terça-feira, 27 de junho de 2017

Nível do mar brasileiro aumentará nas próximas décadas

Nível do mar na costa brasileira tende a aumentar nas próximas décadas.
Ponta da Praia, em Santos.
País, contudo, não possui estudo integrado da vulnerabilidade das cidades litorâneas ao fenômeno, aponta relatório especial do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.
O nível do mar na costa brasileira tende a aumentar nas próximas décadas. No Brasil, contudo, onde mais de 60% da população vive em cidades costeiras, não há um estudo integrado da vulnerabilidade dos municípios litorâneos a este e a outros impactos decorrentes das mudanças climáticas, como o aumento da frequência e da intensidade de chuvas. Um estudo desse gênero possibilitaria estimar os danos sociais, econômicos e ambientais e elaborar um plano de ação com o intuito de implementar medidas adaptativas.
As conclusões são do relatório especial do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) sobre “Impacto, vulnerabilidade e adaptação das cidades costeiras brasileiras às mudanças climáticas”, lançado nesta segunda-feira (05/06) durante um evento no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.
A publicação tem apoio da FAPESP e parte dos estudos nos quais se baseia são resultado do Projeto Metrópole e de outros projetos apoiados pela Fundação no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), financiado pela Fundação e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
“A ideia do relatório foi mostrar o estado da arte sobre mudanças de clima e cidades costeiras, baseado em uma exaustiva revisão de publicações internacionais e nacionais sobre o tema, e também identificar lacunas no conhecimento para que os formuladores de políticas públicas e tomadores de decisão no Brasil possam propor e implementar medidas de adaptação”, disse José Marengo, coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e um dos autores e editores do relatório, à Agência FAPESP.
De acordo com dados do documento, entre 1901 e 2010 o nível médio do mar globalmente aumentou 19 centímetros – com variação entre 17 e 21 centímetros.
Entre 1993 e 2010, a taxa de elevação correspondeu a mais de 3,2 milímetros (mm) por ano – com variação entre 2,8 e 3,6 mm por ano.
No Brasil também há uma tendência de aumento do nível do mar nas regiões costeiras com algum grau de incerteza porque não há registros históricos contínuos e confiáveis, ponderam os autores.
“Ainda não conseguimos detectar o aumento do nível do mar no Brasil por conta das poucas observações existentes e de estudos de modelagem para avaliar os impactos. Mas já identificamos por meio de estudos regionais diversas cidades de médio e grande porte que apresentam alta exposição à elevação do nível relativo do mar e já têm sofrido os impactos desse fenômeno, particularmente na forma de ressacas e inundações”, disse Marengo.
Entre essas cidades, onde 60% da população reside na faixa de 60 quilômetros da costa, estão Rio Grande (RS), Laguna e Florianópolis (SC), Paranaguá (PR), Santos (SP), Rio de Janeiro (RJ), Vitória (ES), Salvador (BA), Maceió (AL), Recife (PE), São Luís (MA), Fortaleza (CE) e Belém (PA).
Nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, por exemplo, têm sido registradas taxas de aumento do nível médio do mar de 1,8 a 4,2 mm por ano desde a década de 1950.
Na cidade de Santos, no litoral sul paulista, onde está situado o maior porto da América Latina, o nível do mar tem aumentado 1,2 mm por ano, em média, desde a década de 1940. Além disso, ocorreu um aumento significativo na altura das ondas – que alcançava 1 metro em 1957 e passou a atingir 1,3 m, em 2002 – e na frequência de ressacas no município.
Já no Rio de Janeiro, a análise dos dados da estação maregráfica da Ilha Fiscal – que tem a série histórica mais antiga do Brasil e fica no meio da Baía da Guanabara – indica uma tendência média de aumento do nível do mar de mais ou menos 1,3 mm por ano, com base nos dados mensais do nível do mar do período de 1963 a 2011 e com um índice de confiança de 95%.
Por sua vez, em Recife o nível do mar aumentou 5,6 mm entre 1946 e 1988 – o que corresponde a uma elevação de 24 centímetros em 42 anos. A erosão costeira e a ocupação do pós-praia provocaram uma redução da linha de praia em mais de 20 metros na Praia de Boa Viagem – a área da orla mais valorizada da cidade –, apontam os autores do relatório.
