segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

FAO já vê crise alimentar e mais instabilidade

O mundo caminha para uma crise alimentar que ameaça causar instabilidade política, e é necessário impedir a especulação com o preço das commodities. O diagnóstico é de Jacques Diouf, diretor-geral da FAO, o braço das Nações Unidas para agricultura e alimentação, e vem na esteira da pressão na mesma direção exercida pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, que ocupa a presidência do G20 em 2011 e fez do tema uma de suas principais bandeiras.
"Os preços mais altos e voláteis continuarão nos próximos anos se deixarmos de combater as causas estruturais dos desequilíbrios no sistema agrícola internacional", afirmou Diouf ao jornal japonês "Nikkei". Em entrevista por escrito, o senegalês disse que o mundo pode estar à beira de outra grave crise alimentar, e que os subsídios e tarifas sobre produtos agrícolas têm papel importante na distorção do equilíbrio entre oferta e procura. A França é o país da União Europeia que mais concede subsídios a seus agricultores.
Em relatório publicado recentemente, a FAO informou que seu índice global de preços de alimentos bateu recorde em dezembro, superando inclusive os níveis de 2008, quando uma alta generalizada no custo da alimentação desencadeou distúrbios em diversos países. Devido a adversidades climáticas em países produtores e exportadores, os preços de vários grãos, que já estão elevados, podem subir ainda mais neste ano.
Diouf lembrou que as populações mais pobres novamente serão as mais afetadas, e que isso "vai gerar instabilidade política em [alguns] países e ameaçar a paz e a segurança mundiais". Como Sarkozy, Diouf afirmou que há "uma necessidade premente de novas medidas de transparência e regulamentação para lidar com a especulação sobre os mercados futuros de commodities agrícolas". O presidente francês destacou no início da semana que até no mercado financeiro há mais controle do que nas commodities.
A FAO estima que nos próximos 40 anos será necessário um aumento de 70% na produção agrícola mundial e de 100% nas nações em desenvolvimento para atender à demanda derivada do aumento populacional. Para isso, calcula Diouf, é preciso uma verba de US$ 44 bilhões por ano em ajuda oficial ao desenvolvimento agrícola. Os investimentos privados, por sua vez, terão de passar de US$ 60 bilhões para US$ 200 bilhões por ano. Esses recursos, acrescentou, devem ser usados para financiar pequenas obras de controle hídrico, silos, estradas vicinais, portos pesqueiros e abatedouros nos países em desenvolvimento. (noticiasagricolas)

Agricultura urbana

Agricultura urbana: Fazendas verticais em edifícios começam a surgir
Projetos de fazendas verticais, onde é possível produzir alimentos em edifícios, começam a surgir pelo mundo; no Brasil, ideia já ganha adesão
Cultivar alimentos como hortaliças e frutas em espaços urbanos pode parecer coisa de visionário. Mas a ideia de se construir fazendas verticais, embora inusitada, começa a tomar força em vários projetos ao redor do mundo – até mesmo no Brasil. Ainda na faculdade, o arquiteto paulistano Rafael Gringberg Costa resolveu estudar a questão e de suas pranchetas saiu um projeto de revitalização para os Edifícios São Vito e Mercúrio, no centro de São Paulo.
Seu projeto propõe utilizar a estrutura dos edifícios – atualmente em processo de demolição pela Prefeitura de São Paulo – para produzir alimentos em sistema de hidroponia (onde as plantas são cultivadas na água), com aproveitamento da luz solar. O arquiteto vai além: propõe tratar as águas do poluído Rio Tamanduateí, que corre ao lado, para cultivar os alimentos em seu projeto de fazenda vertical. “Esses cultivos podem ser feitos o ano inteiro, sem preocupação com mau tempo ou seca”, diz o arquiteto. Segundo ele, a grande motivação para a construção de fazendas verticais é ecológica. “Tais fazendas podem estar localizadas em áreas urbanas onde a maioria da população vive. Assim, a agricultura se torna um sistema integrado – o alimento é cultivado, transportado e consumido na própria área urbana”, diz. Os benefícios, segundo ele, seriam a redução das emissões de gases de efeito estufa decorrentes do transporte dos alimentos, além do aproveitamento total dos edifícios urbanos.
A escolha dos Edifícios São Vito e Mercúrio para abrigar uma fazenda vertical, segundo o arquiteto, foi em razão da falta de soluções para os prédios. “Todas as tentativas de revitalização dos dois edifícios deram errado porque eles não são apropriados nem para moradia nem para comércio. Estão isolados entre duas avenidas com alta densidade de tráfego”, diz Costa.
O arquiteto chegou a protocolar o projeto há quase um ano na Prefeitura. Ainda aguarda um horário na subprefeitura da Sé para discutir o processo. Também apresentou o projeto ao Ministério Público e tem feito o mesmo em conferências de arquitetura e urbanismo.
Estufas
O conceito de agricultura indoor não é novo – numerosos cultivos, como morangos, tomates, pimentas e ervas – são feitos por meio de estufas e abastecem supermercados em todo o mundo. “Japão, Escandinávia, Estados Unidos e Canadá têm indústrias de estufas prósperas. Mas até hoje nenhum edifício foi efetivamente construído para esse fim”, diz ele.
Nos EUA, existem vários projetos de fazendas verticais, mas nenhum deles saiu do papel. Um dos mais conhecidos é o Dragonfly (libélula, em inglês), um projeto do escritório de arquitetura Vincent Callebaut Architectures. A proposta é construir, na Ilha Roosevelt, em Nova York, um colosso de 132 andares e 600 metros de altura, com capacidade para abrigar 28 diferentes plantações.
O americano Dickson Despommier, professor da Universidade de Columbia, nos EUA, é o maior estudioso das fazendas verticais e reuniu vários projetos no seu livro Vertical Farms, ainda sem edição no Brasil. Despommier calcula que uma fazenda vertical com uma base equivalente a um quarteirão e 30 andares poderia fornecer alimentos para atender as necessidades de 10 mil pessoas.
Um dos principais argumentos para os projetos de fazendas verticais é o de que a população do planeta, além de estar crescendo, está em acelerado processo de migração para os centros urbanos. Segundo as Nações Unidas, 80% da população viverá em cidades até 2050. Com base na tecnologia atual, serão necessários 1 bilhão de hectares de terra adicionais para acomodar o cultivo de alimentos para alimentar uma população de 9,15 bilhões de pessoas.
Para Paulo Pellegrino, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), a ideia de produzir alimentos em torres construídas para esse fim pode funcionar no Brasil, mas ainda não é uma necessidade.
“Os projetos de fazendas verticais são ideais para países muito urbanizados, com baixa oferta de terras agricultáveis e clima inóspito, como Japão, Holanda”, diz. Para a realidade brasileira, o urbanista defende o aproveitamento dos telhados para cultivos e também a agricultura urbana em áreas ociosas. “Isso reduziria a ocorrência das ilhas de calor e a impermeabilização do solo nas grandes cidades.”
Na avaliação de Luiz Henrique Ferreira, diretor da Inovatech, empresa especializada em projetos de construção sustentável, a ideia é inovadora. “O mérito do projeto é propor soluções inovadoras para 2050 em diante”, diz. No entanto, Ferreira acha que os projetos de fazendas verticais têm poucas chances de emplacar no Brasil, porque o País, sendo eminentemente agrícola, não sofre com escassez de áreas cultiváveis, como outros países. “Resolver o enorme déficit habitacional é mais importante neste momento.” (EcoDebate)

Nova crise alimentar e produção de alimentos?

Em meio à notícia publicada no dia 14/01/11, tendo como manchete “os sintomas de uma nova crise alimentar mundial”, neste artigo são refletidas algumas considerações que ajudem a pensar a temática da falta e da produção de alimentos. Como podemos entender a falta de alimentos com tantas tecnologias disponíveis em pleno século XXI?
Segundo a notícia publicada pelo Instituto Humanitas da Unisinos, os preços mundiais do arroz, do trigo, do açúcar, da cevada e da carne seguiram altos ou registraram significativos aumentos em 2011, podendo replicar a crise de 2007-2008, conforme alerta a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). No final de 2010, ocorreram protestos na China pelos altos preços das refeições de estudantes. Nos primeiros dias de 2011, já ocorreram protestos na Argélia e também na Tunísia, causando a morte de pelo menos 20 pessoas. As implicações no curto prazo não são apenas que os pobres serão afetados e que mais gente poderá ser arrastada para a pobreza, mas sim que ficará mais difícil a recuperação dos países que enfrentam uma maior inflação e cairá o poder aquisitivo dos consumidores em geral.
Mousseau, autor do livro “O desafio dos altos preços dos alimentos: uma revisão das respostas para combater a fome”, afirma que os países mais vulneráveis são os mais dependentes das importações e os menos capazes de enfrentar o aumento dos preços nos mercados com políticas públicas. Isso concerne a muitas das nações mais pobres, com menos recursos, menos instituições e menos mecanismos públicos para apoiar a produção de alimentos, explicou ainda Mousseau.
Segundo a FAO, os preços dos cereais, dos grãos oleaginosos, lácteos, carnes e açúcar podem seguir aumentando por seis meses consecutivos. “Estamos entrando em um terreno perigoso”, disse Abdolreza Abbassian, economista da FAO, para um jornal de Londres. Mousseau explicou que os preços começaram a aumentar em 2010 após as quebras de safras na Rússia e Europa Oriental, em parte causadas pelos incêndios de verão. Agora, as severas inundações que atingiram a Austrália, quarto maior exportador mundial de trigo, provavelmente afetarão a produção desse cultivo, elevando ainda os preços. “Qualquer outro acontecimento, como outro desastre climático em algum país exportador ou um novo aumento do preço do petróleo, sem dúvida alguma fará os preços dispararem, tornando a situação pior que a de 2008 e ameaçando o sustento de milhões de pessoas em todo o mundo”.
Por outro lado, Mousseau esclareceu que não se trata agora de um problema de escassez, como ocorreu em 2007-2008. “Não se pode usar a palavra escassez se consideramos que mais de um terço dos cereais produzidos no mundo são usados como alimento para animais, e que uma parte cada vez maior é utilizada para produzir agrocombustíveis”, observou. De fato, produziram-se 2,23 bilhões de toneladas de cereais no mundo em 2008, uma cifra sem precedentes. O nível de produção para o período 2010-2011 é levemente menor que o de 2008. A diferença é que, em 2008, foi o arroz que impulsionou a alta de preços, enquanto que, desta vez, é o trigo. Mas, em todo o caso, há uma combinação de fatores agindo: uma má colheita em uma parte do mundo provoca uma pressão sobre o mercado, que envia sinais negativos aos especuladores. Esses então começam a comprar e os preços disparam.
Um dos desafios que o novo governo se propõe é a erradicação da fome e da miséria, pois como coloca a ONU, a miséria é um processo gerado por um determinado tipo de sociedade, assentada sobre determinada economia, que cria, mantém e agrava a miséria. Mas como combater a fome e a miséria? Segundo a ONU, será preciso definir a miséria como um crime contra a humanidade, da mesma forma que se fez com a escravidão, para que, a partir daí, se possa identificar e condenar os que praticam.
Portanto, um dos caminhos mais acessíveis a nós é o ato de produzir alimentos, pois assim estaremos fortalecendo a agricultura camponesa, que mantém 16% da população brasileira no campo. Reconhecer e fortalecer a Economia Solidária, destinando a ela mais recursos seja talvez um dos caminhos mais simples, pois ela tem sido uma das principais fontes de geração de trabalho e renda, trabalhando por um desenvolvimento social justo e viável, fazendo acontecer “um outro mundo é possível”. (EcoDebate)

