domingo, 31 de janeiro de 2010

CO2 de floresta é entrave em acordo

Negociadores dos países não souberam o que fazer sobre o tema para tentar chegar a consenso em Copenhague. O grande problema do aquecimento global é o carbono emitido pela queima de combustíveis fósseis, como gasolina, carvão e diesel. Mas o maior obstáculo para a diplomacia climática parece ser mesmo o carbono das florestas, tanto temperadas quanto tropicais. Ninguém sabe muito bem o que fazer com ele no acordo internacional de combate à mudança climática, que deveria ser assinado no fim do ano em Copenhague, na Dinamarca. A questão do carbono florestal permeia várias das discussões fundamentais sobre o futuro da Convenção do Clima e do Protocolo de Kyoto. Tanto os países desenvolvidos quanto os que estão em desenvolvimento, principalmente os tropicais, como o Brasil, querem que o carbono embutido na matéria orgânica de suas florestas seja valorizado de alguma forma no acordo final de Copenhague. Só que não há consenso à vista sobre como fazer isso. A categoria técnica usada para tratar do tema dentro da convenção é chamada "uso da terra, mudança de uso da terra e atividades florestais", que em inglês abrevia-se LULUCF (e pronuncia-se, carinhosamente, lulu-ce-efe). Ela inclui emissões e absorções de carbono relacionadas à agricultura, desmatamento, manejo florestal e outras atividades não ligadas ao uso de combustíveis fósseis. Os países desenvolvidos querem saber como o carbono de LULUCF será levado em conta no cálculo das cotas de emissão para o próximo período de compromisso do Protocolo de Kyoto, que começa em 2013. Os números podem variar significativamente, para mais ou para menos, dependendo da metodologia. Um dos mais interessados no tema é o Canadá. As emissões do país aumentam consideravelmente quando LULUCF é incluído na conta para o ano-base do protocolo, que é 1990. Por isso, o Canadá propunha que suas reduções para o futuro sejam baseadas no ano de 2006. O país argumenta que suas emissões provenientes de LULUCF em 1990 resultaram de "distúrbios naturais" (não antropogênicos ou não causados pelo homem), como incêndios florestais e infestação de florestas por besouros. "São distúrbios altamente imprevisíveis e variáveis ano a ano, mas que afetam diretamente nossa linha de base", disse o representante da delegação canadense em Bonn, na Alemanha, onde os países signatários da Convenção e do Protocolo estiveram reunidos numa conferência preparatória para a cúpula de Copenhague. Ele pediu novas regras para LULUCF que permitam fazer uma distinção entre emissões antropogênicas e naturais. "Não estamos preparados para assumir um compromisso definitivo (de redução de emissões) enquanto as regras sobre LULUCF não estiverem claras", declarou, também, a delegação da Nova Zelândia. Hoje, as regras permitem que os países contabilizem áreas de floresta "manejada" (como parques nacionais e outras áreas protegidas) como uma fonte de absorção de carbono, o que ajuda a balancear o cálculo de suas emissões. "Ora, se vamos contabilizar as reduções, certamente temos de contabilizar também as emissões", rebateu o representante de Tuvalu, em resposta ao Canadá. DESMATAMENTO Os países em desenvolvimento, por sua vez, querem que a conservação dos estoques de carbono florestal (leia-se redução do desmatamento) seja valorizada como uma forma de mitigação (leia-se redução de emissões) pelos países desenvolvidos. Mas há divergências também sobre como isso deve ser feito. Aí entram as discussões sobre Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD). Alguns países, como Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos, querem que o REDD entre para o mercado de carbono como um mecanismo compensatório, o que permitiria aos países desenvolvidos debitar de suas emissões domésticas o carbono que deixou de ser emitido pela redução do desmatamento em países em desenvolvimento, via financiamento de projetos ou compra direta de créditos no mercado. Outros, como o Brasil e a União Europeia, querem que o REDD funcione apenas como um mecanismo de financiamento não compensatório, pelo qual os países desenvolvidos poderiam financiar projetos de proteção florestal, mas não obter créditos de carbono por isso (mais informações sobre REDD nesta página). "Entendemos que o financiamento para o combate ao desmatamento e para conservação deverá vir de várias fontes, incluindo fontes de mercado. Mas favorecemos as soluções que tragam maior integridade ambiental para o sistema climático", disse o chefe da delegação brasileira em Bonn, Luiz Figueiredo. A Colômbia, por outro lado, é a favor do REDD compensatório para projetos de desmatamento evitado no Protocolo de Kyoto. "O mercado proporciona uma garantia maior de demanda no longo prazo", disse ao Estado a representante do Ministério do Meio Ambiente colombiano, Andrea García-Guerrero. Se for um mecanismo voluntário de financiamento, diz ela, o dinheiro poderá fluir num primeiro momento, enquanto o tema está "quente", mas não haveria garantia de sustentação dos investimentos. OBRIGAÇÃO DOMÉSTICA Essa é outra briga que comprometeu complicou um aperto de mãos em Copenhague: quanto do esforço de mitigação deverá ser feito via reduções domésticas e quanto deverá ser feito via compra de créditos no mercado. Os países em desenvolvimento querem que o esforço maior de reduzir emissões seja feito pelos países desenvolvidos. "O mercado não alcançou nada em benefício do clima. É só uma transferência de responsabilidade", disse o representante de Tuvalu. Uma proposta é de que seja estabelecido um limite sobre quanto das metas dos países desenvolvidos poderá ser abatida via créditos compensatórios, ou seja, via reduções feitas em outros lugares.

Copenhague não deve ter acordo sobre metas para redução de gases-estufa

A Conferência do Clima em Copenhague (Dinamarca), que aconteceu em dezembro/09, pode ter sido abatida na decolagem. A reunião deveria fechar o acordo com as metas que os países terão para reduzir suas emissões de gases-estufa após 2012, quando o Protocolo de Kyoto expira. Porém, segundo o embaixador brasileiro para mudança do clima, Sergio Serra, já se fala que possivelmente se delimite em Copenhague apenas os parâmetros gerais do acordo, e que a decisão sobre metas fique para 2010. As metas já deveriam estar sendo negociadas em Bonn (Alemanha), numa reunião preparatória que termina amanhã. Segundo Serra, porém, a negociação está "empacada". Os Estados Unidos estão no foco impasse, já que, nas palavras do embaixador, dificilmente o país "terá com precisão a oferta" que vai fazer até dezembro. Os negociadores americanos, sob novo governo, ainda estão tomando pé da situação e parecem preferir resolver antes a legislação interna, precisam do apoio do Congresso para ratificar um acordo do clima. Uma disputa entre países desenvolvidos e em desenvolvimento também ajuda a piorar o problema. Os ricos só querem abrir suas propostas de corte de emissão depois de os mais pobres o fazerem. "É como no pôquer. Ninguém quer mostrar suas cartas", diz o embaixador. Na opinião de Serra, é melhor prolongar negociações do que ter acordo pífio já em 2009. 'Esta data foi escolhida para dar um prazo de três anos antes da entrada em vigor, para que os países tenham tempo de ratificar o acordo. Se for feita uma nova reunião em 2010, a rigor o período que os países terão será reduzido em algo entre seis meses a um ano', afirma o embaixador. "A situação do clima é suficientemente séria e preocupante e acho que ninguém, nenhum país, quer assumir jogar isso para cima." As ONGs argumentam, baseadas no relatório do IPCC (Painel do Clima da ONU), que os países desenvolvidos precisam reduzir 40% de suas emissões de gases-estufa até 2020, em relação aos níveis de 1990. Mas as nações que integram a aliança dos pequenos Estados-ilhas, ameaçados pelo aumento do nível do mar, dizem que 40% é pouco. Segundo eles, novos estudos --posteriores ao último relatório do IPCC indicam que o número está defasado. A União Europeia, por exemplo, promete cortar 20% das emissões até 2020, podendo chegar a 30% dependendo do esforço dos demais países. Outro ponto que está sendo tratado "com paixão", segundo o embaixador, é o ano-base que será usado para definir as metas de redução. O Protocolo de Kyoto define 1990 como ano-base, mas muitos países têm proposto outros anos. Um projeto de lei nos EUA, por exemplo, indica 2005, quando a emissão de gases-estufa americanos já tinha crescido bem mais. A redução até 2020, portanto, seria mais fácil de atingir. No longo prazo, porém, a alteração do ano não fará muita diferença, afirmam os EUA. Negociação paralela O presidente Barack Obama acaba de relançar, porém, com outro nome, o grupo das maiores economias para discutir questões relacionadas a energia e ambiente. A ideia já existia no governo do antecessor, George W. Bush. A primeira reunião, com 16 países além da União Europeia, ocorre ainda neste mês em Washington. O governo brasileiro vai participar, mas tem receio de que o encontro também se transforme numa negociação. "Não temos interesse em criar uma negociação paralela", diz Serra. Isso provavelmente causaria mal estar com os países excluídos do fórum de Obama.

AL tem de reduzir emissões de gases estufa

Liberação de carbono pode crescer 33,33% na região até 2030 se não houver mudanças regulatórias já. Mesmo se os países ricos reduzirem a zero suas emissões de gases de efeito estufa até 2050, as nações emergentes precisariam diminuir em até 28% seus níveis de poluição em relação ao ano de 2000, para evitar que, com o estoque de carbono na atmosfera chegue a 550 partes por milhão (ppm), a temperatura terrestre se eleve em 3°C. Mas, as emissões de gases estufa per capita podem crescer 33,33% até 2030 na América Latina e Caribe, se não houver um compromisso maior dos governos e do mercado com a taxa de carbono. Atualmente Brasil e México são os maiores poluidores da América Latina: concentram 60% das emissões de gases de efeito estufa. Essas são algumas das conclusões do relatório do Banco Mundial (Bird) de Desenvolvimento com menos Carbono: Respostas Latino- americanas ao Desafio das Mudanças Climáticas. É a primeira vez que o tema mudanças climáticas é foco de um estudo específico para a América Latina. Encarecimento da poluição O único modo de resolver o impasse climático é pela adoção de tecnologias limpas. Mas isso só vai ocorrer sde houver um encarecimento da poluição, seja por meio de um imposto sobre o carbono ou pelo subsídio às tecnologias mais sustentáveis. Os países emergentes precisam ter políticas de mudança do clima, pois os projetos de sequestro de carbono que estão sendo realizados não têm escala suficiente para garantir avanços na proteção ao clima. O estudo destaca a matriz energética limpa do Brasil e defende a limitação das barreiras alfandegárias para o etanol brasileiro. A diretoria executiva do Bird aprovou um empréstimo de US$ 1,3 bilhão para o governo brasileiro, com o objetivo de financiar a agenda de mudança climática no País. A linha de crédito precisa ser aprovada pelo Congresso. Incoerência Falta coerência na posição do governo brasileiro sobre o clima. O Brasil elaborou uma política de mudanças climáticas, mas ao mesmo tempo aprovou um plano decenal de energia que prevê dezenas de termoelétricas a carvão.

