quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Escolhendo um parto seguro

Diante de tantos impasses, escolher a forma em que se dará a luz não é tarefa fácil. E quando a segurança do bebê é um dos quesitos mais importantes, a cesariana costuma ser o parto escolhido, mas os especialistas alertam: "Não existe um tipo de parto mais seguro para todas as crianças. Cada caso deve ser avaliado individualmente por profissional qualificado e as decisões devem ser tomadas juntamente com a família", afirma Fábio. "Ainda que de uma forma geral o parto normal seja mais indicado por contribuir para que o bebê expulse o excesso de líquido pulmonar ao passar pelo canal de parto, diminuindo os riscos de transtornos respiratórios, nem sempre ele é o parto mais seguro", revela Edílson. "O que ocorre é que em gestações normais, a segurança não está no tipo de parto mas sim como essa assistência é realizada. Partos normais bem assistidos são muito seguros. Cesáreas bem indicadas e bem executadas também o são", enfatiza Luciano. "Por isso, em gestações a termo (idade gestacional maior ou igual a 37 semanas) com feto de peso adequado e em boas condições de oxigenação e nutrição, o parto por via vaginal pode ser considerado seguro para o futuro recém-nascido. Por outro lado, quando há riscos para a mãe, feto ou ambos, as cesáreas são indicadas", sugere Fábio. Em alguns casos, o parto cesariano torna-se, até mesmo, a única opção. "Quando há risco materno e fetal, hipertensão arterial grave da gestante, o feto encontra-se em posição transversa ou a mulher apresenta mais de duas cesáreas anteriores, a cirurgia é a indicação", lista Luciano. Cássio acrescenta o descolamento placentário prematuro e a desproporção entre a cabeça da criança e o canal do parto como fatores que levam os especialistas a recomendarem o parto cirúrgico. Edílson o indica em casos de gravidez de gêmeos em que um dos fetos encontra-se sentado ou em gestações múltiplas de três crianças ou mais. Portanto, o pré-natal pode ser a melhor ferramenta para escolher qual parto realizar. Através dele é possível saber de antemão o que será mais seguro para a mãe e para a criança. Prós e contras de cada parto De acordo com os especialistas, cada tipo de parto apresenta suas vantagens e desvantagens que, quando colocadas sobre a balança, costumam equilibrá-la. "Se por um lado, no parto normal não há cicatriz aparente, podem ocorrer problemas futuros como queda da bexiga e incontinência urinária", exemplifica Luciano. "No entanto, a recuperação pós-parto do parto normal é mais rápida e o procedimento é menos agressivo, pois na cesariana estamos falando de um ato cirúrgico onde tecidos são cortados para se chegar ao bebê. E os riscos de infecções são muito maiores", compara Cássio. "No entanto, em casos excepcionais, a cesárea pode salvar a vida da mãe ou do bebê", relembra Edílson. Uma grande diferença entre os dois tipos de parto diz respeito à duração. "Numa cesariana convencional o procedimento desde a incisão até o fechamento da pele leva em torno de 60 minutos, enquanto, numa cesariana de urgência, um bom profissional consegue tirar o bebê em poucos minutos (2 a 3 minutos). Já o parto normal pode levar até 48 horas do início das dores até a expulsão do bebê, mas quando falamos do trabalho de parto em si (a paciente já apresenta dilatação do colo de pelo menos três centímetros) algumas horas são suficientes para a expulsão", revela Cássio. (bolsademulher)

Doulas, mãos amigas

O nome é um pouco estranho, pouca gente ouve falar, mas a presença de uma doula pode fazer toda a diferença no momento do parto. Isso mesmo, o nome que se dá à mulher que acompanha a gestante no momento em que ela dá a luz - que você provavelmente já deve ter visto em filmes e novelas - é doula. A palavra vem do grego e seu significado original é "mulher que serve".
Hoje em dia, chamam-se doulas aquelas que dão suporte físico e emocional às mães antes, durante e depois do parto. Há também outros nomes para designar a atividade, como "acompanhante de parto" e "monitora perinatal". Sua presença era praticamente obrigatória em qualquer parto realizado nas primeiras décadas do século XX, época em que as mulheres davam à luz em casa. Provavelmente sua mãe ou avó nasceram diante dos olhos de uma delas. As doulas podiam ser vizinhas, comadres, a mãe, amigas, ou até mesmo a parteira. Elas ficavam encarregadas de dar apoio às mamães no momento do nascimento, segurando sua mão, secando o suor, dando-lhes água ou molhando sua testa. O parto, nessa época, era um momento absolutamente familiar, só se chamava um médico se houvesse alguma complicação séria para o nascimento do bebê. (bolsademulher)

Cesariana X parto normal

Mitos e verdades: saiba as indicações e diferenças de cada tipo de parto Já ouviu falar em doulas? Conheça essas companheiras das futuras mamães.
Doulas são os Anjos da guarda das mães na hora do parto, elas dão apoio, segurança e incentivo.
Doulas, mãos amigas.
O dia tão esperado se aproxima e é hora de escolher a forma pela qual o pequeno chegará ao mundo. Se por um lado a rápida recuperação do parto normal e a ausência de cicatriz a seduzem, por outro, o medo da dor e o desejo que o filhote chegue em segurança podem pesar na opção pela cesariana. De fato, o Brasil é campeão mundial em realizações da cirurgia. "Em 2006, 42% dos nascimentos realizados em hospitais conveniados ao SUS (Sistema Público de Saúde) eram cesáreas. Nos hospitais da rede privada, a taxa alcançava 90%", constata Fábio Roberto Cabar, doutor em obstetrícia e ginecologia pela Universidade de São Paulo (USP). A tendência é mundial. "Países que tradicionalmente apresentavam taxas baixas deste tipo de parto, como a Turquia e a Itália, alcançaram, no início dos anos 2000, taxas de 30 e 33%, respectivamente", completa o especialista.
Pronta prá ser mãe?
Faça o teste. Contrariando os números, desde 1985, o Ministério da Saúde recomenda que apenas 15% dos partos sejam cirúrgicos. "Essa porcentagem se deve ao fato de que, teoricamente, teríamos uma taxa de 15% de complicações intraparto que justificariam a intervenção cirúrgica ou mesmo gestações de alto risco nas quais seria necessário o parto cesariano para não incorrer em risco de morte para mãe e/ou bebê", explica Edílson Ogeda, ginecologista e obstetra do Hospital Samaritano, em São Paulo. Por que, então, é cada vez maior o número de cesáreas realizadas nas maternidades do país? Mitos e questões culturais costumam ser a resposta para essa questão. "O medo da dor, o perigo de ter que sair de madrugada para dar a luz, o receio de não encontrar seu médico na hora que precisa ou não chegar ao hospital a tempo são algumas das preocupações que levam as mulheres a optarem pela cirurgia", opina Cássio Sartório, ginecologista e obstetra do Centro de Fertilidade da Rede D'Or, no Rio de Janeiro. "Além disso, hoje, a mulher, em geral, trabalha fora e precisa se organizar para ter seu filho. Portanto, ela gosta de poder programar sua gravidez, sabendo exatamente o dia e a hora do nascimento da criança", acrescenta Luciano Patah, ginecologista e obstetra do Hospital Sepaco, em São Paulo. É importante salientar a questão dos planos de saúde. "Os convênios médicos remuneram o especialista igualmente (independentemente do tipo e da duração do trabalho de parto). Desta forma, para o médico particular (ou de convênio), pode ser muito mais cômodo marcar a cirurgia, saber exatamente a hora e o dia em que precisa fazer o atendimento, sem precisar acompanhar todo o trabalho de parto", pontua Fábio. (bolsademulher)

Desmistificar o parto

Antes de decidir qual parto escolher, é preciso desmistificar algumas questões: O trabalho de parto normal é doloroso e a recuperação da cesariana também. Certo? Errado. Segundo os especialistas, o pós-parto cesariano não precisa ser algo sofrido. "Já estão disponíveis no mercado analgésicos eficientes, seguros e que não interferem na amamentação", revela Fábio. Por outro lado, alguns procedimentos também ajudam a minimizar a dor do parto normal. "No momento adequado, é possível realizar anestesia/analgesia com alívio significativo da dor", garante Edílson. Mulheres que já fizeram uma cesariana não podem se submeter ao parto normal? "Sim, elas podem. Mas o parto deve ser muito bem conduzido, pois como o útero apresenta uma cicatriz prévia há um risco maior de ela se romper durante as contrações para a expulsão do bebê", alerta Cássio. E Fábio adverte: "No caso da realização de duas cesáreas anteriores ou mais, desaconselha-se o parto vaginal por risco maior à mãe e ao próprio bebê". Parto normal pode levar a um afrouxamento dos músculos vaginais, interferindo no prazer sexual? "Ainda que exista essa possibilidade, esse afrouxamento depende de muitos fatores e não apenas do parto vaginal", garante Luciano. "Mesmo quando ocorre a ruptura da musculatura pélvica não há nenhuma interferência no prazer sexual. O que pode ocorrer são outros problemas posteriores como incontinência urinária", completa Cássio. Mulheres com mais de 35 anos devem recorrer à cesariana? "Não existe indicação de cesárea tendo como único fator a idade. Acontece que quanto mais velha for a mãe, maior o risco de apresentar hipertensão, diabetes e outras doenças que poderiam complicar a gestação, motivando, então, um parto cesárea", finaliza Edílson. Converse com seu médico, esclareça suas dúvidas, analise as possibilidades de realização de um parto normal e escolha aquele em que você se sentirá mais à vontade. Boa sorte! Falta pouco para o filhote chegar ao mundo. Leia também: Parto sem dor:- Relaxe, mamãe: dar à luz não é mais sinônimo de sofrimento. Estrias:- Um guia completo de como prevenir e tratar as incômodas marquinhas. É chegada a hora:- Saiba como identificar se você entrou em trabalho de parto. (bolsademulher)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Aquífero Alter do Chão