Alimentos bons, limpos e justos

Alimentos bons, limpos e justos. Entrevista com Carlo Petrini, presidente do movimento Slow Food
Na opinião de Carlo Petrini vivemos um momento de crise econômica, energética e agrícola e o futuro da alimentação exige mudanças nos hábitos de consumo pois a maior parte dos danos que a nossa terra sofreu até agora se deve à produção de alimentos
O poder que o consumidor possui simplesmente pelo fato de escolher diariamente o próprio alimento é inacreditável: exercitá-lo com consciência e responsabilidade e um dever, um ato de civilidade, em relação a si próprios, às próprias famílias, às próprias comunidades e aos próprios povos”; afirma Carlo Petrini, presidente do movimento Slow Food.
Na entrevista abaixo, ele considera que “estamos vivendo tempos muito difíceis” e que “é necessário redefinir todo o sistema atual, baseado no consumo”: Afirma ainda que “o bom, o limpo e o justo são os três adjetivos que definem em modo elementar as características que deve ter um alimento para responder a exigências de nós, ecogastrônomos” e que a principal via pela qual realiza “um percurso em relação ao bom, limpo e justo é aquela da economia para o re-posicionamento dos consumos e das produções agrícolas”.
Carlo Petrini é italiano, estudou sociologia na Universidade de Trento e logo se envolveu com a política local e com o trabalho associativo. Entre suas muitas criações está a Universidade de Ciências Gastronômicas, em Pollenzo e Colorno, a primeira instituição acadêmica a oferecer um acesso multidisciplinar nos estudos da alimentação; e ele também que está por trás do Terra Madre, fabuloso encontro de 5.000 produtores de todo o mundo, ocorrido em Turim, para discutir problemas comuns e suas possíveis soluções.
O seu último trabalho Buono, Pulito e Giusto. Principi di uma Nuova Gastronomia (Bom, Limpo e Justo. Princípio de uma Nova Gastronomia) foi publicado em 2005 pela editora Einaudi e em 2009 foi traduzido para o português pela Editora SENAC de São Paulo (Brasil) com o título “Slow Food, princípios da nova gastronomia”. No livro, Petrini descreve o desenvolvimento da teoria da “ecogastronomia”. O livro também foi traduzido para o inglês, francês, espanhol, alemão e polonês. Em 2001, seu Iivro Le ragioni del gusto (As razões do gosto) foi publicado pela Laterza e em 2003 foi traduzido para o inglês como The Case for Taste pela Columbia University Press. Em janeiro de 2008 foi o único italiano a aparecer na Iista das ’50 People Who Could Save the World’ (50 pessoas que poderiam salvar a mundo) realizada pelo prestigiado jornal Inglês The Guardian.
A entrevista é da revista Camponesa. Revista da Associação de Apoio às Comunidades do Campo do Rio Grande do Norte – AACC/RN, ano 1, nº 1.
Eis a entrevista.
0 que é o movimento Slow Food? Como surgiu?
Na metade dos anos 80, o frenesi consumista tinha invadido totalmente a Itália, de tal forma que se estava perdendo o contato com a terra, as tradições, as próprias receitas, em poucas palavras, as raízes da identidade de cada um de nós. Quisemos iniciar da mesa, do alimento não visto simplesmente como nutrimento, mas como elemento de prazer decorrente da possibilidade de apreciar as diversas recei¬tas e sabores, reconhecer as variedades dos locais de produção e dos artesãos, respeitar os ritmos das estações e a convivência. Hoje estamos convencidos da necessidade de associar um novo sentido de sensibilidade ao prazer e à reivindicação do direito de todos a beneficiar-se deste prazer: uma atitude que chamamos de ecogastronomia, capaz de unir o respeito e o estudo da cultura enogastronômica sustentando aqueles que atuam em todo o mundo para defender a biodiversidade agroalimentar. Partimos de 1986 do Piemonte, na Itália, para nos tornarmos em 1989 uma associação internacional que conta hoje com 100 mil sócios em 130 países.
Como tem sido a aceitação no Brasil e, ern particular, no Nordeste?
O Brasil – um pais que possui uma extraordinária biodiversidade agrícola, gastronômica, cultural e lingüística – há diversos anos tornou-se um interlocutor fundamental do Slow Food. Em 2003 o Prêmio Slow Food para a Biodiversidade foi concedido à tribo indígena Krahô, na Amazônia nasceu uma das primeiras Fortalezas internacionais (o Guaraná Nativo dos Sateré-Mawé) e em 2004 o Ministério do Desenvolvimento Agrário do Brasil assinou um acordo que oficializou uma longa relação de amizade e colaboração. Mas o grande desafio do Slow Food no Brasil é a mobilização de todos os setores da sociedade, e temos conseguido superar este desafio com a criação de novos Convivia, os núcleos locais de sócios, e o envolvimento cada vez maior de chefs, jovens e acadêmicos que juntos poderão permitir a inserção do pequeno produtor na própria comunidade. Hoje temos no Brasil cerca de 600 sócios e este numero vem crescendo exponen¬cialmente. No Nordeste, temos importantes projetos para a defesa da sua biodiversidade ambiental e cultural, como a Fortalezas do Arroz Vermelho do Vale do Piancó na Paraíba e do Umbu no sertão baiano. Chefs de Fortaleza e Salvador estão se unindo a acadêmicos do Maranhão e sócios espalhados ao longo de estados do Nordeste brasileiro promovendo uma área com uma riqueza ainda pouco reconhecida e valorizada.
Na visão do movimento Slow Food, qual o futuro da alimentação?
Estamos vivendo tempos muito difíceis, a crise que estamos atravessando é ao mesmo tempo econômica, energética e agrícola. Não podemos considerá-la e enfrentá-la como se fosse um momento de passagem. E necessário redefinir todo o sistema atual, baseado no consumo. É muito recente a notícia do Global Footprint Network1 de que o overshoot day2 aconteceu no dia 25 setembro, ou seja, o dia que teremos terminado de consumir as reservas que a natureza nos disponibilizou para o ano em curso. A cada ano, o dia no qual entramos em débito ecológico e de excesso de consumo antecipa-se no calendário. Em 1986, ano do primeiro alarme, o overshoot aconteceu em 31 de dezembro. Em 1995 a falência ecológica aconteceu no dia 21 de novembro. Dez anos depois as contas com a natureza entraram no vermelho já no dia 2 de outubro. Agora retrocedemos ate o dia 25 de setembro: consumimos 40% a mais do que a terra pode gerar. Em 2050, se a crise energética não nos tiver obrigado a adotar a sabedoria ecológica para manter as contas em paridade, teremos necessidade de um planeta gêmeo para usar como supermercado e retirar as matérias-primas, água, florestas e energia.
Se pensarmos ainda que a maior parte dos danos que a nossa terra sofreu ate agora se deve à produção de alimento, como se nota no relatório da ONU Millennium Ecosystem Assesment3, entendemos que a forma como nos relacionamos com a gastronomia e central para o nosso futuro.
Comer torna-se um “ato agrário”, e selecionando alimentos de boa qualidade, produtos com critérios de respeito pelo ambiente e pelas tradições locais, podemos favorecer a biodiversidade e uma agricultura igualitária e sustentável. Bom, Iimpo e justo são os três adjetivos que definem em modo elementar as características que deve ter um alimento para responder às exigências de nós, eco-gastrônomos. Bom, relaciona-se com as sensações de prazer derivadas das qualidades sensoriais de um alimento, mas também à complexa esfera de sentimentos, recorda¬ções e aspectos determinantes de identidade, decorrentes do valor afetivo do alimento; limpo, ou seja, produzido sem estressar a terra, respeitando os ecossistemas e o ambiente; justo, que quer dizer conforme com os conceitos de justiça social nos ambientes de produção e de comercialização.
Como se vinculam os conceitos de soberania alimentar e economia solidaria? De que forma o movimento Slow Food se relaciona com eles?
A principal via pela qual realizar um percurso em relação ao bom, limpo e justo é aquela da economia para o re-posicionamento dos consumos e das produções agrícolas. A economia de mercado, assim como a conhecemos e como está organizada graças também às dinâmicas da globalização, está revelando enormes limites econômicos. Seja do ponto de vista da sustentabilidade das suas atividades, seja por seu modo de gerar riqueza. Os seus maiores expoentes são conscientes que “anti-ecologia” começa evidenciar-se cada vez mais como uma “anti-economia”.
Em um quadro deste tipo – cujas causas devem ser identificadas também nas mudanças que sofreram o sistema agrícola mundial, na industrialização, na centralização dos sistemas produtivos agroalimentares – as comunidades do alimento representam um exemplo brilhante do que poderia significar pronunciar as palavras “economia local” ou “economia da natureza”.
Trata-se de pequenos produtores, criadores, pescadores, coletores de produtos silvestres, artesãos do mundo agroalimentar que a cada dois anos apresentam os seus trabalhos em nível local na grande sede mundial de Terra Madre4, em Turim (www.terramadre.org). As comunidades do alimento geralmente atual na cadeia curta, ou em cadeias longas altamente sustentáveis e baseadas no conhecimento recíproco dos envolvidos. A comunidade é o local, o contexto, no qual pode-se realizar o conceito de “adaptação local” que teorizou Wendell Berry5. É necessário pressionar o quanto for possível para re-posicionar produções e consumos, vida social e tradições sem renunciar ao comércio e à troca que nos garantem a rede, mas fortalecendo as comunidades locais e as suas características de funcionamento.
Qual o papel do consumidor na promoção de uma cultura do gosto e da convivência?
A esfera sensorial do homem contemporâneo claramente empobreceu. O tato, o gosto e o odor sofreram uma profunda regressão. O tempo cada vez mais escasso e a velocidade das nossas vidas nos estão privan¬do dos instrumentos que nos podem consentir um conhecimento mais profundo, variado e autêntico do mundo que está à nossa volta. Por isso, treinar novamente os nossos sentidos e aguçar a percepção, são os principais instrumentos que pequenos e grandes consumidores devem possuir para se re-apropriar da própria capacidade de decidir com qual ali¬mento nutrir-se. Destas considerações, nasce o projeto de Educação do Gosto, destinado a educar as crianças para desenvolver a sensorialidade, fazendo-as compreender a importância dos produtos alimentares como parte integrante da cultura das sociedades.
Com relação ao grande público, a melhor ideia foi sem dúvida a dos Laboratórios do Gosto, que recolhem exigências do consumidor contemporâneo: o desejo do contato direto, da prova em uma degustação guiada, enfim, a recuperação da sensorialidade; a aproximação do alimento como diversão e ato gratificante mais do que necessidade ou obrigação nutricional; o suprimento da curiosidade em relação aos alimentos, às vezes rara e preciosa, unido à gratificação intelectual de conhecer a história e a particularidade.
Para garantir alimentos bons, limpos e justos, o consumidor deve começar a se sentir co-produtor. O tempo do consumidor terminou: ele literalmente consome o mundo e é figura chave da sociedade baseada na economia de mercado resultando, para sua infelicidade, em ser o cúmplice principal do massacre que a terra esta sofrendo. Educando-nos, conhecendo os produtos, os próprios produtores, as técnicas para alimentar-se melhor e poluir menos, o co-produtor, inserido em sua comunidade, torna-se concretamente e individualmente o motor de uma verdadeira mudança. O poder que o consumidor possui simplesmente pelo fato de escolher diariamente o próprio alimento e inacreditável: exercitá-lo com consciência e responsabilidade é um dever, um ato de civilidade, em relação a si próprios, às próprias famílias, às próprias comunidades e aos próprios povos.
Há quem diga que as raízes da fome e da desnutrição no Brasil associam-se a duas dimensões interdependentes de uma mesma crise de nosso modelo de desenvolvimento: baixo poder aquisitivo da população e insuficiência de produção de alimentos para o consumo interno. À luz da experiência do movimento Slow Food, como enfrentar essas questões?
O respeito pelo meio ambiente, a tutela dos territórios, a pureza das águas, a defesa das variedades vegetais e das raças animais estão na base do nosso futuro-produtivo se quisermos frear as mudanças climáticas. As notícias que nos chegam são, no entanto muito mais preocupantes e, sobretudo, relacionam-se menos com este simples compartimento mas com a modalidade abrangente de produção e de fluidez das reservas. Deve-se então não reiniciar como se nada acontecesse, não insistir no relançamento de consumos que não podem ser a solução para esta crise. É necessário repensar o modelo de produção que todos nós escolhemos e que acreditamos ser único e indiscutível e ter a coragem de confiar novamente nas economias de pequena escala, as únicas em condição de dar uma resposta eficaz e radical à situação atual, as únicas em condição de serem auto-suficientes porque mantêm uma estreita relação com a própria terra, as próprias tradições, os próprios alimentos.
Como as pessoas podem participar do movimento Slow Food?
Slow Food é uma associação, então o primeiro passo é tornar-se sócio, desta forma cada um pode participar das iniciativas do próprio Convivium, os grupos locais nos quais a associação está organizada em todo o mundo. Conferências, laboratórios, degustações, atividades de educação do gosto para crianças e adultos e, sobretudo a possibilidade de ir a fundo nos argumentos ligados ao alimento ”que hoje se encontram nos discursos de todo o mundo mas somente em nível superficial, sem aprofundamento. No entanto, o movimento de ideias que lançamos não se limita somente à estrutura associativa, com Terra Madre nasceu uma rede mundial de pessoas que valorizam a diversidade do nosso planeta e que atuam para preservá-lo, para nós e para as gerações futuras. No dia 10 de dezembro (de 2009), para celebrar os 20 anos do nascimento do Slow Food, uma grande jornada de mobilização acontecerá em todo o mundo envolvendo sócios e Iíderes de todos os convivia, pequenos produtores, criadores e pescadores de todas as comunidades do alimento e das Fortalezas, professores e estudantes de hortas escolares. Cada um poderá promover o tema central da filosofia do Slow Food: o acesso a um alimento bom, limpo e justo; a biodiversidade; a produção em pequena escala; a so¬berania alimentar; o conhecimento das Iínguas, das culturas e das tradições; a produção que respeita o meio ambiente; o comércio équo e sustentável. Em programa haverá pequenos encontros e grandes eventos: degustações e jantares, filmes e concertos que ressaltam a im¬portância de um alimento bom, limpo e justo; visita a produtores de Terra Madre, campanhas de sensibilização, atividades de educação ali¬mentar e do gosto; encontros entre produtores, cozinheiros, jovens e outros.
Notas:
1. A Global Footprint Network foi criada em 2003 e dedica-se a estimular o surgimento de um mundo no qual todas as pessoas tenham oportunidade de viver satisfeitas, dentro das possibilidades da capacidade ecológica da Terra. É responsável pela “Pegada Ecológica”, que mede o grau em que as demandas ecológicas das economias humanas respeitam ou ultrapassam a capacidade da biosfera de fornecer bens e serviços.
2. Uma semana após o estouro da bolha econômico-financeira no dia 23 de setembro, ocorreu o assim chamado Earth Overshoot Day, quer dizer, “o dia da ultrapassagem da Terra”. Grandes institutos que acompanham sistematicamente o estado da Terra anunciaram: a partir deste dia o consumo da humanidade, em 2008, ultrapassou em 40% a capacidade de suporte e regeneração do sistema-Terra. Ou seja, a humanidade esta consumindo um planeta inteiro e mais 40% dele que não existe.
3. O Millennium Ecosystem Assessment (Avaliação do Milênio de Ecossistemas, MA) foi pensado para fornecer parte da informação científica necessária para a implementação da Convenção da Diversidade Biológica, da Concenção do Combate à Desertificação e da Convenção das Áreas Húmidas. O MA foi lançado a nível mundial pelo Secretário Geral das Nações Unidas em Junho de 2001. É uma avaliação multi-escala, consistindo em avaliações interligadas aos níveis global, sub-global e local. Existem cerca de 15 avaliações sub-globais aprovadas, entre as quais as da Noruega, do Sul de África, da America Central e da China. A Avaliação Portuguesa foi iniciada em Maio passado e irá decorrer até meados de 2005. É liderada pelo Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).
4. A rede Terra Madre é constituída por todos aqueles que querem agir para preservar, encorajar e promover métodos de produção alirnentar sustentáveis, em harmonia com a natureza, a paisagem e a tradição.
5. Wendell Berry e um ensaísta americano, autor de Iivros como Know That What You Eat You Are (“Saiba que o que Você Come, Você É) e Life is a Miracle (“A Vida é um Milagre”). (Ecodebate)