Emissão de gás carbônico no País vai triplicar até 2017

Governo brasileiro contradiz o próprio plano climático. Análises do próprio governo indicam que emissões saltarão para 39 milhões de toneladas em 2017. Se por um lado a área ambiental do governo firma compromissos para reduzir as emissões de gás carbônico por meio da queda do desmatamento, do outro o planejamento do setor elétrico prevê mais geração termoelétrica, considerada uma energia mais poluente. Análises de técnicos do próprio governo indicam que as emissões de CO2 dessas novas usinas saltarão dos atuais 14 milhões de toneladas para 39 milhões em 2017. A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, está preocupada com as projeções do governo de aumentar a produção de energia em usinas termoelétricas, principalmente as movidas a óleo combustível. Estamos na contramão da Europa e do que deverá acontecer nos Estados Unidos com a posse do Barack Obama. A nova versão do Plano Decenal de Expansão da Energia, que traça as metas para o setor de 2008-2017, projeta que a capacidade de geração do País terá de saltar dos atuais 99,7 mil megawatts (MW) para 154,7 mil MW. Desse acréscimo, cerca de 20,8 mil MW deverão ser gerados em usinas termoelétricas de diversos tipos, como nuclear, a gás, carvão, diesel, óleo combustível ou biomassa. A previsão do governo para a produção de energia em usinas movidas a óleo combustível, mais caras e poluentes, é de cerca de 40 novas térmicas até 2017. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), alega que as usinas termoelétricas listadas no Plano Decenal são tão somente aquelas que já negociaram contratos nos leilões de energia do governo. Ou seja, não são mera previsão, são um fato. Não há planejamento para ser feita mais térmicas do que aquelas já negociadas em contratos. E essas usinas só venderam sua energia porque as novas hidrelétricas (mais limpas) não puderam ir a leilão porque não tinham licença ambiental. A ex- ministra Marina Silva não concorda com a análise de que a expansão das térmicas decorre da demora, por parte da área ambiental, na liberação de novas hidrelétricas. Isso é fazer o meio ambiente de bode espiatório. As usinas do Madeira (Santo Antônio e Jirau, em Rondônia) já foram liberadas. E diziam, antes, que essas usinas tinham de sair para evitar o crescimento das térmicas. Termoelétricas podem quintuplicar emissões. A demora na concessão de licenças ambientais para a construção de hidrelétricas pode aumentar em cinco vezes a emissão de CO2 no País, por causa do aumento da geração de energia em termoelétricas, alerta o Instituto Teotônio Vilela, do PSDB, em relatório que analisa o Plano Decenal de Energia Elétrica, divulgado pelo governo em 2008. No plano, o governo calcula que até 2017 entrarão 20,8 mil megawatts (MW) de usinas térmicas, sendo que 7,5 mil MW em centrais movidas a óleo, mais poluentes. Com a expansão desse tipo de energia, autoridades do governo admitem que o volume de emissões de CO2 no setor elétrico passaria dos atuais 14 milhões de toneladas por ano para cerca de 39 milhões em 2017. A conta do instituto ressalta que, considerando a possibilidade de atraso nas obras de 36 hidrelétricas, as emissões de CO2 poderiam chegar a 75 milhões de toneladas anuais em 2017. Para chegar a esse número, o instituto levou em conta a expectativa de que o atraso faria com que cerca de 14 mil MW sejam substituídos por energia de térmicas. O modelo do atual governo se caracteriza pelo aumento de geração de energia mais cara e mais suja, fazendo a hidroeletricidade recuar na matriz elétrica, sem ser substituída por fontes mais limpas. A Aneel divulgou dados que comprovam a tendência de expansão das térmicas. Dos 2.158 MW acrescentados ao sistema em 2008, 1.243 MW (57,64%) são gerados por essas usinas.

Emissão de gases do efeito estufa bate recorde em 2007

Os gases responsáveis pelo aquecimento global atingiram níveis recordes na atmosfera no ano passado, informou a agência de meteorologia da Organização das Nações Unidas (ONU). A concentração de dióxido de carbono (CO2) e de óxido nitroso (N2O) alcançou novas máximas em 2007, e o nível de gás metano teve a maior alta anual em uma década, segundo a Organização Meteorológica Mundial (WMO). Todos os principais gases estufa --CO2, metano e N2O-- atingiram novos picos em 2007. Dois deles, o CO2 e o N2O, estão subindo de forma consistente e não há nenhum sinal de alguma estabilização. Ainda é cedo para dizer se o nível de metano continuará aumentando. Cientistas da ONU têm alertado que o alto nível de gases estufa na atmosfera, emitidos por fábricas, carros e pela produção agrícola, levará ao aumento do nível do mar, a maiores tempestades e a mais ondas de calor e secas. O atual pacto climático, o Protocolo de Kyoto, expira em 2012 e os governos correm agora para chegar a um novo tratado até o fim do próximo ano. Observadores esperam que o novo pacto inclua os Estados Unidos, que não ratificaram o acordo anterior, e que estabeleça um compromisso de países em desenvolvimento, como China e Índia, com metas de emissão de gases. O relatório da WMO acrescentou que os níveis de clorofluorcarbonetos, que atacam a camada de ozônio, continuou em lenta redução, resultado do corte nas emissões acertado no Protocolo de Montreal, em 1987, que tinha o objetivo de proteger a camada que bloqueia raios solares perigosos. O Protocolo de Montreal, através da retirada gradual das substâncias que atacam a camada de ozônio, teve de fato um efeito positivo sobre o clima.

Gases estufa atingiram níveis recordes em 2007

A OMM calcula que o total de gases do efeito estufa na atmosfera aumentou 24,2% em comparação a 1990. Os gases que estariam causando o efeito estufa e as mudanças climáticas atingem níveis recordes na atmosfera. Praticamente às vésperas de mais uma rodada de negociações para a criação de um acordo sobre mudanças climáticas, um órgão das Nações Unidas alerta que todo o esforço internacional para reduzir as emissões de CO2 e de N2O até agora não surtiram efeitos. Segundo a Organização Mundial de Meteorologia (OMM), a concentração de dióxido de carbono e de N2O atingiu em 2007 níveis jamais registrados pelos cientistas. Enquanto isso, o gás metano ainda teve seu maior incremento em uma década. O CO2 e o N2O estão crescendo continuamente e não há sinais de que essa tendência esteja perdendo ritmo. Há comprovações suficientes de que são os gases emitidos que estão colaborando para acelerar as mudanças climáticas em todo o mundo, gerando maiores secas em algumas regiões e inundações em outras. Os alertas da ONU indicam ainda uma elevação dos níveis dos mares e ameaça pelo menos 200 milhões de pessoas que vivem em zonas costeiras. Segundo os dados revelados ontem em Genebra, a concentração de CO2 na atmosfera aumentou em 0,5% entre 2006 e 2007, atingindo o recorde de 383,1 partes por milhão. Desde o século 18, a concentração de CO2 na atmosfera aumentou em 37%. O que assusta os cientistas é que, desde 1990, esse aumentou foi de 24%. A concentração de N20 aumentou em 0,25%. Sobre o gás metano, a ONU alerta que seria cedo demais para concluir que o aumento recorde de 2007 seja uma tendência que será observada no futuro. O gás é gerado por atividades humanas como combustão de energia fóssil e na agricultura. O tema será alvo das negociações que começam na próxima semana na Polônia. O Protocolo de Kyoto esperava impedir um crescimento das emissões. Mas está fracassando. O Estado revelou há um mês com exclusividade que os níveis de crescimento de emissões estavam batendo todos os recordes nos últimos anos, mesmo diante de medidas de controle. Nas negociações diplomáticas, a insistência dos governos será a de que países emergentes como a China, Índia e Brasil aceitem cortes profundos em suas emissões nas próximas duas décadas. Os países emergentes alegam que não seria justo a imposição de amplas limitações, já que afetariam sua capacidade de crescer. Além disso, estariam pagando por uma poluição que foram os países ricos que geraram nos últimos 30 anos. Mas para a chanceler alemã, Angela Merkel, sem a limitação das emissões dos países emergentes, os níveis de concentração de CO2 na atmosfera continuarão aumentando e nenhuma ação dos países ricos será suficiente para conter essa elevação. Outra esperança é de que o governo americano, com o presidente eleito Barack Obama, apresente uma posição mais favorável a lutar contra as mudanças climáticas e as emissões de CO2. O governo de George W. Bush não aceitou Kyoto.

Boletim da ONU aponta concentração recorde de gás carbônico na atmosfera em 2005

A concentração de gás carbônico na atmosfera registrou nível recorde em 2005, quando a quantidade do gás na atmosfera foi de 379,1 partes por milhão. O número representa um aumento de 0,53% em relação ao ano anterior, quando a concentração era de 377,1 partes por milhão. Os dados estão no boletim da Organização Metereológica Mundial, das Nações Unidas. O gás carbônico é o segundo fator responsável pelo agravamento do efeito estufa e pelo superaquecimento da Terra. O aumento do nível no ambiente se deve, em grande medida, às emissões relacionadas ao consumo de combustíveis fósseis, destaca o relatório. Desde o final do século 17 foi registrada uma elevação de 35,4% na concentração de gás carbônico na atmosfera. Cresceu também, entre 2004 e 2005, a concentração de óxido nitroso – mais 0,19%, o que resulta em 319,2 partes por bilhão. O óxido nitroso é liberado devido ao consumo de combustíveis, combustão de biomassa, uso de fertilizantes e de alguns processos industriais. As concentrações de gás metano, de acordo com o boletim, mantiveram-se estáveis. A publicação do boletim com os dados que mostram o agravamento da emissão de gases tóxicos ocorreu às vésperas da reunião das partes do Protocolo de Quioto, em Nairóbi (Quênia), entre os dias 6 e 17 de dezembro de 2009. A reunião ocorrereu paralelamente à conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas.

Seca na Amazônia prejudica absorção de carbono

A demora no crescimento da floresta amazônica durante uma seca pode reduzir sua capacidade de absorver carbono da atmosfera, afirma uma pesquisa elaborada por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas, de Manaus, entre outros, e publicada nesta quinta-feira, 5, pela revista Science. O estudo foi elaborado por dezenas de cientistas, entre eles Ieda Amaral e Atila Cristina Alves de Oliveira, do Instituto Nacional de Pesquisas; Abel Monteagudo, do Jardim Botânico de Misuri en Pasco (Peru); e Gerardo Aymard, da Universidad Nacional Experimental de los Llanos (Venezuela). A selva amazônica é um componente essencial, mas pouco compreendido do ciclo global do carbono. Se - como se adverte - secar neste século, isso pode acelerar a mudança (climática) por perda de carbono e modificações na energia de superfície. As selvas da Amazônia armazenam 120 petagramas (120 bilhões de toneladas) de carbono em sua biomassa. A cada ano, segundo os pesquisadores, 18 bilhões de toneladas de carbono são absorvidas da atmosfera nas fotossínteses e liberadas na atmosfera pela respiração. O estudo, do qual também participaram cientistas de Bolívia, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Holanda, França e Alemanha, enfatizou a capacidade destas florestas úmidas para frear a concentração de dióxido de carbono e a mudança climática. Para esta pesquisa os cientistas empregaram registros de diversos lotes de observação em toda a Amazônia a fim de avaliar as respostas da floresta à intensa seca de 2005, que descreveram como "uma possível analogia de eventos futuros". Os pesquisadores analisaram as mudanças na biomassa de árvores e descobriram que a taxa de crescimento florestal diminuiu significativamente durante a seca, que matou, de maneira seletiva, as árvores de crescimento rápido com baixa densidade de madeira. Repetido em grande escala, este efeito pode afetar a capacidade da floresta de se regenerar, apontaram.

Pesquisadores discutem projeto para redução das emissões por desmatamento

Pesquisadores da Rede GEOMA e The Nature Conservancy (TNC) participaram de reunião sobre o Projeto Piloto REDD São Félix do Xingu, voltado a redução de emissões e mitigação das mudanças climáticas, nos dias 28 e 29 de janeiro/2010 no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em São José dos Campos (SP). A iniciativa, que pretende aliar conservação e uso sustentável dos recursos florestais com o desenvolvimento socioeconômico do Pará, será discutida no âmbito dos projetos “Modelagem de Arranjos Institucionais e Mudanças de Uso da Terra em Múltiplas Escalas” e “Land Use Change in Amazonia: Institutional Analysis and Modelling at multiple temporal and spatial scales (LUA/IAM)”, da Rede Temática em Pesquisa de Modelagem Ambiental da Amazônia – GEOMA, da qual faz parte o INPE. O projeto piloto de Redução de Emissões pelo Desmatamento e Degradação Florestal (REDD) em São Feliz do Xingu é uma proposta do Governo do Estado do Pará e The Nature Conservancy (TNC), em colaboração com vários parceiros estaduais e locais. Para os especialistas, a redução efetiva do desmatamento e degradação florestal exige alternativas sustentáveis de produção compatíveis com a valorização da floresta em pé. É preciso contemplar áreas privadas, terras indígenas e unidades de conservação, bem como promover a capacitação dos atores locais e o fortalecimento das instituições, desenvolver um sistema de monitoramento e ainda viabilizar recursos para os incentivos necessários. Os pesquisadores da Rede GEOMA irão discutir os alcances e dificuldades do processo para estabelecimento do projeto, bem como sua influência sobre os sistemas de uso da terra na área. Os principais temas em estudo são: · Questões de ordenamento fundiário e territorial (diferentes modalidades de unidades territoriais – unidades de conservação, terras indígenas, assentamentos – e suas regras de uso). · Mercados, cadeias produtivas e atuação de agentes privados e organizações coletivas (cadeias de commodities, cadeias de produtos da floresta e biodiversidade, serviços ambientais, REDD, certificação ambiental e pressão de mercados consumidores etc.). · Medidas de controle do desmatamento (ações de comando e controle, limitações de crédito, responsabilização das cadeias e dos municípios ou outras instituições locais). · Políticas de crédito para diferentes setores, incluindo para indústrias (siderúrgicas, frigoríficos, lacticínios), mineração e diferentes atores e/ou atividades agrícolas.

