segunda-feira, 31 de julho de 2017

O degelo e a elevação do nível do mar

Um dos efeitos do aquecimento global é a elevação do nível do mar. Aquecimento e degelo reforçam-se mutuamente através de mecanismos de retroalimentação amplificante, pois o aquecimento superficial da água e da troposfera aumenta o degelo e esse, ao diminuir o albedo (a fração rebatida para o espaço da radiação solar incidente sobre a Terra), acelera o aquecimento, num círculo vicioso. Uma vez desencadeados, o aquecimento da água (vale dizer, sua expansão térmica) e o degelo têm dinâmicas inerciais, de modo que nem mesmo uma radical redução nas emissões de GEE num intervalo de tempo de 0 a 100 anos será capaz de detê-los no horizonte do tempo histórico. Já em 2001, o Terceiro Relatório de Avaliação do IPCC (Assessment Report ou AR3) afirmava: “projeta-se que o nível do mar continuará a se elevar por muitos séculos”. A figura 1 ilustra o caráter irreversível da elevação inercial das temperaturas e do nível global médio do mar no horizonte do próximo milênio.
Como se vê, não deve ocorrer estabilização da temperatura nos próximos séculos e o nível do mar continuará a se elevar por expansão térmica e por degelo pelo menos ao longo do próximo milênio. Obviamente, advertia em 2001 o IPCC, “os impactos tornam-se progressivamente maiores com mais altas concentrações de CO2”, de onde a inadiável necessidade de diminuir as emissões de GEE, o que não está ocorrendo.
Aceleração no passado recente
Em quanto o nível do mar já subiu no último século? Segundo o IPCC-AR5 (2013), é “muito provável que a taxa média de elevação do nível do mar tenha sido 1,7 [1,5 a 1,9] mm por ano entre 1901 e 2010, para uma elevação média total de 19 cm (17 a 21 cm). Entre 1993 e 2010, a taxa foi, muito provavelmente, mais alta, atingindo 3,2 mm por ano”. Reforçando esses dados, mensurações satelitares do GISS/NASA indicam que entre 1880 e 2013 houve uma elevação média global do nível do mar de 22,6 cm, vale dizer, 1,6 mm por ano em média ao longo de 133 anos. Ocorre que um terço dessa elevação (7,6 cm) ocorreu em apenas pouco mais de 20 anos, entre 1992 e 2013. Tal aceleração foi calculada por um trabalho publicado na Scientific Reports em 2016, que estabelece o seguinte salto nas taxas de elevação do nível do mar:
1900-1990 = + 1,2 a 1,9 mm / ano
1992-2015 = + 3,3 ± 0.4 mm / ano
Em 2016, a elevação média foi de 3,41 mm, resultante de uma nova aceleração a partir de 2012, como mostra claramente a figura 2.
A aceleração evidenciada na figura 2 é confirmada por uma recente avaliação, segundo a qual a elevação média global do nível do mar foi 25% a 30% mais rápida entre 2004 e 2015 que entre 1993 e 2004.
Incerteza sobre a taxa de aceleração no futuro próximo
Qin Dahe, co-diretor do IPCC-AR5, afirma que “à medida que o oceano se aquece e o gelo marítimo e continental se reduz, o nível médio global do mar continuará a se elevar, mas a uma taxa mais rápida que a observada nos últimos 40 anos”. Quão mais rápida é ainda incerto. A se confirmarem as estimativas do trabalho publicado na Scientific Reports, acima citado, “a magnitude da aceleração em meados do século XXI será de 0,12 mm por ano a cada ano [0.12mm yr−2], embora esse valor dependa fortemente das perdas futuras do gelo continental, as quais são altamente incertas”. Para tentar restringir essas incertezas, Benjamin P. Horton, Stefan Rahmstorf, Simon E. Engelhart e Andrew C. Kemp publicaram em 2014 os resultados de uma avaliação probabilística sobre a elevação média do nível do mar em 2100 e em 2300, em função de dois cenários contrastantes de aquecimento global, a partir de uma consulta a 90 especialistas selecionados entre os que mais ativamente publicaram sobre esse tópico em anos recentes. A figura 3 sintetiza num único gráfico essas projeções, comparando-as com as do IPCC e da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA).
No cenário em azul (sombreado com intervalos de confiança prováveis e muito prováveis), o aquecimento é inferior a 2º C em relação ao período pré-industrial e há lenta diminuição após 2050 (RCP3-PD, por “Peak and Decline”). Nesse caso, a elevação média mais provável será de 40 a 60 cm até 2100 e de 60 cm a 1 metro até 2300. No cenário em vermelho (RCP8, com mesmos intervalos de confiança), o aquecimento é de 4,5ºC em 2100 e de 8ºC em 2300, e a média mais provável de elevação situa-se entre 70 cm e 1,6 metros para 2100 e 2 a 3 metros para 2300. Em comparação com os pareceres desses 90 especialistas, as projeções do IPCC para 2100 em relação a 2000 representam-se nas barras verticais à direita, confirmando a tendência (necessariamente) conservadora do IPCC. Em contraste, as projeções da NOAA, representadas pelas quatro linhas pontilhadas, atingem, no caso intermediário-alto, mais de 1,2 metros e, no pior dos casos, 2 metros.
Antártica e Groenlândia: elevação não linear do nível do mar
Essas incertezas decorrem, como dito, sobretudo da rapidez do degelo da Groenlândia e da Antártica, que apenas agora começa a ser melhor estimada. Segundo o IPCC (AR5), “observações feitas desde 1971 indicam que a expansão térmica e o degelo marinho (excluído o degelo marinho periférico da Antártica) explicam 75% da elevação observada (alta confiabilidade)”. Mas, continua o texto, “a contribuição do gelo da Groenlândia e da Antártica tem aumentado desde o início dos anos 1990, em parte por causa do fluxo acrescido de gelo induzido pelo aquecimento do oceano imediatamente adjacente”. O que já se observou é que em apenas 17 anos (1995 – 2011), a ação combinada do degelo na Antártica e na Groenlândia causou uma elevação de 11,1 mm do nível do mar, elevação esta que, sobretudo na Groenlândia, está em clara aceleração nesse período, como mostra a figura 4.
ESA/NASA/Planetary Visions. Baseado em Andrew Shepherd et al., “A Reconciled Estimate of Ice-Sheet Mass Balance”. Science, 30/11/2012, https://www.geopostings.com/category/ice-sheet-melt/
Em 2009, um trabalho publicado na Proceedings of National Academy of Sciences já detectava essa aceleração: “a perda de massa de gelo na Groenlândia e na Antártica está se acelerando e se aproxima mais de uma tendência quadrática que de uma tendência linear”. Como afirma esse artigo, a contribuição da Groenlândia para essa elevação será, mais uma vez, maior que as projeções do IPCC-AR4 (2007).
Ocorre que, em 2016, James Hansen à frente de 18 cientistas, publicou um trabalho cujos resultados agravam, e em muito, mesmo a estimativa mais pessimista da NOAA (aumento de 2 metros até 2100): “Nossa hipótese”, afirma esse trabalho, “é que a perda de massa do gelo mais vulnerável, suficiente para aumentar o nível do mar em vários metros [several meters], aproxima-se melhor de uma resposta exponencial que de uma resposta linear. (…) Preveem-se que altas e contínuas emissões provenientes de combustíveis fósseis neste século provocarão (…) tempestades mais poderosas e aumento não linear da elevação do nível do mar, atingindo vários metros num horizonte de tempo de 50 a 150 anos”.
O gelo de escora na Antártica
É bem sabido que “a Península Ocidental da Antártica é uma das áreas de mais rápido aquecimento na Terra, atrás apenas de algumas áreas do Círculo Polar Ártico”. E à medida que essa região se aquece, o degelo continental se acelera, conferindo maior concretude ao novo cenário previsto por James Hansen e colegas. O desprendimento da Plataforma Marítima Larsen entre 1995 e 2017, jogando no mar de Weddel 10.550 km2 de gelo marítimo (Larsen A, 1995 = 1.500 km2, Larsen B, 2002 = 3.250 km2 e Larsen C, 2017 = 5.800 km2) não tem impacto direto sobre o nível do mar, pois se trata de gelo marítimo, que já ocupava lugar no mar e, além disso, de “gelo passivo”, isto é, que não funciona como escora do gelo continental. Mas as plataformas de gelo marítimo sobre os mares de Amundsen e de Bellingshausen (oeste e sudoeste da Antártica) são, sobretudo, gelo de escora e seu desprendimento futuro, dado por certo, abrirá caminho para o gelo continental descer de suas íngremes encostas para o mar, conforme mostram as manchas em amarelo na figura5.
Fonte: Johannes J. Fürst et al. « The safety band of Antarctic ice shelves” Nature Climate Change, 8/II/2016. As zonas em azul são de gelo passivo. As zonas em amarelo são de gelo de escora (buttressing)
Uma elevação 2 vezes e meia a 6 vezes maior que no século XX
Se a elevação do nível do mar até 2100 permanecer apenas entre 50 cm e 1,2 metros (projeções intermediário-baixo e intermediário-alto da NOAA), isso significa que ao longo do século XXI essa elevação será 2 vezes e meia a 6 vezes maior que os 19 cm de elevação observada, como visto acima, entre 1901 e 2010. As consequências desse redesenho da linha costeira são tão múltiplas e complexas, que, por razões de espaço, devem ser tratadas no próximo artigo. Antecipemos aqui, muito brevemente, algumas delas. Dado que se preveem também furacões mais fortes e que grande parte das maiores cidades do mundo são costeiras, inundações mais frequentes e piores que as que ocorreram nos últimos decênios serão inevitáveis. Até 2050, Bangladesh deve perder 10% de seu território. Em 2050, o nível do mar em Nova York deve estar 76 cm acima do nível médio de 2000-2004 e em 2100, 183 cm (6 pés). Cidades como Guangzhou, New Orleans, Miami, Mumbai, Nagoya, Boston, Shenzen, Osaka, Guayaquil, Cidade Ho Chi Minh e, no Brasil, Santos, também estão na primeira linha de tiro das inundações. Mas o espectro das consequências é muito mais amplo que a simples perda de infraestrutura urbana, pois uma elevação dessa magnitude (como visto, bem abaixo do pior cenário) poderá inundar as usinas nucleares litorâneas, salinizar aquíferos e deltas, erodir as costas, destruir ecossistemas costeiros e impor gigantescos deslocamentos populacionais. Esses impactos serão o tema do próximo artigo. (ecodebate)