Aquífero Alter do Chão tem água suficiente para abastecer população mundial Uma enorme dimensão física formada por fauna, flora, rios e diversos ecossistemas, componentes fundamentais de manutenção do equilíbrio dinâmico da Terra e de relevância estratégica para toda a humanidade: não é de hoje que a região amazônica atrai olhares do mundo inteiro. A biodiversidade da maior floresta tropical do planeta é tida como uma fonte inestimável de possibilidades econômicas à espera de estudos e descobertas. E é nesse cenário que se localiza o Aquífero Alter do Chão, uma reserva com cerca de 86,4 quatrilhões de litros de água subterrânea, suficiente para abastecer a população mundial em cerca de 100 vezes. É isso mesmo: 86,4 quatrilhões de litros de água potável, localizados em uma formação geológica sob os Estados do Amazonas, Pará e Amapá. Esse número impressionante foi obtido com base em pesquisas realizadas pelo professor André Montenegro Duarte, do Instituto de Tecnologia, da Universidade Federal do Pará, como resultado da sua tese de Doutorado em Geociências, que investigou a potencialidade das águas na Amazônia. A tese, orientada pelo professor Francisco Matos de Abreu, do Instituto de Geociências da UFPA, indicou números preliminares, os quais ainda necessitam de confirmação. O Grupo de Pesquisa em Recursos Hídricos, integrado por André Montenegro, Francisco Matos e ainda pelos pesquisadores Milton Mata (UFPA), Mário Ribeiro (UFPA) e Itabaraci Nazareno (Universidade Federal do Ceará/UFC), prossegue as investigações, mas necessita de recursos financeiros para confirmar as informações iniciais reunidas com base no cruzamento de dados provenientes da perfuração de poços para a pesquisa petrolífera e poços de extração de água construídos em Santarém, Manaus e outras localidades. “Os poços da pesquisa de petróleo perfurados pela Petrobras, por exemplo, foram fontes importantes de informação, porque, sendo bastante profundos, fornecem indicações sobre a espessura dos aquíferos. Já com os poços para abastecimento, chegamos a parâmetros hidrogeológicos fundamentais para se ter ideia do volume e da produtividade de água do Alter do Chão”, explica o orientador da pesquisa, professor Francisco Matos. Cerca de 40% do abastecimento de água de Manaus é originário do aquífero Alter do Chão, como também é o caso de Santarém e de outras cidades situadas sobre a Bacia Sedimentar Amazônica. Protegida da contaminação O aquífero é um tipo de formação geológica capaz de armazenar e liberar a água. Há outras unidades que podem armazenar, mas não permitem que a água que está dentro delas seja utilizada. Para fazer uma analogia, o aquífero seria como uma esponja, como as que servem para lavar louças em casa. A esponja fica cheia d’água, mas se ela for movimentada ou pressionada, a substância é liberada. O nome Alter do Chão se dá em referência a uma das mais belas praias do País, situada na região de Santarém. Segundo Francisco Matos, a existência desse aquífero já é conhecida na literatura da área desde a década de 50. “Ainda não temos uma avaliação exata sobre a sua real extensão e a quantidade de água que contém. A novidade da pesquisa de André Montenegro é, justamente, o valor apontado de 86,4 quatrilhões de litros de água, que é, realmente, uma coisa fabulosa em termos de reserva”, ressalta o professor Francisco Matos. As águas subterrâneas representam a maioria das águas no mundo. “Se você pensar, por exemplo, no caso da Amazônia, as águas visíveis, ou seja, as contidas nos rios, lagos, chuvas, representam 16% do total existente, enquanto 84% correspondem à água subterrânea”, explica o professor. Isso quer dizer que os aquíferos são grandes depósitos de água de qualidade, pois as águas subterrâneas são muito mais protegidas do que as águas superficiais, uma vez que estão menos sujeitas a processos externos de contaminação. É assim que os aquíferos da Amazônia, na relação que estabelecem com as outras formas de ocorrência de água, dentro do chamado ciclo hidrológico, agregam grande valor ambiental, econômico e estratégico. Além do Alter do Chão, outro aquífero importante na região é o denominado Pirabas, situado em profundidades entre 100 e 120 metros. Ele oferece água de excelente qualidade na Região Metropolitana de Belém e é responsável por, aproximadamente, 20% do abastecimento público. No Brasil, há outros aquíferos importantes, como é o caso do Guarani, considerado o maior aquífero nacional e com grande valor estratégico, pois está em uma região com grande demanda de água, abrangendo os Estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, estendendo-se à Argentina, ao Paraguai e ao Uruguai. No Nordeste, estão os aquíferos Urucuia (BA), Serra Grande(PI) e Cabeças (MA). Valor estratégico da reserva Extrapolando o contexto amazônico e analisando o contexto mundial, a água é um recurso que, em grande parte do planeta, está se tornando escasso. Do total de água existente no mundo, 97,5% são de águas que se encontram nos oceanos, ou seja, água salgada, restando apenas 2,5% de água doce, dos quais, 1,75% se encontra em calotas e geleiras polares. Sobra, portanto, tão somente 0,75% que ainda precisa ser repartido entre cerca de seis bilhões de pessoas (total de habitantes da Terra). Em se tratando dessa escassez, o pesquisador da UFPA André Montenegro Duarte, com base nas pesquisas realizadas acerca do aquífero Alter do Chão, propõe um conceito que visa a preservação das águas mundiais denominado valor do “não uso”. Esse conceito surgiu há, mais ou menos, 60 anos, mas ainda é muito pouco difundido, tanto no meio econômico como na sociedade em geral. A definição parte do princípio de que os recursos naturais têm um valor de uso, direto ou indireto, como é o caso da água e, o de “não uso”, que é o valor de existência desse bem. Isso quer dizer que o recurso ganha valor e importância pelo simples fato de ser mantido na natureza. “Para citar um exemplo, pensemos no Rio Amazonas, cuja extensão é imensa. Além dos recursos em fauna e flora que nele podemos encontrar ou mesmo da própria água que contém, o Rio tem um imenso potencial de transporte. Esses aspectos lhe conferem valor econômico. E justamente devido à riqueza que oferece, o Rio Amazonas também tem valor só por existir”, explica André Montenegro. No caso do aquífero Alter do Chão, as dimensões impressionantes que possui permitem que seja utilizado de forma sustentável como recurso econômico e, ao mesmo tempo, como reserva estratégica. Em outras palavras, o conceito do “não uso” gira em torno da consciência da sociedade de que o recurso natural pode ter uma grande valia por ser preservado. E complementa o pesquisador: “o mundo, e a Amazônia de um modo especial, não pode ser visto apenas como um local do qual se retira o que se precisa ou o que pode gerar lucro, uma vez que é um sistema muito suscetível a danos. É grandioso, mas muito frágil. Nós temos tanta abundância de recursos naturais que o ‘não uso’ deles pode possibilitar uma agregação de valor e uma lógica econômica que privilegie um desenvolvimento mais justo e igualitário”. A UFPA tem trabalhado para gerar essa consciência. (EcoDebate)

Água e terra são preciososidades

Água e terra, hoje, são artigos preciosos Consultor da Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar e do Wervel (Grupo de Trabalho sobre Agricultura Sustentável na Bélgica), o frei Luc Vankrunkelsven morou e trabalhou no Brasil e na Europa, entre 2003 e 2008. Neste período, escreveu dois livros: Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano e Aurora no campo. Soja diferente. Terminado o projeto e os subsídios, ele achou que não voltaria ao País, mas suas experiências durante uma turnê de palestras renderam um terceiro livro: Brasil e Europa em fragmentos. Em 2010, ele voltou para lançar o livro e fazer novas palestras. Desta vez, Salvador entrou no roteiro da viagem. Na capital baiana, em entrevista exclusiva ao A TARDE, Vankrunkelsven explicou seu posicionamento crítico sobre os sistemas de agricultura, em especial às monoculturas irrigadas, como a soja e o milho. Entrevista realizada por Thais Rocha, no jornal A Tarde, BA, 18/07/2010 Ele também defendeu a substituição do algodão pelas fibras de cânhamo, que é da família da cannabis, mas contém apenas níveis mínimos de THC, principal ingrediente psicoativo na maconha. As duras críticas ao agronegócio industrial e à defesa da agricultura familiar fizeram com que pesquisadores brasileiros lhe atribuíssem o apelido de “semeador de dúvidas”. A soja tem sido o tema central de suas pesquisas e aparece como um símbolo da globalização. Por quê? Não sou contra a globalização ou a produção de soja, mas o sistema de produção internacional é um problema. A chamada revolução verde vinculou as produções às super sementes, ao uso de agrotóxicos e à dependência dos produtores ao mercado internacional. Água e terra, hoje, são artigos preciosos e a produção de commodities, em países como o Brasil, nada mais é que a venda de água e de solo para outros países. O seu primeiro livro publicado no Brasil, Navios que cruzam na calada da noite, fala sobre este assunto. Como está a produção no País? Existem cinco empresas que transportam milho e soja, entre países produtores e mercados consumidores no mundo. No Brasil, há agricultores com terras do tamanho da Bélgica. Aqui os incentivos para a revolução no campo não foram voltados para a distribuição de terra ou para matar a fome do brasileiro, mas para produzir soja e milho para exportação. Como o senhor observa a produção de soja na Bahia? Ela faz parte deste contexto? Nunca estive em Barreiras, não conheço de perto a produção na Bahia. Mas me parece que aqui se reproduz o modelo de concentração de terras em uma área própria do cerrado. As plantas próprias deste habitat provocam uma evaporação de água muito menor que a soja e o milho, gerando um desperdício muito grande de água. Tenho muitas perguntas sobre quais serão as consequências desta produção. Qual a sua avaliação sobre a rotação das culturas de soja e milho como algodão? O sistema agroecológico defende a rotação de, pelo menos, sete culturas. A rotação entre três commodities continua a obedecer ao sistema internacional de produção e vai provocar consequências para o solo e para o clima da região. Além disso, reservo severas críticas ao consumo do algodão no mundo. Quais são elas? A cultura do algodão exige um grande consumo de defensivos agrícolas. O índice de veneno nas lavouras chega a 26%. Como parte das análises do Ano Internacional da Biodiversidade, declarado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura (FAO), sugiro o uso da fibra e da proteína do cânhamo. Quais são as propriedades destas fibras? Não é ilegal o uso desta planta? Há alguns anos, as fábricas de fibras sintéticas usaram o argumento da droga para extinguir as plantações nas propriedades, a silagem de cânhamo foi substituída pela do milho. Esta é uma planta que não precisa de defensivos agrícolas e que faz uma alta captação de carbono. Quando isolamos uma casa com cânhamos, a captação de carbono é impressionante. Muita gente não sabe a diferença entre cânhamo e maconha, mas alguns países já voltaram a incentivar pequenas propriedades, como no Canadá, França, Alemanha e Bélgica. A produção de carne também é prejudicial? Até 90% do farelo de soja produzido no mundo é destinado à ração animal. Falar sobre carne é polêmico, mas falo muito sobre o este problema. Também não sou contra a carne, mas para abastecer o crescimento do consumo mundial precisaríamos de quatro planetas Terra. Hoje, a produção de carne e o crescimento da frota de veículos são os dois principais subpolos da cultura antiecológica. Podemos medir qual é este crescimento? O problema do consumo de carne está diretamente ligado à concentração da população nas cidades. O homem do campo come pouca carne, mas aqui cerca de 80% da população moram nas cidades. Enquanto a população mundial dobrou nos últimos 50 anos, o consumo de carne registrou crescimento cinco vezes maior. A perspectiva de consumo de carne é crescer 40% até 2020, 70% deste crescimento estarão concentrados na Ásia, em especial na China. E quais as tendência?A solução seria pararmos de consumir carne? A tendência mundial, agora, é a redução no consumo de carne bovina para o aumento da produção de aves e suínos, em granjas, alimentados com ração. Não sou vegetariano nem contra o consumo de carnes. Critico o sistema de produção. Sou contra a cultura exportadora que gera dependências externas, principalmente, a dependência do petróleo para transportar tudo isso. Como funcionam estes sistemas de produção? Assim como a soja, podemos usar o frango como metáfora para a globalização. O Brasil produz as aves, alimentadas com ração importada, fabricada com matéria-prima brasileira. O frango é levado inteiro para países, como a Bélgica, que consomem a carne do peito e que processam e exportam outras partes como asas e coxas para regiões como a África, permitindo ao País fazer dumping nestas regiões. A Bélgica não cria uma ave e é um dos maiores exportadores do produto. A base para o transporte de toda esta mercadoria é o petróleo. E quais seriam as soluções para estes problemas? Seria por meio da soberania alimentar. A partir da organização política do mundo para que fossem adotadas técnicas de segurança alimentar, além de pensarmos em diminuir o consumo. Defendo uma campanha do Grupo de Trabalho por uma Agricultura Justa e Responsável (Wervel), que divulga o conceito de “Pensar globalmente e consumir localmente”, sem que seja necessário ficar transportando tanto alimento. Em seus textos, há críticas severas ao etanol como biocombustível. Por que a classificação como “agrocombustível”? Existe uma febre dos chamados “combustíveis verdes”. Isso tudo é para que se plante mais soja e milho, para os motores a diesel, mais cana-de-açúcar, para o etanol. Tudo isso é estímulo à monocultura, que consome muita terra e muita água e expulsa os agricultores familiares para abastecer a indústria. Ao produzir estes combustíveis, voltamos a discutir a velha história do “mais do mesmo”. Então, apesar da redução dos resíduos, esta não poderia ser considerada uma fonte limpa de energia? A produção de combustíveis a partir da agricultura pode fazer com que fazendeiros deixem de ter prioridade na produção de alimentos para alimentar a indústria de combustíveis, além do impacto ambiental que estas monoculturas trazem. No Brasil, o governo fala muito na hidrelétrica como uma fonte limpa de energia, mas como justificar o impacto para o meio ambiente de uma proposta de construção da usina como esta de Belo Monte, proposta dentro da bacia amazônica? E qual seria uma fonte limpa e eficiente de energia? Antes de mais nada, é necessário reduzir o consumo de energia. Além disso, há energias limpas. Na Europa, penso que uma boa fonte de energia é a eólica. Aqui, além desta fonte, temos também a energia solar, que ainda é muito pouco utilizada. Seus textos também falam sobre a importância da preservação da Amazônia. Ela pode mesmo se transformar em cerrado? Falo sobre a Amazônia, mas o cerrado também corre o risco de desaparecer. Uma exposição sobre o cerrado, em Bruxelas, mostrou que esta é uma das biodiversidades mais ricas do mundo. Ainda assim, o desmatamento é de duas a três vezes mais rápido que da Amazônia. Se este ritmo de crescimento for mantido, em 2030 não haverá mais cerrado no mundo. Qual é a sua opinião sobre o título de “semeador de dúvidas”, que lhe atribuem? (risos) Este foi um título que ganhei do professor Carlos Raimundo dos Santos, do Mato Grosso. Acho que ele se referiu assim porque venho de fora para falar de temas que são difundidos pelo agronegócio, mas que não é verdade. Venho visitar e escrever no Brasil, não como um “gringo” está vendo tudo de fora. Tento escrever para os dois continentes como um homem que trabalha em dois países. E pretende continuar escrevendo? Quais os seus planos para o futuro? Escrevi 24 novos artigos neste roteiro que fiz ao Brasil e que termino hoje. Estou voltando as minhas atenções para o estudo de pesquisas sobre nanotecnologia sintética e sobre a biologia sintética, que é a fabricação de novas formas de vida voltada para a agricultura. Da última vez que estive aqui, achei que não voltaria tão cedo. Agora, pretendo voltar em março de 2011. (EcoDebate)