UE e EUA formalizam adesão ao ‘Acordo de Copenhague’

UE e EUA formalizam adesão ao ‘Acordo de Copenhague’, compromisso voluntário de redução de emissões de CO2. EFE – Comissão Europeia reafirma que só ampliará seu compromisso se outros países também assumirem cortes. União Europeia (UE) formalizou, perante as Nações Unidas, o compromisso com a redução de emissões de dióxido de carbono (CO2) para 2020 mediante uma carta, na qual também anunciou seu apoio oficial à Declaração de Copenhague. A Espanha, que exerce a Presidência rotativa da UE, e a Comissão Europeia (CE) notificaram de maneira conjunta à ONU a intenção comunitária de reduzir até 2020 as emissões de CO2 em 20%. Também propuseram reduzir até 30%, caso outros “grandes emissores aceitem assumir uma parte justa dos esforços de redução global”. A UE espera que os países industrializados “se comprometam com reduções proporcionais das emissões” e que as nações em desenvolvimento “contribuam de forma adequada de acordo com suas responsabilidades e capacidades”. A carta enviada pela UE envolve também o apoio oficial ao acordo da cúpula de Copenhague em dezembro/2009, que entre outras coisas obrigava os países a notificarem seus compromissos com a redução de CO2 antes de 31 de janeiro/2010. “Estamos trabalhando conjuntamente com nossos parceiros a fim de iniciar os elementos do Acordo de Copenhague o mais breve possível e construir o caminho para conseguir uma Conferência das Partes bem-sucedida no México”, assegurou em comunicado a ministra do Meio Ambiente espanhola, Elena Espinosa. “A UE tem uma responsabilidade histórica, além das capacidades e experiência para integrar a mudança climática em seu modelo de crescimento e desenvolvimento, assim como em sua relação com terceiros”, acrescentou. Em linhas gerais, a carta também reitera o compromisso de continuar trabalhando por um acordo internacional sobre mudança climática que substitua o Protocolo de Kyoto a partir de 1º de janeiro de 2013. Além disso, reconhece que para respeitar o objetivo dos dois graus as emissões globais deverão ter chegado a seu ponto mais alto como muito tarde em 2020 e ser reduzidas à metade em 2050 em comparação com os níveis de 1990 e continuar essa tendência daí em diante. Para consegui-lo, e em linha com as recomendações do Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC), os países industrializados devem cortar as emissões de CO2 à atmosfera entre 25% e 40% até 2020. As nações em desenvolvimento, por sua vez, devem limitar o crescimento de suas emissões entre 15% e 30%, reconhece a carta. “A UE está decidida a pôr rapidamente em andamento o acordo de Copenhague”, assegurou em comunicado o presidente da CE, José Manuel Durão Barroso. Os líderes europeus analisarão os resultados da cúpula de Copenhague e os passos a seguir até a do México, em novembro, em reunião informal no dia 11 de fevereiro. EUA adotam oficialmente acordo climático de Copenhague REUTERS – Os Estados Unidos notificaram oficialmente a Organização das Nações Unidas (ONU) nesta quinta-feira de que adotaram o Acordo de Copenhague, estabelecendo objetivos não obrigatórios para reduzir as emissões de gases-estufa que foram negociados no mês passado. Todd Stern, o principal negociador de clima do governo de Barack Obama, também destacou que, como era esperado, o país vai almejar uma redução de 17 por cento nas emissões de dióxido de carbono e outros gases responsáveis pelo aquecimento global até 2020, com 2005 como o ano base.Um objetivo final de redução de emissões será submetido, disseram os EUA, assim que o Congresso promulgar a legislação interna exigindo as reduções de poluição de carbono. Mas essa legislação tem destino incerto no Senado.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Amazônia só tolera mais 3% de desmate

Floresta já perdeu 17% da extensão original; se número chegar a 20%, mata começa a se reduzir sozinha, diz relatório. Cobertura vegetal precisa de área mínima para resistir ao aquecimento global; trabalho compilou estudos a pedido do Banco Mundial. Se o desmatamento da Amazônia, que já consumiu 17% da floresta, atingir a marca de 20%, o aquecimento global se encarregará de destruir o que sobrou, afirma uma compilação de estudos sobre a região feita pelo Banco Mundial. As conclusões do documento, que reúne vários estudos publicados nos últimos anos, levam em conta simulações do comportamento da Amazônia em diferentes cenários projetados pelo IPCC (painel do clima da ONU). Os cientistas identificaram que o efeito conjunto de incêndios, desmatamento e mudança climática empurra a floresta para um estado onde ela perde sua "massa crítica" para sobrevivência. Como as árvores tropicais são importantes para regulação do clima e do regime de chuvas, forma-se uma espécie de efeito dominó que afeta todo o bioma. No pior cenário, a floresta da Amazônia encolhe 44% até 2025. O volume das precipitações tende a aumentar durante o período de chuvas e diminuir nos de seca, afetando a vazão dos rios de toda a bacia. O leste da Amazônia, que é contíguo ao Nordeste, terá as consequências mais graves. O período de seca aumentará e o clima mais quente contribuirá para o avanço da vegetação típica do semiárido. Até 2025, a região poderá perder 74% de sua atual área de floresta. Já no sul da Amazônia, pelo menos 30% dessa área de floresta tropical terá sido substituída por cerrado até 2025. Assim como a caatinga, esse tipo de vegetação tem árvores menores, que absorvem menos gás carbônico da atmosfera. Mais carbono no ar, então, contribui para o aquecimento global, expandindo os impactos para o resto do país. No Nordeste, por exemplo, as estiagens devem se tornar ainda mais prolongadas, prejudicando a agricultura e a geração de energia elétrica na região. "É a primeira vez que um trabalho avalia esses abalos [aquecimento global, incêndios e desmatamento] conjuntamente. A situação é grave. Precisamos tomar medidas imediatas", avalia Thomas Lovejoy, presidente do Comitê Científico Consultivo Independente do relatório do Banco Mundial. Embora indique que parte das perdas na Amazônia sejam inevitáveis, o documento propõe ações de reflorestamento como solução. Estudioso da região há mais de 30 anos, Lovejoy afirma que elas são "imprescindíveis" e devem começar pela Amazônia oriental. Para Carlos Nobre, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o reflorestamento é importante, mas insuficiente. "Não adianta nada se os países não diminuírem as emissões de gases-estufa", diz.

Terra seca, rios cheios

Terra seca, rios cheios: Circulação das massas de ar prejudica até mesmo áreas distantes das desmatadas. Cortar florestas não causa apenas transformações locais como a erosão do solo. Pode também provocar mudanças mais abrangentes, num primeiro momento aumentando e depois reduzindo o volume de água dos principais rios de uma região. A redução de chuva que deve se seguir pode afetar também áreas distantes da que foi desmatada, por causa da circulação de massas de ar na baixa atmosfera, de acordo com estudos recentes de pesquisadores de Minas Gerais e dos Estados Unidos sobre a Floresta Amazônica. “Sem a vegetação nativa, que libera parte da água da chuva para a atmosfera na forma de vapor, mais água vai escoar para os rios, mesmo que o volume de chuvas não aumente”, diz Marcos Costa, professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Minas Gerais. Costa é um dos autores do artigo publicado em maio deste ano na Journal of Hydrology com esses resultados, obtidos por meio de observações de campo e simulações matemáticas de mudanças no uso da terra e na atmosfera sobre o regime de chuvas. A maior oscilação do nível dos rios pode ter sérias consequências para quem vive perto deles – já que inundações mais severas podem preceder secas mais dramáticas – e para a geração de energia elétrica – já que as hidrelétricas são planejadas com base em oscilações regulares da vazão dos rios. Rios próximos de terras desmatadas já transportam mais água, em resposta a transformações ambientais das últimas décadas. Em um estudo de 2003 na Journal of Hydrology, Costa e dois colegas da Universidade de Wisconsin verificaram que o volume de água aumentou em média 25% nos principais rios da bacia hidrográfica Araguaia-Tocantins na comparação entre 1949-1968 e 1979-1998. “Esse aumento de vazão é importante porque estamos falando de médias de longo prazo, de 20 anos ou mais, em uma escala temporal em que a variação deveria ser mínima ou nula”, diz Costa. Essa rede de rios irriga cerca de 10% do território nacional, uma área equivalente a três vezes o estado de São Paulo. “Ninguém imaginava que esses efeitos já estivessem ocorrendo.” Outra conclusão é que nas duas últimas décadas a época de vazão mais intensa do Tocantins tem começado um mês antes, implicando potenciais alterações na capacidade de geração de energia nas quatro hidrelétricas do Tocantins – uma delas, a de Tucuruí, é a segunda maior do Brasil. “Essas informações são importantes e têm de ser levadas em conta no planejamento de aproveitamento de recursos hídricos”, diz Benedito Braga, diretor da Agência Nacional das Águas (ANA), que conheceu os resultados desse estudo em um seminário na Suécia em 2007. O plano estratégico da bacia hidrográfica dos rios Araguaia e Tocantins, apresentado este ano pela ANA, prevê a construção de 13 hidrelétricas até 2016. Áreas vulneráveis – A bacia amazôni­ca pode perder de 25% a 40% das matas nativas até 2050 se o ritmo de desmatamento se mantiver, segundo estudo publicado por Britaldo Soares-Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais, em 2006 na Nature. “As regiões com maior desmatamento devem sofrer alterações mais acentuadas”, afirma Soares–Filho. Na bacia do Tocantins, uma das mais transformadas pela agropecuá­ria, a perda da vegetação nativa pode passar dos atuais 58% para 80%, em um cenário de controle governamental intenso sobre o desmatamento, ou 90%, com uma governança fraca. Rios como o Araguaia, o Xingu, o Tapajós e o Madeira, que atravessam áreas de desmatamento intenso, também estão sujeitos a transformações drásticas até a metade deste século. Mesmo a bacia do rio Juruá, hoje quase toda coberta por florestas, poderá perder de 21% a 43% da vegetação natural até 2050. Adaptações para amenizar o impacto de enchentes mais intensas podem se tornar inúteis num segundo momento, quando o problema passa a ser a redução do volume de água dos rios, outra consequência da redução da vegetação natural – desta vez sobre a atmosfera. No estudo mais recente, Costa, Soares-Filho e Michael Coe, pesquisador do Woods Hole Research Center, Estados Unidos, descrevem a sequência de fenômenos que produz esse efeito: o desmatamento reduz o volume de vapor d’água liberado pelas plantas para a atmosfera pela transpiração, já que haverá gramíneas onde antes havia árvores. A água de chuva escorrerá para os rios, sem voltar para as nuvens e alimentar novas chuvas. Como o ar perto da terra nua vai esquentar mais que antes, o fluxo de calor e a circulação de ar devem se alterar. Pode chover menos também em áreas distantes da desmatada, já que o vento vai carregar por mais tempo o ar agora mais seco. O desmatamento em Goiás ou Mato Grosso pode reduzir em 10% a vazão do rio Negro e de outros a norte e noroeste da Amazônia que cortam terras praticamente intocadas. A extensão do desmatamento determina o impacto no regime de chuvas. Coe, Costa e Soares-Filho concluí­ram que a quantidade de chuva sobre uma região deve permanecer estável enquanto as matas nativas cobrem pelo menos metade da área. “O desmatamento previsto para 2050, mesmo com ação governamental, basta para fazer a chuva começar a diminuir”, diz Costa. Essa redução acontece quando de 40% a 65% da área foi desmatada. “O efeito superficial do desmatamento continua, mas a vazão dos rios não aumenta como antes e, a partir de um momento, começa a cair.” Por alterar o espaço e gerar incertezas sobre possíveis usos do território, o sobe-e-desce dos rios amazônicos, em escalas ainda maiores que as atuais, “pode inviabilizar o planejamento econômico e social da região”, diz o economista Francisco de Assis Costa, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, um dos coordenadores do livro recém-publicado Um projeto para a Amazônia no século 21: desafios e contribuições. Os coordenadores do livro, Bertha Becker, Costa e Wanderley Messias da Costa, valorizam a rede fluvial como uma vantagem competitiva da Amazônia para o transporte de cargas e de moradores, mas a possibilidade de redução do volume de águas pode prejudicar a integração com outros meios de transporte, como o aéreo e o reforço da infraestrutura das cidades, a maioria delas às margens de rios.

