domingo, 23 de julho de 2017

Catástrofe climática: a Terra inóspita e inabitável

“Para cada mil pessoas dedicadas a cortar as folhas do mal, há apenas uma atacando as raízes.” - Henry Thoreau.
A revista New York Magazine (NYMag) publicou em 09/07/2017, uma matéria denominada “The Uninhabitable Earth” – pintando no pior cenário, um Armagedon climático – que se tornou viral e foi comentada amplamente em diversos países e passou a ser o artigo mais lido da revista (ver o link no final desse artigo). Infelizmente, pouco se falou sobre o assunto no Brasil. A matéria, com chamada de capa, feita a partir de entrevistas com cientistas renomados, traz uma visão catastrófica do efeito do crescimento das atividades antrópicas sobre os ecossistemas e as mudanças climáticas. A repercussão foi enorme. Houve muita comoção pelo tom apocalíptico, reproduzido por uma grande revista que tem respeitabilidade e repercussão imediata.
O texto começa assim: “It is, I promise, worse than you think” (Prometo, é pior do que você pensa). O subtítulo diz do que se trata: “Fome, colapso econômico e um sol que nos cozinha: o que as mudanças climáticas podem causar – mais cedo do que você pensa”. Evidentemente, o autor está tratando de um cenário extremo e de baixa probabilidade, mas que pode ocorrer se nada for feito para mudar os rumos da insustentabilidade do crescimento econômico e suas externalidades ambientais.
Desta forma, o jornalista David Wallace-Wells realmente conseguiu assustar. A seguir segue uma tentativa de resumir alguns dos principais pontos da matéria.
Na primeira parte, denominada “Apocalipse, espiando além da reticência científica” o autor explica que a ansiedade sobre os efeitos do aquecimento global em relação à elevação do nível do mar, é justificável, mas apenas arranha a superfície dos horrores que podem acontecer no espaço de tempo da vida de um adolescente de hoje. A elevação do nível dos oceanos é ruim, muito ruim, mas fugir do litoral é um problema menor. Na ausência de um ajuste significativo de como bilhões de seres humanos produzem e consomem, partes da Terra provavelmente se tornarão inabitáveis ​​e outras partes ficarão terrivelmente inóspitas, antes do final deste século.
David Wallace-Wells diz que até mesmo pessoas que reconhecem as mudanças climáticas são incapazes de compreender seu alcance. No inverno passado, em diversos dias, a temperatura do Polo Norte ficou 60 a 70 graus mais quentes do que o normal, derretendo o PERMAFROST. Até recentemente, o permafrost não era uma grande preocupação dos cientistas, porque, como o nome sugere, era um solo permanentemente congelado. Mas o permafrost do Ártico contém 1,8 trilhões de toneladas de carbono, mais do dobro do que atualmente está suspenso na atmosfera terrestre. Quando se descongela e é liberado, esse carbono pode evaporar-se como o metano, que é 34 vezes mais poderoso do que o CO2. Ou seja, mesmo que a humanidade pare de emitir gases de efeito estufa nas atividades industriais e nos automóveis, o efeito feedback do metano do permafrost pode elevar a temperatura a níveis infernais. Na Antártica não é diferente. O “parto” da Plataforma Larsen C é mais um dos sinais de alarme.
A ocupação, dominação e exploração humana sobre os ecossistemas, juntamente com efeito estufa e a acidificação dos solos e das águas está provocando a 6ª extinção em massa das espécies. O Antropoceno é como uma “máquina de guerra”, todos os dias, o ser humano coloca mais munição. Atualmente, estamos adicionando carbono na atmosfera a uma taxa extremamente elevada. Isto é o que Stephen Hawking tinha em mente quando disse que a nossa espécie precisa colonizar outros planetas no próximo século para sobreviver e o que levou Elon Musk a anunciar seus planos para a colonização do planeta Marte.
Na segunda parte da matéria da NYMag, “O calor mortal, transformando Nova Iorque em Bahrain”, David Wallace-Wells mostra que os seres humanos, como todos os mamíferos, são motores de calor. Sobreviver significa ter que esfriar continuamente, como cães ofegantes. Para isso, a temperatura precisa ser suficientemente baixa para que o ar atue como uma espécie de refrigerador, extraindo calor da pele para que o motor possa continuar bombeando. Mas as ondas mortais de calor estão tornando a vida impossível em algumas regiões, pois em temperaturas muito altas, dentro de horas, um corpo humano seria cozido até a morte por dentro e por fora.
