quinta-feira, 31 de maio de 2018

Risco do Brasil voltar ao Mapa da Fome

Edição de março da revista Radis/Fiocruz destaca risco do Brasil voltar ao Mapa da Fome.




Cícera João da Silva tem medo de quase nada nesta vida. Aos 52 anos, lida com o roçado desde que se entende por gente — primeiro, ajudando o pai com a enxada na plantação; depois, cultivando a terra noite e dia para criar os três filhos de um casamento que acabou ela nem lembra quando. Hoje, morando sozinha na casa de taipa com rachaduras na parede onde pendura os retratos da família, não se assusta nem mesmo com os ladrões, que agora intimidam a região e outro dia lhe roubaram as galinhas que criava para vender na feira. Mas Dona Ciça, como é chamada pelos vizinhos de Cachoeira de Pedra D´água, comunidade da pequena Massaranduba, no interior da Paraíba, tem medo da fome.
Diz que vai trabalhar enquanto tiver forças e é justamente limpando a roça para o plantio do milho, da fava, do feijão, à espera de um bom inverno, que a reportagem da Radis encontra a agricultora, sob o sol escaldante do meio-dia, em uma 5ª feira de fevereiro. Para sobreviver, além de plantar e de manter a fé “em Deus e Nossa Senhora”, ela conta com os R$ 100 que recebe mensalmente do Bolsa Família, programa de transferência de renda do governo federal voltado para quem vive em situação de vulnerabilidade e de extrema pobreza no país. É com esse recurso que Dona Ciça paga a luz, em torno de R$ 22 por mês, e o gás de cozinha que, somente entre agosto e dezembro de 2017, teve seis aumentos consecutivos. Ainda ajuda os filhos e os seis netos como pode. Com o que sobra, alimenta-se. “O que dá eu compro; o que não dá, eu não compro”, revela. Naquele dia, ia almoçar feijão.
A vida já esteve melhor para Dona Ciça e pelo menos outros 2,5 milhões de brasileiros que podem ter cruzado de volta a linha da pobreza. Apenas três anos após deixar de figurar entre os países que integram o Mapa da Fome — relatório produzido pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO/ONU) —, o Brasil corre o risco de retornar a essa lista nada honrosa. A advertência feita em dezembro pelo diretor geral da FAO, o brasileiro José Graziano da Silva, reforça o alerta disparado seis meses antes por um grupo de 20 entidades da sociedade civil brasileira que divulgaram um documento apontando na mesma direção. Intitulado Relatório Luz, o estudo indica a iminência de o Brasil voltar ao mapa, um resultado preocupante diante dos compromissos de erradicar a pobreza e eliminar a fome, assumidos como parte dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, a serem cumpridos até 2030.
Que fique claro, o Mapa da Fome é um indicador elaborado pela FAO que, desde 1990, periodicamente, combina dados e analisa a situação de segurança alimentar da população mundial, fazendo projeções e traçando diagnósticos nos diferentes países e regiões do globo. Estar incluído no mapa significa ter parte considerável da população em situação de insegurança alimentar, ingerindo uma quantidade diária de calorias inferior ao recomendado. O Brasil saiu do mapa em 2014. Isso não significa que a fome havia acabado, mas que pela primeira vez em sua história o país teve menos de 5% de sua população subalimentada. Naquele ano, como constatado pela FAO, esse índice foi de 3%.  Parecia que a fome finalmente tinha deixado de ser tratada como fenômeno natural. E o país de Josué de Castro e Herbert de Souza, o Betinho — ativistas que sempre deram à fome um estatuto político e econômico —, comemorou o resultado.
“Especialmente a partir do Programa Fome Zero, a questão da fome passa a ter relevância na agenda política no Brasil. Por isso houve melhora dos índices de insegurança alimentar e o país saiu do Mapa da Fome”, aponta a antropóloga Maria Emília Pacheco, assessora nacional da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) e ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Criado em 2003 durante o primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Fome Zero articulou políticas emergenciais de combate à fome com políticas públicas estruturais. Segundo a ONU, entre 2003 e 2010, 24 milhões de brasileiros deixaram a linha da extrema pobreza. Ainda de acordo com os indicadores, de 2002 a 2013, a população de brasileiros considerados em situação de subalimentação caiu em 82%.
Em entrevista à Radis, Maria Emília recorda que, na crise global de 2008, debates realizados no âmbito do Consea avaliaram que os impactos no Brasil vinham sendo atenuados graças a medidas como a ampliação da produção apoiada em políticas públicas, especialmente aquelas voltadas para a agricultura familiar, responsável por cerca de 70% dos alimentos consumidos no país. A antropóloga se refere à política de crédito e programas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) e o Programa Água para Todos no semiárido. “Essas medidas foram combinadas com a oferta de emprego, recomposição do salário mínimo, programa de transferência de renda e garantia de direitos adquiridos da previdência social”, acrescenta.
Agora, o velho fantasma volta a assustar. “A fome está muito associada à pobreza extrema, e temos preocupação sobre políticas de restrições orçamentárias que estão sendo implementadas”, afirmou o economista Francisco Menezes, pesquisador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), em entrevista ao Nexo Jornal, durante apresentação do “Relatório Luz”, em julho de 2017. Ele se referia a medidas como a Emenda Constitucional 55, que congela os gastos públicos por 20 anos, e cortes em programas como o Bolsa Família, que teve 1,1 milhão de benefícios cancelados ou bloqueados pelo governo. Os retrocessos nas políticas públicas também foram apontados por todos os especialistas ouvidos por Radis como ameaças na luta contra a fome.
Para José Graziano, em um cenário de crise econômica e com condições adversas com o aumento dos índices de desemprego, por exemplo, torna-se essencial a manutenção dos investimentos sociais. “O que se noticia, porém, são cortes nos orçamentos dos programas sociais e das redes de proteção social”, lamenta o diretor-geral da FAO (leia entrevista na pág. 25). Além do enxugamento no Bolsa Família, que deixa Dona Ciça apreensiva a cada vez que se dirige à casa lotérica em busca do benefício, outros programas perderam orçamento. O PAA, por exemplo, que favorece a aquisição direta de produtos de agricultores familiares ou de suas organizações para distribuição em hospitais, escolas e presídios, sofreu uma redução orçamentária de 40% no último ano, diminuindo de 91,7 mil para 41,3 mil o número de pessoas atendidas, segundo dados da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA Brasil). (ecodebate)