“Existem poucas observações como essas em outras regiões do país. Quando tentamos levantar dados dos últimos 40 ou 100 anos sobre o aumento do nível do mar em outras cidades do Nordeste, como Fortaleza, por exemplo, é difícil encontrar”, disse Marengo.
Impactos socioeconômicos
De acordo com os autores do relatório, as mudanças climáticas e um acelerado ritmo de elevação do nível do mar podem causar sérios impactos nas áreas costeiras do Brasil.
Os impactos socioeconômicos seriam mais restritos às vizinhanças das 15 maiores cidades litorâneas, que ocupam uma extensão de 1,3 mil quilômetros da linha costeira – correspondente a 17% da linha costeira do Brasil.
Entre as principais consequências da elevação do nível do mar, entre diversas outras, estão o aumento da erosão costeira, da frequência, intensidade e magnitude das inundações, da vulnerabilidade de pessoas e bens e a redução dos espaços habitáveis.
“Os impactos mais evidentes da elevação do nível do mar são o aumento da frequência das inundações costeiras e a redução da linha de praia. Mas há outros não tão perceptíveis, como a intrusão marinha, em que a água salgada do mar começa a penetrar aquíferos e ecossistemas de água doce”, ressaltou Marengo.
As projeções do quinto relatório (AR5) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) são que a elevação do nível do mar globalmente varie entre 0,26 e 0,98 metro até 2100 – em um cenário mais pessimista. O relatório apresenta estimativas similares para a costa brasileira.
Considerando que a probabilidade de inundações aumenta com a elevação do nível do mar pode ser esperada uma maior probabilidade de inundações em áreas que apresentam mais de 40% de mudanças no nível do mar observadas nos últimos 60 anos – como é o caso de várias metrópoles costeiras brasileiras, ressaltam os autores.
As inundações costeiras serão mais preocupantes no litoral do Nordeste, Sul e Sudeste, e também podem afetar o litoral sul e sudoeste da cidade do Rio de Janeiro. Os seis municípios fluminenses mais vulneráveis à elevação do nível do mar, de acordo com estudos apresentados no relatório, são Parati, Angra dos Reis, Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Magé e Campos dos Goytacazes.
“A combinação do aumento do nível do mar com tempestades e ventos mais fortes pode provocar danos bastante altos na infraestrutura dessas cidades”, estimou Marengo.
Exemplo de plano
O documento destaca o Plano Municipal de Adaptação à Mudança de Clima (PMAMC) da cidade de Santos como exemplo de plano de ação para adaptação às mudanças de clima e os seus impactos nas cidades [Leia mais sobre o assunto em http://agencia.fapesp.br/21997/].
A elaboração do plano foi baseada nos resultados do Projeto Metrópole, coordenado por Marengo.
O estudo internacional estimou que a inundação de áreas costeiras das zonas sudeste e noroeste de Santos, causada pela combinação da elevação do nível do mar com ressacas, marés meteorológicas e astronômicas e eventos climáticos extremos, pode causar prejuízos acumulados de quase R$ 2 bilhões até 2100 se não forem implementadas medidas de adaptação.
O estudo é realizado por pesquisadores do Cemaden, dos Institutos Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Geológico (IG) e das Universidades de São Paulo (USP) e Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com colegas da University of South Florida, dos Estados Unidos, do King’s College London, da Inglaterra, além de técnicos da Prefeitura Municipal de Santos.
“Nossa intenção é aplicar essa metodologia utilizada em Santos em outras cidades litorâneas brasileiras para termos pelo menos uma estimativa inicial do custo de adaptação à elevação do nível do mar”, disse Marengo. (ecodebate)

Aquecimento Global e o fim das ilhas Maldivas

A República das Maldivas é um país insular situado no Oceano Índico ao sudoeste da Índia, constituído por 1.196 ilhas, agrupadas em 26 atóis e com uma população de cerca de 330 mil habitantes. A capital, Malé, tem cerca de 100 mil habitantes. A colonização das Maldivas é antiga e ocorreu a partir de Sri Lanka. No século XVI, os portugueses estabeleceram uma pequena feitoria nas Maldivas, que administraram a partir da colônia principal portuguesa de Goa. Mas após 15 anos, foram expulsos por uma revolta popular. A religião predominante no passado era o budismo, mas houve uma conversão ao islamismo que permanece a religião hegemônica.
