quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Unicamp aponta alto risco de desertificação na Bahia

Pesquisa desenvolvida na Unicamp aponta alto risco de desertificação na Bahia.
Identificação de áreas vulneráveis em polos de produção agrícola serve de alerta para agricultores e representantes do poder público.
Pesquisa desenvolvida na Unicamp revela que o Estado da Bahia vem apresentando aumento no índice de aridez e diminuição de chuvas. Os estudos indicam que a tendência é que a situação se agrave nos próximos 30 anos, provocando um aumento das áreas com risco de desertificação na região. As conclusões são da tese de doutorado “Áreas de risco de desertificação: cenários atuais e futuros, frente às mudanças climáticas”, defendida por Camila da Silva Dourado na Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp.
A desertificação é a degradação de terras nas zonas áridas, semiáridas e subúmidas a secas, como resultado das variações climáticas e ações antrópicas, ou seja, as alterações causadas pelo ser humano no ambiente. Este fenômeno transforma terras férteis e agricultáveis em terras improdutivas, causa impactos ambientais como a destruição da biodiversidade, diminuição da disponibilidade de recursos hídricos e provoca a perda física e química dos solos. Neste caso, a pesquisa aponta que as mesorregiões que mais expandiram as áreas com risco de aridez são os maiores polos agrícolas baianos. “Ainda é necessária uma análise mais aprofundada sobre a desertificação nessas áreas, mas os dados mostram que esses polos agrícolas observados passaram a ser considerados como áreas de alto risco”, explica Camila.
O trabalho foi realizado sob orientação de Stanley Robson de Medeiros Oliveira, pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária e coorientação de Ana Maria Heuminski de Avila, pesquisadora do Cepagri (Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura). Os autores alertam para a necessidade de se adotar medidas preventivas agora para que as previsões não se consolidem.
Camila da Silva Dourado, autora da pesquisa: “Os cenários de aumento de áreas de risco para agricultura por causa da desertificação ameaçam diversos setores econômicos e sociais da região, principalmente o agropecuário”.
No cenário da produção agrícola nacional, a Bahia ocupa destaque no Nordeste brasileiro como grande produtora de grãos, além de ser responsável por 12,2% do valor da produção de frutas, ocupando o segundo lugar no ranking nacional. A cultura do algodão no estado representa 25,4% da produção nacional, ficando atrás apenas de Mato Grosso com 64,1% da produção, de acordo com dados da safra de 2016 divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os dois principais polos agrícolas baianos estão no oeste, em cidades como Luís Eduardo Magalhães e Barreiras, por exemplo, onde é forte a produção de algodão e grãos, principalmente a soja. Outro polo está no norte do Estado, maior produtor de frutas da Bahia, sendo destaques as cidades entre Juazeiro (BA) e Petrolina, em Pernambuco.
“Os cenários de aumento de áreas de risco para agricultura por causa da desertificação ameaçam diversos setores econômicos e sociais da região, principalmente o agropecuário”, explica Camila. Por isso, uma das alternativas recomendáveis é o desenvolvimento de ferramentas e sistemas inteligentes capazes de capturar, organizar e quantificar dados e informações, que auxiliem o planejamento da produção agrícola e o processo de tomada de decisão, com o objetivo de diminuir os impactos ambientais.
De acordo com os resultados obtidos por meio da análise de dados climáticos (chuva, temperatura e evapotranspiração), dados edáficos, declividade do terreno, fragilidade do solo à erosão e de vegetação (extraídos de imagens de satélite), entre os anos de 2000 e 2014, o território baiano já apresentou uma queda do nível de precipitações (chuvas), diminuição de áreas de cobertura vegetal nativa, e um aumento no índice de aridez e das áreas com risco de desertificação.