Desmatamento aumenta na Amazônia

Desmatamento aumenta na Amazônia. Flona do Jamanxim é afetada
Em abril de 2018 o SAD detectou 217 km² de desmatamento na Amazônia Legal, um aumento de 84% do desmatamento em relação a abril de 2017.
Desmatamento na Amazônia em abril 2018 é 84% maior do que mesmo período do ano anterior.
Os Estados do Mato Grosso e Amazonas foram o que mais desmataram no mês. O Pará tem um ponto de atenção com a retomada do desmatamento dentro da Flona do Jamanxim, com 18 km² de desmatamentos detectados em abril de 2018.
Em abril de 2018, o SAD detectou 217 km² de desmatamento na Amazônia Legal. Neste boletim, a fração de desmatamento entre 1 e 10 hectares foi de 18% do total detectado (39 km²). Considerando somente os alertas a partir de 10 hectares, houve aumento de 84% em relação a abril de 2017, quando o desmatamento somou 97 km². Em abril de 2018, o desmatamento ocorreu no Mato Grosso (50%), Amazonas (23%), Pará (19%), Roraima (5%) e Rondônia (3%).
As florestas degradadas na Amazônia Legal somaram 8 km² em abril de 2018, o mesmo valor detectado em abril de 2017. Em abril de 2018 a degradação foi detectada somente no Mato Grosso. (ecodebate)

terça-feira, 29 de maio de 2018

Desmatamento recorde em Terras Indígenas

Desmatamento recorde em Terras Indígenas tem garimpo e madeira ilegal como protagonistas.
Desmatamento ilegal abate área recorde de floresta em 7 Terras Indígenas entre Rondônia e Mato Grosso.
Um dos mais importantes redutos de biodiversidade e preservação cultural indígena da Amazônia, o Corredor Tupi-Mondé perdeu o equivalente a 2,7 mil campos de futebol de florestas em 2017.
Dados consolidados das perdas florestais mostram que o desmatamento e a exploração de recursos naturais avançaram de modo desenfreado no Corredor Tupi-Mondé durante 2017. As perdas no ano totalizaram 2,3 mil hectares (área equivalente a 2,7 mil campos de futebol).

O alerta vem de um monitoramento independente, conduzido pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), juntamente com a Equipe de Conservação da Amazônia (Ecam), Associação Metaleirá do Povo Indígena Suruí (Gamebey) e Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé. Para realizá-lo, foi utilizado o aplicativo Global Forest Watch (GFW), que permite combinar imagens de satélite, dados abertos e informações locais para identificar ameaças importantes de desmatamento, suas causas e agentes.
Situado entre Rondônia e Mato Grosso, o corredor Tupi-Mondé tem uma área total de 3,5 milhões de hectares (equivalente ao território da Bélgica) e é um importante reduto de biodiversidade e preservação da cultura e do modo de vida tradicional de cinco etnias que ali habitam: Arara, Cinta Larga, Gavião, Paiter Suruí e Zoró.
É uma população de quase seis mil pessoas ocupando sete Terras Indígenas (TIs), das quais a Sete de Setembro encabeça a lista do desmatamento, com perda de 930 hectares de cobertura florestal em 2017, mais do que o dobro registrado na TI Roosevelt, segunda do ranking, com perda de 407 hectares de florestas. As TIs Serra Morena e Aripuanã foram as menos atingidas, com perdas em torno de 70 hectares de florestas no ano passado.
Como resultado das sucessivas perdas, os índices de cobertura florestal oscilam hoje, nas TIs mais degradadas, entre 93% (TI Parque do Aripuanã) e 95% (TIs Roosevelt, Sete de Setembro, Zoró) e 99% nas melhor conservadas (TIs Aripuanã e Serra Morena). A TI Igarapé Lourdes registra atualmente 96% de cobertura vegetal.
“A porcentagem de perda parece pequena, mas é alarmante, pelo grande valor estratégico do Tupi-Mondé, uma ilha de conservação florestal em pleno arco do desmatamento na Amazônia”, segundo Pedro Soares, gerente do Programa de Mudanças Climáticas do Idesam. “Especialmente, porque essa situação faz com que a região se torne alvo de grande pressão do entorno, já tomado por centros urbanos, estradas e esgotamento de recursos naturais”, alerta.
Arildo Suruí, coordenador geral da Metaleirá, também demonstra preocupação com o ritmo da degradação florestal local: “A TI Sete de Setembro está sob forte pressão de invasores e indígenas ligados ao garimpo e à exploração ilegal de madeira. E o governo não promove condições de conservação”, diz ele.
Segundo Soares, o desmatamento local conta com a ausência de fiscalização para prosperar e obedece a um ciclo bem conhecido, no qual o garimpo e a extração ilegal de madeira são os primeiros a se instalar, logo seguidos pela pecuária.
Os dois primeiros degradam a floresta e geram o capital necessário para investimentos em pastagens e compra de gado, que se tornam atividades perenes. “O final é conhecido: instala-se uma pecuária extensiva, sem tecnologia, que abriga 0,5 cabeça de gado por hectare onde poderia haver quatro. Com isso, o modo de vida indígena é destruído, gera-se pouca riqueza, a terra se esgota rapidamente e surge a necessidade de desmatar novos territórios para recomeçar”, constata o especialista do Idesam.
“O desafio de conservação das TIs do Tupi-Mondé é enorme, devido à expansão da pecuária e à retirada de madeira. Ainda existe um longo caminho a ser percorrido para promover um desenvolvimento sustentável nesses territórios”, afirma Josias Gavião, líder do Povo Indígena Gavião.
Os dados estão detalhados no Boletim do Desmatamento do Tupi-Mondé, edições 1 e 2, que podem ser acessados em: idesam.org/boletim-desmatamento-corredor-tupi-monde.