O autor reporta que na região açucareira de El Salvador, cerca de um quinto da população tem doença renal crônica, o resultado presumido da desidratação de trabalhar nos campos. Desde 1980, o planeta experimentou um aumento de 50 vezes no número de locais com calor perigoso ou extremo. Um aumento maior virá em breve. Os cinco verões mais quentes da Europa desde 1500 ocorreram desde 2002 e, em breve, simplesmente estar ao ar livre, nessa época do ano será insalubre para grande parte do globo. A quatro graus, a onda mortal de calor europeia de 2003, matou 2.000 pessoas por dia. Mesmo que atingindo os objetivos de Paris de dois graus de aquecimento, cidades como Karachi e Calcutá se tornarão próximas a inabitáveis. A crise será mais dramática no Oriente Médio e no Golfo Pérsico, onde, em 2015, o índice de calor registrou temperaturas tão altas que a sensação térmica chegou a 163 graus Fahrenheit (72ºC). Assim, num futuro próximo, o Hajj se tornará fisicamente impossível para os 2 milhões de muçulmanos que fazem a peregrinação a cada ano a Meca.
Na terceira parte da matéria da NYMag, “O fim da comida, rezando por campos de milho na tundra”, David Wallace-Wells diz que nas culturas de cereais os rendimentos da colheita diminuem 10% para cada grau de aquecimento. O que significa que, para uma população de 11 bilhões de habitantes, poderemos ter 50% menos de grãos para oferecer. E o efeito do aquecimento global sobre as proteínas animais serão pior. A perda de solos será dramática, especialmente nos trópicos. A seca pode ser um problema ainda maior do que o calor, com algumas das terras mais aráveis ​​do mundo passando rapidamente para o deserto. O quadro já é preocupante hoje, com a ONU alertando de que 20 milhões de pessoas podem morrer de fome na Somália, Sudão do Sul, Iêmen e Nigéria.
Na quarta parte da matéria da NYMag, “Pragas climáticas, o que acontece quando o gelo bubônico derrete”, David Wallace-Wells relata que o gelo funciona como um livro do clima, mas também é uma história congelada, com pragas armazenadas que podem ser reanimados quando descongelados. Atualmente, estão presos no gelo do Ártico, doenças que não circularam no ar há milhões de anos. O que significa que nosso sistema imunológico não teria ideia de como lutar quando essas pragas pré-históricas emergem do gelo. O Ártico também armazena insetos aterrorizantes nos tempos mais recentes. Já no Alasca, pesquisadores descobriram os restos da gripe de 1918 que infectaram até 500 milhões e mataram cerca de 100 milhões de pessoas – cerca de 5% da população mundial e quase seis vezes mais do que morreram na Primeira Guerra Mundial.
Na quinta parte da matéria da NYMag, “Ar irrespirável, uma poluição (smog) mortal que atinge milhões de pessoas”, David Wallace-Wells considera que até o final do século, os meses mais legais da América do Sul tropical, da África e do Pacífico provavelmente serão mais quentes do que os meses mais quentes no final do século XX. Nossos pulmões precisam de oxigênio, mas isso é apenas uma fração do que respiramos. Com o aumento da concentração de CO2, em comparação com o ar que respiramos agora, a capacidade cognitiva humana diminui em 21%. Em 2090, cerca de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo estarão respirando um ar poluído, acima do nível “seguro” definido pela OMS. Documentos mostram que, entre outros efeitos, a exposição da mãe grávida ao ozônio aumenta o risco de autismo da criança. Já morrem cada dia mais de 10 mil pessoas das pequenas partículas emitidas pela queima de combustível fóssil. A cada ano, 339 mil pessoas morrem de fumaça de incêndios, em parte porque a mudança climática prolongou a temporada de fogo florestal. O que preocupa ainda mais as pessoas é o efeito que teria sobre as emissões, especialmente quando os incêndios provocam uma queda nas florestas decorrentes da turfa. Os incêndios são especialmente ruins na Amazônia que sozinha fornece 20% do nosso oxigênio. O “airpocalypse” chinês de 2013 tem afetado as atividades econômicas do país e foi responsável por um terço de todas as mortes na China.
