domingo, 27 de fevereiro de 2011

Mulheres – somos insustentáveis!

Nos vários cursos, congressos, programas, debates sobre sustentabilidade e responsabilidade social aos quais tenho participado a presença feminina é realmente gritante. Muitas vezes a soma é de 90% mulheres contra 10% homens. Mas o que vejo é que quando chamados ao palco para debater ou receber prêmios as mulheres ficam na plateia enquanto seus diretores e presidentes homens é que saem na foto.
Estranho não é? Na maioria das vezes são as mulheres que desenvolvem, implantam e coordenam os projetos e programas socioambientais e de responsabilidade social das empresas. Historicamente continuamos nos bastidores, como dizem: “atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher”.
Bem, deixando este desvio de lado vamos ao que interesse neste artigo: Mulheres nós precisamos nos unir, pois 90% da sustentabilidade planetária depende de nossas atitudes e escolhas.
Explico e exemplifico: Quem são os maiores consumidores mundiais em gênero? Quem demora mais no banho? Quem lava o jardim e a calçada com mangueira deixando quilômetros de água escorrendo pelo ralo? Quem pode decidir sobre crescimento populacional? Quem decide sobre a alimentação da família? Quem faz as compras no mercado? Quem usa secador, faz chapinha e coleciona roupas e sapatos muitas vezes sem utilizá-los? Enfim, quem cuida da economia do lar?
Sim, nós mulheres de todas as idades. O consumo mundial anual de maquiagem gira em torno de US$ 18 bilhões e o de perfume US$ 15 bilhões. Dizem os economistas que com US$ 4 bilhões resolvemos vários problemas de contaminação de água e com US$ 5 bilhões o do analfabetismo.
Façamos o nosso “Mea Culpa”, somos responsáveis por grande parte do consumo intenso e desnecessário no planeta.
Recentemente me mudei de um apartamento grande para um médio. Passei um mês abrindo armários o que me levou a uma reflexão de vida. Por que nós mulheres acumulamos tantas coisas que não utilizaremos? Perfumes que após abertos começam a oxidar. Sapatos mil, síndrome de centopeia? Eu tinha 250 pares, muitos sem nunca ter usado. Olha que loucura! Tanta roupa para que se os homens nos preferem nuas e na maioria das vezes nem notam a roupa nova!
Roupa de cama mesa e banho, que por falta de uso ou ainda novas ficaram amareladas.
Nossas bolsas são cada vez maiores. Para quê? Só nos causam problemas de coluna. Que inveja dos homens que saem somente com uma carteira no bolso.
Em 1991 fui à Bélgica para um estágio, achava estranho minha amiga Belga comprar frios por fatias, geralmente 2 para cada. As compras eram para o consumo do dia ou no máximo para dois dias. Ela me ensinou que assim ficavam mais frescas e não haveria desperdício. Também me ensinou que perfume bom se compra 01 para o inverno e 01 para o verão, assim curtimos até a última gota sem desperdício. E tantas outras coisas que só um povo que passou por duas grandes guerras sabe o que é não ter recursos.
Mulheres vamos rever nossas atitudes, fazer-nos mais leves.
O que será de nossos filhos e netos no futuro? Qual a mãe que quer ver seu filho ou suas futuras gerações em guerra por um copo de água?
E os homens, aqueles que vão ao palco receber os prêmios por projetos sustentáveis, talvez realmente tenham este direito. Afinal estão trabalhando para atender a nossa insustentabilidade.
“A Terra é capaz de satisfazer a necessidade de todos os homens. Mas a Terra não é capaz de satisfazer a ganância de todos os homens.” Mahatma Gandhi (EcoDebate)

Sustentabilidade no Transporte

Sustentabilidade no Transporte Coletivo de Pessoas
Recentemente tive a oportunidade de assistir a palestra de um renomado professor do MIT- Sloan School of Management, Prof. John Sterman, especialista em engenharia de sistemas urbanos & comportamento humano, onde mencionou que “… á partir de1950 até o ano de 1997, com todo o desenvolvimento obtido o e emprego de novas tecnologias, a população global passou a crescer em uma nova e astronômica taxa de 1,76% (antes de 1950 era de 0,86%) ao ano. Numero que fez com que a população mundial dobrasse em apenas 40 anos … hoje o mundo cresce uma Alemanha, 77 milhões de pessoas, a cada ano.”
Em decorrência disso, setores como o de Transportes, por exemplo, ganharam expressiva relevância e são cada vez mais discutidos porque trazem consigo, inerentemente, uma pesada carga de externalidades, tanto negativas, quanto positivas.
As negativas: trata-se é um setor intensivo no consumo de energia. Para atender as demandas da população responde por 14% das emissões globais de gases efeito estufa além de inúmeros outros gases poluentes (fonte: WWF-2008).
As positivas: sem eles talvez nossa idade média ainda fosse 45 anos, como na primeira metade do século passado. Portanto sua contribuição para o progresso da humanidade é inquestionável.
PIB mundial
Nos últimos 60 anos o PIB mundial cresceu também, ao ritmo de 3,5 % ao ano. E quanto mais dinheiro, maior demanda por bens e serviços. Isto intensificou a produção, comercio e transporte de bens e pessoas resultando num contínuo e complexo fluxo logístico “entre” e “intra” as nações, diversificando e incrementando os modais de transporte. Entretanto a eficiência energética de alguns destes modais tornou-se uma preocupação nos últimos anos.
Dados do Setor
“Em 2004, o setor de transportes concentrava 26% de toda a energia utilizada no mundo, sendo que o consumo global do setor deve aumentar 2% ao ano.
Veículos automotivos respondem por 23% dos gases que provocam o efeito estufa e 70% da poluição das cidades. ”(fonte: ONU)
No Brasil, por exemplo, o setor de transportes é responsável por 52% da energia fóssil consumida, sendo que este é o setor que apresenta a menor porcentagem de energia renovável (apenas 12% do seu total).
Comparando os diversos modos de transporte, o setor rodoviário absorve 92% da energia utilizada, sendo irrisória a participação dos setores ferroviário, hidroviário e aéreo.
Do consumo de energia pelo transporte rodoviário, 54% correspondiam ao diesel, 23% à gasolina e 23% ao álcool no ano de 1989. Em 2005 esta divisão havia mudado para 54%, 29% e 13%, respectivamente, e 4% relativo ao gás natural.
Entretanto, neste último ano o consumo de álcool tem se equiparado ao de gasolina puramente devido aos veículos flexfuel.
(fonte: Estudo NTU).
Automóveis e centros urbanos
Duramente criticado o setor de transporte de pessoas tem sido penalizado pelo uso inadequado do automóvel, e de sua baixa eficiência energética. Queima muito combustível e é subutilizado, quando comparado ao seu potencial de aproveitamento.
Estudos mostram que mais de ¾ da frota mundial de automóveis transportam apenas um ou no máximo dois indivíduos por viagem, representando um enorme desperdício de capacidade.
“Em 2050 serão 7,6 bilhões de veículos nas estradas e ruas. Estima-se que neste ritmo o setor de transportes, em nível global, venha a consumir 440 milhões de barris de petróleo/dia. Hoje a produção mundial é de 82 milhões barris/dia e conceituados estudos apontam que este número pode diminuir.
Também crescerão as emissões de CO2 globais, hoje de 28 bilhões de toneladas/ano passarão á pesados 62 bilhões de toneladas, tornando o atual modelo mais insustentável ainda”, ressalta o professor John Sterman.
O petróleo está para atingir o seu pico de produção entre 2010 e 2020 (pico de Hubert) devendo então decair, tornando-se muito mais escasso e caro, sendo dedicado a outros fins que não o de combustão em automóveis.
Já é anunciado um possível grande gargalo quando se menciona a energia proveniente do petróleo. O segmento de transportes será fortemente impactado, caso não reveja sua forte dependência do combustível fóssil.
No caso do município São Paulo, a frota de ônibus é de apenas 14.824 veículos (dados SP Trans) e transporta 246 milhões de passageiros/mês. A frota total de veículos é de 6,5 milhões, sendo que os automóveis são mais de 4,8 milhões.
A velocidade média é de 25 km/h pela manhã e á tarde 15 km/hora. Para se percorrer a marginal do Tietê, que possui 25 km, são necessários extensos 90 minutos.
Deslocar-se de automóvel nas vias da cidade tornou-se um árduo sacrifício.
A lentidão dos congestionamentos leva o veículo a consumir mais combustível, óleo de motor, freio, pneus, resultando em custos adicionais para o seu dono.
Além disso, nas grandes cidades boa parte da população perde entre 2 e 3 horas/dia em deslocamentos entre casa-trabalho-casa. Um período de tempo improdutivo e oneroso.
Acessibilidade
A adoção de modelos inovadores de transporte coletivo de pessoas nos grandes centros urbanos tornou-se imperativo.
E isto nos leva a reavaliar o que e como desejamos.
Buscamos, sobretudo, facilitar ao máximo o modo como acessamos aquilo que desejamos.
E neste esforço de busca pelo objeto desejado, o nosso anseio original se materializa na busca pela melhor acessibilidade possível.
Resta-nos então a tarefa de otimizar ao máximo o período de deslocamento de um ponto ao outro.
Eis a questão: como podemos acessar o que desejamos com o menor esforço e custo econômico e socioambiental?
Sistema BRT
Conhecido por BRT – Bus Rapid Transit – o sistema de Ônibus de Transito Rápido tem ocupado com freqüência cada vez maior um espaço diferenciado na mídia, sendo citado como o modelo de transporte coletivo mais eficaz para cidades com população á partir de 500 mil habitantes.
Criado em Curitiba sob a gestão de Jaime Lerner em 1974, o sistema veio se aprimorando e tem sido replicado como modelo de referencia em transporte por diversas cidades do mundo, como Los Angeles, Nova Iorque, Cleveland, Bogotá, Quito, São Paulo e em muito breve Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
O sistema funciona em corredores segregados, com paradas pré-determinadas ou até mesmo sem paradas intermediárias operando como um ônibus expresso.
Livre dos automóveis permite velocidade média de 20 a 25 km/hora, porém sem os congestionamentos, a experiência de deslocar-se de um ponto ao outro, torna-se mais eficaz para o usuário.
Além disso, o BRT apresenta elevada eficiência energética, quando comparado ao transporte por automóvel ou moto. Transporta mais passageiros utilizando menos combustível (energia).
Outra grande vantagem, os equipamentos mais modernos podem usar combustíveis renováveis como etanol, energia elétrica – o trólebus, biodiesel (b5, b20 ou o b100 em fase de testes) ou de forma simultânea conjugando eletricidade e etanol nos modelos híbridos. Existe ainda o ônibus movido á hidrogênio.
Todos com baixíssima emissão de gases efeito estufa e de poluentes.
Eficácia do Sistema
Quando comparados aos modais VLT – Veículo Leve sobre Trilho e Metrô, demonstram melhores resultados, seja quanto à resposta ao investimento realizado, quanto ao tempo de deslocamento para o usuário ou ainda à eficiência energética proporcionada.
Veja o estudo preparado por Jaime Lerner Arquitetos Associados. O cenário das projeções é a cidade de Curitiba.
O quadro abaixo apresenta o tempo necessário para se percorrer uma distancia de 10 km, pelos modais METRÔ, BRT, VLT e o sistema de ônibus convencional.
 No quadro a seguir são apresentados os custos e prazos de implantação por km entre os diferentes modais.
 À seguir, uma analise comparativa referente à eficiência energética entre os 3 modais: ônibus, moto e automóvel.
“… Observa-se que:
- Motocicletas poluem 32 vezes mais e consomem 5 vezes mais energia por pessoa transportada do que os ônibus.
- “Automóveis poluem 17 vezes mais e consomem 13 vezes mais energia por pessoa transportada do que os ônibus” relata ainda o estudo.
Sustentabilidade como premissa
Com os eventos Copa de 2014 e Olimpíadas, o governo tem dirigido muita atenção à questão da mobilidade urbana e do transporte de pessoas destinando através da CEF e BNDES, recursos na ordem de 6,5 bilhões de reais, com baixo custo, para a construção de sistemas BRT nas principais capitais. Também o BID e o Banco Mundial oferecem linhas de crédito com custos similares.
Algumas cidades-sede já estão se capacitando para acessar estes recursos. É o caso do Rio de Janeiro e Belo Horizonte, entre outras.
Modelos de negócio que contemplem o desenvolvimento sustentável das áreas impactadas estão, sem duvida alguma, como uma das principais exigências nas licitações em curso.
Sem um amplo e bem estruturado programa de gestão que dê corpo às políticas corporativas de sustentabilidade exigidas nos editais, será inviável a captação destes recursos por parte das prefeituras, empresas ou consórcios interessados. (EcoDebate)