Produção de alimentos precisa crescer 40%

Produção de alimentos precisa crescer 40% em 20 anos, diz estudo
A produção global de alimentos deve ser aumentada em cerca de 40% nas próximas duas décadas para evitar o aumento da fome global, indica um estudo britânico divulgado em 24/01/11.
O levantamento Foresight Report on Food and Farming Futures, encomendado pelo governo do Reino Unido, levou dois anos para ser finalizado e envolveu 400 especialistas de 35 países.
"Sabemos que nas próximas duas décadas a população chegará a cerca de 8,3 bilhões de pessoas", disse John Beddington, um dos cientistas responsáveis pelo estudo.
"Temos 20 anos para produzir cerca de 40% a mais de comida, 30% a mais de água potável e 50% a mais de energia", completou.
Beddinton afirma que uma das dificuldades de se mudar o sistema atual é que "ele funciona para a maioria das pessoas, mas os que estão em risco têm menos influência nas tomadas de decisões".
Recomendações
O estudo enfatiza a necessidade de mudanças na agricultura para que o aumento na produção não comprometa a sustentabilidade.
Os pesquisadores dizem que não há “solução única” para o problema e que sua resolução deve ser o resultado do esforço conjunto em várias frentes, combinando o aumento da produção sustentável, de alimentos e energética, com as preocupações com mudanças climáticas.
Para isto, os cientistas recomendam não descartar uso de tecnologias como modificações genéticas, clonagem e nanotecnologia.
O relatório britânico também recomenda mecanismos para que governos e produtores de alimentos prestem contas a respeito de seus progressos na redução da fome, no combate às mudanças climáticas, na degradação ambiental e no aumento da produção alimentícia.
Brasil
O relatório elogia as políticas sociais adotadas pelo Brasil nos últimos anos.
"A experiência brasileira dos últimos dez anos mostra que, se há vontade política, a pobreza e a fome podem ser diminuídas substancialmente", afirma o texto.
O estudo cita dados que estimam que, se as políticas sociais não tivessem sido implementadas, a taxa de pobreza brasileira teria sido de 13% em vez de 8% durante o biênio 2004/5.
As políticas, de acordo com o estudo, seriam resultado da combinação de "lideranças fortes de dois presidentes sucessivos e uma forte sociedade civil". (noticiasagricolas)