Terra e Água Partilhada

Carta da 14a Romaria das Águas e da Terra de Minas Gerais Terra e Água Partilhada, Herança de Deus Resgatada! O Senhor não rejeita o seu povo, jamais abandona a sua herança; o justo alcançará seu direito, e os corações retos terão futuro. (Sl 93,14-15) Motivados e encorajados pela fé e pela sabedoria do povo bíblico, povo que Deus se alia, dando-lhe esperança de justiça e vida, é que nós, Romeiras e Romeiros da 14ª Romaria das Águas e da Terra, a partir da diocese de Januária, do chão Norte Mineiro, no ressoar dos batuques quilombolas, dos maracás indígenas, das sanfonas e violas camponesas, ecoamos um só grito de dor e de esperança para atingir os ouvidos de todo o povo de Minas Gerais, do Brasil e do Mundo! Muitos dias de labutas antecederam a nossa grande caminhada celebrativa. Mais de 80 missionários aprofundando o tema acima citado e o lema: “Nas terras e águas dos gerais, a memória da resistência de nossos ancestrais” reuniram, estudaram, refletiram e visitaram comunidades rurais e urbanas. Num mutirão de fé ativa e comprometida com a defesa da mãe-terra acolhemos e compartilhamos clamores, compromissos e histórias de resistência! As experiências compartilhadas subsidiaram a nossa grande celebração, mas também as denuncias e anúncios que aqui externamos! Vimos, ouvimos, experienciamos e agora ecoamos! Eu vi a miséria do meu povo. Ouvi o seu clamor contra os opressores. Conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo e fazê-lo subir para uma terra fértil. (Ex. 3, 7-9). Foram as ilhas e as margens do rio São Francisco e seus afluentes que, desde o princípio da história, acolheram milhares de vazanteiros, pescadores, indígenas e quilombolas que ali plantam roças, pescam e resistem às pressões dos coronéis, latifúndios e falsos projetos de desenvolvimento. Ao longo destes rios, agricultores familiares constituíram suas famílias, tirando dali o seu sustento, abastecendo até hoje com mantimentos os povos das cidades. Às margens do São Francisco o povo indígena Xakriabá, através da sua resistência e luta, resgatou um terço de suas terras para os 9 mil indígenas que hoje vivem em 32 comunidades, administrando o município de São João das Missões, MG. Nesse processo de resistência, o índio Rosalino e o índio Manuel Fiuza, foram assassinados em 1987, porque estavam defendendo a sua terra mãe. Em 1984, Elói Ferreira foi barbaramente assassinado, porque defendia os camponeses da ganância do Latifúndio. Ainda hoje 17 áreas de latifúndios foram ocupadas por trabalhadores sem terra e 19 áreas foram conquistadas onde estão assentadas 1004 famílias. As 06 comunidades do rio dos Cochos já recuperaram 16 nascentes, diversos camponeses da região resgatam e produzem sementes crioulas e praticam agroecologia. O Norte mineiro historicamente vem sendo devastado e destruído pelo interesse das empresas do agronegócio e das mineradoras. O cerrado e a caatinga derrubados para a implantação dos grandes projetos como o Jaíba, Chapada Gaúcha e o projeto do Gurutuba forneceram carvão para a produção de ferro guza. Essa agricultura moderna que polui as águas dos rios é uma grande consumidora do pacote tecnológico das empresas transnacionais. Mineradoras, como a Votorantim Metais, de Três Marias, por 14 anos, despejou seus rejeitos diretamente no Rio e continua contaminando suas águas com metais pesados. A falta de tratamento do esgoto das cidades causa uma enorme poluição. A política do atual governo de construção de rede de esgoto nas cidades ribeirinhas não passa de um verdadeiro engodo. Primeiro porque o esgoto não é tratado, o sistema apenas separa o sólido e a água é jogada diretamente no Rio sem nenhum tratamento. E essas obras estão sendo feitas para justificar a transposição, que não passa de uma grande mentira, “uma falsa solução para um falso problema”. Diante de tantos temores e tremores provocados pelos projetos de morte implantados nesta região, e em tantas outras do nosso país, financiados pela ganância do capital financeiro e legitimado por um sistema político corrupto, nós, romeiras e romeiros da 14ª Romaria das Águas e da terra, assumimos o compromisso de coletar assinaturas e realizar o Plebiscito da Campanha do limite máximo da propriedade da Terra e a Campanha Opará (abaixo assinado em defesa das terras indígenas atingidas pelo projeto de Transposição do rio São Francisco). Ecoam em nossas mentes e corações o consolo e a indignação de Deus transmitido pelo profeta Isaías: “Tenha cuidado, mas fique calmo! Não tenha medo nem vacile o seu coração por causa desses dois tições fumegantes…” (Isaías 7,4) Tições representados pelas mineradoras, pelas monoculturas, pela ganância dos latifundiários, pela transposição e projetos de irrigação das águas do Velho Chico, que querem destruir a terra e as águas e tudo o que nela habita. “Assim fala o Senhor Javé: Isso não irá em frente, isso não acontecerá… se vocês não acreditam, não se manterão firmes” (Isaías 7,7ss). Com as bênçãos de Deus-Javé, Nossa Senhora das Dores e São Francisco de Assis, iremos para nossas bases, animando e encorajando a tantos Elois e Rosalinos que sonham e doam suas vidas pela implantação do Projeto de Deus. Até a 15ª Romaria das águas e da Terra de Minas Gerais, em 2011, com a graça de Deus! (EcoDebate)

Água de lastro

Água de lastro: ameaça ao meio ambiente marinho de dimensões incertas A problemática da água de lastro ganhou destaque no Brasil após se descobrir a conexão existente entre esta água utilizada para garantir a estabilidade de navios e plataformas e a introdução de uma espécie exótica de crustáceo no ecossistema marinho brasileiro, denominada mexilhão dourado. O mexilhão dourado, crustáceo originário da China, foi trazido às águas da América do Sul através da água utilizada como lastro pelas embarcações em suas navegações de longo curso por volta do início da década de 90, e, portanto, não possuindo predadores naturais no ecossistema marinho brasileiro acabou se proliferando de forma alarmante e prejudicial. Até os dias atuais essa espécie exótica continua causando danos ao meio ambiente marinho brasileiro e prejuízos milionários ao setor hidrelétrico nacional, na medida em que o mexilhão dourado acaba se fixando nos dutos, turbinas e demais equipamentos de usinas hidrelétricas, prejudicando, assim, a operação dos mesmos e demandando constante manutenção e limpeza. Assim, considerando os prejuízos suportados pela introdução do mexilhão dourado no país, o crescimento do comércio internacional por meio do transporte marítimo globalizado, além do reaquecimento da indústria naval brasileira com a exploração offshore de óleo e gás, verifica-se uma crescente preocupação das autoridades brasileiras com a problemática da água de lastro. Tal fato pode ser exemplificado através da recente publicação, ocorrida em março de 2010, do Decreto Legislativo nº 148/2010 aprovando o texto da Convenção Internacional para Controle e Gerenciamento da Água de Lastro e Sedimentos de Navios. A publicação deste decreto demonstra o reconhecimento do Poder Legislativo brasileiro com a contemporânea necessidade de se dar atenção ao tema, além de maior severidade no gerenciamento da água de lastro nos portos brasileiros por intermédio das Autoridades Marítimas locais. Ademais da preocupação brasileira com os riscos ambientais provenientes da água de lastro das embarcações, o assunto possui grande repercussão também em âmbito internacional. A título exemplificativo, a Austrália vem sofrendo graves consequências com a invasão de uma espécie de microalga “Gymnodinium catenatum”, originada do Japão, que prejudica não só o meio ambiente, mas a pesca e a agricultura industrial. Nesse panorama internacional, destaque-se que a Convenção Internacional para Controle e Gerenciamento da Água de Lastro e Sedimentos consiste em uma resposta aos danos biológicos e ambientais provocados pela inserção de organismos vivos não nativos, organismos aquáticos nocivos e agentes patogênicos em determinado bioma, prejudicando seu desenvolvimento saudável. Por meio da referida Convenção, os Estados Soberanos signatários (dentre os quais o Brasil) pretendem minimizar os prejuízos financeiros e ambientais decorrentes do deslocamento e transporte de organismos ao redor do mundo através da água utilizada como lastro pelos navios. A mencionada Convenção ainda não está em vigor no âmbito internacional, vez que prevê, para tanto, que deverá possuir assinatura de pelo menos 30 Estados e totalizar no mínimo 35% da arqueação bruta da frota mercante mundial. Até o momento, no entanto, somente 22 países assinaram a Convenção, totalizando 22,65% da arqueação bruta da frota mercante mundial, número ainda insuficiente para a entrada em vigor da aludida convenção no plano internacional. Países economicamente fortes e de notória e significativa participação no comércio internacional, como EUA e China, ainda não ratificaram a Convenção. Isso mostra que apesar dos prejuízos milionários advindos da poluição provocada pela água de lastro, a questão ainda não ganhou a notoriedade necessária. Entretanto, considerando-se as catástrofes naturais enfrentadas por diversos países, o aumento da consciência ecológica dos Estados e os prejuízos econômicos que serão suportados globalmente em virtude da falta de gerenciamento adequado da água de lastro carregada pelas embarcações, que nos próximos anos a Convenção alcance a adesão necessária a sua entrada em vigor no plano internacional. Assim sendo, em que pese os danos ambientais que podem ser provocados pela água de lastro das embarcações serem ainda imprecisos e pontuais, o aumento do comércio global por via marítima agrava os riscos e a freqüência da contaminação dos diferentes ecossistemas marinhos ao redor do globo, o que acaba por impor às nações e a toda a comunidade marítima internacional maiores preocupações com o tema. Um maior desenvolvimento tecnológico com a redução dos custos das técnicas existentes para o tratamento dessa água de lastro e para a minimização dos riscos de danos ambientais é uma questão bastante atual e que demanda um rápido retorno da comunidade ambiental e marítima internacional. (EcoDebate)