Mas as Maldivas, e os diversos países ilhas representados pela AOSIS (Aliança dos Pequenos Estados Insulares), correm o perigo de desaparecerem em função do aquecimento global e do aumento do nível do mar. Foi a AOSIS que pressionou a COP-21, em dezembro de 2015, para colocar a meta do limite de 1,5ºC. de aumento da temperatura no Acordo de Paris. Mas tudo indica que esta meta será ultrapassada e as Maldivas correm o risco de naufragar e desaparecer do mapa.
Pela primeira vez, desde o início da série de medições que começou em 1880, houve um aumento de temperatura por seis anos seguidos, com recordes sucessivos nos últimos 3 anos. As temperaturas ficaram, acima da média do século XX, em 0,58ºC em 2011, 0,62ºC em 2012 e 0,67ºC em 2013. Mas, mas nestes 3 anos, as temperaturas ficaram abaixo do que em 2010 que marcou 0,70ºC acima da média do século XX. Nos anos seguintes, pela primeira vez a temperatura bate recordes seguidos, 2014 com 0,74ºC, 2015 com 0,90ºC e 2016 com 0,94ºC.
O ano de 2016 foi também o ano em que a concentração de CO2 bateu o recorde e ficou acima de 400 partes por milhão em todas as semanas e dias (menos um) do ano. Os estudos e as evidências indicam que o degelo do polo norte, da Groenlândia, da Antártica e dos glaciares tem se acelerado, o que eleva o nível dos oceanos. Milhões de pessoas que vivem nas áreas costeiras estão sob risco crescente. Mas o risco mais iminente ocorre nesses pequenos países insulares (Nauru, Tuvalu, Fiji, Kiribati ilhas Marshall, etc.) que perigam desaparecer totalmente em função da elevação do nível dos oceanos. O futuro das ilhas Maldivas é desaparecer como ocorreu com a cidade de Atlântida, na antiguidade.
Mas existem outros perigos que são também atuais. As Maldivas são um destino internacional para o turismo de mergulho, em busca dos jardins de corais coloridos e uma vida marinha espetacular. Contudo, a riqueza e a beleza dos ecossistemas marinhos está ameaçada.
Em decorrência do aquecimento global e a consequente acidificação dos oceanos, os corais estão morrendo. O branqueamento (bleaching), retira a cor dos recifes deixando-lhes apenas um branco fantasmagórico. Este fenômeno ocorre quando os corais entram em stress devido às altas temperaturas. Estudos recentes mostram que mais de 60% das colônias de corais estão sofrendo com o branqueamento.
O governo da República das Maldivas criou um fundo de poupança para comprar terras no exterior onde a população possa migrar e viver em função da possibilidade das águas engolirem o paradisíaco arquipélago. Nas Maldivas o aquecimento global não é apenas uma ameaça. É uma sentença de morte. (ecodebate)

domingo, 25 de junho de 2017

A Terra com ‘pressão alta’ e hipertermia

“É triste pensar que a natureza fala e que a humanidade não a ouve”. Victor Hugo (1802-1885)
A hipótese Gaia, elaborada inicialmente por James Lovelock, diz que a Terra é um organismo vivo que tem um metabolismo natural capaz de regular seu clima e temperatura, promovendo um equilíbrio homeostático global. Eventos externos, como choques de meteoritos, podem provocar perturbações neste equilíbrio. Também forças internas, como vulcões, podem perturbar a estabilidade. Mas, atualmente, é o crescimento das atividades antrópicas, no Antropoceno, que está modificando o ambiente e perturbando o funcionamento natural, o que pode colocar em cheque a própria sobrevivência da vida na Terra.
De fato, o alto crescimento da população e da economia, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, ampliou tanto a exploração de recursos do meio ambiente e gerou tanta poluição e resíduos sólidos, que ultrapassou a capacidade de carga do Planeta. O principal vetor de pressão sobre o equilíbrio homeostático são as mudanças climáticas geradas pelo aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE). O efeito estufa descontrolado é como um tumor que provoca “pressão alta” e “febre”.
Quanto mais gases na atmosfera maior será a temperatura da Terra. Na tendência atual caminhamos para um quadro de hipertermia, isto é, elevação e manutenção das temperaturas em patamares capazes de comprometer, ou mesmo colapsar, os metabolismos do corpo biológico e geoclimático.
