terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Ecologia combina com tecnologia?

Lixo tecnológico: 5% do lixo sólido produzido vem do descarte de eletrônico; empresas e governos tentam reverter esta situação.
O acúmulo de peças de aparelhos eletrônicos descartados já soma 5% de todo o lixo sólido produzido no mundo, de acordo com o Greenpeace. Este número é praticamente igual à quantidade de plástico despejada no meio ambiente. O agravante é que o lixo eletrônico cresce cerca de 5% ao ano, até três vezes mais que a média de todo o lixo produzido.
O tema será discutido na Conferência da ONU sobre Mudança Climática que acontece no mês que vem em Copenhague, na Dinamarca. E não é só o destino final dos aparelhos eletrônicos que ocupa a pauta da reunião: o rastro de carbono deixado pela fabricação e utilização desses eletrônicos também preocupa.
Desde 2008 a Apple oferece em seu site estudos atualizados sobre o impacto ambiental de cada um de seus produtos. A empresa revela ainda que quase 40% de todo dano ao meio ambiente causado por eletrônicos acontece ainda na fase de fabricação, enquanto pouco mais de 50% dessa poluição surge durante o consumo do produto.
O Greenpeace mantém um ranking das empresas que menos agridem o meio ambiente, liderado pela Nokia. Inovações tecnológicas, como o PC sem PVC da HP, são premiadas, enquanto grandes empresas (como o Google, que não revela seus níveis de emissão) são pressionadas a oferecer maior transparência sobre suas políticas ecológicas.
Cada um pode fazer a sua parte na reciclagem e encaminhamento dos equipamentos obsoletos. Os aparelhos quebrados devem ser descartados de forma responsável. Jamais jogue pilhas e baterias no lixo comum. Elas devem ser descartadas em um posto de coleta. Fabricantes de celulares mantém esses postos em hipermercados, shopping centers e assistências técnicas.
Se o aparelho for pequeno, retire os componentes internos e jogue a carcaça nas lixeiras específicas para plásticos. As placas podem ser descartadas em algumas assistências técnicas, e como possuem materiais valiosos, podem ser direcionadas a centros de reciclagem.