sábado, 29 de janeiro de 2011

A tragédia das águas

Bem essa realmente é uma de minhas maiores criticas não só ao governo mais também a todas as emissoras de TV e seus colaboradores multimilionários. (chega de hipocrisia)!
Já não estou aguentando mais, toda vez que ligo a TV a mesma noticia a maior tragédia em toda historia de nosso país, nunca estivemos ao meio de tanta calamidade. Hum já chega de hipocrisia! Para começar não estou do lado nem da população ribeirinha e muito menos do governo. A população ribeirinha, nossa todos sabem que quando começa a chover vai acontecer isso mesmo, mesmo assim as pessoas ainda insistem em continuar morando no mesmo lugar e pior tem pessoas que usam de má fé até invadem pequenos terrenos e os cercam e dizem: aqui é meu ninguém me tira daqui. e muitos depois até vendem esses terrenos. É muito fácil dizer em manifestações e entrevistas, eu perdi tudo agora não tenho para onde ir, ou invadir por que estou morando de aluguel e tenho filhos e não tenho condições de “sustentá-los”. Se não “tem” porque os fez então?
Aí vem o “governo” KKKKKKK como sempre tenta nos encher de palavras, como se palavras fossem adiantar mesmo. (chega de falsas ilusões). Se por um lado o pobre vem e toma posse de terrenos e diz que é dono a culpa é seu governo! Vou esclarecer a diferente educação.
A educação do rico
O rico começa a estudar desde os 3 anos de vida, os filhos dos ricos praticam esportes com bons professores, fazem aulas de natação, aulas de musica, tem aulas particulares e estudam em colégios particulares, o rico só começa a trabalhar quando consegue estagio da faculdade, e realmente começa a trabalhar depois dos 24, 25 anos de idade. Com um salário inicial de R$ 2.500,00 (claro existe algumas exceções, onde os pais incentivam seus filhos a trabalhar desde cedo). O rico quando se prepara para se casar o que ele faz?
Compra um terreno enorme, mura os quatro lados, de preferência bem alto e coloca cerca elétrica e faz calçada ou como mais chamada o passeio. Depois chama o engenheiro e pagar para fazer a planta contrata uma equipe e começa a construir. E só depois de tudo pronto e mobiliado eles se casam e planejam os filhos que terão. E aí começa o mesmo ciclo de vida de novo.
A educação do pobre
O pobre coitado já nasce trabalhando, a mãe quando não tem ninguém para tomar conta do seu filho o leva para o emprego e trabalha dobrado e nem tem direito a recesso maternal, pois quase nunca trabalha de carteira assinada, o filho do pobre cresce assim vendo o serviço como desgaste físico e acaba passando isso pra frente. O filho do pobre brinca de pegar nas ruas e joga bola no meio da rua ou terrenos baldios, chega sujo e ás vezes com o dedo do pé cheio de sangue, pois nem calçado para jogar tem e mesmo se tivesse de que adiantaria, pois brinca no terrão. E assim segue-se até se formar quando se tem muito esforço e quer mudar de vida.
O filho do pobre vive na ilusão de passar no ENEM e fazer um curso superior, quando não consegue tem que trabalhar e estudar ao mesmo tempo, trabalhar para pagar sua própria faculdade e ainda houve abusos de filhos de (...). O pobre quando quer se casar coitado, quando não vive de aluguel até morrer, compra um terreno simples na beira de barranco ou a beira do rio, e logo começa a construir a sua humilde casa. Antes mesmo de terminar ela assim que já tem telhado, janelas e portas eles pulam para dentro, e só depois vão terminando de construir a sua casa.
E como sempre antes de terminá-la já tem seus filhos que crescem vendo tudo isso de perto, e aí começa o ciclo de vida e novo.
Como podem exigir dos pobres tais decisões?
Com tanta diferença ainda insistem em culpar o pobre por tudo, índice de crimes e tudo ruim caem em cima do pobre, já chega disso, ainda dizem: ninguém é tão pobre que não pode ajudar e ninguém é tão rico que não precise de ajuda? Hipócritas! Acaso quanto ganha um apresentador de TV? O salário deles supera os R$ 300.000,00, tem apresentador de TV que ganha mais de um milhão qual apresentador vocês viram ajudar alguém? Eu falo em tirar do seu próprio bolso e ajudar de verdade. Toda emissora a mesma coisa, vivem repetindo temos que ajudar o nosso próximo, e no máximo dão roupas velhas e poucas cestas básicas. A maioria dos apresentadores da rede, ganham mais de um milhão só para ir uma vez por semana e apresentar seu programa, e os jogadores de futebol quanta inflação e ninguém dizem nada? O Corinthians ofereceu ao Ronaldinho Gaúcho quase dois milhões por mês só para jogar futebol, acha isso certo? Um homem de carne osso e sangue ganhar isso tudo? E os jogadores dos santos dizendo: o que você ganha por mês eu compro de ração para o meu cachorro. Nunca ninguém cobrou nada desses profissionais, nenhuma ajuda se quer. Mais quando um deles dá uma bicicleta ou fala só fala da tragédia é tido como um ser humano humilde de bom coração.
(claro é bom ressaltar que alguns apresentadores ajudam sim, mais como eu escrevi acima, eles tiraram do bolso deles? Eu não julgo ninguém mais no meu entendimento é isso que eu vejo).
Mais também com educações tão diferentes quem pode exigir algo de alguém hoje?
Depois de manifestar a minha opinião sobre as diferenças volto a falar das chuvas, desculpe ter dado essa volta toda, mais isto estava entalado na minha garganta.
O que um líder deve fazer?
Bem um país tem presidente ou rei, um estado tem governador, uma cidade tem prefeito, e um bairro tem “presidente” de bairro, todos ocupam cargos de lideres porem nem todos cumprem os seus papeis e deveres. Vou falar apenas do presidente de bairro, se ele como líder organizasse uma reunião e passasse para os moradores todas as causas dos desabamentos e provasse para eles que corre perigo, e em cada rua fosse estabelecido um braço direito alguém de confiança e compromisso para ajudar. E sempre semanalmente ou mensalmente se reunissem para estabelecer mais metas a serem cumpridas diminuiria o numero de vitimas.
O que não foi feito antes?
Muitas coisas não foram feitas, se a prefeitura cumprisse o seu dever de limpar as bocas de lobo e a população tomasse consciência que se estragar ou entupir os maiores prejudicados serão eles, se tivessem já preparados desde o inicio lugares para receber os desalojados, e que foi falado que as chuvas vinham e poderia causar grandes estragos. Ter visitado casas de risco e aconselhado a desocupar de suas residências.
Qual plano de ação?
Orar e ter muita fé, Deus não da um fardo maior que seu servo possa carregar, agora é a hora de arrecadar o maior número de alimentos, doarmos roupas, e produtos de limpeza e dar toda força, pois depois que a tragédia foi consumada é erguer a cabeça e recomeçar, aos que perderam parentes e amigos deixo meus sentimentos e meu apoio, aos que estão vivos deem graças a Deus, pois tem a chance de recomeçar do zero e tirar dessa tragédia uma lição de vida. (administradores.com.br)

Chuvas, dor, morte e destruição

Com receio de ser repetitivo, mas encarando a realidade, sou obrigado a escrever aqui quase tudo que havia feito há exatamente um ano atrás: 15 de janeiro de 2010. Mais uma vez as chuvas de verão provocam grandes perdas de vidas humanas e um enorme estrago material, principalmente nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.
Os programas de televisão não falam de outra coisa: desabamentos, inundações, pânico, terror e muito, muito sofrimento. Parece incrível que as autoridades não tomem providências para um fato absolutamente previsível. Ninguém mais é pego de surpresa. Todos sabem que as chuvas provocam um gigantesco estrago em regiões de risco sobejamente conhecido. Todo final e início de ano é a mesma coisa. Casas sendo soterradas, pessoas perdendo tudo, alagamentos, lixo boiando nas enxurradas e correntezas e as mesmas explicações de sempre: impermeabilização do solo, construções inadequadas em locais inadequados, acúmulo de sujeira, entupimentos de bueiros, desmatamento, ocupação desordenada do solo, deficiência do sistema de drenagem urbana e por aí vai.
Mais uma vez quero colocar a minha indignação com a inépcia dos governantes, com a falta de planejamento administrativo, com o aproveitamento político da miséria e com o oportunismo dos maus dirigentes. Os prefeitos, por exemplo, só se preocupam com o FPM, não constroem projetos sustentáveis, não procuram arrecadar os recursos que estão disponíveis em vários ministérios, mostrando total ignorância na arte moderna de administrar. Tratam a coisa pública como se fosse de sua propriedade e usam todo o tipo de picuinha para extrair para si os dividendos, como se estivessem em uma minúscula cidade do interior.
Novamente, vou defender a água e a Natureza. Não têm culpa de nada. A água é o elemento vital da vida. Precisamos dela para a nossa própria sobrevivência neste planeta. Mas, a água tem as suas peculiaridades. Ela acompanha a gravidade, passa por um ciclo perfeitamente determinado e precisa de toda uma sistematização para cumprir este ciclo. Se desrespeitada, reage naturalmente, desconhecendo os obstáculos que a atividade humana coloca em seu caminho.
A tragédia da região serrana do Rio de Janeiro é um exemplo do quanto poderia ser evitada a morte de centenas de pessoas. Trata-se de uma região incrustada na Mata Atlântica onde chove muito, bem acima da média das precipitações do restante da região sudeste. Além disso, possui um relevo bastante acidentado cuja única proteção são as árvores. Eliminando-as, não resta mais nada que impeça os desbarrancamentos. A equação ocupação de encostas + desmatamento dos morros + chuvas torrenciais = tragédia. Para resolvê-la não é necessário ser gênio em matemática, basta ser governante honesto e preocupado com a seriedade e planejamento. (EcoDebate)