Os quatro anos mais quentes estão na atual década

“Na ausência de um ajuste significativo da maneira como bilhões de seres humanos vivem, partes da Terra provavelmente se tornarão próximas a inabitáveis e outras partes t017)errivelmente inóspitas, antes do final deste século” - David Wallace-Wells (09/07/2017).
Apesar do frio que atingiu diversas regiões do Brasil e da América do Sul nos meses de junho e julho, o ano de 2017 deve ficar entre os quatro mais quentes da série histórica que começou em 1880. O mundo convive com grandes contrastes dos efeitos climáticos extremos. Enquanto várias regiões do hemisfério Norte marcaram altas recordes de temperatura (como Phoenix no Arizona e Ahvaz no Irã), houve baixas temperaturas em diversas localidades do hemisfério Sul. Ou seja, o aquecimento global não apresenta uma tendência de elevação continua e uniforme, mas sim uma espiral que flutua e varia, mas com inclinação ascendente no longo prazo, como mostra a curva de Keeling (ALVES, 16/11/2016).
A novidade é que os quatro anos mais quentes já registrados estão na atual década. Pela primeira vez, os quatro últimos anos cronológicos também serão os anos mais quentes da série divulgada pela NOAA. No passado, anos de recorde de temperatura como 1998, 2005 e 2010 eram seguidos de anos bem mais frios. Porém, desde 2014, o piso se elevou e as temperaturas entraram em um outro patamar de aquecimento, com 0,74ºC acima da média do século XX em 2014, 0,90ºC em 2015, 0,94ºC em 2016 e algo entre 0,74ºC e O,90ºC em 2017.
O mês mais frio dos últimos quatro anos foi fevereiro de 2014, com 0,48ºC acima da média do século XX. O mês de junho de 2017 foi o mais frio do ano até aqui, mas apresentou anomalia de 0,82ºC acima da média do século XX e foi o terceiro mês de junho mais quente dos 137 anos da série.
O primeiro semestre de 2017 foi o segundo mais quente da série histórica para o período de janeiro a junho, conforme mostra o gráfico abaixo. O primeiro semestre mais quente já registrado foi em 2016, com anomalia de 1,07ºC acima da média do século XX. O segundo mais quente, com 0,91ºC. acontece agora em 2017. Em 2015 foi de 0,86ºC e em 2014 foi de 0,72ºC. A linha de tendência entre 1970 e 2017 mostra com o aumento da temperatura tem sido 0,17ºC por década. A continuar essa tendência a temperatura irá aumentar mais 1,4ºC até o final do século XXI. Acrescentando o que já subiu, o mundo ultrapassaria, com folga, o limite de 2ºC estabelecido no Acordo de Paris.
Os dados do primeiro semestre de 2017 confirmam que o mundo está batendo todos os recordes de temperatura antes de 2014 e o ritmo está se acelerando. O gráfico abaixo mostra que o mundo ruma para a temperatura mais alta dos últimos 5 milhões de anos. Nota-se que poucas vezes na história, nos últimos 5 milhões de anos, a temperatura ficou acima da média do século XX. O Antropoceno está rompendo com o equilíbrio climático que houve no Holoceno e que possibilitou o florescimento da civilização humana.
Se o aquecimento global continuar no ritmo atual, a civilização estará no caminho de uma catástrofe. Como mostrou o jornalista David Wallace-Wells, no artigo “The Uninhabitable Earth”, na revista New York Magazine (09/07/2017): “Na ausência de um ajuste significativo da maneira como bilhões de seres humanos vivem, partes da Terra provavelmente se tornarão próximas a inabitáveis e outras partes terrivelmente inóspitas, antes do final deste século”.
Um estudo das universidades de New South Wales, na Austrália, e de Purdue, nos Estados Unidos, publicado na “Proceedings of the National Academy of Sciences”, em 2010, afirma um aumento de apenas 4ºC medidos por um termômetro úmido levaria metade da população mundial a enfrentar um calor equivalente a máximas registradas em poucos locais atualmente. Embora seja improvável que isso aconteça ainda neste século, é possível que já no próximo, várias regiões estejam sob calor intolerável para humanos e outros mamíferos. O estudo também ressalta que o calor já é uma das principais causas de morte por fenômenos naturais e que muitos acreditam, erroneamente, que a humanidade pode simplesmente se adaptar a temperaturas mais altas. A fisiologia humana não suporta temperaturas acima de 50ºC. Ou seja, o aquecimento global pode deixar até metade do planeta inabitável.
Em artigo de abril de 2017, “Communicating the deadly consequences of global warming for human heat stress”, publicado também na PNAS, os autores consideram a temperatura média global do ar está relacionada de forma não linear ao estresse térmico, o que significa que o mesmo aquecimento futuro, tal como realizado até o momento, pode desencadear aumentos maiores nos impactos sociais do que historicamente experimentados. Esta não linearidade é maior para as métricas de estresse térmico que integram o efeito do aumento da umidade. O artigo mostra que, mesmo em um clima mantido abaixo da meta de 2ºC do Acordo de Paris, as alterações climáticas podem se tornar estressadas por calor, expondo mais de 350 milhões de pessoas a um calor mortal até 2050.
Sem dúvida, acompanhando o aumento da temperatura global, durante os últimos 50 anos, as ondas de calor ficaram cada vez mais frequentes. A duração, a frequência e a intensidade das mesmas provavelmente aumentarão na maioria das zonas terrestres ao longo deste século antecipando o “cenário de Mad Max” em diversas regiões do Planeta. Artigo de Emily Atkin (20/07/2017) mostra que as ondas mortais de calor são a maior ameaça desse século.
E o mais grave é que uma Terra inabitável e inóspita levará a autodestruição humana, mas também pode levar junto milhões de espécies que nada tem a ver com os erros egoísticos dos seres terrestres que se julgam superiores e os mais inteligentes. A humanidade pode estar rumando para o suicídio, podendo também gerar um ecocídio e um holocausto biológico de proporções épicas.
A última vez que a temperatura ultrapassou os 2ºC, no Planeta, foi no período Eemiano (há cerca de 120 mil anos) e provocou o aumento do nível dos oceanos em algo como 5 a 9 metros. Tudo indica que a temperatura no século XXI vai ultrapassar os 2ºC em relação ao período pré-industrial. Os prejuízos poderão ser incalculáveis.
De fato, estamos entrando em um período de emergência climática. Ao invés de recuar como fez Donald Trump, o mundo precisa ir além do Acordo de Paris e acelerar o processo de descarbonização da economia. Caso não haja uma reorientação do estilo de produção e consumo, a catástrofe climática pode gerar um cenário de Armagedon antes do final do século XXI e algo muito pior no século XXII. (ecodebate)

