terça-feira, 19 de junho de 2018

Aumento de temperatura em 2°C duplica população exposta a riscos climáticos

Aumento de temperatura global de 2°C duplica a população exposta a múltiplos riscos climáticos em comparação com um aumento de 1,5°C.
“Poucos estudos têm consistentemente investigado tantos desafios sobrepostos no clima e no desenvolvimento”, diz Byers. “A pesquisa considera os diferentes aumentos de temperatura média global, como as diferenças entre 1,5°C e 2,0°C, e usa novos conjuntos de dados socioeconômicos de níveis de renda e desigualdade para identificar onde e em que medida os mais vulneráveis na sociedade estão expostos esses desafios de desenvolvimento climático”.
Keywan Riahi, diretor do programa IIASA Energia, acrescenta: “A pesquisa indica locais onde o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é importante, mas também muito desafiador, e mostra a importância substancial da redução da pobreza que é necessária em algumas regiões para reduzir vulnerabilidade”.
O declínio do gelo flutuante do Ártico é um dos sinais mais evidentes do aquecimento global. A animação mostra a redução entre 1979 e 2010.
Novas pesquisas identificando hotspots de vulnerabilidade climática descobriram que o número de pessoas afetadas por múltiplos riscos de mudança climática poderia dobrar se a temperatura global aumentasse em 2°C, comparado a um aumento de 1,5°C.
A equipe, liderada pelo pesquisador Edward Byers, do Programa de Energia do IIASA, investigou a sobreposição entre múltiplos riscos de mudança climática e desenvolvimento socioeconômico para identificar os hotspots de vulnerabilidade se a temperatura média global deve subir em 1,5°C, 2°C e 3°C até 2050, em comparação com a linha de base pré-industrial. Uma vez que aqueles em situação de pobreza são muito mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas, é importante saber onde e quantas pessoas vulneráveis estão em alto risco para criar políticas para mitigar a situação.
Os pesquisadores do IIASA, do Global Environment Facility (GEF), da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO), da Universidade de Oxford e da Universidade de Washington desenvolveram 14 indicadores de impacto em três setores principais: água, energia e alimentos e meio ambiente. – usando uma variedade de modelos de computador. Os indicadores incluem um índice de estresse hídrico, sazonalidade do abastecimento de água, acesso limpo à cozinha, eventos de estresse térmico, degradação do habitat e mudanças no rendimento das culturas. Eles compararam os riscos potenciais nas três temperaturas globais e em uma série de caminhos socioeconômicos, para comparar o desenvolvimento mais justo e sustentável com caminhos caracterizados por falhas de desenvolvimento e alta desigualdade.
Em 2011, cerca de 767 milhões de pessoas viviam com menos de US $ 1,90 por dia, classificadas como pobreza extrema, e a equipe de pesquisa estimou que mais 3,5 bilhões de pessoas são “vulneráveis à pobreza”, vivendo com menos de US $ 10 por dia.
Temperaturas globais na década de 1880 e 1980, comparadas à média no período entre 1951 e 1980.
O risco multissetorial é aquele em que o risco vai além do tolerável em, pelo menos, dois dos três principais setores. Em temperaturas mais baixas, os hotspots ocorrem principalmente no sul e leste da Ásia, mas com temperaturas globais mais altas, os hotspots se espalham ainda mais para a América Central, a África ocidental e oriental, o Oriente Médio e o Mediterrâneo. A massa terrestre real afetada é relativamente pequena, em 3-16%, dependendo do cenário. No entanto, as áreas de maior risco tendem a ser densamente povoadas. A 1,5°C de aquecimento, 16% da população do mundo em 2050, 1,5 bilhão de pessoas, terá níveis moderados a altos de risco multissetorial. A 2°C de aquecimento, isso quase duplica para 29% da população global, 2,7 bilhões de pessoas. A 3°C de aquecimento, esse número quase dobra novamente, para 50% da população, ou 4,6 bilhões de pessoas.
Dependendo do cenário, 91-98% da população exposta e vulnerável vive na Ásia e na África. Cerca de metade destes vive apenas no sul da Ásia, mas a África provavelmente enfrentará riscos maiores como a região menos desenvolvida com alta desigualdade social.
Com o mundo já em torno de 1,0°C mais quente do que as médias pré-industriais, em 2015 os líderes globais concordaram em Paris em limitar o aquecimento médio em 2°C, com a intenção de limitar o aquecimento a 1,5°C, se possível. As grandes diferenças, observam os pesquisadores, mesmo entre o aquecimento de 1,5°C em comparação aos 2°C, são notáveis e destacam os riscos multidimensionais da mudança climática e a necessidade de manter o aquecimento o mais baixo possível.
Segmentar o desenvolvimento socioeconômico em áreas de hotspot é particularmente importante para reduzir a vulnerabilidade em lugares onde os impactos serão mais graves. O desenvolvimento sustentável em áreas de hotspot poderia reduzir o número de pessoas expostas e vulneráveis em uma ordem de grandeza, de 1,5 bilhão para 100 milhões, em comparação com o cenário de alta desigualdade. Os mais pobres da sociedade provavelmente serão impactados desproporcionalmente pelas mudanças climáticas e maiores esforços para reduzir a desigualdade e promover a adaptação são urgentemente necessários.
“A pesquisa será mais relevante para os formuladores de políticas e outros que buscam entender os benefícios de manter a temperatura média global subindo para 1,5°C em vez de 2°C, além de fornecer insights sobre as regiões de maior risco em diferentes setores. Os países mais pobres e vulneráveis correm mais riscos e esse trabalho ajudará a identificar abordagens integradas e intersetoriais, além de direcionar recursos para o máximo impacto”, diz Astrid Hillers, especialista ambiental sênior do GEF.
Distribuições da população global e exposição da área terrestre à pontuação de risco multissetorial em 2050 com a população SSP2. O painel superior (a) mostra a exposição agregada para todo o mundo por população e área terrestre. As áreas sombreadas ao redor das linhas representam a incerteza dos intervalos de pontuação do indicador (Métodos 2.5 e SI 1.4). O painel inferior (b) é a exposição da população para mais de 27 regiões terrestres do IPCC (tabela SI S4 para códigos de região de três letras). Notavelmente, as diferenças de MSR na população, de acordo com o GMT, são mais pronunciadas quando MSI 4,0. Nesse nível, a população exposta em 1,5°C é menos da metade do clima de 3°C. As diferenças de exposição da área terrestre são menores, pois alguns dos indicadores de impactos são mais direcionados pela população. As diferenças entre regiões (b ) são substanciais, por exemplo, todas as sub-regiões norte-americanas estão abaixo da exposição mediana global, enquanto quase todas as regiões asiáticas estão acima. (ecodebate)