Na sexta parte da matéria da NYMag, “Guerra perpétua, a violência cozida no calor”, David Wallace-Wells relata que os climatologistas são muito cuidadosos ao falar sobre a Síria e querem crer que, embora a mudança climática tenha produzido uma seca que contribuiu para a guerra civil, não é justo dizer que o conflito é o resultado do aquecimento. Mas há pesquisadores que conseguiram quantificar algumas das relações não óbvias entre temperatura e violência: para cada meio grau de aquecimento, eles dizem, as sociedades verão entre um aumento de 10 e 20% na probabilidade de conflitos armados.
Na sétima parte da matéria da NYMag, “Colapso Econômico Permanente, tenebroso capitalismo em um mundo meio pobre”, David Wallace-Wells ridiculariza o mantra do neoliberalismo de que “o crescimento econômico nos salvaria de todos e de tudo”. Mas no rescaldo da crise financeira de 2008, um crescente número de historiadores que estudam o que chamam de “capitalismo fóssil” começaram a sugerir que toda a história do rápido crescimento econômico, que começou um pouco antes do século 18, não é o resultado da inovação, mas simplesmente da descoberta dos combustíveis fósseis e todo o seu poder energético. Com o pico do petróleo, voltaremos a uma economia do “estado estacionário”. Além do mais, cada grau Celsius de aquecimento custa, em média, 1,2% do PIB. Os limites ambientais devem levar a economia global à estagnação secular.
Na oitava parte da matéria da NYMag, “Oceanos Envenenados, Sulfeto de hidrogênio e o esqueleto”, David Wallace-Wells declara que o mar se tornará um assassino. O nível do mar vai subir no mínimo um metro. Um terço das principais cidades do mundo está na costa, para não mencionar suas usinas de energia, portos, bases da marinha, terras agrícolas, pescas, deltas de rios, pântanos e plantações de arroz. O naufrágio das benfeitorias é apenas o começo. No momento, mais de um terço do carbono do mundo é absorvido pelos oceanos – ainda bem, ou então teríamos muito mais aquecimento. Mas o resultado é o que se denomina “acidificação do oceano”, que, por si só, pode aumentar meio grau de aquecimento neste século. Há também o “branqueamento de corais” – isto é, morte de corais – que é uma notícia muito ruim, porque os recifes suportam tanto quanto um quarto de toda a vida marinha e fornecem alimentos para meio bilhão de pessoas. Acidificação dos oceanos frita as populações de peixes. Nas águas ácidas, as ostras e os mexilhões terão dificuldade em cultivar suas conchas. Quando o pH do sangue humano cai tanto quanto o pH dos oceanos, induz convulsões, comas e morte súbita. A absorção de carbono pode iniciar um ciclo de feedback em que as águas sub-oxigenadas produzem diferentes tipos de micróbios que tornam a água ainda mais “anóxica”, primeiro em “zonas mortas” do oceano profundo, depois gradualmente em direção à superfície.
Na nona parte da matéria da NYMag, “O Grande Filtro, nossa curiosidade atual não pode durar”, David Wallace-Wells pondera que não existe uma vontade de esclarecer os efeitos da mudança climática. Certamente essa cegueira não durará, pois, o mundo que estamos prestes a habitar não o permitirá. Em um mundo de seis graus mais quente, o ecossistema terrestre vai ferver com tantos desastres naturais. Os furacões mais fortes virão com mais frequência, e teremos de inventar novas categorias para descrevê-los.
Em síntese, o autor considera que é preciso avaliar melhor os danos já causados ​​ao planeta. A Terra pode ficar inabitável, pois são muitos os processos que estão afetando a capacidade de sobrevivência da humanidade. Provavelmente, a Terra não ficará desabitada, mas a qualidade de vida da população mundial poderá reduzir bastante em um Planeta degradado. O Holoceno garantiu 10 mil anos de estabilidade climática. O Antropoceno e a grande aceleração das atividades antrópicas estão desequilibrando o clima e transformando a biosfera em um habitat inóspito e inabitável.
Indubitavelmente, David Wallace-Wells conseguiu assustar muita gente. Mas, principalmente, conseguiu fazer as pessoas discutirem os cenários negativos para os quais o mundo está caminhando na medida em que mantém o atual modelo de produção e consumo, sem respeitar o fluxo metabólico entrópico e os limites do meio ambiente.