sábado, 29 de julho de 2017

Aquecimento global e ondas mortais de calo

O mundo está ficando mais quente, mas umas áreas esquentarão mais do que outras e as ondas de calor ficarão mais frequentes e mais letais. O Brasil vai ser um dos países mais afetados pelas ondas mortais de calor que devem se espalhar pelo globo ao longo do século XXI, ainda que se atinja a meta do Acordo de Paris de manter o aquecimento global abaixo do patamar de 2ºC até 2100.
A figura acima mostra o número de dias por ano que excede o limiar de temperatura e umidade para além do qual as condições climáticas se tornam mortíferas no cenário RCP 8.5 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O artigo “Global risk of deadly heat”, publicado no periódico Nature Climate Change (19/06/2017) considera que as mudanças climáticas vão tornar mais frequentes as ondas de calor letais, no cenário de manutenção atual das emissões de gases de efeito estufa (GEE).
Atualmente, 30% dos habitantes da Terra passam por períodos de calor extremo em algum momento do ano, mas ao longo do corrente século, três quartos da população mundial enfrentarão ondas mortais de calor. Mesmo com o cumprimento dos objetivos do Acordo de Paris, a população exposta ao calor mortal será de cerca de 50%.
As ondas de calor não são coisas do futuro, mas já deixaram milhares de mortos, até mesmo em países desenvolvidos e melhor equipados para enfrentar o clima extremo. Na Europa Ocidental, por exemplo, houve mais de 70 mil mortes apenas durante o verão intenso de 2003.
Em junho de 2017, uma onda de calor intensa atingiu a cidade de Phoenix, Arizona, quando os termômetros foram a 120°F (49ºC). Isto fez algumas companhias aéreas cancelarem os voos por causa do calor. A American Airlines disse que cancelou 50 voos porque os aviões não podem operar acima de 118°F. Foi apenas um exemplo das interrupções que a mudança climática criará para viagens aéreas.
Artigo de Georgina Gustin (13/07/2017) mostra que durante uma intensa onda de calor no Sudoeste no mês passado, a American Airlines cancelou dezenas de voos em Phoenix porque certos aviões em sua frota não foram projetados para operar a temperaturas acima de 118º F. Estudo recente apontou 19 aeroportos ao redor do mundo onde o aumento das temperaturas tornaria mais difícil o fluxo dos aviões. Durante períodos especialmente quentes, os aviões provavelmente terão que reduzir a quantidade de peso que podem transportar para se transportar no ar.
No início de julho de 2017, uma onda de calor impressionante envolveu o oeste dos EUA, ajudando a alimentar vários incêndios florestais. O calor veio graças uma corrente de alta pressão que se moveu para o Oeste, com as temperaturas máximas batendo vários recordes, como na figura abaixo:
Uma temperatura acima de 120ºF (49ºC) pode tornar a vida inviável e o local inabitado. A temperatura mais alta já registrada ocorreu no Vale da Morte da Califórnia, nos EUA, de 134ºF (56,7°C), em 10 de julho de 1913.
Mas normalmente, os trópicos enfrentam as maiores temperaturas médias e podem ser as regiões mais afetadas no futuro. A Indonésia, as Filipinas, o norte e nordeste do Brasil, a Venezuela, o Sri Lanka, o sul da Índia, a Nigéria, a maior parte da África Ocidental e o norte da Austrália enfrentarão mais de 300 dias de ondas de calor potencialmente letais cada todos os anos sob a trajetória atual de emissões, conhecida como RCP 8.5.
O Brasil terá a maior área atingida pelas ondas de calor. Cidades como Boa Vista, em RR, Manaus, AM, Macapá, AP, e Cuiabá, MT, vão ter dificuldades para manter as suas atividades normais, pois as ondas de calor vão perturbar o dia a dia da vida de todos os habitantes. Deve subir os casos de câncer de pele e outras doenças, pois a umidade elevada reduz a capacidade do corpo humano de esfriar através da transpiração. Quando o calor no corpo não pode ser expelido, cria uma condição chamada citotoxicidade por calor que é prejudicial para muitos órgãos e pode ser fatal.
No início do verão de 2017, várias partes do hemisfério norte foram atingidas por ondas de calor mas também por picos de frio, acentuando os eventos extremos. A Sibéria quebrou recordes absolutos de temperatura. A temperatura em Krasnoiarsk (a 3.350 km a leste de Moscou) quase quebrou o recorde absoluto da região, com a marca de 37ºC, o que desencadeou incêndios florestais na Rússia. Em outro extremo do país, em Murmansk, os termômetros marcaram 1ºC, com a ocorrência de neve.
Na cidade de Ahvaz, no Irã, a temperatura atingiu 129ºF (54ºC) no dia 29/06/2017. O índice de “calor real” atingiu 142°F por causa da umidade (61ºC). Estes valores superam o índice de calor, desenvolvido em 1978, e que tem um máximo de 136°F (58ºC). As ondas de calor são mais facilmente atribuíveis às mudanças climáticas, de acordo com cientistas, porque há uma conexão clara entre o carbono absorvido na atmosfera e a temperatura elevada. Esse calor extremo coloca os moradores de Ahvaz em grave perigo para desidratação, fadiga por calor, cólicas, choque de calor e outras doenças. Para os idosos, esses riscos são amplificados.
Problema grave são também as queimadas, pois o tempo seco e quente aumenta a autocombustão das florestas e matas, que, ao mesmo tempo, aumenta a emissão de GEE. Artigo de Anne-Sophie Brändlin (DW, 19/06/2017) mostra que incêndios incrivelmente grandes causaram um impacto devastador sobre o Alasca e a Indonésia em 2015. Em 2016, o Canadá, a Califórnia e a Espanha foram devastados por chamas incontroladas.
Em 2017, incêndios maciços devastaram as regiões do Chile e Portugal, com dezenas de vidas. Estudos extensivos constataram que grandes incêndios florestais no oeste dos EUA têm ocorrido quase cinco vezes mais frequentes atualmente do que nos anos 70 e 80. Outro incêndio atingiu em junho uma reserva natural espanhola e ameaça o Parque Nacional de Doñana, uma das áreas de biodiversidade mais importantes da Espanha e um patrimônio mundial da Unesco.
Incêndios florestais nos estados norte-americanos de Utah e Califórnia destruíram a vegetação e obrigaram a evacuações de casas. Em Utah, 1.500 pessoas tiveram de ser retiradas de suas casas. Na Califórnia, o incêndio foi em Santa Clarita, a norte de Los Angeles. Tais incêndios queimam mais de seis vezes a área terrestre, aumentando as emissões e diminuição a capacidade das matas em sequestrar carbono. Com o aumento das temperaturas os incêndios vão se transformar em coisas normais e mais frequentes (Georgina Gustin, 11/07/2017).
Artigo de Lorraine Chow (30/06/2017) apresenta as imagens capturadas por satélite da NASA, na última semana de junho de 2017, mostrando incêndios violentos cobrindo grandes faixas das florestas boreais da Sibéria. Cerca de 27 mil hectares (100 milhas quadradas) queimaram na região do Oblast de Irkutsk no sul da Sibéria e outros 27 mil hectares queimados em estados e regiões vizinhas. As florestas boreais armazenam cerca de 30% do carbono mundial. Quando queimam, colocam esse carbono na atmosfera, aumentando os impactos das mudanças climáticas e criando uma Ciclo vicioso que provavelmente levará a mais incêndios.
O aquecimento global e as ondas mortais de calor vão afetar os solos e as águas dificultando a produção de alimentos. Assim, vai ficar cada vez mais difícil fornecer e garantir água potável e alimentos para 11 bilhões de habitantes do Planeta, previstos para 2100. Ou seja, o aquecimento global deve afetar a vida da maioria dos seres humanos além de contribuir para acelerar a 6ª extinção em massa das espécies.
O artigo “The Uninhabitable Earth” de David Wallace-Wells, publicado na revista New York Magazine (09/07/2017), que teve grande repercussão nas redes sociais, mostra um cenário catastrófico das ondas mortais de calor, especialmente em um quadro de aceleração do aquecimento global:
Os seres humanos, como todos os mamíferos, são motores de calor. Sobreviver significa ter que esfriar continuamente, como cães ofegantes. Para isso, a temperatura precisa ser suficientemente baixa para que o ar atue como uma espécie de refrigerante, extraindo calor da pele para que o motor possa continuar bombeando. Isso se tornaria impossível para grandes porções da banda equatorial do planeta, especialmente os trópicos, que poderiam aquecer sete graus e onde a umidade contribuiria para agravar o problema. Nas selvas da Costa Rica, por exemplo, onde a umidade geralmente atinge 90%, simplesmente se mover quando o sol está a mais de 105ºF  (41ºC) seria letal. E, em temperaturas mais altas, o efeito seria rápido: dentro de horas, um corpo humano seria cozido até a morte por dentro e por fora” (tradução livre).
Os cenários são terríveis se nada for feito para deter o aquecimento global e as ondas letais de calor. O renomado físico britânico Stephen Hawking disse à BBC que “As ações de Trump podem levar a Terra à beira do abismo e transformá-la em Vênus, onde a temperatura atinge 250ºC e há chuva de ácido sulfúrico”. O temor de Hawking é de que nossas circunstâncias na Terra fiquem cada vez mais parecidas a essas condições inóspitas. “Estamos em um ponto crítico no qual o aquecimento global vai se tornar irreversível”. (ecodebate)