Para o futuro, ou seja, entre os anos de 2021 a 2050, a previsão é que o Estado enfrente um aumento de temperatura de aproximadamente 1 °C e diminuição das precipitações, em relação ao clima atual. As previsões também apontam um aumento nas áreas consideradas áridas e uma expansão de terras com risco “alto” e “muito alto” de desertificação. “Essa pesquisa exibe o cenário futuro; então, se quisermos minimizar esses riscos, temos que tomar decisões e atitudes agora ou será muito tarde para fazer as correções. Não podemos esperar até 2050”, alerta Stanley Oliveira.
Segundo o orientador da pesquisa, as técnicas de mineração de dados associadas às técnicas de sensoriamento remoto em imagens orbitais, tratam do desafio de captar padrões e processos, e proporcionam um diagnóstico espaço temporal da mudança na paisagem, permitindo também monitorar e diagnosticar o grau de degradação de terras. Essas técnicas facilitam a análise e a manipulação de dados em grandes áreas, com menos custo que os métodos convencionais, permitindo uma avaliação das alterações ocorridas no meio ambiente, no passado, presente e com simulações do futuro.
“A depender da prática agrícola que é adotada hoje, terras produtivas serão transformadas em improdutivas. Não adianta utilizar práticas inadequadas que não visem à sustentabilidade daquele solo e dos recursos naturais. É preciso alertar o grande e pequeno produtor sobre formas de produção que amenizem essa situação; é uma questão de sensibilização. São necessárias políticas públicas também para que haja incentivo às novas formas de produção e de utilização da terra e dos recursos naturais”, ressalta Camila.
O desafio de alimentar uma população em crescimento
Os resultados que a pesquisa aponta são importantes para a busca de soluções ao principal desafio da agricultura mundial: cumprir a meta de alimentar nove bilhões de pessoas até 2050, de acordo com previsão da FAO, a Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e a Agricultura. Estudos da agência indicam que, para alimentar uma população extra projetada em mais 2,3 bilhões de pessoas, o mundo precisará produzir 70% a mais de alimentos. Entretanto, a expansão das terras agricultáveis terá de se dar em cerca de 120 milhões de hectares nos próximos 40 anos em países em desenvolvimento, principalmente na América Latina e na África Subsaariana.
Regiões áridas e terras desertificadas dificultam e impedem a produtividade de alimentos. Terras antes agricultáveis se tornam improdutivas em razão dos processos de semiaridez, aridez e desertificação. Estima-se que boa parte das terras inseridas em áreas de clima propícios à desertificação tenha seu processo de improdutibilidade acelerado. Por isso, os resultados são importantes para orientar o trabalho de gestores e apoiar a formulação de políticas públicas focadas na região.
O pesquisador Stanley Robson de Medeiros Oliveira, orientador da tese: “Se quisermos minimizar esses riscos, temos que tomar decisões e atitudes agora ou será muito tarde para fazer as correções”
Historicamente a região norte do território baiano integra o polígono da seca, uma área de mais de 1 milhão de km² entre os Estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, que enfrenta crises repetidas de estiagem. Dessa forma, a manutenção da fruticultura no norte é feita através de sistemas de irrigação. Porém, outro problema apontado pela pesquisa é que regiões antes consideradas com risco baixo de desertificação passam ao moderado e alto, como é o caso da região oeste. Essa situação mudaria todo o cenário de produção agrícola do estado.