Sustentabilidade e Trabalho

A “sustentabilidade” é o mote do estágio atual do capitalismo. É difícil não encontrar o termo no discurso de qualquer político convincente. Seu emprego, contudo, é a tentativa derradeira de encobertar a perfídia do sistema econômico vigente, que escraviza as pessoas e denigre a natureza.
Países transformam suas economias em negócios (aparentemente) sustentáveis a fim de melhorar a imagem no mundo e fortalecer blocos regionais de integração.
O lado triste é que esvai-se a pequena esperança que se tinha de que a agressão ao patrimônio natural pelo menos se converteria em benefícios nacionais.
A pobre monocultura canavieira, em vez de aparelhar-nos com etanol barato no Brasil, encarece o produto e ainda produz açúcar para exportação, mais rentável no mercado internacional. Todos os demais riscos ficam por conta de quem varre as cinzas das queimadas e paga caro nas bombas de postos de combustíveis, muitos dos quais ainda adulteram o produto.
Enquanto bancários organizaram-se numa greve justa e necessária, os banqueiros faustosos e usineiros oportunistas têm nadado em dinheiro porque o conceito de “trabalho” que vigora no Brasil – a “América” que deu errado – ameaçaria até Macunaíma, “herói sem nenhum caráter”, personagem que marcou a carreira literária de Mário de Andrade.
Prebendas, cabides de emprego, trabalho infantil, escravidão por dívidas, acomodação do funcionalismo público, superexploração de mão-de-obra, entre outros desvios do trabalho, maculam o país e dão a impressão de que o crescimento econômico será repartido.
O trabalho deveria ser dirigido à realização da coletividade e o aprimoramento pessoal. Não só este, nem só aquele; a conjugação dos dois. É chocante viver num país onde pessoas cruzam oceanos constantemente, enquanto outros jamais viram o mar.
O trabalho é uma dádiva a ser apreciada onde quer que se possa contribuir para o planeta.
Aos jovens terceiro-mundistas restam poucos exemplos de probidade e tenacidade no trabalho. Crescem num ambiente em que se passou a exigir domínio do idioma inglês em qualquer ofício, já que o inglês passou a ser mais valorizado que o português em qualquer troca comercial dentro do país. Os custos de frete, por exemplo, calculam-se através das siglas “FOB” (Free On Board) ou “CIF” (Cost, Insurance and Freight), que poucos tupinicas sabem o que realmente significa.
Alguém já se perguntou por que se usam tantos estrangeirismos no Brasil e se trabalha tanto para desmerecer um idioma tão lindo, o português?
Enquanto se faz alarde sobre “desenvolvimento sustentável” num mundo chamejante, poucos protestam contra a investida do sistema cultural, econômico e político vigente.
Poderia haver ao menos uma organização popular mais participativa e o atendimento a demandas das classes oprimidas. Um caminho seria a expansão dos conselhos municipais, estaduais e federais sem que se transformem em lobbies.
O trabalho, portanto, expressa não só a necessidade de um salário para pagar as contas e mover indústrias de todo tipo. O trabalho visa à construção de uma coletividade.
O Brasil amiúde não sabe o que fazer com sua pujança.
Tantos talentos ainda se desperdiçam em prol da malversação de dinheiro público e a alocação de recursos em poucas grandes empresas que regulam o mercado brasileiro e preenchem as estantes de supermercados com seus produtos caros, nocivos e supérfluos.
O Brasil é a estrela do momento porque tem 190 milhões de indivíduos que precisam de alimentos, roupas, serviços, etc. Todos eles têm recursos (privados, públicos e assistencialistas) para fazer suas necessidades, ainda que tenham participado de algum programa federal de concessão de créditos. Para completar a cadeia, alguém convence-os da sustentabilidade de seus negócios.
Estamos, todavia, na escala baixa de um circuito internacional de troca de mercadorias onde, a cada ciclo que se esgota, forja-se uma nova estratégia de perpetuação de grandes poderes econômicos.
Empresas que contaminam a atmosfera compram “créditos de carbono” e transformam seus negócios em atividades ambientalmente sustentáveis. Máfias regulam setores inteiros da economia porque dependem do clientelismo entre empresas e agentes públicos que avalam e fiscalizam empreendimentos e concessões de serviços. Descortinou-se a máfia dos taxistas no aeroporto Galeão, Rio de Janeiro, mais uma mácula que deve ser combatida.
O cidadão minimamente informado teria asco do meio que o circunda. Como vive histórias idílicas narradas por quem entende de contos e ficções, tudo parece normal.
A próxima estratégia de convencimento que se mascara na “sustentabilidade” haverá de sofrer reação mais enérgica de quem valoriza o “trabalho” sob risco de esperar julgamento no “Céu” ou no “Inferno”. O planeta, pois, já não pode aguardar. (EcoDebate)

