domingo, 15 de julho de 2018

Crise ambiental, mudanças climáticas e os riscos na Amazônia

A floresta amazônica, que já perdeu quase 20% de sua área original, está mais vulnerável do que se pensava. Pesquisas recentes apontam que a combinação de desmatamento, aquecimento global e queimadas pode levar mais de 50% do bioma a se transformar em uma savana até 2050. Se nada for feito para impedir essa degradação, a perda da floresta deve alterar drasticamente os regimes de chuva no centro e no sul do Brasil, com prejuízos para a agricultura e falta de água para os moradores das áreas urbanas.
Esses e outros dados que revelam a dimensão do desafio das mudanças climáticas foram apresentados pelo físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo (USP) e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em palestra (15/6) no Núcleo de Estudos Avançados (NEA) do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). Com o tema Meio ambiente global e Amazônia em crise: O que fazer?, o evento fez referência ao Dia Mundial do Meio Ambiente (5/6). Para conhecer as edições anteriores do NEA, clique aqui.
Na abertura do seminário, o coordenador do NEA, Renato Cordeiro, destacou o impacto das mudanças climáticas para a saúde pública, em especial no que se refere à transmissão de doenças infecciosas. “A progressiva destruição do planeta e o aquecimento global vêm causando um incremento nas doenças e na mortalidade dos seres humanos e de outros animais. A dengue, a zika, a malária, a chikungunya, a tuberculose e as doenças respiratórias, entre outras, são exemplos dessas fraturas ambientais”, afirmou.
Comprovação científica
Em sua palestra, Artaxo ressaltou que um conjunto cada vez maior de evidências científicas confirma que a ação humana está alterando o planeta e ressaltou que os altos índices de emissões de CO2 são uma causa importante das transformações observadas. Enquanto, antes da revolução industrial, cerca de três bilhões de toneladas de dióxido de carbono eram lançadas anualmente na atmosfera, hoje esse valor se aproxima dos 40 bilhões. Como desdobramentos, a temperatura na superfície terrestre está 1,25°C mais quente, enquanto os oceanos se tornaram 30% mais ácidos.
“Estamos no Antropoceno: uma era em que nós, seres humanos, nos tornamos uma força geofísica, capaz de mudar questões críticas no planeta”, declarou o pesquisador. Ele destacou que quatro dos nove limites planetários relevantes para a sustentabilidade ambiental já foram rompidos: as mudanças climáticas (ligadas ao aquecimento global); a integridade da biosfera (relacionada à perda de biodiversidade); o uso do solo (associado ao desmatamento); e os ciclos biogeoquímicos de nitrogênio e fósforo (derivados do uso de fertilizantes em larga escala).

IBGE mapeia potencial de agressividade climática na Amazônia.