OMM registra recordes de calor em diferentes partes do mundo

Organização Meteorológica Mundial (OMM) registra recordes de calor em diferentes partes do mundo
ONU
Temperaturas extremamente altas para os meses de maio e junho bateram recordes de calor na Europa, Oriente Médio, norte da África e Estados Unidos. A informação foi divulgada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), que alertou também que as temperaturas médias dos oceanos e superfícies para os cinco primeiros meses de 2017 atingiram o segundo nível mais alto já registrado.
Recordes de calor foram registrados em diferentes partes do mundo.
Temperaturas extremamente altas para os meses de maio e junho bateram recordes de calor na Europa, Oriente Médio, norte da África e Estados Unidos. A informação foi divulgada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), que alertou também que as temperaturas médias dos oceanos e superfícies para os cinco primeiros meses de 2017 atingiram o segundo nível mais alto já registrado.
A agência da ONU lembrou que, em Portugal, temperaturas na faixa dos 40 graus contribuíram para agravar a devastação provocada por incêndios florestais na região de Pedrógão Grande, a 150 quilômetros de Lisboa. Episódio deixou dezenas de mortos e feridos. Na vizinha Espanha, a primavera foi a mais quente em 50 anos. Na França, a OMM prevê que as tardes continuarão tendo temperaturas 10º C acima da média para essa época do ano.
Do outro lado do Atlântico, o sudoeste desértico dos Estados Unidos e o interior no estado da Califórnia chegaram a registrar 49º C. Informações da mídia ao final do junho sugeriram que o tráfego aéreo teria sido suspenso em torno do Aeroporto Internacional de Phoenix, no Arizona, porque estava muito quente para voar. O cancelamento de voos ocorreu num dos dias mais quentes dos últimos 30 anos nesse estado. (ecodebate)

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Produção e resíduos de alimentos

Cada vez mais, se utilizam recursos naturais devido ao crescimento das populações, pelas alterações do estilo de vida e devido ao crescente consumo pessoal. Para se contrapor ao consumo insustentável, a comunidade europeia propõe atuar sobre o sistema de recursos de forma integral, incluindo os métodos de produção, os padrões de procura e as cadeias de distribuição.
O sistema alimentar inclui todos os materiais, processos e infraestruturas relacionados com a agricultura, comércio, venda por atacado e varejo, transporte e consumo de produtos alimentares. Tal como a água e a energia, a alimentação é uma necessidade humana básica. Há também uma forte ligação entre a saúde e o bem-estar, com os alimentos. Tanto a subnutrição como a obesidade são problemas de saúde diretamente relacionados com a forma como os produz, comercializa e ocorre o consumo.
O consumo de alimentos pelos europeus mudou consideravelmente ao longo do tempo. Atualmente se consome mais do que o dobro da carne por pessoa que se ingeria há cerca de 50 anos. Em contrapartida, desde 1995 que o consumo de carne de bovino por pessoa diminuiu 10 %. Ao mesmo tempo, os europeus comem mais carne de aves, pescados e mariscos, frutas e produtos hortifrutigranjeiros.
A União Europeia é um dos maiores produtores mundiais de alimentos. Utiliza sistemas de produção agrícola modernos, e possui terras vocacionadas para a agricultura. A produtividade aumentou muito, particularmente na segunda metade do século passado. Em virtude da sua diversidade climática e de terras agrícolas, a Europa produz uma grande variedade de produtos, mas também depende das importações para complementar e suprir as suas necessidades de alimentos.
A produtividade agrícola, em termos de rendimento das culturas, aumentou devido à crescente prática da monocultura isto é, a produção da mesma cultura em superfícies mais extensas. E pela presença de irrigação, com o incremento da mecanização e pelos maiores recursos de produção, como o uso de substâncias químicas e agrotóxicos.