Sustentabilidade e a Responsabilidade Social

A sustentabilidade transformadora da Responsabilidade Social
Como se tem verificado, os verbetes da “Sustentabilidade” e da “Responsabilidade Social (RS)” ganharam espaços significativos na atual conjuntura. De igual modo são consideradas como as palavras de ordens no contexto globalizado, aos poucos esses fenômenos sociais abandonaram os efêmeros conceitos de ações filantrópicas e diminuíram o distanciamento entre a sociedade, a comunidade empresarial e o Estado.
Alguns aspectos ilustram o potencial da RS, mesmo que ainda persistam alguns paradigmas, essa ferramenta obteve uma relevante sustentabilidade transformadora, converteu-se numa atratividade de múltiplos mecanismos para que empresas e a sociedade preenchessem lacunas ignoradas pelo Estado.
Noutro sentido a RS apropriou-se de decisivas providências para que diminuíssem assimetrias socais, sendo que inúmeros projetos sustentáveis ilustram o seu potencial perante fartos exemplos de sucesso.
Quando destacamos a sustentabilidade transformadora da RS, não quer dizer apenas que as empresas apliquem recursos financeiros, isto implica numa amplitude com as causas sociais e na transformação de uma sociedade, portanto, o voluntariado e outras atividades paralelas ajudam imensamente as Organizações Não Governamentais (OGNs) na concretização de seus relevantes objetivos.
Noutras palavras, os fatos provam que o crescimento substancial da RS não pode mais ser comparado como um novo modismo fortalecido pelas estratégias do marketing, ela adquiriu um novo status por causa da aglutinação de forças compostos por instituições, empresas e a sociedade.
Essa nova roupagem resultará numa escalada de avanços da RS, por isso a conscientização desse novo paradigma cooperará e alcançará novos horizontes tanto para o futuro da sociedade, bem como, a sustentabilidade para a própria sobrevivência das empresas atreladas com a Responsabilidade Social. (EcoDebate)