(ecodebate)

Desmatamento esquenta riachos e encolhe peixes na Amazônia

Estudo mostra que desmatamento esquenta riachos e encolhe peixes na Amazônia.
O desmatamento está fazendo peixes encolherem em uma região da Amazônia. A conclusão é de um estudo recém-publicado, que mostrou como o aquecimento dos riachos provocado pela derrubada da mata e pela construção de barragens afetou a qualidade de habitat para os peixes, impactando na diminuição média de 36% do tamanho de algumas espécies.
De acordo com um dos autores do trabalho, o ecólogo Paulo Ilha, pesquisador associado do IPAM, a retirada da cobertura vegetal, seja para pastagem ou plantação de soja, facilita a erosão e o transporte de sedimentos para dentro dos rios, modifica características físico-químicas da água, a disponibilidade de alimento e abrigo para os animais aquáticos. A construção de barragens também contribui com essa alteração da paisagem para o aquecimento da água, que influencia diretamente a biodiversidade do local.
“Embora se saiba há muito tempo que em ambientes mais quentes o tamanho dos organismos costuma ser relativamente menor, e que o aquecimento ambiental pode provocar reduções, nenhum estudo havia testado a hipótese de que o aumento da temperatura da água em riachos provocado pela conversão de florestas em áreas agrícolas poderia reduzir o tamanho dos peixes.”
A pesquisa de campo foi realizada na Fazenda Tanguro, no Nordeste de Mato Grosso, local em que o Projeto Tanguro, liderado pelo IPAM, desenvolve desde 2004 pesquisas sobre a interação entre mudanças climáticas, floresta e agricultura. Os pesquisadores analisaram o tamanho dos peixes em pontos com diferentes usos da terra, foram em seis riachos, sendo três em áreas de florestas e três em áreas agrícolas.
O estudo envolveu 36 espécies presentes nas bacias dos rios Darro e Tanguro. As análises indicam que quatro das seis espécies mais presentes nos riachos diminuíram de tamanho corporal, entre 43% e 55%, nas áreas agrícolas.
Para confirmar a hipótese, o pesquisador realizou um experimento no laboratório da Universidade de São Paulo (USP), onde foram criados peixes de uma espécie nativa (Melanorivulus zygonectes) em temperaturas semelhantes às dos riachos agrícolas e de floresta.
“Os peixes criados em temperatura semelhante às dos riachos agrícolas perderam massa, diminuindo de tamanho, enquanto os peixes criados em temperatura semelhante às dos riachos de florestas cresceram”, afirma Ilha. A pesquisa não investigou os mecanismos fisiológicos que levam à diminuição do tamanho dos peixes, mas constatou que a temperatura da água é um fator preponderante.
Estudos anteriores constataram que córregos com áreas desmatadas são de 3oC a 4°C mais quentes do que em áreas florestadas. A temperatura é um dos fatores mais importantes para a distribuição dos organismos, as interações e as funções ecológicas das comunidades.
“As conclusões do estudo podem ter implicações para a conservação de peixes em resposta ao aquecimento provocado por mudanças climáticas e no uso da terra”, diz Ilha. “Alterações no tamanho do corpo podem afetar praticamente todos os aspectos da biologia de um organismo, de sua fisiologia à história de vida, interações ecológicas, e funções ecossistêmicas, incluindo provisão de alimento e renda para seres humanos.”
Este estudo fez parte da tese de doutorado de Ilha, feita na USP sob orientação do ecólogo Luis Schiesari, e contou com a colaboração de Fernando Yanagawa, do professor Carlos A. Navas, e da pesquisadora KathiJo Jankowski.
 O Projeto Tanguro é um esforço científico com o objetivo de conciliar a produção de alimentos e a integridade ambiental com as mudanças climáticas globais e locais. Ele é composto por um grupo interdisciplinar de pesquisadores, sob a coordenação do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e com a colaboração da AMAGGI, cuja Fazenda Tanguro, localizada em Querência (MT), serve como centro de experiências do projeto. (ecodebate)

Imazon revela 287 km2 de desmatamento amazônico

Boletim do Imazon revela 287 km2 de desmatamento na Amazônia Legal em março de 2018.
Boletim do desmatamento da Amazônia Legal (março 2018) SAD.
Fonseca, A., Justino, M., Cardoso, D., Ribeiro, J., Salomão, R., Souza Jr., C., & Veríssimo, A. 2018. Boletim do desmatamento da Amazônia Legal (março 2018) SAD (p. 1). Belém: Imazon.
Em março de 2018, o SAD detectou 287 km2 de desmatamento na Amazônia Legal. Neste boletim, a fração de desmatamento entre 1 e 10 hectares foi de 18% do total detectado (44 km2). Considerando somente os alertas a partir de 10 hectares, houve aumento de 249% em relação a março de 2017, quando o desmatamento somou 71 km2. Em março de 2018, o desmatamento ocorreu no Mato Grosso (40%), Roraima (21%), Pará (18%), Amazonas (14%) e Rondônia (7%).
As florestas degradadas na Amazônia Legal somaram 102 km2 em março de 2018. Em relação a março de 2017 houve aumento de 28%, quando a degradação florestal somou 74 km2. Em março de 2018 a degradação foi detectada em Roraima (95%) e Mato Grosso (5%). (ecodebate)