O preço de não escutar a natureza

O cataclisma ambiental, social e humano que se abateu sobre várias cidades serranas do Estado do Rio de Janeiro – Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo, Bom Jardim, Sumidouro, Sapucaia, Areal e São José do Vale do Rio Preto -, na segunda semana de janeiro de 2011, com centenas de mortos, destruição de regiões inteiras e um incomensurável sofrimento dos que perderam familiares, casas e todos os haveres tem como causa mais imediata as chuvas torrenciais, próprias do verão, a configuração geofísica das montanhas, com pouca capa de solo sobre o qual cresce exuberante floresta subtropical, assentada sobre imensas rochas lisas que por causa da infiltração das águas e o peso da vegetação provocam frequentemente deslizamentos fatais.
Culpam-se pessoas que ocuparam áreas de risco, incriminam-se políticos corruptos que distribuíram terrenos perigosos a pobres, critica-se o poder público que se mostrou leniente e não fez obras de prevenção, por não serem visíveis e não angariarem votos. Nisso tudo há muita verdade. Mas nisso não reside a causa principal desta tragédia avassaladora.
A causa principal deriva do modo como costumamos tratar a natureza. Ela é generosa para conosco, pois nos oferece tudo o que precisamos para viver. Mas nós, em contrapartida, a consideramos como um objeto qualquer, entregue ao nosso bel-prazer, sem nenhum sentido de responsabilidade pela sua preservação nem lhe damos alguma retribuição. Ao contrário, tratamo-la com violência, depredamo-la, arrancando tudo o que podemos dela para nosso benefício. E ainda a transformamos numa imensa lixeira de nossos dejetos.
Pior ainda: nós não conhecemos sua natureza e sua história. Somos analfabetos e ignorantes da história que se realizou nos nossos lugares no percurso de milhares e milhares de anos. Não nos preocupamos em conhecer a flora e a fauna, as montanhas, os rios, as paisagens, as pessoas significativas que aí viveram, artistas, poetas, governantes, sábios e construtores.
Somos, em grande parte, ainda devedores do espírito científico moderno que identifica a realidade com seus aspectos meramente materiais e mecanicistas sem incluir nela, a vida, a consciência e a comunhão íntima com as coisas que os poetas, músicos e artistas nos evocam em suas magníficas obras. O universo e a natureza possuem história. Ela está sendo contada pelas estrelas, pela Terra, pelo afloramento e elevação das montanhas, pelos animais, pelas florestas e pelos rios. Nossa tarefa é saber escutar e interpretar as mensagens que eles nos mandam. Os povos originários sabiam captar cada movimento das nuvens, o sentido dos ventos e sabiam quando vinham ou não trombas d’água.  Chico Mendes com quem participei de longas penetrações na floresta amazônica do Acre sabia interpretar cada ruído da selva, ler sinais da passagem de onças nas folhas do chão e, com o ouvido colado ao chão, sabia a direção em que ia a manada de perigosos porcos selvagens. Nós desaprendemos tudo isso. Com o recurso das ciências lemos a história inscrita nas camadas de cada ser. Mas esse conhecimento não entrou nos currículos escolares nem se transformou em cultura geral. Antes, virou técnica para dominar a natureza e acumular.
No caso das cidades serranas: é natural que haja chuvas torrenciais no verão. Sempre podem ocorrer desmoronamentos de encostas.  Sabemos que já se instalou o aquecimento global que torna os eventos extremos mais frequentes e mais densos. Conhecemos os vales profundos e os riachos que correm neles. Mas não escutamos a mensagem que eles nos enviam que é: não construir casas nas encostas; não morar perto do rio e preservar zelosamente a mata ciliar. O rio possui dois leitos: um normal, menor, pelo qual fluem as águas correntes e outro maior que dá vazão às grandes águas das chuvas torrenciais. Nesta parte não se pode construir e morar.
Estamos pagando alto preço pelo nosso descaso e pela dizimação da mata atlântica que equilibrava o regime das chuvas. O que se impõe agora é escutar a natureza e fazer obras preventivas que respeitem o modo de ser de cada encosta, de cada vale e de cada rio.
Só controlamos a natureza na medida em que lhe obedecemos e soubermos escutar suas mensagens e ler seus sinais. Caso contrário teremos que contar com tragédias fatais evitáveis. (Ecodebate)

Em 2010 já existiam milhares em situação de risco

Levantamentos das prefeituras de Friburgo, Petrópolis e Teresópolis entre 2008 e 2010 já apontavam milhares em situação de risco.
42 mil moradores em áreas de risco – As principais cidades da Região Serrana atingidas por um dos maiores desastres climáticos do país – que já deixou 838 mortos – não têm a real dimensão de quantos de seus moradores vivem em áreas de risco, sujeitas a deslizamentos ou inundações. Levantamentos parciais feitos pelas prefeituras de Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis entre 2008 e 2010 acabaram atropelados pela tromba d’água de 12 de janeiro, que mudou a geografia de bairros, criando novas áreas de risco e soterrando casas construídas em trechos críticos já catalogados.
De acordo com os estudos disponíveis, as três cidades tinham, antes da tragédia, pelo menos 42 mil moradores em 230 áreas vulneráveis, onde foram construídas cerca de dez mil casas. As prefeituras já trabalham com a expectativa de que a estatística cresça, em função de novos mapeamentos que terão que ser feitos. Para auxiliar os técnicos locais nesse trabalho, a Secretaria estadual do Ambiente enviou 12 geólogos do Departamento de Recursos Minerais à Região Serrana. Segundo o secretário Carlos Minc, o estado pediu ao Ministério da Integração Nacional mais recursos para a realização deste trabalho, que está sendo custeado com verba do Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam). Reportagem em O Globo.
No levantamento mais recente, concluído em novembro, Friburgo relacionava 35 áreas de risco na cidade, com cerca de seis mil moradores em cerca de duas mil moradias. O levantamento, contudo, priorizava as áreas sujeitas a deslizamentos, porque, segundo o subsecretário municipal da Defesa Civil, Roberto Robadey, este era o maior problema da cidade. O mapeamento agora terá que ser refeito porque, além de não focar áreas sujeitas a inundações, as quedas de encostas revelaram outros locais de risco. Pelo menos 22 áreas da lista sofreram estragos.
- Ainda não deu tempo de parar e contar (as novas áreas de risco). O desafio agora é não deixar ninguém construir. Além disso, áreas como São Geraldo, Córrego Dantas e Campo do Coelho, por exemplo, passaram a apresentar inúmeros trechos perigosos que terão que ser listados – explica Robadey.
Segundo o subsecretário, tal expectativa encontra eco nos 2.550 pedidos de vistorias que chegaram à Defesa Civil até agora. Destes, 800 já foram atendidos. Robadey estima que o trabalho deverá levar ainda pelo menos dois meses.
Em fevereiro fará dois anos que o Ministério Público estadual ajuizou ação civil pública pedindo a remoção de casas erguidas em áreas de risco no bairro Floresta, um dos mais atingidos de Friburgo. Desde então, segundo o MP, somente uma liminar foi concedida, em março de 2009, ordenando o levantamento das áreas de risco. O processo até hoje tramita na Justiça. Nos últimos sete anos o MP moveu 21 ações semelhantes em Friburgo, sendo que 19 obtiveram liminar da Justiça determinando levantamentos de áreas de risco, obras de contenção ou até remoções em algumas das localidades devastadas pela chuva deste mês, como Floresta, Jardim Califórnia, Vila Nova e na área do teleférico, no Centro.
Em Petrópolis, um mapeamento de 2008 enumerava 102 áreas de risco, com pelo menos 2.400 casas e seis mil famílias que precisariam ser removidas somente no Centro – que não foi afetado desta vez. O mapeamento dos outros quatro distritos do município, segundo o secretário municipal de Planejamento e Urbanismo, Agnaldo Goivinho, já estava programado com recursos do PAC 2, aprovados no ano passado mas ainda não repassados. Goivinho diz que o número de áreas de risco deverá crescer porque somente o distrito de Posse, bastante atingido pelo temporal do dia 12, já contava com inúmeras áreas de risco ainda não catalogadas. Após a tragédia, o estudo terá ainda que incluir áreas antes não consideradas de risco, como por exemplo boa parte do Vale do Cuiabá, no distrito de Itaipava. Segundo o secretário, apenas um trecho de três quilômetros do Vale era considerada sujeito a inundações.
- A maioria das áreas de risco conhecidas ficam em comunidades carentes que não foram atingidas. No Vale do Cuiabá, o risco era de aluvião e agora temos problemas em encostas lá. O número de áreas de risco certamente vai crescer – diz Goivinho.
Já Teresópolis contava 93 áreas de risco – oito sujeitas a alagamento e o restante a deslizamentos – somente no Centro, segundo o Plano de Redução de Risco feito em 2008. Antes das chuvas, nesses trechos críticos havia pelo menos seis mil casas e cerca de 30 mil moradores. Segundo o secretário de Meio Ambiente e Defesa Civil, Flávio Castro, o mapeamento já precisava ser revisado para incluir áreas de risco conhecidas ao longo da BR-116 e da RJ-130, o que a prefeitura esperava fazer com recursos do PAC 2.
- O levantamento apontava, por exemplo, a necessidade de 1.500 remoções de famílias no Centro, das quais fizemos 200. Mas o grosso dos estragos aconteceu em áreas consideradas seguras – diz Castro. (EcoDebate)

