonelada de computadores, do que em 17 toneladas de minério. No entanto, os aparelhos também contêm metais pesados como o chumbo, cádmio, berílio e mercúrio, que são muito nocivos à saúde e responsáveis por doenças do sistema nervoso, além do câncer. Em países pobres, a montanha de lixo eletrônico é manipulada de forma inadequada, sem proteção ou controle, normalmente por famílias com pouca orientação, incluindo crianças e idosos, tornando-se um problema social importante.
Em 2010, foi sancionada no Brasil a Lei nº 12.305, instituindo a Política Nacional de Resíduos Sólidos, em que se previa que em 2014 o descarte de lixo eletrônico não seria mais permitido em aterros ou lixões, e que os fabricantes seriam responsáveis por dar um destino correto aos materiais que os mesmos produzem. Porém, a regra ainda não funciona de maneira integral e tal atraso no cumprimento da legislação é visível: os comerciantes de lojas de celulares não recolhem o antigo aparelho na venda de um novo; da mesma forma, não é fácil encontrar o contato para requisitar ao fabricante a retirada do descarte de uma geladeira antiga e as secretarias municipais de meio ambiente não possuem programa de coleta seletiva dos resíduos.
Segundo o Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior, o governo estima que a reciclagem do lixo eletrônico possui o potencial de gerar dez mil empregos e injetar R$700 milhões na economia brasileira. O que falta para que isso aconteça, então?
Primeiro: é preciso mudar a cultura na busca de um consumo consciente e sustentável e avaliar a necessidade da troca do aparelho tecnológico. Quando for inevitável, é importante buscar ou exigir um modo adequado de descarte ou reaproveitar o recurso. Segundo: é importante demandar do poder públicas a definição de políticas efetivas e aumentar o apoio das ações de reciclagem especializada, como as cooperativas de reciclagem e indústrias de transformação de materiais. Afinal, que herança queremos deixar para as futuras gerações? Pense. Mude. Faça. (ecodesenvolvimento)

Mundo terá 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2017

ONU prevê que mundo terá 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2017
Até 90% do lixo eletrônico do mundo, com valor estimado em US 19 bilhões, é comercializado ilegalmente ou jogado no lixo a cada ano, de acordo com um relatório divulgado pelo Programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUMA). A indústria eletrônica, uma das maiores e que mais crescem no mundo, gera a cada ano até 41 milhões de toneladas de lixo eletrônico de bens como computadores e celulares smartphones. Segundo previsões, este número pode chegar a 50 milhões de toneladas já em 2017.
Entre 60 e 90% destes resíduos são comercializados ilegalmente ou jogados no lixo, de acordo com o PNUMA. A Organização Internacional de Polícia Criminal (INTERPOL) estima que o preço de uma tonelada de lixo eletrônico gira em torno de US 500. Seguindo esse cálculo, estima-se que o valor do lixo eletrônico não registrado e informalmente manuseado, incluindo os que são comercializados ilegalmente e despejados, encontra-se entre US 12,5 a US 18,8 bilhões por ano. O mercado global de resíduos, desde a coleta até a reciclagem, é estimado em US 410 bilhões por ano, gerando emprego e renda.
O relatório aborda questões relacionadas ao tratamento e descarte apropriado dos resíduos em geral, inclusive seus possíveis danos para a saúde e custos relacionados. Entre os casos citados, inclui as novas orientações sobre pneus usados e reformados no comércio brasileiro, que proibiu a importação de todos os pneus usados e reformados em 2000.
Esta restrição provocou uma ampla discussão entre os países vizinhos e o Brasil foi acusado de violar o acordo de comércio regional. Argumentos ambientais e de saúde pública foram a principal defesa das medidas. Como resultado, o Brasil e o Secretariado de Basiléia estão trabalhando em diretrizes para o manejo ambientalmente saudável dos pneus usados, o que ajudará os países tropicais, em particular, na regulação do comércio de pneus usados. (institutofilantropia)

Lixo eletrônico e o seu descarte

“Se no dia em que o mar enlouquecer/ O dia em que o sol se esconder / O dia em que a chuva não conter / O choro que caí, pra te dizer/ Que acabou o mundo e não sobrou mais nada /Sujou a sua terra / Poluiu a água / E não há uma chance de sobreviver [...]”. Música: Lixo no lixo – Falamansa.
Em2011 o Brasil tornou-se o terceiro maior mercado consumidor de computadores do mundo, com 15,4 milhões de máquinas vendidas (dados da Consultoria IDC Brasil), atrás somente dos Estados Unidos e da China. Essa é só uma das informações que revela o quanto esses aparelhos eletrônicos estão cada vez mais presentes nas nossas vidas e corrobora a ideia de que, nos dias de hoje, nosso bem-estar depende deles. Toda essa tecnologia traz inegáveis benefícios, mas o problema sério do descarte desses aparelhos, denominado lixo eletrônico, ainda é pouco discutido.
O tema é de relevância global. Segundo a Organização das Nações Unidas, no mundo são gerados 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano, e sua produção cresce numa taxa três vezes maior que a do lixo convencional. O problema é maior nos países em desenvolvimento, onde grande parte desses resíduos não tem destinação adequada.
A ONU informa que o Brasil é campeão mundial no quesito geração de lixo eletrônico por habitante: meio quilo por ano. No total, é aproximadamente um milhão de toneladas de resíduos compostos por celulares, televisores, computadores, geladeiras, pilhas e baterias, entre outros que, se descartados de forma incorreta, provocam sérios danos à saúde e ao meio ambiente.
O GREENPEACE alerta que esses aparelhos possuem uma gama de elementos tóxicos, entre os quais se destacam o chumbo, o mercúrio e o cádmio. Quando jogados em lixões a céu aberto, podem atingir o solo e o lençol freático, contaminando a água, os alimentos e os animais que consumimos. Se queimados, poluem o ar, também nos afetando. No corpo humano, têm a característica de se acumular com o tempo, podendo causar uma série de distúrbios, desde danos no cérebro, rins, pulmões e fígado, até envenenamento e câncer.
A solução para o problema do lixo eletrônico, segundo a maioria dos especialistas, é a coleta e posterior reciclagem, em ação envolvendo o poder público, o setor privado e o consumidor.
O setor público deve promover sua parte com a Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS), com base na Lei 12.305/10. Com expectativa de ser cumprida até 2014, essa lei destaca a ideia da logística reversa: um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada. A responsabilidade é compartilhada entre os fabricantes, distribuidores, consumidores e os titulares de serviço público de limpeza urbana para minimizar o volume de resíduos sólidos e rejeitos gerados.
Às empresas privadas cabe implantar uma ampla política de gestão de resíduos e, além disso, criar diversos canais de fácil acesso ao consumidor que desejar informações sobre essa política. Devem ter o compromisso de desenvolver tecnologia que permita a reinserção do material recolhido e reciclado na produção de novos equipamentos, minimizando assim a exploração de matéria-prima virgem.
Cabe lembrar que nenhuma dessas iniciativas daria certo sem a colaboração dos consumidores. Munidos de informações, devem praticar o consumo consciente e procurar aumentar ao máximo a vida útil de seus aparelhos eletrônicos, para só então encaminhá-los ao processo de reciclagem. Também é necessário cobrar os fabricantes de eletrônicos sobre quais políticas de recolhimento e gestão de resíduos adota.
Portanto, pode-se dizer que o descarte inadequado de lixo de eletrônico é um grave problema ambiental e de saúde e que o melhor modo de atenuar seus efeitos é a coleta dos resíduos e sua posterior reciclagem. Para isso, é necessária uma ação conjunta entre o setor público, os fabricantes e, sobretudo, os consumidores. Se cada segmento fizer seu papel, poderemos cada vez mais usufruir dos benefícios da tecnologia, sem agredir nosso planeta e a nós mesmos. (paginasustentavel)