domingo, 27 de maio de 2018

Biodiversidade e as mudanças climáticas no Brasil

Qual a importância da biodiversidade no Brasil e a sua relação com o debate global das mudanças climáticas?O que sabemos sobre a biodiversidade e as mudanças climáticas no Brasil?
Análise da bibliografia nacional feita pelo WWF-Brasil destaca maiores ameaças de perda da vida no país e a necessidade de mais pesquisas sobre o tema.
Para que mais pessoas se interessem pelo tema e conheçam a produção técnico-científica já produzida até este momento no país, Dia Internacional da Biodiversidade, o WWF-Brasil lançou a publicação Biodiversidade e Mudanças Climáticas no Brasil – Levantamento e Sistematização de Referências. O material apresenta diversos estudos e autores, além de identificar lacunas de conhecimento para incentivar a elaboração de novas pesquisas.
O Dia Internacional da Biodiversidade é uma data comemorativa instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) para chamar a atenção da população mundial para a importância da diversidade biológica e para a necessidade de proteção da biodiversidade em todos os ecossistemas do planeta.
Nessa agenda, o clima é fator determinante para a distribuição dos seres vivos no planeta. Ao longo dos últimos milhares de anos, cada espécie desenvolveu as características específicas para sua sobrevivência de acordo com seu habitat.
Além das muitas ameaças que já afetam a integridade dos ecossistemas naturais e sua biodiversidade, como desmatamento, queimadas e poluição, os efeitos previstos das mudanças do clima devem gerar consequências ainda mais graves à vida. Para continuar a existir, as espécies deverão se adaptar ou migrar para locais com condições climáticas mais adequadas.
Com o objetivo de conhecer e divulgar a produção científica brasileira, o WWF-Brasil convidou a pesquisadora Priscila Lemes, Doutora em Ecologia e Evolução pela Universidade Federal de Goiás, para fazer um levantamento bibliográfico sobre estudos e pesquisas relacionando biodiversidade e mudanças climáticas no Brasil.
Mais pesquisas no Brasil
Desde o início do século XX, há estudos internacionais que avaliam a influência das variações do clima sobre as espécies. Já no Brasil, a análise da relação clima e biodiversidade ainda é recente. A quantidade de trabalhos sobre o tema só começou a ganhar volume a partir de 2007 – e por meio de modelagens. Ainda é necessária a realização de estudos com abordagens que envolvam a observação direta.
De acordo com o diretor executivo do WWF-Brasil, Mauricio Voivodic, um dos grandes desafios na relação entre mudanças climáticas e biodiversidade é saber se as espécies se adaptarão rápido o suficiente para acompanhar as alterações em curso – e as respostas serão diferentes de acordo com cada espécie. “A análise dos impactos negativos das mudanças climáticas na biodiversidade brasileira é fundamental para definir as medidas que precisamos tomar para enfrentar esse problema, com metas nacionais mais ambiciosas na defesa da vida”, afirma Voivodic.
Mapa dos estudos
O levantamento solicitado pelo WWF-Brasil encontrou 110 estudos sobre o tema. Desses, mais de 80 foram publicados nos últimos cinco anos. Há também um predomínio de estudos sobre a vulnerabilidade de plantas, animais e ecossistemas terrestres em relação à biodiversidade em ambientes marinhos e de água doce. Uma mostra disso é que as plantas são o grupo mais analisado, com 33 documentos. Já os peixes são menos estudados, com apenas dois estudos.
Em relação à localização dos estudos, foram encontrados 18 documentos com abrangência nacional, e o mesmo número com foco no bioma Mata Atlântica. O Cerrado é tema de 16 estudos, a Amazônia, de 11, e a Caatinga, de quatro. Foram encontrados 15 trabalhos científicos tendo como escopo a América Latina. Dois documentos não reportaram uma localização específica.
O levantamento Biodiversidade e Mudanças Climáticas no Brasildestaca ainda que as áreas protegidas são essenciais para a manutenção da biodiversidade e a mitigação dos efeitos das mudanças do clima. Porém, diferentes pesquisas questionam se as áreas protegidas já estabelecidas serão suficientes para salvaguardar a fauna e flora brasileiras dos biomas. Um dos motivos é que a perda e a fragmentação de habitats impõem obstáculos ao deslocamento das espécies para locais de clima mais adequado. A combinação de diferentes ameaças pode alterar a magnitude e o padrão espacial da perda da biodiversidade.
“Nos estudos levantados, fica clara a necessidade de medidas da redução da vulnerabilidade dos ecossistemas. No caso das florestas tropicais, além das mudanças climáticas, há a constante ameaça de desmatamento. É necessário haver um fortalecimento de ações de conservação e recuperação para aumentar a conectividade dos ecossistemas remanescentes, com a consolidação de unidades de conservação, refletindo uma gestão florestal integrada da paisagem”, afirma André Nahur, coordenador do Programa Clima e Energia do WWF-Brasil.
A publicação destaca resultados importantes para a biodiversidade e para a própria economia do país, com migração ou extinção de culturas ou espécies nativas importantes, como é o caso do pequi, típico da região centro-oeste, cuja diminuição trará implicações na economia de vários municípios, afetando também comunidades tradicionais que têm na agrobiodiversidade uma fonte de sustento.
“Outras espécies, como o jaborandi, a arnica ou outras que nem mesmo conhecemos ainda, são importantes para a área medicinal e correm risco de extinção local. Estudar e entender os efeitos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade é essencial para identificar alternativas para lidar com a ameaça da perda e extinção de espécies, fundamentais para a qualidade de vida do ser humano”, afirma a pesquisadora Priscila Lemes.
Destaques do levantamento:
Plantas
· Todas as populações naturais de jaborandi (Pilocarpus microphyllus), espécie de planta medicinal de diferentes usos (expectorante, tônico capilar, anti-reumático e tratamento oftalmológico) serão perdidas quando o clima se tornar menos adequado; contudo, se habitat naturais forem protegidos e restaurados, é provável que a espécie persista em longo prazo (Zwiener et al., 2017).
· No Cerrado, as projeções do clima futuro devem ser especialmente severas para as plantas. No final do século, a mangaba (Hancornia speciosa), rica em vitamina C e cujo leite é fonte de medicamentos para tuberculose e úlceras, e a arnica (Lychnophora ericoides), famosa por sua ação anti-inflamatória, poderão ter mais de 90% da distribuição atual reduzida (Simon et al., 2013). Já o pequi (Caryocar brasiliense) poderá sofrer uma forte diminuição da diversidade genética (Nabout et al., 2011; Colevatti et al., 2011), resultando em grandes perdas econômicas para os extrativistas.
· Na Mata Atlântica, que atualmente tem menos de 12% da cobertura vegetal nativa, haverá redução de 25 a 50% na distribuição de 38 espécies lenhosas (Joly & Colombo 2010).
· No caso do ipê-amarelo (Tabebuia aurea), muitos alelos têm potencial perdido como efeito do aquecimento global, resultando em perda de variação entre populações (Lima et al., 2017) e aumentando os riscos de extinção local.
Vertebrados
· No Brasil, os pontos de maior ocupação humana possivelmente vão ser palco de maior tensão para a conservação. O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e o tatu-canastra (Priodontes maximus) talvez sofram redução na distribuição geográfica (Zimbres et al., 2012).
· A combinação de mudança do clima e redução da cobertura florestal deve causar o declínio demográfico de todas as espécies do gênero Callicebus, primata de médio porte conhecido como sauá ou guigó, no leste do Brasil (Gouveia et al., 2016).
· Na Mata Atlântica, o desmatamento pode ter repercussão imediata na riqueza de espécies, como no caso das aves (Loiselle et al., 2010), tornando-se mais grave quando combinada com as condições climáticas em curso. Com isso, prevê-se uma diminuição de até 45% da distribuição geográfica de aves endêmicas e ameaçadas (Souza et al., 2011).
· Algumas espécies, como o jacu-de-barriga-castanha (Penelope ochrogasteri), terão reduções de até 80% na distribuição geográfica no clima atual (Marini et al., 2009b).
· O papa-mosca-de-costas-cinzentas (Polystictus superciliaris), deve ter uma distribuição menor em 22% a 75% (Hoffmann et al., 2015).
· A serpente Phalotris lativittatus, endêmica do bioma do Cerrado, deve diminuir sua extensão territorial em até 70%, até 2050, além de um deslocamento para o oeste (Vasconcelos, 2014).
· Os anfíbios têm características que os tornam mais sensíveis às alterações no ambiente, já que sua fisiologia e seu comportamento alteram diante da temperatura (Navas et al., 2013). Eles também precisam de água para a reprodução ou, pelo menos, de microambientes mais úmidos (Haddad et al., 2013). Isso significa que as alterações na precipitação e na disponibilidade de água devem reduzir sua biodiversidade.
Ecossistemas e serviços ecológicos
Os polinizadores, fundamentais na provisão de serviços ecossistêmicos essenciais aos sistemas naturais e à agricultura, também podem ser afetados pela mudança do clima. As mudanças climáticas podem afetar a distribuição geográfica, a abundância local e a sincronia no florescimento das plantas e na atividade dos polinizadores (Hegland et al., 2009).
Giannini e colaboradores (2017) analisaram a distribuição potencial de 95 espécies de polinizadores relevantes a 13 tipos de lavouras, cujas projeções apontam para a redução de áreas climaticamente adequadas a espécies de polinizadores e sua influência na produção de culturas. Considerando-se esse cenário, é prevista a desaceleração da produtividade nas plantações, independentemente do déficit de polinização.
Isto pode resultar em prejuízos à renda agrícola, reforçando a vulnerabilidade socioeconômica em face das alterações em curso (Giannini et al., 2017).