Nos últimos anos os pesquisadores também vêm se preocupando com a influência das mudanças climáticas no avanço do processo de desertificação. “Com o aumento de temperatura estimado em 1ºC e a diminuição na precipitação, há a ocorrência de um outro indicador que utilizamos, a evapotranspiração, que é subsídio para um outro indicador, o índice de aridez. Juntando essas variáveis, e com as novas projeções do modelo de mudanças climáticas, confirma-se que há uma expansão muito grande das áreas de desertificação”, esclarece Camila.
“Se considerarmos os resultados, esse é um cenário muito drástico e assustador, mas o objetivo dessa pesquisa não é assustar e sim informar. É hora de criar políticas públicas para que as pessoas que vivem da terra consigam ter melhor qualidade de vida, possam permanecer e alimentar suas famílias, porque o grande risco é que elas migrem para outras regiões e se tornem marginalizadas. As pessoas precisam continuar produzindo alimento para subsistência e comércio”, afirma a coorientadora da pesquisa, Ana Avila.
Metodologia
Para avaliar as áreas com potencial de risco de desertificação no estado da Bahia, foram utilizados sete indicadores biofísicos de desertificação: índice de vegetação de diferença normalizada e índice de vegetação realçado (NDVI e EVI, respectivamente, na sigla em inglês) ambos gerados pelo sensor Modis; índice de aridez; dados de solo; precipitação; temperatura e evapotranspiração. No caso dos mapas climáticos foi aplicado o método geoestatístico Krigagem Bayesiana Empírica. Também foram elaborados mapas de modelo de elevação digitação, declividade e classificação do solo, com o intuito de gerar um mapa de fragilidade do solo, usado como indicador, com as características edáficas da região.
A pesquisadora Ana Maria Heuminski de Avila: “É hora de criar políticas públicas para que as pessoas que vivem da terra consigam ter melhor qualidade de vida, possam permanecer e alimentar suas famílias”.
A partir do empilhamento das imagens dos sete indicadores de desertificação foi aplicada a tarefa classificação, por meio do algoritmo Máquinas de Vetores Suporte (SVM, sigla em inglês) na imagem produto, definindo quatro níveis de risco de desertificação: muito alto, alto, moderado e baixo. A pesquisa usou imagens de alta resolução espacial do satélite RapidEye para validação da classificação fornecidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). As simulações dos impactos das mudanças climáticas para o cenário futuro, 2021 até 2050, utilizaram modelos climáticos Eta-MIROC5, que preveem diminuição da precipitação, aumento de temperatura e deslocamento das áreas com maiores taxas de evapotranspiração potencial.
Estado da Bahia vem apresentando aumento no índice de aridez e diminuição de chuvas.
Foram estudados dois cenários de períodos temporais distintos: o de clima presente, abrangendo os anos de 2000 a 2014, e o cenário de clima futuro, para o período de 2021 a 2050. Os resultados mostraram que em 2014 houve uma diminuição na precipitação e nas áreas de cobertura vegetal em relação ao ano 2000, além de um aumento no índice de aridez e nas áreas de risco de desertificação. No cenário futuro, houve um aumento de temperatura de aproximadamente 1°C e diminuição da precipitação em relação ao clima presente. O índice de aridez aponta um aumento nas áreas áridas para o clima futuro, e uma expansão nas áreas de risco de desertificação, principalmente nas áreas de risco muito alto e alto.
Na imagem acima, área do reservatório de Sobradinho, em Remanso, na região de Juazeiro (BA).
“Essa metodologia é inédita e rica por usar técnicas de sensoriamento remoto e de mineração de dados, incluindo um algoritmo inteligente (SVM – Support Vector Machine), que aprende interativamente com uma massa de dados, descobre e apresenta os padrões encontrados. Isso pode ser aplicado em outras regiões do Brasil, principalmente aquelas mais carentes; a contribuição não se restringe só ao estado da Bahia”, enfatiza Oliveira. (ecodebate)