Esta forma de intensificação exerce pressões crescentes sobre o ambiente, pela perda de agrobiodiversidade e pelas elevadas emissões de CO2, além de maior contaminação do solo, dos rios e dos lagos. Mas quanto mais se investe em energia para produzir alimentos, menos calorias são produzidas. Este é um paradoxo fundamental.
É evidente que a Comunidade Europeia necessita de reduzir os impactes ambientais da produção agrícola. E também necessita produzir quantidades equiparáveis de alimentos para satisfazer as demandas locais e globais.
A União Europeia é um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo. A questão que se coloca é como poderá a Europa continuar a produzir alimentos de alta qualidade, e em quantidades suficientes e a preços acessíveis, reduzindo também os impactes ambientais gerados por este modelo agrícola.
É necessária a adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis. Métodos agroecológicos permitem intensificar a agricultura sem recorrer a substâncias químicas sintéticas, graças à utilização de produtos naturais e à promoção de processos ecológicos na sua produção. As técnicas agrícolas de precisão também facultam os meios necessários para redução da utilização de químicos.
Os usos e ocupação dos solos e a biodiversidade do local, são mais preservados, harmonizados e sinergicamente potencializados desta forma. Em muitas regiões a agricultura e a pecuária ainda são as principais fontes de geração de renda pelas comunidades locais. Quaisquer medidas destinadas a melhorar o sistema de produção devem ter estas dimensões sociais em consideração.
Ocorre estimar que cerca de um terço dos alimentos produzidos na Europa não seja consumido, havendo desperdício em todas as etapas da cadeia. A Comissão Europeia avalia que apenas este cenário seja responsável pelo desperdício de 90 milhões de toneladas de alimentos, o que equivale a cerca de 180 kg por pessoa.
Grande parte dos quais ainda em bom estado para o consumo humano. O desperdício de alimentos é identificado como um dos domínios a serem abordados no “Roteiro para uma Europa Eficiente na Utilização de Recursos”.
Para reduzir os desperdícios, uma das formas consiste em tentar preparar apenas a quantidade certa de alimentos para determinada refeição considerada. Outro método é usar a criatividade na utilização dos restos que sobram do dia anterior. Ainda assim, por mais que ocorra esforço, é inevitável que alguns alimentos acabem se transformando em resíduos sólidos de natureza orgânica. Os resíduos alimentares produzidos pelas famílias são uma mera fração da quantidade total de alimentos que se desperdiça.
Nos processos de produção, colheita, armazenamento, transporte e distribuição, também ocorrem muitas perdas relevantes. Não existem estimativas em nível de União Europeia sobre a quantidade de alimentos desperdiçados nas diversas etapas. Contudo, estão disponíveis algumas análises sobre países específicos.
A partir de um estudo da Agência de Proteção Ambiental sueca, realizado em 2012, ocorre indicação de que cada indivíduo desperdiça aproximadamente 127 kg de alimento por pessoa. Esta estimativa não inclui alimentos desperdiçados na fase de produção, tanto na agricultura como na produção de proteínas. Nem os resíduos de alimentos gerados por industrialização.
Datas dos “prazos de validade” apostas nos produtos alimentares não significam necessariamente que o produto fique impróprio para consumo, mas sim que a sua qualidade diminua a partir desse momento. Alguns produtos podem ser consumidos com segurança após a data indicada, mas não podem ser comercializados. A satisfação das expectativas dos consumidores também pode originar desperdício de alimentos na fase da venda a varejo.
O destino dos alimentos que não são vendidos depende das práticas de gestão dos resíduos. Podem ser utilizados como alimentos para animais, na compostagem ou na produção de energia, ou serem destinados para aterros sanitários. Sempre que se desperdiçam alimentos, ocorre desperdiçar também todos os fatores de produção. Assim, qualquer redução do desperdício de alimentos implica potenciais ganhos para o meio ambiente.
Para inserir esta questão no contexto mais geral da economia verde, o aumento da eficiência de recursos num sistema ajuda a reduzir a utilização de recursos noutros sistemas. Este é um cenário em que todos ganham. E onde ocorrem significativas melhorias ambientais e na qualidade de vida das populações. (ecodebate)