Creio que vale a pena ler o artigo “The Uninhabitable Earth” e as centenas de respostas que foram publicadas logo a seguir. Para contribuir com a discussão indico abaixo algumas referências das pessoas que concordaram, aquelas que discordaram do tom, mas concordam com os perigos potenciais do aquecimento global e aquelas que discordam. (ecodebate)

Humanidade tem só mais 3 anos para salvar o planeta

Mudanças Climáticas: Humanidade tem só mais três anos para salvar o planeta, diz grupo de especialistas.
Principais autoridades ligadas ao clima se unem em campanha colaborativa para mobilizar setores-chave da economia; sua missão: reduzir a liberação de gases de efeito estufa até 2020 e evitar os piores efeitos das mudanças climáticas.
O ano de 2020 será crítico para o futuro do clima. Caso as emissões continuem a subir além dessa data, os objetivos do Acordo de Paris tornam-se praticamente inalcançáveis, concluiu um grupo de especialistas no assunto, liderados pela diplomata Christiana Figueres, ex-secretária-executiva da Convenção do Clima das Nações Unidas. Juntos, eles publicaram em 28/06/2017 na revista científica Nature, um plano para manter as emissões de gases de efeito estufa sob controle nos próximos três anos. Batizado de "Missão 2020", o documento traça metas de emissão de gases para seis setores da economia: energia, infraestrutura, transporte, uso da terra, indústria e finanças.
O documento foi divulgado uma semana antes de os líderes das maiores economias do mundo reunirem-se em Hamburgo, na Alemanha, na reunião do G20. É o primeiro encontro multilateral realizado após o anúncio de Donald Trump de que os EUA sairão do acordo do clima. “A ideia é justamente trazer o assunto para a pauta política, destacar o que cada uma destas grandes economias está fazendo para enfrentar o desafio climático, compartilhar boas práticas e renovar as esperanças, porque, de fato, ainda temos chances”, disse Figueres.
O aumento de temperatura que o planeta já experimentou neste século serviu para mostrar que os impactos sociais das mudanças climáticas, como as ondas de calor, as secas e o aumento do nível do mar, afetam especialmente os mais pobres. Os mantos de gelo na Groenlândia e na Antártida perdem massa a uma taxa crescente, aumentando o nível do mar; da mesma forma, o gelo marinho de verão do Ártico; além, dos recifes de corais, que morrem devido ao aquecimento das águas.
“A boa notícia é que ainda estamos em tempo de atingir as metas do Acordo de Paris se as emissões caírem até 2020”, afirma Hans Joachim Schellnhuber, diretor do Instituto para Pesquisa de Impactos Climáticos de Potsdam, na Alemanha. Nos últimos três anos, as emissões mundiais de gás carbônico por queima de combustíveis fósseis permaneceram estáveis, enquanto a economia global cresceu pelo menos 3,1% ao ano.
A taxa atual de emissão, de 41 bilhões de toneladas de gás carbônico por ano, ainda está acima do que podemos emitir. Significa que, no ritmo de agora, em quatro anos, ultrapassaríamos o limite de emissões que daria à humanidade uma chance de estabilizar a temperatura em 1,5° Celsius. “É agora ou agora. Não podemos mais esperar”, diz Schellnhuber. “Se atrasarmos, as condições de vida no planeta serão severamente restringidas."
Para evitar o pior, segundo Schellnhuber, é preciso usar a ciência para orientar decisões e estabelecer metas, replicar com agilidade as boas práticas de sustentabilidade e, sobretudo, incentivar o otimismo. “Temos inúmeras histórias de sucesso que precisam ser compartilhadas. É o que vamos fazer já na reunião do G20 na Alemanha”, disse.
Estas são as metas estabelecidas pela Missão 2020 para cada setor da economia:
1. Energia: As energias renováveis ​devem compor pelo menos 30% do fornecimento de eletricidade no mundo em 2020, contra 23,7% em 2015. Nenhuma usina a carvão poderá ser aprovada daqui três anos.
2. Infraestrutura: Cidades e Estados darão sequência aos seus planos de descarbonização, o que inclui a construção de edifícios e infraestruturas até 2050, com financiamento previsto de US$ 300 bilhões por ano.
3. Transporte: Os veículos elétricos deverão compor pelo menos 15% das vendas de automóveis novos globalmente até 2020 e os híbridos devem avançar 1%. O uso do transporte em massa nas cidades deve dobrar, a eficiência de combustível em veículos pesados deve aumentar 20% ​​e a emissão de gases de efeito estufa na aviação por quilômetro percorrido deve diminuir 20%.