Consumismo ecológico

1. Consumindo desenvolvimento sustentável
A grande questão da discussão ecológica tem sido como conciliar padrões sustentáveis de consumo com uma economia baseada no desenvolvimento acelerado dos meios de produção. Segundo Ruscheinsky [1], esta é uma questão de poder. Se o consumidor está submetido a um sistema econômico insustentável, ele não tem o poder de fazer escolhas que levam a um consumo sustentável. Mesmo que o consumidor seja um agente econômico autônomo, ele só pode sê-lo na medida em o sistema econômico do qual depende valoriza isso. Dizer que o consumo sustentável, ético, responsável e consciente é uma questão de escolha do consumidor é no mínimo insuficiente. Qual o significado desses adjetivos para o consumidor? Ao que parece, o consumidor depende da cultura de consumo para definir o que é sustentável. O consumo sustentável quase sempre se refere ao consumo de tecnologias e produtos considerados mais ecológicos. Então, voltamos à estaca zero. A cultura não pode ensinar aos indivíduos o que é ser sustentável, ético, responsável e consciente, porque ela mesma não sabe o que é isso. Não reconhecemos o que é ser sustentável numa cultura que depende de desenvolvimento econômico e tecnológico acelerado. Usamos essa palavra sem ter noção do que ela significa em termos práticos fora da lógica do consumo.
O discurso ecológico coloca o consumidor como protagonista, como agente multiplicador de ações políticas e privadas que visam a sustentabilidade [2]. Ele deve entender o que motiva o consumo e saber separar necessidades reais de necessidades criadas. Mas como o consumidor fará isso?
2. Sua ecologia vale dinheiro
A questão é que a “consciência ecológica” está sendo propagada pelos meios de comunicação que estão sob controle do sistema econômico. Eles têm um bom motivo para propagar essas ideias supostamente contrárias à cultura vigente. Baseiam-se na crença de que a maximização da produção e a socialização de benefícios podem ser compatíveis com a minimização do impacto ambiental causado pela extração dos recursos naturais. Isto é, usam o critério da eficiência da produção. Esse critério vem do próprio desenvolvimento do capitalismo enquanto racionalização das relações em função da produtividade. Ele parte da crença de que é possível uma harmonia entre bem-estar social e eficiência dos meios de produção. Em outras palavras, o que é propagado hoje como sendo consciência ecológica é uma consciência ideologicamente bem adaptada ao espírito do capitalismo. Ela se apoia na crença de que basta racionalizarmos o uso das tecnologias e dos meios de produção, e tudo ficará bem, como se o problema fosse o modo de produção, e não o modo de vida baseado na produção e no acúmulo de bens materiais. A revolução ecológica é proposta no formato de um novo contrato social, que define limites de exploração e garante o consumo para os desfavorecidos, redistribuindo os meios de produção para a população. Quando se diz que “outro sistema é possível”, o que se quer dizer é: “podemos ser sustentáveis sem abrir mão dos nossos prazeres favoritos”.
Por um lado alguns autores acusam o discurso ecológico de ser dogmático ou fundamentalista, porque parece tratar de pecados ambientais, perdição industrial, apocalipse climático, revelação de uma verdade oculta, conversão subjetiva a um novo paradigma e redenção por meio de novas tecnologias e até mesmo de um novo homem. Por outro lado, os adeptos do movimento azul, que unem a ecologia com as questões econômicas, defendem uma espécie de “ecologia da prosperidade”. Eles parecem estar tão bem adaptados à globalização quanto os pastores da nova espiritualidade evangélica, que também abandonaram a perspectiva tradicional e se voltaram para as possibilidades mundanas de desenvolvimento.
3. Economizando a natureza
Talvez esteja sendo gerada a crença de que se investirmos uma parte do nosso lucro para a preservação da natureza, então nós vamos prosperar ecológica e economicamente. O discurso eco-econômico diz que a preservação da natureza só será possível quando os bens naturais forem contabilizados como parte do mercado. Ou seja, a ecologia só passa a ser possível dentro do discurso econômico. É isso que está acontecendo quando se fala de créditos de carbono, pegada ecológica, capital natural… Estabelecemos uma relação economicamente racionalizada com a natureza enquanto fonte de recursos materiais. O emblema desse eco-capitalismo é o planeta sendo segurado por mãos humanas.
A figura central da revolução ecológica é o consumidor. Quem é o consumidor? O consumidor não é uma pessoa, é um papel assumido por uma pessoa. O papel de consumidor consciente ou do cidadão ambientalmente responsável é encarnado por uma pessoa, mas é apenas mais um estilo de vida, que como qualquer produto cultural, é propagado por uma indústria que explora esse segmento de mercado. A cultura incentiva uma mudança social útil e necessária ao atual estágio civilizatório: substitui o pouco que resta dos valores humanos por direitos e deveres do consumidor. Propaga uma ética da eficiência, que ignora o que é fazer o bem, e se concentra em consumir bem. Transforma toda sabedoria ancestral em sabedoria para consumir bem, que é confundido com viver bem. Atribui-se uma responsabilidade meramente nominal a um sujeito que não recebeu condições para ser responsável. Pede-se que ele crie uma consciência que na prática é rejeitada pela cultura. Provoca uma retro-alimentação de sentimentos de culpa, sem qualquer possibilidade de correção.
Nós não conseguimos distinguir quando estamos sendo o agente ou o paciente da devastação da natureza. Uma imagem usada por Ítalo Calvino descreve essa situação: “O exército dos helenos que serpenteia entre os entre os desfiladeiros das montanhas e os vaus, entre contínuas emboscadas e saques, não mais distinguindo onde passa de vítima a opressor, circundando também na frieza dos massacres pela suprema hostilidade da indiferença e do acaso, inspira uma angústia simbólica que talvez só nós possamos entender” [3]. Nesta situação, tanto faz avançar ou desistir, ambas as escolhas não oferecem qualquer sentido para além do presente.
O consumo se tornou entretenimento, assim como a própria crítica ao consumismo. Mas o consumo ainda sustenta a economia, que se tornou dependente do espetáculo. Quando se reduz o crédito se diminui o consumo, e isso gera crise. Para evitar o colapso, é preciso injetar dinheiro como se fosse uma droga estimulante. Eles irão emprestar dinheiro para que você gaste o que não tem naquilo que não precisa, porque sem aumentar as suas dívidas não há desenvolvimento econômico, e sem isso não há investimento, e sem investimento não há lucro, e sem lucro a competitividade diminui e empresas tendem a falir, levando embora o seu emprego e sua possibilidade de consumo. A cultura apresenta aquele que não consome como avarento, e o que consome como um ser superior (um Net, um Ligador, etc…) reforçando assim uma representação que tem o objetivo de gerar coerção social [4].
4. Consumose é uma doença contagiosa
Deveríamos considerar seriamente o impacto psicossocial do ato aparentemente inocente de levar uma criança às compras, ao shopping ou ao supermercado. Lá ela estará exposta a um ambiente repleto de agentes simbólicos infecciosos, e sem proteção alguma ela será um alvo fácil. De fato, ela é o alvo mais visado pelas campanhas publicitárias, porque sua resistência à indução de desejos de consumo é muito baixa. É comum ver pais brigando com seus filhos enquanto estes berram e esperneiam por causa de um produto, como se não valesse a pena viver sem poder consumir aquele produto. Esta é exatamente a ideia que foi introduzida nas mentes deles por meio da propaganda. Os publicitários montam um esquema astucioso para diminuir nossa capacidade de pensar, ainda que eles mesmos não percebam que fazem isso. Nós não deveríamos expor crianças a um ambiente que as adoece, mas sendo isso quase inevitável, devemos pelo menos prepará-las para isso. Elas não são culpadas por sentirem esse desejo avassalador de consumir, pois esse ambiente foi criado para gerar esse comportamento obsessivo. Nós adultos só nos comportamos melhor porque já nos acostumamos, pelo excesso de exposição ao agente infeccioso. Este tipo de ambiente produz desorientação. Ao pisar numa loja já estamos consumindo valores.
O ambiente de um grande supermercado ou shopping é construído para atingir os pontos fracos da psicologia humana. A cultura consumista fica o tempo todo sussurrando nos nossos ouvidos a crença de que você é o que você compra. Aceitando essa crença, o consumo adquire um significado existencial. Uma pessoa pode passar a literalmente viver para e pelo consumo, perdendo aos poucos as características morais que a tornam humana.
5. Você é o produto
Pouca atenção tem sido dada para a saúde psicológica das pessoas em relação ao consumo. Um dos “sonhos de consumo” das pessoas é se tornar um modelo de consumo para os outros. É isso que o marketing pessoal sugere: venda-se. As pessoas precisam querer ser você. Mas o efeito de ser um produto é extremamente deturpador. Uma análise das biografias de pessoas que tiveram essa experiência é suficiente para revelar isso. Ainda assim, pouca atenção é dispensada para o vetor de propagação dessa doença: as personalidades famosas. A vida para o consumo, ou a vida para ser consumido, é considerada boa por causa da abundância de consumo, como se nada pudesse ser pior do que não poder consumir.
As pessoas submetidas a uma rotina de estrela estão perdendo suas características humanas, porque se tornam produtos. Os seres humanos não foram feitos para a fama. Temos que pensar nos danos que estão sendo provocados a todos que estão e anseiam estar sob as luz dos holofotes e flashs da câmera. Não para tentar obrigar as pessoas a se afastar dessas coisas, o que de todo modo seria impossível, mas para não perpetuar um discurso que naturaliza essas coisas, que não dá discernimento sobre a gravidade das doenças que nascem nesse meio. Repensemos sobre o suporte que damos, e o modo como esperamos ansiosos para poder consumir pessoas. Consumimos a beleza de pessoas que são modelos de beleza, e nesse processo rejeitamos a nós mesmos [5].
6. Produzir para consumir para produzir para consumir…
Embora o trabalho seja visto como algo que dignifica o homem, a maior parte do trabalho visa cobrir gastos fúteis, sejam seus ou do seu empregador, e não a subsistência do homem. O que significa que a maior parte do trabalho dignifica apenas a insensatez humana, pois é a parte que alimenta o consumismo.
O consumo invade todos os aspectos da sociedade. Nós passamos a consumir pessoas ao invés de nos relacionar com elas. Consumimos ideias ao invés de aprender. Nós nos aproximamos dos outros e demonstramos nosso amor por meio do consumo. Nossa memória é significada pelos produtos que consumimos. Enfim, todas as relações passam a ser mediadas pelo consumo. A produção e o consumo passam a dar sentido às práticas e representações sociais. O consumo passa a ser uma necessidade simbólica que dá coesão e ordenação social. Ainda que se tente naturalizar o consumo dizendo que sempre consumimos, o consumo nunca teve o significado que está adquirindo agora.
Mas o aumento do consumo não deve ser encarado como um problema que pode ser resolvido pelo consumo ecologicamente correto. Substituir um tipo de consumo por outro mais moderado não será suficiente. A ecologia continua sendo uma perspectiva ajustada a uma cultura que defende a crença, expressa por Benjamin Friedman, de que o crescimento econômico é necessário para manter a paz social [6]. Se os ricos param de crescer, o sistema reage automaticamente, e os pobres estão na parte mais vulnerável da zona de impacto. É uma armadilha muito engenhosa. O sistema é construído para depender da aceleração do fluxo. Por isso alguns capitalistas defendem seu próprio crescimento como possibilidade de gerar emprego e investir no crescimento do país como um todo. Se nós paramos de circular dinheiro cada vez mais rápido, a situação poderá ficar pior. Quando você corre montanha abaixo criando avalanches, parar de correr deixa de ser uma opção segura. Ou você se torna parte da avalanche, ou é soterrado por ela. Decrescimento só é uma opção enquanto puder dinamizar ainda mais os negócios. Só vale a pena se ainda tiver algo a ser ganho [7]. Nessa sociedade, é meio difícil fazer alguma coisa funcionar fora da perspectiva da vantagem pessoal. E, no entanto, é somente fora dessa perspectiva que podemos resolver o problema do consumismo.
7. A demanda por ecologia cresce junto com seu consumo
A “civilização do ter” parece querer gerar a “civilização do ser” a partir de si mesma, isto é, tratando o ser como uma regulação do ter. Mostrar o quanto você é ecologicamente correto se tornou algo necessário à sobrevivência da sua imagem social. A ecologia se uniu ao desenvolvimento pessoal. A mudança é quanto à base da economia. Agora falamos de energia, ao invés de falar apenas de matéria. As coisas mudam para continuar iguais.
Pode ser que nesse caminho cheguemos ao trans-humanismo, uma transição das limitações do humano para o pós-humano, nem sempre no sentido biotecnológico. Se isto ocorrer, entraremos numa nova era ecológica, mas também numa nova era de degradação da natureza. Dessa vez, o alvo será a natureza da vida no seu sentido mais profundo. Fechamos uma porta e abrimos outra. Em nome da eficiência, o homem pode colocar em risco aquilo que tem de mais precioso.
A conclusão é que o problema do nosso modelo de produção e consumo não é que vivemos num planeta finito, mas que este modelo é alimentado por disposições mentais inerentemente insustentáveis. O planeta poderia ter recursos infinitos, e o mesmo problema surgiria: o crescimento da produção levaria ao consumismo, que por sua vez reduziria a vida ao consumo. Este modelo ameaça a vida com seu sucesso ou com seu fracasso. De certa forma, reconhecer que o planeta é finito pode ser muito útil para impedir que a força cega do mercado se destrua rápido demais pelo excesso de crescimento desgovernado. Mas essa consciência por si só não muda nossa disposição mental, apenas nos força a mudar os modos de apropriação para que o processo continue. Racionar os recursos não é o mesmo que sustentabilidade.
É muito fácil dizer que precisamos de uma nova cultura. Mas quando a cultura se torna um produto, e a mudança ocorre por meio de uma produção em massa de novas mentes, então a civilização venceu. Seria preciso mudar aquilo que produz a cultura em primeiro lugar. E voltaríamos ao mesmo problema. Essas coisas não se mudam sozinhas, e dizer que a educação tem que mudar é no fundo dizer que não temos a menor ideia de como mudar. A solução não pode ser simplesmente educar melhor. Educar em que sentido, se os professores também estão inseridos no processo? Quem vai educar os educadores? Não nos é apresentado nenhum meio viável para essa mudança quando tudo que se diz é: “Temos que preservar o meio-ambiente”. Se o problema é encontrar um modo ecológico de ganhar todo o dinheiro que é ganho com a devastação da natureza, então se trata apenas de uma questão de substituir os recursos de modo preservar o sistema econômico, e se possível o ecossistema. O problema central não deveria ser educar para preservação do meio ambiente enquanto fonte de recursos que alimentam a civilização, mas sim a preservação da natureza no seu sentido original. A degradação a partir da ação humana não poderia acontecer sem a degradação do homem e sem a degradação do conceito de natureza. Não é com base na economia que poderemos restaurar isso.
Não se trata de afirmar simplesmente que “temos que nos tornar a mudança que queremos ver no mundo”, mas que temos que perceber que o modo como o mundo está mudando está afetando o modo como nós estamos mudando. O que, especificamente, eu deveria me tornar e que mudança eu quero ver no mundo? Aparentemente, continuamos consumindo diversas visões de mundo que não encontram um consenso sobre o problema humano. Elas podem ser coerentes com uma cultura que observa o problema do ponto de vista biológico, econômico, político, material ou pragmático, mas quando se fala de ser humano, o foco fica restrito às condições materiais para a manutenção da civilização. Se esse foco não mudar, não iremos muito longe.
[1] Citado por Marina Mezzacappa. Outro sistema é possível?
http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=36&id=432
[2] Mais recentemente, a publicidade tem jogado toda essa responsabilidade nos agentes mais ingênuos, as crianças. Misturando fantasias de preservação com fantasias de consumo, esta estratégia é provavelmente a mais perversa forma de publicidade.
http://www.publicidadeinfantilnao.org.br
[3] Citado por Carlos Vogt. O consumidor e o consumido.
http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=36&id=421
[4] Entre os muitos exemplos, destaca-se o adulto sem carro, sem casa própria e sem emprego fixo. Ainda que ele possa viver assim, continua sendo considerado o mais patético dos seres humanos, sendo prejudicado onde mais dói: nas relações afetivas.
http://www.pavablog.com/2010/10/05/patetico
[5] Estas ideias não são propriamente minhas, mas a reproduzo com base no que aprendi com o autor do seguinte texto, Anderson Clayton Pires.
http://www.ultimato.com.br/conteudo/sociedade-do-glamour-e-etica-da-verdade
[6] Citado por Ademar Ribeiro Romeiro. Crescimento econômico e meio ambiente.
http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=36&id=435
[7] E mesmo quando uma pessoa como Bill Gates doa 30 bilhões de dólares, isso não significa decrescimento nem desaceleramento da economia. (EcoDebate)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Poluição prejudica o coração mais que a cocaína

