terça-feira, 21 de novembro de 2017

Ninguém está fazendo o suficiente para conter a crise climática

Análise de políticas climáticas mundiais mostra que países estão muito aquém das metas para frear aquecimento global.
No cenário climático global, que demanda uma mudança urgente de paradigma, uma avaliação “mediana” não pode ser considerada positiva. Ainda mais quando essa análise não leva em conta o efeito destrutivo de políticas atualmente em curso ou “em vias de”, num futuro bem próximo. No Brasil, o governo manteve a priorização aos combustíveis fósseis na matriz energética, com 70% dos recursos da próxima década destinados a carvão, petróleo e gás. Além disso, o presidente Michel Temer quer aprovar uma Medida Provisória que dará incentivos fiscais trilionários às empresas petrolíferas.
Representante de uma pequena ilha do Pacífico severamente ameaçada pelo aumento do nível do mar, o Primeiro Ministro da República de Fiji e Presidente da COP 23, Frank Bainimarama, afirmou na abertura da conferência que “todos estamos na mesma canoa.” Sua mensagem traz a ideia de que o problema do aquecimento global afeta democraticamente a todos e, portanto, também deve ser resolvido de forma global, com ações conjuntas e compromissos de todas as partes. No entanto, o Índice de Desempenho Climático 2018, apresentado dia 15/11/17 em Bonn, na Alemanha, dá mostras de que isso, na prática, não está ocorrendo.

Elaborado pelas organizações Germanwatch, New Climate Institute e Climate Action Network (CAN), o relatório analisou a performance das políticas climáticas da União Europeia e mais 56 países, que juntos respondem por mais de 90% das emissões mundiais de gases do efeito estufa. O resultado aponta que “nenhum país está fazendo o suficiente para prevenir as perigosas alterações no clima.” Por esse motivo, ninguém ocupou as posições um a três no ranking.
Dentre os países latinos, apenas Brasil, México e Argentina foram analisados. Estes ficaram, respectivamente, na 19ª, 27ª e 46ª colocações. Brasil e México foram avaliados como medianos e Argentina como “muito abaixo” das metas. Suécia, Marrocos, Lituânia, Noruega e Reino Unido lideram a lista; Estados Unidos se encontra em queda livre, ocupando a 56a posição, somente acima de Austrália, Coreia do Sul, Irã e Arábia Saudita.
Dois anos depois de concordar em limitar o aquecimento global abaixo de 2°C, com esforços para chegar a 1,5°C, ainda vemos uma enorme lacuna entre a ambição das metas de redução dos gases de efeito estufa dos países e seu progresso em relação a uma real implementação do Acordo de Paris nas legislações nacionais”, atesta o relatório.
Mas nem só de negatividade se faz o documento. Segundo a análise, “existem sinais encorajadores de que uma transição energética global está em andamento.” Os números mostram que os investimentos em energias renováveis continuam a dominar os novos investimentos no sistema energético em todo o mundo. Além disso, em 2014, 2015 e 2016 as emissões globais de carbono no setor de energia não cresceram, o que não acontecia desde a revolução industrial, em anos sem uma grande crise econômica.
América Latina de mal a pior
Análise de políticas climáticas mundiais mostra que países estão muito aquém das metas para frear o aquecimento global.
Os incentivos do governo brasileiro à indústria fóssil revelam uma postura totalmente favorável às energias sujas e ao retrocesso. Para cumprir com as metas de combate ao aquecimento global, o Brasil precisa deixar todas as reservas de petróleo e gás no chão e redirecionar os recursos públicos e privados para iniciativas de energias renováveis, justas e livres”, defendeu Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora de 350.org Brasil e América Latina.
Seguindo no mesmo sentido, o governo de Maurício Macri, na Argentina, pretende aprofundar o modelo de energia baseado em fontes sujas, principalmente hidrocarbonetos não convencionais, como o gás de xisto, que trazem um alto custo ambiental e social. “A Argentina tem avanços positivos com relação às energias renováveis, como a Lei de Regime Nacional de Geração Distribuída de Energias Renováveis, que está em tramitação no Senado. Mas ao mesmo tempo pretende aprofundar o modelo de extração de hidrocarbonetos através da técnica poluente do fracking, como é o caso da região de Vaca Muerta”, afirmou Juan Pablo Olsson, coordenador de campanhas climáticas da 350.org Argentina e colaborador do relatório.
No México, o governo de Enrique Peña Nieto também avança com o aprofundamento do modelo extrativista, promovendo a mega mineração e a extração de hidrocarbonetos não convencionais. De acordo com informações atualizadas, 3.780 poços já foram perfurados através do método do fracking, enquanto ativistas, pesquisadores e organizações ambientais alertam sobre os danos ambientais e sociais desse tipo de exploração. (ecodebate)