Prejuízo reconhecido
O cientista enfatizou que as mudanças climáticas afetam todo o planeta, uma vez que a atmosfera é um sistema aberto: uma molécula de dióxido de carbono emitida, por exemplo, nos Estados Unidos, leva apenas dois dias para dar a volta na Terra. Por outro lado, as consequências do aquecimento global variam dependendo do local. No Brasil, cidades com mais de um milhão de habitantes (como Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Porto Alegre) precisarão se adaptar, uma vez que o nível do mar deve subir de 22 cm a 100 cm até 2080, segundo estimativas conservadoras.
De acordo com Artaxo, pela sua gravidade, a crise ambiental atual não é apenas um problema científico, mas uma questão econômica e ética. No ‘Relatório de Riscos Globais 2018’, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, entre as cinco ameaças com maior probabilidade de ocorrer, três estão ligadas ao meio ambiente: eventos climáticos extremos, desastres naturais e fracasso das iniciativas para mitigação e adaptação frente às mudanças climáticas. Entre os cinco riscos com maior potencial de impacto para a economia, as mesmas questões são apontadas, ao lado da crise hídrica. “O componente ético da questão ambiental foi evidenciado, por exemplo, pela encíclica sobre meio ambiente publicada pelo papa Francisco em 2015. Se pensarmos na perda da biodiversidade, a questão ética é clara: que direito nós, seres humanos, temos de eliminar diversas espécies do planeta?”, questionou o especialista.
Entraves para a sustentabilidade
Apesar das evidências científicas e dos impactos reconhecidos, faltam ações efetivas para conter as mudanças climáticas. Segundo o membro do IPCC, nos últimos cinco anos, as tecnologias para produção de energia limpa, como eólica e solar, se tornaram competitivas para substituir os combustíveis fósseis, que constituem a maior fonte de emissões de CO2 no planeta. Porém, são necessárias políticas públicas para acelerar a sua implementação. “As soluções tecnológicas já existem e são economicamente viáveis, mas não vão avançar sem políticas públicas. Nenhum país do mundo expandiu o uso de carros elétricos sem incentivos governamentais. No entanto, isso contraria os interesses das indústrias automotivas, que ainda querem lucrar com tecnologias atrasadas”, argumentou.
O cientista ponderou ainda que o ‘Acordo de Paris’, único compromisso internacional em vigor atualmente sobre o tema, dificilmente atingirá a meta de conter o aumento da temperatura média global abaixo de 2°C. Artaxo afirmou que a maioria dos países está longe de cumprir os compromissos de redução de emissões de CO2 assumidos voluntariamente, enquanto os Estados Unidos abandonaram o tratado após a eleição do presidente Donald Trump. “O componente humano é o maior fator de incerteza para o futuro. As projeções climáticas são claras e a questão que se coloca é: o que a humanidade vai fazer?”, declarou. “Nossa sociedade é caracterizada pelo desperdício: de água, de alimentos, de recursos naturais, de roupas, de celulares. Este tipo de comportamento precisa mudar se quisermos construir uma sociedade minimamente sustentável no futuro”, opinou.
Situação da Amazônia
O avanço do desmatamento na Amazônia foi um dos exemplos de retrocesso ambiental citado por Artaxo. Após uma tendência majoritária de queda entre 2004 e 2012, a área desmatada na floresta voltou a crescer a partir de 2013 – um ponto crítico, já que a vegetação contribui para conter o aquecimento global. Atualmente, cerca de 30% das emissões de CO2 são absorvidas pelas florestas, reduzindo a parcela de dióxido de carbono na atmosfera e, consequentemente, o efeito estufa. Além disso, no contexto local, a Amazônia desempenha um papel central para a manutenção do fluxo de vapor d’água, que alimenta o regime de chuvas das regiões central e sul do Brasil.
Citando uma pesquisa publicada em abril deste ano, o pesquisador afirmou que o valor dos serviços ambientais prestados pelos ecossistemas da América do Sul – onde a Amazônia tem um papel significativo – foi calculado em US$ 14 trilhões por ano. O cálculo considera aspectos como segurança alimentar, hídrica e energética, além das contribuições para a saúde da população e a sobrevivência de culturas locais. “O bioma amazônico é estratégico para o país e a sua destruição contraria o interesse nacional. É fundamental preservar a floresta para preservar os serviços ambientais que ela presta”, defendeu.

Debate urgente

A importância da conscientização de todos – incluindo a comunidade acadêmica – para o enfrentamento da crise ambiental foi um dos temas abordados no debate realizado no encerramento da palestra. Lembrando o conceito de ‘One Health’ (Saúde Única), pautado na integração entre saúde humana, saúde animal e meio ambiente, o público comentou o impacto da crise ambiental para a transmissão de doenças infecciosas. A relevância do tema para as pesquisas desenvolvidas no IOC e para a formação dos estudantes de pós-graduação do Instituto também foi ponto de discussão. O descompasso entre a rapidez da degradação ambiental e a lentidão das transformações tecnológicas, econômicas e culturais necessárias para enfrentar o problema foi mais um alvo das discussões. A urgência do tema foi enfatizada, com apontamentos sobre a importância de manifestação da academia nos debates para a implantação de políticas públicas efetivas contra as mudanças climáticas. (ecodebate)

Indústria, transporte e construção ajudam atingir metas climáticas

Ações nos setores da indústria, transporte e construção para atingir as metas climáticas de Paris.
Mais ações nos setores da indústria, transporte e construção são necessárias para atingir as metas climáticas de Paris.
Energia do carvão versus energia solar e eólica – os debates sobre as metas climáticas de Paris geralmente se concentram no fornecimento de eletricidade.
No entanto, mesmo em um mundo de políticas climáticas rigorosas e uma geração de energia limpa, o uso remanescente de combustíveis fósseis na indústria, transporte e aquecimento em edifícios ainda poderia causar emissões de CO2 suficientes para pôr em perigo as metas climáticas acordadas pela comunidade internacional.
Devido às emissões residuais de combustíveis fósseis que permaneceriam mesmo com políticas climáticas rigorosas promulgadas a partir de 2020, as chamadas tecnologias de emissão negativa para remover o dióxido de carbono da atmosfera serão necessárias para cumprir o limite de 1,5°C.
Publicado em Nature Climate Change, o estudo é o primeiro a focalizar especificamente as emissões residuais de combustíveis fósseis de setores que não são tão facilmente descarbonizados quanto a geração de energia.
“Queríamos decifrar o que realmente faz a diferença em termos de orçamentos de carbono e emissões residuais. Para identificar gargalos cruciais de descarbonização em direção à estabilização de 1,5-2°C, focamos no papel das emissões de combustíveis fósseis que se originam em indústrias como cimento ou siderurgia, abastecemos nosso setor de transporte de carros a fretes e aviação para aquecimento de nossos prédios” explica Shinichiro Fujimori, pesquisador do Instituto Nacional de Estudos Ambientais (NIES) e da Universidade de Kyoto, no Japão. “Esses setores são muito mais complicados de descarbonizar do que o nosso suprimento de energia, já que não existem opções óbvias disponíveis como a geração de eletricidade eólica e solar”.
Acontece que estas são as atividades que determinam crucialmente quanto dióxido de carbono será emitido dentro deste século; se e quanto o mundo terá que depender de emissões negativas e, em última instância, se as metas climáticas acordadas internacionalmente podem ser cumpridas.
Para o limite de temperatura de 1,5°C, as emissões negativas não são mais uma opção, mas uma necessidade.
As metas de Paris de manter o aquecimento global bem abaixo de 2°C e possivelmente a 1,5° C implicam um limite apertado para as emissões cumulativas de CO2 até 2100. Para colocar isso em perspectiva: o orçamento remanescente para a meta de 1,5°C pode ser tão baixo quanto 200 Gigatons de CO2, o que está em contraste com os 4.000 Gigatons de CO2 que seriam emitidos se as tendências atuais continuarem.
Os esforços de mitigação prometidos até agora são inadequados para reduzir suficientemente as emissões. Isso gera preocupações sobre a crescente dependência de tecnologias incertas e potencialmente arriscadas para as chamadas emissões negativas de CO2, retirando gases de efeito estufa da atmosfera, ampliando, por exemplo, as plantações de bioenergia ou a captura e armazenamento de carbono (CCS).