80% das mortes poderiam ter sido evitadas

Chuvas: 80% das mortes poderiam ter sido evitadas, diz Crea
Ao apresentar o relatório preliminar da inspeção na região serrana do Rio, o presidente do Conselho Regional de Arquitetura, Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ), Agostinho Guerreiro, disse que 80% das mortes seriam evitadas caso as prefeituras respeitassem a legislação ambiental do País. Até o início da noite de ontem, a pior catástrofe da história registrava 832 mortos.
'Técnicos apuraram que o desmatamento fez a velocidade da cabeça d'água atingir mais de 100 km/h em alguns trechos', afirmou. O documento lembra que a ocupação dos morros com inclinação maior de 45° é crime ambiental, porque são considerados Áreas de Preservação Permanente e recomenda a retirada da população desses locais.
Além do diagnóstico, o Crea-RJ sugere um conjunto de obras de baixo custo para evitar a repetição da tragédia. 'São intervenções simples nas encostas e pequenas barragens no alto dos rios para controlar a velocidade e o volume das águas', disse. Os engenheiros recomendam a instalação de pequenas soleiras de encostas para reter o material erodido e a abertura de valas para a retenção das águas, que poderiam evitar os deslizamentos.
Nos rios, os engenheiros sugerem pequenas e médias barragens nas nascentes para formar reservatórios de cheias e minimizar as cabeças d´água, além de ondulações no fundo dos córregos para diminuir a velocidade da correnteza.
O documento enfatiza que são necessários o reflorestamento dos morros e a recuperação da vegetação nas margens dos rios. As inspeções foram realizadas nos três dias seguintes à tragédia. O diagnóstico sobre as possíveis causas aponta que as chuvas tiveram uma magnitude maior do que o normal, mas o presidente do Crea-RJ refutou a tese de desastre natural pelo excesso de chuva. 'Isso é um desserviço à população. Se o poder público tivesse removido os moradores das áreas de risco não teríamos esse número de mortos.'
Sobre os deslizamentos das encostas, o relatório aponta que a população afetada morava em um terreno de 'alta inclinação' e, por isso, os deslizamentos ocorreram até nos casos em que a vegetação estava preservada.
As moradias nas margens dos rios também foram consideradas agravantes. O documento cita ainda a inexistência de plano de contingência de cheias. (OESP)

Friburgo agora sofre com leptospirose

Há 46 casos notificados da doença e cinco confirmados; crianças tiveram problemas gástricos e prefeitura teme males respiratórios.
Após a tragédia que deixou 840 mortos e 518 desaparecidos, as cidades da região serrana do Rio enfrentam agora as doenças. A secretária de Saúde de Nova Friburgo, Jamila Callil Salim Ribeiro, confirmou ontem que há um surto de leptospirose no município, com 46 casos notificados e cinco já confirmados.
Anteontem, no abrigo, 19 crianças tiveram gastroenterite e cinco permanecem internadas. Jamila disse esperar "um longo período de doenças infecciosas" na cidade e pediu paciência à população, pois o principal hospital de Friburgo ainda funciona precariamente por causa do alagamento.
Sete pessoas estão internadas com sintomas de leptospirose, doença transmitida pela urina de ratos. Quatro estão em hospitais públicos e três em clínicas particulares. "Os pacientes com leptospirose tiveram contato com água da enchente nos primeiros dias após a tragédia. Os sintomas se manifestam em 2 a 3 semanas, com febre alta e dores musculares intensas, principalmente na panturrilha. A população deve ter cautela no consumo de água", afirmou a secretária. Ela não descarta ainda a possibilidade de um surto de doenças respiratórias por causa da poeira acumulada.
Ações. A prefeitura da cidade tenta acelerar as remoções diante da previsão de chuva para a próxima semana. Ontem, o Ministério Público do Rio disse que propôs, desde 2003, 21 ações civis públicas relacionadas a áreas de risco em Nova Friburgo. Dezenove obtiveram liminar da Justiça determinando levantamentos, obras e até remoções em locais que foram afetados pelas chuvas deste ano. Segundo o MP, parte das decisões da Justiça não foi cumprida e em outros casos houve recurso.
O MP do Rio obteve liminares que obrigavam a prefeitura a reflorestar e até a remover famílias nas áreas de risco de vários bairros. Segundo os promotores, na Rua Sílvio Henrique Braune, na subida para o teleférico, área turística da cidade, não foram realizadas as obras determinadas pela Justiça, em 2008. O local foi destruído pelo deslizamento.
Na área de Vila Nova, a Justiça determinou, em janeiro de 2007, que o município mantivesse a interdição dos imóveis em áreas de risco, removesse moradores, impedisse novas invasões e fizesse obras contra deslizamentos. A prefeitura foi intimada diversas vezes por descumprir a medida. Também não foram realizadas obras em São Geraldo para a retirada de blocos de rocha, como determinado em 2003.
O MP ainda recorreu de uma sentença de agosto de 2010 que julgou improcedente o pedido para obras de contenção na Rua Anchieta, no centro.
O secretário de Comunicação Social de Nova Friburgo, David Massena, informou que a Procuradoria do Município faz levantamento para checar se as informações do Ministério Público são verdadeiras. (OESP)

Leptospirose é transmitida por contaminações

Leptospirose, transmitida por água e barro contaminados, é preocupação após enchentes
Além de perdas humanas e materiais, as chuvas que atingiram a Região Serrana do Rio de Janeiro trazem outro risco para a população: a leptospirose. Causada por uma bactéria presente na urina de animais, principalmente ratos, a doença pode levar a morte é comum em situações de enchente. A pesquisadora Ilana Teruszkin Balassiano, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), aponta os cuidados que devem ser tomados pela população, ressalta a importância de higienizar bem pernas e pés e alerta que o risco da doença está presente tanto em áreas urbanas quanto em regiões afastadas de grandes centros.
A recomendação é evitar ao máximo o contato com a água e o barro de enchentes e desmoronamentos.
A leptospirose é causada por bactérias do gênero Leptospira, presente na urina do rato, muito comum em esgotos de grandes cidades. No entanto, Ilana explica que ela também é excretada por outros animais, como bois, porcos e cachorros. “Por isso, em uma situação de enchente, a leptospirose continua a representar risco para a população, mesmo em áreas menos urbanizadas”, afirma a especialista do Laboratório de Zoonoses Bacterianas do IOC, que atua como Referência Nacional para Leptospirose junto ao Ministério da Saúde e é reconhecido desde 2008 como Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o agravo.
A bactéria penetra no corpo pela pele, principalmente se houver alguma “porta de entrada”, como um corte ou arranhão. Como pernas, pés e mãos estão mais expostos ao contato com lama e água que podem estar contaminados, os cortes e arranhões nestas localizações inspiram ainda mais cuidados.
Segundo Ilana, porém, em situações como a vivida neste momento na Região Serrana fluminense, o contágio pode ocorrer pelo contato prolongado da água ou o barro contaminado com a pele, mesmo sem ferimentos. “Para diminuir os riscos, a recomendação é evitar ao máximo o contato com a água e o barro de enchentes e desmoronamentos. Se não for viável, lavar bem pernas, pés e mãos assim que possível”, explica a especialista. “O uso de calça comprida e sapato fechado ajuda, mas não protege totalmente, pois acabam encharcados. O mais indicado é o uso de galochas ou sacos plásticos para proteger a pele por dentro do calçado, se não houver como evitar o contato com a água e o barro”, orienta.
Ilana também indica cuidados na hora de voltar às residências atingidas por enchentes e desmoronamentos. “A Leptospira precisa de ambientes úmidos para sobreviver. Dessa forma, é importante evitar o contato com a lama das casas e terrenos, pois ainda há o risco de contaminação”, explica. “A bactéria é sensível aos desinfetantes de forma geral, principalmente aqueles a base de cloro. Recomenda-se uma boa higienização das casas com esses produtos. Para lavar roupas atingidas pela enchente, por exemplo, o uso de água sanitária é indicado”, explica. A pesquisadora destaca, ainda, a importância de orientar as crianças para evitar o contato com a água e a lama das casas e de consumir apenas água mineral ou devidamente tratada, para evitar o risco de contaminação por diversos microorganismos.
O período de incubação da leptospirose varia de cinco a dez dias. Os primeiros sinais da doença se assemelham a um resfriado, com febre, dores de cabeça e no corpo, especialmente na panturrilha, podendo ocorrer icterícia (coloração amarelada da pele e das mucosas). “Se a pessoa teve contato com a água das enchentes ou o barro de desmoronamentos e apresentar estes sintomas, deve procurar atendimento médico e relatar a situação, para que receba o tratamento adequado”, explica Ilana.
A leptospirose é tratável, principalmente se diagnosticada logo, mas pode evoluir, em casos específicos, para formas mais graves, comprometendo os pulmões e os rins e causando a morte do paciente. O tratamento da doença é feito com antibióticos específicos e em casos mais graves pode ser necessária internação hospitalar. (EcoDebate)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Tragédia na região serrana do Rio de Janeiro

Ambientalista diz que tragédia na região serrana do Rio de Janeiro é resultado do desrespeito à Mata Atlântica
Tragédias como a que ocorreu nas cidades serranas do Rio de Janeiro são nada mais que o resultado do processo de ocupação da Mata Atlântica. A afirmação é da escritora e ambientalista Anne Raquel Sampaio, que mora no Parque do Imbuí, um dos bairros mais afetados pela catástrofe em Teresópolis.
“Nós não estamos aqui simplesmente sobre o solo de Teresópolis, e sim sobre o solo da Mata Atlântica, um bioma que precisa ser mais respeitado”, diz a escritora. Como muitos cariocas, ela se mudou há 25 anos para a cidade serrana fugindo da violência urbana do Rio e em busca de paz e de contato com o verde. “Na época, o clima era mais frio, e a cidade tinha menos favelas e menos gente.”
Com o passar dos anos, além da favelização, houve uma ocupação maior das margens dos rios, com uma grande devastação da mata ciliar. Anne Raquel, que faz pesquisas sobre a água, alerta para o problema da falta de esgotos na cidade. “Como a maior parte das cidades brasileiras, Teresópolis foi construída às margens de um rio, o Paquequer, hoje um grande esgoto atravessando a cidade. Esse rio às vezes fede, mas a população faz de conta que esse fedor não existe.”
Segundo a ambientalista, a tragédia atual mostra que o risco da ocupação irregular é o mesmo para os pobres e os ricos, já que condomínios de alto luxo e de classe média também foram igualmente atingidos. Ela chama a atenção para o fato de que a propaganda imobiliária desses condomínios não corresponde à realidade.
“Você não pode construir uma mansão sobre uma encosta que é linda, e dizer que aquilo ali é ecológico só porque algumas árvores foram preservadas. Na verdade, aquela área não deveria ser ocupada, nem por mansão nem por ninguém. As pessoas que constroem essas casas sonham com um mundo melhor para elas, mas não param para analisar que esse mundo melhor precisa, antes de tudo, que a gente respeite a natureza.”
É preciso reconstruir a cidade, partindo do princípio de que ela está sobre o solo da Mata Atlântica, que tem caracteristicas próprias e é responsável pelo abastecimento de água de mais de 80% da população brasileira, diz a ambientalista. “A água precisa caminhar, chegar ao mar. Se agente constrói em cima do caminho da água, ela vai achar esse caminho de uma forma ou de outra.”
Emocionada com tragédia que presenciou, Anne Raquel acha que a solução não pode ser apenas técnica: “a questão ambiental só vai ser resolvida quando a gente olhar tudo isso com o coração, pensar em como impedir que as crianças morram, porque usamos recursos públicos para tudo, menos para cuidar da natureza.”
Autora de seis livros infanto-juvenis baseados em mitos indígenas e focados na temática ambiental, Anne Raquel concluiu a obra mais recente justamente no dia da tragédia, (12/01/11). “Na história de Os Filhos da Senhora das Águas, Iara está ficando cega e pede ajuda para enfrentar uma grande tempestade. O tragicômico é que assim que eu acabei de escrever o livro aconteceu esse desastre horrível.” (Ecodebate)