Mudanças climáticas na floração e frutificação afetam a abundância de aves

Mudanças influenciadas pelo clima na floração e frutificação também afetam a abundância de aves.“Você é o que você come” pode dar lugar a “você é quando você come”, com base em um novo estudo que rastreia mudanças na abundância, criação e muda de aves havaianas com base nos impactos das mudanças climáticas na vegetação nativa.
As mudanças no ciclo de vida, como a reprodução e a muda, juntamente com a abundância geral de espécies, se deslocaram em aves nativas havaianas, como as “i’iwi”, para coincidir com as alterações das mudanças climáticas na vegetação nativa.
Pesquisadores da Estação de Pesquisa do Pacífico do Pacífico do Serviço Florestal dos EUA revisaram recentemente o clima, vegetação e dados de aves coletados entre 1976 e 1982 em um local de monitoramento de 16 hectares a cerca de 8 quilômetros do Parque Nacional dos Vulcões de Hawai, na Ilha de Hawai. Seus resultados, “Bottom-up processes influence the demography and life-cycle phenology of Hawaiian bird communities,”, foram publicados na edição deste mês de Ecology e tem implicações para a futura estabilidade da população de pássaros nos futuros climas projetados.
“A susceptibilidade de muitas aves havaianas a mudanças induzidas pelo clima em sua rede alimentar é alarmante, ao considerar que o arquipélago tem estado sujeito a um clima cada vez mais seco durante os últimos 30 anos”, disse Jared Wolfe, pesquisador e autor principal do estudo.

Wolfe, juntamente com os colaboradores C. John Ralph e Andrew Wiegardt, descobriram que três aves nativas que normalmente se alimentam de néctar – ‘i’iwi,’apapane e Hawai’i’ amakihi – todos cronometraram sua época de reprodução com a disponibilidade de uma flor de lehua, que por sua vez coincidiu com períodos de chuvas mais pesadas. Correlações semelhantes foram encontradas em espécies selecionadas de aves nativas e não-nativas, com base em suas respectivas fontes de frutas ou frutos e o tempo de muda, um período de tributação de energia quando as aves substituem suas penas. A abundância e escassez de espécies de aves também refletia regularmente a disponibilidade de suas fontes de alimento.
"Nossos resultados sugerem que as mudanças no clima podem transformar em cascata a cadeia alimentar e afetar fortemente a vida selvagem em níveis mais altos na cadeia”, disse Wolfe.
O isolamento relativo, em que os ecossistemas havaianos desenvolveram, tornou-se uma paisagem ideal para estudar a interação entre aves e plantas nativas, evitando outros fatores ou influências que poderiam ocultar os efeitos climáticos nas populações continentais. A inclusão de espécies de aves não nativas no estudo também ajudou a confirmar que os padrões detectados foram independentemente da história evolutiva.
“Esses tipos de estudos são raros porque dependem de dados de longo prazo e trabalhos de campo intensivos em mão-de-obra”, disse Ralph, um ornitólogo de pesquisa emérito na Estação de Pesquisa do Pacífico Sudoeste. “Mas os resultados de estudos de longo prazo, como este, são criticamente importantes porque fornecem informações sobre como as mudanças no clima podem afetar os organismos de maneiras aparentemente indiretas”. (ecodebate)

domingo, 19 de novembro de 2017

30% de toda a comida produzida no mundo para no lixo

FAO alerta que 30% de toda a comida produzida no mundo vai parar no lixo.