Ministro prevê fim do desmatamento causado pela pecuária na Amazônia

O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, disse em setembro de 09 que a implantação de um sistema de guia eletrônica georreferenciada desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) será de grande relevância para tornar possível que a pecuária deixe de desmatar na Amazônia. “Tenho convicção de que, a partir da implantação de uma guia de trânsito eletrônica georreferenciada, poderemos começar a vislumbrar uma atividade pecuária sem desmatamento na Amazônia”, afirmou o ministro. O monitoramento deve estar funcionando a partir de 1o de janeiro em uma área piloto do estado do Pará, e abrangerá uma área de 140 mil quilômetros quadrados. “Por meio dessa guia eletrônica será possível dar rapidez e, em tempo real, controlar a saída e a chegada de bois nas propriedades”, explicou Stephanes durante audiência pública realizada na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado. “Pelo satélite localizaremos a fazenda e identificaremos, em intervalos de seis meses, se houve ou não desmatamento nessa propriedade. Caso tenha desmatado, a fazenda não receberá novamente a guia e com isso não poderá mais fornecer gado”, disse o ministro à Agência Brasil, após participar da audiência. Stephanes lembrou que apesar de a pecuária ser individualmente a maior responsável pelos desmatamentos na região, há outras frentes de desmatamento que precisam ser combatidas. “Mas com esse rastreamento teremos condições de melhorar consideravelmente a situação”. Segundo ele, o projeto será implantado sem a participação do Ministério do Meio Ambiente, uma vez que “a relação com a Pasta é difícil”. Stephanes participou de audiência pública na Comissão de Agricultura do Senado, na qual foi discutido o índice de produtividade rural. Também participou dos debates o engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Eliseu Alves.

Mato Grosso continua a registrar queda no desmatamento

De acordo com dados do sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em agosto/09 foram desmatados na Amazônia Legal, por corte raso ou degradação progressiva, 498 km². Desse total, 301 km² foram registrados no estado do Pará e 105 km² em Mato Grosso. Nos últimos dois boletins divulgados pelo sistema de alerta, nos meses de junho e julho, Mato Grosso vem apresentando queda nos números do desmatamento. Em julho, dos 836 km² de desmatamento detectados pelos satélites na Amazônia Legal, 123 km² foram em Mato Grosso e no mês de junho, dos 578 km² registrados na Amazônia Legal, os satélites detectaram no estado 180 km² de áreas desmatadas. O secretário adjunto de Qualidade Ambiental, da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Salatiel Araújo disse estar otimista com relação a queda do desmatamento no estado. “O acumulado dos indícios de desmatamento no período de agosto/08 a julho/09 para Mato Grosso foi de 1.427.57 km², ou 68% dos indícios de desmatamento detectados no período de agosto de 2007 a julho de 2008. De abril a agosto foi o período onde foi registrado historicamente no sistema Deter os maiores valores em área de indícios de desmatamentos. Esperamos, portanto, que a quantidade e a área dos indícios de desmatamentos a serem detectados nos próximos meses sejam cada vez menores”. Para ele, a redução dos desmatamentos em Mato Grosso se deve principalmente, ao trabalho que vem sendo realizado pelo Governo do Estado e pelo Governo Federal, para conter o desmatamento na região. Esse trabalho envolve ações de educação ambiental, fiscalização, monitoramento e responsabilização, com utilização de tecnologias modernas (como as imagens SPOT) e, constantes vistorias em campo. Ainda de acordo com Salatiel Araújo “soma-se a isso, a constatação de que a sociedade mato-grossense possui hoje, uma maior consciência dos malefícios que a degradação ambiental pode trazer e traz para a sua vida e a de seus filhos”. Em relação a expectativa de redução do desmatamento do tipo corte raso em Mato Grosso, ela deve ser confirmada pela taxa anual de desmatamento para o período (agosto/08 a julho/09) calculada pelo Projeto de Monitoramento do Desflorestamento na Amazônia Legal (Prodes), que deve ser divulgada no próximo mês de outubro. “A estimativa dos governos federal e estadual é de que os números sejam os menores registrados nos últimos 22 anos. Estima-se que o desmatamento do tipo corte raso chegue a algo em torno de 1.300 km² em Mato Grosso. Essa estimativa apóia-se nos dados do Deter, uma vez que tradicionalmente, entre 60 e 70% do desmatamento detectado por esse sistema é caracterizado como corte raso na região Amazônica”. Nos números do desmatamento divulgados em 29/09/09, Rondônia e Amazonas tiveram respectivamente 51 km² e 22 km², enquanto os demais estados apresentaram índices menores que 7 km², em agosto, mês em que a baixa ocorrência de nuvens na Amazônia permitiu a observação de 83% da região. DETER Em operação desde 2004 o Deter é um sistema de alerta baseado em satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) feito mensalmente com dados do sensor MODIS do satélite Terra/Áqua e do Sensor WFI do satélite CBERS, de resolução espacial de 250 m. O Deter foi desenvolvido como um sistema de alerta para suporte à fiscalização e controle de desmatamento. O sistema indica tanto áreas de corte raso, quando os satélites detectam a completa retirada da floresta nativa, quanto as áreas classificadas como degradação progressiva, que revelam o processo de desmatamento na região.

Estudo do Imazon estima que 76% dos crimes ambientais ocorrem em área protegida

Desmatamento na Amazônia Já se sabe que muitos crimes ambientais ocorrem dentro de unidades de conservação, como parques e reservas, e de áreas indígenas. Mas um estudo divulgado ontem mostra que, de pelo menos 1.200 infrações na Amazônia ocorridas entre janeiro de 1998 e março de 2008, 76% foram registradas em áreas de proteção integral, ou seja, que não poderiam ser alteradas pelo homem. Os dados são do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Segundo o órgão, o número de crimes é subestimado, pois nem todos eles são detectados pelo governo e, em muitos casos, a forma de cadastramento das multas não especifica a sua localização. Os Estados de Rondônia e Pará somaram 82% dos casos identificados em áreas protegidas. Segundo Paulo Barreto, pesquisador do Imazon e um dos autores do estudo, as áreas mais suscetíveis aos crimes estão próximas das estradas. Por isso, diz o engenheiro florestal, o governo precisa reforçar a capacidade de prevenção e punição dos crimes antes de ampliar a infraestrutura na região amazônica. “O governo tem melhorado a fiscalização, mas, normalmente, chega atrasado, quando o dano já ocorreu. É preciso uma vigilância mais sistemática”, afirma Barreto. O desmatamento, a queimada e a exploração de madeira foram as infrações mais comuns. “Normalmente, a detecção dos crimes ocorre em operações especiais. Mas, se os fiscais ficassem mais tempo nas áreas, talvez encontrassem muita caça”, explica ele. IMPUNIDADE Lideram o ranking das áreas protegidas com maior valor de multas aplicadas no período avaliado a Reserva Biológica Jaru (Rondônia), a Floresta Nacional de Carajás (Pará) e a Floresta Nacional do Jamanxim (também no Pará). A primeira somou R$ 7,7 milhões em multas, a segunda, R$ 2 milhões e a última, R$ 1,9 milhões. Os crimes em áreas protegidas continuam existindo em razão da impunidade, de acordo com o estudo do Imazon. O IBAMA concluiu menos de 5% dos casos avaliados no estudo. Cerca de 70% dos casos ainda estavam em análise antes da homologação pelo gerente executivo ou superintendente – metade deles estava nessa fase entre dois e oito anos. Até outubro de 2008 estavam em andamento no IBAMA 37,6 mil processos contra infrações ambientais em todo o Brasil, somando R$ 9,5 bilhões em multas.Na tentativa de agilizar a cobrança das multas ambientais de alto valor e obrigar a recuperação da área degradada, o IBAMA anunciou neste mês que vai centralizar em Brasília as autuações iguais ou maiores a R$ 2 milhões. Atualmente, elas são avaliadas inicialmente nos Estados onde a infração aconteceu. “As multas maiores correspondem aos danos maiores”, explicou a procuradora-geral do IBAMA, Andréa Vulcanis.

Ambientalistas e ruralistas travam combate ao desmatamento no cerrado

Ambientalistas e ruralistas travam novo round com o plano de combate ao desmatamento no cerrado. Crônica de mais uma guerra anunciada. A ala ambientalista do governo vai apertar mais ainda o cerco ao setor do agronegócio a partir do ano que vem. É quando o Ministério do Meio Ambiente (MMA) pretende colocar em prática um plano inédito de combate ao desmatamento no cerrado, região onde se concentra a maior área de produção agrícola do país. Reportagem de Danielle Santos, do Correio Braziliense. Questionado sobre o entendimento com o setor do agronegócio, representado pelo ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, adiantou que a queda de braço será ainda maior que aquela travada em meio às ações de monitoramento das áreas devastadas na Amazônia, mas que espera cooperação. “É claro que a primeira reação será a de que é um absurdo, de que querem asfixiar o cerrado, mas isso não é verdade. A intenção é criar mecanismos que deem um estímulo econômico a atividades sustentáveis que produzam muita carne, muito grão, mas sem acabar com nossa biodiversidade.” O embate entre as duas áreas está longe de ser novidade. Mas desta vez deve se agravar. Para defender as suas intenções de proteger o restante da área nativa do cerrado, que corresponde a 51,8%, Minc diz que trabalhará duro – apesar de ter no cofre, por enquanto, modestos R$ 400 milhões – no controle e monitoramento, defesa de reservas legais, fomento a atividades sustentáveis, recuperação de área degradada, revitalização de bacias hidrográficas. E que não temerá o rancor do setor agrícola. “Eu acho que quem quer sentar em uma cadeira para defender os biomas brasileiros e tem medo dos desmatadores deve procurar outro cargo.” O novo plano de combate ao desmatamento no cerrado é apenas mais um de vários temas espinhosos que o ministro do Meio Ambiente tenta enfiar goela abaixo dos ruralistas. Os dois lados também têm opiniões divergentes, por exemplo, sobre o novo código florestal, que regulará a produção agrícola em áreas consolidadas como morros, topos e encostas, e definirá a quantidade da reserva permitida para plantio. O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, deputado Valdir Colatto (PMDB/SC), vê com espanto a nova proposta do ministro e alfineta, dizendo que esse tipo de informação só é boa para a oposição. “O presidente Lula que me desculpe, mas quem tem um ministro como esse não precisa ter opositor. Se essa maluquice que ele (Minc) inventou sair do papel, teremos que decidir o que será prioridade para o Brasil, plantar, gerar economia ou virar tudo área protegida, como na Amazônia.” Na Chapada O deputado da bancada ruralista foi além e comparou o poder de decisão do ministro dentro do governo com a postura adotada por ele durante um evento extraoficial na véspera do feriado de 7 de setembro. “Você acha que alguém que faz apologia à maconha numa festa na Chapada (dos Veadeiros) é capaz de resolver alguma coisa que ajude o Brasil? Enquanto o Lula der corda para ele, é isso o que vai acontecer. Tenho dito que ele (Minc) não planta o que ele fuma.” A aparição de Minc da qual o parlamentar cita foi filmada e circula na internet. Nela, o ministro aparece em cima de um palco durante um show de reggae na Chapada dos Veadeiros (GO). Embalado pelo som, ele discursou sobre temas variados, que tratavam desde a descriminalização do uso da maconha ao resultado do último jogo entre Brasil e Argentina.