4. Uso da terra: Novas políticas deverão proibir o desmatamento e os esforços devem se concentrar em reflorestamentos. As práticas agrícolas sustentáveis ​​terão de se espalhar pelo planeta e aumentar o sequestro de gás carbônico.
5. Indústria: A indústria pesada desenvolverá planos para aumentar a eficiência e reduzir suas emissões, com o objetivo de diminuir pela metade a liberação de gases de efeito estufa até 2050. Atualmente as indústrias de ferro, aço, cimento e petróleo emitem mais de um quinto do gás carbônico mundial.
6. Finança: O setor financeiro precisará ter pensado na forma de mobilizar pelo menos US $ 1 trilhão por ano para a ação climática. Governos, bancos privados e credores, como o Banco Mundial, vão emitir títulos verdes para financiar os esforços de mitigação do clima. Isso criaria um mercado anual que, até 2020, processaria mais de 10 vezes os US$ 81 bilhões de títulos emitidos em 2016. (ecodebate)

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Secas se tornarão mais frequentes e intensas em todo país

Estudo indica que secas devem se tornar mais frequentes e intensas em todo país.
Secas devem se tornar mais frequentes e intensas em todo país; Centro-Oeste é considerada uma das regiões mais vulneráveis.
Estudo do WWF-Brasil com Ministério do Meio Ambiente e Ministério da Integração traz metodologia inovadora e cenários para 2040, 2070 e 2099.
Secas e estiagens representam a categoria de desastres naturais com maior registro de ocorrências no país, representando cerca de 70% dos municípios atingidos por algum desastre em 2013. Isso significa que 12 milhões de pessoas foram afetadas pela seca nesse ano. Um estudo recente, que utiliza projeções do clima futuro, indica que a tendência é haver o aumento da frequência e severidade das secas em praticamente todo o território nacional. Neste trabalho, uma das conclusões é que a região Centro-Oeste deve ser uma das mais impactadas, com clima ainda mais quente e diminuição das chuvas para as próximas décadas.
Estes e outros dados estão no estudo Índice de Vulnerabilidade aos Desastres Naturais relacionados às Secas (IVDNS) no Contexto das Mudanças do Clima, que o WWF-Brasil, o Ministério do Meio Ambiente e o Ministério da Integração lançam nesta quarta-feira, 12 de julho, com apoio da Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ). A análise da vulnerabilidade do Brasil traz uma visão integrada do desastre, tendo como ponto de partida um índice composto por variáveis e subíndices que fazem sua representação em três dimensões:
i) climática;
ii) socioeconômica;
e iii) físico-ambiental.
De acordo com Everton Lucero, secretário de Mudança do Clima e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, o material surgiu como uma resposta à lacuna de estudos sobre a vulnerabilidade do país às secas e estiagens no contexto da mudança do clima, visando contribuir para o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima (PNA), cuja discussão começou em 2013 e culminou no seu lançamento, em 2016.
“O estudo traz uma metodologia inédita que quantifica a vulnerabilidade dos municípios brasileiros aos desastres decorrentes de secas. O resultado deste trabalho pode contribuir com a gestão de risco para este tipo de desastre, já para os próximos anos, mas também subsidiar as estratégias de adaptação que visam minimizar os impactos da mudança do clima nas próximas décadas”, comenta Lucero. Ainda de acordo com ele, com o estudo “será possível até mesmo contribuir para a elaboração ou revisão de iniciativas e políticas públicas relacionadas ao tema”.
O pesquisador Pedro Ivo Camarinha, um dos autores do trabalho, ressalta que a importância deste estudo não se faz apenas pela avaliação do clima futuro, mas principalmente por relacionar características ambientais, socioeconômicas e demográficas para entender o quão vulnerável os municípios brasileiros são. Segundo Camarinha, com este tipo de análise integrada foi possível identificar que em alguns locais o clima não é o grande vilão da história, como se pensava. “Em algumas regiões do Nordeste brasileiro, por exemplo, grande parte de desastres pode ser explicado pela falta de capacidade das populações em lidar com as situações de secas, característica esta explicitada pelos baixos índices de desenvolvimento humano (IDH), pela taxa de analfabetismo, pela desigualdade social, e problemas com a gestão do uso do solo e da água. Já no Sudeste, apesar das mudanças do clima serem, em geral, mais amenas, a alta concentração demográfica e problemas de gestão dos recursos hídricos podem resultar em grandes impactos, mesmo com pequenas alterações nos padrões climáticos”, comenta.