Assim, os pesquisadores exploraram diferentes caminhos de descarbonização para as metas climáticas de Paris. Com resultados preocupantes: “Descobrimos que, mesmo com enormes esforços de todos os países, incluindo o fortalecimento antecipado e substancial das contribuições nacionais determinadas, os nossos cálculos mostram que as emissões residuais de carbono permanecerão em cerca de 1000 Gigatons de CO2” explica Gunnar Luderer, do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impacto Climático (PIK, membro da Associação Leibniz), principal autor do estudo. “Esta parece ser uma extremidade inferior do que pode ser alcançado até mesmo com as políticas climáticas mais rigorosas, porque muitas das emissões residuais já estão presas ao sistema devido às infraestruturas e dependências existentes nos combustíveis fósseis. Para apontar para o ambicioso 1.” Luderer ressalta. “Então, as emissões negativas não são mais uma escolha, mas sim uma necessidade”.

A equipe de modeladores de toda a Europa, EUA e Japão trabalharam com sete estruturas avançadas de Modelagem de Avaliação Integrada (IAM) com tecnologia avançada – sofisticadas simulações computacionais descrevendo as interações sociais e econômicas que determinam a mudança climática, bem como as opções para estabilizar o clima reduzindo as emissões de gases de efeito estufa, levando em conta as metas de temperatura, os custos econômicos e as opções tecnológicas. Seu estudo é a primeira comparação de multi modelos à luz do Acordo de Paris que contrasta cenários de fortalecimento antecipado da ambição política em linha com as metas de 1,5 a 2°C com cenários que pressupõem o não fortalecimento das promessas climáticas do país antes de 2030.
Um fracasso em aumentar a ambição trancaria o mundo ainda mais em infraestruturas baseadas em fósseis.
“Nossa análise mostra que, além de uma descarbonização rápida do fornecimento de energia, a estabilização do aquecimento na faixa de 1,5°C também requer reduções substanciais nos setores de demanda de energia, como indústria, transporte e edifícios”, enfatiza Zoi Vrontisi da E3MLab da National Technical Universidade de Atenas. “Para alcançar as reduções adicionais de combustível fóssil necessários para a estabilização de 1,5°C, precisamos acelerar as melhorias de eficiência energética e uma eletrificação generalizada da demanda de energia.” Os pesquisadores também mostram que o não fortalecimento dos NDCs antes de 2030 não aumentaria apenas Emissões a longo prazo, mas também prejudica os potenciais de redução de emissões a longo prazo, pois bloqueia ainda mais os investimentos em infraestruturas baseadas em fósseis e deixa o mundo despreparado para se virar para a descarbonização, de acordo com seu estudo.

“A mitigação climática pode ser um desafio complexo, mas se resume a uma matemática bastante simples: se as metas de Paris devem ser cumpridas, as futuras emissões de CO2 devem ser mantidas dentro de um orçamento finito”, resume Elmar Kriegler, do Potsdam- Instituto de Pesquisa sobre o Impacto Climático. “Quanto mais o orçamento é excedido, mais relevantes serão as tecnologias de remoção de dióxido de carbono, e essas vêm com grandes incertezas. Embora ainda seja difícil determinar o orçamento exato de CO2 remanescente para 1,5°C, uma coisa é muito clara: as ambições para reduzir as emissões de combustíveis fósseis têm que aumentar substancialmente e em breve manter as portas abertas para atender às metas de Paris.” (ecodebate)