Meta vai depender do controle do desmatamento

Para conseguir reduzir suas emissões de CO2, o Brasil precisa prioritariamente diminuir o desmatamento da floresta amazônica, que ainda é a maior fonte no País de gases-estufa. Para isso, o governo criou o Plano Nacional de Mudanças Climáticas. E, se for cumprir a meta de diminuir em 40% a média anual de desmate no período 2006-2009, em relação à média dos dez anos anteriores, o desmatamento não poderá ser maior do que 8.250 km². A redução do desmatamento tem a vantagem de não depender de grandes revoluções tecnológicas. E a boa notícia é que o desmate caiu 46% nos últimos 12 meses em relação ao igual período anterior. Porém, as informações de junho e julho deste ano preocupam: houve aumento de 18,5% em relação aos mesmos dois meses de 2008. E o desmate está cada vez mais espalhado (não mais concentrado nas bordas da floresta com o cerrado). OUTROS FATORES Dados apresentados pelo Ministério do Meio Ambiente no último dia 27 mostraram que os combustíveis e a indústria passaram a ter, em pouco mais de dez anos, uma importância muito maior como poluidores. Segundo a pasta, as emissões de carbono das indústrias cresceram 77% entre 1994 e 2007. No mesmo período, a emissão por queima de combustíveis fósseis subiu 49%. O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) afirmou que a importância desses setores deverá subir de 18% em 1994 para algo entre 25% e 30%. O desmatamento seria responsável por 55% ou 60% das emissões, contra 75% em 1994. Os dados são uma estimativa feita com números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Empresa de Planejamento Energético e da própria indústria. No fim do ano, será divulgado um inventário completo. No setor energético, o Plano Decenal apresentado contradiz a intenção de reduzir emissões: prevê dobrar o parque termoelétrico.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Amazônia absorve quase toda a emissão de CO2 do País

O Brasil lança por ano na atmosfera o equivalente a 1,5 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2, molécula formada por um átomo de carbono e dois de oxigênio). A Amazônia tem capacidade para retirar por ano da atmosfera, por fotossíntese, entre 1 bilhão e 2 bilhões de toneladas de dióxido de carbono. Subtraia um pelo outro e a contribuição do Brasil para o aquecimento global pode chegar a zero. Tudo que o Brasil joga para cima, a floresta puxa de volta para baixo. Os números são baseados em estimativas do Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), comparadas com o inventário nacional de emissões e cálculos do Centro de Estudos Integrados sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (Centro Clima) da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O Brasil é um dos países que mais produzem gases do efeito estufa, com emissões totais comparáveis às de países do Primeiro Mundo, como Alemanha e Japão. Por ser um país em desenvolvimento, porém, está isento de metas compulsórias para reduzir suas emissões dentro do Protocolo de Kyoto. Mas a pressão é forte para que o País assuma compromissos mais significativos no futuro - especialmente agora, com a abertura das negociações para um novo acordo climático pós-Kyoto. A Amazônia é peça central nesse debate. Quase 80% das emissões de CO2 do Brasil têm origem no desmatamento - na conversão de áreas de floresta e cerrado para pastos e plantações. Qualquer redução significativa das emissões brasileiras, portanto, passa obrigatoriamente por uma redução do desmatamento. Essa é a cara feia da Amazônia, transformada em vilã do clima pela ação do homem. Poupada do fogo e dos motosserras, porém, a atitude da floresta se inverte. Enquanto o desmatamento acrescenta carbono à atmosfera, a conservação da floresta o subtrai. Segundo dados recentes publicados pelo LBA, a Amazônia tem capacidade para "seqüestrar" da atmosfera algo entre 300 milhões e 600 milhões de toneladas de carbono por ano. Isso equivale, no mínimo, a 1,09 bilhões de toneladas de CO2 (a molécula de CO2 livre na atmosfera é mais pesada do que o carbono sozinho, incorporado aos tecidos vegetais, por isso a diferença nos números). No limite máximo de absorção, esse volume pode chegar a 2,2 bilhões de toneladas de CO2/ano. Esses são valores para a Bacia Amazônica inteira (cerca de 6 milhões de km2), que inclui nove países. Ainda assim, só a Amazônia brasileira (com 3,5 milhões de km2, descontados os 17% de desmatamento da cobertura florestal original) já seria suficiente, sozinha, para absorver entre 50% e 100% das emissões de gás carbônico do Brasil, segundo os limites do LBA. Segundo o inventário nacional de emissões, publicado em 2004 pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), o Brasil lança anualmente na atmosfera 1,03 bilhão de toneladas de CO2, 13 milhões de toneladas de metano e 550 mil toneladas de óxido nitroso - os três principais gases relacionados ao aquecimento global. Transformando tudo isso para dióxido de carbono (coeficiente conhecido como CO2 equivalente, usado como referência pela Convenção do Clima para medir a contribuição total de cada país para o efeito estufa), chega-se a um total de, aproximadamente, 1,5 bilhões de toneladas. Os dados do inventário são um retrato do Brasil de 1994, conforme estipulado pelas regras da convenção. No cenário atual, é certo que as emissões aumentaram. Mas não se sabe quanto, ainda. Um novo inventário está sendo preparado neste momento pelo MCT, com dados atualizados para 2002 - ou até 2005, para alguns setores. O Brasil se desenvolveu desde 1994; a população aumentou, o consumo de energia cresceu, portanto é esperado que as emissões também aumentem. É improvável, porém, que o crescimento neutralize a capacidade de absorção da Amazônia. As variáveis são muitas: o desmatamento aumentou, depois diminuiu. A indústria cresceu, o consumo de gasolina no transporte caiu. A meta é publicar o novo inventário até 2009. O governo brasileiro prefere não utilizar a medição de CO2 equivalente, por discordar da metodologia de transformação dos gases usada pela Convenção do Clima. Melhor até para inflar o moral da Amazônia, pois, se a comparação for feita apenas com as emissões de CO2 puro (1,03 bilhão de toneladas/ano), o lucro de absorção da floresta se torna ainda mais polpudo. Os cientistas ressaltam que esses valores não são definitivos, que há margens de erro e que os números ainda precisam ser refinados com mais pesquisas. Ainda assim, segundo vários especialistas consultados, a Amazônia tem capacidade para amortizar substancialmente, ou até zerar, as emissões de gás carbônico do Brasil. São evidências, mas importantíssimas. O valor disso para a conservação da floresta é enorme. Não só deixamos de emitir via desmatamento, mas ainda seqüestramos carbono via manutenção da floresta. Politicamente, nada disso tem valor. Pelas regras da Convenção do Clima, somente fatores antrópicos (resultantes de intervenção humana) podem ser contabilizados no balanço de carbono, para mais ou para menos. As florestas são consideradas sorvedouros naturais (independentes da ação do homem), por isso não podem ser usadas para abater CO2 da conta de emissões do País. Ecologicamente, porém, é um benefício que não pode ser ignorado. Mesmo que não seja 100%, é um serviço ambiental gigantesco que a floresta está prestando. Mais uma razão para manter a floresta em pé. A cada árvore que cai, o Brasil ganha em emissões e perde em absorção. É prejuízo dos dois lados da balança. O CO2 é o principal gás causador do efeito estufa, funcionando como um cobertor atmosférico que aprisiona calor na superfície da Terra. Ele é consumido no processo de fotossíntese e parte do carbono é incorporada aos tecidos vegetais das plantas em crescimento. Quando a floresta é derrubada e queimada, esse carbono é liberado para a atmosfera, da mesma forma que ocorre na queima de combustíveis fósseis, como a gasolina. Pesquisadores estimam que a Amazônia contenha até 100 bilhões de toneladas de carbono (ou 366 bilhões de toneladas de CO2) estocadas em sua vegetação - o equivalente a quase dez anos de emissões globais de CO2 por todas as atividades humanas. Cada hectare de floresta guarda entre 120 e 150 toneladas de carbono, dependendo do tipo de vegetação (e das estimativas dos cientistas). Calcula-se uma média de emissão de 22 mil toneladas de CO2 por quilômetro quadrado desmatado e queimado na Amazônia. Por esse cálculo, o desmatamento acumulado dos últimos três anos (60.177 km²) lançou na atmosfera 1,3 bilhão de toneladas de CO2 - quantidade que a cidade de São Paulo leva mais de 80 anos para emitir, com todos os seus carros e indústrias, segundo um inventário publicado pelo Centro Clima da Coppe/UFRJ. O raciocínio inverso é igualmente relevante: se o desmatamento não tivesse ocorrido, a mesma quantidade de CO2 teria deixado de ser emitida, além do carbono que deixará de ser absorvido pela perda da floresta. É algo que precisa ser valorizado. Hoje, o Protocolo de Kyoto não reconhece o "desmatamento evitado" como válido para a concessão de créditos de carbono - apenas o reflorestamento de áreas já desmatadas.

Devastação ‘suja a ficha’ de emissões do Brasil

Corte da floresta torna país um dos cinco maiores emissores de gases-estufa do planeta. O corte e as queimadas, especialmente na Amazônia, respondem por 75% das emissões brasileiras. O governo federal, não aceita metas de controle. O governo do Amazonas coloca um plano estadual de redução do desmatamento em consulta pública por 30 dias. O Estado pleiteia recursos do Fundo Amazônia, formado por doações feitas por países ricos. O fundo pode ser usado caso o País diminua a área de floresta cortada justamente em projetos que mantenham a tendência de queda. O plano é um dos pré-requisitos para os Estados amazônicos terem acesso aos recursos, que serão administrados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Ele foi apresentado ontem na 1ª Conferência Latino-Americana de Mudanças Climáticas e Serviços Ambientais, realizada em Manaus. O etanol é a principal carta no baralho tecnológico brasileiro para convencer o mundo de que o País está fazendo a sua parte no combate ao aquecimento global. Até que o Brasil faça a sua ‘lição de casa’ na Amazônia, porém, será difícil cobrar os louros climáticos do etanol. Reduzir as emissões por combustíveis fósseis é sem dúvida um benefício enorme, mas também não há dúvida de que a redução do desmatamento teria um impacto maior. Tanto a floresta quanto o etanol esteve em pauta de discussões da Conferência das Partes da Convenção-Quadra das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-14), em Poznan, na Polônia. Foi a última conferência antes da COP-15, em Coponhague, em dezembro de 2009, quando deveria ser fechado um novo acordo climático para substituir o Protocolo de Kyoto, que termina em 2012. Hoje, só os países desenvolvidos tem obrigação de reduzir emissões, conforme metas estabelecidas em Kyoto (5% em média). A grande dúvida para o próximo acordo é até que ponto os países em desenvolvimento também deverão assumir compromissos para cortar carbono. O Brasil é contra a adoção de metas compulsórias e diz que já está fazendo a sua parte no combater ao aquecimento global. Acredita-se que Brasil está contribuindo de maneira clara e decisiva para ao combate às mudanças climáticas. O Brasil não precisaria sair mal destas reuniões, mas fica difícil com o que está acontecendo na Amazônia. O argumento do etanol é válido, mas o Brasil não produz álcool para combater as mudanças climáticas, faz isso por outras razões. O Brasi é hoje, graças ao desmatamento, um dos cinco maiores emissores de gases do efeito estufa. Mas sua contribuição histórica para o aquecimento global é pequena. Não somos nenhum vilão. Mesmo com o desmatamento, nossa participação nas mudanças climáticas é muito baixa em relação aos outros países. Futuramente, teremos que fazer parte obrigatória da solução. E para nós é muito mais eficaz fazer isso via redução do desmatamento do que mudar nossa matriz energética.