Para o coordenador do programa Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, André Nahur, este estudo contribui com elementos para que nos preparemos melhor para as consequências inevitáveis da mudança do clima. “Amenizar os efeitos da seca com ações de adaptação é uma questão econômica e social. Entender onde está o problema e todos os fatores a que ele está relacionado contribui para que governo e sociedade possam tomar ações mais efetivas, comenta.
Nahur destaca que este é o primeiro passo para as discussões sobre adaptação aos impactos das secas futuras e espera que o estudo publicado sirva de base para outros estudos regionais e locais. “Estes resultados trazem uma visão geral do território brasileiro. O objetivo principal foi encontrar as áreas mais críticas e conhecer as características mais relevantes para a discussão. O ideal é que este tipo de análise seja replicado futuramente, considerando também as especificidades locais para, assim, promover medidas de adaptação mais eficientes”.
O estudo completo, com detalhes sobre a metodologia, projeções de vulnerabilidade para os três períodos (2011-2040, 2041-2070 e 2071-2099) e sumário para tomadores de decisão estão disponíveis nos sites do WWF-Brasil (clique aqui para acessar) e do Ministério do Meio Ambiente. (ecodebate)

Ondas de calor atingem severamente a Europa Ocidental

O aquecimento global deu um claro impulso às temperaturas abrasadoras que cobriram a Europa Ocidental no início deste mês – uma onda de calor que ajudou a alimentar incêndios florestais mortais em Portugal. O aquecimento causado pelos gases com efeito de estufa da atmosfera faz com que a intensidade e a frequência das ondas de calor sejam 10 vezes mais prováveis, de acordo com uma nova análise  de pesquisadores que trabalham com o programa World Weather Attribution do Climate Central e vários parceiros externos.
É a mais recente análise de atribuição para mostrar que o aquecimento que ocorreu no último século – quase 2°F (1°C) – já teve influência clara em eventos de calor tão extremos. “O aquecimento global já colocou um polegar na balança; Já foi adiantado”, disse Noah Diffenbaugh , cientista do clima da Universidade de Stanford, que não estava envolvido com o trabalho.
A onda de calor foi o resultado de um ar quente e seco movendo-se para o norte de mais do norte da África no início da temporada de verão do que é típico para tais eventos de calor, especialmente no noroeste da Europa. O aeroporto Heathrow de Londres teve seu dia de junho mais quente em mais de 40 anos em 21 de junho, com temperatura atingindo 94 ° F (34.5°C). “Foi realmente muito quente para Oxford”, disse o cientista climático Friederike Otto, parte da equipe da WWA.
Espanha e Portugal viram as temperaturas mais altas, com grande parte da Península Ibérica do Sul superando 104°F (40°C). Uma das maiores temperaturas registradas foi de 109°F (43°C) em Évora, Portugal, em 18 de junho. O calor e as condições de seca que acompanham ajudaram a ventilar as chamas de um incêndio que parece ter sido desencadeado por raios de tempestades secas na área. Um incêndio na área central de Pedrógão Grande matou 64 pessoas que estavam presas em seus carros tentando fugir das chamas. A França e os Países Baixos ativaram seus respectivos planos de ação de calor, o primeiro dos quais foi posto em prática após uma onda de calor de 2003 que contribuiu para centenas de mortes. Essa onda de calor também foi reconhecida pela influência da mudança climática, em um dos primeiros estudos de atribuição.
Para avaliar o papel do aquecimento global na recente onda de calor, os pesquisadores usaram observações históricas de temperatura e modelos climáticos para ver como as chances de tal evento mudaram ao longo do tempo e comparar as chances de um clima com e sem aquecimento, respectivamente . Eles descobriram que a probabilidade de tal onda de calor ter pelo menos duplicado em toda a região foi até 10 vezes mais provável nos lugares mais atingidos, Espanha e Portugal. O que já foi um evento de calor raro, que pode acontecer a cada 10 a 30 anos, e é mais provável que aconteça no início do verão. As conclusões se encaixam em outros estudos, incluindo um por Diffenbaugh, que descobriram que o calor recorde era mais provável e mais grave em mais de 80% da parte do globo com dados observacionais suficientemente bons. Essa tendência para um calor cada vez mais severo continuará, especialmente se os gases com efeito de estufa que conduzem o aumento da temperatura global não sejam reduzidos. (ecodebate)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Comunidades mostram como produzir alimentos sem agredir o ambiente

Agroecologia na prática: Comunidades mostram que é possível produzir alimentos saudáveis sem agredir o meio ambiente.