Assim, a alta concentração de CO2 funciona como uma “pressão alta” sobre o Planeta, pois absorve a dispersão dos raios solares e aumenta o efeito estufa. Quanto maior for a concentração de CO2 e outros gases de efeito estufa, como o metano (CO2 equivalente), maior será o aquecimento global.
A concentração de CO2 estava abaixo de 280 partes por milhão (ppm) nos 2 milhões de anos anteriores à Revolução Industrial e Energética. Mas a partir do uso generalizado dos combustíveis fósseis a concentração começou a subir alcançando 295 ppm em 1900, 300 ppm em 1920 e 310 ppm em 1950. Em 1958, Charles Keeling, instalou no alto do vulcão Mauna Loa o primeiro equipamento para medir as concentrações de CO2 na atmosfera. Com o início das medições do laboratório de Mauna Loa, comprovou-se que a concentração de CO2 na atmosfera, na média mensal, chegou a 399,76 partes por milhão (ppm) em maio de 2013 e ultrapassou definitivamente a barreira de 400 ppm no ano de 2015, sendo que em 2016, a maior concentração ocorreu no dia 10/04 (409,34 ppm).
Mas, a despeito do Acordo de Paris e dos trabalhos científicos que mostram os aspectos deletérios do efeito estufa, a concentração de CO2 continua subindo e chegou a 412,6 ppm no dia 26/04/2017. Em todo o mês de abril de 2017 a média foi de 409,01 ppm. No dia 15/05/2017 a concentração ficou em 411,27 ppm. Na semana de 14 a 20 de maio a média semanal ficou em 410,36 ppm, conforme o gráfico abaixo.
O gráfico seguinte mostra a média horária e diária da concentração de CO2, segundo dados da NOAA. A média horária ultrapassou o limiar simbólico de 410 ppm no dia 05 de abril de 2017 e repetiu a marca em vários outros dias, especialmente depois do dia 19 de abril, até chegar perto de 414 ppm no dia 26/04. No mês de maio de 2017, não só a média horária, mas também a média diária ultrapassou a marca de 410 ppm em vários momentos, indicando que o teto de 410 ppm em 2017, tende a ser um piso a partir de 2018.
O nível minimamente seguro de concentração atmosférica de CO2 é de 350 ppm. Assim, o mundo vai ter não só de parar de emitir gases de efeito estufa (GEE) como terá que fazer “emissões negativas”, ou seja, terá que sequestrar carbono e fazer uma limpeza da atmosfera para reduzir a quantidade de CO2, evitar a acidificação dos solos e dos oceanos e o degelo do Ártico, da Antártica, da Groenlândia e dos Glaciares. E uma grande ameaça que se agrava com o processo de degelo é a “bomba de metano” que existe no permafrost.
Grandes terrenos de permafrost do ártico ao noroeste do Canadá, no Alasca e na Sibéria estão se desintegrando, enviando enormes quantidades de lama e sedimentos ricos em carbono em riachos e rios. A liberação do CO2 e do metano existente nos solos congelados pode tornar o efeito estufa uma bomba incontrolável, como existia há 200 milhões de anos, quando a biodiversidade da Terra era muito menor do que a atual. Artigo de Uwe Branda et. al. (2016) traz uma afirmação preocupante: “O aquecimento global provocado pela liberação maciça de dióxido de carbono pode ser catastrófico. Mas a liberação do hidrato de metano pode ser apocalíptica”.
As gerações presentes já estão sentindo o perigo. O aumento da concentração de CO2 na atmosfera contribuiu para o fato dos anos de 2014, 2015 e 2016 terem sido os mais quentes já registrados e aponta para novos recordes futuros de aquecimento. Estima-se que o limite de 1,5ºC vai ser atingido antes de 2030. O primeiro trimestre de 2017 foi o segundo mais quente da série de registros que começou em 1880. O gráfico abaixo mostra o aumento da temperatura global, anual, em relação à média do século XX, de 1880 a 2016. Nota-se que o aquecimento se acelerou após 1970, com média de aumento de 0,17ºC por década. Neste ritmo o aquecimento pode ultrapassar 3ºC em 2100, em relação ao período pré-industrial.