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Gestão dos Resíduos e Educação Ambiental nos Condomínios

A Lei 12.305/2010 – Política Nacional dos Resíduos Sólidos, PNRS – estabeleceu a coleta seletiva, a responsabilidade compartilhada e a logística reversa como instrumentos de gestão dos resíduos do consumo diário, sejam recicláveis (plásticos, metais, papéis, vidros), orgânicos (restos de alimentos, óleo de cozinha, limpeza) ou tecnológicos (lâmpadas, pilhas, eletrodomésticos, eletroeletrônicos, pneus, embalagens). Coleta seletiva é o recolhimento dos resíduos recicláveis previamente segregados para encaminhamento à indústria e o uso das matérias primas na fabricação de outros produtos; responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos são as atribuições dos diferentes agentes econômicos – fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, consumidores e serviços públicos – pela gestão dos resíduos para minimizar seus impactos ao meio ambiente e à saúde pública; logística reversa são as ações e procedimentos para a coleta e restituição dos resíduos e/ou produtos obsoletos aos setores empresariais para reaproveitamento em seu próprio ciclo de vida, outros ciclos produtivos ou destinação final ambientalmente adequada.
Os condomínios comerciais ou residenciais devem estar adequados a estas regras da PNRS e também às diretrizes estabelecidas nos planos municipais integrados de resíduos sólidos dos respectivos municípios, estabelecendo uma gestão interna que esteja condizente com as exigências legais e a realidade específica de cada unidade quanto aos resíduos sólidos gerados. Além destes aspectos legais, outros motivadores como exigências dos condôminos, organização e valorização dos espaços internos e externos, prevenção de passivos ambientais, vantagens competitivas nos aluguéis ou vendas dos imóveis, geração de recursos financeiros com os recicláveis e responsabilidade coletiva e solidária com o presente e o futuro – pensar globalmente e agir localmente, também são considerados importantes para definir os princípios e objetivos necessários. Neste sentido, a gestão é uma forma de atuar sobre os impactos causados ao meio ambiente pelo descarte dos bens e resíduos gerados pelas atividades humanas, a partir de um plano de ação com prioridades definidas e viabilidade técnica e econômica.
É indispensável o planejamento, diagnóstico (quem produz, como produz), caracterização (o que é produzido, quanto é produzido de cada item), estabelecimento de metas, adequações espaciais, equipamentos e ferramentas, formação, treinamento e capacitação de equipes e colaboradores, monitoramentos e atribuições de responsabilidades, divulgação e comunicação das ações e perspectivas, avaliações e revisões metodológicas e técnicas. É fundamental que o condomínio tenha um plano integrado de gerenciamento dos seus resíduos e que este esteja institucionalizado através dos conselhos, assembleias e administradoras. Uma metodologia que pode orientar a gestão dos resíduos são os 3 Rs: reduzir a produção de resíduos, racionalizar o uso dos recursos e o consumo; reutilizar sempre que possível, se evitando o descarte sem critérios; reciclar o que não pode ser reduzido ou reutilizado.
Para que exista a colaboração e a responsabilidade coletiva na gestão dos resíduos, são necessárias ações de educação ambiental que informem, orientem, sensibilizem e mobilizem os diferentes condôminos sobre como devem proceder na segregação dos resíduos, quais procedimentos são adequados e outras informações objetivas. A educação ambiental não pode ser voluntarista, espontânea e sem objetivos claros, mas capacitar individualmente e coletivamente para ações e atitudes pró ativas que sejam convergentes com o planejamento e as metas estabelecidas. “Entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida”.
Lei 9.795/1999, artigo 1º – Política Nacional de Educação Ambiental.
A educação ambiental nos condomínios além dos aspectos de sensibilização e mobilização deve orientar objetivamente os condôminos sobre procedimentos e ações como o acondicionamento adequado e de forma diferenciada dos materiais, disponibilidade adequada dos resíduos reutilizáveis e recicláveis para coleta, informações sobre a responsabilidade compartilhada sobre os ciclos de vida dos produtos, resíduos sujeitos à logística reversa e como proceder, acondicionamento adequado dos resíduos orgânicos para coleta ou compostagem, prevenção de desperdícios e mau uso da água e energia, valorização dos espaços coletivos – jardins, áreas verdes, hortas – procedimentos para evitar desperdício de alimentos e seu uso integral, hábitos e ações pró ativas em relação ao meio ambiente no qual os condomínios estão inseridos. Os conteúdos e metodologias serão adequados aos casos específicos e de acordo com os princípios, objetivos e metas previamente estabelecidas no planejamento da gestão ambiental e dos resíduos condominiais.
Para uma educação ambiental eficiente é indispensável que exista uma boa comunicação e indicações claras dos procedimentos por meios diversos como placas, folders objetivos, adesivos, identificação dos espaços e locais adequados à armazenagem temporária, informativos periódicos dos resultados e ações constantes de estímulo à participação ativa dos condôminos na gestão dos aspectos ambientais destes espaços coletivos de convivência humana no meio ambiente socialmente construído.
Leituras importantes:
Lei 12.305/2010 – Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).
Lei 9.795/1999 – Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA).
Resolução Conama 275/2001 – Estabelece código de cores para diferentes tipos de resíduos na coleta seletiva.
NBR/ABNT 10.004/2004 – Classificação dos resíduos sólidos no Brasil. (ecodebate)