O desafio da água na árida Austrália

Apesar de caros e combatidos por ambientalistas, equipamentos de dessalinização surgem como alternativa para suprir a necessidade de 22 milhões de australianos. Na Austrália, o continente habitado mais seco do mundo, os primeiros exploradores britânicos em busca de uma fonte de água potável esquadrinharam o território árido em busca de um lendário mar interior. Um deles chegou a transportar um baleeiro centenas de quilômetros da costa, para o interior do continente, mas só encontrou deserto. Hoje, os australianos seguem na direção oposta: do mar. Num dos maiores projetos de infraestrutura do país, as cinco maiores cidades da Austrália estão aplicando US$ 13,2 bilhões em usinas de dessalinização, com capacidade para sugar milhões de galões de água dos oceanos por dia, removendo o sal e produzindo água potável. Em dois anos, quando a última usina deverá estar pronta, as grandes cidades australianas estarão tirando 30% da sua água potável do mar. O país ainda se recupera da sua pior seca, que durou uma década e o governo diz ter sido provocada pelas mudanças climáticas. Com a escassez de água cada vez mais premente, outros países, incluindo EUA e China, também começam a se voltar para o mar. "Nós nos consideramos a cobaia em relação às mudanças dos sistemas de oferta de água causadas pelo aquecimento global", disse Ross Young, diretor da Water Services Association, da Austrália, consórcio das concessionárias de água do país. Ele descreveu o custo de US$ 13,2 bilhões como "o preço da adaptação às mudanças climáticas". A dessalinização também causa críticas ferozes e protestos da população. Muitos proprietários de imóveis, irritados com a conta de água cada vez mais alta, e os ambientalistas, preocupados com os efeitos que essas usinas terão sobre o clima, qualificam os projetos de elefantes brancos. Medidas rigorosas de conservação de energia, como máquinas de lavar mais econômicas, poderiam atenuar o problema de forma mais eficaz. A dessalinização também contribuiu para abafar o entusiasmo por uma "grande Austrália" - uma projeção feita por um governo que defende a imigração, de que a população, de 22 milhões hoje, passará a 36 milhões de habitantes em 2050. "Um grande desperdício de dinheiro", disse Helen Meyer, de 65 anos, aposentada de Tugun, cidade onde o Estado de Queensland instalou uma estação de dessalinização de US$ 1 bilhão no ano passado. A usina, que ocupa uma área de seis hectares, próxima de um aeroporto e um bairro residencial, fornece água para Brisbane, capital de Queensland, e outras áreas a sudeste do Estado, região que cresce mais rápido no país. Apesar dos problemas técnicos que provocaram o fechamento temporário da planta, ela vem cobrindo 6% da necessidade de água da região e tem capacidade para chegar a 20%, disse Barry Dennien, diretor executivo da SEQ Water Grid Management, concessionária que controla a oferta de água de toda essa área. A seca na região durou de 2000 a 2009. O principal reservatório, Wivenhoe, teve sua capacidade reduzida para apenas 16%. Apesar de restringir o uso da água e subvencionar a compra de água residencial graças à captura de água da chuva, o Estado gastou quase US$ 8 bilhões para criar a mais sofisticada rede de aprovisionamento de água do país. Modernizou barragens e uma rede de dutos para ligar 18 concessionárias independentes numa única grade. Outras cidades estão fazendo a mesma aposta. Perth, que abriu a primeira planta de dessalinização em 2006, está erigindo a segunda. A usina de Sydney começou a operar no início do ano, e outras perto de Melbourne e Adelaide estão em construção. Até alguns anos, a maior parte das usinas de dessalinização em larga escala, no mundo, estava no Oriente Médio, especialmente na Arábia Saudita. Nos EUA, onde apenas uma usina está em funcionamento, em Tampa Bay, as autoridades estão propondo a construção de outras na Califórnia e no Texas, disse Tom Pankratz, diretor da Associação Internacional de Dessalinização. A China, que inaugurou recentemente sua maior usina de dessalinização em Tianjin, poderá ainda ultrapassar a Arábia Saudita como a líder mundial nesse campo. Muitos ambientalistas e economistas são contrários à uma expansão dessas usinas por causa do seu preço e porque elas ajudam a tornar mais crítico o aquecimento global. A energia necessária para remoção do sal da água do mar representa 50% do custo da dessalinização e a Austrália depende do carvão, o maior emissor de gases com efeito estufa, para gerar a maior parte da sua eletricidade. Para os críticos, a dessalinização vai colaborar ainda mais para as mudanças climáticas que vêm agravando a escassez de água do país. Para tornar esse processo politicamente palatável, as usinas australianas estão usando energia de fazendas eólicas ou energia classificada como limpa, muito cara. Para os moradores nas cidades, com as novas usinas as contas de água devem dobrar nos próximos quatro anos, de acordo com a Water Services Association. Os que se opõem a esses projetos dizem que existem alternativas mais baratas. Defendem medidas de conservação de energia, como uma melhor administração das reservas das águas subterrâneas e da captação de água. "Quase todas as cidades que erigiram uma usina de dessalinização não chegaram a lugar nenhum no sentido de maximizar ou aumentar o seu potencial de conservação", disse Stuart White, diretor do Institute for Sustainable Futures, na Universidade de Tecnologia de Sydney. Adversários da dessalinização dizem que é mais barato reciclar a água já usada, embora convencer as pessoas a beberem dessa água seja difícil e politicamente delicado. "Há um estigma contra água reciclada", disse David Mason, morador de Tugun. "Mas como não existe tanta água no mundo, talvez não seja uma alternativa assim tão terrível. Pelo menos pode ser melhor do que a dessalinização." (OESP)

sábado, 25 de setembro de 2010

O planeta está secando

A terra está secando e cresce a luta pela água nos Andes.
Mudança climática. O Peru é o país que mais sofre com o aquecimento global no mundo. O Equador não fica atrás. Sobe a temperatura, as geleiras estão derretendo, mas há repentinas quedas de temperatura. Ameaça plantações e estilos de vida milenares. Gumercinda Catunta faz tempo que anda com a intenção de “semear e colher chuva”. Mas quando vai pedir ajuda às autoridades de Pampamarca obtém sempre a mesma resposta: não há recursos. Gumercinda repete seu pedido na praça do povo da província de Cuzco, no Peru. Ela tem 41 anos, três filhos e está parada sob o monumento que recorda que estas terras são as de Tupac Amaru e de sua companheira, Micaela Bastidas. São as terras que fazem parte do país que mais sofre os efeitos da mudança climática no mundo e onde nem a ajuda do Estado nem dos países responsáveis pelo aquecimento global chega. A mais de 3.800 metros acima do nível do mar, a falta de água, a retração das geleiras, as temporadas de estiagem, as repentinas quedas de temperatura, as épocas de chuvas cada vez mais curtas e intensas, os frios cada vez mais frios e o calor cada vez maior são as manifestações mais concretas da mudança climática, essas variações do tempo atribuídas direta ou indiretamente à atividade humana. Gumercinda fala enquanto uma banda de música se faz ouvir dentro da municipalidade deste povoado situado a cerca de duas horas do centro turístico de Machu Picchu e anuncia a saída de um casal de recém-casados seguidos por um enxame de parentes e amigos e uma nuvem de papel picado, a única nuvem que se vê a milhares de quilômetros. A mudança climática ameaça a vida da maneira como foi vivida durante anos na região de Cuzco. “Antes sabíamos quando semear porque começavam as chuvas. Antes havia três mananciais de onde tirávamos a água para regar. Eles já não existem mais, mas há novas pragas e as batatinhas estragam”, enumera Roberto Lazo, um dos moradores que participa de um projeto que envolve 6.500 famílias com a finalidade de buscarem formas de adaptação à mudança climática. A Associação Ararina está encarregada de transmitir 24 técnicas não poluentes orientadas a melhorar a produtividade do solo, o manejo da água e sua conservação. “Há três anos que as temperaturas são tão frias que nossos filhos adoecem de coisas nunca vistas. Além de sofrer de desnutrição, morrem de pneumonia”, conta Gumercinda. A cerca de duas horas de Pampamarca está Espinar, outra província peruana que faz parte da região de Cuzco. “Aqui o pasto não cresce como antes” e a Puna seca está cada vez mais seca. A parte alta das montanhas que rodeiam as comunidades camponesas está marrom escuro. “Antes havia nevascas e geleiras, vastos pastos, mas sem gelo já não há água”, explica Adriano Paucara, um dos moradores. O Peru e o Equador são os dois países da América Latina que têm geleiras tropicais, superfícies geladas entre o Trópico de Câncer e o de Capricórnio e que, segundo os estudos científicos, estão desaparecendo. Para além da retração e do avanço destas massas geladas ser um processo natural, a intervenção humana modificou este ciclo. E sem glaciares não há água e sem água não há vida. Então, a luta pela água não é um vaticínio de ficção-científica. Um estudo de 2007 realizado pela Comunidade Andina prognostica que na América Latina as tensões em torno da água envolverão entre sete milhões e 77 milhões de pessoas. E isso acontece no Peru, onde cidades como Espinar têm apenas duas horas diárias de água. Este país já perdeu 40% dos blocos gelados nos últimos 30 anos e quase a mesma proporção se derreteu no Equador. Os dois países estão entre aqueles destinados a receber o fundo de compensação e para a adaptação à mudança climática lançado na Cúpula de Copenhague. Mas pouco se avançou. Os fundos serão o tema de dezembro próximo durante a Conferência de Cancún. Mas, por enquanto, nem o dinheiro nem as negociações chegam a estas terras altas dos Andes. Apenas os camponeses, as Ongs e a cooperação internacional. Adriano Paucara é um dos poucos que já semeia e colhe chuva. Graças a fundos da Oxfam a Ong regional Associação Projeção construiu um reservatório de água e um sistema de irrigação por aspersão que faz com que sua parcela seja um ponto verde entre tanto seco. Um modelo que procura copiar outros povoados. A 4.400 metros, em Camanoccla, há seis meses está sendo copiado. “Não há pasto como antes. O sol queima como nunca. Antes caminhávamos a pé descalço, mas agora precisamos de calçados. Há frios repentinos que acabam com as plantações. Vêm furacões e doenças para as crianças”, conta um dos moradores da comunidade formada por 500 famílias. Neste ano, “30 anjinhos foram ao céu. Não suportaram o frio e a pneumonia que antes não havia, mas que agora existe”. (Ecodebate)

Demanda por água na América Latina

Relatório do Pnuma estima que demanda por água na América Latina cresceu 76% em 15 anos. Relatório do Pnuma destaca desafios ambientais para a região, como o aumento da escassez de água; estudo cita exemplos positivos, como a reciclagem no Brasil, uma indústria nacional que emprega 170 mil pessoas. O aumento da escassez de água, a rápida urbanização, a degradação de zonas costeiras e a perda de florestas são alguns desafios ambientais destacados em relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, para a América Latina e o Caribe. O estudo ressalta que só a demanda por água na região subiu 76%, entre 1990 e 2004, como resultado do crescimento demográfico. Políticas O Pnuma alerta que governos e sociedade civil precisam trabalhar juntos para criar políticas e instituições para combater a degradação ambiental nesses países. O relatório cita alguns exemplos, como o estímulo pelo uso de fontes alternativas de combustível no Uruguai, práticas eficientes de energia no setor de turismo no Caribe e a liderança mundial do Brasil em reciclagem, uma indústria nacional que já emprega 170 mil pessoas. Segundo a agência, as diversas práticas inovadoras implementadas na América Latina, e em outros locais do mundo, mostram que medidas podem ser tomadas para a sustentabilidade ambiental. Consenso O Pnuma diz que a região é rica em biodiversidade e já existe um consenso entre vários setores sobre a necessidade de soluções para as ameaças ao meio ambiente. O estudo afirma, inclusive, que existem políticas que podem ser alcançadas no período preparatório para a reunião Rio + 20, que deve ser realizada no Brasil em 2012. De acordo com o Programa da ONU, o relatório “América Latina e Caribe: Perspectivas para o Meio Ambiente” será lançado em breve, mas já está disponível na internet. (EcoDebate)

Que tipo de água está em sua mesa?

