quinta-feira, 31 de março de 2011

Japão encontra plutônio no solo de usina

Autoridades nucleares japonesas não descartam possibilidade de que material contamine o mar
A crise nuclear no Japão voltou a se agravar ontem, com a informação de que a água com elevados níveis de radiação encontrada no local pode ter vindo do reator nº 2 e de que traços de plutônio foram achados em cinco pontos do solo da usina de Fukushima.
O plutônio é um combustível mais tóxico do que o urânio e é utilizado em apenas um dos seis reatores da planta, o de nº 3. Na sexta-feira, o porta-voz da agência de segurança nuclear, Hidehiko Nishiyama, disse que é provável que a estrutura do reator tenha sido danificada pelo duplo desastre natural que atingiu o Japão há 18 dias, o que teria reduzido sua capacidade de conter vazamentos de material radioativo.
O aumento da quantidade de água contaminada em diferentes locais da usina dificulta a tentativa de restabelecimento do sistema de resfriamento dos reatores e compromete os esforços para evitar seu superaquecimento. Além do reator nº 2, o material também foi localizado em canos embaixo dos reatores nº 1 e 3 e há o temor de que ele transborde e termine no mar ou no solo.
A Tokyo Electric Power Company (Tepco) anunciou ontem a redução de 16 toneladas para 7 toneladas na quantidade de água que é injetada a cada hora na usina, em uma tentativa de conter a acumulação de água contaminada. A medida, porém, traz o risco de que a temperatura nos reatores volte a subir perigosamente.
Os responsáveis pela usina enfrentam ainda o desafio de drenar e estocar a água com radiação de maneira segura. Enquanto isto não for feito, é pouco provável que os técnicos consigam religar os cabos que restabelecerão o fornecimento de energia para a usina, o que permitirá a volta do sistema de bombeamento de água para os reatores.
Em 24/03, dois funcionários da Tepco foram contaminados ao pisar em uma poça de 15 centímetros de profundidade no reator nº 2. Ontem, a empresa anunciou que a água no local apresentava níveis de radiação 100 mil vezes superior aos padrões normais.
A concentração é suficiente para provocar danos imediatos à saúde. Segundo tabela da Agência de Proteção Ambiental dos EUA, a quantidade de radiação presente na água do reator nº 2 pode provocar hemorragia, náusea, fadiga, vômito, queda de cabelo e diarreia.
Diante da dificuldade para conter a crise, a Tepco pediu ajuda a empresas francesas. O porta-voz do governo japonês, Yukio Edano, apelou aos moradores da área de 20 km ao redor da usina para que não voltem a suas casas, depois de a prefeitura de Fukushima ter informado que muitos estavam retornando ao local.
Os habitantes da região tiveram de deixar suas residências às pressas, sem saber por quanto tempo ficariam fora. Muitos levaram apenas a roupa que usavam. Agora, enfrentam a possibilidade de não poderem jamais voltar a suas casas. Edano disse que o governo monitorará a situação e informará quando os moradores podem retornar ao local por curtos períodos, para pegar roupas e outros pertences. (OESP)

Catástrofe nuclear japonesa

Catástrofe nuclear japonesa catalisa vitória verde na Alemanha
Enquanto no Japão bombeiros-camicases lutam contra quatro reatores nucleares fora de controle, na Alemanha o tsunami atômico de Fukushima já causou estragos. Depois de perder eleitores no pleito da Saxônia-Anhalt, a coalizão do governo federal, encabeçada por Angela Merkel, perdeu agora o mandato em um dos seus mais tradicionais redutos políticos.
O palácio do governo em Stuttgart, capital do estado de Baden-Württemberg e berço do CDU (democrata-cristão), partido da primeira ministra, terá pela primeira vez na sua história um mandatário verde. Chama Winfried Kretschmann, tem 62 anos e já é visto como o primeiro sinal de uma revolução política no país. É a primeira vez também, desde a refundação da república alemã, há 58 anos, que os Democratas-Cristãos ficam de fora do governo estadual.
O desempenho do partido Liberal (FDP) do vice-chanceler, Guido Westerwelle, foi ainda pior. Além de grande queda no percentual de votos, o FDP não conseguiu eleger nenhum parlamentar para o legislativo estadual na Renânia-Palatinado, outro estado onde ocorreram eleições no último fim de semana. “A mensagem já foi recebida em Berlim”, garantiu Westerwelle, que até então era um dos principais defensores da indústria nuclear dentro do governo.
Ao que tudo indica, o tema nuclear foi um dos grandes catalisadores da surpresa. “O acidente atômico se sobrepôs a tudo”, declarou o secretário-geral do CDU, Hermann Gröhe. O desempenho do Partido Verde nos dois pleitos confirma a tese. Foram 12% e 10% de crescimento em cada estado, respectivamente. Vale lembrar que o Bündnis 90/Die Grünen (nome em alemão) é o único partido que invariavelmente sempre se opôs à energia atômica.
Mudança à vista
A derrota nas eleições em três estados nas últimas semanas deve realmente mudar o curso da política energética alemã. Logo após a primeira explosão na usina japonesa, a primeira-ministra anunciou uma moratória da prorrogação do funcionamento de usinas atômicas no país, aprovada em Outubro do ano passado. Oito delas já foram desligadas do sistema elétrico para uma avaliação das condições de segurança.
Merkel, que é formada em física e foi ministra do meio ambiente no governo de Helmut Kohl, soube reconhecer a gravidade do ocorrido no Japão desde o início. Optou pela moratória por falta de outra opção. Mesmo que consiga manobrar para evitar o desligamento definitivo de algumas usinas, terá que sacrificar o resto de seu apoio eleitoral para manter o acordo com a indústria nuclear.
Até o final do ano outros três estados do país terão eleições, incluindo a capital federal. No último Sábado (26/03), mais de 100 mil pessoas se reuniram no Tiergarten, o maior parque da cidade e que fica ao lado do parlamento, num protesto contra as usinas atômicas. "O plano de desligamento das usinas foi uma decisão correta. Foi um erro do governo federal ter abandonado esse caminho", discursou para a multidão o presidente da Federação dos Sindicatos da Alemanha, Michael Sommer.
“É um sinal claro contra a energia nuclear”, acredita o prefeito de Berlim, Klaus Wowereit, relacionando o resultado das eleições com os crescentes protestos. (ambienteja)