O gráfico abaixo mostra que o mundo ruma para a temperatura mais alta dos últimos 5 milhões de anos. Nota-se que poucas vezes na história, nos últimos 5 milhões de anos, a temperatura ficou acima da média do século XX. Se o aquecimento global continuar no ritmo atual, a civilização estará no rumo de uma catástrofe. E o mais grave é que a autodestruição humana pode levar junto milhões de espécies que nada tem a ver com os erros egoísticos dos seres que se julgam superiores e os mais inteligentes. A humanidade pode estar rumando para o suicídio, podendo também gerar um ecocídio e um holocausto biológico de proporções épicas.
A última vez que a temperatura ultrapassou os 2ºC, no Planeta, foi no período Eemiano (há cerca de 120 mil anos) e provocou o aumento do nível dos oceanos em algo como 5 a 9 metros. Com tudo indica que a temperatura no século XXI deve ultrapassar os 2ºC em relação ao período pré-industrial e, com tanta gente vivendo nas áreas urbanas no litoral e com tantas terras utilizadas na agropecuária, os danos e os prejuízos poderão ser incalculáveis.
Artigo de Stefan Rahmstorf et. al. (2017), publicado na revista Environmental Research Letters, mostra (ver gráfico abaixo) que as temperaturas globais da superfície continuam subindo e que não há uma tendência de arrefecimento do aquecimento global. O estudo mostra que as variações de curto prazo estão dentro das previsões estatísticas e o que importa são as tendências de longo prazo. E estas estão falando alto, especialmente o período 1970-2016. Este estudo é apenas mais um prego no caixão da mentira dos negacionistas e céticos climáticos de que o aquecimento global terminou.
Assim, o aumento da temperatura está liberando o dióxido de carbono e o metano armazenados no permafrost e na tundra do Ártico. Artigo de Oliver Milman, (Guardian, 08/05/2017) mostra que as medições dos níveis de dióxido de carbono de aeronaves, satélites e no solo indicam que a quantidade de CO2 emitida pela fria tundra do norte do Alasca aumentou 70% entre 1975 e 2015, no período entre outubro e dezembro de cada ano. E a causa foi o aumento da temperatura dos solos. No verão do Ártico, o nível superior do solo, que fica acima de uma vasta camada de permafrost que cobre grande parte do Alasca, descongela e decompõe matéria orgânica, o que libera CO2. A partir de outubro, as temperaturas mais frias ajudam a congelar o solo novamente, bloqueando o CO2.
Tudo isto indica que este Planeta – que é, comprovadamente, o único no Universo que abriga a vida em uma multiplicidade de formas maravilhosamente plural de uma rica biodiversidade – está doente. Está com “pressão alta” (efeito estufa) e hipertermia. O desenvolvimentismo aumenta o metabolismo social que aumenta o metabolismo entrópico (conforme ensina a Segunda Lei da Termodinâmica). Mas como ensina a Economia Ecológica, é impossível manter um crescimento infinito em um planeta finito.
A solução passa por uma diminuição drástica das emissões de gases de efeito estufa (tanto do setor de produção de bens de consumo, como no setor de transporte, assim como na pecuária e no manejo do solo para a agricultura) e pelo aumento significativo das áreas de florestas. A humanidade já desmatou metade das áreas de floresta do mundo. Artigo publicado no blog #SavetheTrees mostra que o mundo planta 5 bilhões de árvores por ano e desmata 15 bilhões de árvores. São duas árvores derrubadas para cada habitante da Terra, um enorme holocausto biológico que dificulta a captura de carbono. No ritmo atual todas as florestas do mundo desaparecerão em 300 anos.
Mesmo o livro sobre “Os Limites do Crescimento” ou Relatório Meadows, de 1972, que é considerado meio escatológico, não previu que as mudanças climáticas aconteceriam de maneira tão rápida e carregariam um potencial destruidor tão grande. Como mostra o livro “Enough is Enough” (2010), o mundo precisa reduzir a pegada ecológica e também o número de pés, ou seja, é preciso promover um decrescimento demoeconômico global para diminuir a concentração de GEE na atmosfera (que provoca pressão alta) e também a redução da temperatura para evitar a hipertermia do Planeta.