Reduzir emissões ou mudar a vida?

Rosto tenso, aparência de extremo cansaço, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, começou sua entrevista final em Copenhague dizendo ter consciência da profunda decepção dos participantes com o “fracasso da COP 15″. Mas pediu que entendessem que “o desafio do nosso tempo” não é apenas chegar a regras para reduzir emissões, mas tem que ver com formatos de “mudar o mundo, nossas formas de viver”. Ficava subentendido que, se já há obstáculos quase intransponíveis para fixar regras globais para baixar as emissões, incrustados nas lógicas financeiras de países ricos e pobres, governos, setores econômicos, empresas e até pessoas (tenho de dividir minha renda, trocar de carro, reformar minha casa para consumir menos energia, tornar-me vegetariano, etc.?), que dirá definir um novo modo de viver em qualquer parte e que nos leve a superar essa crise do padrão civilizatório com seus caminhos incompatíveis com a capacidade do planeta? Um modo de viver que, no dizer do famoso biólogo Paul Ehrlich, nos leve a respeitar os direitos de qualquer ser vivo? Talvez por isso tudo Ban Ki-moon terminou afirmando que “é hora de compromisso, de coragem”. Neste momento em que cada país atira sobre outros a culpa pelo “fracasso”, é inevitável que venha à memória a Cúpula do Desenvolvimento de 2002, em Johannesburgo, quando a evidência dos impasses já era muito forte e, em eventos paralelos, se discutiu a possibilidade de criar caminhos alternativos, já que nas conferências da ONU é indispensável, para qualquer decisão, o consenso entre quase 200 países com interesses contraditórios. Uma militante ambientalista sugeriu que seria indispensável “tomar o poder na Organização Mundial do Comércio”, a seu ver o foro onde se decidiam os destinos do mundo. Já uma alta autoridade no âmbito internacional propôs a criação de uma organização mundial de meio ambiente, separada da ONU e de suas regras “paralisantes”, como o consenso obrigatório. Mas foi bombardeada pelos que argumentavam levar esse caminho aos mesmos impasses para estabelecer regras válidas em todos os cantos. Para complicar tudo, já estamos atrasados no tempo, como demonstraram em Copenhague o presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) e Prêmio Nobel, Rajendra Pashauri, e vários diretores do IPCC, lembrando o aval que dão a seus diagnósticos mais de 90 mil cientistas no mundo todo. Simplesmente transferir as decisões para a COP 16, no México, em dezembro de 2010, apenas contribui para agravar o problema, não para solucioná-lo. Estão diante dos olhos os números crescentes de vítimas dos eventos climáticos “extremos” em toda parte, inclusive no Brasil. Um imenso cartaz num saguão do aeroporto da capital dinamarquesa, colocado por uma ONG, já antecipava 2020, com um presidente Lula de barba e cabelos totalmente brancos se explicando: “Desculpem-me”, estava escrito no papel. “Não conseguimos reduzir as emissões até 2020.” E seguia dizendo que as primeiras vítimas eram dos países-ilha, que não contribuíram para o problema, e das nações pobres, que quase nada emitiram. Na verdade o presidente brasileiro, em seu discurso na COP 15, já se referira a esses países e à necessidade de “pagamento pelo problema” que deve ser atribuído “aos países que emitem há dois séculos” – embora também dissesse que “todos poderíamos ter dado mais” e que “é preciso não pensar em ganhar mais ou perder menos”. E ainda desabafou, ao dizer que só acredita mesmo numa intervenção especial: “Acredito em Deus e em milagre”, afirmou. Nem isso o livrou de críticas dos países-ilha e países pobres, que o condenaram por haver tentado decidir só com o presidente dos EUA e dos países emergentes um texto que seria obrigatório para todos (foi rejeitado). Como não escapou às críticas de adotar só “metas voluntárias”, embora contraditoriamente aprovadas como lei. E à crítica por não haver incluído o cerrado – responsável por cerca de 40% das emissões brasileiras por mudanças no uso da terra, desmatamentos e queimadas – no zoneamento ecológico-econômico que regulará o avanço territorial da cana-de-açúcar – num bioma que o Ministério do Meio Ambiente disse sofrer desmatamento anual de 22 mil km2, depois baixados para 14 mil km2 e que podem ser de 5 mil km2, segundo outro estudo científico. Novas questões virão, como as levantadas pelos cientistas que dizem ter evidências de que seriam maiores que as divulgadas as emissões por desmatamento na Amazônia, já que este agora atinge sobretudo áreas de floresta mais densa, onde há maior concentração de carbono. É impressionante que talvez já sejam mínimas as divergências quanto ao diagnóstico planetário e a urgência de novos caminhos. Até figuras como o ex-ministro Delfim Netto, defensoras durante décadas do desenvolvimento à custa da preservação dos biomas, dizem agora que o Brasil precisa de “um programa de economia de baixo carbono”. O ex-ministro até aponta (Agência Estado, 22/12) mudanças antes tidas como impensáveis por essas figuras no setor de transportes, no petroquímico e em todas as áreas industriais. Mais ainda: afirma o ex-ministro da Fazenda que os novos caminhos não poderão ser atingidos “com a atividade exportadora de produtos agrícolas e de minérios”, porque a agricultura, além dos outros problemas, “vai economizar mão de obra e terra”, enquanto “o desenvolvimento da mineração é poupar mão de obra; é tudo mecanizado”. Seriam, por isso, esses setores incapazes de “dar emprego de qualidade a 150 milhões de cidadãos, para que o País continue crescendo”. E conclui: “É preciso uma nova concepção de crescimento (…) Não é só dinheiro; é ciência básica e ciência experimental.” O avanço é grande. Mas ainda está no terreno do diagnóstico. E “o mundo nos está olhando”, como advertiu Ban Ki-moon. Com muita pressa.

Aceleração da liberação de metano no Ártico pode ter consequências dramáticas no clima do planeta

Escape de metano no oceano Ártico, a partir do aumento de temperatura e descongelamento do permafrost (2007). Ártico libera metano mais rapidamente, diz estudo – Cientistas da universidade do Alasca, em Fairbanks, nos Estados Unidos, afirmaram ter descoberto o que parece ser um aumento dramático na liberação de gás metano do fundo do Oceano Ártico. O metano é um dos gases que provocam o efeito estufa e é 20 vezes mais potente que o CO2 em seu efeito de aprisionar o calor na atmosfera. O resultado foi obtido através da medição de fluxos de gases no norte da Rússia. “A liberação de metano da Plataforma Oriental da Sibéria parece continuar a estar mais acentuada do que deveria”, afirmou o cientista Igor Semitelov, que liderou o grupo de pesquisadores. O professor Semiletov vem estudando a liberação de metano da região há décadas e deve publicar suas novas conclusões em breve. Depósito de gases A plataforma siberiana atua como um enorme depósito de gases como o carbônico e o metano, muitas vezes armazenados como hidratos gasosos, mas está cada vez mais exposta ao aquecimento. Agora, ela estaria liberando uma quantidade maior de metano no mar e na atmosfera do que anteriormente. Até recentemente, esta região de permafrost (solo de rochas e gelo) era considerada estável, mas agora cientistas acreditam que a liberação de um gás do efeito estufa tão poderoso pode acelerar o aquecimento global. Maiores concentrações de metano na atmosfera estão contribuindo para a elevação das temperaturas na Terra. Elas, por sua vez, devem levar a um maior derretimento do permafrost que, dessa forma, liberaria ainda mais metano na atmosfera, realimentando o ciclo. Os cientistas dizem que na pior das hipóteses, essa retroalimentação pode chegar a um ponto tal, em que bilhões de toneladas de metano seriam despejadas na atmosfera repentinamente, coisa que já aconteceu pelo menos uma vez na história do planeta. Alguns postulam que liberações repentinas, associadas a picos nas temperaturas globais, podem ter sido fatores importantes na extinção em massa de espécies. Aquecimento Estudos da agência americana para oceanos e atmosfera (Noaa, na sigla em inglês) indicam que a temperatura da região na primavera no período de 2000 a 2007 ficou em média 4˚C acima da registrada de 1970 a 1999. Segundo os pesquisadores da Universidade do Alasca, essa é o maior aumento de temperatura registrado em qualquer região do planeta. O derretimento de permafrost das últimas décadas liberou parte da grande reserva de gases produzida pela matéria orgânica de animais e plantas mortas. O hidrato de metano fica abaixo dessa camada. Acreditava-se, entretanto, que grande parte deste gás fosse absorvida pelo mar, antes de chegar à atmosfera. Os resultados compilados pelo professor Semiletov a pedido da organização ambientalistas WWF, indicam que o metano liberado do fundo do mar está atingindo a atmosfera sem se dissolver no oceano. Por isso, segundo os especialistas, a concentração do gás na atmosfera da região é cem vezes maior do que o normal, chegando a ser até mil vezes maior em alguns casos. ‘Sem alarme’ Mesmo assim, os especialistas dizem que não há motivos para alarme e destacam que são necessários mais estudos para determinar as causas exatas para a liberação do metano. “É importante entender a velocidade e a forma como o gás está sendo liberado”, afirmou o cientista . Algumas estimativas indicam que até 1,6 trilhões de toneladas de carbono – praticamente o dobro do que se encontra na atmosfera – estejam presas sob o permafrost.Cientistas temem que a liberação dos gases poderiam ter efeitos catastróficos no planeta.

‘Mantidas as taxas atuais de emissões de gases estufa, o degelo do Ártico é irreversível’