Divulgar experiências exitosas de produção agroecológica e de organização comunitária foi um dos objetivos da Caravana Agroecológica do Semiárido Baiano, que percorreu localidades ao longo do São Francisco, no norte da Bahia, entre os dias 26 e 30 de junho.
Com esse objetivo, a caravana, que reuniu cerca de 70 pessoas de diversas organizações, entre elas a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), visitou, no dia 29 de junho, a comunidade de Coxo de Dentro, localizada na cidade de Jacobina, para conhecer o trabalho desenvolvido pela Associação Comercial dos Moradores e Agricultores de Coxo de Dentro. Com 112 membros, a associação, criada em 2000, vem trabalhando na organização do trabalho de extração do babaçu feita pelos moradores da comunidade e também na indução da transição agroecológica na produção da agricultura familiar local.
A comunidade fica em uma região de transição da caatinga para a mata atlântica, uma área com elevados índices pluviométricos e rica em nascentes, que abastecem alguns dos rios mais importantes do norte da Bahia, como o Itapicuru. “A gente tenta mostrar para a comunidade que é melhor para o meio ambiente e para a saúde produzir de maneira sustentável, sem utilizar nenhum tipo de agrotóxico nem fertilizantes químicos”, diz Robério Santos de Jesus, presidente da associação, que explica que as lavouras utilizam um biofertilizante natural produzido ali mesmo. “A variedade da produção também combate os insetos. Ao invés de plantar uma coisa só, você vai diversificando a produção, para que o inseto ataque uma planta e já não ataque outra”, explica Robério, que ressalta ainda a importância da rotatividade de culturas para a preservação dos solos, que reduz a necessidade de utilização de fertilizantes.
A extração do babaçu, que complementa a renda gerada pela comunidade através da comercialização da produção em feiras orgânicas da região, também é feita de acordo com os princípios da agroecologia: as palmeiras ocorrem naturalmente na região, e somente os frutos que caem no chão são recolhidos. Na associação local é feito o beneficiamento. “É um produto que se aproveita tudo. Aqui a gente faz carvão, faz o óleo do babaçu, faz sabonete, hidratante e também faz bijuterias, artesanato”, lista Robério.
Ieda Amaral, moradora da comunidade que trabalha na extração do babaçu, conta que anteriormente era comum a retirada dos cachos do alto das palmeiras. “Eu mesma cortei muito cacho de babaçu para vender na feira. A gente não tinha uma sobrevivência boa. Não era certo, mas eu era obrigada”, lembra Ieda, que completa: “Depois que a gente foi trabalhando, vendendo as coisas da roça, foi que a gente foi aprendendo a trabalhar na roça e deixar mais o coco sossegado. Quando a gente cortava não tinha quase coco no mato. Hoje tem muito”, ressalta. Ieda conta ainda que a transição para a agroecologia em seu roçado significou mais diversidade para sua produção e alimentação. “Hoje só compro no mercado o que não produzo aqui: arroz, feijão e carne. O resto eu planto: cenoura, beterraba, agrião, alho-poró, cebolinha, abóbora…” enumera. Antes, continua, ela plantava apenas banana e mandioca, e usava venenos pra combater pragas na lavoura. “Depois que eu aprendi a trabalhar assim me sinto outra pessoa, mais esperta na vida”, comemora.
Comunidade quilombola gera renda a partir da organização comunitária
“Somos quilombolas, temos muito a oferecer para o Brasil. Mas precisamos resgatar nossa história e nossa cultura”. A frase é de Valdecy dos Santos, moradora da comunidade de Monteiro, povoado do município de Caém reconhecida como remanescente de quilombo pela Fundação Palmares em 2011. Presidente da Associação Quilombola dos Produtores de Mandioca de Bom Jardim e Monteiro (Aquibom), Valdecy recebeu a caravana para falar sobre a organização da comunidade em torno de uma unidade de produção de beiju, feito a partir da mandioca. Fundada há 10 anos e com cerca de 40 membros, a associação produz e comercializa seus produtos através de feiras orgânicas e da venda para comerciantes locais, como supermercados e padarias. O beiju produzido pela associação também compõe o cardápio da merenda dos estudantes das redes municipal e estadual de ensino, por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que destina alimentos produzidos pela agricultura familiar para as escolas públicas. “Tudo que conseguimos para a nossa comunidade foi através do trabalho da associação: poste de iluminação, posto de saúde, creche”, afirma Valdecy, que diz sentir falta de apoio do governo na comunidade, que ainda luta pela regularização de suas terras. “Aqui na associação só quem tem documento de terra é meu pai, se precisar só ele que tem. É uma dificuldade grande que a gente tem aqui. E a gente sabe que a gente tem direito, somos quilombolas. Mas muitas vezes sentimos falta de apoio, ficamos sem ter a quem recorrer”, diz Valdecy.