Segundo os especialistas, cerca de 70% do corpo humano é formado por água. Ela é essencial para o transporte de alimentos, de oxigênio e de sais minerais, além de estar presente em todas as secreções (como o suor e a lágrima), no plasma sanguíneo, nas articulações, nos sistemas respiratório, digestivo e nervoso, na urina e na pele. Por isso é recomendado que um ser humano adulto tome, em média, dois litros e meio de água por dia. Para suprir a sua necessidade diária e por não confiar na qualidade da água do abastecimento público, boa parte da população recorre à água mineral. Mas o que é uma água mineral? Qual a diferença desse tipo de água para águas comuns, provindas de lençóis freáticos? Será que o que nos é vendido realmente atende aos padrões mínimos para ser considerado água mineral? Responder a esses questionamentos é o objetivo da Pesquisa “As Águas Minerais na Região Metropolitana de Belém: diagnósticos e proposições técnicas e sociais”. O Projeto, coordenado pelo professor Milton Matta, do Instituto de Geociências, foi motivado a partir de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), no qual o aluno Desaix Paulo Balieiro Silva propôs-se a coletar amostras de águas nas fontes de quatro das principais empresas de água mineral de Belém: Belágua, Nossa Água, Mar Doce e Indaiá, e compará-las com amostras de água tirada de garrafas comuns das mesmas marcas, compradas em supermercados, porque, assim, seria possível verificar como os processos físico-químicos se modificam depois da retirada da água, do envasamento e da venda. Para a surpresa dos pesquisadores, foi constatado que nenhuma das águas poderia ser classificada como “água mineral”, mas como uma “água potável de mesa”. Na época da defesa do TCC, em 2005, o professor Milton Matta foi intimado a prestar depoimento no Ministério Público, acerca desse problema. O Ministério Público emitiu uma notificação dando prazo de 20 dias para que as empresas relacionadas se pronunciassem e tomou providências após ouvir as partes interessadas. Agora, o Ministério Público Federal, no Pará, formalizou o pedido de mudança nos rótulos das garrafas de água potável que estão sendo vendidas como água mineral no Estado. De acordo com o procurador federal Bruno Araújo Soares Valente, a fraude foi descoberta a partir do estudo realizado na Universidade Federal do Pará (UFPA). Ministério Público comprova irregularidades De acordo com o Ministério Público, novas irregularidades foram encontradas em outras marcas de águas vendidas no Pará. De acordo com o Código das Águas Minerais, aprovado no ano de 1945, “para que seja considerada água mineral, ela precisa ter determinadas substâncias, em determinada quantidade, que possuam uma ação terapêutica comprovada. Isso não é constatado nessas águas”, disse Desaix Silva. Por isso, baseado nessa pesquisa, o professor Milton Matta elaborou um projeto que visa estudar oito grandes marcas de água da Região Metropolitana de Belém, sobre diversos aspectos, tanto geológicos quanto sob o ponto de vista da engenharia sanitária, a fim de atestar vários fatores que podem estar interferindo na qualidade da água vendida como mineral. Mas qual a diferença entre uma “água mineral” e uma “água potável de mesa”? Segundo o Artigo 1° do “Código de Águas Minerais” do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), as “águas minerais são aquelas provenientes de fontes naturais ou de fontes artificialmente captadas, que possuam composição química ou propriedades físicas ou físico-químicas distintas das águas comuns, com características que lhes confiram uma ação medicamentosa”. Já o Artigo 3° do Código diz que águas potáveis de mesa são as águas de composição normal, provenientes de fontes naturais ou de fontes artificialmente captadas, que preencham tão somente as condições de potabilidade para a região. Dentro desses parâmetros, as águas coletadas eram “águas potáveis de mesa”. Essa similaridade foi facilmente identificada, pois o professor Milton Matta já tinha estudos com as águas de Belém e os resultados foram os mesmos. “Em minha tese de doutorado, em 2002, estudei as águas subterrâneas da região de Belém e de Ananindeua, e conheço-as muito bem. Então, as águas ditas minerais, das quatro marcas analisadas, apresentam, exatamente, a mesma composição que águas subterrâneas comuns de Belém. Nenhuma delas era diferente”, afirma o professor. Potável ou mineral? Mas qual a desvantagem de classificar o seu produto como água potável de mesa e não como água mineral? É o mercado e o apelo comercial. O professor Milton Matta comenta que as empresas preferem classificar as águas como minerais para trazer maior credibilidade e apelo comercial ao seu produto. Mas isso não é razoável, porque as pessoas, de uma maneira geral, não tomam água mineral por causa da mineralização, mas pela sua potabilidade. Um fator que deve ser levado em conta para a classificação da água como mineral é a ação medicamentosa que essa água proporciona. E nenhuma das águas analisadas apresentava qualquer tipo de ação dessa natureza. Segundo Milton Matta, não existe nenhum problema no processo de extração, envasamento e comercialização da água, pelo menos em uma das fábricas que deu acesso aos estudantes. “Eu vi o trabalho que eles fazem lá, desde a captação até o engarrafamento. Não há nenhum problema com eles.” O Projeto tem duração de 12 meses, e a proposta é que ele seja feito durante um ciclo hidrológico completo, com coletas de água tanto durante as estações secas, quanto durante as estações chuvosas. Para desenvolver a pesquisa, foram elaborados dez planos de trabalho, que serão executados por dez alunos, cinco de Geologia e cinco de Engenharia Sanitária. Cada aluno será orientado por um dos sete professores envolvidos no Projeto, entre eles, o próprio Milton Matta. Assim, será possível apresentar um resultado mais abalizado com relação à qualidade das águas minerais vendidas em Belém, levando em consideração diversos parâmetros, como pH, salinidade, condutibilidade hidráulica, sódio total dissolvido, transparência, turbidez, dureza, oxigênio dissolvido, temperatura, nitrogênio, cloretos, ferro, oxigênio consumido e coliformes, critérios importantes para a comercialização e a garantia de qualidade. Dessa forma, também é possível reafirmar se as águas são realmente minerais ou não. O Projeto das águas minerais conta com a parceria do governo do Estado do Pará, do Conselho Regional de Engenharia, do Departamento Nacional de Produção Mineral, do Ministério Público, da Agência Brasileira de Água Mineral, do Congresso de Interação da Sociosfera da Amazônia, além da parceria das próprias empresas de água mineral. Dessa maneira, todos sairão ganhando: as empresas, pois ficaria comprovada a qualidade das águas comercializadas; a sociedade, que obtém informações sobre a qualidade das águas que consome e a comunidade científica, que realiza pesquisas importantes na área. O perigo da água ácida Outro aspecto que tem interessado o professor Milton Matta é em relação ao pH das águas minerais vendidas em Belém. Para o professor, esse é um problema importante. “Se você pegar qualquer garrafinha de água mineral, o pH varia de 3,6 a 4,2. Ora, isso é ácido. O pH tinha que ser entre 6.5 e 8.5, segundo a legislação vigente”. O pesquisador conta que, em longo prazo, o consumo frequente de uma água com característica tão ácida pode causar diversos males, como gastrite, úlcera, câncer estomacal. De acordo com o professor, essa não é uma característica somente das águas minerais, isso acontece com todas as águas da Amazônia. De uma maneira geral, as águas da região são ácidas, quer sejam de poços, de rios, quer sejam minerais. Um outro projeto que está sendo elaborado pela Faculdade de Geologia, em parceria com a área de Medicina, estudará, exatamente, os casos de doenças causadas pelas águas ácidas da Amazônia, entre outras doenças de veiculação hídrica. (EcoDebate)

Acesso e controle da água do Rio Indus

Acesso e controle da água do Rio Indus são fontes de tensão entre Índia e Paquistão.
Água, fonte de tensão entre Índia e Paquistão – Islamabad teme que construção de hidrelétrica dê a Nova Délhi o poder de manipular a água do Rio Indus e afluentes, que abastecem a região agrícola paquistanesa Em Bandipore, neste vale do alto Himalaia, do lado da Caxemira, uma nova linha de batalha entre Índia e Paquistão foi traçada. Desta vez não é por causa da terra, que vem sendo disputada desde a sangrenta divisão da Índia Britânica, em 1947, mas pela água que desce dos glaciares para os campos ressecados do centro agrícola do Paquistão. Os trabalhadores indianos estão com pressa, construindo uma caríssima hidrelétrica num vale próximo, um dos diversos projetos da Índia para os próximos dez anos para impulsionar sua economia que cresce rapidamente, mas carece de energia. No Paquistão, o projeto vem provocando temores de que sua arquirrival, onde se encontram as nascentes dos rios, terá o poder de manipular a água que abastece toda a região agrícola paquistanesa, que representa um quarto da sua economia e emprega metade da população. Em maio, o caso foi levado à Corte Internacional de Arbitragem. A água é hoje uma fonte crescente de tensão entre países que lutam para crescer. Diversos países africanos estão numa intensa discussão sobre os direitos à água do Nilo. Israel e Jordânia reivindicam o Rio Jordão. Por toda a região do Himalaia, os próprios projetos de hidrelétricas da China estão preocupando a Índia, sua rival na busca do poder regional, e mesmo global. A disputa entre Paquistão e Índia vem acrescentar mais volatilidade num momento crucial para um dos mais delicados relacionamentos entre dois países que possuem armas nucleares e se estranham profundamente. A disputa pode perturbar as delicadas negociações para uma retomada de conversações de paz paralisadas desde que militantes paquistaneses mataram 163 pessoas nos atentados de Mumbai, em 2008. Os EUA mostram-se particularmente ansiosos para acalmar as tensões, de modo que o Paquistão possa desviar suas tropas da fronteira com a Índia para sua fronteira com o Afeganistão, para combater o Taleban. Nacionalistas anti-Índia e militantes no Paquistão apoderaram-se do problema como uma nova fonte de cólera para perpetuar 60 anos de antagonismos. Jamaat-u-Dawa, braço do grupo militante Lashkar-i-Taiba, responsável pelos ataques em Mumbai, já adaptou seu trabalho de relações públicas para circunscrevê-lo a essa disputa sobre a água, pois até agora concentrava-se nas reivindicações de terra para a Caxemira. Com suas populações se expandindo rapidamente, a água é crucial para os dois países. O Paquistão tem o maior sistema de irrigação contíguo do mundo, dizem especialistas da área. E tornou-se um terreno fértil para o recrutamento de grupos militantes, que se aproveitam da falta de oportunidades e o sentimento anti-Índia cada vez mais intenso. Os rios que atravessam o Punjab, a mais populosa província do Paquistão e centro da sua indústria agrícola, são a salvação do país. As altercações sobre o uso dos rios têm a ver com seus temores em relação a seu vizinho maior e mais forte. No caso da Índia, as novas hidrelétricas são vitais para utilizar a água do Himalaia e pôr fim à grave escassez de energia que emperra sua economia. Cerca de 40% da população da Índia não tem energia elétrica e a falta de eletricidade é um obstáculo para a indústria. A barragem de Kishenganga é uma parte crucial dos planos da Índia para resolver o problema. O projeto indiano vem sendo arquitetado há décadas e se enquadra num tratado de 50 anos que divide o Rio Indus entre os dois países. “O tratado funcionou bem no passado, em grande parte porque os indianos não estavam fazendo nenhuma construção”, diz John Briscoe, da Universidade Harvard. “Desta vez, há uma bateria de projetos hídricos.” O tratado, resultado de uma década de negociações que se encerraram em 1960, dá ao Paquistão 80% das águas do Rio Indus e seus afluentes, uma proporção que os nacionalistas no Paquistão costumam esquecer. A Índia tem permissão para usar parte da água para a agricultura, água potável e também geração de energia, desde que não armazene demais. Embora a represa de Kishenganga esteja autorizada pelo tratado, a disputa é sobre como ela deve ser construída e como será a distribuição da água. O Paquistão alega que, a drenagem na base na represa permitirá à India manipular o fluxo de água quando desejar, por exemplo, durante um período de plantio. A Índia rejeita as alegações de tentou roubar água. O secretário do Exterior da Índia, Nipurama Rao, qualificou as afirmações de “propaganda nacionalista”, acrescentando que “o mito do roubo de água não passaria num exame racional do caso”. Especialistas concordam, mas dizem que o Paquistão tem um motivo legítimo de preocupação. O problema, na verdade, tem a ver com o tempo. Se a Índia decidir encher suas represas num momento vital para a agricultura do Paquistão, poderá arruinar as plantações paquistanesas. Em Bandipore, onde engenheiros e operários trabalham longos turnos para construir a hidrelétrica e um túnel para a esperada barragem, o trabalho não tem a ver só com eletricidade, mas é uma questão de orgulho nacional. (EcoDebate)

Finalmente, água é direito humano

Dia 28 de Julho de 2010 a água potável e o saneamento ambiental foram reconhecidos pela ONU como um direito humano. Uma aberração necessária para os tempos atuais. Muito dessa conquista se deve à Bolívia. Desde a “Guerra pela água de Cochabamba”, quando uma multidão ocupou as ruas da cidade e retomou o serviço público de água das mãos de uma transnacional, criou-se na Bolívia um bloco de forças que seria decisivo para a chegada de Evo Morales ao poder. Evo criou o Ministério das Águas e nomeou Pablo Solón como ministro, agora embaixador junto à ONU. Foi ele quem apresentou a proposta de resolução na ONU, ratificada por vários países, finalmente aprovada com muitas abstenções. Mas a luta não foi só Boliviana. Aqui no Brasil temos insistido nessa questão desde a Campanha da Fraternidade da Água de 2004. Desde então, várias Igrejas, ONGS, Movimentos Sociais, tem feito essa luta no Brasil e articuladamente pelo mundo afora. Porém, reconhecer o direito é apenas um passo. Torná-lo efetivo para um bilhão de pessoas que não tem acesso à água potável ao redor do mundo, ou aos 2,6 bilhões que não tem acesso ao saneamento, é um desafio monumental e sombrio. A crise da água se alastra pelo seu sobre uso no mundo inteiro, particularmente na agricultura irrigada, além da poluição e depredação de mananciais de superfície e subterrâneos. O Brasil é um dos países mais ricos em água no globo terrestre e todos os dias chegam novas notícias, como a descoberta do Aquífero Alter do Chão, no subsolo amazônico, maior que o Guarani. Portanto, temos água em abundância. Não precisávamos ficar na retranca, lutando ao lado dos que sempre combateram o direito à água. O Brasil sempre foi uma vergonha nos Fóruns Mundiais da Água, aliando-se ao mundo das transnacionais e governos que querem fazer da água apenas uma mercadoria. Enfim, uma boa nova e um desafio oceânico pela frente (EcoDebate)