A 15ª Conferência das Nações Unidas (COP-15) chegou ao fim sem um texto final, muito criticada por não ter acordo relevante e não tratar das mudanças climáticas com o cuidado extremo que o problema exige. Como é o caso do degelo no Ártico. Uma pesquisa feita no Instituto Polar Norueguês apontou que, nos últimos 14 ou 15 milhões de anos, a parte central do Ártico tem estado permanentemente gelada, e que as mudanças climáticas podem fazer com que o gelo se dissolva no verão, o que vai ser, numa perspectiva ecológica, uma situação dramática. A IHU On-Line entrevistou o geógrafo Jorge Arigony Neto, que analisou a situação atual do Ártico. “As possíveis consequências do derretimento do gelo marinho permanente do Ártico são diversas e vão desde um possível impacto na circulação atmosférica do hemisfério norte, até o enfraquecimento na formação de águas de fundo. Esta é necessária para manter a circulação dos oceanos como também é responsável pela distribuição de calor dos trópicos para as regiões polares e alteração do habitat de diversos organismos, como bactérias, algas, crustáceos, pássaros marinhos, focas, ursos polares e baleias. Além disso, há também os próprios povos nativos do Ártico, os quais possuem o seu hábito de vida nômade associado a caça e pesca no limite do gelo marinho e estão cada vez mais sedentarizados em cidades”, detalhou durante a entrevista que concedeu por e-mail. Jorge Arigony Neto é graduado em geografia e mestre em Sensoriamento Remoto pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É doutor em Geografia Física pela Albert-Ludwigs-Universität Freiburg, na Alemanha. Recebeu o título de pós-doutor pela UFGRS em 2008. Atualmente, é professor na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e representante brasileiro no Scientific Committee on Antarctic Research. Também é professor colaborador na UFGRS. Confira a entrevista. IHU On-Line – Estudos apontam que o Ártico ‘deixará de existir’ em duas décadas. Este previsão está correta? Jorge Arigony Neto – Na realidade, o Ártico em si não deixará de existir. O que pode deixar de existir até 2030, segundo as estimativas mais recentes, é a cobertura permanente de gelo marinho do oceano Ártico. É importante mencionar que, segundo as estimativas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês) da ONU, o Ártico estaria livre de gelo no verão apenas no final do século. Porém, essa estimativa está sendo reconsiderada pela comunidade científica devido ao fato de que a porção de gelo marinho permanente está se tornando cada vez menos espessa, o que a torna mais suscetível ao derretimento no verão. IHU On-Line – Com o derretimento do Ártico, quais são as consequências para o mundo? Jorge Arigony Neto – Bem, as possíveis consequências do derretimento do gelo marinho permanente do Ártico são diversas e vão desde um possível impacto na circulação atmosférica do hemisfério norte, até o enfraquecimento na formação de águas de fundo. Esta é necessária para manter a circulação dos oceanos como também é responsável pela distribuição de calor dos trópicos para as regiões polares e alteração do habitat de diversos organismos, como bactérias, algas, crustáceos, pássaros marinhos, focas, ursos polares e baleias. Além disso, há também os próprios povos nativos do Ártico, os quais possuem o seu hábito de vida nômade associado a caça e pesca no limite do gelo marinho e estão cada vez mais sedentarizados em cidades. IHU On-Line – Em outubro desse ano, foi divulgado o desaparecimento da mais grossa camada de gelo do Ártico. Que efeitos já ocorrem a partir disso? Jorge Arigony Neto – Até o momento, nenhuma efeito foi detectado, mas esperamos um maior derretimento no verão de áreas que estão cobertas por gelo marinho durante o ano todo. IHU On-Line – Os impactos globais do degelo do Ártico já podem ser percebidos? Jorge Arigony Neto – Sim, alguns estudos têm indicado um declínio na população de ursos polares associado à diminuição da área coberta por gelo marinho. Além disso, estima-se que o próprio aquecimento que está ocorrendo no Ártico possa estar sendo reforçado pela maior quantidade de radiação absorvida pelo oceano em áreas onde o gelo marinho já não está mais presente durante o verão. IHU On-Line – Qual a importância do sensoriamento remoto da criosfera, hoje, para se entender os problemas com o meio ambiente e com o clima da Terra? Jorge Arigony Neto – O sensoriamento remoto (técnica de obtenção de informações sobre objetos ou fenômenos sem que haja contato físico direto com eles) nos permite obter informações de extensas regiões do planeta cobertas por gelo e neve, o que é difícil de fazer através de métodos convencionais baseados apenas na pesquisa de campo. Essas informações sobre parâmetros das massas de gelo sensíveis às variações ambientais nos fornecem subsídios para alimentar e/ou validar os modelos de estabilidade e previsão do clima do planeta. IHU On-Line – Quais as contribuições do Brasil nas pesquisas realizadas sobre o assunto? Jorge Arigony Neto – As contribuições brasileiras para as pesquisas na área de sensoriamento remoto da Criosfera ainda são bastante incipientes, estando concentradas no desenvolvimento de métodos para a extração de informações confiáveis sobre as massas de neve e gelo do planeta a partir da utilização de imagens de satélites. Porém, com a recente criação do novo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, tivemos a oportunidade de instituir o Grupo de Sensoriamento Remoto da Criosfera, onde poderemos formar, junto com o Prof. Jefferson Simões da UFRGS e o Prof. Maurício Mata da FURG, a primeira equipe nacional treinada para o monitoramento da Criosfera. Com isso, pretendemos estabelecer a capacidade de geração de dados que nos permitam estudar a influência de parâmetros climáticos sobre as massas de gelo e desenvolver modelos de suscetibilidade da Criosfera às mudanças climáticas. IHU On-Line – Pode-se dizer que o degelo do Ártico é irreversível? Jorge Arigony Neto – Sim, se forem mantidas as taxas atuais de emissões de gases estufa, podemos dizer que o degelo do Ártico é irreversível, tanto no que se refere ao gelo marinho quanto ao gelo continental. Além disso, podemos ir além e afirmar que o derretimento do gelo marinho do Ártico colabora ainda mais para o aumento da temperatura da região através da retroalimentação climática. Ou seja, o gelo marinho reflete entre 50 e 70% da radiação incidente sobre ele, enquanto que o oceano absorve até 70% dessa radiação, a qual estará disponível para aquecer ainda mais a região conforme vá ocorrendo o derretimento do gelo marinho. IHU On-Line – Qual a situação da Antártida, hoje?Jorge Arigony Neto – Ao contrário do Ártico, que consiste de um oceano coberto por uma fina camada de gelo marinho (um a três metros de espessura) durante boa parte do ano, a Antártica é um continente coberto por um manto de gelo glacial com até três quilômetros de espessura em alguns pontos. Nesse continente, o que mais tem preocupado a comunidade glaciológica é a possível instabilidade da porção oeste do manto de gelo, a qual possui o contato entre o gelo e a rocha abaixo do nível do mar, sendo suscetível a um possível aquecimento das águas oceânicas da periferia da Antártica, e teria condições de drenar gelo suficiente para aumentar o nível médio dos mares em 3,3 metros em poucas décadas.

Na Suécia, rótulos indicam nível de CO2 na produção de alimentos

Prateleira de produtos ‘ambientalmente amigáveis’ em supermercado em Estocolmo (Suécia), onde os alimentos informam a emissão de CO2 envolvida na produção. Rótulos mostram aos suecos quanto carbono é liberado na produção dos alimentos. Ao procurar aveia na prateleira do mercado, Helena Bergstrom, 37, admite ter ficado confusa com o rótulo em uma caixa azul do produto que dizia, “Impacto climático declarado: 0,87 kg CO2 por kg do produto”. “Mesmo agora, não sei o que aquilo significa”, confessa Bergstrom, funcionária de uma companhia farmacêutica. Mas se uma nova experiência feita aqui tiver sucesso, ela e milhões de outros suecos logo descobrirão o significado daquela informação. Novos rótulos indicando o nível de emissão de dióxido de carbono associado à produção de alimentos, das massas feitas com trigo integral aos sanduíches das lanchonetes do tipo fast food, estão surgindo nas embalagens de alguns produtos de supermercados e menus de restaurantes e lanchonetes em todo o país. As pessoas que vivem para comer podem desprezar essa iniciativa, chamando-a de tola. Mas mudar a dieta de uma pessoa pode ser algo tão efetivo para reduzir a emissão dos gases causadores da alteração climática quanto trocar de automóvel ou deixar de usar máquinas de secar roupa, dizem os especialistas. “Somos os primeiros a tomar esta iniciativa, e para nós isto consiste em uma nova forma de pensar”, explica Ulf Bohman, diretor do Departamento de Nutrição da Administração Nacional de Alimentos sueca, que no ano passado foi incumbida de criar novas diretrizes alimentares, conferindo peso igual ao clima e à saúde. “Estamos acostumados a pensar na segurança e na nutrição como sendo algo desvinculado do meio ambiente”. Algumas das novas diretrizes alimentares propostas, divulgadas durante o último verão do hemisfério norte, podem parecer desnorteantes para quem não estiver acostumado a ver isso. Elas recomendam, por exemplo, que os suecos deem preferência ao consumo de cenouras, e não ao de pepinos e tomates (ao contrário das cenouras, na Suécia os pepinos e os tomates precisam ser cultivados em estufas aquecidas, o que consome muita energia). Eles não são aconselhados a comer mais peixe, apesar dos benefícios à saúde, porque as reservas de pescado da Europa estão praticamente esgotadas. E, de forma um pouco menos surpreendente, aconselha-se aos suecos que substituam a carne vermelha por feijão ou frango, devido ao fato de a criação de gado bovino gerar muita emissão de gases causadores do efeito estufa. “Para os consumidores, é difícil”, admite Bohman. “Eles estão recebendo orientações de ordem ambiental, mas precisam achar um denominador comum entre essas orientações e a questão: ‘O que devo fazer para me alimentar de forma mais saudável?”. Muitos consumidores suecos dizem que se está exigindo muito deles. “Eu gostaria de afirmar que esse tipo de informação me fez modificar a minha alimentação, mas isto não ocorreu”, confessa Richard Lalander, 27, que come um hambúrguer Max (1,7 quilogramas de emissões de dióxido de carbono) próximo a um menu que revela que um sanduíche de frango (0,4 quilogramas) teria causado menos danos ao planeta. Mas alguns especialistas dizem que se as novas diretrizes fossem estritamente seguidas, os suecos poderiam reduzir as suas emissões derivadas da produção de alimentos entre 20% e 50%. Em torno de 25% das emissões produzidas pelos seres humanos nas nações industrializadas estão vinculadas aos alimentos que eles comem, segundo uma recente pesquisa divulgada aqui. E o nível de emissões liberadas na produção de alimentos varia enormemente de um produto para outro. Embora os consumidores norte-americanos e europeus atuais possam estar acostumados a verificar o conteúdo de nutrientes, calorias ou gordura, eles frequentemente nada sabem quando se trata de determinar se o consumo de tomates, frango ou arroz é positivo ou negativo para o clima. Para complicar ainda mais a questão, o impacto em termos de emissões provocados, digamos, pela cenoura, pode variar de intensidade segundo uma escala multiplicativa de um a dez, dependendo de como e onde ela seja cultivada. Estudos anteriores sobre as emissões vinculadas à produção de comida concentravam-se nos altos custos ambientais do transporte de alimentos e da criação de gado. Mas pesquisas mais refinadas revelam que as emissões dependem de vários fatores, incluindo o tipo de solo usado para produzir alimentos e o fato de os produtores de leite utilizarem forragem local ou soja importada para a alimentação do gado. Grupos empresariais, cooperativas agrícolas e programas de rotulagem orgânica, bem como o governo, apresentaram corajosamente maneiras coordenadas de identificar opções alimentares. Max, a maior rede doméstica de lanchonetes especializadas em hambúrgueres na Suécia, exibe os cálculos de emissões ao lado de cada produto no seu menu. A Lantmannen, o maior grupo especializado em produtos agrícolas do país, passou a colocar rótulos precisos nas embalagens de certos alimentos vendidos nos supermercados, incluindo frango, aveia, cevada e massas. Os consumidores que prestarem atenção poderão, por exemplo, descobrir que o volume de emissões geradas pela produção do arroz, o grão mais popular no país, é duas ou três vezes maior do que o da pouco utilizada cevada. Alguns produtores argumentam que os novos programas são exageradamente complexos e que eles ameaçam os lucros. As recomendações alimentares, que estão sendo distribuídas para análise e comentários não só na Suécia, mas em toda a União Europeia, têm sido atacadas pelo setor de produção de carne do continente, pelos criadores noruegueses de salmão e pelos produtores de óleo de palmeira, para citar apenas alguns. Este é um processo de aprendizado à base de tentativas e erros; ainda estamos tentando determinar se isto funciona. No ano que vem, o KRAV, o principal programa escandinavo de certificação orgânica, começará a exigir que os produtores rurais adotem técnicas de baixa emissão para que possam exibir o cobiçado rótulo da organização em seus produtos, o que significa que a maior parte dos tomates produzidos em estufas não poderá mais ser classificada de orgânica. Esses padrões provocaram alguns protestos. “Há produtores reais felizes e outros que afirmam que estão arruinados”, diz Johan Cejie, gerente de questões climáticas do KRAV. “Por exemplo, os produtores que têm nas suas propriedades solos com elevada concentração de turfa poderão ver-se incapazes de produzir cenouras, já que o processo de aração da turfa libera grandes quantidades de dióxido de carbono. Para conseguir o rótulo de produto orgânico, eles talvez tenham que cultivar outras plantas que não exijam aração da terra”. No ano que vem, o Krav exigirá que sejam utilizados biocombustíveis para o aquecimento de estufas. Os produtores de laticínios terão que obter pelo menos 70% dos alimentos para o seu rebanho no mercado local; muitos deles costumavam importar soja barata do Brasil, que gera emissões com o transporte e destrói as florestas, já que árvores são derrubadas para dar lugar aos campos de plantio. A iniciativa sueca é derivada de um estudo conduzido em 2005 pela agência nacional ambiental da Suécia no sentido de identificar de que maneira o consumo gera emissões. Os pesquisadores descobriram que 25% das emissões nacionais per capita – duas toneladas métricas por ano – estão vinculadas à alimentação. O governo percebeu que se encorajasse uma dieta mais voltada para frango e legumes e informasse os produtores rurais sobre como reduzir as emissões, haveria um enorme impacto positivo. A Suécia é um dos líderes mundiais quando se trata de descobrir novas formas de reduzir emissões. O governo sueco prometeu que eliminará o uso de combustível fóssil para a geração de eletricidade até 2020 e que acabará com os carros movidos a gasolina até 2030. Para chegar aos números utilizados nos primeiros rótulos de dióxido de carbono da sua companhia, os cientistas da Lantmannen analisaram os ciclos de produção de 20 produtos. O processo leva em conta as emissões geradas por fertilizantes, combustíveis para as máquinas de colheita, embalagem e transporte. Eles decidiram examinar um produto que representasse cada categoria – por exemplo, massa -, em vez de realizar análises comparativas entre variedades diferentes, como fusilli versus penne. “A produção de cada rótulo climático exige bastante tempo”, afirma Claes Johansson, diretor de sustentabilidade da Lantmannen. Uma nova geração de líderes suecos está se mobilizando para fazer frente à alteração climática. Richard Bergfors, presidente da Max, a rede de lanchonetes especializadas em hambúrgueres que pertence à sua família, contratou voluntariamente um consultor para calcular a sua pegada de carbono e descobriu que 75% desta está vinculada à carne contida em seus produtos. Decidiram ser honestos e publicar toda a informação para o cliente, bem como dizer que farão tudo o que puderem no sentido de reduzir as emissões. Além de exibir os dados referentes a emissões no menu, Max eliminou as caixas das suas refeições para crianças, instalou lâmpadas de baixo consumo energético e passou a usar energia elétrica gerada por turbinas eólicas. Desde que os números referentes às emissões passaram a ser exibidos no menu, as vendas de produtos que agridem menos o meio ambiente aumentaram 20%. Mesmo assim, muita gente vai para as lanchonetes de fast food decidida a comer somente hambúrgueres tradicionais. Kristian Eriksson, 26, um especialista em tecnologia da informação, parece embaraçado quando lhe perguntam a respeito do hambúrguer que está comendo em uma mesa ao ar livre. “Nos sentimos culpados ao optarmos pela carne vermelha”, diz ele.