Japão diverge sobre radiação em Fukushima

Novo tremor leve na região da tragédia provoca alerta de tsunami, suspenso após duas horas.
Para governo, a contaminação em reator supera em 10 milhões de vezes o normal; empresa nega.
A Agência de Segurança Nuclear japonesa declarou ontem que os níveis de radiação na água localizada perto do reator 2 da usina nuclear de Fukushima estavam 10 milhões de vezes acima do normal. A Tokyo Electric Power Company (Tepco), empresa que controla a usina, negou a informação e em seguida admitiu: não sabe o grau exato de contaminação.
A empresa nega a contaminação da água, mas diz que os dados são imprecisos, ainda que não saiba precisar qual é exatamente o nível de contaminação. Em seu site, a Tepco informa que houve um erro “na avaliação da medida do iodo- 134”.
O relatório inicial afirma que o trabalhador responsável pela medição, conduzida em uma pista localizada no porão onde fica a turbina do reator, teria fugido antes de fazer uma segunda leitura. A descoberta do trabalhador levou a outra evacuação do local, parando o trabalho de bombeamento e armazenamento de água radioativa acumulada nos prédios de três dos seis reatores.
Depois, a Tepco disse que a piscina de água havia sido contaminada com radiação, mas que a leitura de radiação que dava conta de índices extremamente altos era um erro. De acordo com o porta-voz da empresa, Takashi Kurita, “o número não é crível”. “Sentimos muito” , disse, informando ainda que outras amostras estão sendo coletadas para apurar com mais precisão quais são os reais níveis de contaminação. Kurita disse não saber quando os resultados seriam anunciados.
As evidências de que havia perigo de contaminação no reator 2 da usina nuclear de Fukushima surgiram dias depois que três trabalhadores foram expostos a altos níveis de radiação enquanto consertavam um sistema de resfriamento no reator 3. Dois dos três homens foram queimados por raios beta depois de andarem dentro da água com níveis de radiação bem acima do normal - os trabalhadores devem receber hoje alta do hospital.
A divergência em 27/03 fez oficiais japoneses e executivos da Tepso serem ainda mais pressionados a dar informações precisas e rápidas. Governo e empresa têm sido criticados.
No fim de semana, houve pequenos progressos na remoção de água contaminada e resfriamento dos reatores com água doce, em vez da corrosiva água do mar, como vinha sendo feito. Mas Yukiya Amano, diretor geral da Agência de Segurança Nuclear japonesa, alertou que a situação de emergência deve continuar por semanas, possivelmente meses. "É um acidente muito grave. E ainda não acabou", disse Amano ao The New York Times.
Estado de alerta
Enquanto governo e empresa não chegam a um consenso sobre os níveis de radiação, os japoneses sofrem com novos e frequentes tremores, que apesar da baixa intensidade, obrigam a população a retomar as precauções contra outro desastre.
Na noite de 27/03 (horário de Brasília), um terremoto de magnitude 6,5 na escala Richter atingiu o nordeste do país, levando a Agência Meteorológica do Japão a lançar um alerta de tsunami iminente na região de Miyagi, uma das mais devastadas pelo terremoto de 11 de março. Não houve relatos de feridos ou outros danos. O comunicado foi liberado às 7h23 hs da manhã de 27/03, pelo horário japonês. Eram esperadas ondas de cerca de meio metro. Por isso, o alerta de tsunami foi cancelado às 9h05 do horário local.
O tremor ocorreu a 5,9 km de profundidade, nas proximidades da costa de Honshu, segundo informou a agência geológica americana (USGS, na sigla em inglês), que registra os terremotos ocorridos pelo mundo.
Reação do governo é reprovada por 57,9% dos japoneses
A agência de notícias Kyodo divulgou em 27/03 uma pesquisa que mostra que 58,2% dos japoneses entrevistados desaprova o jeito que o governo japonês tem respondido à crise nuclear, contra 39,3% da população favorável às medidas. A pesquisa aponta ainda que 57,9% dos entrevistados aprovam a maneira como o país tem ajudado as vítimas do terremoto e do tsunami. (OESP)

Termelétricas a gás natural são a nova ‘aposta’

Após o desastre nuclear de Fukushima as termelétricas a gás natural são a nova ‘aposta’
O gás natural pode estar vivendo um momento muito favorável, agora que as fontes de energia concorrentes estão em uma fase ruim.
Os graves problemas da usina nuclear acidentada no Japão fizeram com que surgissem novas dúvidas quanto à segurança da energia nuclear. Após a explosão da plataforma da BP no ano passado, não houve novas iniciativas para a exploração de petróleo no Golfo do México. E existe um sentimento negativo em relação às usinas termoelétricas movidas a carvão porque elas contribuem para o aquecimento global.
Enquanto isso, o gás natural superou dois dos seus maiores obstáculos – os preços voláteis e as incertezas quanto às reservas. Os preços do gás natural têm se mantido em patamares relativamente baixos nos últimos dois anos, em grande parte porque as novas descobertas nos Estados Unidos e no exterior provocaram um aumento significativo das reservas conhecidas.
É muito cedo para afirmar com certeza se os acontecimentos calamitosos no Japão poderão atrapalhar o renascimento em escala global da energia nuclear e provocar uma corrida ao gás natural. E é igualmente cedo para dizer se as autoridades responsáveis pela política nuclear estão apenas aparentando ter controle sobre as questões de segurança desde que teve início o atual desastre nuclear japonês.
Mesmo assim, como existe a previsão de que a demanda global por energia terá um crescimento de dois dígitos nas próximas décadas, os analistas estão antecipando uma nova explosão do consumo de gás natural. Tendo em vista as preocupações crescentes quanto à energia nuclear e a necessidade de reduzir as emissões de carbono, o banco Societe Generale afirmou que o gás natural é a “escolha restante” como combustível.
“Em última análise, quando nos debruçamos sobre a equação de risco e benefício, o gás natural emerge como o combustível vitorioso”, diz Lawrence J. Goldstein, economista da Fundação de Pesquisas de Políticas Energéticas. “É um verdadeiro nocaute técnico”.
Os mercados financeiros já começaram a registrar alterações de preços devido a este novo interesse pelo gás natural. Após o desastre no Japão, o preço do urânio sofreu uma queda de 30%, enquanto que os preços do gás na Europa e nos Estados Unidos registraram uma alta de cerca de 10%. Autoridades de diversos países, incluindo a China, a Alemanha, a Finlândia e a África do Sul, disseram que reavaliarão as suas estratégias nucleares.
As empresas de eletricidade também estão reconsiderando o papel do gás natural na produção de energia elétrica estável, uma função que historicamente é desempenhada pelo carvão e pela energia nuclear. Os executivos do setor de energia elétrica vinham se mostrando temerosos em relação às flutuações dos preços do gás natural, especialmente das duas últimas décadas.
Mas esta situação pode estar prestes a mudar, segundo John Rowe, diretor da Exelon, a maior empresa de energia nuclear dos Estados Unidos. Ele argumenta que uma usina de energia nuclear seria proibitivamente cara, enquanto que novas regras que limitam as emissões de carbono, baixadas pela agência de Proteção Ambiental, fariam com que fossem necessários altos investimentos para a redução das emissões das usinas termoelétricas movidas a carvão. Isso significa que as companhias de energia elétrica farão cada vez mais uma transição para o gás natural.
“O gás natural impera”, disse Rowe em uma palestra no Instituto Americano de Empreendimento, neste mês, em Washington, D.C.
Essa opinião é endossada por um relatório que deverá ser divulgado em 22/03 pelo Centro de Políticas Bipartidárias e pela Fundação American Clean Skies, que prevê que o consumo de gás natural aumentará devido a uma abundância de novas reservas, incluindo nos Estados Unidos, algo que provavelmente manterá os preços relativamente baixos.
A produção mundial de gás natural aumentou 44% nas duas décadas decorridas entre 1990 e 2010, enquanto que as reservas de gás cresceram 67%. Após ter atingido um valor máximo de US$ 13,58 por mil pés cúbicos em 2008, o preço do gás nos Estados Unidos caiu para uma média de US$ 4,38 no ano passado. Além do mais, o gás natural emite apenas a metade do dióxido de carbono emitido pelo carvão quando este é queimado para a produção de um quilowatt hora de eletricidade.
O mercado imediato para o gás natural provavelmente será o próprio Japão, que está desesperado para aumentar as suas importações de combustível depois que um quinto da sua capacidade nuclear ficou paralisada, incluindo a problemática usina de Fukushima Daiichi.
O Japão já importa um terço do gás natural liquefeito global e os seus terminais de importação, sobremaneira os do sul, não foram danificados pelo terremoto. A energia nuclear e o carvão respondem por um quarto da geração de energia elétrica no Japão, enquanto que o gás natural responde por 30%, de acordo com analistas da companhia financeira Raymond Jones.
“É possível que o terremoto de Honshu venha a ser o catalisador que remodelará fundamentalmente a nossa abordagem em relação à energia global”, opinaram na semana passada os analistas da Bernstein Research.
Muitas companhias petrolíferas anteciparam essa mudança. Na Royal Dutch Shell, a produção de gás natural superou a de petróleo nos últimos anos. A ExxonMobil adquiriu a XTO Energy no ano passado a fim de aumentar a sua presença no mercado crescente de gás de xisto. A companhia também instalou projetos significativos de exploração de gás em Qatar, que possui as terceiras maiores reservas de gás natural do mundo, depois da Rússia e do Irã.
Novos projetos de grande dimensão dedicados ao gás natural liquefeito – nos quais o gás é congelado, comprimido no estado líquido para maior facilidade de transporte, e a seguir transformado novamente em gás nos terminais de importação – têm se multiplicado por todo o mundo nos últimos anos. Na Papua Nova Guiné, a Exxon está liderando um projeto no valor de US$ 15 bilhões (R$ 25 bilhões) para a construção e o desenvolvimento de uma unidade de gás natural liquefeito para abastecer clientes na Ásia. A Chevron recentemente deu início aos trabalhos de engenharia do projeto de gás Gorgon, no valor de US$ 40 bilhões (R$ 66,7 bilhões), na Austrália, juntamente com a Shell e a Exxon. Já a Rússia está pretendendo explorar novos e enormes campos de gás no Ártico.
Mas o gás natural também tem os seus problemas. Para extrair metano das duras rochas de xisto nos Estados Unidos, as companhias de energia utilizam o fraturamento hidráulico, um método que é criticado por poluir as fontes de água, incluindo rios e aquíferos subterrâneos.
Mas é preciso que a política energética encontre um equilíbrio entre esses perigos e as preocupações públicas quanto à energia nuclear, além de levar em conta o problema ainda não solucionado referente ao que fazer com o combustível nuclear usado que permanece radioativo durante centenas de anos.
“A energia nuclear de repente deixou de ser uma parte da solução para uma futura estrutura de energia verde e tornou-se uma perigosa relíquia da guerra fria”, declarou na semana passada, em um relatório, o Deutsche Bank.
Nos Estados Unidos, onde nenhum novo reator foi construído desde o acidente na usina de Three Mile Island, em 1979, o atitude em relação à energia nuclear tem sido ambivalente. No ano passado, o presidente Barack Obama pediu ao Departamento de Energia que fornecesse algum suporte financeiro para operações nucleares, incluindo dois reatores que deveriam ser construídos no Estado da Geórgia.
Mas, após o desastre japonês, o governo norte-americano ordenou uma ampla reavaliação da segurança das usinas nucleares.
Ao mesmo tempo, a indústria nuclear tem constatado que é quase impossível construir e financiar novas usinas. Em dezembro do ano passado, por exemplo, a Exelon cancelou a sua proposta para a construção de uma usina nuclear no Condado de Victoria, no Estado do Texas, devido à oposição da população local.
As companhias de energia elétrica também têm enfrentado dificuldades para a renovação das suas licenças de operação existentes. A Estação de Energia Nuclear Pilgrim, em Plymouth, no Estado de Massachusetts, está aguardando uma nova licença há cinco anos devido aos litígios e atrasos nos tribunais. Autoridades estaduais do Estado de Vermont têm lutado para fechar a usina Vermont Yankee, em Entergy, que começou a operar em 1972.
Existem 104 reatores nucleares nos Estados Unidos, que geram 23% da energia elétrica do país. Segundo a “Bloomberg News”, 20 reatores estão com pedidos pendentes junto aos reguladores federais para ampliarem a vida útil das usinas por até duas décadas.
“É provável que nós façamos em relação às licenças nucleares o mesmo que fizemos com as licenças para exploração de petróleo no mar”, diz Goldstein, da fundação de políticas energéticas. “Nós postergaremos e paralisaremos o processo”. (EcoDebate)