Geração do lixo aumentou 5 vezes mais que a da população

Em 10 anos, geração do lixo aumentou cinco vezes mais que o crescimento da população
Depois da água, gestão do lixo pode ser o novo centro de crise no Brasil.
Em 10 anos, geração do lixo aumentou cinco vezes mais que o crescimento da população. “Cenário é crítico”, afirmam especialistas.
Um café com leite e um pão com manteiga iniciam o dia de milhares de brasileiros. O preço do pãozinho subiu. O do café também. E o banho matinal está mais curto por causa da crise hídrica. Fora isso, a vida segue. Ninguém se pergunta para onde vai o pote de manteiga quando seu conteúdo acabar, tampouco o que fazer com o resto de café no coador ou com a embalagem de leite. E esse será o centro de uma nova crise, caso o poder público e a população não se mobilizem.
O cenário é crítico. Só no Brasil, no ano passado, 30 milhões de toneladas de lixo foram parar nos lixões, que são aterros considerados inadequados e oferecem risco ao meio ambiente e à saúde. Esse número representa 40% do total de lixo gerado no país neste ano. Os dados fazem parte de um levantamento da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Sólidos (Abrelpe). “São cerca de 80.000 toneladas de lixo poluindo solo e água diariamente”, afirma Ednilson Viana, professor da USP e membro do Conselho de Curso de Gestão Ambiental. “As pessoas não têm noção do que isso significa”.
Para Viana, os números apontam para um possível colapso em um futuro não muito distante. “Estamos a caminho de uma situação crítica, como a situação da água. A próxima crise será a do lixo”, diz. E os passos dados pelo poder público nesse âmbito também são lentos. Em 2010, foi instituída a Lei Nacional de Resíduos Sólidos, que, dentre outras coisas, estabelecia que os municípios entregassem, até agosto de 2012, um plano de gestão para o lixo. Também concedia o prazo de agosto de 2014 para que as cidades acabassem com os lixões.
Nenhum dos dois prazos foi cumprido. Por isso, em julho deste ano, o Senado aprovou a prorrogação desse tempo, dividindo as datas para os diferentes tamanhos de cidades. Com a nova norma, as capitais e municípios de regiões metropolitanas têm até 31 de julho de 2018 para acabar com os lixões. As cidades com mais de 100.000 habitantes terão até o final de julho de 2019. Já os municípios entre 50.000 e 100.000 habitantes têm até 31 de julho de 2020, e os com menos de 50.000 habitantes têm até julho de 2021.
E essa é apenas uma das legislações decorrentes sobre o tema. Desde 1979 o Brasil condena o descarte em lixões e desde 1981 a poluição ambiental é considerada crime. Desde 1998 é necessário obter licenciamento ambiental para o descarte de materiais, algo distante da realidade dos lixões.
Para Marcelo Antunes Nolasco, professor em Sustentabilidade e pesquisador da USP, a aprovação da Lei de Resíduos Sólidos significou um marco regulatório importante para o país. Porém, faltou estrutura para que a norma fosse levada a sério. “O poder público federal não realizou um trabalho prévio adequado com as esferas estaduais e municipais e tampouco criou instrumentos econômicos que pudessem fazer caixa para as prefeituras adotarem as medidas adequadas para a disposição final de resíduos sólidos”, diz.
Segundo Nolasco, embora as leis não estejam sendo cumpridas, é difícil aplicar alguma pena por isso. “Dada a complexidade da questão e as dificuldades dos gestores públicos municipais em acessarem recursos, dificilmente poderia se dizer que os prefeitos que não cumpriram a lei sejam criminosos”, diz. “Mas essa é outra questão. O ponto é: o que os gestores públicos estão fazendo hoje, para que em 2019 não tenhamos mais surpresas negativas?”.
Além de legislações mais firmes e que se façam cumprir, é preciso que o poder público desenvolva políticas capazes de engajar a população para solucionar o problema. “Do total de resíduos sólidos no Brasil, 32% poderiam ser reciclados”, afirma Carlos Silva. “Atualmente e efetivamente, porém, são reciclados apenas 4%”. (ecodebate)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Mortes por raios aumentam na Região Norte devido ao aquecimento global

INPE: mortes por raios aumentam na Região Norte por causa do aquecimento global
O número de mortes por raios na Região Norte está aumentando e a tendência é que a incidência do fenômeno continue crescendo na região, por causa do aquecimento global. Os dados foram divulgados em 23/10/15 pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e fazem parte do livro Brasil: Que raio de história, que está sendo lançado na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, em andamento até 25/10 em Brasília.
O estudo, realizado pelo Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat), do INPE, compara dados do primeiro levantamento de mortes por raios, de 2000 a 2009, com dados do segundo, de 2000 a 2014. De 2000 a 2014, 1.789 pessoas morreram atingidas por raios em todo o país. O número médio de mortes por ano caiu de 132 para 111, mas, apesar da redução nacional, as mortes na Região Norte aumentaram e passaram de 18% para 21% dos casos.
O Sudeste continua com o maior número de vítimas, por ter maior população, mas agora com 26% dos casos, contra 29% antes. Nas demais regiões, os dados seguem o padrão nacional de diminuição. Segundo o coordenador do Elat, Osmar Pinto Júnior, a falta de acesso à informação pode ser a causa para o aumento de mortes no Norte, por ser uma região com cidades pequenas e muito distantes dos centros urbanos. Segundo Osmar, na região Norte existe também a tendência de aumento da população, assim como o aumento da incidência do número de raios, porque é a região que mais está esquentando, devido ao aquecimento global (cerca de 7ºC até o fim do século).
Em setembro, o INPE lançou um sistema de previsão de raios que pretende informar onde eles irão cair no dia seguinte. Osmar conta que o sistema deve entrar em operação em janeiro de 2016 e a ideia é firmar parceria com as emissoras de televisão para que, assim como a previsão do tempo, seja divulgado o serviço de previsão de raios.
Apesar de registrar a maior incidência de raios no mundo, por ser o maior país localizado na região tropical, o Brasil é o sétimo em número de mortes, atrás da China (média de 700 mortes por ano), Índia (450), Nigéria (400), México (220), África do Sul (150) e Malásia (150). Osmar explica que o padrão de ventos e a alta temperatura da região influem diretamente na formação de tempestades.
O coordenador do Elat alerta ainda que, apesar da tendência de aumento de raios no Norte, de forma pontual neste verão, por causa do fenômeno El Niño, a Região Sul será muito atingida. “No inverno, já tivemos 500% mais raios se comparado a 2014. No Sudeste o aumento foi 100%”, diz Osmar.
Circunstâncias das mortes
Apesar do número de mortes em atividades agropecuárias ser maior, com 25% dos casos, uma das preocupações do INPE é com o aumento, de 12% para 19%, do número de pessoas que morrem por raios dentro de casa. Segundo Osmar é um número muito alto. Ele cita os Estados Unidos que tem uma média de 30 mortes por ano por raio e 1% delas é dentro de casa.
“É verdade que dentro de casa a pessoa está mais protegida que ao ar livre, mas não completamente, pois o problema vem pelas redes elétrica e telefônica. Precisamos melhorar a segurança dessas redes com apoio do governo e das empresas”, diz o coordenador do Elat.
Osmar orienta as pessoas a evitar banhos no chuveiro elétrico, falar ao telefone com fio e ficar próximo a eletrodomésticos e grandes objetos metálicos, durante tempestades. Falar ao celular não é perigoso, desde que ele não esteja conectado ao carregador.
Além das citadas, as principais circunstâncias de mortes por raios são no transporte, embaixo de árvores, em campo de futebol e na praia.
Perfil das vítimas O INPE destaca ainda que a idade das vítimas tem diminuído consideravelmente. O índice daqueles com menos de 24 anos mortos por raios passou de 40% para 68%. Segundo Osmar, as orientações sobre como se proteger de raios chegam mais fácil à população adulta do que aos jovens e crianças.
“Ou o jovem não recebe ou negligencia a informação, o que sugere que devemos fazer ações votadas para esse público. Uma sugestão é que os livros didáticos tragam informações para que as crianças percebam o perigo dos raios e ao longo das próximas gerações tenhamos crianças mais protegidas”, afirma Osmar.
Além dos dados de mortes por raios, o livro traz a evolução do significado desse fenômeno natural, que antes era visto como uma manifestação mais mística e hoje está mais ligado à ciência e em como os raios podem ajudar a prever o futuro do clima. (ecodebate)