Lixo tecnológico vira novo negócio

Empresas exportam peças e materiais de computadores e celulares usados para EUA, Europa, China e Japão.
O crescente volume de lixo tecnológico, como celulares, computadores e televisores descartados pelos consumidores está movimentando um novo negócio: fábricas que desconstroem equipamentos para recolocar as matérias primas no processo industrial, a chamada manufatura reversa. O segmento começa a ser visto como promissor - vários Estados, como São Paulo, estão criando leis que obrigam os fabricantes a darem destino correto aos eletroeletrônicos ao fim de sua vida útil.
Por ser ainda incipiente, não existem estatísticas precisas sobre o quanto essa indústria movimenta. Mas ela difere dos sucateiros de fundo de quintal, que desmontam equipamentos para retirar apenas os metais preciosos, como ouro e prata, presentes nas placas de computadores. "As empresas que estão se estabelecendo nesse mercado oferecem um serviço especializado e em conformidade com leis ambientais. Não competem com os catadores das ruas", diz Diógenes Del Bel, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Tratamento de Resíduos (Abetre), entidade que reúne algumas dessas companhias.
A desmontagem dos equipamentos visa aproveitar as matérias primas. Componentes como metais e plásticos são separados e vendidos à indústria, por preços que variam conforme o vai e vêm das commodities. Mas o Brasil ainda não tem parque tecnológico para recuperar baterias de celulares e placas de computadores, que são enviados para países como China, Japão, Estados Unidos e Alemanha para serem totalmente reaproveitados.
A operadora de telefonia celular Vivo começou a recolher aparelhos e baterias, descartados pelos consumidores há três anos. Conta com 3,4 mil pontos de coleta, mas o volume coletado ainda é pequeno: ao longo deste ano, foram recolhidos 105 mil itens. Uma empresa nacional, a GM&C, faz o serviço de coleta e desmonte dos aparelhos, mas a recuperação completa dos materiais é feita nos EUA e México. "Ainda não encontramos uma empresa que preste esse serviço de forma certificada no Brasil", diz Karina Biderman, diretora de responsabilidade socioambiental da Vivo.
OPORTUNIDADE
Este ano, o País deve vender 12 milhões de computadores, 47 milhões de celulares e 9 milhões de televisores, segundo estimativas da indústria. É difícil calcular o tempo de obsolescência dos equipamentos, mas a iminência de uma lei nacional que obrigue os fabricantes a dar destino à sucata já traz boas perspectivas para as empresas.
A Oxil, empresa de manufatura reversa com sede em Paulínia (SP) e filial em Salvador já sente o aumento da demanda. "O número de equipamentos recolhidos mais que dobrou do ano passado para cá", diz Akiko Ribeiro, diretora executiva da Oxil. São recolhidos por mês 40 toneladas de equipamentos eletrônicos e 4 mil geladeiras. Para dar conta da demanda, a empresa precisou ampliar em seis vezes o quadro de funcionários: passou de 10 empregados, há um ano, para cerca de 60.
Fabricantes de informática, como a Itautec, também estão de olho nesse mercado. Segundo João Carlos Redondo, gerente de sustentabilidade da Itautec, este ano a demanda por reciclagem tem sido maior que em 2008. No ano passado, a empresa destinou 469,97 toneladas de equipamentos para a reciclagem, o que corresponde a menos de 10% da renovação de equipamentos pelos clientes da Itautec.
A empresa conta com uma área de gestão ambiental de 715 metros quadrados em Jundiaí, onde chegam os equipamentos para a separação do material, que é enviado a terceiros. "Nesse lugar, separamos plástico, cabeamento, placas e metais."
A venda de material cobre somente 72% do custo da reciclagem. Um dos itens mais caros para a reciclagem são os tubos dos monitores, a um custo de R$ 500 por tonelada. "Se fôssemos mandar o material para o aterro, esse custo seria de R$ 90", disse o executivo. O vidro dos cinescópios é descontaminado e reaproveitado para produção de cerâmica.
A maior parte do material é reciclado no Brasil. A exceção são as placas, que são enviadas para a Bélgica e para Cingapura. "O investimento em uma planta local, com capacidade de 25 mil toneladas/ano, ficaria em cerca de US$ 5 milhões", afirma Redondo. "O Brasil já comportaria uma instalação dessas, mas ainda ninguém se interessou em investir."
Lei de resíduos tramita no Congresso há 18 anos
Ainda não existe uma lei nacional que obrigue as indústrias a recolher a sucata tecnológica após o fim da vida útil dos eletroeletrônicos, como ocorre na Europa. A Política Nacional dos Resíduos Sólidos, que deve trazer essa responsabilidade aos fabricantes, tramita há 18 anos no Congresso Nacional. Tem vários Estados tecendo suas próprias Leis, como é o caso de São Paulo, Paraná e Minas Gerais. Em julho, a Assembléia Legislativa de São Paulo aprovou a Lei nº 13.576/09, que obriga as empresas de componentes de computadores, televisores e de baterias a dar destino correto à sucata de tecnologia. “Após a definição de um marco legal nacional, o mercado de manufatura reversa, que hoje opera em pequenos volumes, irá crescer aceleradamente”, diz Diógenes Del Bel, presidente da Abetre, entidade que reúne empresas de tratamento de resíduos.

SP deverá propor ‘crédito de reciclagem’

Sancionada em julho deste ano, a lei estadual 13.576, que tornou fabricantes, distribuidores e lojistas responsáveis por recolher equipamentos usados e destiná-los a empresas de reciclagem, ainda não teve resultados práticos, não ampliou o descarte correto de PCs, celulares e TVs velhas no Estado de São Paulo. Para colocá-la em prática, as empresas aguardam uma regulamentação específica que está sendo desenvolvida por um grupo técnico formado pela Secretaria do Meio Ambiente e por representantes da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).
A ideia da Secretaria é que as normas possam criar um ciclo econômico viável para fabricantes, empresas de reciclagem e os consumidores. O coordenador de planejamento ambiental da Secretaria, Casemiro Tércio Carvalho, responsável pelo projeto, propõe que seja criada uma compensação para as empresas de reciclagem, um tipo de crédito de reciclagem, semelhante ao crédito de carbono.
Lojas que vendem produtos eletrônicos ficariam obrigadas a ter pontos de coleta e os fabricantes, responsáveis pelos produtos, pagariam créditos para que empresas de reciclagem recolham e reciclem os equipamentos usados. “Cada fabricante terá a liberdade de definir como repassar o custo para o consumidor. Mas a ideia é que a pessoa que troca de celular três vezes por ano tenha de pagar mais por isso”, afirma Carvalho.
O coordenador vai apresentar a proposta para o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) durante a reunião do grupo de trabalho em resíduos de equipamentos eletroeletrônicos, nesta semana. “Se conseguirmos criar uma resolução com o Conama, o crédito de reciclagem poderá valer para o Brasil todo, o que é mais interessante para os fabricantes”, diz.
O diretor de responsabilidade ambiental da Abinee, André Luís Saraiva, responsável pela interlocução com o governo sobre o tema, apoia a iniciativa. “Pode haver uma série de ganhos no processo de reciclagem. O fabricante pode deixar explícito para as empresas recicladoras quais são as possibilidades de reciclagem de cada produto”, afirma. Mas ele também propõe que as empresas tenham incentivo para reciclar equipamentos vendidos no mercado cinza, sem nota fiscal.