Localização de Fukushima

O maior erro de Fukushima é a localização de Fukushima
Mapa mostra local de usina em Fukushima
As centenas de especialistas nucleares, que durante anos teorizaram sobre a energia atômica, minimizaram algo que era uma obviedade: que na costa japonesa, além de terremotos, poderia haver tsunamis. Só dessa maneira se explica a construção de seis reatores semi-enterrados abaixo do nível do mar. Esse foi, segundo os engenheiros nucleares consultados, o grande erro de Fukushima. Isso, sem entrar na conveniência ou não de usar a energia nuclear.
“O erro foi colocar seis centrais à beira do mar, na altitude zero. Ao ser um enorme bloco encima, piorou o impacto do tsunami”, opina Antoni Tahull, engenheiro industrial. Este explica que o reator de Vandellòs II, na costa de Tarragona, está 21 metros acima do nível do mar.
Como foi possível colocar uma planta ali? Eduardo Gallego, professor de engenharia nuclear da Universidade Politécnica de Madri, declarou que “houve um excesso de confiança ao avaliar os riscos. Possivelmente, não levaram em conta que os registros históricos eram insuficientes”.
Os engenheiros e físicos nucleares insistem em que a central suportou o terremoto de magnitude 9. Após o terremoto, os reatores 1, 2 e 3 pararam, como estava previsto. Para isso, barras de controle são introduzidas automaticamente no núcleo. Com o terremoto, a planta ficou sem energia elétrica, mas, até aí tudo bem; passou a entrar em ação a refrigeração de emergência, produzida por geradores a diesel.
Até que veio o tsunami, que inutilizou os geradores a diesel utilizados para refrigerar uma central no caso de que fique sem energia elétrica. Esses geradores mostraram ser vitais. Apesar disso, não estavam suficientemente protegidos. “Além da localização, é óbvio que o sistema de refrigeração é muito vulnerável”, afirma Francisco Castejón, físico nuclear e membro de Ecologistas em Acción. Luis Echávarri, diretor da Agência Nuclear da OCDE, admitiu esta semana que uma das lições de Fukushima devia ser a melhoria na proteção desses geradores.
Sem refrigeração no núcleo, começaram a acumular vapor radioativo. Para aliviar a pressão, a empresa começou as ventilações, manobras para liberar gases. A ideia é que se trata de um mal menor, que é melhor liberar gases radioativos de forma controlada do que deixar que a pressão no núcleo aumente de forma incontrolada, o que poderia levar a uma explosão muito mais trágica.
Contudo, a central de Fukushima revelou um problema no sistema de ventilações. Entre os gases que saem está o hidrogênio, que explode em contato com o oxigênio do ar. Mas os gases não saíam diretamente para fora da central, mas ficaram presos entre o edifício do reator e a contenção, a carcaça que rodeia o núcleo do reator. Esse hidrogênio explodiu, como era previsível. Mas aconteceu dentro do edifício do reator. Isso causou as três explosões que destroçaram as centrais e que dificultam agora a colocação em marcha dos sistemas de refrigeração. Nos reatores 5 e 6, o Japão fez buracos nos edifícios antes que explodissem.
Além disso, acima do núcleo deste tipo de usinas nucleares estão as piscinas com combustível usado, altamente radioativo. As explosões deixaram as piscinas ao ar livre – foi possível fotografá-las desde o helicóptero militar com o qual desesperadamente tentavam refrigerar a planta. A situação das piscinas acima do núcleo e fora da contenção é outro ponto, no mínimo, discutível.
Fukushima colocou em evidência também as fragilidades do sistema internacional de comunicação. No sábado, o Conselho de Segurança Nuclear espanhol, que recebe a informação do Organismo Internacional de Energia Atômica (OIEA), informou que Fukushima tinha uma enorme piscina de combustível usado dos seis reatores “sobre o qual não se havia dado informações até agora”. O Japão deu informações imprecisas e com atraso, o que gerou mal-estar nos países da OIEA.