A abelha Xylocopa hirsutissima poderá ter uma severa perda de área adequada (93,7%) e se deslocar para a região norte do Cerrado (Gianinni et al., 2013).
Doenças emergentes
· O aumento da temperatura e a incidência de secas, resultantes desse processo, podem alterar a distribuição, a densidade e a prevalência de doenças transmitidas por vetores (dengue, leishmanioses, malária, febre amarela etc.), e levar à adaptação de vetores e hospedeiros a novos ciclos de transmissão em vista do impacto das condições climáticas no desenvolvimento, no comportamento e na vida-útil de muitos insetos (Mills et al., 2010; Campbell-Lendrum et al., 2015).
· A perigosa combinação de altas temperaturas, baixa disponibilidade de água e perda e fragmentação de habitat na Amazônia pode elevar a importância de vetores secundários do mosquito do complexo Albitarsis na transmissão da malária na América do Sul (Laporta et al., 2015). Além disso, dois vetores de malária no norte da América do Sul, Anopheles darlingi e Anopheles nuneztovari s.l., podem expandir suas distribuições geográficas em locais onde também houve a fragmentação do habitat (Alimi et al., 2015).
· No Brasil, estima-se uma provável expansão do mosquito Aedes aegypti para o sul até 2050 (Cardoso-Leite et al., 2014).
Há evidências da existência de uma relação entre as condições climáticas atuais e futuras e o aumento da incidência de leishmaniose (Mendes et al., 2016; Piggot et al., 2014), assim como da influência da mudança do clima nos vetores da doença (González et al., 2010; Moo-Llanes et al., 2013).
Biodiversidade e Mudanças Climáticas no Brasil. (ecodebate)