Poluição seria mais prejudicial ao coração que cocaína
Segundo belgas, exposição a tráfego intenso de veículos é razão principal
Poluição pode provocar ataques cardíacos
“Entre os possíveis desencadeadores de ataques no coração, a cocaína é a mais provável para desencadear um evento em um indivíduo. A poluição do ar, porém, apresenta um maior efeito em larga escala, já que mais pessoas estão expostas a ela”, escreveram os pesquisadores.
A poluição do ar pode provocar mais ataques cardíacos do que o uso de cocaína, segundo descoberta publicada em 24/02/11 no periódico médico The Lancet. Fatores como stress, uso contínuo de maconha e infecções respiratórias também podem provocar ataques no coração em diferentes graus, mas a poluição do ar, especialmente para aqueles que estão expostos ao tráfego pesado de veículos, é a principal culpada.
Segundo o autor do estudo Tim Nawrot, da Universidade de Hasselt, na Bélgica, os resultados sugerem que problemas como esse, que afetam a vida de toda a população, devem ser levados mais à sério pelas autoridades. “Médicos costumam olhar individualmente para os pacientes. Mas o fato de não apresentarem fatores de risco não exclui a possibilidade de ataque cardíaco. Se esse é um fator prevalente na população, a relevância para a saúde pública é maior”, disse Nawrot.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a poluição do ar é “um sério risco ambiental para a saúde”. Estima-se que, em todo o mundo, ela seja responsável por 2 milhões de mortes prematuras a cada ano.
Para chegar aos resultados, o grupo de Nawrot combinou dados de 36 estudos independentes e calculou o risco relativo de ataques cardíacos a partir de vários fatores diferentes. A pesquisa mostrou que a maior taxa foi encontrada entre as pessoas expostas ao tráfego intenso de veículos, seguida de excesso de exercício físico, bebida alcoólica, café e de fatores como atividade sexual, raiva, uso de cocaína, maconha e problemas respiratórios. Os pesquisadores ressaltaram que fumantes passivos não foram incluídos no estudo.
“Entre os possíveis desencadeadores de ataques no coração, a cocaína é a mais provável para desencadear um evento em um indivíduo. A poluição do ar, porém, apresenta um maior efeito em larga escala, já que mais pessoas estão expostas a ela”, escreveram os pesquisadores.
Crianças
Outro estudo, conduzido por pesquisadores de Taiwan e publicado no periódico Pediatrics, também chama a atenção para os riscos da poluição atmosférica. De acordo com o estudo, pequenas quantidades de poluentes como o ozônio e material particulado (minúsculas partículas de fumaça produzida pelos automóveis) reduzem a capacidade respiratória dos pulmões das crianças.
Segundo a pesquisa, mesmo um pequeno aumento dessas partículas no ar seria suficiente para reduzir em 0,16 litro a capacidade pulmonar de uma criança de 10 anos, cujo pulmão tem capacidade entre dois e três litros. (veja.abril)

Agricultura é aliada na redução de gases estufa

Projeto da FAO avaliará o potencial da atividade na mitigação dos efeitos climáticos. Brasil contribui com incentivos a técnicas que equilibram produção e conservação ambiental
A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) trabalha na produção de um banco de dados mundial com informações sobre a emissão de gases de efeito estufa lançados pela agricultura e seu potencial para minimizar o aquecimento global. O Brasil já está fazendo a sua parte ao incentivar o uso de tecnologias que reúnem eficiência produtiva e conservação ambiental. O programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC), lançado em 2010, permite que o produtor rural tenha acesso a financiamento a um custo baixo (5,5% de juros anuais) para investir em práticas como recuperação de pastagens e plantio direto que ampliam a produtividade da lavoura e, ao mesmo tempo, reduzem a emissão dos gases estufa.
“A nova agricultura colocada em prática está voltada para diminuir a quantidade de gases poluentes e tem como consequência um clima menos quente no mundo”, destaca o coordenador da Assessoria de Gestão Estratégica do Ministério da Agricultura, Derli Dossa. A atuação do Brasil está alinhada com o Projeto de Mitigação das Mudanças Climáticas na Agricultura (Mitigation of Climate Change in Agriculture - MICCA) da FAO. O organismo da ONU utilizará os dados sobre as emissões para revertê-los em oportunidades de amenizar o aquecimento global por meio de técnicas agrícolas adequadas a essa realidade.
No início da semana, a FAO divulgou que o Projeto MICCA receberá apoio de US$ 5 milhões dos governos da Noruega e Alemanha. O objetivo do projeto é tornar pública a quantidade das emissões de todos os países do mundo, facilitando, o acesso às informações por representantes governamentais e agricultores. A FAO também usará as informações como ferramenta na operação de linhas de financiamento internacionais para projetos de mitigação e redução das emissões provenientes da agricultura e de aumento da quantidade de carbono sequestrado nas explorações agrícolas.
Experiência brasileira
O Brasil ocupa posição estratégica no combate ao aquecimento global. “A aposta em projetos sustentáveis na área da agricultura e pecuária, como o programa ABC, posicionou o Brasil entre os países mais adiantados no alcance das metas firmadas na 15ª Conferência das Partes da Convenção do Clima (COP 15)”, explica o coordenador do ministério, Derli Dossa.
O ABC é uma das principais ações adotadas pelo Ministério da Agricultura para reduzir a emissão de gases de efeito estufa. O programa oferece R$ 2 bilhões em financiamento a produtores rurais e promove estudos e pesquisas, por meio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Apoia a capacitação profissional para facilitar a difusão de práticas como plantio direto na palha, fixação biológica de nitrogênio, recuperação de pastagens degradadas e o sistema Integração Lavoura-Pecuária-Florestas (ILPF), que contribuem para a preservação das áreas de produção.
O programa destina-se aos produtores rurais de todos os biomas brasileiros. Nos próximos dez anos têm como meta deixar de emitir 165 milhões de toneladas equivalentes de CO2.
Ações do ABC
Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) - O programa Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) está no foco da chamada “agricultura verde”. O sistema combina atividades agrícolas, florestais e pecuárias, promovendo a recuperação de pastagens em degradação. De acordo com o Ministério da Agricultura, a área utilizada nesse sistema pode ser aumentada em quatro milhões de hectares nos próximos dez anos. A previsão é que o volume de toneladas de dióxido de carbono (CO2) diminua entre 18 milhões e 22 milhões no período.
Recuperação de pastagens degradadas - Com o incentivo do programa ABC, a meta do governo é ampliar, nos próximos dez anos, a área atual de pastagens recuperadas de 40 milhões de hectares para 55 milhões de hectares. O maior uso da tecnologia vai proporcionar, no período, a redução da emissão de 83 milhões a 104 milhões de toneladas equivalentes dos gases de efeito estufa. A recuperação de terras degradadas é uma técnica que funciona há mais de 20 anos e pode ser aplicada em qualquer bioma brasileiro. É considerada fundamental porque representa a permanência do produtor na atividade e garante a conservação dos ecossistemas.
Plantio Direto - No uso do plantio direto, estima-se a ampliação da área atual em oito milhões de hectares, de 25 milhões para 33 milhões de hectares, nos próximos dez anos. Esse acréscimo vai permitir a redução da emissão de 16 milhões a 20 milhões de toneladas de CO2 equivalentes. Além de promover o sequestro de dióxido de carbono da atmosfera, o plantio direto é exemplo de agricultura conservacionista, mantendo a qualidade dos recursos naturais, como água e solo.
Plantio de Florestas - O plantio de florestas comerciais, como eucalipto e pinus, aumenta o sequestro de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera. A intenção do governo é aumentar a área de florestas, até 2020, de seis milhões de hectares para nove milhões de hectares. Isso permitirá a redução da emissão de oito milhões de toneladas a dez milhões de toneladas de CO2  equivalentes, no período de dez anos.
Fixação Biológica de Nitrogênio - Apesar de o produtor rural utilizar a adubação mineral para o fornecimento de nitrogênio às culturas agrícolas, esse material costuma ser caro e seu uso inadequado pode produzir impactos ambientais negativos. A técnica de fixação biológica de nitrogênio tem como base o uso de plantas leguminosas, associado à cultura comercial, que podem suprir a necessidade de minerais necessários como adubação. As bactérias fixadoras de nitrogênio nas raízes dessas leguminosas também atuam no interior de plantas, como a cana-de-açúcar, cereais e gramíneas forrageiras. Outra alternativa para o agricultor é o uso de adubos verdes antes do cultivo da cana-de-açúcar, no momento da reforma do canavial. (noticiasagricolas)