Mentiras nos relatórios de controle nuclear

Tepco teria mentido nos relatórios de controle sobre complexo nuclear de Fukushima
Administradora Tokio Eletric Power divulga foto de funcionários trabalhando para reparar prédio de reator danificado após terremoto e tsunami
Dez dias antes do acidente na central nuclear de Fukushima, a companhia Tokyo Electric Power (Tepco), operadora da usina, admitiu que havia mentido nos relatórios de controle de suas instalações.
Dez dias antes do terremoto seguido de tsunami que arrasou o nordeste do Japão e danificou gravemente a central nuclear de Fukushima 1, a Tepco entregou às autoridades um documento no qual confessava ter manipulado os dados de controle de manutenção.
A empresa afirmava que havia inspecionado cerca de 30 peças que, na verdade, não foram checadas.
A Tepco disse que, em 11 anos, não inspecionou a peça que alimenta uma válvula de controle da temperatura do reator, apesar dos técnicos, que se contentaram em fazer apenas controles rotineiros, garantirem o contrário.
Outras peças, cujo controle não é necessariamente obrigatório, tampouco foram submetidas a uma inspeção exaustiva, sobretudo as partes ligadas ao sistema de resfriamento e ao fornecimento elétrico de emergência.
As autoridades solicitaram o relatório à Tepco justamente para saber se o procedimento padrão de segurança estava sendo respeitado.
“O plano de controle das instalações e a gestão da manutenção eram inapropriados”, concluiu a Agência de Segurança Nuclear, que assegurou que “a qualidade das inspeções era insuficiente”.
Antes da catástrofe, a agência reguladora do setor havia alertado a Tepco, exigindo uma mudança de comportamento e a aplicação de um novo plano de manutenção antes de 2 de junho.
TRAGÉDIA
A tragédia de 11 de março provocou a parada dos seis reatores da central Fukushima 1, interrompeu a alimentação elétrica, bloqueou os geradores diesel de emergência e levou ao colapso o sistema de resfriamento.
Esta cadeia de erros gerou uma série de acidentes de gravidade crescente, que as equipes da Tepco ainda combatem com a ajuda do exército e dos bombeiros para evitar que a situação em quatro dos reatores se torne totalmente incontrolável.
“Não é possível dizer em que medida as falhas constatadas sobre a manutenção e o controle das instalações influenciaram ou não a cascata de problemas originados pelo terremoto”, indicou a agência.
Esta prevê abrir uma investigação exaustiva para apurar as causas da hecatombe, uma vez que a crise esteja superada. Neste momento, a prioridade é evitar o pior.
A qualidade da rede de distribuição elétrica da Tepco é, de maneira geral, de boa qualidade, já que os cortes de energia são praticamente inexistentes em Tóquio, cidade que abastece. Mas a imagem da companhia já havia sido borrada no passado por uma série de escândalos.
Em 2002, a Tepco precisou interromper temporariamente o funcionamento de seus 17 reatores nucleares de água quente (BWR), dois deles na central de Fukushima, para uma inspeção, após uma denúncia de maquiagem nos relatórios.
O caso custou o cargo do diretor geral e de seu braço direito. . (EcoDebate)

Uma advertência ao mundo

Desastre Nuclear em Fukushima: Uma advertência ao mundo
Uma advertência ao mundo
Ao descrever a devastação em uma cidade do Japão, um jornalista escreveu: “Parece que um trator gigante passou por cima e arrasou tudo o que existia ali. Como uma advertência ao mundo”. O jornalista era Wilfred Burchett, que escrevia de Hiroshima, Japão, em 05 de setembro de 1945. Burchett foi o primeiro jornalista do Ocidente a chegar a Hiroshima depois que a bomba atômica foi lançada. Ele informou a respeito de uma doença estranha que seguia matando pessoas, inclusive um mês após esse primeiro e letal uso de armas nucleares contra seres humanos. Suas palavras poderiam perfeitamente estar descrevendo as cenas de aniquilação que acabam de acontecer no nordeste do Japão. Devido ao agravamento da catástrofe na central nuclear de Fukushima, a advertência de Burchett ao mundo segue hoje mais que vigente.
O desastre tornou-se pior com o episódio do complexo nuclear de Fukushima depois do maior terremoto na história do Japão, e do tsunami que o sucedeu, responsável por milhares de mortos. As explosões nos reatores de número 1 e 3 liberaram radiação a um nível tal que foi medida por um navio militar dos Estados Unidos a uma distância de 160 quilômetros, o que obrigou a embarcação a afastar-se da costa. Uma terceira explosão sucedeu no reator número 2, motivando muitos a especularem que o contêiner primário, onde se mantém o urânio submetido à fissão nuclear e de vital importância, tinha-se danificado. Pouco depois o reator número 4 se incendiou, apesar de não estar funcionando quando o terremoto açoitou o país. Cada reator também utiliza o combustível nuclear armazenado em seu interior, e esse combustível pode provocar grandes incêndios, liberando mais radiação no ar. Todos os sistemas de esfriamento falharam, bem como os sistemas de segurança adicionais. Uma pequena delegação de valentes trabalhadores permanece no lugar, apesar da radiação que pode ser letal, tratando de bombear água do mar nas estruturas danificadas para esfriar o combustível radiativo.
O Presidente Barack Obama assumiu a iniciativa de liderar um “renascimento nuclear” e propôs novas garantias de empréstimos federais de 36 bilhões de dólares para promover o interesse das empresas de energia na construção de novas plantas nucleares (o que se soma aos 18,5 bilhões de dólares que foram aprovados durante o governo de George W. Bush). A primeira empresa de energia que esperava receber esta dádiva pública foi a Southern Company, por dois reatores anunciados para o estado da Georgia. A última vez que se autorizou e conseguiu levar a cabo a construção de uma nova planta de energia nuclear nos Estados Unidos foi em 1973, quando Obama estava na sétima série da Escola Punahou, em Honolulu. O desastre de Three Mile Island em 1979 e o de Chernobyl em 1986 efetivamente encerraram a possibilidade de avançar em novos projetos de energia nuclear com objetivos comerciais nos Estados Unidos. No entanto, este país segue sendo o maior produtor de energia nuclear comercial no mundo. As 104 plantas nucleares habilitadas são velhas, e aproximam-se do fim de sua vida útil originalmente projetada. Os proprietários das plantas estão solicitando ao governo federal estender suas licenças para operar.
A Comissão de Regulação Nuclear (NRC, na sua sigla em inglês) é responsável por outorgar e controlar estas licenças. No dia 10 de março, a NRC emitiu um comunicado para a imprensa “sobre a renovação da licença operativa da Planta de Energia Nuclear Vermont Yankee, próximo de Brattleboro, estado de Vermont, por mais vinte anos. Está previsto que o pessoal da NRC logo expedirá a licença renovada”, dizia a nota. Harvey Wasserman, de NukeFree.org, me disse: “O reator número 1 de Fukushima é idêntico ao da planta de Vermont Yankee, que agora está à espera de renovar sua licença e que o povo de Vermont pretende fechar. É importante saber que este tipo de acidente, este tipo de desastre, poderia ocorrer em quatro reatores em Califórnia, se o terremoto de 9.0 graus da escala Richter açoitasse o Canhão do Diabo em San Luis Obispo ou San Onofre, entre Los Angeles e San Diego. Poderíamos, perfeitamente, sermos agora mesmo testemunhas da evacuação de Los Angeles ou San Diego, se este tipo de desastre tivesse ocorrido na Califórnia. E, por suposto, Vermont tem o mesmo problema. Há 23 reatores nos Estados Unidos que são idênticos ou quase idênticos ao reator número 1 de Fukushima”. A maioria dos habitantes de Vermont, entre eles o governador do estado, Peter Shumlin, apoia o fechamento do reator Vermont Yankee, desenhado e construído pela General Electric.
A crise nuclear no Japão ganhou repercussões mundiais. Houve manifestações em toda Europa. Eva Joly, membro do Parlamento europeu, disse em uma manifestação: “A ideia de que esta energia é perigosa, mas que pode ser controlada acabou-se hoje. E sabemos como eliminar as plantas nucleares: precisamos de energia renovável, precisamos de moinhos, precisamos de energia geotérmica e precisamos de energia solar”. A Suíça interrompeu seus planos de renovar as licenças de seus reatores, e 10.000 manifestantes em Stuttgart incitaram a chanceler alemã Angela Merkel a ordenar o fechamento imediato das sete plantas nucleares alemãs construídas antes da década de ‘80. Nos Estados Unidos, o deputado democrata de Massachusetts, Ed Markey, disse: “O que está acontecendo no Japão neste momento dá indícios de que também pode acontecer um grave acidente em uma planta nuclear nos Estados Unidos”.
A era nuclear começou não muito longe de Fukushima, quando os Estados Unidos se tornaram a única nação na história da humanidade a lançar bombas atômicas em outro país. Duas bombas que destruíram Hiroshima e Nagasaki e mataram centenas de milhares de civis. O jornalista Wilfred Burchett foi o primeiro a descobrir a “praga atômica”, como a chamou: “Nestes hospitais encontro pessoas que quando caíram as bombas não sofreram nenhuma lesão, mas que agora estão morrendo por causa das sequelas. Sua saúde começou a deteriorar-se sem motivo aparente”. Mais de 65 anos depois que o jornalista sentara-se nos escombros com sua velha máquina de escrever Hermes e relatara a advertência ao mundo, o que aprendemos?
Observação e comentário da equipe do portal E&A: É difícil para a humanidade, em qualquer forma de sociedade, não reproduzir a expectativa de um cotidiano duradouro e com níveis aceitáveis de estabilidade. Foi assim no escravagismo nas Américas, que era algo legal e “naturalizado” pelos poderes coloniais e mesmo pós-coloniais estabelecidos; tal o é nas ditadura mais longevas, como esta de Muammar El-Khadafi que está quase ressuscitando em função da pretensão imperial da moribunda OTAN e sua cruzada global em busca de petróleo e derivados; e o mesmo se repete quando temos “desastres” em escala planetária.
Agora nos estarrecemos diante de algo sabido e cujos mitos produzidos pelas indústrias dos bens simbólicos (as corporações midiáticas e as respectivas agências de comunicação integrada, publicidade e relações públicas das transnacionais) não nos deixavam ver. As plataformas de extração de petróleo em águas profundas ou em alto mar são bombas permanentes que, uma vez deteriorado o seu funcionamento, podem destruir tudo ou quase tudo ao seu redor, aniquilando todas as formas de vida em maior ou menor escala, mesmo as sociedades humanas.
E, obviamente, o “desastre” de Fukushima só reitera a máxima de que é impossível pensar seriamente em contenção de danos e redução de perdas em termos de um acidente nuclear. Estamos falando de algo que não é 100% seguro e havendo falhas de distintas ordens, pode exterminar e prejudicar toda a vida ao redor e também a atingida pelo raio de propagação da radiação nuclear. Este tipo de dado, de informação precisa, contundente e irrefutável jamais vai circular com tanto impacto na mídia empresarial, e menos ainda na sinergia das transnacionais na era do capitalismo globalizado.
Assim, como nos ensina os militantes das lutas do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a opção pela fonte de energia não é única e, mais importante do que gerar recursos energéticos para as indústrias, é preservar e ampliar formas de vida em respeito a um futuro sustentável. Os efeitos societários de uma barragem gigantesca são terríveis, em especial para as populações tradicionais, originárias, quilombolas, ribeirinhas, extrativistas e da agricultura camponesa. As consequências são desastrosas quando o modelo de geração de energia polui, altera e afeta as formas de vida do planeta.
No caso da energia nuclear, a lógica é simples. Não é possível desenvolver algo que não se pode controlar caso sua operação falhe. Para quem imaginou o fim do perigo nuclear após a vitória dos EUA na Guerra Fria trata-se de mais uma ilusão de “normalidade”. Ou a soberania popular decide os destinos de uma coletividade, como na escolha dos modelos de desenvolvimento energético, ou sempre seremos reféns das sandices de modelos de negócios em sinergia com a indústria militar. Infelizmente, este pesadelo não começou em Chernobyl e não acabou em Fukushima. O fantasma nuclear precisa ser derrotado. (EcoDebate)