Mudança climática requer gestão policêntrica dos recursos hídricos

Efeitos das mudanças climáticas requerem uma gestão policêntrica dos recursos hídricos.
Os efeitos das mudanças climáticas sobre os recursos hídricos exigirão um novo tipo de gestão para evitar futuras crises hídricas, a exemplo da que aconteceu em São Paulo entre 2013 e 2015. Segundo Bruno Puga, economista e mestre em desenvolvimento econômico, o aumento da temperatura terá um impacto na evapotranspiração, alterando os ciclos hidrológicos. “Além de mais frequentes, a intensidade destes eventos deverá ser muito maior, alterando a distribuição de chuvas e os padrões históricos. Isso exigirá uma abordagem distinta do que estamos acostumados, colocando a incerteza dentro do processo de tomada de decisão”, afirma.
Autor da tese de doutorado intitulada Governança dos recursos hídricos: a crise hídrica de São Paulo (2018), Puga analisou os processos de enfrentamento da crise paulista e concluiu que “os diversos atores, ligados ou não aos recursos hídricos, enxergaram a crise como uma janela de oportunidade para tentar colocar suas agendas em prática”. Na avaliação dele, o enfrentamento de crise desse tipo ainda é tímido, e “a experiência brasileira tem demonstrado a preferência quase que total por soluções de aumento da oferta, com transposições de outras bacias e construções de grandes reservatórios. Mas negligencia de forma grotesca o lado da demanda. Como explicar que São Paulo tem uma taxa média de perdas de água tratada de mais de 30%? Programas de uso racional da água ainda são incipientes, bem como o reúso de água para outros fins que não o consumo humano. Sem contar com a falta de saneamento e descaso com os mananciais. Ou seja, além de desperdiçarmos grande parte da água tratada, ainda devolvemos, em muitos casos, de forma pior do que coletamos”, informa.
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Puga explica ainda que, embora São Paulo tenha uma política de mudanças climáticas desde 2009, “o desafio é colocar essa variável no centro de todas as políticas setoriais que serão afetadas. Não se pode restringir a esfera de atuação apenas aos recursos hídricos, mas sim a todos os setores que serão afetados. A dificuldade reside principalmente em trazer para o presente esta preocupação que alguns acreditam que está em um futuro longínquo. Como priorizar a alocação de recursos para políticas de enfrentamento e adaptação às mudanças climáticas em um cenário de restrição de recursos humanos e financeiros é um desafio maior ainda”.
Para enfrentar os desafios das mudanças climáticas, Bruno Puga sugere a adoção de uma gestão policêntrica. “O policentrismo é uma antítese de um sistema monocêntrico, onde a autoridade e o poder se concentram em apenas um ator. Sistemas policêntricos são constituídos de múltiplos centros de decisão sem uma hierarquia de um em relação aos outros, mas que atuam de forma coordenada”, explica.
Bruno Puga é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, mestre e doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp.
IHU On-Line – O que a sua tese de doutorado revela sobre o modo como as instituições paulistas lidaram com a crise hídrica entre 2013 e 2015?
Bruno Puga – Minha pesquisa tenta entender como os diferentes atores e organizações enfrentaram a crise hídrica em diversas escalas. Crises são antes de tudo uma disputa de narrativa, de culpa e de soluções. As narrativas ajudam a entender como está estruturado o modelo mental por trás das escolhas. Entender que tipo de solução foi proposta, por quem e se foi aceita ou não pode revelar muito sobre a maneira que a gestão dos recursos hídricos ocorre na prática. Os diversos atores, ligados ou não aos recursos hídricos, enxergaram a crise como uma janela de oportunidade para tentar colocar suas agendas em prática.
Em São Paulo estamos longe de atingir um estado mínimo de segurança hídrica – Bruno Puga
Em um primeiro momento houve uma minimização, e até mesmo negação, de que a situação era grave. À medida que os reservatórios foram esvaziando e a situação foi ganhando contornos mais dramáticos é que se delineia a atuação dos diferentes atores. O momento foi extremamente rico em debates, informações e análises, mas que não foram estimulados e iniciados por aqueles que tomam a decisão. Ponto positivo para a sociedade civil e movimentos sociais que se articularam e ocuparam diversas arenas em busca de transparência e informação, demonstrando o esvaziamento das arenas tradicionais.
O estado tentou se blindar ao máximo, seja defendendo a atuação da sua companhia de saneamento (Sabesp) ou justificando a falta de investimentos necessários. De modo geral demonstrou como o poder público tem dificuldade em informar a população, com ausência de transparência e centralização na tomada de decisão. A coincidência da crise com as eleições adicionou uma camada ainda maior de impermeabilidade do estado em reconhecer a gravidade da situação e de fazer o papel que se espera em termos de responsabilidade. Apesar de não reconhecer o início da crise, o governo de São Paulo decretou o fim dela. Isso demonstra a forma como o processo político é eficiente em alardear soluções, mas não em resolver de fato o problema.
IHU On-Line – Quais são os riscos de São Paulo enfrentar uma nova crise hídrica, nas proporções das que enfrentou entre 2013 e 2015?
Bruno Puga – Se agirmos da mesma forma como na crise anterior, o risco com certeza existe. Há um debate crescente entre cientistas para saber se os padrões climáticos do passado ainda servem como guia absoluto para o futuro. Os representantes do Estado se apoiaram na narrativa da imprevisibilidade climática para justificar as ações que tomaram. E de fato, se olharmos para o padrão climático passado, a probabilidade da ocorrência de uma seca igual àquela é de 0,4%. Mesmo assim, ela ocorreu! Em um cenário moldado pela incerteza, onde não é possível calcular a probabilidade da ocorrência de um evento futuro, temos que criar mecanismos de proteção mais cautelosos e agir com base no princípio da precaução.
Do ponto de vista operacional e técnico, as obras efetuadas, como a transposição entre as represas Jaguari e Atibainha, a interligação dos sistemas produtores e a entrada de novos sistemas, a situação tende a ser mais controlável em caso de uma restrição severa no Cantareira. No entanto, ainda não ficou claro como se dará essa operação. O que podemos afirmar é que houve um aumento na complexidade da gestão desse sistema e que somente com o passar do tempo poderemos analisar.
IHU On-Line – Que fatores são necessários para garantir a segurança hídrica? Por que, na sua avaliação, no caso de São Paulo há dificuldades em garanti-la?
Bruno Puga – Atingir a segurança hídrica significa garantir o acesso seguro de uma quantidade suficiente de água de boa qualidade para possibilitar o bem-estar humano, o desenvolvimento econômico e a saúde dos ecossistemas. É tratar a água como serviço fundamental e não simplesmente como uma mercadoria que pode ser transportada de um lugar a outro. Atingir a segurança hídrica humana às custas da integridade dos ecossistemas também não garante uma sustentabilidade no longo prazo.
No caso de São Paulo, estamos longe de atingir um estado mínimo de segurança hídrica. A região depende quase que exclusivamente de fontes de água fora de seu território, ao mesmo tempo em que temos uma situação deplorável dos recursos hídricos que cortam a cidade. O descaso histórico, aliado a um modelo centrado neste paradigma hidráulico, resultou nesse paradoxo. A cidade sofre com enchentes ao mesmo tempo em que falta água na torneira. Deve-se ir além das soluções focadas no aumento da oferta hídrica no curto prazo e priorizar a recuperação de seus corpos hídricos e de seus ecossistemas.
IHU On-Line – Como as mudanças climáticas poderão ou já estão causando implicações sobre os recursos hídricos?