Aquecimento dos oceanos explica maiores prejuízos por furacões

Aquecimento dos oceanos explica maiores prejuízos por furacões, sugere novo estudo
Cientistas refazem contabilidade sobre perdas causadas por tempestades tropicais nos EUA e descobrem que mudança do clima pode ser responsável por até 12% dos danos.
O supertufão Koppu, que atingiu as Filipinas.
Pesquisadores do México, da Holanda e do Reino Unido dizem ter resolvido uma questão que há duas décadas perturba os cientistas do clima: se os furacões estão mais intensos com o aquecimento global, por que diabos eles não têm causado mais prejuízos nas últimas décadas do que causavam no começo do século passado? A resposta do grupo é: eles têm, sim. Só que nós estávamos calculando errado as perdas.
Um trio de cientistas liderado por Francisco Estrada, da Universidade Nacional Autônoma do México, refez as contas dos danos causados por furacões nos Estados Unidos de 1900 a 2005, usando uma nova metodologia estatística. Eles descobriram que de 2% a 12% dos prejuízos (um valor que pode chegar a US$ 14 bilhões por ano) são consistentes com o aumento da intensidade das tormentas no período analisado. Este, por sua vez, também é consistente com o aumento das temperaturas oceânicas ao longo das últimas décadas, causado pelo aquecimento anormal da Terra.
A ligação entre furacões mais fortes e maiores danos ao patrimônio e às populações costeiras é um dos debates mais acalorados das ciências do clima, e tira o sono das seguradoras há anos. O senso comum indica que os prejuízos deveriam ser crescentes à medida que a terra esquenta. Mas não era isso que vinha sendo verificado pelos cientistas.
Embora os prejuízos totais por furacões sejam de fato crescentes nos EUA – e nas outras regiões expostas a tempestades tropicais, como atestam hoje mesmo as Filipinas, vitimadas pelo supertufão Koppu –, até agora se achava que a causa desses prejuízos maiores fosse meramente social: a cada ano, colocamos mais gente e patrimônio em locais de risco à medida que a população cresce. Por essa lógica, os furacões estariam mais destrutivos simplesmente porque há mais o que destruir em seu caminho.
ISSO NÃO É NORMAL
Na década de 1990, um grupo liderado por Roger Pielke Jr., da Universidade do Colorado, nos EUA, resolveu fazer a chamada “normalização” dos dados de furacões no país. Dividindo o aumento do prejuízo pelo aumento da riqueza, o resultado era zero: simplesmente não havia sinal de aumento da destruição. O trabalho foi amplamente citado e acabou se tornando um pressuposto de estudos posteriores.
“Achamos que isso estava esquisito e resolvemos nos debruçar sobre a metodologia”, disse Estrada ao OC.
O grupo abordou a mesma série de dados usada por Pielke Jr. em seus estudos de “normalização” mais recentes, mas mudou alguns pressupostos na análise. Estrada e seus colegas queriam verificar se as perdas aumentavam nas mesmas velocidades que a riqueza, como Pielke assumira. “Descobrimos que elas crescem um pouco mais devagar”, afirmou o mexicano.
Faz sentido: à medida que uma sociedade fica mais afluente, ela também passa a tomar alguns cuidados a mais com seu patrimônio: códigos de obra ficam mais estritos e construções ficam mais resistentes. Na série de 1900 a 2005 – que Estrada admite que “tem alguns problemas” –, eles conseguiram quantificar essa lentidão: até 12% dos prejuízos não são explicáveis pela nova forma de “normalizar” os dados.
O grupo passou, então, à segunda parte do trabalho: “Será que essa tendência é compatível com o aumento da temperatura”? – questionou Estrada. Olhando para a série de dados de furacões, a conclusão foi que sim. “O número de furacões e sua intensidade subiram todos”, diz. No entanto, ele alerta: “Não é possível atribuir essa tendência a prejuízos crescentes à mudança climática. O máximo que podemos dizer é que é consistente com ela”. E acrescenta: “O fator primordial continua a ser a produção social do desastre, ou seja, mais pessoas e mais patrimônio ocupando áreas de risco”.
O estudo foi publicado em 19/10/15 no periódico Nature Geoscience.
O pesquisador mexicano diz esperar que sua metodologia possa ser replicada para estimar tendências de dano por eventos extremos em outros lugares do mundo. “Usamos os EUA como estudo de caso porque é onde há mais dados e melhor documentação”, afirma. “Espero que o trabalho possa ter impacto na tomada de decisão política sobre clima, porque muita coisa é omitida na contabilidade de danos hoje”.
“SELETIVO”
Procurado pelo OC, Roger Pielke Jr. disse que o novo estudo é “notícia velha” e acusou seus autores de serem seletivos na escolha dos dados.
“Análises de regressão [como a feita no estudo] são muito sensíveis às datas de começo e final”, afirmou. “É enganoso usar o ano de 2005 para terminar a análise porque 2005 foi excepcional”, disse. Naquele ano, dois furacões de categoria 5 atingiram terra firme nos EUA, o Katrina e o Rita.
Pielke dá um exemplo no sentido contrário: “Durante anos os céticos da ciência do clima argumentaram que o aquecimento global ‘pausou’ porque selecionavam de propósito a data de início de 1998, que foi um ano muito quente, para sugerir um declínio. Quando uma perspectiva mais longa é usada, a ‘pausa’ desaparece. Se é errado os céticos usarem esse tipo de argumento, e é, é errado que os outros o utilizem também”.
Segundo o americano, existem dados de furacões disponíveis nos EUA até 2014. O período 2006 a 2015 teve tempestades abaixo da média nos EUA. “Não há razão para eles não terem estendido a análise”, afirma. “Claro, se fizessem isso, a base para o estudo deles desapareceria.”
Estrada afirma que sua análise parou em 2005 justamente para permitir comparação com os trabalhos de Pielke e outras pessoas. “As versões atualizadas da base de dados sobre furacões nos EUA são diferentes não apenas no número de eventos, mas também no valor estimado das perdas. Na prática, são duas bases de dados diferentes, que não podem ser comparadas entre si”, disse o mexicano. “Nossos modelos levam em conta modos de variabilidade natural do clima que pudessem influenciar os resultados. Mesmo excluindo 2005, que foi um ano de uma temporada de furacões extraordinária, nossos resultados continuam robustos, e acreditamos que continuariam a sê-lo se os últimos dez anos fossem acrescentados.” (ecodebate)

Países pedem que reconheçam o papel amazonico no controle do aquecimento

Oito países pedem que COP21 reconheça o papel da Amazônia no controle do aquecimento global
Países se reuniram para fazer declaração para a Conferência do Clima (COP21), que acontecerá em Paris em dezembro/15. A Amazônia abrange o Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela, com 33 milhões de pessoas dependentes de seus recursos naturais.
Os diretores dos Sistemas de Áreas Protegidas de todos os oito países que compõem a Amazônia, embaixadores da União Europeia, os delegados da Organização do Tratado de Cooperação da Amazônia e instituições ambientais líderes na Colômbia se reuniram em Bogotá, Colômbia, em 15/10/15, para elaborar uma declaração para a Conferência do Clima (COP 21) que acontecerá em dezembro.
O evento foi organizado pelo projeto Integração de Áreas Protegidas Amazônicas (IAPA) e pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). A COP 21 reunirá líderes mundiais para fazer um acordo histórico a fim de manter o aquecimento global abaixo dos 2ºC.
A declaração visa destacar o papel que as áreas protegidas da Amazônia exercem na regulação do clima global e a necessidade de preservar os benefícios e serviços produzidos pela região.
Mais de 170 milhões de hectares da Amazônia são de áreas protegidas. As 420 etnias indígenas somam 33 milhões de pessoas que dependem diretamente das reservas de água e de comida providas pelo ambiente natural da região. (ecodebate)