Baianos dizem não à energia nuclear

No belo entardecer da Praça Castro Alves, na capital baiana, “o poeta dos escravos” testemunhou uma comovente homenagem hoje, quando milhares de participantes do XI Grito da Água fizeram um minuto de silêncio em solidariedade às vitimas do terremoto japonês e aos afetados pela contaminação radioativa da usina atômica de Fukushima, que já alcança países da Europa e dos EUA. Na praça, cantada em prosa e verso, símbolo e cenário de episódios importantes da história e da cultura da Bahia, foi encerrada a manifestação do Dia Mundial, Estadual e Municipal da Água, que busca conscientizar a sociedade para abraçar as lutas “em defesa da água e do meio ambiente”.
Ali também, mais uma vez, dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores em Água Esgoto, promotor do evento, destacaram a grave situação dos baianos de Caetité, afetados pela única mineração de urânio em operação no Brasil, onde se produz a matéria prima para a fabricação do combustível das usinas atômicas do Rio de Janeiro. Por causa da catástrofe nuclear japonesa, cujas conseqüências ainda estão sendo calculadas, o Grito da Água funcionou como um levante contra o uso da energia nuclear no Brasil. As falas antinucleares e em defesa da exploração de energias limpas e renováveis começaram no inicio da manifestação, em frente ao Teatro Castro Alves, no Campo Grande, prosseguindo durante a caminhada por ruas do centro da cidade até o ponto final do ato.
Animada por dois carros de som, com presença marcante de muitos jovens, crianças, estudantes, baianas, bonecos gigantes, representantes de diversas organizações e movimentos sociais da capital e do interior, os manifestantes se posicionaram, com vigor, contra a usina nuclear na Bahia. Este foi o tema predominante durante a caminhada, que salientou a preocupação das populações de Caetité com a insegurança da mineração, a contaminação da água e do solo e o aumento dos casos de câncer na região e dos prejuízos sócio ambientais.
O que acontece no Japão hoje, infelizmente tendo como pano de fundo uma extraordinária tragédia humana e econômica, representa um dramático alerta para toda a humanidade sobre os perigos da energia nuclear. Os manifestantes desfilaram com um imenso balão com inscrição contra a implantação de usina nuclear na Bahia e uma faixa complementando que os baianos não querem “este perigo”. (EcoDebate)