A experiência brasileira demonstra preferir soluções da crise hídrica de aumento da oferta, com transposições de outras bacias e construções de grandes reservatórios. Mas negligencia de forma grotesca o lado da demanda – Bruno Puga
Bruno Puga – Os recursos hídricos são os recursos mais sensíveis às alterações climáticas em diferentes escalas. De modo geral, o aumento da temperatura tem um impacto significativo na evapotranspiração, alterando o ciclo hidrológico. Segundo estudos recentes do IPCC (Painel Internacional da ONU para Mudanças Climáticas), a ocorrência de eventos climáticos extremos, como secas e enchentes, irá aumentar significativamente. Além de mais frequentes, a intensidade destes eventos deverá ser muito maior, alterando a distribuição de chuvas e os padrões históricos. Isso exigirá uma abordagem distinta do que estamos acostumados, colocando a incerteza dentro do processo de tomada de decisão.
IHU On-Line – Os efeitos das mudanças climáticas já estão sendo considerados pelas instituições que fazem a gestão dos recursos hídricos? Quais são as dificuldades que essas instituições têm em considerar os eventos extremos na gestão dos recursos hídricos?
Bruno Puga – No Brasil creio que ainda estamos tímidos frente a estes desafios. São Paulo conta desde 2009 com uma política específica para mudanças climáticas, mas o desafio é colocar essa variável no centro de todas as políticas setoriais que serão afetadas. Não se pode restringir a esfera de atuação apenas aos recursos hídricos, mas sim a todos os setores que serão afetados. A dificuldade reside principalmente em trazer para o presente esta preocupação que alguns acreditam que está em um futuro longínquo. Como priorizar a alocação de recursos para políticas de enfrentamento e adaptação às mudanças climáticas em um cenário de restrição de recursos humanos e financeiros é um desafio maior ainda. Daí a importância de estudos e previsões mais robustos que demonstrem que é mais econômico investir agora em prevenção e adaptação do que no futuro.
IHU On-Line – Pode nos dar exemplos de políticas internacionais que garantiram a eficiência hídrica? Em que essas experiências se diferem da brasileira?
Como explicar que São Paulo tem uma taxa média de perdas de água tratada de mais de 30%? – Bruno Puga
Bruno Puga – Temos que buscar aprender com países e regiões que sofrem com restrição hídrica severa. Durante a crise hídrica houve um intercâmbio muito profícuo com experiências internacionais. A Austrália, por exemplo, conviveu durante 10 anos com a “seca do milênio”. Ao mesmo tempo em que sofríamos a crise em São Paulo, a Califórnia passava por uma situação até mais grave e não passou por essa situação quase calamitosa que enfrentamos. Não existe fórmula mágica, mas deve-se lançar mão de diversos instrumentos e políticas de enfrentamento que não são nenhuma novidade.
A experiência brasileira tem demonstrado a preferência quase que total por soluções de aumento da oferta, com transposições de outras bacias e construções de grandes reservatórios. Mas negligencia de forma grotesca o lado da demanda. Como explicar que São Paulo tem uma taxa média de perdas de água tratada de mais de 30%? Programas de uso racional da água ainda são incipientes, bem como o reuso de água para outros fins que não o consumo humano. Sem contar com a falta de saneamento e descaso com os mananciais. Ou seja, além de desperdiçarmos grande parte da água tratada ainda devolvemos, em muitos casos, de forma pior do que coletamos.
IHU On-Line – A partir da sua pesquisa, você diria que a atual governança brasileira é capaz de garantir a segurança hídrica diante de eventos extremos? Sim ou não e por quê?
Bruno Puga – De forma alguma. Seja sofrendo com secas ou enchentes, ainda não conseguimos evitar algumas tragédias e situações que se repetem de tempos em tempos. A questão não é saber se vamos enfrentar de novo estas situações, mas quando se repetirá. Diferentemente do que tem ocorrido, devemos lutar para que exista uma aprendizagem social e política que se traduza em novas políticas públicas e diretrizes para estarmos mais preparados quando ocorrer novamente.
O conceito de segurança hídrica ainda é muito incipiente nas nossas políticas. Iniciativas mais recentes, como o Plano Nacional de Segurança Hídrica, poderão nortear e coordenar o trabalho nos diversos setores. A cidade de São Paulo deu um primeiro passo e conseguiu aprovar uma lei que introduz essa variável no arcabouço institucional municipal, pressionada por uma iniciativa popular. Resta saber se irá fazer valer seu papel, principalmente como titular dos serviços de saneamento, para que não passe novamente por uma situação crítica como a crise anterior. A criação de um planejamento adequado, com o estabelecimento de uma matriz de responsabilidades e coordenação, ajudaria a tornar mais rápidas as respostas dos sistemas de governança.
IHU On-Line – Você tem sugerido que é preciso uma governança policêntrica para garantir a segurança hídrica. Em que consiste esse tipo de gestão? Quais são os desafios do Brasil para implementá-la?
Bruno Puga – O policentrismo é uma antítese de um sistema monocêntrico, onde a autoridade e o poder se concentram em apenas um ator. Sistemas policêntricos são constituídos de múltiplos centros de decisão sem uma hierarquia de um em relação aos outros, mas que atuam de forma coordenada. Com a redemocratização, o Brasil passou por um processo de descentralização e de devolutiva de poder para as escalas locais e regionais. No caso dos recursos hídricos há um consenso de que a melhor escala para a gestão se dá ao nível da bacia hidrográfica. O sistema de governança hídrico brasileiro, introduzido pela Lei 9.433/1997, buscou a descentralização da tomada de decisão e devolutiva de poder para a bacia hidrográfica, introduzindo a sociedade civil e usuários na gestão com a criação dos comitês de bacia. Ao mesmo tempo, criou e ampliou instrumentos necessários para uma gestão mais eficiente, como a cobrança pelo uso e outorga. Isso foi um grande avanço.
Precisamos entender que a água não é meramente um produto. É um bem vital e que merece ser tratado de acordo com sua importância – Bruno Puga
O sistema brasileiro, em teoria, deveria ser mais próximo de um sistema policêntrico, no entanto, o classifico mais como fragmentado, onde falta uma coordenação e uma distribuição de poder mais igualitária. Em períodos de crise, como a que ocorreu em São Paulo, ainda há uma centralização excessiva por parte do Estado. Em um sistema policêntrico, isso resultaria em maior autonomia e poder aos comitês de bacia. No caso das transposições de bacia, por exemplo, há ainda uma dinâmica de poder que não é balanceada. Os conflitos são resolvidos da forma tradicional, pendendo para o lado de quem tem maior poder político e econômico. Mas isso não se restringe à esfera ambiental, pois, se analisarmos sob uma ótica crítica, a imensa maioria das grandes obras de infraestrutura são feitas de forma nada democráticas, atropelando ritos ambientais, comunidades tradicionais e a vontade da população local em prol de uma parte da população.
IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Bruno Puga – Precisamos entender que a água não é meramente um produto. É um bem vital e que merece ser tratado de acordo com sua importância. São necessários distintos processos ecológicos para fornecer uma água de qualidade, daí a importância de entender a influência humana sobre a qualidade e quantidade de água. Nesta e em todas as crises hídricas por que passamos, pouco se fala sobre a importância do uso do solo adequado, dos ecossistemas e das florestas na regulação e provisão dos recursos hídricos. Enquanto acharmos que a água pode ser negligenciada e depois simplesmente expandir a oferta buscando água cada vez mais longe, não conseguiremos atacar as reais causas da crise hídrica permanente que vivemos no Brasil. (ecodebate)