Perigo, perdemos água doce

A água doce continua se esgotando. O recente desprendimento do glaciar Jakobshavn Isbrae na Groenlândia, uma massa de gelo de sete quilômetros, reforça as advertências sobre os perigos que significa a perda desse recurso essencial para a vida. Cientistas asseguram que o aumento da temperatura global, como resultado da mudança climática, é uma das causas da diminuição destas massas geladas que contêm 74 por cento da água doce do planeta. O que ocorreu nesta ilha localizada no norte ocorre em todos os continentes: nos Andes e no Himalaya, nas Rocosas e nos Alpes. O glaciar Chacaltaya na cordilheira andina, na Bolívia, com 18 mil anos de existência desapareceu antes de 2015, data estimada pelos cientistas para o colapso desta massa gelada. Foi a pista de esqui mais alta do mundo, a cinco mil 300 metros acima do nível do mar, e agora apenas algumas placas de gelo isoladas sobrevivem na elevada montanha. Na Europa, a superfície congelada dos Pirineus na vertente espanhola diminuiu de mil 779 hectares, desde o ano 1894, a 290 hectares, até 2000. Igualmente, o último glaciar da Indonésia, o Puncak Jaya, se derrete a ritmo acelerado, afirmou o cientista estadunidense Lonnie Thompson, pesquisador de glaciares, quem teme que seu ocaso seja em poucos anos e não em décadas, como calculava até recentemente. No entanto, a organização ambientalista Greenpeace confirmou que boa parte dos 20 mil quilômetros quadrados de glaciares entre a Argentina e o Chile tem sofrido um severo afinamento e um sério retrocesso de vários quilômetros. De acordo com o Painel Intergovernamental de Especialistas em Mudança Climática, a média da temperatura global nos últimos 100 anos aumentou 0,74 graus e a coberta de gelos permanentes e neve decresceu a escala global. Assegura que o aquecimento poderia aumentar os riscos de mortalidade, contaminação, catástrofes naturais e doenças infecciosas`. Indica, ademais, que dos últimos 12 anos, 11 foram os mais calorosos desde 1850 e se prevê que o aumento vai prosseguir neste século. Cada vez são mais freqüentes as notícias sobre semelhante desastre, nenhuma anuncia a formação de um novo casquete de gelo nem glaciar. Se deixassem de existir se perderia o maior reservatório de água doce do mundo. A humanidade contaria apenas com a pequena porcentagem desse líquido que se encontra nos rios, lagos e em aquíferos subterrâneos. Mas, outros perigos espreitam também: a contaminação e seu mau manejo. Todos os estudos apontam a que os seres humanos em seu afã de desenvolvimento – onde prima o consumismo – esgotam de forma acelerada os recursos do planeta que lhe são indispensáveis para viver. Lamentavelmente este desenfreio obriga a recordar a frase do comediógrafo latino Tito Maccio Plauto (254 a. C. – 184 a. C.) em sua obra Asinaria: `homo homini lupus est` (o homem é o lobo do homem). Tomara, logo iremos à de Séneca que, como contraponto, escreveu que ‘o homem é algo sagrado para o homem’. O importante é que a água doce ou potável é cada vez mais escassa. O mesmo perde-se em campos de golfe, os quais podem chegar a consumir a mesma quantidade de água que uma cidade de 20 mil habitantes; ou contamina-se com a exploração de ouro, que ocasiona o despejamento de toneladas de mercúrio nos rios e lagos, ou com os dejetos de dissimiles indústrias. A isso se acrescenta a construção de enormes represas hidroelétricas sem estudo de impacto ambiental, inclusive com ele, que roubam a água aos rios que vêem estreitar a velocidade incrível seus volumes, como ocorre com o Colorado, nos Estados Unidos. Atualmente, mais de 40 mil represas retêm a água potável do mundo inteiro, e ao redor de 500 mil quilômetros de rios foram dragados e canalizados para a navegação. Por outro lado, as zonas úmidas, que jogam um importante papel no ciclo da água, também vão cedendo espaço aos desmandos dos seres humanos. Nestes momentos, as de Louisiana e do Mississipi, no sul dos Estados Unidos, apresentam severos danos por causa do derramamento de petróleo depois do acidente da plataforma da British Petroleum no Golfo do México. Enquanto aumenta o consumismo com suas desastrosas conseqüências e adoece o recurso hídrico, nem as chuvas, nem os glaciares, nem as marismas podem repô-la. Juntamente ao esgotamento da água crescem os alertas sobre uma guerra por sua partilha porque cada vez são menos aqueles que desfrutam de seus benefícios. Diversas fontes indicam que uma pessoa em cada cinco já não tem acesso à água potável e uma em cada três não dispõe de meios de saneamento adequados. No entanto, sua demanda a nível mundial dobra a cada 20 anos pelo aumento da população e estima-se que para 2025 duas em cada três pessoas poderiam carecer do precioso recurso. Tal contexto poderia derivar em conflitos internacionais, pois alguns países tratariam de desviar água de seus vizinhos para si. E é que 40% da população do planeta se nutrem de água de bacias hidrográficas internacionais que compartilham dois ou mais países, e para isso quase não existem tratados que permitam a distribuição eqüitativa, apesar de que desde 1820 foram assinados no mundo mais de 400. A competição para controlar e explorar de forma privada a água – ainda que se possa considerá-la como um patrimônio comum da humanidade – também será um detonante de uma possível guerra. Para evitá-la, bem como para conservar a espécie humana e a natureza que lhe dá vida, os chamados a proteger ao planeta e seus recursos crescem. Ouvidos surdos prevalecem entre os responsáveis pela depredação humana que descansa em um sistema que, por sua vez, sustenta-se do consumismo desmedido. ‘Ou morre o capitalismo ou morre a Mãe Terra’, preveniu em abril passado o presidente da Bolívia, Evo Morales, anfitrião da Cúpula sobre Mudança Climática, organizada por seu governo junto aos povos indígenas e movimentos sociais. O presidente alertou que o mundo está agora em uma ‘encruzilhada definitiva’ entre o capitalismo e a vida em harmonia com a natureza. (EcoDebate)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A terra está secando

A terra está secando e cresce a luta pela água nos Andes. Mudança climática. O Peru é o país que mais sofre com o aquecimento global no mundo. O Equador não fica atrás. Sobe a temperatura, as geleiras estão derretendo, mas há repentinas quedas de temperatura. Ameaça plantações e estilos de vida milenares. Gumercinda Catunta faz tempo que anda com a intenção de “semear e colher chuva”. Mas quando vai pedir ajuda às autoridades de Pampamarca obtém sempre a mesma resposta: não há recursos. Gumercinda repete seu pedido na praça do povo da província de Cuzco, no Peru. Ela tem 41 anos, três filhos e está parada sob o monumento que recorda que estas terras são as de Tupac Amaru e de sua companheira, Micaela Bastidas. São as terras que fazem parte do país que mais sofre os efeitos da mudança climática no mundo e onde nem a ajuda do Estado nem dos países responsáveis pelo aquecimento global chega. A mais de 3.800 metros acima do nível do mar, a falta de água, a retração das geleiras, as temporadas de estiagem, as repentinas quedas de temperatura, as épocas de chuvas cada vez mais curtas e intensas, os frios cada vez mais frios e o calor cada vez maior são as manifestações mais concretas da mudança climática, essas variações do tempo atribuídas direta ou indiretamente à atividade humana. Gumercinda fala enquanto uma banda de música se faz ouvir dentro da municipalidade deste povoado situado a cerca de duas horas do centro turístico de Machu Picchu e anuncia a saída de um casal de recém-casados seguidos por um enxame de parentes e amigos e uma nuvem de papel picado, a única nuvem que se vê a milhares de quilômetros. A mudança climática ameaça a vida da maneira como foi vivida durante anos na região de Cuzco. “Antes sabíamos quando semear porque começavam as chuvas. Antes havia três mananciais de onde tirávamos a água para regar. Eles já não existem mais, mas há novas pragas e as batatinhas estragam”, enumera Roberto Lazo, um dos moradores que participa de um projeto que envolve 6.500 famílias com a finalidade de buscarem formas de adaptação à mudança climática. A Associação Ararina está encarregada de transmitir 24 técnicas não poluentes orientadas a melhorar a produtividade do solo, o manejo da água e sua conservação. “Há três anos que as temperaturas são tão frias que nossos filhos adoecem de coisas nunca vistas. Além de sofrer de desnutrição, morrem de pneumonia”, conta Gumercinda. A cerca de duas horas de Pampamarca está Espinar, outra província peruana que faz parte da região de Cuzco. “Aqui o pasto não cresce como antes” e a Puna seca está cada vez mais seca. A parte alta das montanhas que rodeiam as comunidades camponesas está marrom escuro. “Antes havia nevascas e geleiras, vastos pastos, mas sem gelo já não há água”, explica Adriano Paucara, um dos moradores. O Peru e o Equador são os dois países da América Latina que têm geleiras tropicais, superfícies geladas entre o Trópico de Câncer e o de Capricórnio e que, segundo os estudos científicos, estão desaparecendo. Para além da retração e do avanço destas massas geladas ser um processo natural, a intervenção humana modificou este ciclo. E sem glaciares não há água e sem água não há vida. Então, a luta pela água não é um vaticínio de ficção-científica. Um estudo de 2007 realizado pela Comunidade Andina prognostica que na América Latina as tensões em torno da água envolverão entre sete milhões e 77 milhões de pessoas. E isso acontece no Peru, onde cidades como Espinar têm apenas duas horas diárias de água. Este país já perdeu 40% dos blocos gelados nos últimos 30 anos e quase a mesma proporção se derreteu no Equador. Os dois países estão entre aqueles destinados a receber o fundo de compensação e para a adaptação à mudança climática lançado na Cúpula de Copenhague. Mas pouco se avançou. Os fundos serão o tema de dezembro próximo durante a Conferência de Cancún. Mas, por enquanto, nem o dinheiro nem as negociações chegam a estas terras altas dos Andes. Apenas os camponeses, as Ongs e a cooperação internacional. Adriano Paucara é um dos poucos que já semeia e colhe chuva. Graças a fundos da Oxfam a Ong regional Associação Projeção construiu um reservatório de água e um sistema de irrigação por aspersão que faz com que sua parcela seja um ponto verde entre tanto seco. Um modelo que procura copiar outros povoados. A 4.400 metros, em Camanoccla, há seis meses está sendo copiado. “Não há pasto como antes. O sol queima como nunca. Antes caminhávamos a pé descalço, mas agora precisamos de calçados. Há frios repentinos que acabam com as plantações. Vêm furacões e doenças para as crianças”, conta um dos moradores da comunidade formada por 500 famílias. Neste ano, “30 anjinhos foram ao céu. Não suportaram o frio e a pneumonia que antes não havia, mas que agora existe”. (EcoDebate)

Alter do chão

Alter do chão: um aquífero de 84 quatrilhões de litros de água.
Há cerca de 50 anos se tem conhecimento da existência do Aquífero Alter do chão. No entanto, a partir da sua tese, o professor André Montenegro Duarte descobriu que este reservatório tem, aproximadamente, 84 quatrilhões de litros de água, duas vezes o volume do Aquífero Guarani, no sul do Brasil. Na entrevista que concedeu, por telefone, à IHU On-Line, Duarte aponta as diferenças entre esses dois reservatórios: “O Guarani está localizado numa região mais cristalina, uma área mais rochosa, por isso a água fica armazenada mais nas fraturas, embora lá também existam depósitos de água nos pacotes sedimentares. Já o Alter do Chão é todo sedimentar, ou seja, é uma área muito grande, onde a porosidade é muito maior e, consequentemente, o volume de água também”, explicou. André também falou do conceito de valor do “não uso” que, segundo ele, deve ser aplicado na gestão da água do aquífero localizado sob os estados do Amazonas, Pará e Amapá. “Nós estamos fazendo alguns estudos que são uma tentativa de gestão e utilização dessa água de forma estacional e inteligente dando valor para a ideia de ‘não uso’”, analisou. André Montenegro Duarte é graduado em Engenharia Civil Universidade Federal do Pará – UFPA. Na Universidad Politecnica de Valencia realizou o mestrado na área de Engenharia e, na UFPA, onde atualmente é professor, fez o doutorado em Geologia e Geoquímica, intitulado O Valor Econômico e Estratégico das Águas da Amazônia. IHU On-Line – Como se caracteriza o Aquífero Alter do chão? André Montenegro Duarte – O Aquífero Alter do Chão é uma formação geológica no interior do solo que armazena a água nos poros ou nos vazios. São espaços nos quais, durante milhões de anos, foi armazenada água. Tem grande extensão territorial e abrange os estados do Pará, Amapá e do Amazonas. IHU On-Line – Quais as diferenças entre este e o Aquífero Guarani? André Montenegro Duarte – São bem diferentes. A principal diferença é o volume. O Alter do chão tem uma capacidade de armazenamento de água muito maior. O Guarani está localizado numa região mais cristalina, uma área mais rochosa, por isso a água fica armazenada mais nas fraturas, embora lá também existam depósitos de água nos pacotes sedimentares. Já o Alter do Chão é todo sedimentar, ou seja, é uma área muito grande, onde a porosidade é muito maior e, consequentemente, o volume de água também. IHU On-Line – O Aquífero Alter do chão é conhecido há pelo menos 50 anos, mas não se sabiam sua extensão e seu volume de água, por exemplo. Que dados permitiram o senhor chegar a esses valores? André Montenegro Duarte – Ele foi identificado na década de 1950 pelos poços de pesquisa de petróleo da Petrobras. Entretanto, não havia interesse econômico maior na exploração ou na codificação dessa água. A quantidade foi definida, ainda de maneira preliminar, pois existem alguns estudos complementares, de uns cinco anos para cá com os estudos que têm sido feitos aqui na universidade. Utilizamos dados cedidos pela Petrobrás e de outras pesquisas realizadas ao longo dos anos na região. A cidade de Manaus, por exemplo, é abastecida por este aquífero, assim como Santarém, outro município grande no oeste do Pará. Existem alguns poços perfurados operando e isso permite que tenhamos essas informações. IHU On-Line – As obras que estão sendo projetadas para a Amazônia podem ameaçar o Aquífero Alter do chão? André Montenegro Duarte – A água que está armazenada no Alter do Chão, com aproximadamente 84 quatrilhões de litros, duas vezes o volume do Aquífero Guarani, não será alterada por obras como uma barragem, hidrovia, pois está no subsolo. O que acontece em algumas obras com grandes áreas de desmatamento, é que provocam uma mudança no ciclo da água, que é o responsável pela recarga e manutenção do Aquífero ao longo desses milhões de anos. Em algum momento essa água será explorada, devido ao fato de ela tem um valor econômico muito grande, mas se não houver recarga, ficará insustentável. Então essas intervenções humanas causam problema não ao volume de água que está lá dentro, mas trazem a possibilidade de alterar o ciclo da água na região, prejudicando a manutenção do Aquífero. Como já citei, Manaus, Santarém e outras pequenas localidades já são abastecidas com esta água; mas é um volume muito pequeno em relação ao potencial do Aquífero. Sabemos, porém, que a água potável é um bem que está se tornando cada vez mais raro e escasso, por isso está sendo agregado grande valor econômico ao Aquífero, que já desperta o interesse de empresas de grande porte de todo o mundo. Elas estão inclusive adquirindo áreas na região para fazerem a exploração no futuro. Potencialmente tem um mercado muito grande. IHU On-Line – Mas há uma forma de preservar esse ciclo da água mesmo com a exploração? André Montenegro Duarte – Nós estamos fazendo alguns estudos que são uma tentativa de gestão e utilização dessa água de forma estacional e inteligente dando valor para a ideia de “não uso”. Ou seja, uma parte seria utilizada e outra preservada. E a essa segunda parte também se agrega valor. Existem posturas teóricas que precisamos implementar para que consigamos implementar estas questões de forma mais pragmática. IHU On-Line – O senhor pode nos explicar o que é o conceito de valor do “não uso”? André Montenegro Duarte – Vou te dar um exemplo real: a floresta tem valor quando um madeireiro corta a madeira e a vende. Ela tem também um grande valor quando essa madeira permanece lá, ou seja, em pé. A floresta preservada pode ter um valor de “não uso” muito maior. Um desses valores está ligado ao sequestro de não uso do CO2, hoje já se consegue auferir receita ou valor econômico para a preservação daquele espaço através desse processo. Hoje, existem mercado de resgate de CO2 que possibilita o “não uso”. A água também pode ter um valor de “não uso” agregado. O mais importante, nesse caso, é, principalmente, preservar o ciclo da água do que o reservatório em si. Para manter o Alter do Chão é preciso preservar o ciclo hidrológico e, para isso, é preciso ter um elemento compensatório. (EcoDebate)