Variabilidade climática não explica aumento da temperatura após século 19

Variabilidade natural do clima não explica o aumento da temperatura do planeta registrado desde o século XIX.
Contribuição humana para as mudanças climáticas é inegável, avaliam cientistas.
A temperatura média da Terra aumentou 1,02ºC desde o século XIX e pode subir até quase 5oC até o fim deste século, apontam estudos publicados nos últimos anos. A contribuição humana para o aumento da temperatura terrestre, por meio do aumento das emissões de gases de efeito estufa pela queima de combustíveis fósseis e o desmatamento, entre outras ações, é inegável, avaliaram pesquisadores participantes da segunda edição do programa de TV Ciência Aberta, sobre “Mudanças Climáticas Globais”, realizado em 08/05/18, no auditório da FAPESP.
O programa de TV Ciência Aberta é uma parceria da FAPESP com o jornal Folha de S.Paulo. Realizado mensalmente no auditório da FAPESP, o programa é exibido ao vivo pelo site da FAPESP (www.fapesp.br), pela página da Agência FAPESP no Facebook (www.facebook.com/agfapesp) e no YouTube (www.youtube.com/user/fapespagencia) e pelo site da TV Folha (www1.folha.uol.com.br/tv).
A edição sobre “Mudanças Climáticas Globais” teve como debatedores os pesquisadores Thelma Krug, pesquisadora, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC); Paulo Artaxo, professor titular e chefe do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG); e Gilberto Câmara, pesquisador e ex-diretor do Inpe, co-presidente do Belmont Forum e diretor do Secretariado do Group on Earth Observations (GEO). A plateia do programa foi composta por alunos do curso técnico em meio ambiente da Escola Técnica Estadual (Etec) Guaracy Silveira, de São Paulo.

“É impossível não ver nos dados observados globalmente que a evolução das emissões de gases de efeito estufa desde a Revolução Industrial e, mais especificamente, nos últimos 50 anos, não esteja relacionada com as mudanças climáticas e com o aquecimento global”, disse Krug.
Efeito de estufa provocado por interferência antropogênica.