Aumenta a fome e a insegurança alimentar no Brasil

Renda per capita inferior a US 1,25/dia. Aumenta a fome e a insegurança alimentar no Brasil.
Apesar de o Brasil ter saído do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas – ONU há três anos, entidades da sociedade civil alertam para a possibilidade de a fome e a insegurança alimentar aumentarem no país. Segundo a pesquisadora Rosana Magalhães, o Banco Mundial tem projetado um aumento da pobreza extrema no país e se estima que até 10% da população terá uma renda per capita inferior a US 1,25/ dia neste ano. “O IBGE também reforça essa tendência, apontando que a quantidade de pessoas com renda inferir a 25% do salário mínimo tem crescido desde 2015. Em uma economia monetarizada como a nossa e frente à precariedade dos equipamentos públicos e fragilidade dos chamados buffers, ou seja, mecanismos de suporte social para ‘amortecer’ os impactos da crise econômica, é possível que a fome e a desnutrição voltem a ameaçar a população”, adverte.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-LineRosana ressalta que, apesar dos avanços das últimas décadas, “o Brasil continua sendo um país extremamente desigual”, porque as “políticas públicas permanecem apresentando baixa efetividade e pouco impacto redistributivo”. A pesquisadora também esclarece que a fome “não se resume à falta absoluta de alimentos, mas também às restrições qualitativas. Paradoxalmente o crescimento da obesidade expressa uma face da fome e da má nutrição na medida em que há, para além do excesso de calorias, fortes desequilíbrios nutricionais e frequentemente falta de alimentos protetores na dieta. Fome e pobreza não são sinônimos, mas claramente são condições fortemente associadas. Assim, em contextos onde existem desigualdades sociais de gênero, educação, étnicas, ocupacionais etc., sem dúvida estão também ameaçadas as chances de equilíbrio alimentar e superação da fome”.
Rosana Magalhães é graduada em Nutrição pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestra em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz e doutora em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente é pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz.
IHU On-Line – Nos últimos anos o Brasil se orgulhava de ter reduzido os índices de miséria e de pobreza, mas hoje fala-se da possibilidade de o país voltar a integrar o Mapa da Fome da ONU. O que aconteceu para que essa conquista fosse revertida? Quais diria que são as causas dessa reversão?
Rosana Magalhães – No contexto de recessão econômica e aumento do desemprego em que vivemos desde 2015, é possível que a pobreza extrema cresça, e com ela a insegurança alimentar e nutricional. O Banco Mundial tem projetado um aumento da pobreza extrema no país, ou seja, da parcela da população com renda per capita inferior a $1,25 dia. Esta parcela poderia alcançar até 10% do total da população brasileira em 2017. O IBGE também reforça essa tendência apontando que a quantidade de pessoas com renda inferir a 25% do salário mínimo tem crescido desde 2015. Em uma economia monetarizada como a nossa e frente à precariedade dos equipamentos públicos e fragilidade dos chamados buffers, ou seja, mecanismos de suporte social para “amortecer” os impactos da crise econômica, é possível que a fome e a desnutrição voltem a ameaçar a população.
IHU On-Line – Qual foi o impacto do Programa Bolsa Família na segurança alimentar e nutricional das famílias beneficiárias?
Rosana Magalhães – Existem estudos que revelam a melhora no acesso aos alimentos a partir do recebimento dos benefícios monetários previstos no programa de transferência condicionada de renda Bolsa Família. No entanto, há controvérsias no que se refere aos impactos nutricionais do programa. De um lado, o aumento da renda das famílias mais pobres pode de fato ter repercutido no maior consumo de frutas, verduras, leite e carnes. Por outro lado, o acesso a fast food, alimentos ultraprocessados e ricos em gorduras e açúcares também pode estar associado à maior elasticidade no orçamento familiar em contextos mais vulneráveis socialmente.
Sem dúvida os maiores avanços do programa Bolsa Família no que se refere ao quadro de saúde e nutrição da população estão ligados não só aos benefícios monetários, mas, sobretudo, ao seu potencial articulador de múltiplas políticas e ações intersetoriais como o acompanhamento do crescimento infantil, do pré-natal, a cobertura vacinal, a frequência escolar e as estratégias voltadas à geração de renda. Tais condicionalidades do programa podem favorecer a redução das iniquidades em saúde e ampliar as oportunidades sociais que certamente impactam o perfil alimentar e nutricional de uma maneira abrangente.
IHU On-Line – Quais são as principais causas da fome e da desnutrição alimentar no país? Em que medida a fome, a desnutrição e a insegurança alimentar ainda são problemas não resolvidos no Brasil?
Paradoxalmente o crescimento da obesidade expressa uma face da fome e da má nutrição
Rosana Magalhães – Apesar dos avanços das últimas décadas, o Brasil continua sendo um país extremamente desigual. Nossas políticas públicas permanecem apresentando baixa efetividade e pouco impacto redistributivo. Os recentes escândalos ligados à corrupção e ao uso predatório dos recursos públicos revelam o grande desafio que precisamos enfrentar a fim de garantir um futuro mais equitativo para as novas gerações.
A fome é um conceito amplo, não se resume à falta absoluta de alimentos, mas também às restrições qualitativas. Paradoxalmente o crescimento da obesidade expressa uma face da fome e da má nutrição na medida em que há, para além do excesso de calorias, fortes desequilíbrios nutricionais e frequentemente falta de alimentos protetores na dieta. Fome e pobreza não são sinônimos, mas claramente são condições fortemente associadas. Assim, em contextos onde existem desigualdades sociais de gênero, educação, étnicas, ocupacionais etc., sem dúvida estão também ameaçadas as chances de equilíbrio alimentar e superação da fome.
IHU On-Line – Quais são as políticas desenvolvidas para garantir a segurança alimentar e nutricional no país atualmente?