Poluição provoca mais ataques cardíacos

Poluição do ar provoca mais ataques cardíacos do que cocaína
A poluição do ar causa mais ataques cardíacos do que o uso de cocaína. Segundo estudo divulgado em 24/02/11, também provoca um risco maior de infarto do que o álcool, o café e exercícios físicos.
Sexo, raiva, uso de maconha e infecções respiratórias também podem provocar ataques cardíacos em diferentes graus, de acordo com os pesquisadores, mas a poluição do ar, especialmente durante o trânsito, é a principal culpada.
Os resultados, publicados na revista "Lancet", sugerem que os fatores que afetam a população em geral, como o ar poluído, devem ser levados mais a sério e colocados em contexto ao lado de riscos mais elevados ao coração, mas relativamente mais raros, como o uso de drogas.
Tim Nawrot da Universidade de Hasselt, na Bélgica, que liderou o estudo, disse que esperava que suas descobertas também incentivassem os médicos a pensar com mais frequência sobre os riscos do nível populacional.
"Os médicos estão sempre olhando individualmente para os pacientes --e os fatores de baixo risco podem não parecer importantes para o indivíduo, mas se eles são prevalentes na população, então passam a ter uma relevância maior para a saúde pública", disse ele em entrevista por telefone.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) descreve a poluição do ar como "um sério risco ambiental para a saúde" e estima que cause cerca de 2 milhões de mortes prematuras a cada ano em todo o mundo.
A equipe de Nawrot combinou dados de 36 estudos distintos e calculou o risco relativo representado por uma série de causas de ataques de coração e sua fração atribuída à população.
O maior risco foi a exposição ao trânsito, seguido por exercícios físicos, álcool, café, poluição atmosférica, e então raiva, sexo, uso de cocaína, maconha, tabagismo e infecções respiratórias.
"Das causas que levaram a um ataque cardíaco estudadas, a principal é a cocaína, mas o trânsito tem um efeito maior na população pois as pessoas estão mais expostas a ele", escreveram os pesquisadores.
Um relatório publicado no ano passado constatou que a poluição do ar em muitas grandes cidades na Ásia ultrapassam as diretrizes de qualidade do ar da OMS e que os poluentes tóxicos resultam em mais de 530.000 mortes prematuras por ano. (noticias.bol)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Mudança do clima causa enchentes?

São Paulo alagou mais uma vez nesta semana, mas esta foi muito pior porque eu estava lá.
Todos somos rápidos em concluir que as chuvas estão mais intensas por causa das alterações do clima. Já escrevi algumas vezes neste espaço que não havia relação confiável entre a mudança global e alterações locais, tais como a chuva paulistana.
O planeta é um sistema bem complicado e o aumento da temperatura global não implica obrigatoriamente em chuvas locais mais intensas. As nevascas nos EUA, por exemplo, fizeram com que um Senador Republicano ignorante construísse um Igloo em Washington, que ele chamou a “Casa de Al Gore”. Assim como uma única nevasca não é prova da inexistência de efeito estufa, também não serão algumas chuvas a mais que serão prova conclusiva que com o aquecimento global teremos mais enchentes.
O cuidado científico pode parecer preciosismo, mas é importante porque gente poderosa tem gasto muito dinheiro para vender a ideia que “Há dúvidas se o clima está mudando”. Basta um passinho em falso para este povo colocar sua máquina de mídia associada a pesquisadores vendidos dizendo “Estão vendo como TUDO está errado??!”
Nesta semana mudei de opinião e não foi por ter presenciado a versão aquática do inferno. Um estudo publicado nesta semana na revista NATURE desenvolveu um modelo de clima mais acurado que os anteriores, e ele relaciona eventos climáticos locais com a alteração global do clima.
Há uma década que tem ocorrido mais eventos extremos de chuva no Hemisfério Norte, mas só agora foi possível ser conclusivo, rodando milhares de simulações de clima em alta resolução e comparando condições com e sem o efeitos estufa. O resultado é que a probabilidade de eventos extremos dobrou. O que era considerado um evento com probabilidade de ocorrer a cada 100 anos, irá agora ocorrer a cada 50 anos.
Por isso, eu acho que você deve ficar alguns anos longe das ações das seguradoras. Ao fim, somos nós que arcaremos com o aumento de enchentes, mas elas sofrerão prejuízo enquanto o preço dos seguros não sobe para cobrir o aumento das enchentes.
Estes estudos serão os precursores de muitos outros que irão debruçar-se sobre fenômenos locais como o derretimento da neve no Oeste Norte-Americano, a seca no Sul Africano e Europa e, espero, a concentração de chuvas na área da Floresta Atlântica, onde se soma um efeito global de alteração climática ao desmatamento local. Para isto, temos estrelas em ascensão como o Agroclimatólogo Marcelo Aguiar, recém chegado à Universidade, mas já prenhe de novas ideias. (EcoDebate)

Seca deve aumentar em países africanos

Mudanças climáticas: Seca deve aumentar em países africanos
O aumento na frequência dos períodos de seca observados no leste da África ao longo dos últimos 20 anos deve continuar, à medida que as temperaturas globais aumentam. Um estudo da Universidade da Califórnia em Santa Barbara (USGF) publicado na revista especializada Climate Dynamics indicou que 17,5 milhões de pessoas encontram-se sob o risco real de sofrer as consequências das mudanças climáticas no Quênia, na Etiópia e na Somália, países que já enfrentam uma grave crise de produção alimentícia.
A pesquisa, financiada pela universidade e pela Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional, tem como objetivo identificar áreas potencialmente ameaçadas pela seca e pela fome para criar programas não só de assistência direta (doação de alimentos), mas também de desenvolvimento agrícola e de conservação ambiental e de recursos hídricos. “Apesar de a seca ser uma das razões para a crise nos estoques de alimentos, o problema é exacerbado pela estagnação no desenvolvimento agrícola e no contínuo crescimento populacional”, disse ao Correio o coautor do estudo Chris Funk, cientista da USGF.
O aquecimento do Oceano Índico tem causado uma drástica diminuição de precipitações no leste africano, um fenômeno que, de acordo com a pesquisa, pode ser atribuído às mudanças climáticas. “Com base em predições do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês), sabemos que a temperatura global vai continuar a aumentar, e nós antecipamos que a média de chuvas no Quênia e na Etiópia vai continuar a diminuir ou, pelo menos, manter-se abaixo das médias históricas”, diz Funk. “A diminuição das precipitações no leste africano é mais pronunciada na estação de março a junho, quando, normalmente, caíam chuvas fortes”, constata.
Com o aumento da temperatura do planeta ao longo do último século, o Oceano Índico esquentou mais rápido do que se previa. Como resultado do ar quente e úmido, formam-se nuvens pesadas que resultam em chuvas. Mas, quando o ar sobe novamente, ele é direcionado para o oeste, provocando seca na Etiópia e no Quênia, que ficam na parte leste do continente.
O principal autor do estudo, Park Williams, professor da USGF, explicou ao Correio que, para chegar a essa conclusão, os cientistas compilaram dados sobre temperatura, velocidade do vento e precipitações para checar qual variável estava intimamente ligada a mudanças climáticas na região do Indo-Pacífico. “A maior parte do aquecimento do Oceano Índico pode ser atribuída a atividades humanas, particularmente aos gases de efeito estufa e às emissões de aerossóis”, sustenta. (EcoDebate)