Os estudos sobre as Fronteiras Planetárias, do Stockholm Resilience Centre, indicam que as mudanças climáticas são o principal “limite fundamental” que tem o potencial de conduzir o Sistema Terra a uma situação apocalíptica. O aquecimento global é o elo fraco da corrente que mantêm o equilíbrio homeostático do Planeta. Se a “pressão alta” continuar e a “febre” não baixar, poderá haver um colapso da vida humana e não-humana da Terra. Ecocídio e suicídio são fenômenos delineados no horizonte do Antropoceno. (ecodebate)

Glaciares dos EUA caminham para um fim

Glaciares dos EUA caminham para um fim, apesar do ‘ceticismo’ de Trump sobre o aquecimento global.
Glacier National Park (U.S. National Park Service)
Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, toma uma decisão sobre a saída de seu país do Acordo de Paris e alimenta o ceticismo sobre o aquecimento global, os cientistas alertam sobre o inevitável desaparecimento dos glaciares em um dos parques nacionais mais emblemáticos do país: o Glacier National Park, no estado de Montana. As informações são da agência EFE.
Dos 150 glaciares que existiam no parque no final do século XIX, hoje só restam 26, e nos últimos 50 anos eles perderam 85% de sua massa de gelo, segundo um estudo divulgado na semana passada pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês).
“Veremos os glaciares desaparecerem no curso de nossas vidas. Não há possibilidade de que eles voltem a renascer”, assegurou Daniel Fagre, pesquisador do USGS. Ele disse que o processo de dissolução dos glaciares é “dramático e inevitável” e terá importantes consequências na fauna e flora do parque, quando foi criado em 1910.
Para o pesquisador, o estudo dos glaciares é especialmente significativo, já que eles são barômetros estáveis das mudanças de longo prazo na Terra, já que não reagem à tendência climática anual. “Sabemos que há uma tendência de longo prazo quando todos os glaciares estão derretendo ou crescendo simultaneamente”, ressaltou Fagre.
Informações de milhares de anos
Os glaciares são grandes volumes de gelo que se originam pelo acúmulo e cristalização da neve, e cujo deslocamento ao longo dos anos dá lugar aos característicos vales em forma de U. Seu estudo é um dos mais prezados pelos geólogos, já que trazem informações de milhares de anos.
O enorme parque dos glaciares, de 4,1 mil Km2, está localizado no noroeste dos EUA e faz fronteira com o Canadá. Alguns de seus glaciares têm mais de 12 mil anos. “Embora a redução dos glaciares de Montana seja mais severa que em outros lugares dos EUA, ela está em linha com as tendências que vimos em escala global”, salientou Andrew G. Fountain, professor da Universidade de Portland e coautor do estudo do USGS.
O trabalho atribuiu este fenômeno ao aumento da temperatura global e ao aumento de chuva frente à neve no parque. O mais provável, advertem os geólogos, é que EUA percam todos os seus glaciares até o final desse século e só restem os do Alasca, acima do paralelo 48.
Este processo ocorre ao mesmo tempo em que o presidente Trump insiste em defender o ceticismo a respeito da influência da atividade humana no aquecimento global.
Decisão
A Casa Branca anunciou na semana passada que Trump tomará uma decisão sobre a saída dos EUA do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas após a sua viagem à cúpula do G7, no final deste mês, na Itália.
Esta semana, ficou evidente um confronto interno entre duas facções no seio do Executivo americano: uma liderada pela assessora presidencial Ivanka, filha de Trump, e pelo secretário de Estado, Rex Tillerson, que defendem o cumprimento do pacto climático. E outra é liderada pelo estrategista-chefe de Trump, Stephen Bannon, e pelo diretor da Agência de Proteção Ambiental (EPA), Scott Pruitt, que propõem a retirada.
Em 2016, Pruitt apontou que “os cientistas continuam em desacordo sobre o grau e alcance do aquecimento global e sua conexão com as ações dos seres humanos” e acrescentou que “o debate deveria ser estimulado”.
Compromisso
O compromisso assumido pelos Estados Unidos, assinado em 2015 pelo então presidente Barack Obama, era o de reduzir até 2025 suas emissões de gases de efeito estufa entre 26% e 28% com relação aos níveis de 2005.
Trump criticou os excessivos regulamentos ambientais que colocam um freio ao desenvolvimento econômico e iniciou, através de uma série de ordens executivas, a revisão das medidas de controle de emissões aprovadas por Obama.
As propostas do governante geraram uma enorme rejeição interna, particularmente da comunidade científica e de ativistas ambientais, que realizaram diversas manifestações em Washington e outras grandes cidades para criticar Trump e insistir na necessidade de proteger os recursos naturais.