Rosana Magalhães – O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar e o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar são exemplos de iniciativas voltadas à garantia de maior capacidade produtiva e geração de renda entre os agricultores familiares. O Banco de Alimentos, que é um centro de recolhimento e distribuição de alimentos para diversas entidades e associações civis, também é uma iniciativa importante para diminuir a insegurança alimentar. Como um raro exemplo de continuidade e estabilidade ao longo de décadas, o Programa Nacional de Alimentação Escolar também revela a presença de políticas voltadas à promoção da segurança alimentar e nutricional, assim como diversas outras políticas na área.
A má alimentação está ligada à emergência de vários tipos de câncer, à hipertensão arterial, a diabetes, obesidade e inúmeras patologias
IHU On-Line – De que forma os problemas relacionados à fome e à desnutrição geram impacto na saúde e, nesse sentido, quais as consequências para o SUS?
Rosana Magalhães – A saúde é um conceito elástico e complexo e, sabemos, que não se esgota no cuidado e no acesso a serviços. Nessa perspectiva a questão alimentar e nutricional é também um componente indissociável da saúde, assim como o acesso à água, ao saneamento básico, à educação, ao pertencimento comunitário e todas as demais dimensões da “boa vida”. A má alimentação está ligada à emergência de vários tipos de câncer, à hipertensão arterial, a diabetes, obesidade e inúmeras patologias. A fome afeta o potencial de crescimento infantil e aumenta as taxas de mortalidade, sobretudo entre os menores de um ano e idosos. Neste aspecto, sem dúvida, é um fenômeno que deve ocupar de maneira prioritária a agenda do SUS.
IHU On-Line – O que seria, na sua avaliação, uma política ou um conjunto de políticas públicas adequadas para resolver o problema da fome e da insegurança alimentar no Brasil?
Rosana Magalhães – A maioria dos pesquisadores e estudiosos da área têm chamado a atenção para a necessidade de repensar o modelo de desenvolvimento econômico e social na perspectiva de orientar os esforços para a redução das desigualdades e respeito à diversidade cultural e ambiental. Nenhuma política ou programa poderá enfrentar a fome e a desnutrição de maneira isolada, descontextualizada e alheia às demandas sociais. Cada contexto local apresenta potencialidades e desafios próprios para garantir o melhor acesso aos alimentos em quantidade e qualidade adequadas a cada fase do ciclo da vida. Em alguns locais, a melhoria da qualidade da água consumida pela população pode ter profundo impacto na redução da desnutrição. Em outros, o desafio pode ser eliminar as desigualdades de gênero, implementar um Banco de Alimentos ou repartir de maneira mais justa a terra.
Também não podemos esquecer o impacto negativo da propaganda de alimentos ultraprocessados para o público infantil e que tende a ampliar problemas nutricionais. Portanto, as políticas públicas devem ser implementadas de maneira a respeitar tais características e desafios de cada contexto e favorecer a participação cívica, a intersetorialidade e a equidade. Com isso, é possível alcançar mudanças efetivas. (ecodebate)

terça-feira, 25 de julho de 2017

Interpretar a regeneração em terras desmatadas na Amazônia brasileira

É preciso interpretar a regeneração em terras desmatadas na Amazônia brasileira, aponta estudo.
Segundo a análise, vegetação secundária precisa ser incorporada às políticas públicas do Brasil.
O Climate Policy Initiative/ Núcleo de Avaliação de Políticas Climáticas da PUC-Rio (CPI/ PUC-Rio) lança, através do projeto INPUT, um estudo que alerta para a necessidade de interpretar o crescimento da regeneração que ocorre em terras desmatadas na Amazônia brasileira – conhecida como vegetação secundária. A análise é um primeiro passo para auxiliar formuladores de políticas públicas a se atentarem para a regeneração florestal, a fim de promover uma política eficaz de conservação e de uso da terra.
De acordo com dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), quase um quarto da área desmatada na Amazônia brasileira até 2014 continha indício de regeneração, totalizando 17 milhões de hectares de vegetação secundária. Apesar disso, a regeneração permaneceu invisível por muito tempo. Um dos motivos é uma característica dos atuais sistemas brasileiros de monitoramento e quantificação de desmatamento, que foram desenhados para detectar apenas vegetação primária.
Segundo o estudo do CPI/ PUC-Rio, ainda não é claro o que está por trás desse crescimento. Pouco se sabe se as políticas públicas inibiram ou provocaram a regeneração em áreas desmatadas e não há evidências que permitam concluir se a expansão da vegetação secundária resultou do combate ao desmatamento na Amazônia. Entretanto, sabe-se que houve aumento na extensão da cobertura vegetal em áreas desmatadas sem que houvesse esforços de políticas específicas nessa direção.
“Nosso estudo nos leva a uma conclusão clara: a vegetação secundária precisa ser incorporada às políticas de conservação da Amazônia”, alerta Juliano Assunção, diretor executivo do CPI no Brasil e professor do Departamento de Economia da PUC-Rio. “A falta de conhecimento sobre o aumento da vegetação secundária na Amazônia impõe a necessidade de mais pesquisa sobre o assunto. É preciso interpretar os dados com análises e métodos rigorosos para que seja possível entender o que provocou esse crescimento”.
Os pesquisadores do CPI/ PUC-Rio recomendam quatro prioridades de análise para uma melhor compreensão da natureza e da dinâmica da vegetação secundária. Primeiro, é preciso determinar o impacto das políticas de desmatamento sobre a regeneração florestal. Segundo, cabe entender se o aumento da regeneração representa ineficiências no padrão de uso da terra na Amazônia. Terceiro, é importante avaliar de que forma a regeneração florestal se integra ao novo Código Florestal. Finalmente, vale identificar como a regeneração florestal afeta as metas brasileiras de redução de emissões. (ecodebate)