Aquecimento global extinguirá 30% das espécies até 2050

Aquecimento global deve extinguir 30% das espécies do planeta até 2050
Segundo economista, se a temperatura da Terra subir os dois graus previstos, a fauna e a flora das áreas naturais de todo o mundo estarão ameaçadas.
A economia mundial deverá definir, de forma urgente, uma estratégia para proteger os ambientes naturais de forma a garantir a sobrevivência da população e da biodiversidade do planeta. O alerta foi feito pelo economista e ecólogo, Sérgio Bessermann Vianna, durante o VIII Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC), evento internacional realizado em setembro, em Curitiba.
“A natureza não se recompõe na mesma velocidade da utilização dos recursos naturais necessários para viabilizar o aumento da produção de alimentos e de bens de consumo que a demanda exige. O meio ambiente está no limite para a entrega de serviços que garantem o bem-estar e a sobrevivência da humanidade”, afirmou o economista. Segundo ele, o planeta já ultrapassou três dos nove limites apresentados no estudo ‘Um espaço operacional seguro para a humanidade’, coordenado pelo pesquisador Johan Rockstrom, da Universidade de Estocolmo.
De acordo com o estudo, ‘limites planetários’ são processos que influenciam a habilidade do planeta de manter seus ecossistemas e processos naturais em equilíbrio, o que é indispensável para garantir a sobrevivência e a qualidade de vida das populações. O estudo mapeou nove elementos que são fundamentais para a sustentabilidade da Terra: controle das mudanças climáticas; (alteração na) acidificação dos oceanos; interferência nos ciclos globais de nitrogênio e de fósforo; uso de água potável; alterações no uso do solo; carga de aerossóis atmosféricos (partículas sólidas ou líquidas que ficam suspensas no ar como poeira, fuligem e fumaça); poluição química; e a taxa de perda da biodiversidade, tanto terrestre como marinha. Dos nove, as atividades humanas já ultrapassaram os limites adequados para três: mudanças climáticas, biodiversidade e concentração de nitrogênio na atmosfera.
Vianna afirmou que o uso de fosfatos nitrogenados, base da agricultura moderna, cresceu de forma assustadora nos últimos seis anos. As consequências disso, segundo ele, impactam nos oceanos, onde é percebido o aumento das zonas mortas, áreas onde os níveis de oxigênio sofrem perdas e as espécies marinhas não podem sobreviver. “Isso é inaceitável”, ressalta.
Uma solução, segundo o economista, é que a agricultura adote a combinação de produção e rotação, associada a novas técnicas agrícolas como a agroecologia, que estabelece relações harmônicas entre a agricultura e o meio ambiente, buscando a integração equilibrada da atividade agrícola com ações de preservação.
Para Malu Nunes, diretora-executiva da Fundação Grupo Boticário, a Adaptação com Base em Ecossistemas (AbE) pode contribuir para um aproveitamento mais adequado e inteligente dos recursos naturais. Apesar de estabelecer parâmetros para as comunidades se adaptarem às mudanças climáticas, as estratégias de AbE são bons exemplos que podem ser aplicados para outros fins. “Mexer na microbiota das raízes das plantas cultivadas para que elas absorvam mais nitrogênio ao invés de despejarmos toneladas dele para adubar os solos é um bom exemplo de aproveitamento inteligente dos recursos naturais” disse.
A Fundação Grupo Boticário lançou em janeiro deste ano o estudo ‘Adaptação Baseada em Ecossistemas: oportunidades para políticas públicas em mudanças climáticas’. O modelo prevê o aproveitamento dos serviços ambientais providos pelos ecossistemas conservados, bem como da sua biodiversidade, como parte de uma estratégia de adaptação mais ampla para auxiliar as pessoas e as comunidades a se adaptarem aos efeitos negativos das mudanças climáticas (como secas e enchentes) em níveis local, nacional, regional e global.
Unidades de conservação podem se tornar ineficazes
No que diz respeito à biodiversidade, Vianna enfatizou que 20% a 30% das espécies vivas conhecidas podem ser extintas até 2050. Parte dessa perda será provocada pelas mudanças climáticas. Vianna afirmou que, se confirmados, os dois graus previstos para o aumento da temperatura da Terra colocarão em risco a fauna e flora das áreas naturais de todo o mundo. “O risco de perda de espécies até mesmo em ambientes protegidos é alto diante do cenário climático previsto para os próximos anos”, disse.
Segundo ele, é necessário que o debate sobre o aquecimento global se amplie e resulte em ações efetivas de prevenção à biodiversidade. “Dois graus Celsius mudam tudo e significam que a fauna e flora não estarão mais protegidas mesmo nos parques nacionais. Com relação às mudanças climáticas, a única questão previsível é que já entramos no território do imprevisível”. (ecodebate)

domingo, 25 de outubro de 2015

Obra contra rodízio de água não funciona direito

Principal obra contra rodízio de água não funciona direito
A principal obra da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) para evitar o rodízio na Grande São Paulo ainda funciona de maneira precária mais de 20 dias após a inauguração, em 30 de setembro.
A obra, que sofreu atrasos, foi uma alternativa do governo do Estado para socorrer o sistema Alto Tietê, que em 24/10/15 estava com 13,8% de sua capacidade.
Já o Rio Grande, com 86,2%.
Com a obra, a companhia pretendia retirar 4.000 litros de água por segundo do sistema Rio Grande e levar para o sistema Alto Tietê por meio de 11,5 km.
Mas a retirada está limitada a 1.000 litros desde o dia 9 de outubro.
Resposta
A Secretaria de Estado de Saneamento e Recursos Hídricos disse que a obra foi executada dentro do "maior rigor técnico" e com o "devido aval" dos órgãos reguladores do meio ambiente, como a Cetesb e o DAEE.
Segundo a nota, o problema ocorrido em Ribeirão Pires não tem relação com a capacidade do rio Taiaçupeba-Mirim de dar vazão à água, mas sim com a força com que a água chegava ao leito.
Por isso, o bombeamento está com operação assistida.
Para a secretaria, o rio não transbordou.
"O que houve foi um assoreamento, causando refluxo da galeria pluvial", diz.
A pasta diz ainda que o DAEE trabalha nas margens do rio para evitar novos problemas.
A secretaria promete que, "em questão de dias", a transposição alcançará a sua força total, de 4.000 litros/segundo.
A assessoria de imprensa da Sabesp afirmou, sobre os documentos da obra, que apresentou a planta conforme solicitação da reportagem. (uol)