Reator nuclear não explode como uma bomba nuclear

Cidade fantasma de Pripyat com a usina nuclear de Chernobyl ao fundo.
Sim, de certa forma, isso serve de algum modo de consolo, pelo menos podemos nos tranquilizar quanto a uma possível explosão nuclear. A possibilidade de uma explosão é completamente inviável.
Na verdade, os reatores nucleares e as armas nucleares dependem das reações em cadeia.
Essas reações dependem da presença de materiais nucleares, que são todos isótopos atômicos e podem quando submetidos a uma determinada reação nuclear, criar as matérias-primas necessárias para as mesmas reações se repetir sequencialmente, em cadeia.
Existe somente um isótopo natural físsil útil para a energia nuclear, o urânio-235 que é raro em estado natural.
Os outros isótopos físseis, como isótopos de plutônio, têm de ser artificialmente criados a partir de isótopos naturais.
Vamos tomar como exemplo uma reação em cadeia, envolvendo o urânio-235, que é a reação em cadeia usada em reatores nucleares e muitas vezes em armas nucleares.
Um nêutron livre (parte do núcleo de um átomo) colide com o núcleo de outro átomo de urânio em movimento (de urânio-235) e é absorvido por ele. A fissão de urânio os transforma em dois isótopos mais ágeis e mais leves, recebendo normalmente os nomes de criptônio-92 e bário-141, além de produzir radiação gama.
O reator nuclear absorve essa energia, que é cerca de três milhões de vezes maior que a energia que o carvão pode produzir em uma queima convencional.
O resfriamento do reator é feito com água que, além de resfriar o reator, produz vapor para acionar as caldeiras geradoras de vapor que impulsionam as turbinas geradoras de energia elétrica.
Essa reação cria outros nêutrons livres, que são absorvidos por outros isótopos de urânio-235, dando inicio a todo o processo que se repede inúmeras vezes.
As reações vão se repetindo, entre os isótopos de urânio natural, mas somente o urânio-235 é físsil.
Os outros elementos radiativos não têm essa propriedade, não dão inicio as reações em cadeia.
Para evitar um acúmulo potencialmente perigoso de energia, os reatores nucleares possuem um grande número de dispositivos de segurança. Um dos métodos mais conhecidos é o uso de barras de controle, feitas de materiais como o boro, que absorvem nêutrons, mas não podem passar por reações nucleares.
O boro funciona como um depositário de nêutrons sem tornar-se radioativo.
No caso de um acúmulo de energia, essas barras de boro são manipuladas para cair sobre o núcleo do reator e absorver todos os nêutrons livres, interrompendo assim a reação em cadeia.
Possivelmente, o descuido ao manipular essas barras de segurança, foi a causa de um dos muitos fatores por trás do desastre de Chernobyl.
Se todas as medidas de segurança não interromperem o acúmulo de calor – como aconteceu em Chernobyl, e como pode acontecer no Japão – há efeitos bastante desagradáveis. A ameaça mais provável será a de fusão nuclear que acontece quando o acúmulo de energia (calor) faz com que o núcleo inteiro do reator derreta (entre em fusão), danificando as estruturas de proteção e liberando materiais radioativos no meio ambiente.
Caso isso aconteça, poderá provocar terríveis consequências. Felizmente, o reator jamais explodirá. A explosão nuclear num reator é impossível.
A tão falada “explosão” de Chernobyl foi apenas uma explosão de vapor.
Houve um super aquecimento, um aquecimento descontrolado do reator, coincidindo com uma refrigeração deficiente por falha humana e consequente pressão excessiva de vapor nas caldeiras que culminou com a explosão de vapor contaminado por radiação, espalhando a radioatividade no meio ambiente.
Há uma grande diferença entre reator nuclear e uma bomba nuclear.
O urânio natural é completamente inútil para reatores nucleares, mais ainda há, infelizmente, muito útil para fabricação das armas nucleares.
O urânio natural é representado por de cerca de 99,3% do isótopo urânio-238 e apenas 0,7% de urânio-235.
Só o urânio 235 é capaz de manter uma reação em cadeia e para tornar o urânio utilizável a reações em cadeia, ele precisa ser enriquecido.
Daí a necessidade separar cuidadosamente o urânio-235 do urânio-238, utilizando-se para isso complicada tecnologia.
Os reatores nucleares precisam de urânio pouco enriquecido, com uma concentração de até 20% de urânio-235.
Normalmente, as centrais nucleares só precisam de uma concentração de 3 a 4% de urânio 235.
As armas nucleares, por outro lado, exigem urânio altamente enriquecido para o tipo de reação em cadeia criar uma explosão nuclear. O ponto de médio para o alto enriquecimento é de apenas 20%, mas a grande maioria das armas nucleares de urânio chega a uma concentração de cerca de 80 a 95%. A bomba lançada sobre Hiroshima, por exemplo, usou 80% de urânio enriquecido.
A bomba nuclear é planejada para liberar toda a sua energia em uma única explosão, o que significa que o material tem que ser tão densamente embalado quanto for possível, e em uma esfera tão homogênea e compactada quanto possível.
Isso não se parece em absolutamente nada com o projeto dos núcleos de reatores, que se destinam a produzir uma versão estável e controlada de energia. Até mesmo o tipo de acúmulo de energia necessária para produzir uma fusão não pode nunca atingir a velocidade e intensidade de energia necessária para uma explosão nuclear.
O arranjo geométrico do urânio-235 em um reator nuclear não é um arranjo esférico necessário para uma reação em cadeia explosiva, e a quantidade de urânio-238 não-físsil também impede qualquer reação de fuga da radiação.
Porém, nada disto se destina a minimizar os perigos reais de acidentes em reatores nucleares. Como visto em Chernobyl, podem ter efeitos ambientais absolutamente devastadores. A cidade vizinha, Pripyat, permanece inabitável 25 anos após o acidente.
Ainda não podemos saber se a situação atual no Japão atingirá os níveis de Chernobyl, um fato é certo, mesmo em meio a desastres de proporções inimagináveis, o medo de uma explosão nuclear pode passar longe da cabeça dos japoneses porque esse perigo não existe!
Para fecharmos este comentário de forma bem explicita, podemos afirmar ainda:
A explosão de um reator mata lentamente, em maior ou menor tempo, dependendo da maior ou menor concentração do material radioativo e a explosão de uma bomba nuclear mata instantaneamente num determinado raio de ação, dependendo de seu poder destrutivo e os resíduos radioativos oriundo da explosão nuclear continuam matando por dezenas e até centenas de anos. (EcoDebate)

O desastre natural e o desastre nuclear no Japão

O “sarcófago” que abriga o reator 4, construído para conter a radiação liberada pelo acidente em Chernobyl.
É assunto atualíssimo a ampla tragédia ocorrida no Japão. Ali houve três desastres seguidos que causaram muita destruição e diversos tipos de aflição na população. Mas os acontecimentos não foram exatamente assim. Vamos ampliar um pouco o ângulo de visão para podermos clarear as condições essenciais dos fatos.
Percebemos que houve uma acomodação geológica da placa tectônica do Pacífico a 130 km da costa nipônica, com força classificada de 8,9 pontos na Escala Richter. Previsível pela ciência. Só isso. No âmbito natural, foi apenas isso, sem danos significativos à situação geológica. O mais foi apenas resultado da atuação irresponsável da atual civilização materialista, tecnológica e agressiva.
Aquela acomodação tectônica se manifesta, aleatoriamente, no correr de borda de todas as placas geodinâmicas em que o planeta é dividido. É uma conformação natural, própria e adequada de um planeta vivo. A terra pode ser comparada, para melhor entendimento, a um ovo rachado em diversas partes, no qual as inferiores são cobertas por água e as superiores são secas e chamadas de continentes. A crosta terrestre, constituída de rochas, é proporcionalmente tão fina quanto à do ovo.
Voltemos a analisar as consequências do maremoto. Houve, por extensão e concomitantemente, um terremoto em áreas densamente habitadas que teria causado alguns poucos danos se ali não fosse ocupado por tanta gente com seus queridos bens materiais. Esse ajustamento geológico provocou em seguida uma elevação das águas, numa altura de apenas 10 metros, que invadiu o território indevidamente ocupado pelos humanos e suas incontáveis quinquilharias. Produziu um entulho de roupas, móveis, coleções de figurinhas, taças esportivas, aparelhos tecnológicos, carros, casas, arbustos, aviões, barcos e demais invenções e artigos supérfluos, a cujo conjunto damos o nome de lixo civilizatório.
Enquanto isso, os pássaros voavam tranquilamente em seus espaços naturais sem qualquer dano. Se fossem realmente inteligentes e em quantidade muito menor – compatível com os recursos naturais – os homens deveriam alojar-se em nível superior a 100 metros, reconhecendo sua submissão e respeito às manifestações naturais.
Há lamentações por perdas humanas, como é natural nessas ocasiões. Há compaixão e solidariedade com os irmãos de mesma espécie porque tal sentimento é herdado na corrente existencial. Contudo, todos esses danos são, ou consertáveis, ou recuperáveis, ou recompostos, ou conformáveis. Não são eternos. Têm um fim em curto prazo e deixam uma lição muito grande, de ordem sócio- administrativa que não cabe aqui desenvolver, mas sobre a qual cada um pode fazer suas próprias ilações.
Mas nosso objetivo central aqui é analisar um aspecto que não está na programação natural e suas consequências civilizacionais. O maremoto causou, sem culpa, um mal imenso, com possível extensão à própria humanidade, cuja inserção na tragédia é de responsabilidade exclusiva da ação humana que segue o compasso da atual linguagem econômica na busca insana de progresso e crescimento ilimitados.
Referimo-nos à construção de usinas nucleares para produção de energia elétrica, fator alimentador dos confortos do corpo, objetivo inglório do sistema econômico que desnatura o próprio homem – sem qualquer proveito para as ânsias espirituais. Se pensarmos racionalmente, ante a atual encruzilhada ambiental por que passamos, a energia elétrica é inteiramente dispensável para a normal movimentação dos seres viventes. A Natureza nos proveu das condições próprias de locomoção pelo sistema muscular.
A Natureza nos deu o dia para as atividades normais e simples da vida. E nos deu a noite para o descanso e recomposição das energias despendidas no dia. Viver é incorporar-se ao ciclo próprio que ela nos oferece sabiamente. Os músculos são o repositório das energias vitais necessárias para a movimentação de busca de alimentos. A vida é muito simples para ser vivida. A atual civilização é que a complicou pela corrida aos ganhos materiais e eleição de castas econômicas, valorizando culturalmente o individualismo em detrimento do conjunto de seres vivos.
A construção de uma usina nuclear fica em aproximadamente 10 bilhões de reais. Um desastre nuclear acarreta dispêndios em vidas e bens equivalentes a valor tão grande que se torna incalculável, além de destruir as condições mínimas para existência da ecologia. O desastre da espécie libera na atmosfera elementos radioativos enriquecidos como os isótopos de estrôncio, xenônio, césio, iodo, plutônio, que duram tempo imenso.
O conteúdo da usina de Chernobyl continua vivo, ativo. Só que contido num sarcófago de cimento e ferro. Mas até quando? Ninguém sabe. Não deixa de ser uma bomba com relógio incerto. Nas usinas de Fukushima, ainda não temos uma definição da radioatividade a ser liberada para o envenenamento da vida. Oxalá consigam os nipônicos estancar as fontes incontroladas.
Todos nós, quando criança, aprendemos na pele que “com o fogo não se brinca”. Devíamos saber também que “com a fissão do átomo, não se brinca”. O mundo já tem “na pele” e nos genes suas consequências. Qualquer das 441 usinas em atividade está sujeita a provocar a libertação de seu núcleo mortífero e incontrolável. É só entrar em ação o fator da imponderabilidade.
E o lixo proveniente das operações dessas usinas, que é todo radioativo, está sendo lacrado em tambores especiais para uma destinação a que os cientistas ainda não sabem. O lixo atômico americano, depois de encarcerado em tambores de chumbo, está (oh, quanta irresponsabilidade!) sendo lançado no Oceano Pacífico, longe da costa continental. “Longe dos olhos, longe do coração político”. Está sendo jogado dentro da “casa” (hábitat) dos nossos irmãos viventes na água.
Afinal, a força forte contida no íntimo do átomo, que aglomera forças de carga positiva e negativa, constitui um dos segredos da Natureza. A civilização famélica por lucro violou esse sacrário, acorrentando-o em seu proveito, sem o menor respeito e submissão aos mistérios da sábia Natureza. O sistema econômico vigente age e pensa exclusivamente em função do lucro imediato dos tempos presentes. O futuro, eles não conseguem enxergar. Estamos deixando para as gerações vindouras apenas lágrimas para chorar.
As ocorrências naturais do planeta são do conhecimento geral. As tragédias consequentes montadas pela ganância do sistema econômico também são previsíveis. A tragédia global proveniente do envenenamento do meio ambiente pelo progresso materialista deveria ser perceptível por toda a humanidade; não somente pelos ambientalistas.
Neste exemplo que estamos vendo no Japão, as pessoas estão fugindo do país. Muito bem. Quando os brinquedos nucleares do mundo – usinas, foguetes militares, submarinos – e as outras atividades irracionais que destroem nosso ar, água e solo entrarem em colapso, ocasionado por causas não previstas pelos “técnicos”, nós vamos fugir para onde?
Só há um lugar: a tumba. (EcoDebate)