“O IPCC, quando começou a produzir seus primeiros relatórios, tinha dúvida dessa atribuição. Mas, hoje, depois de 30 anos de trabalho e cinco relatórios produzidos, não há como negar essa associação [entre a ação humana e o aquecimento global]”, afirmou.
De acordo com a pesquisadora, se considerada apenas a variabilidade natural do clima terrestre nos modelos de evolução climática global, não é possível reproduzir as observações de aumento da temperatura do planeta registradas nos últimos anos. Ao integrar as variações naturais com a ação antrópica, contudo, o modelo fica bem acomodado com as observações, ela explicou.
Impactos desiguais
Os pesquisadores ressalvaram que as mudanças climáticas não atingem os países de forma equânime. Alguns países já estão sofrendo com um aumento de temperatura média da superfície maior do que a estimada pelo IPCC, de 1,5ºC até 2040, e de entre 3ºC e 5ºC até o final do século.
Na região Nordeste do Brasil, por exemplo, a temperatura média aumentou 2oC nas últimas décadas, ressaltou Artaxo.
“Um aumento médio de 3ºC a 5ºC na temperatura do planeta ao longo deste século pode resultar em um aquecimento em áreas continentais superior a 5ºC, uma vez que elas se aquecem mais do que as áreas oceânicas”, comparou.
“Imagine uma cidade como Cuiabá (MT), onde a temperatura durante a tarde chega hoje a 41ºC, 42ºC, conviver com temperaturas de 47ºC, 48ºC. Um aumento de temperatura como esse tem impactos muito grandes, não só nas pessoas, como nas atividades econômicas, na agricultura e no funcionamento de ecossistemas, como a floresta amazônica, por exemplo”, apontou.
O nível do mar nos últimos 100 anos aumentou 24 centímetros em razão da dilatação da água com o aumento da temperatura e o derretimento de geleiras continentais.
Temperaturas globais na década de 1880 e 1980, comparadas à média no período entre 1951 e 1980.
Em regiões como na costa brasileira o nível do mar aumentou 60 centímetros nos últimos 100 anos, exemplificou Artaxo.
“Isso causa um aumento da erosão costeira e na frequência e intensidade de inundações”, apontou.
Déficit democrático
Na avaliação de Câmara, o ceticismo sobre a contribuição da ação humana para o aquecimento global deriva da incapacidade de reconhecer que certos estilos de vida adotados nas economias desenvolvidas, especialmente nos Estados Unidos, são incompatíveis com a sobrevivência do planeta.
“Enquanto se gastar energia absurdamente, utilizar carros que consomem muito óleo diesel e gasolina, e não querer mudar esse estilo de vida sabendo que isso prejudica populações que estão em outros países pobres, se arrumará desculpa para não fazer nada. Isso é o que estamos vendo hoje no governo americano atual”, apontou o pesquisador.
Há um consenso político internacional de que é preciso combater o aquecimento global e o Acordo Climático de Paris, aprovado por 195 países – incluindo o Brasil – em dezembro de 2015 durante a 21ª Conferência das Partes (COP-21), na capital francesa, é uma prova disso.

O que tem faltado agora, na avaliação de Câmara, é a capacidade de os cidadãos dos países signatários do acordo cobrarem de seus governos o cumprimento de metas de contribuição de redução de emissões de gases de efeito estufa que apresentaram para estabelecer o acordo.
O declínio do gelo flutuante do Ártico é um dos sinais mais evidentes do aquecimento global. A animação mostra a redução entre 1979 e 2010.

“O consenso político global de que é preciso combater o aquecimento global existe. O que há, na realidade, é um déficit democrático, ou seja, uma falta de capacidade das sociedades – incluindo a brasileira – de exigir de seus governos cumprirem o que se comprometeram”, afirmou.
Para aprovar o Acordo Climático de Paris, cada país apresentou sua contribuição de redução de emissões dos gases de efeito estufa – as chamadas Pretendidas Contribuições Nacionalmente Determinadas (INDCs, na sigla em inglês) –, de acordo com o que cada governo considerou viável a partir do cenário social e econômico local.
O Brasil comprometeu-se a reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 37% abaixo dos níveis de 2005, em 2025, com uma contribuição indicativa subsequente de redução das emissões de gases de efeito estufa em 43% abaixo dos níveis de 2005, em 2030. Para isso, o país se comprometeu a aumentar a participação de bioenergia sustentável na sua matriz energética para aproximadamente 18% até 2030, restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas, bem como alcançar uma participação estimada de 45% de energias renováveis na composição da matriz energética em 2030.
Somada a INDC brasileira com as dos 194 países signatários do Acordo do Clima de Paris, contudo, elas levarão o planeta a uma trajetória de aquecimento de 3oC.
“Na mesma Convenção do Clima que acordou que é preciso chegar em 2100 em um nível de aquecimento bem abaixo de 2oC e perseguir a meta de 1,5oC, as INDCs, somadas, chegam a 3oC”, comparou Krug.

Muitas INDCs, como a do Brasil, foram apresentadas sem condicionantes. Mas muitos países afirmaram que conseguirão atingir suas metas de redução de emissões de gases de efeito estufa se conseguirem recursos financeiros e tecnologias.
“Financiamento [de medidas de adaptação e de mitigação] é uma questão muito sensível, especialmente para os países em desenvolvimento”, disse Krug. “Se esses países não são os maiores responsáveis pela mudança do clima, que já está aí, eles questionam por que têm que pagar igualmente com o ônus de tentar refrear o aumento da mudança do clima”, disse Krug. (ecodebate)