Transposição do Rio São Francisco

Transposição do Rio São Francisco: uma jogada eleitoral.
Dois anos depois de nossa última conversa, Dom Cappio fala, na entrevista que concedeu à IHU On-Line, por telefone, sobre a situação atual das obras de transposição do rio São Francisco e como ele e os movimentos sociais estão trabalhando na luta contra o projeto. “O projeto segue adiante, mas não na velocidade prevista. Quem está trabalhando é praticamente só o exército. Quase todas as empresas deixaram o campo de obras por conta de atrasos em relação aos pagamentos e a falta de confiança nos recursos referentes ao projeto”, explica o bispo de Barra, na Bahia. Dom Cappio fala também da relação das eleições com os projetos que ele chama de ‘megalomaníacos’. “Não adianta ser contra alguma coisa e depois votar naquelas que estão levando adiante este projeto. Estamos fazendo um trabalho de conscientização popular para que o pessoal perceba que o nosso voto é responsável por todas essas loucuras que depois os governos fazem”, revela. Dom Luiz Flávio Cappio vive na Bahia, onde está à frente da Diocese de Barra. Em 2005 e 2007 fez greve de fome em protesto contra o projeto do governo federal de transposição do rio São Francisco. Em 2008, a organização Pax Christi Internacional (Bélgica) deu a Dom Cappio o prêmio da Paz do mesmo ano, por sua luta em defesa da vida na região do São Francisco. Em 2009, recebeu o Prêmio Kant de Cidadão do Mundo, da Fundação Kant (Alemanha). IHU On-Line – Em que estágio encontra-se a transposição do rio São Francisco? Qual a situação atual das obras? Dom Cappio – O projeto segue adiante, mas não na velocidade prevista. Quem está trabalhando é praticamente só o exército. Quase todas as empresas deixaram o campo de obras por conta de atrasos em relação aos pagamentos e a falta de confiança nos recursos referentes ao projeto. Temos notícias de que a obra está praticamente parada. Então, a situação hoje do projeto de transposição de águas do Rio São Francisco é caótica, já estamos no final dos prazos previstos e apenas 15% da obra foi executada. Serviços de infraestrutura junto àqueles que requerem maiores tecnologias nem sequer foram iniciados. IHU On-Line – A obra já começou. O senhor já vê alguma influência na vida do São Francisco? Dom Cappio – Por enquanto, ainda não significou muito na vida do rio e de quem depende dele. IHU On-Line – Em relação à resistência, onde estão os movimentos sociais e o movimento indígena? Dom Cappio – Os movimentos sociais, as universidades e a sociedade civil nunca se calaram, nunca ficaram parados. Agora mesmo estive na Europa participando de uma série de palestras, encontros e debates e vi que não apenas o Brasil, mas o mundo todo se levanta contra o projeto de transposição de águas e agora também contra o projeto de Belo Monte no Pará. São obras muito grandes de alto investimento de recursos públicos e praticamente baseados em uma tecnologia totalmente ultrapassada, então são recursos do dinheiro público investidos em tecnologias totalmente superadas. Isso nos causa uma indignação muito grande, principalmente porque sabemos que o projeto de transposição é totalmente eleitoreiro. O objetivo do projeto já foi alcançado, que era os recursos para o atual tempo de política eleitoral. Desta forma, os recursos já foram todos amealhados para a atual campanha. Se o projeto de transposição vai ou não adiante, isso é secundário, o importante para quem faz parte dessa jogada já foi conquistado. IHU On-Line – E o pessoal que apoiou a sua greve de fome? Dom Cappio – No debate dos presidenciáveis na Rede Viva, o Plínio de Arruda Sampaio, que é um dos mentores de todas essas lutas sociais, por várias vezes citou toda nossa luta contrária ao projeto de transposição. As grandes mobilizações continuam, só que a imprensa não divulga, a imprensa que está a serviço do poder simplesmente ignora as manifestações todas. Jamais a sociedade civil parou de se manifestar e de reagir, indignada diante do projeto. IHU On-Line – Em relação aos candidatos à presidência, apenas o Plínio se manifestou quanto à transposição? Dom Cappio – O Plínio é quem claramente se manifesta contra. Ele é a pessoa que, desde o início, com toda a clareza, se manifestou contrário ao projeto de transposição de águas do rio São Francisco. IHU On-Line – Como o senhor pretende se posicionar nas próximas eleições? Dom Cappio – Todos que lutam em defesa do rio São Francisco sempre dizem que não podemos apoiar de maneira nenhuma aqueles candidatos à Presidência da República, aos governos estaduais, ao Senado e às câmaras de deputados que dão o seu aval a esse tipo de projeto, seja o de transposição de águas, seja o de Belo Monte e outros projetos similares. Nós não podemos, de forma nenhuma, apoiar estes políticos, porque uma coisa é você ter consciência ecológica e se manifestar contrário a projetos antiecológicos, antissociais e antieconômicos, e outra coisa é você votar em pessoas que apóiam estes projetos. Se nós somos contrários a estes projetos, não podemos de maneira nenhuma apoiar candidatos que são a favor, que são os promotores destas ideias. Eu não vejo muito futuro para esses projetos porque são megalomaníacos, imensos, grandes, que nunca terão fim, porque são obras que vão consumir muitos recursos públicos. Desde o início, temos avisado que estes projetos não vão chegar ao fim, são projetos eleitoreiros. Uma vez passada as eleições, o pessoal não vai estar nem aí se a obra vai adiante, se termina ou se não termina. Levar água para as comunidades irá depender dos governos estaduais e municipais e é utópico achar que estes vão fazer as partes complementares do projeto. Eu sou um homem público e o povo tem direito de saber o que o pastor pensa. No primeiro turno eu vou votar muito feliz porque vou de Plínio de Arruda Sampaio, que é uma pessoa íntegra, um cristão verdadeiro. Plínio foi um dos fundadores do PT e, assim como nós, também lutou pela implementação de um partido dos trabalhadores, desde o momento em que o PT se desviou dos ideais, se retirou do partido. Eu voto com muita felicidade, com muita alegria no primeiro turno para Plínio. Será um voto consciente dado com amor. No segundo turno, eu dou um voto com tristeza, porque não é um voto que eu gostaria de dar. Como provavelmente não teremos outra opção, vou votar no Serra, mas esta não é uma opção feliz, no entanto em Dilma eu não voto. IHU On-Line – Como chegaram aí as notícias de que o São Francisco pode comportar duas usinas nucleares? Dom Cappio – Este é outro projeto absurdo. Para quem vive aqui, quem conhece a realidade deste povo, estes projetos feitos por técnicos, que não conhecem o rio e o povo ribeirinho, entre quatro paredes, são completamente loucos, não condizem com a realidade. Projetos como esse, precisam ser discutidos com a sociedade civil, e esses projetos não são discutidos com a sociedade civil. O projeto de transposição não foi a debate, assim como o projeto de Belo Monte. Pelo contrário, todos os projetos encontraram reações tremendas diante da sociedade civil. A ideia de usinas nucleares no São Francisco simplesmente se impõe de maneira ditatorial, antidemocrática e terrível. IHU On-Line – O senhor tem conversado com a população ribeirinha sobre a transposição? Qual é o sentimento do povo? Dom Cappio – O povo se sente traído e se manifesta. Nós temos dito que é preciso fazer, agora, uma ligação entre essa indignação e os votos que serão dados no dia da eleição. Não adianta ser contra alguma coisa e depois votar naquelas que estão levando adiante este projeto. Estamos fazendo um trabalho de consciência popular para que o pessoal perceba que o nosso voto é responsável por todas essas loucuras que depois os governos fazem. IHU On-Line – O senhor considera que essa obra aumentará no futuro a popularidade de Lula no Nordeste ou funcionará ao contrário, ficará como uma herança maldita? Dom Cappio – Eu sempre digo que nós não perdemos por esperar. O tempo mostra a verdade de todas as coisas e ele vai mostrar o significado da nossa luta e o que foi, na realidade, o governo Lula para o Brasil. A verdade, com o tempo, aparece. Então, que nós, nessas eleições, possamos dar o nosso voto com muita consciência, sabendo que esse ato decide os destinos da nação. Um voto bem dado, uma nação feliz, um voto mal dado, infelicidade para todos. Que o povo brasileiro tenha muita consciência na hora em que for dar o seu voto. (Ecodebate)

Direito Universal à Água e ao Saneamento

Direito Universal à Água e ao Saneamento: Mais uma mONUmental hipocrisia.
“O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes”. Noam Chomsky Atenção, muita ateeeenção! A Assembléia Geral da ONU – Organização das Nações Unidas – aprovou uma Resolução que diz que tanto o acesso à água potável como o acesso aos cuidados básicos de saúde são direitos humanos fundamentais. Não é piada: to falando sério! Colocaram o óbvio no papel: se, sem beber água, você morre em 3 dias, o acesso à água é um direito vital. Isso vai ficar catalogado na História dos Povos: um fato que ocorreu no Século XXI, após a Copa do Mundo de 2010. Nossa!, quem ficar sabendo disso, principalmente através da imprensa marrom, pensará que se trata de uma conquista magnânima! Coisa pra ser comemorada nos 4 cantos do Planeta. Mas, segurem as vuvuzelas, gente! A ONU fez mais um texto bonitinho, com o amém de 122 países. Estados Unidos, Austrália, Áustria, Canadá, Coréia do Sul, Dinamarca, Grã-Bretanha, Grécia, Holanda, Irlanda, Israel, Japão, Luxemburgo e Suécia ficaram em silêncio; não votaram. Mas, também, o voto positivo deles não ia mudar nada. A humanidade ganhou mais um papel pra colocar na gaveta (ou no arquivo virtual). E pra gerar reuniões, eventos, discussões calorosas. Lembrei agora que, na Rio+10, realizada na África do Sul, 190 países prometeram reduzir à metade, até 2015, a população sem água potável e sem saneamento; e a restaurarem os recursos pesqueiros. No mesmo ano, em 27 de novembro de 2002, o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU declarou que o acesso à água era um direito humano indispensável; que a água era um bem público, social e cultural, um produto fundamental para a vida e a saúde e não um produto básico de caráter econômico. E exigiu que os países adotassem planos de ação nacionais para garantia desse direito. Mas isso não foi uma Resolução; foi um “Comentário Geral”, ou seja, uma interpretação das disposições do Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais2. Nem Comentário Geral, nem Resolução vão ajudar a reduzir esses números. Regras como estas não obrigam ninguém a fazer nada: apenas pedem, sugerem, dão palpites, se não cumprir, fica tudo bem; não há castigo previsto em caso de descumprimento. E qual a nossa realidade, segundo dados da ONU? 900 milhões de terráqueos vivem sem água boa de beber. E a água poluída mata, principalmente nos países pobres. Enquanto a ONU brinca de criar regras, nossas crianças estão morrendo: a cada 3 segundos, morre 1 criança de doença veiculada pela água poluída (dados da OMS – Organização Mundial da Saúde). Isso não cabe debaixo do tapete! A coisa está fedendo! Vamos festejar o quê? (EcoDebate)