Crise hídrica e uma nova cultura de cuidado com a água

Crise hídrica e uma nova cultura de cuidado com a água. Um novo modelo é preciso
“A primeira coisa que precisa acontecer para resolver a crise hídrica é um gesto do governo de reconhecer a situação em que estamos, assumir a responsabilidade sobre medidas que não foram tomadas”, diz o membro da Executiva Nacional da Rede Sustentabilidade e da Aliança pela Água.
A crise hídrica no estado de São Paulo ocorre em decorrência de dois fatores: “trata-se de um modelo que lida com os recursos naturais de forma insustentável e, a partir dele, se constitui uma gestão que é baseada nessa visão que não busca alternativa”, diz Rafael Poço, membro da Aliança pela Água, organização que, em parceria com outras instituições, elaborou o relatório de violação de direitos humanos na gestão hídrica do estado de São Paulo. De acordo com Poço, o relatório reuniu uma série de informações sobre a crise hídrica e foi entregue à Relatoria da ONU, a fim de dar repercussão internacional à questão. “O mecanismo da ONU permite que o relator, após receber essas denúncias, envie o documento intitulado ‘carta de alegações’ para o governo, requerendo informações sobre o que vem acontecendo e questionando quais medidas estão sendo adotadas com relação a essas violações. Esperamos que com isso consigamos mais uma força para, primeiro, dar visibilidade à crise hídrica e, segundo, para que possamos superar essa questão e, por fim, responsabilizar quem precisa ser responsabilizado pela situação”, explica à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por telefone.
De acordo com Poço, do ponto de vista do planejamento, observou-se que o governo paulista “ignorou diversos materiais, inclusive documentos oficiais de técnicos e da sociedade civil, que há mais de 10 anos estão alertando para a possibilidade de essa crise acontecer. São documentos desde a outorga do Sistema Cantareira, que já previam a diminuição da dependência do sistema, documentos sobre a questão hidrológica e climática, que poderia ter essa alteração”. Ele informa ainda que o “relatório mostra que os problemas gerados pela gestão de abastecimento vêm ocorrendo desde 2003, mas é muito difícil apontar o momento em que isso virou uma grande crise. Mas 2013 foi o ano em que a combinação de uma gestão equivocada, de uma falta de planejamento que considerasse inclusive os relatórios técnicos e as alterações climáticas, culminou na crise que existe hoje”.
Rafael Poço é membro da Executiva Nacional da Rede Sustentabilidade e da Aliança pela Água, uma coalizão da sociedade civil para contribuir com a construção de segurança hídrica em São Paulo.
IHU On-Line - Quais são os dados do Relatório de Violação de direitos humanos na gestão hídrica do estado de São Paulo, feito pela Aliança Pela Água, que apontam indícios de violação de direitos humanos na gestão hídrica do estado? Como vocês realizaram esse relatório?
Rafael Poço - A produção do relatório é fruto de um compromisso assumido entre a Aliança pela Água e o Coletivo de Luta pela Água com o relator da ONU [Organização das Nações Unidas] sobre Água e Saneamento, Léo Heller. No mês de abril deste ano fizemos uma reunião com ele e nos comprometemos a elaborar um relatório que organizasse ou sistematizasse algumas das possíveis violações a direitos humanos que estão acontecendo no estado de São Paulo neste período de enfrentamento da crise hídrica. A crise não acabou e as violações seguem acontecendo, portanto o relatório será permanentemente atualizado para acompanhar o que vem acontecendo aqui.
O relatório foi dividido de modo a apontar as violações relacionadas à falta de planejamento que levou a crise a ter a proporção que teve; as violações relacionadas a medidas de enfrentamento da crise, ou seja, medidas que foram adotadas no sentido de tentar dar respostas à crise; e as violações dos impactos das obras e outras ações adotadas pelo governo estadual para tentar resolver a crise.
IHU On-Line – Quais foram os principais direitos violados?
Rafael Poço – A relatoria da ONU estabelece alguns princípios, e a água e o saneamento são compreendidos como direitos, ou seja, as pessoas têm direitos à disponibilidade e acessibilidade à água. Então, do ponto de vista de planejamento, observamos que o governo do estado de São Paulo ignorou diversos materiais, inclusive documentos oficiais de técnicos e da sociedade civil, que há mais de 10 anos estão alertando para a possibilidade de essa crise acontecer. São documentos desde a outorga do Sistema Cantareira, que já previam a diminuição da dependência do sistema, documentos sobre a questão hidrológica e climática, de que poderia haver essa alteração.
Com relação às medidas adotadas durante a crise, observaram-se os cortes de água não informados e negados, inclusive, pelo governo, que afetaram diretamente a dignidade da pessoa humana, fazendo com que as pessoas não tivessem nenhuma previsibilidade que permitisse que elas se organizassem e se preparassem para enfrentar a crise, para garantir higiene pessoal e necessidades básicas. Estamos pautando essa questão como uma violação do próprio acesso à água e ao saneamento, uma vez que as pessoas ficaram sem acesso à água.
Além disso, denunciamos as formas como novos contratos de venda de água foram feitos, com o governo de um lado negando a criticidade da situação, negando a própria crise e, de outro lado, fazendo contratações e fechando contratos emergenciais com base no argumento da urgência; portanto, flexibilizando a legislação para contratações, flexibilizando legislação de licitações, que trouxeram prejuízos para a população em geral.
Na última semana fomos informados de que havia uma ação do Ministério Público contra a obra de transposição da Bile, no sistema Alto Tietê, porque durante o teste da obra aconteceu o que avisávamos que aconteceria: houve um assoreamento do rio.
“A crise não acabou e as violações seguem acontecendo”
IHU On-Line - Então o relatório aponta a negligência do governo em relação à crise?
Rafael Poço - O relatório mostra que os problemas gerados pela gestão de abastecimento vêm ocorrendo desde 2003, mas é muito difícil apontar o momento em que isso virou uma grande crise. Mas 2013 foi o ano em que a combinação de uma gestão equivocada, de uma falta de planejamento que considerasse inclusive os relatórios técnicos e as alterações climáticas, culminou na crise que existe hoje. A partir de 2013 a crise começou a ter uma proporção muito maior e com efeitos mais agudos na vida da população. Nesse momento, inclusive, começaram os cortes sistemáticos de uma forma mais generalizada, digamos assim. Primeiro foram feitos cortes nas regiões mais vulneráveis e mais pobres, na periferia em geral e, depois, foram feitos cortes e redução de pressão da água em toda a cidade de São Paulo.
Seria equivocado apontarmos o momento do início da crise, mas ela de fato se inicia quando já não são adotadas as medidas que a previnem, mas podemos dizer que a partir de 2013 ela entrou nessa gravidade inédita na história e aí o governo se viu nessa situação de negação da crise. Foi isso o que nos colocou à beira de um colapso, do qual ainda não saímos. Entendemos que a negação da crise, ou seja, negar a gravidade de um problema, leva em primeiro lugar a uma inação, uma imobilização no enfrentamento e na busca por alternativas, e é isso que o governo segue fazendo. Isso torna tanto a população quanto os órgãos governamentais muito amarrados para conseguir buscar soluções maduras e coletivas para enfrentar a crise.
IHU On-Line - Quais são motivos que levaram o governo a negar e depois tratar essa crise sem dar a devida gravidade?
Rafael Poço - Há uma combinação de dois fatores. Um deles é uma gestão equivocada, que é o principal fator, ou seja, há uma visão em relação aos recursos hídricos que é ultrapassada e equivocada, que lida apenas com a gestão da oferta. Ou seja, pensa-se em aumentar a oferta, sempre buscando água em locais mais distantes, com um custo maior, com maiores danos ambientais, com maior prejuízo a outras regiões. Acredito que esse é o aspecto mais chocante, ou seja, o governo segue um modelo de gestão segundo o qual os recursos naturais são vistos como algo quase sem fim. Trata-se de um modelo de gestão que não consegue se preparar para imprevistos porque tem uma visão ingênua em relação aos recursos, como se eles fossem algo infinito. Essa visão leva a uma gestão que não se prepara para o que está cada vez mais recorrente no mundo inteiro, que são as mudanças climáticas, as alterações de ciclo hidrológico e o aumento de consumo de água natural devido ao aumento populacional.
Então, tentando resumir, esses dois fatores ocorrem um em decorrência do outro. Trata-se de um modelo que lida com os recursos naturais de forma insustentável e, a partir dele, se constitui uma gestão que é baseada nessa visão que não busca alternativas.
IHU On-Line - Qual foi a recepção do relatório?
Rafael Poço - Do ponto de vista da sociedade foi visto como algo muito relevante e fundamental para o processo que estamos vivendo, porque acionar o mecanismo internacional, ou seja, a relatoria da ONU, é uma alternativa para conseguirmos, ao menos, ter mais transparência para dar visibilidade para o que vem acontecendo em São Paulo. Não recebemos reações do governo do estado em relação ao documento que foi endereçado à relatoria da ONU. Esse documento tem o caráter de organizar as informações que já estão disponíveis, que já estão presentes em outros documentos, e direcioná-las para a relatoria da ONU com a finalidade de buscar mecanismos da ONU para dar abrangência internacional e nacional para a crise hídrica que ocorre no estado de São Paulo. O mecanismo da ONU permite que o relator, após receber essas denúncias, envie o documento intitulado “carta de alegações” para o governo, requerendo informações sobre o que vem acontecendo e questionando quais medidas estão sendo adotadas com relação a essas violações. Esperamos que com isso consigamos mais uma força para, primeiro, dar visibilidade à crise hídrica e, segundo, para que possamos superar essa questão e, por fim, responsabilizar quem precisa ser responsabilizado pela situação.
IHU On-Line - Qual é a expectativa de a ONU confirmar as violações de direitos humanos na gestão dos recursos hídricos do estado de São Paulo? Como se dará esse processo?
Rafael Poço - O próximo passo agora, segundo o relator Léo Heller – que participou do evento que fizemos de lançamento do relatório –, é elaborar uma carta de adequações que tem a finalidade de colher o máximo possível de informações. Depois há outros mecanismos, como de tentar constranger o país ou o estado a tomar providências e até ser responsabilizado.
“O governo segue um modelo de gestão segundo o qual os recursos naturais são vistos como algo quase sem fim”
IHU On-Line - Há uma solução para a crise hídrica hoje? Quais são as medidas que devem ser adotadas para resolver essa crise e evitar futuras crises de abastecimento?
Rafael Poço - O primeiro aspecto é que qualquer crise precisa ser tratada com transparência, de maneira responsável e madura. Antes do aspecto técnico, de como se resolve isso tecnicamente, se se trata de trazer mais água de outros mananciais ou fazer novas obras para dar conta do abastecimento, a questão central é trabalhar com transparência, com maturidade e responsabilidade, ou seja, primeiro vamos encarar o problema. Portanto, a primeira coisa que precisa acontecer é um gesto do governo de reconhecer a situação em que estamos, assumir a responsabilidade sobre medidas que não foram tomadas. Isso passa, primeiro, por dar mais informações para a sociedade; segundo, pela redução do consumo; terceiro, fazer exigências à Sabesp, que é a principal empresa do estado responsável pelo abastecimento de centenas de cidades, e à Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo – Arsesp, que é agência reguladora, para que elas assumam uma postura que cumpra as suas finalidades.
Depois disso, é preciso visualizar as condições para a adoção de um novo modelo e, a partir daí, poderemos discutir qual é o melhor modelo de abastecimento a adotar, como lidaremos com o número crescente da população e, portanto, do consumo, que relação queremos ter com os mananciais, ou seja, todas essas questões precisam estar envolvidas. Não é uma solução simples, de engenharia ou tecnológica apenas, é uma combinação de fatores: precisamos recuperar as áreas de manancial, respeitar as políticas que já existem e não são cumpridas, recuperar e preservar os mananciais, reduzir o consumo, estimular a redução de perdas de água na transmissão – em São Paulo a perda é de aproximadamente 30%.
A Aliança pela Água tem proposto que precisamos de uma nova cultura de cuidado com a água, com os recursos hídricos, que irá passar por diversas questões: a maneira como se cuida e se preserva, a maneira como se obtém a água. (ecodebate)