Torrentes e desastres naturais

Foi publicado pelo Portal EcoDebate, em 18/01/2001, um artigo de minha autoria falando sobre florestas e deslizamentos de encostas, inspirado na tragédia que se abateu sobre a região da Serra fluminense. Disse, naquela oportunidade, que tudo começou quando as chuvas fortes provocaram o escorregamento de grandes volumes de terra de morros, mesmo que cobertos de florestas. Expliquei a origem e a formação dos deslizamentos, mas não deu para fazer, no mesmo artigo, uma discussão um pouco mais detalhada dos mecanismos que se seguiram aos escorregamentos e que promoveram todos aqueles estragos mostrados pelas redes de televisão, pelos jornais e pelas revistas. Imagens é que não faltaram para expressar o montante dos estragos. Estivemos, na verdade, diante de fenômenos naturais conhecidos por torrentes. Por isso estou de volta para falar sobre elas.
Em primeiro lugar, dois conceitos:
1) Torrente é uma enxurrada que corre em grandes volumes durante tempestades, com violência e transportando grandes volumes de materiais sólidos.
2) Área torrencial é uma pequena bacia hidrográfica com conformação e constituição propícias à formação de torrentes.
A torrente tem uma constituição que a torna facilmente adaptada às condições encontradas nas regiões de relevos acentuados, com grotas (pequenas bacias hidrográficas) de encostas íngremes e vales onde correm córregos permanentes ou efêmeros com acentuadas declividades. A Figura mostra um esquema típico de área torrencial, ou seja, grotas em forma de pera, com saídas estreitas. Quanto mais arredondadas, mais perigosas se tornam, pois as enxurradas (linhas sinuosas em azul) provenientes das encostas chegam quase ao mesmo tempo no trecho do córrego, entre os pontos 1 e 2, no exemplo da Figura. Se não houver deslizamentos e as encostas estiverem protegidas com vegetação, as enxurradas chegarão ao fundo do vale trazendo pouco material sólido, o córrego subirá de nível e poderá provocar inundações, principalmente onde houver estreitamento, como entre as linhas AB e CD. Pela definição acima, não seria uma torrente. Mas se houver deslizamentos, como os que ocorreram em profusão na Região da Serra fluminense, as enxurradas das encostas trarão um grande volume de terra, misturada com troncos de árvores, galhos e folhas, se as encostas estiverem cobertas de florestas. A partir daí, vão ocorrendo momentâneos represamentos e rompimentos, aumentando cada vez mais a massa de lama que se movimenta na unidade de tempo. Essas massas passarão a ter energia suficiente para derrubar tudo que estiver em seus caminhos. Derrubarão barrancos, casas, pontes, matas ciliares e quaisquer outros obstáculos. Tudo agravado se o córrego apresentar declividade acima de 5%, como é comum em tais situações. Serão as torrentes em atividade e é melhor não ficar em suas rotas.

As torrentes são compostas de três partes: a bacia de captação, que está representada pela área acima da linha AB, da Figura; o canal de escoamento, entre as linhas AB e CD; e o cone de deposição ou de dejeção, abaixo da linha CD. A bacia de captação alimenta a torrente, o canal transporta tudo e, ao chegar às partes mais baixas, com a queda da declividade, a capacidade de transporte cai e começa a deposição do material retirado acima. Na bacia de captação os danos são provocados pela retirada e arraste de materiais, no canal de escoamento a maior ação é provocada pela violência da massa arrastada e, no cone de deposição, pelo aterramento dos obstáculos (casas, ruas etc.).
Quando a chuva é muito intensa, acima de 50 litros por metro quadrado e por hora, e mantém essa intensidade por mais de duas horas, pode acontecer que essa duração seja maior do que o tempo que as enxurradas formadas nas extremidades da bacia de captação levam para chegar à região da linha AB, por exemplo. Se isso acontecer, toda a bacia de captação já estará contribuindo para os volumes que entram no canal de escoamento e a chuva ainda estará sustentando o sistema. Hidrologicamente, será o pior dos mundos.
As áreas torrenciais estão presentes tanto nas cidades como nos campos. Nas cidades, ou nos campos aos seus redores, as torrentes têm maior poder de destruição, pela presença de maior densidade de casas e ruas. Funcionam como se fossem uma grande bomba enterrada, mas que o homem, de tanto futricar, acaba um dia provocando a sua explosão.
As áreas torrenciais estão muito presentes na paisagem brasileira e, por isso, A Hidráulica Torrencial, ensinada em vários países, deveria fazer parte do currículo de vários profissionais relacionados com engenharia e planejamento de uso da terra no Brasil. Sem profissionais qualificados e sem tecnologias apropriadas, ficará difícil evitar que sistemas naturais se transformem em tragédias humanas. (Ecodebate)

Não é a chuva que deve ir para a cadeia

“O remédio é responsabilizar homens públicos como pessoas físicas pelos crimes que cometem contra a vida. Às vezes em série, como acaba de acontecer na Região Serrana do Rio de Janeiro.”
Das surpresas do clima quem pode falar por todos os políticos com conhecimento de causa são os faraós egípcios. Eles, como o ex-presidente Lula, agiam como enviados do céu à terra. E, ao contrário do ex-presidente Lula, não falam desde que saíram de cena, a não ser por intermédio de escribas e hieroglifos.
Mas, como encarnações do sol, se o sol fracassava lá em cima eram arrancados do trono cá embaixo, surrados e cuspidos no fundo do Nilo. Tudo porque o rio deixava de inundar o delta que nutria seu reino agrícola. Lá, o regime político mudava conforme o regime do rio. Tornava-se violento e insurreto até o Nilo voltar à normalidade, irrigando uma nova dinastia.
As vítimas dessas tragédias políticas e climáticas não tinham, na época, como saber que as cheias do Nilo eram regidas pelas chuvas de monção do Sudeste Asiático, que por sua vez dependiam de ventos conjurados pela temperatura das águas no Oceano Pacífico, do outro lado da terra, na costa da América do Sul, um lugar mais distante que o sol do cotidiano egípcio.
O culpado da desordem era um fenômeno natural que só entrou há duas décadas no noticiário internacional, com o nome de El Niño. Mas deixar o clima fazer seus estragos à solta, em Tebas ou Menfis, tinha custo político, porque da regularidade do rio dependiam vidas humanas. O preço era injusto, cruel e exorbitante. Como é injusto, e talvez seja também cruel e exorbitante, que hoje não se processe no Brasil, por homicídio culposo, o político que patrocina baixas evitáveis e supérfluas em encostas carcomidas e vales entulhados por ocupações criminosas.
No dia em que um prefeito, olhando as nuvens no horizonte, enxergar a mais remota possibilidade de ir para a cadeia pelas mortes que poderia impedir e incentivou, as cidades brasileiras deixariam aos poucos de ser quase todas, como são, feias, vulneráveis e decrépitas. De graça, ou com o dinheiro virtual do PAC, os políticos não consertarão nunca a desordem que os elege.
Não adianta ameaçá-los com ações contra o Estado ou a administração pública, porque o Estado e a administração pública, na hora de pagar a conta, somos nós, os contribuintes. O remédio é responsabilizar homens públicos como pessoas físicas pelos crimes que cometem contra a vida. Às vezes em série, como acaba de acontecer na Região Serrana do Rio de Janeiro.
O resto é conversa fiada. Ou, pior, papo de verão em voo de helicóptero, que nessas ocasiões poupa às autoridades até o incômodo de sujar os sapatos na lama. Pobres faraós. O longo e virtuoso caminho civilizatório que nos separa de seu linchamento está nos levando de volta à impunidade anárquica das entressafras dinásticas, quando a favelização lambia até as suntuosas muralhas de Luxor.
Linchar um político não é a mesma coisa que malhar seus projetos. E os brasileiros estão perdendo mais uma chance de bater com força no projeto de lei número 1.876/99, que o deputado Aldo Rabelo transfigurou, para enquadrar o Código Florestal nos princípios do fato consumado. Ele reduz à metade as áreas de preservação em margens de rio, dispensa da reserva legal propriedades pequenas ou médias e consolida os desmatamentos ilegais. Nunca foi tão fácil saber aonde ele quer chegar com isso, folheando as fotografias aéreas das avalanches em Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Dá para ver nas imagens o que havia antes nos pontos mais atingidos. É o que o novo Código Florestal vai produzir no campo. Mais disso. (Ecodebate)