Em seminário online promovido em 13/11/17, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) no Brasil alertou que, anualmente, 1,3 bilhão de toneladas de comida é desperdiçada ou se perde ao longo das cadeias produtivas de alimentos.
Desperdício de alimentos preocupa a FAO e o governo brasileiro.
Volume representa 30% de toda a comida produzida por ano no planeta.
De acordo com Juliana Dei Svaldi Rossetto, responsável pelo tema junto à FAO no Brasil, a Agenda 2030 da ONU conta com um item específico para enfrentar o problema. A meta nº 3 do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nº 12 prevê a redução pela metade do desperdício per capita mundial até 2030, bem como diminuições das perdas nos sistemas de produção e abastecimento, incluindo no momento pós-colheita.
Segundo o organismo internacional, o desperdício responde por 46% da quantidade de comida que vai parar no lixo. Já as perdas — que ocorrem sobretudo nas fases de produção, armazenamento e transporte — correspondem a 54% do total.
No Brasil, a FAO apoiou, a partir de setembro de 2016, a criação do Comitê Técnico da Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional (CAISAN). O objetivo do organismo foi desenvolver uma estratégia comum para enfrentar o problema, além de estabelecer diretrizes gerais para mensurar os desperdícios e perdas no país. A agência da ONU também apoiou a elaboração de um diagnóstico nacional sobre a questão.
Também participando do seminário, Kathleen Sousa Oliveira Machado, coordenadora-geral de Equipamentos Públicos de Segurança Alimentar e Nutricional, do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), lembrou que o Comitê Técnico do Brasil conseguiu unir para o debate governo, sociedade civil e o setor produtivo.
“Reunir os três setores discutindo e propondo soluções foi um grande avanço. Agora, a gente espera ter essa estratégia aprovada em novembro pela CAISAN para poder divulgar à população como o Estado brasileiro está atuando e pretende atuar para conseguir atingir o ODS 12”, destacou.
Sobre a atividade promovida pela FAO, a gestora acrescentou que foi importante ouvir as experiências de outros países, que podem inspirar iniciativas brasileiras.

“A partir disso, vamos reunir os especialistas brasileiros para começar a pensar uma proposta e apoiar o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na quantificação das perdas e desperdício de alimentos no país. Primeiro temos que saber o quanto é perdido e desperdiçado para depois conseguirmos dizer se nós alcançaremos esse objetivo até 2030”, salientou. (ecodebate)

Estimativa da população do Paquistão: 1950-2100

Estimativa da população do Paquistão e cenários de projeção: 1950-2100
O Paquistão fazia parte da Índia até 1947. Ambos foram completamente dominados pela Inglaterra entre 1858 e 1947. A ideia da criação de um Estado que unificasse politicamente todos os muçulmanos da região foi lançada por Mohammad Iqbal, presidente da Liga Muçulmana, que a partir de 1934 passou a ser dirigida por Mohammed Ali Jinnah (1876-1948), considerado o criador do país. O Paquistão comemora a data de sua independência no dia 14 de agosto, um dia antes da Índia.