Redução projeção de chuvas em hidrelétricas do Sudeste e Nordeste

ONS reduz projeção de chuvas em hidrelétricas do Sudeste e Nordeste
No Nordeste, são esperadas chuvas equivalentes a 29% da média histórica.
No Sudeste, deve chover em outubro 89% da média histórica.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) reduziu a projeção de chuvas nas hidrelétricas do Sudeste do país em outubro para 89% da média histórica, ante 93% de previsão divulgada na semana anterior, segundo relatório de 23/10/15.
Hidrelétrica de Itaipu escoa pelo vertedouro o excedente de água do reservatório em função do grande volume de chuvas em rios do Paraná.
No Nordeste, são esperadas chuvas equivalentes a apenas 29% da média histórica, abaixo dos 33% previstos anteriormente.
No Sul, ajudado pelo efeito do El Niño, as afluências devem alcançar 229% da média, ainda assim em queda ante os 241% projetados na semana passada.
Além disso, o ONS reduziu a perspectiva de queda no consumo de energia elétrica para 2,4%, ante 3% anteriores.
O órgão de operação do sistema também apresentou projeção de que os reservatórios das hidrelétricas do Nordeste encerrem outubro entre 8,6 e 8,4% de capacidade.
Caso confirmado o número mais pessimista, a situação das represas do Nordeste ficaria exatamente igual à registrada em 2001, ano em que o país passou por racionamento de energia, uma situação já reportada na semana anterior.
No Sudeste, o ONS espera que os reservatórios fechem o mês com entre 26,% e 27,5% de capacidade, enquanto o Sul, que tem visto tendência de fortes chuvas puxadas pelo fenômeno climático El Niño, deve ultrapassar os 97% de água nas usinas hídricas. (g1)

ONS reduz projeção de chuvas em hidrelétricas

ONS reduz projeção de chuvas em hidrelétricas do Sudeste e Nordeste em outubro
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) reduziu a projeção de chuvas nas hidrelétricas do Sudeste do país em outubro para 89% da média histórica, ante 93% de previsão divulgada na semana anterior, segundo relatório de 23/10/15.
No Nordeste, são esperadas chuvas equivalentes a apenas 29% da média histórica, abaixo dos 33% previstos anteriormente. No Sul, ajudado pelo efeito do El Niño, as afluências devem alcançar 229% da média. (noticiasagricolas)

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Fantasmas do passado, ameaças do presente

Setenta anos passados sobre a agressão nuclear norte-americana a Hiroxima poucos duvidarão do verdadeiro fundamento da decisão de Truman em causar tal morticínio: na mente do sucessor de Roosevelt já estava bem incrustada a intenção de lançar a Guerra Fria e o crime serviria de aviso a Estaline para que refreasse o ímpeto expansionista da União Soviética.
A efeméride serve, pois, para lembrar aos mais distraídos em como, quando se trata do exercício do poder, a direita põe de lado todos os escrúpulos éticos e morais, não prescindindo de revelar a sua verdadeira face.  E, então, se o perde, entra na lógica do vale tudo, como Tsipras ainda sentiu bem na pele recentemente, ou ainda está a sentir se pensarmos na forma como a queda da Bolsa de Atenas está a suscitar o “clima” propício para uma maior propensão para as cedências perante as imposições dos credores nas atuais negociações para um terceiro resgate.
Mas, voltando ao Japão, a mesma direita também não deixa de se revelar fraudulenta quando se trata da sua relação com o nuclear.
Embora os japoneses tenham interiorizado, e de que forma! As suas inquietações com essa forma de energia, o primeiro ministro Shinzō Abe assume-se como o testa-de-ferro dos grandes interesses privados do seu país, e como tal, igualmente da Tokyo Electric Power Company (TEPCO), a proprietária da central nuclear de Fukushima. Ora um enorme véu mediático cobre o assunto melindroso dos efeitos ambientais das explosões ali ocorridas e dos efeitos produzidos desde então.
A comunidade internacional manifesta uma preocupação muito significativa com as descargas de água radioativa para o oceano Pacífico por muito que os responsáveis da empresa continuem a aumentar o número de enormes reservatórios em torno da central para aí depositarem uma grande parte do fluxo de refrigeração diariamente utilizado para arrefecer o seu núcleo. São muitas toneladas de águas radioativas, que ninguém sabe como neutralizar nos seus duradouros efeitos perniciosos para o meio ambiente. E, pior, ainda é o facto de muitos desses depósitos terem fugas para o exterior, contaminando assim a zona circundante e, sobretudo, os veios freáticos existentes no subsolo.
A vigarice intentada pelas autoridades japonesas chega a tal sofisticação, que instalou medidores de radiação nas zonas habitadas mais próximas de Fukushima, mas cuidando de limpar cuidadosamente as zonas mais próximas onde colocou tais equipamentos. No entanto basta percorrer algumas dezenas de metros e logo os contadores Geiger assinalam níveis de radiação perigosos para a vida humana.
Temos, pois, um país traumatizado pelo nuclear usado com objetivos belicistas e, ao mesmo tempo, a sujeitar-se a futuras comoções, não menos perturbantes, devido à sua utilização como fonte de energia. Apenas justificada pela ganância dos acionistas da TEPCO em continuarem a assegurar os seus lucros. (ventossemeados)