terça-feira, 29 de março de 2011

Risco atômico vale a pena?

Para ativista antinuclear francesa, risco atômico não vale a pena
Militante defende descentralização da matriz energética e prevê desfecho sombrio em Fukushima
Fukushima
Garota desabrigada passa por teste de radiação
Na França, que é o segundo país que mais usa energia nuclear no mundo, com 58 reatores em funcionamento e mais um em construção, a ONG Sortir du Nucléaire se dedica a contestar a segurança das atuais usinas atômicas. Para a porta-voz do grupo, a física e engenheira Perline Noisette, de 55 anos, que esteve no Brasil fazendo um doutorado sobre o acidente com o césio-137 retirado de um aparelho radiológico em Goiânia, em 1987, o uso desse tipo de tecnologia "sempre envolve risco". A solução, diz a ativista, é descentralizar a matriz energética - e não investir em projetos de grande porte com enorme geração de energia em um único local, sejam eles nucleares ou hidrelétricos.
De que maneira sua tese influenciou sua visão sobre o uso da tecnologia nuclear?
Eu já estava engajada na causa antinuclear antes de ir ao Brasil. Tive uma formação em física que me permitia trabalhar no campo nuclear e, embora nessa época - anos 70 e 80 - não existisse propriamente um movimento verde, já havia muita gente preocupada com os riscos (da energia atômica). Eu estava entre eles. Em 1993, poucos anos depois do acidente com o césio-137 em Goiânia, fui ao Brasil para fazer meu doutorado - durante o qual trabalhei com o (físico brasileiro e ex-presidente da Eletrobrás) Luiz Pinguelli Rosa. No estudo, analisei aspectos econômicos, tecnológicos, psicológicos e midiáticos envolvendo o acidente. O que mudou para mim foi a visão de que um acontecimento desses é banal: salta aos olhos a falta de controle no que se refere ao uso e ao descarte desses equipamentos que representam grande risco à saúde humana. Algo que não ocorre apenas no Brasil.
Até que ponto o incidente em Fukushima pode ser considerado excepcional, tendo em conta a catástrofe natural que o precedeu? Os vazamentos radioativos são a prova de que não existe segurança na questão nuclear?
Há a causa dos problemas na central nuclear, que foi o terremoto, e problemas posteriores que decorreram dele. Do ponto de vista da resistência ao terremoto, a coisa funcionou bem: os reatores pararam imediatamente, como previsto nas medidas de segurança. Aí, vem o depois, porque um reator não é uma bicicleta. Uma usina tem dejetos radioativos armazenados em piscinas, que precisam ficar resfriados. E esses sistemas de segurança, que manteriam as piscinas resfriadas, é que falharam. Primeiro, pararam os sistemas elétricos. Depois, a alimentação de emergência. E, quando começa o aquecimento, todo aquele bonito sistema de segurança começou a fazer água. Nada mais funcionou direito. As consequências se tornaram incontroláveis. Lendo os relatórios técnicos sobre a situação atual, nota-se que as seis piscinas dos seis reatores correm o risco de sofrer fusão e liberar material radioativo.
Ou seja, o comissário europeu de Energia, Günther Oettinger, não exagerou ao chamar a situação de "apocalíptica".
Nem um pouco. Como ele é um técnico, não um político, vê bem as coisas como elas são. Já é evidente para mim que haverá, na melhor das hipóteses, a liberação de um monte de radioatividade no meio ambiente. A diferença para Chernobyl é que lá o reator explodiu sem qualquer chance de controle e as partículas radioativas subiram muito alto, sendo levadas pelo vento. Em Fukushima, ninguém está 100% certo de que algum reator não exploda. E, pela quantidade de radioatividade liberada até agora, me parece claro que pelo menos 50 pessoas irão morrer nas próximas semanas.
A sra. fala dos "50 de Fukushima", os trabalhadores da usina que estão tentando resfriar os reatores?
Se é que as informações até agora divulgadas pelos japoneses podem ser consideradas inteiramente confiáveis. Os americanos já recomendam a seus cidadãos um afastamento de 80 quilômetros da usina por causa dos efeitos da radiação. É uma catástrofe, realmente. Quando penso nas 50 pessoas que estão lá... Elas já não estão vivas, estão mortas. Eu me sinto muito mal por elas, não tenho sequer conseguido dormir. Veja que praticamente todos os jornalistas franceses que foram participar da cobertura do terremoto, voltaram para a França. Repórteres que se dispõem a cobrir terremotos, guerras, inundações, tiveram medo e abandonaram o país.
Esses acontecimentos, em um país considerado de alto grau de segurança, afetarão a percepção que o mundo tem do uso da tecnologia nuclear?
Sim. E, infelizmente, essa tragédia teve de ocorrer para a verdade vir à tona. A Alemanha anunciou que encerrará as atividades dos reatores com mais de 30 anos. A Suíça também está revendo o seu programa nuclear. Quando o problema ocorreu em Chernobyl, em um lugar pobre (Ucrânia), de gente atrasada, em uma ditadura, foi mais fácil de relevar. Mas o Japão era referência nesse tipo de tecnologia, especialmente por sua condição de país passível de terremotos, tsunamis, etc. A França garante que sua tecnologia é segura, embora os franceses jamais tenham sido consultados sobre o uso desse tipo de tecnologia, que sempre envolve risco. Nem antes nem depois da instalação de nossas usinas.
O Brasil tem duas usinas nucleares, Angra 1 e Angra 2, e planeja a construção de uma terceira. Nos últimos anos, a opção nuclear passou a ser vista de maneira menos negativa no País em razão dos grandes danos ambientais na construção de hidrelétricas, por exemplo. Qual a solução para lidar com o déficit de energia?
A solução é descentralizar a energia. O Brasil tem sol, vento e muito boa tecnologia. Se o País pode construir centrais nucleares, pode perfeitamente construir geradores de energia eólica, por exemplo. Ou disseminar painéis solares em casas e edifícios. Argumenta-se que essas fontes ainda são caras - o que é verdade, se você faz poucas unidades. Se você as produz em grande escala, porém, é possível baixar consideravelmente seus custos. E descentralizar a produção de energia significa também evitar o enorme desperdício no transporte dessa energia. Há uma perda enorme nas linhas de transmissão entre as hidrelétricas e as usinas nucleares para o local onde a energia será de fato usada. Quando se fala nos "baixos custos" da geração de eletricidade em uma usina nuclear, frequentemente se subestima o preço do armazenamento, por décadas, dos dejetos radioativos. Sem falar do risco de um incidente como o que estamos vendo. Recentemente, uma lei na Europa tornou obrigatório o uso de lâmpadas econômicas. Uma boa estratégia energética atua, simultaneamente, na redução do consumo e na adoção de produção local da energia necessária. Projetos gigantescos, com enorme geração de energia em um único local, são coisas do passado. O Brasil deve aproveitar os equipamentos hidrelétricos de que já dispõe, mas construir novos. O impacto catastrófico na fauna, flora e povos indígenas, não é exatamente uma política moderna. (OESP)