Mudança Climática X Conflito Social

Mudança Climática e conflito social estão associados?
Eventos climáticos extremos podem ter tido efeito importante nos levantes populares no Oriente Médio e Norte da África? A mudança climática já está afetando as relações sociais?
A questão pode parecer uma dessas vias forçadas para alertar sobre a mudança climática. Mas não é. É uma preocupação relevante e essa conexão já vem sendo estudada por cientistas das mais diversas áreas, climatologistas, ecologistas, sociólogos, economistas. A pergunta é mais complexa do que ela aparenta à primeira vista. Ela indaga sobre duas relações nada triviais: entre eventos climáticos extremos e mudança climática e entre anomalias climáticas e conflito social.
Os cientistas resistem sempre a atribuir a emergência de eventos climáticos extremos específicos à mudança climática. Argumentam, com razão, que não há base científica para associar um evento em particular ao fenômeno global e de longo prazo da mudança climática. Mas o climatologista Kevin Trenberth, diretor da Seção de Análise Climática do Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica, nos Estados Unidos, defendeu recentemente uma visão diferente desse problema, conhecido na ciência climática como “o problema da atribuição”. Em entrevista exclusiva ao editor do blog Climate Progress, o físico Joseph Romm, Trenberth disse que: 
Os cientistas sempre começam com a afirmação de que não se pode atribuir um evento isolado à mudança climática. Mas ela tem uma influência sistemática sobre todos esses eventos climáticos atuais, segundo ele, por causa do fato de que há mais vapor d’água circulando na atmosfera do que se tinha, digamos, trinta anos atrás. É uma quantidade extra de 4% de vapor d’água. Ele aumenta a força das tempestades, dá mais umidade para essas tempestades e é ruim que o público não veja isto como uma manifestação da mudança climática. A perspectiva é que esse tipo de coisa só aumentará e piorará no futuro.
A quantidade de gases estufa na atmosfera, segundo a maioria dos cientistas, já tem um efeito de aceleração do aquecimento da Terra. Portanto, a mudança climática decorrente deve ser vista como um processo em curso com tendência de agravamento ao longo do tempo. Ou seja, é de longo prazo, mas as coisas não acontecem todas no futuro de uma vez só. Vão acontecendo progressivamente, com aumento de frequência e intensidade.
E qual a relação com os fatos no Oriente Médio e na África do Norte?
Tivemos um período atípico de grande quantidade de eventos climáticos extremos em 2010 e no início deste ano. Secas, enchentes, ondas de calor e frio, tempestades intensas, nevascas, queimadas. Esses eventos afetaram negativamente a produção agrícola mundial em todas as partes do mundo: os casos mais exemplares foram no Casaquistão, na Rússia, no Canadá, na Austrália, nos Estados Unidos, na China e no Brasil. O resultado foi uma forte alta dos preços internacionais das commodities agrícolas e inflação de preços de alimentos. Uma inflação climática.
O blog Climate Progress organizou uma série de referências de cientistas e da imprensa a essas relações. Entre elas, estudo dos economistas Rabah Arezki, do FMI, e Markus Brückner, da Universidade de Adelaide na Austrália. Eles estudaram o efeito de variações nos preços internacionais de alimentos sobre as instituições democráticas e conflitos internos em mais de 120 países, entre 1970 e 2007. Essa análise mostra que existe uma clara relação para os países de baixa renda: observa-se a deterioração das instituições democráticas e o aumento da incidência de conflitos de rua, demonstrações anti-governo, e movimentos de massa.
Por que nos países de baixa renda? Nos países de renda alta essa relação não é significativa. Porque quanto menor a renda do país, maior a participação dos alimentos no orçamento doméstico e, portanto, maior a sensibilidade da população a elevações fortes do preço da comida.
Estudos históricos mostram que há relação entre mudança climática e colapso social. Quebras de safra e consequente elevação dos preços de comida são causas frequentes de levantes populares e revoluções na história da sociedade moderna e contemporânea. A história do próprio Egito registra casos históricos de conflitos associados ao preços dos grãos (infelizmente não tenho cópia digital deste artigo). Na Índia, também foram muitos os episódios. O mais notável talvez tenha sido a "a revolta dos grãos" de 1918, provocada por desabastecimento e elevação de preços dos grãos resultante de monções com chuvas excepcionalmente fracas.
Em vários desses episódios históricos a relação era direta: a elevação dos preços dos alimentos causava a revolta. No caso atual, as causas são outras. Para entender o que se passa no Egito, por exemplo, é preciso distinguir entre o que causa o descontentamento profundo e o que detona a revolta. O que causou o descontentamento foi a própria tirania. Um governo autocrático, um ditador no poder por 30 anos, uma administração corrupta. Repressão, censura, prisões arbitrárias, tortura. No plano social, muita pobreza, imensa desigualdade de renda e de riqueza, falta de perspectiva de mobilidade social para os jovens. Nos últimos anos houve várias manifestações de protesto, todas duramente reprimidas, mas nenhuma do porte da revolta de massas que começou no dia 25/01/11.
O que detona o levante das massas? Uma conjuntura, isto é, uma convergência de fatores, antes dissociados, que se encontram e formam “a gota d’água”, provocam a virada, o tipping point, que levam um protesto como outros inúmeros se transformar em explosão de descontentamento geral, em revolta incontrolável e espontânea da massa.
No Egito houve fatores econômicos, políticos e aceleradores importantes que criaram essa conjuntura. O econômico foi a elevação dos preços dos alimentos, que atingiu duramente as famílias mais pobres. A subida dos preços do petróleo, moradia e educação, bateu no orçamento da classe média. Esse choque de preços ocorreu em uma economia debilitada, na qual o desemprego de jovens é muito alto. O desemprego agrava uma situação de baixa mobilidade social, anulando as perspectivas de futuro dos jovens. Em alguns casos, jovens com qualificação sofrem descenso social, sendo forçados a trabalhar em setores de baixa qualificação. O desespero dos jovens se transmite facilmente para os pais e famílias.
O fator político foi a notícia de que o filho de Hosni Mubarak, Gamal Mubarak, seria seu sucessor, provavelmente já como candidato nas eleições de cartas marcadas previstas para setembro. A possibilidade de uma dinastia Mubarak provocou enorme rejeição, em um país de passado dinástico.
O quadro sócio-econômico no Egito não é muito diferente do que se observa nos outros países. Na Tunísia, no Sudão, mesmo na Arábia Saudita, há tirania, muita pobreza, desigualdade de renda e riqueza, desemprego de jovens e elevação de preços de alimentos. Ouvi recentemente entrevista de um dos príncipes sauditas, na CNN, falando que a situação em seu país é diferente, mas que há, realmente, insatisfação com o aumento de preços dos alimentos e da moradia. O governo aumentou os salários para que pudessem absorver o custo adicional. A evidência mostra que subsídios e aumentos salariais para compensar os efeitos da inflação alimentar têm efeito temporário e acabam por realimentar os preços.
No Egito, o aumento dos preços dos alimentos foi muito forte, como se vê no gráfico abaixo
Os preços dos alimentos subiram 40% e os de moradia e educação, mais de 10%. Os pobres são sensíveis à inflação nos alimentos e na moradia. A classe média à inflação na educação, na moradia e nos combustíveis.
O que acelerou a revolta e permitiu que se transformasse em um movimento de massa, muito rapidamente? As mídias e redes sociais e o efeito-demonstração do levante na Tunísia, que se propagou por essas vias digitais. É evidente que as mídias e redes sociais não fazem revoluções. Elas são uma revolução na forma como nos comunicamos e trocamos informação. Nisso têm sido revolucionárias. Mas, na sociologia dos conflitos sociais seu papel é de acelerador e transmissor, permitindo, por exemplo, o contágio inicial, que depois passa a se dar por contato físico, nas ruas e nas praças, e na propagação de eventos que acabam tendo o efeito de aumentar a propensão à ação.
Além disso, podem ter o efeito de prolongar o contágio. A sociologia já decifrou como terminam os processos por contágio, como os arrastões, por exemplo: quando não há mais pessoas a contagiar e a cadeia se quebra. As redes e mídias sociais – no caso do Egito principalmente o SMS – trazem mais pessoas para o movimento e realimentam o contágio.
Não é por acaso que essas revoltas ocupam as ruas e praças das cidades.  O meio urbano é muito mais propício ao contágio das massas. O crescimento da população com acesso à telefonia celular dá o principal instrumento de contágio. Veja os gráficos abaixo para o Egito e a Tunísia.
Mas a internet teve importante papel de manter o mundo informado sobre o que se passava no Egito, provavelmente evitando um banho de sangue, e na comunicação entre os egípcios. E  por isso o governo fechou o acesso à Web.
Nada é simples nesse processo. Estamos falando da convergência de processos complexos no sistema climático, no sistema social e na sociedade global. Essa convergência só aumentará nos próximos anos e décadas. Viveremos mais turbulência climática e social, no meio de uma revolução científica e tecnológica sem precedentes. (EcoDebate)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Tragédia na serra fluminense só daqui a 500 anos

Chuva que atingiu serra fluminense deve demorar 500 anos para se repetir, mostra estudo
Especialista responsável pelo levantamento aponta que estragos no Estado foram consequência de uma combinação de fatores.
A chuva que castigou a região serrana fluminense há pouco mais de um mês e causou a morte de mais de 900 pessoas foi tão rara que pode levar cerca de 500 anos para ocorrer novamente. A conclusão faz parte de um estudo da Coordenação de Programas de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ). O documento já foi encaminhado à Presidência da República e esta semana será entregue ao governo do Rio de Janeiro.
De acordo com o professor Paulo Canedo, especialista em hidrologia da Coppe e responsável pelo levantamento, os estragos observados na região foram consequência de uma combinação de fatores. Ele explicou que primeiro houve uma chuva não muito forte, mas de longa duração, que deixou o solo encharcado e instável. Em seguida, uma chuva frontal, decorrente de uma frente fria, incidiu sobre o Sudeste e particularmente sobre a serra, causando uma série de desastres. Ao mesmo tempo, uma chuva fortíssima atingia alguns pontos localizados, proveniente de uma formação de nuvens chamadas cúmulos-nimbos, que são de grande intensidade.
– É a famosa chuva de verão, quando ocorre aquela pancada. O problema é que ela dura no máximo dez, 15 minutos. Na serra, durou quatro horas e meia, o que é absolutamente singular. Ela se formou de maneira estupidamente forte, com nuvens de 14 quilômetros de altura. Conforme ela desabava, ia se formando outra. Foi como se tivessem caído 18 tempestades de verão seguidamente, com um enorme poder de destruição – afirmou.
Segundo o especialista da Coppe/UFRJ, o fenômeno teve uma agravante: a formação de barragens naturais nos rios com o material – imenso volume de terra, enormes pedras, árvores, entre outros – que deslizou das encostas e foi arrastado pela tromba d'água. Segundo ele, essa barragem não aguentou o acúmulo da água proveniente da chuva “astronomicamente grande” e se rompeu.
– Quando isso acontece, cria-se uma enorme onda de choque com uma força avassaladora. Para se ter ideia, na 2ª Guerra Mundial, os países procuravam criar uma onda de choque desse tipo para destruir os inimigos. Eles dinamitavam barragens de concreto armado porque, com isso, a força da água destruía tudo o que estivesse pela frente – acrescentou.
Paulo Canedo destacou que diante desse cenário não seria possível evitar uma tragédia na região. Ele defende, no entanto, que algumas medidas preventivas poderiam ter reduzido o número de vítimas.
– Contra um ataque cardíaco fulminante não se tem o que fazer, mas isso não quer dizer que não devamos ter uma vida saudável, porque serve para proteger contra pequenos desvios do coração. Na serra, era necessário haver uma política de ocupação adequada, projetos de mitigação de efeitos de cheias, por exemplo. Não evitaria a catástrofe, mas, em vez de morrerem mil, morreria a metade talvez – enfatizou. (noticiasagricolas)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Desastres naturais da Região Serrana/RJ