O nome Paquistão surgiu em 1933 e a independência ocorreu com a descolonização da Índia. O Paquistão foi criado com base nas províncias de maioria muçulmana. O Paquistão Ocidental e a Bengala Oriental, que fez a sua independência do Paquistão em 1971, passando a se chamar Bangladesh.
O Paquistão tinha uma população de 37,5 milhões de habitantes em 1950 e passou para 197 milhões de pessoas em 2017, segundo dados da Divisão de População da ONU. O Paquistão é o sexto país mais populoso do mundo e deve passar para o quinto lugar ainda na atual década, ultrapassando o Brasil. Na projeção média da ONU, a população do Paquistão vai atingir 352 bilhões de habitantes em 2100.
Mas como o futuro é incerto, ONU trabalha com outras duas projeções. Na projeção alta o Paquistão atingiria 528 milhões de habitantes em 2100 e na projeção baixa atingiria 223 bilhões de habitantes no final do século XXI.
As diferentes projeções se devem fundamentalmente às diferentes hipóteses sobre o comportamento das taxas de fecundidade. O gráfico abaixo mostra que a taxa de fecundidade total (TFT) no Paquistão era muito alta (quase 7 filhos por mulher) e só ficou abaixo de 5 filhos nos anos 2000, quando a transição para baixos níveis começou a ocorrer. No quinquênio 2015-20 a TFT paquistanesa está em 3,4 filhos por mulher. Na projeção média, a TFT do Paquistão só deve ficar abaixo do nível de reposição a partir de 2060, devendo ficar em torno de 1,85 filhos por mulher nas últimas décadas do atual século. Se a TFT ficar meio filho (0,5) acima da média a população irá para 558 milhões de habitantes em 2100 e se ficar meio filho abaixo da média, a população será de 223 milhões de habitantes em 2100. Ou seja, pequenas variações na taxa de fecundidade podem significar uma diferença de mais de 300 milhões de habitantes até o final do século (muito mais do que um Brasil).
Os gráficos abaixo mostram a distribuição por sexo e idade da população paquistanesa para alguns anos selecionados. Nota-se as pirâmides de 1950 e 2017 tinham uma estrutura jovem, com cada novo grupo etário com volume maior do que o precedente. Isto ocorre devido às altas taxas de fecundidade do século passado. Somente na pirâmide de 2050 haverá o início da redução do grupo mais jovem.

Na pirâmide de 2100 (de acordo com a projeção média) a distribuição etária vai mudar, refletindo o contínuo processo de envelhecimento populacional. Ou seja, a transição demográfica do Paquistão vai se desenvolver no século XXI e o país terá uma quantidade de jovens muito grande nas próximas décadas.
Para aproveitar esta janela de oportunidade e garantir a melhoria da qualidade de vida da população, o país deveria investir pesadamente em educação, saúde e, principalmente, na geração de emprego para se atingir a plena ocupação e o trabalho decente. Porém, o desempenho econômico e social do Paquistão é sofrível e o país ainda enfrenta muitas disputas com a Índia. Os altos gastos militares reduzem o orçamento para os investimentos sociais. As disputas religiosas e de facções políticas também atrasam os avanços no bem-estar.
No mês de agosto de 2017 foram divulgados os dados do censo demográfico do Paquistão. A população total do Paquistão atingiu 207,7 milhões de habitantes (maior do que a previsão da ONU). Em 1998, a população total do Paquistão era de 130 milhões. Nos últimos 19 anos, a taxa média anual de crescimento da população foi de 2,4%. Sucessivos Governos repetiram que a taxa de crescimento da população caiu para 1,8% aa, e isso foi visto como um grande sucesso. Mas os resultados do censo mostraram que o ritmo de crescimento demográfico continua elevado.