Embaixada busca 400 brasileiros no Japão

Embaixada busca 400 brasileiros nas cidades mais atingidas do Japão
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil está organizando missões às áreas mais afetadas pelo terremoto e o tsunami de sexta-feira no Japão, com o objetivo de prestar apoio aos brasileiros que moram lá. São mais de 380 na cidade de Sendai e aproximadamente 20 em Fukushima, onde uma central nuclear apresenta sérios problemas. O Itamaraty recebeu relatos de que brasileiros estão em locais sem abastecimento de água e luz.
Por decisão do Ministério da Justiça, a Força Nacional de Segurança convocou 80 bombeiros especialistas em resgates e 30 peritos que, com 30 cães farejadores, vão embarcar para o Japão com o objetivo de ajudar no socorro às vítimas. O Ministério da Justiça ainda não anunciou quando a tropa viajará.
Os dados oficiais mais recentes sobre as vítimas da catástrofe japonesa, divulgados na noite deste domingo, dão conta da morte de 1.353 pessoas e do desaparecimento de mais de 1.400. Informações extra-oficiais divulgadas nas últimas horas indicam que em apenas duas cidades foram encontrados, pelo menos, 2.000 corpos.
A população de Fukushima foi orientada pelo governo a só sair às ruas usando máscaras e capas de vinil descartáveis, para minimizar os riscos de contaminação pela radiação que ainda vaza das usinas nucleares. As autoridades pedem que as capas e as máscaras não sejam reutilizadas, mas jogadas no lixo. Os moradores também são instruídos a não usar sistemas de ventilação com aparelhos de ar-condicionado, que traz ar de fora para dentro das casas.
O governo japonês prepara uma espécie de política de apagão de energia elétrica para a Região Norte do país, a mais afetada pelo terremoto e pelo tsunami. A ideia é implantar nas cidades uma escala de cortes de energia de três horas por dia.
Um novo e forte terremoto foi sentido por volta das 10 horas da manhã desta segunda-feira (noite de domingo no Brasil). O epicentro foi registrado no mar, 150 km a nordeste de Tóquio, e fez balançar prédios altos na capital japonesa. Um alerta de tsunami chegou a ser emitido, mas foi cancelado. (brasiliaconfidencial)

Radiação no mar de Fukushima atinge pico

Concentração de iodo radioativo é 1.250 vezes superior à registrada normalmente
Destruição
Carros arrastados pelo tsunami se aglomeram em um estacionamento de Sendai, uma das cidades mais afetadas
A situação na usina atômica Fukushima se agravou ontem, com a identificação de iodo radioativo no mar em concentração 1.250 vezes superior à registrada normalmente no local e pela incerteza sobre a origem do material tóxico.
A sucessão de emergências registrada nas duas últimas semanas indica que crise nuclear que assola o Japão poderá durar meses ou anos e deixará sequelas para os que vivem a dezenas de quilômetros da usina de Fukushima, diz Philip Walter, do Centro de Informação Nuclear dos Cidadãos, entidade com sede em Tóquio que se opõe ao uso de energia atômica.
Na sexta-feira, o primeiro-ministro Naoto Kan reconheceu que a situação na usina é "imprevisível", enquanto o porta-voz de seu governo, Yukio Edano, disse ser difícil estimar quando a crise estará controlada.
Os engenheiros desconhecem o real estado dos reatores que estão em risco e suspeitam que o de número 3 sofreu danos na sua estrutura, com possíveis rachaduras. Essa poderia ser a origem do material encontrado no mar e também na poça de água que contaminou dois funcionários do complexo na quinta-feira. O reator número 3 desperta mais preocupação por utilizar plutônio, combustível mais tóxico que o urânio empregado nas demais máquinas.
"Essas são as únicas certezas que temos no momento: será difícil colocar os reatores sob controle, haverá emissão de radioatividade por um bom tempo e a limpeza posterior será extremamente difícil", disse Walter por telefone ao Estado.
A Tokyo Electric Power (Tepco) enfrenta o dilema de como armazenar de maneira segura a água contaminada que foi encontrada em três dos seis reatores. A lâmina de 15 centímetros de profundidade na qual os dois operários foram contaminados na quinta-feira tinha concentração de material radioativo 10 mil vezes superior ao normal. Outras poças semelhantes foram encontradas nos reatores 1, 2 e 4.
A amostra de água do mar com iodo radioativo foi coletada 330 metros ao sul da planta, onde testes realizados ao longo da semana haviam indicado concentração 100 vezes superior ao limite legal - o resultado de ontem foi 1.250 vezes.
Segundo a agência de segurança nuclear, não há risco de contaminação de vida marinha, já que a radiação se dilui na grande quantidade de água no oceano. Mas sua presença é uma indicação de problemas nos reatores.
Material radioativo foi detectado na água encanada de Tóquio e outras cinco cidades, no solo de regiões próximas a Fukushima, em vegetais e no leite. As autoridades afirmam que os níveis identificados não apresentam riscos à saúde. A única exceção é a água, que em certas localidades continua imprópria para consumo por bebês com menos de 1 ano.
O terremoto seguido de tsunami que afetou a costa nordeste do Japão no dia 11 de março deixou pelo menos 28 mil pessoas mortas ou desaparecidas.
CRONOLOGIA
Pesadelo nuclear
11 de março
Terremoto e tsunami arrasam nordeste do país
Tremor de 9 graus na escala Richter cria onda de 10 metros de altura.
Abalo afeta reator da usina atômica de Fukushima.
12 de março
Risco nuclear
Explosão em usina causa temor de contaminação nuclear. Nível de radiação estava oito vezes maior que o usual.
13 de março
Reatores em colapso
Engenheiros correm contra o tempo para encontrar uma maneira de interromper aquecimento dos reatores.
14 de março
Ajuda da ONU
Japão pede ajuda aos EUA e à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para conter o vazamento de material nuclear para a atmosfera. Segundo reator explode, ferindo seis.
15 de março
Desabastecimento
Faltam alimentos e combustível em cidades afetadas. Em Tóquio, o nível de radiação atinge cerca de 20 vezes o normal.
16 de março
Risco extremo
Com novas explosões, autoridades afirmam que os níveis de radiação na região de Fukushima são "extremamente altos".
17 de março
Corrida contra o tempo
Helicópteros militares e caminhões-pipa tentam evitar derretimento do núcleo dos reatores de usina atômica de Fukushima. (OESP)