Edifícios sustentáveis: o exemplo do Bahrain WTC

‘Aquele’ outro problema do CO2 – Pesquisadores buscam resposta para aumento da acidez do mar, que afeta as algas que os peixes comem, as focas que comem os peixes, e os humanos que comem peixes, ostras e mariscos Em frente ao porto de Ny-Ålesund, o prédio cinza de dois andares é um moderno laboratório marinho. Foi ali que, durante cinco semanas, cientistas de nove países conduziram um estudo sem precedentes no Oceano Ártico sobre um fenômeno conhecido como “aquele outro problema do CO2″. O CO2, ou dióxido de carbono, até as focas daqui sabem, é um dos gases que provocam o efeito estufa. As emissões de CO2 produzidas pela queima de combustíveis fósseis e desmatamento cresceram rápido nos últimos dez anos. Os oceanos funcionam como um sumidouro fundamental e absorvem cerca de um terço das emissões – esse é o lado bom da história. O ruim não tem a ver com aquecimento global nem efeito-estufa, mas com o CO2 no mar. Quando os oceanos absorvem o gás, uma reação acontece e forma ácido carbônico. O resultado é que o pH da água do mar fica menos alcalino e mais ácido. Lembrando a aula na escola: a escala de pH vai de 0 a 14, sendo 7 o valor neutro. O pH da água do mar é ligeiramente alcalino, ou seja, pH próximo a 8,2. O intenso processo de absorção do CO2 aumenta a acidez dos mares. É essa situação que ficou conhecida por acidificação dos oceanos – ou “aquele outro problema do CO2″. Trata-se de um problemão. A acidez dos oceanos aumentou 30% desde a Revolução Industrial e continua nessa toada. A química do processo já é bem conhecida, mas a ciência ainda engatinha no entendimento do que está acontecendo dentro do mar, no mundo das algas e dos peixes. A dimensão mais famosa desse problema é o processo de enfraquecimento da estrutura dos corais. Recifes de corais são as “florestas tropicais dos mares”. Garantem alimento e proteção costeira a milhões de pessoas, além de abrigar um quarto das espécies marinhas. Não é pouco o que está em risco. O que está acontecendo com espécies microscópicas de algas do fitoplancton e pequenos animais do zooplancton, a base da cadeia alimentar marinha, com a água alterada? Pesquisadores do mundo todo têm procurado respostas. Mariscos, moluscos, ostras e outros organismos que produzem conchas e esqueletos de carbonato de cálcio devem estar sentindo o baque, imagina-se. No documentário “A Sea Change” (Uma Mudança no Mar), que mostra a preocupação do historiador aposentado Sven Huseby com o mundo onde seu neto Elias irá viver, uma experiência simples esclarece o que acontece com um organismo de cálcio submerso em um líquido ácido. Uma pesquisadora mergulha um dente de leite dentro de um copo de Coca-Cola. Um mês depois, o dente está rachado. O assunto é tão preocupante que a Comissão Europeia fundou, em maio de 2008, o Projeto Epoca (European Project on Ocean Acidification), com o objetivo de entender melhor o que está acontecendo nas profundezas. Trata-se de um esforço multinacional, de nove países europeus. São mais de cem pesquisadores de 29 institutos de ponta debruçados sobre o assunto. Há pesquisas importantes também acontecendo nos Estados Unidos, no Japão, na Coreia, na China e na Austrália, só para citar alguns. Ok. Mas e o Ártico, por que Ny-Ålesund, por que os mesocosmos? “O Ártico será o primeiro a sofrer o impacto e também o oceano que sentirá o efeito mais forte”, diz sem meias-palavras o pesquisador Ulf Riebesell, oceanógrafo do Leibniz – Institut für Meereswissenschaften (IFM-Geomar), da Universidade de Kiel. “Foi por isso que viemos aqui.” A absorção de CO2 é mais intensa em águas frias, os oceanos polares estão entre os mais produtivos do planeta e seu ecossistema é dos mais vulneráveis. Os estudos com os mesocosmos no Ártico são a primeira experiência em larga escala do gênero. A ideia é olhar o que está acontecendo com vários grupos de bichos e plantas no lugar onde vivem. Riebesell, também professor de oceanografia biológica, comandou em Ny-Ålesund os trabalhos em campo de 35 pesquisadores de 12 centros de pesquisa. Colocaram os nove mesocosmos que o Esperanza trouxe da Alemanha em um ponto do Kongsfjord, não muito longe de Ny-Ålesund. Dentro desses gigantescos tubos de ensaio, com capacidade para 55 mil litros de água, estavam moluscos e algas que vivem nessas águas geladas. Entre as estrelas estavam algas vermelhas muito comuns por aqui e pequenos moluscos chamados pteropodes, que nadam como se fossem borboletas marinhas, com estruturas que lembram pequenas asas e formam uma concha transparente em caracol. “Muitos organismos nos oceanos constroem suas conchas e esqueletos com cálcio, a estrutura mais comum que os organismos no mar fazem”, explica Riebesell. “A acidez dos oceanos afeta negativamente esse processo. Eles vão calcificar menos, suas estruturas terão defeitos, ficarão menos protegidos, menos saudáveis, os predadores podem pegá-los com mais facilidade.” A maioria dos organismos estudados até agora reagem mal à acidificação, crescem e se reproduzem menos. Ouriços podem ter problemas em formar sua carapaça de espinhos, mariscos fazem conchas com defeitos, a reprodução de moluscos é afetada. Na pesquisa do Epoca no Ártico, os cientistas jogaram CO2 em concentrações diferentes dentro dos nove mesocosmos. Nos primeiros quatro, os valores de dióxido de carbono correspondiam aos dos tempos pré-industriais. No quinto, a adição do gás era equivalente aos níveis atuais de concentração na atmosfera. Nos últimos quatro, os níveis de CO2 eram compatíveis aos dos cenários futuros imaginados pelos cientistas do IPCC, o braço científico das Nações Unidas. Finalmente, uma espécie de tampa transparente em formato de guarda-chuva, ornada com espinhos artificiais, foi colocada sobre cada mesocosmo, para evitar que as aves pousassem sobre eles. A rotina dos pesquisadores passou a ser recolher amostras, adicionar CO2, observar o comportamento das plantas e animais, anotar os dados, mergulhar no mar para ver se estava tudo bem. E começar tudo de novo no outro dia. “Em 33 dias tivemos apenas um livre”, conta o professor. Eles também faziam ronda constante para observar as condições do tempo, do mar e a aproximação de icebergs, um dos temores da equipe. “Conseguimos afastá-los usando pequenos botes.” No último dia da experiência, quando os pesquisadores já guardavam equipamentos e faziam as malas, Riebesell comentava alguns dados. Clorofila é uma medida importante de biomassa. Os cientistas apanhavam amostras de algas nos diferentes tubos, centrifugavam tudo e conseguiam comparar o que estava acontecendo. No 25º dia da experiência, por exemplo, havia variações claras na produção de clorofila do plâncton exposto a quantidades menores de CO2 do que naquele que ficou vivendo no mesocosmo com altas concentrações do gás. As algas que viveram em águas menos ácidas produziram quase o dobro da do que as outras. “Ficamos muito felizes porque pela primeira vez víamos indicações claras de mudanças”, celebrava Riebesell. Para depois, reconhecer: “Mas está claro que, se continuarmos a emitir como estamos e só fizermos algo adiante, será muito tarde para o Ártico. 2050 é tarde demais para o Ártico.” Os cientistas mediam mais de 60 parâmetros diferentes, todos os dias. Observaram de sedimentos à interação entre organismos. Duas comunidades diferentes de fitoplâncton não gostaram de viver em águas mais ácidas. “A questão da adaptação à mudança está em aberto”, diz Riebesell. “Mas se eu tivesse que fazer um quadro de como o oceano vai parecer em 50 ou 100 anos, diria que terá menos biodiversidade. Vamos perder muitas espécies.” O que não está tão claro é se o aumento na acidez vai resultar em menos peixes no mar. “Ainda não temos ideia do que acontece com os peixes, baleias e assim por diante.” “Adicionando algo sobre a biodiversidade: não podemos saber o que vai acontecer no futuro, mas podemos olhar para o passado”, continua. A acidificação dos oceanos já aconteceu pelo menos duas vezes. Uma delas foi há 55 milhões de anos, quando uma grande quantidade de metano estocado no fundo do mar se liberou, foi para a água e de lá para a atmosfera. O fenômeno aconteceu com muita intensidade. “Ocorreu uma massiva extinção de organismos, principalmente os que tinham cálcio nas estruturas. Perdemos toda a população de corais. A recomposição levou 10 milhões de anos.” O segundo caso foi há 65 milhões de anos, quando os dinossauros morreram. A hipótese mais aceita é que um grande meteorito bateu na Terra e liberou grandes quantidades de gases que acidificaram os oceanos – de novo os organismos com cálcio tiveram a mais alta taxa de extinção. “Não digo que estamos caminhando para essa situação”, alerta, “mas que isso indica que a acidificação dos oceanos pode resultar nessas mudanças.” Em novembro deve estar fechada uma análise global das pesquisas no Ártico. O próximo passo é estudar o que está acontecendo no Pacífico. Um centro de estudos no Havaí coleta dados sobre o assunto há 25 anos. “Queremos juntar a experiência que temos com os mesocosmos com o longo conhecimento de dados deles”, diz o cientista. Ele estava feliz no final da experiência no Ártico. “Tivemos muita sorte, deu tudo certo.” Não foi sempre assim. Os mesocosmos foram utilizados em outras ocasiões e a experiência não dava certo. Ondas altas e mau tempo colocavam tudo a perder. Mudaram o design das torres e em 2008, no Báltico, finalmente conseguiram que aguentassem o tranco. O projeto no Ártico começou a ser preparado há dois anos. O maior obstáculo virou trazer os pesados mesocosmos para Ny-Ålesund. No Projeto Epoca existe um grupo de usuários de referência em que estão BP e Rolls Royce, WWF, TNC e Greenpeace. Foi aí que alguém do Greenpeace sugeriu que o Esperanza poderia trazer as torres. “Começamos a conversar, nunca tinha feito nada com o Greenpeace”, conta o professor. A parceria inédita delimitou espaços: os cientistas ficavam com a ciência, os ativistas com o transporte. “Isso era totalmente novo para nós. Fizemos um memorando, falamos com nossos parceiros no Epoca e com a Comissão Europeia”, continua. A novidade foi criticada. “Houve gente dizendo que iríamos perder credibilidade. Tivemos longas conversas, deixamos claro que nós, cientistas, somos totalmente independentes e que o Greenpeace não interferiria em nada”, afirma. “A minha experiência, agora, é que o Greenpeace é extremamente profissional. Fiquei muito bem impressionado.” Os mesocosmos voltaram a Kiel em 22 de julho, sãos, salvos e prontos para mergulhar nas águas do Havaí. Os oceanos são distintos, mas tudo está relacionado. O que acontece com as algas no mar mais ácido pode afetar os peixes que as comem, os pássaros que comem os peixes, as focas que também comem os peixes, os ursos que comem as focas, os humanos que comem peixes e ostras e mariscos. As queimadas na Amazônia jogam mais CO2 na atmosfera e vão interferir no cardápio da morsa. O que acontece no Ártico, nas terras geladas do sol da meia-noite, vai bater em toda parte – inclusive naquele continente gelado onde vivem os pinguins e não tem urso. (EcoDebate)