Segundo o jornal The Print, “Estudos demonstraram que há uma alta demanda por serviços de planejamento familiar, mas muitas vezes eles não alcançam as pessoas. Os clérigos também estão divididos sobre a questão do planejamento familiar e alguns argumentam que é contra os ensinamentos do Islã. Isso é problemático porque os países de maioria muçulmana, como o Irã e Bangladesh, promoveram campanhas de planejamento familiar, muitas vezes com a ajuda de clérigos. Mas os objetivos do Paquistão para reduzir a taxa de natalidade não foram alcançados apesar dos compromissos políticos”.
Para agravar a situação, o Paquistão que é um dos países mais pobres da Ásia tem sérios problemas na área ambiental. O país já sofre com a desertificação e a crise hídrica, enquanto o déficit ambiental cresce de forma alarmante. Dados da Footprint Network, mostram que a biocapacidade total do Paquistão era de 21,4 milhões de hectares globais (gha) em 1961 e a pegada ecológica total era de 23,5 milhões de gha na mesma data. O déficit ambiental era bastante pequeno. Mas em 2013 a biocapacidade total passou para 63,2 milhões de gha e a pegada ecológica para 132 milhões de gha. Portanto, o Paquistão, mesmo sendo um país pobre e de baixo nível de consumo, tem um déficit ambiental de mais de 100%.
Além da falta de recursos e da desigualdade social, um fator que pode comprometer o futuro da população são as consequências do aquecimento global. O Paquistão depende das águas provenientes das geleiras do Himalaia, que são responsáveis por 75% a 80% dos recursos hídricos do país. O derretimento das geleiras é a fonte principal da rede de irrigação no Paquistão, que alimenta 90% das terras agrícolas. Uma alteração no fluxo da água terá graves consequências para a produção agrícola paquistanesa. Além disto, a China tem construído represas e diminuído a disponibilidade de água para o Paquistão e a Índia.
O desenvolvimento sustentável do Paquistão não será alcançado facilmente, pois haverá dificuldade para alimentar e melhorar o padrão de vida da população que tinha um Índice de Desenvolvimento Humano de 0,55 em 2015 (147º lugar no ranking), menor do que o IDH da Índia, de 0,624 (131º lugar no ranking).

Tudo isto dificulta a saída da armadilha da pobreza. Os conflitos internos e a violência são outros elementos que dificultam a melhoria das condições de vida da população. Somente com o esforço interno e a cooperação internacional as condições atuais do país poderão ser revertidas. (ecodebate)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Zerar desmatamento amazônico impactará 0,6% do PIB até 2030