‘Quanto mais demorar, mais caro vai ficar’

‘Quanto mais demorarmos a lidar com as mudanças climáticas, mais caro vai ficar’
Eleita vice-presidente do IPCC até 2020, a pesquisadora brasileira Thelma Krug fala sobre a certeza dos cientistas sobre a influência humana no clima do planeta e os desafios dos governos para frear o aquecimento global.
Pela primeira vez desde sua fundação, em 1988, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) terá mulheres no comando. Uma delas é a pesquisadora brasileira Thelma Krug, eleita para a vice-presidência do órgão até 2020. A posição também será ocupada pela norte-americana Ko Barrett e pelo malinês Youba Skona. O novo presidente do painel, o sul-coreano Hoesung Lee, assume no lugar de Rajendra Pachauri, que pediu demissão do cargo em fevereiro, após denúncias de assédio sexual.
Eleita por representantes de 195 países-membros, Thelma Krug, especialista em estatística espacial, é pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e preside a Força Tarefa em Inventários Nacionais de Gases de Efeito Estufa do IPCC desde 2002.
Em entrevista à DW Brasil, 12-10-2015, ela falou sobre os desafios do combate às mudanças climáticas e o papel do IPCC nas pesquisas que embasam decisões políticas.
O IPCC forma toda a base científica para a discussão nas Conferências do Clima. E a COP de Paris, em novembro, é especialmente importante, porque dela deve sair um acordo global para limitar as emissões de gases do efeito estufa. O que a senhora espera dessa conferência?
A mensagem no último relatório é muito forte, e eu espero que os países não se esqueçam disso durante as negociações em Paris. Eu vejo três mensagens principais. Uma delas é sobre a certeza da influência humana: nós estamos influenciando o sistema climático e de uma forma crescente.
A segunda mensagem diz que se as coisas continuarem como estão – ou seja, se as emissões continuarem crescendo ao longo do tempo, principalmente no setor de energia –, enfrentaremos riscos de impactos severos e irreversíveis. Isso vale tanto para as pessoas quanto para os ecossistemas.
E a última, que eu acho a mais interessante, é a mensagem positiva que o IPCC procurou passar no relatório: há condições de lidar com a mudança do clima e com os riscos associados a ela. Há soluções possíveis que permitem a continuidade do desenvolvimento humano e econômico.
É preciso reverter e muito as emissões dos gases do efeito estufa se os países quiserem chegar a um aumento máximo de 2ºC na temperatura global – que foi o limite acertado pelos países nas negociações. Quanto mais se prorrogar isso, mais caro vai ficar. Maiores serão os desafios tecnológicos, institucionais e humanos.
O IPCC passou por uma crise de credibilidade em 2010, quando erros em alguns relatórios vieram a público. Vocês ainda enfrentam problemas por causa disso?
Eu acredito que essa fase tenha sido completamente superada. Acho que essa fase inclusive ajudou o IPCC a fortalecer os seus procedimentos. O IPCC continua sendo a autoridade mais universalmente reconhecida no tema. A participação dos governos em todo o processo de aprovação dos relatórios do IPCC aumenta essa credibilidade.
Erros podem acontecer e precisam ser reconhecidos. O que foi feito depois daquele grande desafio que passamos foi uma revisão dos processos e procedimentos na elaboração do relatório. Erros são encontrados, e estamos falando de mais de 7 mil páginas de relatórios. Eu até acho surpreendente que não haja muitos erros, quando se considera esse volume todo: são cinco quilos de publicação com os três relatórios.
Quais são os próximos desafios científicos do IPCC?
Em minha opinião, temos dois desafios sempre presentes. Um deles é uma maior regionalização, ou seja, buscar uma melhor identificação dos riscos, impactos e mitigação de forma mais regionalizada. E a segunda é a busca incessante, a cada novo relatório, da redução das incertezas nos resultados que são apresentados. O conhecimento cientifico avançou muito em direção às certezas. E a gente espera que as incertezas não sejam um fator limitante para ações.
O Brasil passa por uma recessão neste momento, com cortes significativos em projetos de pesquisa. Isso pode afetar o avanço do conhecimento na área das mudanças climáticas no país?
O Brasil tem um grupo muito atuante na área de pesquisas de mudança do clima. Temos vários pesquisadores com uma atuação muito significativa dentro do IPCC. E essa participação não é por acaso. Ela é um reconhecimento dessa competência instalada no país e que tem que ser expandida.
Um dos pontos que eu acho importante é a capacidade do país de atuar em áreas onde países em desenvolvimento tem uma limitação grande, que é a área de modelagem. Modelagem é um dos elementos essenciais para os relatórios do IPCC e todos os grupos de trabalho.
O Brasil tem uma competência cientifica, mas também a infraestrutura técnica, nós temos supercomputadores, isso faz com que o país esteja numa outra categoria. É um investimento alto, mas traz realmente um retorno significativo para o país, inclusive na parte de regionalização dos resultados. Isso só pode ser feito quando você refina esses modelos climáticos globais para os regionais.
Mas eu vejo o cenário com preocupação. Se esses investimentos não continuarem, principalmente nessa parte de infraestrutura também no sentido de assegurar que o conhecimento cientifico seja expandido, continuamente, nós sentiremos esse impacto no futuro.
O que ter uma pesquisadora na vice-presidência no IPCC representa para o Brasil?
Essa eleição como vice-presidente do IPCC representa a continuidade do reconhecimento do Brasil como um país que tem capacidade cientifica e técnica para contribuir com o painel.
Desde o primeiro relatório do IPCC, ou seja, início dos anos 1990, o Brasil participou muito ativamente. Estamos falando de uma contribuição de 25 anos. No primeiro relatório, a co-presidência era do Dr. Gylvan Meira Filho. No ciclo seguinte, o próprio Dr. Gylvan esteve na vice-presidência do painel, e eu fui co-presidente da Força Tarefa de Inventários Nacionais. Mas essa eleição tem uma característica distinta: dessa vez é uma mulher, e nunca houve mulheres nesse patamar de liderança do IPCC.
As pesquisadoras no IPCC também enfrentam machismo e preconceito?
O IPCC sempre menciona a questão do equilíbrio de gênero. Mas é claro que isso é sempre muito difícil. A própria participação dos países no painel é praticamente toda masculina.
Por isso, foi uma enorme surpresa a constituição desse conselho que vai atuar até 2020 com o número significativo de mulheres em posições-chave. Demonstra uma mudança. Eu nunca digo que existe diferença significativa nos resultados, se liderado por mulher ou por homem, mas há diferença no processo, na forma como tudo acontece. Então será muito interessante observar como, nesse período, o processo poderá ser alterado com a participação de mulheres. (ecodebate)