Flutuações de temperatura afetarão os países mais pobres do mundo

Mudanças Climáticas: Flutuações de temperatura afetarão os países mais pobres do mundo, sugere uma nova pesquisa.
Para cada grau de aquecimento global, o estudo sugere que a variabilidade de temperatura aumentará em até 15% no sul da África e na Amazônia, e até 10% no Sahel, na Índia e no Sudeste Asiático.
Enquanto isso, os países fora dos trópicos – muitos dos quais são os países mais ricos que mais contribuíram para as mudanças climáticas – devem ver uma diminuição na variabilidade de temperatura.
Os pesquisadores, das universidades de Exeter, Wageningen e Montpellier, descobriram esse “padrão injusto” ao abordarem o difícil problema de prever como os extremos climáticos, como ondas de calor e estalos frios, podem mudar em um clima futuro.
“Os países que menos contribuíram para as mudanças climáticas e têm o menor potencial econômico para lidar com os impactos estão enfrentando os maiores aumentos na variabilidade de temperatura”, disse o principal autor do estudo, Sebastian Bathiany, da Universidade de Wageningen.
O professor Tim Lenton, da Universidade de Exeter, acrescentou: “Os países afetados por este duplo desafio da pobreza e aumento da variabilidade de temperatura já compartilham metade da população mundial, e as taxas de crescimento populacional são particularmente grandes nesses países”.
“Esses aumentos são más notícias para sociedades tropicais e ecossistemas que não estão adaptados a flutuações fora da faixa típica”.
O estudo também revela que a maior parte das crescentes flutuações de temperatura nos trópicos está associada a secas – uma ameaça extra ao abastecimento de alimentos e água.
Para sua investigação, a equipe analisou 37 modelos climáticos diferentes que foram utilizados para o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
Embora a variabilidade climática tenha sido estudada extensivamente por cientistas do clima, o fato de que a variabilidade climática vai mudar recebeu pouca atenção nos campos que investigam os impactos das mudanças climáticas.
Alterações relativas de anomalias de temperatura mensais até o final do século XXI (ecodebate)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Árvores nos trópicos enfrentam ameaças crescentes

Árvores nos trópicos, especialmente importantes para o planeta, enfrentam ameaças crescentes.
Uma mistura de fatores está contribuindo para uma taxa de mortalidade crescente das árvores nos trópicos úmidos, onde as árvores em algumas áreas estão morrendo em cerca de duas vezes a taxa que faziam 35 anos, de acordo com um estudo de longo alcance que examina saúde das árvores na zona tropical que abrange a América do Sul para a África até o Sudeste Asiático.
E os cientistas acreditam que a tendência continuará.
“Não importa como você olhe para isso, as árvores no trópico úmido provavelmente morrerão em taxas elevadas até o final deste século em relação às taxas de mortalidade no passado”, disse Nate McDowell, do Laboratório Nacional do Pacífico Noroeste do Departamento de Energia, que é autor principal do estudo publicado em 16 de fevereiro na revista New Phytologist.
“Há uma série de fatores que parecem estar conduzindo a mortalidade, e a probabilidade de esses fatores ocorrerem está aumentando”, acrescentou McDowell, que encabeçou o time de cientistas de mais de duas dezenas de instituições do mundo envolvidas no estudo.
McDowell e colegas analisaram vários fatores que afetam as árvores nos trópicos úmidos, incluindo o aumento das temperaturas e os níveis de dióxido de carbono, a seca, incêndios, tempestades mais potentes, infestação de insetos e a abundância de vinhas lenhosas conhecidas como lianas. Com base em uma série de estudos, a equipe de McDowell compilou evidências que mostraram que quase todos esses drivers estão aumentando com a crescente taxa de mortalidade de árvores nos trópicos úmidos.
Embora confrontada com uma variedade de ameaças, a mortalidade das árvores nos trópicos geralmente se resume a dois fenômenos: “fome de carbono” por falta de comida e “falha hidráulica” por falta de água.
Uma vez que o aumento observado da temperatura global está correlacionado com os níveis crescentes de dióxido de carbono – uma fonte de alimento para árvores – pode parecer que as árvores floresceriam. Mas ironicamente, as temperaturas mais elevadas sufocam a capacidade das árvores de absorver CO2, além de intensificar a perda de água.
A razão se remonta aos poros minúsculos, chamados estômatos, que existem em folhas e agulhas e são os canais através dos quais as árvores absorvem o CO2 e esfriam através da evaporação. Quando as condições tornam-se quentes e secas, as árvores conservam a umidade, e fazem isso fechando seus estômatos. Esse encerramento, porém, significa que as árvores não podem absorver dióxido de carbono. E se os estômatos permanecerem fechados durante um tempo suficiente, isso pode resultar em fome de carbono.
“É como ir a um buffet todo-você-poder-comer com fita adesiva sobre sua boca”, disse McDowell. “Pode haver muita comida, mas não importa quanta comida esteja na mesa se você não pode comer”.
Mesmo com o fechamento de seus estômatos, as plantas ainda perdem água quando há calor e a falha hidráulica – a falta de água que uma árvore precisa para sobreviver – representa pelo menos uma ameaça como a fome de carbono.
A falta de água pode acontecer de várias maneiras. As temperaturas elevadas puxam mais umidade para fora das árvores devido a maiores taxas de evaporação. Além disso, o aumento dos incêndios não só mata árvores diretamente, mas o calor gerado literalmente suga a umidade das árvores próximas que sobreviveram. Finalmente, em um mundo de temperaturas crescentes, as lianas muitas vezes competem árvores tropicais para recursos como luz, água e nutrientes. As videiras podem quebrar os membros das árvores, criando novas feridas para o ataque de agentes patogênicos ou insetos.
As árvores que são capazes de lidar com um mundo mais quente absorvendo mais dióxido de carbono estão em maior risco de morte de várias maneiras. Árvores maiores são mais vulneráveis a ataques de raios e danos causados por ventos fortes, e eles devem consumir mais água do que suas contrapartes menores. Tudo o que os coloca em maior risco de estressores como o vento, o raio e a falta de água.
As árvores nos trópicos úmidos desempenham um papel especialmente importante na capacidade da Terra de regular o dióxido de carbono, absorvendo muito mais carbono proporcionalmente do que todas as outras florestas combinadas. Suas mortes reduzem a capacidade do planeta de lidar com os altos níveis de CO2 que os causaram a morte para começar, disse McDowell, cujo estudo foi financiado pelo Escritório de Ciências da DOE.
“As árvores têm uma ótima habilidade para sobreviver, mas quanto podem suportar. A questão que enfrentamos agora é identificar esses limiares para que possamos prever o risco para as florestas tropicais”, acrescentou McDowell. (ecodebate)