Revisão do Código Florestal

Revisão do Código Florestal pode legalizar área de risco e ampliar chance de tragédia
As mudanças propostas pelo projeto de alteração do Código Florestal – pensadas para o ambiente rural e florestas- ampliam as ocupações de áreas sujeitas a tragédias em zonas urbanas.
O texto em tramitação no Congresso deixa de considerar topos de morros como áreas de preservação permanente e libera a construção de habitações em encostas.
Locais como esses foram os mais afetados por deslizamentos de terra na semana passada na região serrana do Rio, que mataram mais de cinco centenas de pessoas.
O projeto ainda reduz a faixa de preservação ambiental nas margens de rios, o que criaria brecha, por exemplo, para que parte da região do Jardim Pantanal, área alagada no extremo leste de São Paulo, seja legalizada.
A legislação atual proíbe a ocupação em áreas de encostas a partir de 45 de inclinação, em topo de morro e 30 metros a partir das margens dos rios – a distância varia de acordo com a largura do rio.
A proposta já foi aprovada por uma comissão especial e deve ser votada pelo plenário da Câmara em março. Se aprovada, vai para o Senado.
PARA QUE SERVE
Nos morros, o objetivo da lei atual é preservar a vegetação natural, que aumenta a resistência das encostas e reduz deslizamentos de terra.
Nas margens dos cursos d’água – rios, córregos, riachos, ribeirões etc.-, a área reservada visa preservar as várzeas, espaços onde os alagamentos são naturais nas épocas das chuvas fortes.
Boa parte da legislação não é cumprida, principalmente nas cidades. Mas as prefeituras, responsáveis por fiscalizar as regras e impedir a ocupação dessas áreas, têm os dispositivos à disposição.
Mesmo que a ocupação irregular ocorra, os limites atuais facilitam a remoção sem necessidade, por exemplo, de desapropriação de terras, afirma Marcio Ackermann, geógrafo e consultor ambiental, autor do livro “A Cidade e o Código Florestal”.
Ele diz que as áreas de preservação permanente previstas no Código Florestal coincidem, na maioria, com as áreas de risco de ocupações.
Ackermann cita como exemplo os locais onde morreram pessoas na semana passada em Mauá (Grande SP), e Capão Redondo (zona sul de SP). O mesmo ocorre, diz, na maioria dos locais atingidos pelos deslizamentos na região serrana do Rio.
CRÍTICAS
O secretário do Ambiente do Estado do Rio, Carlos Minc, critica as mudanças. “O que ocorreu no Rio – [já] tinha acontecido antes em Santa Catarina e outras áreas – mostra um pouco onde leva essa ocupação desordenada das margens de rios e das encostas. Eu acho que isso mostra a irresponsabilidade dessa proposta”, diz.
O relator do projeto de revisão do Código Florestal, deputado federal Aldo Rebelo (PC do B-SP), nega mudança nas regras de ocupação das cidades, embora o texto fale, com todas as letras, sobre regularização fundiária em áreas urbanas consolidadas.
Rebelo critica Minc, de quem é desafeto. “Não é por acaso que acontece essa tragédia no Rio, é por causa de secretários incompetentes e omissos como Carlos Minc.” (Ecodebate)

Sistema nacional de prevenção de catástrofes

Governo anuncia criação, até 2014, de sistema nacional de prevenção de catástrofes
O governo anunciou em 17/01/11 a criação do Sistema Nacional de Prevenção e Alerta de Desastres Naturais. A decisão foi informada após reunião da presidenta Dilma Rousseff com os ministros da Justiça, Defesa, Ciência e Tecnologia, Integração Nacional e Saúde.
A montagem do sistema ocorrerá com a modernização dos equipamentos meteorológicos, como radares e pluviômetros, para tornar mais eficiente a capacidade de prevenção de fenômenos climáticos, como chuvas fortes, e com mecanismos de alerta para a população de áreas de risco. “Temos que criar um sistema de alarme, dar conhecimento à população e informar os procedimentos que ela tem que tomar em casos de risco”, explicou o ministro de Ciência e Tecnologia, Aloízio Mercadante.
Também será feito um levantamento geofísico para identificar as áreas de risco. “Estimamos em aproximadamente 500 as áreas de risco no país, com cerca de 5 milhões de pessoas morando, e temos outras 300 regiões sujeitas a inundações”.
As ações serão implantadas de forma gradual e a expectativa é que, em quatro anos, o sistema de defesa e alerta esteja concluído. Mercadante afirma, no entanto, que até o próximo verão já devem estar identificadas as áreas mais críticas.
O ministro da Integração Nacional, Fernado Bezerra, afirmou que a presidenta Dilma Rousseff autorizou o reforço de pessoal para a reestruturação da Defesa Civil. Em princípio, o reforço se dará por meio da realocação de servidores de outros órgãos. “Estamos fazendo uma ampla reflexão e é evidente que precisamos fazer mais investimentos, estruturar e ter uma política voltada mais para a área de prevenção, do mapeamento das áreas de risco”, disse Bezerra. (EcoDebate)

IPT mostra moradias de altíssimo risco em SP

Estudo do IPT mostra que mais de 100 mil pessoas vivem em moradias de altíssimo risco em SP
A capital paulista tem 407 áreas de riscos em 26 subprefeituras e a maior concentração de moradias erguidas em terrenos passíveis de deslizamentos localiza-se na zona sul, onde foram identificados 176 pontos. É o que mostra o estudo encomendado pela Prefeitura ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
A zona norte aparece como a segunda região com mais construções suscetíveis à desmoronamentos ou soterramentos num total de 107 áreas, um pouco acima das verificadas na zona leste (100). Já a zona oeste registra 24.
O levantamento divulgado em 18/01/11 pela prefeitura de SP atualiza dados de 2003 e mostra que a maioria das moradias (73%) está em situação de risco “médio e baixo”, caso de 105 mil habitações. Mas ainda assim é expressiva a parcela classificada como de risco “alto e muito alto” e que atinge 27% do total mapeado, o equivalente a 29 mil casas e 115 mil pessoas.
De acordo com nota da prefeitura, no ano passado, foram investidos R$ 29,6 milhões para reduzir a possibilidade de deslizamentos de terras e executadas 74 intervenções em áreas onde moravam 29 mil pessoas. Num período de cinco anos entre 2005 e 2010, 59 mil pessoas foram retiradas das áreas de riscos e executadas mais de 400 obras para eliminação ou redução do risco nessas áreas.
Para este ano, segundo a prefeitura, a meta é aumentar a quantidade de recursos empregados nessas ações para R$ 100 milhões – volume que engloba as obras previstas na segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-2). Estão previstas entre outras ações a integração com os programas municipais de urbanização, regularização fundiária e operações urbanas, além de estruturação dos sistemas de monitoramento e alertas em áreas prioritárias.
Por meio de nota, o Ministério Público do Estado de São Paulo informou que a Promotoria de Habitação e Urbanismo da capital pediu uma cópia do estudo do IPT que poderá ajudar no desenvolvimento do inquérito civil em andamento.
“Com os recentes acontecimentos causados pelas intensas chuvas, como os alagamentos e desabamentos, noticiados pela imprensa, esse relatório poderá ajudar na análise e nas providências a serem tomadas pelo Ministério Público”, disse o promotor de Justiça, Raul de Godoy Filho. (EcoDebate)

Tragédias: aumento da frequência e da letalidade

Tragédias: a tendência é o aumento da frequência e da letalidade
A continuar a omissão e/ou a insuficiência e/ou a impropriedade das ações públicas no tratamento dos gravíssimos problemas associados à ocorrência de enchentes e deslizamentos de encostas não há dúvida, as tragédias tenderão a se ampliar em sua intensidade, frequência e letalidade. Consequência direta da incapacidade e/ou descompromisso para se tomar a elementar decisão de, no mínimo, parar de cometer os erros essenciais que estão na origem desses graves fenômenos.
Em outras palavras, nossas cidades continuam a crescer, sob os olhos e complacência da administração pública em seus diversos níveis, praticando as mesmas incongruências que as conduziram a esse grau de calamidade pública; no caso das enchentes impermeabilizando o solo, promovendo uma excessiva canalização de rios e córregos, expondo por terraplenagem o solo à erosão com decorrente assoreamento dos cursos d’água; no caso dos deslizamentos ocupando, e com técnicas as mais inadequadas, encostas serranas de alta declividade já naturalmente instáveis do ponto de vista geológico. Imagine-se, como exemplo, as imensas pressões de novas ocupações urbanas sobre as encostas da Serra do Mar em todo o litoral sudeste brasileiro que advirão das mais diversas atividades ligadas ao Pré-sal.
Ou seja, dentro dessa equação é exponencial a exposição de cidadãos brasileiros aos riscos decorrentes dessa absurda ausência do poder público no cumprimento de sua importantíssima e precípua função de correta regulação técnica do uso e ocupação do território.
Com essa definitiva e radical decisão tomada, ou seja, os erros não mais serão cometidos, tem-se à frente a difícil, mas então administrável, tarefa de corrigir o enorme passivo geológico-geotécnico-urbanístico legado por muitas décadas de crescimento urbano espontâneo, totalmente desimpedido de qualquer obrigação técnica em relação ao meio físico geológico afetado.
Sobre essas medidas corretivas, sejam emergenciais, sejam de caráter definitivo, o meio técnico brasileiro acumulou e insistentemente oferece à sociedade e aos governantes conhecimentos e tecnologias de enorme eficiência. Partamos dessa verdade: todo conhecimento técnico necessário à boa correção do passivo geotécnico e à regulação técnica da expansão urbana já existe e está plenamente à disposição da administração pública e do setor privado. O Brasil é país de ponta nessa área científico-tecnológica,.
A propósito, o que hoje o meio técnico brasileiro manifesta é um angustiante e amargo sentimento de frustração diante da impotência de seus argumentos e propostas para produzir um real e decidido enfrentamento do problema.
Como também a responsabilidade não está com a Natureza, suas chuvas e suas encostas.
O que mais nos cabe almejar ou imaginar para romper com esse círculo vicioso? Apelar para que o Ministério Público passe a responsabilizar criminalmente os administradores omissos? Pois bem, está então feito o apelo. (EcoDebate)