Enquanto isso, os glaciares americanos prosseguem seu silencioso desaparecimento. (ecodebate)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Projeções da ONU da população brasileira e mundial

As novas projeções da ONU sobre a população brasileira e mundial
A Divisão de População da ONU divulgou em 21/06/2017, as novas projeções de população para todos os países e para a população regional e mundial. A Revisão 2017 da ONU, traz uma série muito grande de dados e gráficos, assunto para muitas análises e debates.
Para o Brasil, a nova revisão média indica que o pico populacional (máximo da população antes do início do decrescimento) deve ocorrer em 2047, quando a população pode atingir 232,8 milhões de habitantes. Em 2055, a população brasileira deve cair ligeiramente para 231,5 milhões e pode chegar a 190 milhões em 2100. Na revisão anterior (de 2015) as projeções da ONU indicavam o pico populacional de 238,3 milhões em 2050 e um total de 200 milhões em 2100.
As últimas projeções do IBGE (revisão 2013) indicam um pico populacional de 228,4 milhões de habitantes, no Brasil, em 2042. Portanto, a mais nova projeção da ONU se aproxima da projeção do IBGE. Evidentemente, o tamanho futuro da população brasileira e mundial, depende do comportamento das taxas de natalidade, mortalidade e migração.
Enquanto as projeções da ONU diminuíram o tamanho da população brasileira em meados do século XXI, o contrário aconteceu para o caso da população mundial. Na revisão 2015, a população mundial era de 7,35 bilhões de habitantes em 2015 e 7,52 bilhões em 2017, sendo projetada para 9,73 bilhões em 2050 e 9,92 bilhões em 2055. Já na projeção 2017, a população mundial foi estimada em 7,38 bilhões de habitantes em 2015 e 7,55 bilhões em 2017, sendo projetada para 9,77 bilhões de habitantes em 2050 e 10 bilhões em 2055.
Ou seja, a população mundial atingiu 7 bilhões de habitantes em 2011 e deve alcançar 10 bilhões em 2055, acrescentando 3 bilhões de habitantes no curto espaço de 44 anos (cerca de um bilhão a cada 15 anos). Entre 2017 e 2030 a população global vai passar de 7,6 bilhões para 8,6 bilhões, um aumento de 1 bilhão de habitantes nos próximos 13 anos. São 83 milhões de novas bocas por ano e que podem não ser 83 milhões de braços para o trabalho devido à crise de emprego. Evidentemente, este alto crescimento demográfico deve ter um impacto negativo sobre o meio ambiente e deve dificultar a solução dos problemas sociais e a redução da pobreza.
Os países mais populosos do mundo, em 2017, são: China (1,4 bilhão de habitantes), Índia (1,34 bilhão), EUA (324 milhões), Indonésia (264 milhões), Brasil (209 milhões), Paquistão (197 milhões), Nigéria (191 milhões), Bangladesh (165 milhões), Rússia (144 milhões) e México (129 milhões).
Mas a ordem deste quadro vai mudar em 2055, quando os 10 países mais populosos, na ordem decrescente, serão: Índia (1,67 bilhão de habitantes), China (1,33 bilhão), Nigéria (451 milhões), EUA (397 milhões), Indonésia (323 milhões), Paquistão (319 milhões), Brasil (232 milhões), República do Congo (218 milhões), Bangladesh (203 milhões) e Etiópia (202 milhões).
As projeções da Divisão de População da ONU, revisão 2017, confirmam que o crescimento demográfico mundial vai continuar forte na primeira metade do século XXI. Países pobres da África e da Ásia vão ser responsáveis pelo grande crescimento da população mundial, mesmo num quadro em que já há outros 83 países com taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição (perfazendo 46% da população mundial).
Portanto, o mundo passa por uma situação caracterizada como fosso demográfico. Cerca da metade da população mundial caminha para o decrescimento populacional com elevado envelhecimento da estrutura etária, enquanto a outra metade tem uma estrutura etária jovem e altas taxas de crescimento vegetativo. Em outros artigos vamos abordar os diversos aspectos da dinâmica demográfica nacional, regional e global.
A demografia não é destino. Mas não há futuro de prosperidade e bem-estar para os países e o mundo sem o adequado enfrentamento dos problemas demográficos. (ecodebate)