Empresa da Noruega lucra desmatando a Amazônia legalmente

Vejam como são as coisas. O Presidente do Brasil foi admoestado na Noruega porque não se esforça para proteger a Amazônia dos brasileiros que vivem nela. Mas, ao que parece, o Brasil também não se esforça para proteger a Amazônia dos noruegueses. A Noruega exigiu que o presidente do Brasil vetasse uma Medida Provisória que beneficiava centenas de amazônicas que vivem numa região do Pará, porque, segundo os noruegueses, o texto significava a desproteção da floresta. Temer vetou o texto e prejudicou o povo da Amazônia para atender a Noruega. Ainda assim, além do constrangimento público que impôs ao presidente do Brasil, que chegou a incomodar as forças armadas brasileiras, a Noruega retaliou cortando pela metade a doação que faz ao Brasil por meio do Fundo Amazônia.
Pelo jeito a Noruega não quer desmatamento na Amazônia, não é?
Só que não.
Situação da mina norueguesa na Amazônia antes do início da exploração.
O Governo norueguês é dono de 43,8% de uma empresa gigantesca chamada Norsk Hydro. A empresa que administra o fundo de previdência da Noruega é dona de outros 6,5% da empresa. Ou seja, o povo da Noruega controla as ações da Norsk Hydro.
Situação da mina em 2010 quando a norueguesa Norsk Hydro comprou a exploração da Vale S.A.
A Norsk Hydro comprou, em 2010, todos os ativos de alumínio da Vale S.A. Curiosamente, o negócio foi concluído no dia 16 de dezembro de 2016, três dias antes da assinatura da Medida Provisória nº 756/2016.
Entre os ativos de alumínio que a Noruega comprou da Vale S.A. no Brasil está uma mina de bauxita na Amazônia.
A bauxita é base para produção de alumínio. A bauxita tem ainda outra curiosidade, normalmente está disposta em uma camada do solo. Isso significa que mina de bauxita não faz um buraco no chão, como mina de ferro. Para extrair bauxita, a mineradora precisa arrancar toda a floresta, retirar a camada superior do solo para alcançar o mineral.
Situação da mina da Noruega na Amazônia no ano passado.
Para explorar bauxita na mina que comprou da Vale na Amazônia, a Norsk Hydro, que pertence ao Governo da Noruega, precisa desmatar a floresta da Amazônia.
Este blogger passou dez minutos navegando no site da Secretaria de Meio Ambiente do estado da Amazônia onde fica a mina de bauxita da Noruega.
Encontrei quinze autorizações de desmatamento emitidas entre 2009 e 2016. Juntando tudo, a Noruega tem autorização para desmatar 4.495 hectares de floresta amazônica.
Eis uma delas:
O Rei da Noruega dando arrocho no presidente do Brasil para mandar o IBAMA multar o povo da Amazônia por desmatamento enquanto ele mesmo coleta uns caraminguás desmatando floresta na Amazônia.
Repare o leitor que eu estou tentando, na medida do possível, poupar a mineradora. Isso porque o desamamento que a Norsk Hydro promove é legal, tem licença ambiental, contrapartidas ao meio ambiente e previsão de recuperação da área no futuro. Com base nessa exploração, a região onde fica a mina empregou pessoas na economia da mineração e pode sufocar a economia de fronteira.
O impacto ambiental que Norsk Hydro causa com a mina possibilitou o fim da economia convencional que causava ainda mais impacto. É um caso semelhante ao de Manaus, cuja economia sustenta o estado do Amazonas sem que seja necessário grandes investimentos em agricultura ou pecuária.
Ou seja, o desmatamento que a Noruega promove na Amazônia por meio da Norsk Hydro é bom. É um exemplo de como desenvolver a Amazônia substituindo uma economia de alto impacto ambiental por outra de menor impacto ambiental.
É o contrário do que faz o IBAMA na região da BR-163. Lá, o IBAMA, financiado pela Noruega por meio do Fundo Amazônia, batalha para sufocar a economia de alto impacto ambiental com multas e prisões, mas não põe absolutamente nada no lugar dos empregos e do dinamismo econômico que sufoca.
O que o governo brasileiro faz na BR-163 para atender as vontades da Noruega é um crime justificado pela necessidade de proteger o meio ambiente. É um crime justificado, como descreveu Camus em O Homem Revoltado.
A Noruega ajudaria o Brasil se apertasse o Governo brasileiro para replicar na Amazônia a experiência da Norsk Hydro. O Rei da Noruega faria melhor se enviasse a Norsk Hydro par minerar qualquer coisa na região da BR-163 de maneira e empregar as pessoas em uma economia de menor impacto ambiental. Dessa forma, não seria mais necessário a economia de alto impacto e aí sim, seriam morais as multas do IBAMA e o comando e controle de Sarney Filho.
Em tempo, a maior parte dos projetos financiados com os recursos que a Noruega manda ao Brasil por meio do Fundo Amazônia é de ONGs ambientalistas. Quem perde com o corte da verba anunciado pela Noruega não é o Brasil, nem a Amazônia. Quem perde com o corte dos repasses noruegueses ao Fundo Amazônia são as ONGs. A Noruega deveria cortar 100%.
Aliás, começou a circular em Brasília a informação de que o governo Temer estuda recusar 100% das "doações" da Noruega com o governo assumindo o ônus ainda este ano por meios recursos no orçamento de 2018. Se quiser mesmo fazer isso, Temer não precisa substituir todo o valor por recursos orçamentários. Como expliquei: A maior parte dos projetos financiados pelo Fundo Amazônia sã os de Ong’s ambientalistas.
Apenas em 2017, alguns caraminguás passaram a incrementar o orçamento do IBAMA.
Temer pode cortar as doações tranquilamente. Corta tudo, Temer. (noticiasagricolas)