Cooperativa traz ganhos para catadores de material reciclável
Na cidade de Jacobina, a caravana parou para conhecer o trabalho desenvolvido por uma cooperativa de catadores de material reciclável, a Recicla Jacobina. Criada há quatro anos, a cooperativa reúne 34 trabalhadores, que recolhem e vendem para reciclagem materiais como vidro, plástico e papelão. São três caminhões e quatro carrinhos motorizados para fazer a coleta. “A Cooperativa é muito importante aqui em Jacobina, porque antes disso era lixo na rua, na beira do asfalto. Quando o calor é demais ele pegava fogo, isso aqui era um caos”, lembra Elizabeth Santana, presidente da Recicla Jacobina. “Hoje a gente pega, imprensa e vende para fazer outro produto. É muito melhor do que você deixar enterrado e contaminar o subsolo e o ambiente onde a gente vive”, completa. Segundo Elizabeth, o trabalho dos catadores tem ajudado a evitar que os resíduos sólidos vão parar no rio que corta a cidade. “Agora, a coisa importante que o governo tinha que fazer era esgoto, porque não tem. Em Jacobina você passa em cada rua que o fedor cobre, e é um perigo, tanto pra gente quanto para a população”, pontua.
Segundo Elizabeth, o grosso do material ainda é recolhido do aterro controlado da cidade, que fica ao lado do galpão da cooperativa. A coleta seletiva, que os catadores ajudaram a implementar na cidade, ainda é muito incipiente, de acordo com Elizabeth. Segundo ela, a organização dos trabalhadores na cooperativa contribuiu para melhorar as condições de trabalho dos catadores, que ganham hoje entre R$ 1,2 mil e R$ 1,5 mil por mês. “Antes, quando a gente era autônomo, vendia material abaixo do preço, sempre enriquecendo o atravessador. Depois da cooperativa, a gente conseguiu um preço melhor”, revela a presidente da Recicla Jacobina. Apesar disso, ela afirma que a principal dificuldade da cooperativa é organizar os catadores e ampliar o número de cooperados. “O maior sonho da gente é crescer mais a Cooperativa, contratar mais cooperados e dar emprego a pessoas que não têm. Mas aqui tem regra, e tem muito catador que não se adapta. É uma dificuldade unir os catadores”, aponta.
Caminho a seguir
Para o professor-pesquisador da EPSJV André Búrigo, visibilizar as experiências positivas das comunidades visitadas durante a caravana contribui para evidenciar que há alternativas aos projetos de desenvolvimento hegemônicos. “É possível produzir e se organizar pra um outro tipo de sociedade que tenha menos impacto ambiental, que busque uma forma de uma relação positiva com a natureza. As comunidades tradicionais, as comunidades quilombolas que a gente visualizou também mostram que onde você tem comunidade organizada, onde você tem assistência técnica adequada chegado, você consegue produzir resultados positivos”, assinala. Luciana Khoury, promotora de Justiça e coordenadora do Núcleo da Bacia do Rio São Francisco acredita que o conhecimento das práticas sustentáveis compartilhadas pelos comunidades durante as caravanas servirão de subsídio para o trabalho do Ministério Pùblico. “A gente entende que isso nos fortalece até mesmo do ponto de vista do conhecimento das possibilidades para intervenção”, avalia Luciana, que integra também o Fórum Baiano de Combate ao Impacto dos Agrotóxicos. “O Fórum tem uma análise muito definida de que não existe uso seguro de agrotóxico. O caminho que a gente aponta no Fórum é o não uso mesmo, e por isso essa Caravana é tão importante, pra poder mostrar os anúncios das experiências agroecológicas, que seria realmente a forma de se viver com qualidade, não só pra quem produz, mas também para o consumidor e para os ecossistemas”, diz ela. (ecodebate)