Zerar o desmatamento na Amazônia impactaria em menos de 0,7% do PIB brasileiro até 2030.
“Milhares de pessoas morrem ou adoecem por ano por causa da fumaça das queimadas associadas ao desmatamento. Já sabemos o que fazer para zerar o desmatamento e salvar estas vidas e evitar as doenças. Agora é preciso coragem para agir”, Paulo Barreto, pesquisador sênior do Imazon.
* O setor privado deve ampliar esforços no monitoramento completo das cadeias produtivas e bloqueio de produtores que desmatam. Neste caminho, a transparência total de dados socioambientais pelos governos é fundamental.
 Estudo lançado na COP23 indica caminhos para o Brasil zerar o desmatamento na Amazônia.
Para Frederico Machado, especialista em políticas públicas do WWF-Brasil, zerar o desmatamento é plenamente possível e implicaria em custo baixíssimo à economia do Brasil. “De acordo com estudo recente, impactaria em menos de 0,7% o PIB brasileiro, até 2030.
O Grupo de Trabalho (GT) pelo Desmatamento Zero – composto pelas ONGs Greenpeace, Instituto Centro de Vida, Imaflora, Imazon, Instituto Socioambiental, IPAM, TNC e WWF – lançou em 13/11/17 na COP2 em Bonn, o relatório “Desmatamento zero na Amazônia: como e por que chegar lá”. No estudo, as organizações indicam caminhos para eliminar, no curto prazo, o desmatamento na Amazônia, com benefícios ambientais, econômicos e sociais para todos.
No documento, o GT defende que não há mais justificativas para a destruição da vegetação nativa do Brasil. Continuar desmatando resulta em desequilíbrio do clima, destrói a biodiversidade e os recursos hídricos, traz prejuízos à saúde humana e, ao contrário do que muitos acreditam, compromete a competitividade da produção agropecuária. Em 2016 o desmatamento na Amazônia, sozinho, foi responsável por 26% das emissões domésticas de gases do efeito estufa. Zerar o desmatamento, é, portanto, a forma mais rápida e fácil de reduzir emissões e cumprir com o acordo de Paris.
A boa notícia é que o Brasil já conhece o caminho para o desmatamento zero e sabe como chegar lá. “As medidas implementadas nos últimos anos (2005-2012) derrubaram as taxas de desmatamento na Amazônia em cerca de 70% e indicam que os elementos necessários para atingir o desmatamento zero se encontram presentes”, destaca a publicação.
Para Frederico Machado, especialista em políticas públicas do WWF-Brasil, zerar o desmatamento é plenamente possível e implicaria em custo baixíssimo à economia do Brasil. “De acordo com estudo recente, impactaria em menos de 0,7% o PIB brasileiro, até 2030. E teria balanço enormemente positivo ao juntarmos nessa conta todos os serviços ambientais mantidos à sociedade. É urgente o compromisso de todos os setores com a conversão zero do que resta dos ecossistemas naturais do planeta, com destaque também ao Cerrado”, acrescenta o especialista.
“O Brasil já sabe o caminho para chegar ao desmatamento zero, mas tem seguido na direção oposta. Temer e o Congresso vêm discutindo e aprovando medidas que incentivam ainda mais desmatamento, grilagem e violência no campo. Caso ações não sejam tomadas urgentemente, o cenário é de permanência de altas taxas de desmatamento na Amazônia”, comenta Cristiane Mazzetti, especialista em Amazônia do Greenpeace Brasil. “O caminho existe, mas é preciso que governos e empresas se comprometam seriamente em transformar as ações propostas no documento em realidade, eliminando qualquer forma de desmatamento no curto prazo”, complementa.
Zerar o desmatamento é plenamente possível e implicaria em custo baixíssimo à economia do Brasil.
“O fim do desmatamento na Amazônia e a conservação florestal representam atualmente o melhor investimento que a agricultura pode fazer a favor de sua produtividade futura. Florestas são grandes sistemas de irrigação da lavoura. Não é só produzir sem desmatar, mas sim produzir mais e melhor, conservando as florestas da região”, Paulo Moutinho, pesquisador sênior do IPAM.
A trilha para o desmatamento zero, de acordo com as organizações, envolve diversos setores e passa, necessariamente, por quatro eixos de atuação:
* implementação de políticas públicas ambientais efetivas e perenes;
* apoio a usos sustentáveis da floresta e melhores práticas agropecuárias;
* restrição drástica do mercado para produtos associados a novos desmatamentos;
* engajamento de eleitores, consumidores e investidores nos esforços de zerar o desmatamento.
Para o GT, mudanças no sistema de produção agropecuária, combate à grilagem de terras públicas, atuação do mercado e estímulo à economia florestal estão entre as ações mais urgentes para zerar o desmatamento, indicados no estudo:
* A agropecuária pode continuar a contribuir para a economia produzindo nas áreas já desmatadas. Só na Amazônia há 10 milhões de hectares de pastagens abandonadas ou mal aproveitadas, que poderiam ser usadas para a ampliação da produção de carne e grãos.
* Em 2016, pelo menos 24% do desmatamento se concentrou em áreas públicas sem destinação. Hoje há 70 milhões de hectares não destinados na Amazônia, que precisam ser convertidos em terras indígenas e unidades de conservação para frear o desmatamento especulativo.
* O estímulo à economia florestal por meio de programas de governo também precisa ser ampliado. A extração de produtos florestais rendeu cerca de R$ 3 bilhões na média de 2015 e 2016, dos quais R$ 1,8 bilhão são oriundos da exploração de madeira e 537 milhões de extração de açaí.
* Promover incentivos positivos para aqueles que conservam florestas além da exigência legal.
* Além de ampliar as ações de comando e controle, que continuam sendo fundamentais, é imprescindível aumentar a eficácia na punição de crimes ambientais.
Produção de eucaliptos avança sobre Mata Atlântica na região sul da Bahia.

O relatório reforça, ainda, a importância da mobilização da sociedade contra as tentativas recentes de enfraquecer a proteção florestal, como a flexibilização do licenciamento ambiental, a redução da proteção de Unidades de Conservação, a paralisação dos processos de demarcação de Terras Indígenas e a anistia de grilagem de terras públicas – gerando um lucro de R$ 19 bilhões para grileiros. (ecodebate)