‘Jogo de Cena’: EUA pedem que outros países adotem metas de emissões de carbono

O principal representante dos Estados Unidos para a questão climática pediu em meados de janeiro/09, que os demais países que estabeleçam metas de redução de emissões de gases-estufa até o final do mês, o que seria crucial para a adoção de um novo tratado global contra o aquecimento do planeta. Todd Stern disse que o Acordo de Copenhague, definido no mês passado, é o melhor caminho para um documento concreto e de cumprimento obrigatório. Antes, porém, os países precisam se comprometer com metas e colocá-las no papel, disse Stern. “Temos um acordo que está se arrastando pela pista, e precisamos dele para termos velocidade suficiente para decolar”, disse Stern numa conferência da ONU sobre riscos e oportunidades climáticos. “A melhor forma de fazer progressos no sentido de um acordo legal é ter o Acordo de Copenhague implementado”, acrescentou. Reportagem de Timothy Gardner, da Agência Reuters. EUA, China, Índia e 20 outros países selaram o acordo ao final da conferência da ONU em Copenhague, em dezembro. Mas o texto não foi formalmente adotado por todos os 190 países participantes, e vários deles se opuseram. O texto estabelece a meta de limitar o aquecimento global a 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, prevê medidas de ajuda financeira e tecnológica para que os países em desenvolvimento enfrentem a mudança climática, mas deixa os detalhes para serem resolvidos em 2010. O documento prevê que até 31 de janeiro os países ricos apresentem suas metas de emissões relativas a 2020, e que os países em desenvolvimento apresentem ações voluntárias para a redução das suas emissões. Grupos ambientais dos EUA dizem que provavelmente o governo Obama deve cumprir o prazo, mas com uma meta “provisória”, já que o Congresso ainda não aprovou uma legislação que exige controles da poluição. Uma fonte do governo disse, sob anonimato, que a meta anunciada em novembro pela Casa Branca para a redução de 17 por cento nas emissões até 2020, em comparação a 2005, continua “operacional”. A comunidade internacional costuma usar 1990 como ano-base para os cortes das emissões. Por esse critério, a redução prometida pelo governo Obama seria de 3 a 4 por cento. “Agora precisamos que os países deem um passo à frente e digam que querem participar (do acordo)”, disse Stern. Quatro dos maiores emissores globais de gases-estufa se reúnem neste mês em Nova Délhi para discutir ações climáticas. A União Europeia, que decidiu em 2008 cortar suas emissões até 2020 para 20 por cento abaixo dos níveis de 1990, oferece elevar sua meta para 30 por cento se outras grandes economias aceitarem medidas equivalentes. Mas alguns países da UE já se queixam do corte de 20 por cento, de modo que dificilmente haverá uma meta mais ambiciosa. A decisão pode sair neste fim de semana. Stern disse que o presidente Barack Obama está empenhado em aprovar a nova lei climática no Congresso ainda neste ano. “Haverá um esforço significativo por parte de todo o governo para levar adiante um projeto energético e climático que seja forte e amplo.”

Emissões de metano do Ártico saltam 30% em 4 anos

Esta foi a região do mundo que teve maior aumento de emissão; fato pode indicar descongelamento. As emissões de um potente gás causador do efeito estufa pela região ártica saltou 30% em anos recentes, num preocupante sinal de que o aquecimento global poderá liberar enormes estoques de metano aprisionados no solo congelado, dizem cientistas. “Ainda é cedo para dizer que se trata de uma tendência, mas se continuar desse jeito, haverá sérias implicações”, disse Paul Palmer, pesquisador da Universidade de Edimburgo e que está entre os autores do estudo sobre emissão de metano por áreas alagáveis. A elevação de 30,6% nas emissões do Ártico, no período 2003 a 2007, para cerca de 4,2 milhões de toneladas, foi o maior ganho porcentual para qualquer região alagável, segundo trabalho [Large-Scale Controls of Methanogenesis Inferred from Methane and Gravity Spaceborne Data] publicado na revista científica Science. O estudo foi feito em conjunto por pesquisadores da Escócia e Holanda. As áreas alagáveis do Ártico respondem por a apenas 2% das emissões globais de metano desse tipo de local, que é mais comum nos trópicos. Mas muitos especialistas apontam para o risco de que a mudança climática venha a derreter o permafrost – o solo congelado – que retém bilhões de toneladas de metano, um gás causador do efeito estufa mais potente que o dióxido de carbono. “É uma advertência que os cientistas vêm dando há algum tempo: o que estamos vendo são sinais do aquecimento global”, disse Palmer. A maior parte das áreas alagáveis do Ártico estão na Sibéria e no Canadá. Entre os gases do efeito estufa gerados por atividade humana, o metano é o que mais contribui para o aquecimento global, depois do dióxido de carbono. Embora seja mais potente, o metano é produzido em muito menor quantidade. As temperaturas do Ártico estão subindo muito mais rapidamente que a média global. O recuo das capas de gelo expõe o solo e a água, mais escuros e, por isso, capazes de reter mais calor, acelerando o processo. As emissões de metano globais têm sido imprevisíveis – o estudo destaca que as concentrações na atmosfera mantiveram-se relativamente estáveis de 1999 a 2006, com um crescimento renovado em 2007. Os anos de estabilidade ficaram “largamente inexplicados”, diz o texto na Science. As emissões de áreas alagáveis representam cerca de um terço das emissões globais de metano, de 540 milhões de toneladas, disse Palmer. Outras fontes significativas são combustíveis fósseis, gado e plantações de arroz.

Não há sinais de metas maiores de redução das emissões para Acordo de Copenhague

Até prazo final, países devem manter suas metas originais de redução das emissões de gases de efeito estufa O mundo está mostrando apenas um entusiasmo morno por um “Acordo de Copenhague” de combate às mudanças climáticas, sem nenhum sinal até agora de que os países adotem metas de redução das emissões de gases de efeito estufa para 2020 mais profundas do que o previsto antes do prazo final de 31 de janeiro. Em Bruxelas, um rascunho de documento da União Europeia divulgado nesta sexta-feira mostrava que os planos para o bloco de 27 países são de reiterar a oferta mínima de um corte de 20% nas emissões até 2020, com base nos níveis de 1990, um agrado à indústria. Uma redução de 30% apenas será possível caso outras nações adotarem medidas comparáveis. Reportagem da Agência Reuters. Outros países estão propensos a fazer o mesmo que a Europa, depois que a cúpula no mês passado em Copenhague terminou com um acordo climático de baixa ambição. Nenhuma nação anunciou, desde então, planos de ação mais radicalmente rígidos para a ação. “Eu acho que os países vão manter suas faixas de redução”, disse Nick Mabey, chefe da organização E3G em Londres. Ele afirmou que é muito cedo para uma revisão das metas nacionais. “É quase como o início de uma nova negociação”, afirmou Gordon Shepherd, diretor de política internacional do grupo ambientalista WWF. Ele disse que muitos países ainda estão divididos entre mostrar “uma explosão de entusiasmo” para reconstruir a dinâmica depois de Copenhague e a “cautela completa”, tendo tempo para analisar os próximos passos. Poucos países até agora enviaram cartas ao Secretariado para Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU) antes do prazo final de 31 de janeiro para traçar metas para 2020, como ficou definido pelo Acordo de Copenhague, que foi fechado pelos grandes emissores, liderados pela China e pelos Estados Unidos. Limitar o aquecimento O acordo estabelece que as metas devem limitar o aquecimento global ao aumento de 2ºC da temperatura global, acima dos níveis pré-industriais, mas omite detalhes de como isso será feito. Ele também apóia a meta de US$ 100 bilhões em ajuda anual para nações em desenvolvimento a partir de 2020. O documento também define que os países desenvolvidos devem apresentar até 31 de janeiro as suas metas de cortes nas emissões até 2020 e as nações em desenvolvimento devem delinear ações para retardar o aumento das suas emissões para a ajudar a evitar mais ondas de calor, tempestades, inundações e a elevação do nível dos oceanos. A ONG Climate Action Network dos Estados Unidos disse que Brasil, Coréia do Sul, África do Sul, Gana, Austrália, França, Canadá, Papua Nova Guiné e as Maldivas indicaram que estão comprometidos com o acordo. Cuba disse que não irá participar. O Secretariado da ONU não quis comentar sobre a lista. A cúpula do clima não conseguiu aprovar o Acordo de Copenhague, após a oposição de Cuba, Venezuela, Bolívia, Nicarágua e Sudão. Isso significava que a conferência apenas “tomou nota” do plano. A ONU alerta que o prazo de 31 de janeiro é susceptível de atraso e que os países podem se inscrever mais tarde. Mas especialistas dizem que o acordo ficaria em apuros se seus principais apoiadores – como Washington e Pequim – falharem formalmente em se inscrever. A oferta provisória do presidente americano Barack Obama – de cortar 17% das emissões abaixo dos níveis de 2005 até 2020 (ou 4% abaixo do ano de referência da ONU, de 1990) – pode ser difícil de alcançar, agora que os democratas perderam uma cadeira importante no Senado esta semana. China, Índia, África do Sul e Brasil se reunirão em Nova Délhi, no domingo. Entre os mais ambiciosos, Noruega disse, antes de Copenhague, que irá cortar emissões em 30% até 2020, podendo aumentar esta taxa para 40%. “A Noruega vai apresentar os números dentro do prazo, mas ainda não decidiu o nível de ambição”, disse o porta-voz do Ministério do Meio Ambiente, Tone Hertzberg.