Exploração indevida dos desastres da Região Serrana/RJ
Apesar de sabermos que fenômenos naturais são capazes de provocar desastres, a violência com que eles atingiram a Região Serrana do Rio de Janeiro foi de assustar e provocar muita tristeza. Precisei de coragem para acompanhar, via televisão, todo o desespero da população atingida e até mesmo me indignar com a falta de tato de muitos repórteres que não se acanhavam de perguntar o que a pessoa estava sentindo, depois de a mesma ter acabado de informar a perda vários membros da família.
Passada a comoção, tenho buscado explicações técnicas para ajudar na compreensão dos acontecimentos e, assim, alertar para as medidas necessárias à não repetição de desastres semelhantes. Acredito ser esta uma obrigação minha, pois, como aposentado de uma Universidade Federal, recebo meu salário de impostos pagos pela sociedade brasileira. Mesmo não estando mais na ativa, não vejo cessadas as minhas responsabilidades. Mas ando indignado com muitas coisas que tenho lido para me inteirar dos fatos. Há tentativas de simplificar as razões e, em muitos casos, as manifestações chegam mesmo a caracterizar uma certa desonestidade intelectual.
Vi muitas entrevistas de pessoas que não sei a razão de estarem falando sobre assunto, pois nas primeiras frases já dava para perceber o completo desconhecimento dos fenômenos ocorridos. Houve, por exemplo, uma profusão de culpas debitadas ao desmatamento de encostas, quando as fotografias mostravam deslizamentos de áreas totalmente cobertas com mata natural. Será que não houve o cuidado prévio de analisar as fotos que estavam sendo divulgadas em grande quantidade? Ou estavam usando de oportunismo puro para dizer que a reforma do Código Florestal irá provocar mais desastres semelhantes? Foram escritos dois artigos para o EcoDebate ( 18/01 e 27/01 de 2011), tentando explicar o porque dos deslizamentos em tais circunstâncias e como são formadas as torrentes que vão levando tudo pela frente. Mencionei, inclusive, que as matas ciliares não foram e não seriam capazes de evitar o deslocamento da grande massa de lama formada. A foto anexa ilustra o que acabei de falar: encostas deslizaram levando toda a vegetação arbórea que as estavam revestindo; casas, nos sopés do morros, também foram arrastadas; com muita chuva, tudo foi virando lama, descendo, juntando-se às lamas de outros deslizamentos e aumentando o poder de destruição. O Código Florestal, mesmo se fosse aplicável ao meio urbano, não resolveria o problema. Alguns até aproveitaram para, antecipadamente, culpar o deputado Aldo Rebelo, relator da reforma do Código na Câmara Federal, por desastres semelhantes no futuro.
Tenho muita pena das árvores, pois se pudessem falar elas certamente reclamariam de todas as esperanças que lhes são debitadas. Já virou até modismo a publicidade que diz ter sido a poluição provocada por uma determinada atividade compensada com o plantio de árvores. Ações desse tipo não são, na maioria dos casos, suficientes para promoverem o estabelecimento de ecossistemas eficientes na conservação ambiental. Além do mais, elas revelam o pensamento simplista de que podemos ocupar indefinidamente a superfície da Terra com florestas. Apesar de não ter nada contra o Código Florestal, como princípio, discordo de seu caráter geométrico e daqueles que se agarram a ele como salvação nacional. Ele trata, na verdade, de parte pequena de tudo que precisa ser levado em consideração para a conservação dos nossos recursos naturais. Precisamos, sim, de um Código Ambiental que estabeleça fundamentos para ações comunitárias, determinadas no dia a dia por Comitês de Biomas ou de Bacias Hidrográficas, por exemplo,
Mas felizmente consegui ver coisas boas, como os artigos e entrevistas do geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos (vide o publicado no EcoDebate de 02/02/2011, em parceria com o arquiteto e urbanista Francisco Luiz Scagliusi). Também fiquei feliz com a notícia de que será feito um estudo geológico de toda a região atingida, visando demarcar e classificar as áreas de risco. Ficaria mais feliz, ainda, se as pessoas que não são especialistas em assuntos relacionados, ao se manifestarem publicamente, se limitassem a cobrar providências das autoridades, exigindo estudos técnicos apropriados ao planejamento de ações preventivas. Os generalistas interessados poderão prestar excelentes trabalhos se se contentarem em apontar as doenças que acometem os ambientes naturais, mas poderão provocar outros desastres se passarem a receitar procedimentos e remédios. (EcoDebate)

Influência da atividade humana nas inundações

Estudo demonstra a influência da atividade humana nas inundações
Os gases do efeito estufa emitidos à atmosfera por causa da atividade humana aumentaram de maneira significativa a probabilidade de chuvas torrenciais e o risco de inundações locais, segundo duas pesquisas publicadas no último número da revista científica “Nature”.
Trata-se das primeiras constatações formais da contribuição da atividade dos seres humanos aos fenômenos hidrológicos extremos.
Até agora, os estudos sugeriam que o aquecimento global da atmosfera induzido pelo homem era parcialmente responsável pelos aumentos nos níveis de precipitações. Reportagem da Agência EFE.
No entanto, e devido à disponibilidade limitada de registros diários, a maioria dos estudos realizados sobre este tema só examinavam a potencial detecção das mudanças pluviométricas através de modelos de comparação.
Francis Zwiers e seus colegas da Universidade de Victoria,no Canadá, estudaram as precipitações registradas entre 1951 e 1999 na superfície terrestre do hemisfério norte, incluindo o norte do continente americano e a Eurásia, incluindo toda a Índia.
A conclusão foi que os gases do efeito estufa tiveram uma influência muito significativa na intensificação das chuvas em dois terços das superfícies estudadas.
Em um estudo paralelo, o professor Pardeep Pall e um grupo de especialistas da Eidgenössische Technische Hochschule de Zurique (Suíça) estudaram as inundações registradas no Reino Unido em outubro e novembro de 2000, o outono mais úmido na Inglaterra e no País de Gales desde o início dos registros, em 1766.
Utilizando milhares de modelos de simulação para recriar os diferentes cenários meteorológicos que podiam ter ocorrido no outono de 2000, chegaram a conclusão que “embora a magnitude precisa da contribuição antropogênica continue sendo incerta”, tudo parece indicar que a influência humana é decisiva.
“Em nove de cada dez casos, os resultados de nossos modelos indicaram que as emissões antropogênicas de gases do efeito estufa aumentaram o risco de inundações na Inglaterra e em Gales em mais de 20%, e em dois de cada três casos em 90%”.
Mylles Allen, professor da Universidade de Oxford, escreveu na “Nature”: “não podemos dizer com uma certeza absoluta qual é exatamente a influência dos seres humanos neste processo”.
“Mas é uma contribuição razoavelmente substancial ao risco de inundações no Reino Unido”, acrescentou Allen, que considerou que as conclusões deste estudo podem ser úteis no futuro, já que permitirá saber quais inundações são consequência direta da mudança climática e quais podem ser atribuídas ao “azar”.
O professor Mark Maslin, codiretor do Instituto do Meio Ambiente da University College de Londres, comentou que, até o momento, os cientistas sempre manifestaram que não há um fenômeno climático extremo que possa ser relacionado de maneira definitiva com a mudança climática originada pelo homem.
“Isto é assim porque sempre houve fenômenos climáticos extremos e atribuí-los a eventos individuais é muito difícil. O estudo na ‘Nature’ muda isto da raiz”, explicou.
“Ao desenvolver milhares de modelos de simulação, demonstraram que a mudança climática induzida pelo homem teve, sem dúvida, uma influência significativa nas destrutivas inundações registradas no Reino Unido no ano 2000, indicou Maslin”. “Estes estudos enviam uma mensagem científica muito clara aos políticos de que a magnitude das enormes inundações registradas no mundo aumentou pela mudança climática antropogênica”. (EcoDebate)