Em janeiro/2018 foi detectado 70 km² de desmatamento amazônico

Em janeiro de 2018, o SAD/Imazon detectou 70 km² de desmatamento na Amazônia Legal.Boletim do desmatamento da Amazônia Legal (janeiro 2018) SAD
No mês de janeiro de 2018, o SAD detectou 70 km² de desmatamento na Amazônia Legal. Considerando o comparativo entre o período de agosto de 2017 a janeiro de 2018 com o período anterior, houve redução de 30% do desmatamento. Entretanto, essa queda pode estar vinculada ao período chuvoso na região, condição que dificulta a ação do corte raso da floresta.
Um ponto de alerta no Boletim é a tendência do desmatamento no Acre, único estado a apresentar aumento em relação ao calendário de desmatamento 2017. Outra região que se destaca é a Calha Norte no Pará, concentrado de Áreas Protegidas com baixa incidência de desmatamento, mas que apresentou dois municípios dentre os dez que mais desmataram em janeiro: Óbidos e Alenquer.
Desde que o SAD começou a atuar com sistema multisensor a maioria dos alertas com área abaixo de 10 ha tem se concentrado ao longo da Rodovia Transamazônica. (ecodebate)

Cultivar frutas nativas amazônica manterá floresta em pé

Cultivar frutas nativas da Amazônia é alternativa para manter floresta em pé.
Polinização manual do bacuri.
A Amazônia possui notável diversidade de plantas produtoras de frutas comestíveis, entretanto, até então, um reduzido número dessas espécies assumiu posição de destaque na fruticultura nacional ou mesmo na fruticultura regional, destacando-se, atualmente, o açaizeiro (Euterpe edulis), o cupuaçuzeiro (Theobroma grandiflorum), o maracujazeiro (Passiflora edulis) e o abacaxizeiro (Ananas comosus).
Na região Amazônica, a castanha-do-brasil (Bertholletia excelsa), o bacuri, (Platonia insignis), muruci (Byrsonima crassifolia) e o taperebá (Spondias mombin), também conhecido como cajá em outros estados, já são frutas com mercados consolidados e no caso da castanha, mercado internacional, mas aproximadamente 95% da produção ainda é oriunda do extrativismo.
Para elas, o cultivo em escala comercial, e com isso, o alcance de novos mercados, tem como principal fator limitante o tempo requerido para que entrem em fase de produção, pois apresentam longa fase juvenil especialmente quando propagadas por sementes. Além disso, essas três espécies apresentam sementes com complexos mecanismos de dormência, o que dificulta sobremaneira o processo de produção de mudas.
Cupuaçu
O aperfeiçoamento dos métodos de propagação dessas espécies constitui-se em etapa fundamental para que possam ser cultivadas de forma mais intensiva, garantindo menor tempo para início de produção e incremento de produtividade.
Portanto, o conhecimento sobre as formas de cultivo das espécies frutíferas nativas da Amazônia é a base para o manejo e uso sustentável, bem como, para o entendimento de como deverá ser realizada à conservação da biodiversidade na Amazônia.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, que no estado do Pará está representada pela Embrapa Amazônia Oriental, vem aperfeiçoando e desenvolvendo técnicas em propagação de espécies frutíferas nativas e cultivadas na Amazônia, por meio da coleta das sementes e o cultivo em campos experimentais, selecionando os melhores exemplares, fazendo cruzamentos, enxertos, acelerando e uniformizando o processo de germinação para a produção de mudas dessas espécies com eficiência e eficácia.
A propagação, por exemplo, nada mais é do que a manipulação pelo homem no processo de multiplicação das plantas. Para viabilizar a formação de mudas e a produção de frutos por processos mais rápidos e eficientes, utilizam as técnicas de propagação sexuada (com uso de sementes) e assexuada (por partes vegetais) que pode ser pelo método de enxertia e alporquia.
Há cerca de dez anos, a Embrapa desenvolve nacionalmente o projeto MelhorFRUTA e está viabilizando o desenvolvimento de pesquisas no Pará com quatro espécies de frutíferas nativas, o bacurizeiro, camucamuzeiro, murucizeiro e taperebazeiro, as quais possuem mercado consolidados para as região Norte e Nordeste, porém com amplas perspectivas de consolidação no restante do país.
As espécies contempladas no projeto são plantas perenes, algumas delas com fase jovem bastante longa, tendo ainda a característica de manifestarem ciclicidade de produção, ou seja, anos de alta produção de frutos são sucedidos por um mais ano, de baixa produção, o que condiciona que pelo menos cinco anos de avaliações sucessivas na produção dessas espécies sejam necessárias para que se tenha resultados consistentes.

Algumas frutas nativas da Amazônia: araça-boi (1); abricó-do-pará (2); guaraná (3); sapota-do-solimões (4); uxi (5); tapereba (6); buriti (7); bacuri (8); cupuaçu (9); tucumã (10); açaí (11); camu-camu (12); pupunha (13).
Essas espécies se ajustam perfeitamente para uso em Sistemas Agroflorestais (SAFs). A meta da pesquisa é melhorar a qualidade dos frutos e a produtividade das plantas. Fruta valorizada é garantia de madeira preservada, além de geração de emprego e renda, ou seja, desenvolvimento regional sustentável. É o conceito da floresta em pé gerando recursos para as comunidades. (ecodebate)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Os recordes climáticos de 2017 e o legado da atual geração

Em janeiro de cada ano, o MET Office, a agência britânica de pesquisas e previsões sobre meteorologia e mudanças climáticas, atualiza seu decadal forecast, i.e., sua previsão climática para os próximos dez anos. O título do último comunicado, “Previsão para os próximos cinco anos indica mais aquecimento”, nada tem de novo. Dada a dinâmica inercial do aquecimento global, sabemos que “mais aquecimento está em curso e ocorrerá mesmo sem mais gases de efeito estufa”, para dizê-lo nos termos de James Hansen. O que é novo, ainda que não surpreendente, na declaração do MET Office é a possibilidade de estourarmos já nos próximos cinco anos a meta de aquecimento que o Acordo de Paris, em vigor desde novembro de 2016, almejava não ultrapassar neste século: “Há uma pequena chance (cerca de 10%) de que ao menos um ano no período [2018-2022] possa exceder 1,5ºC  acima dos níveis pré-industriais (1850-1900). É a primeira vez que tão altos valores vêm à baila nessas previsões”.
Para o novo relatório do IPCC, com publicação prevista para outubro de 2018, mas divulgado em seu estado de rascunho pela Agência Reuters em 18 de janeiro passado,  “há um alto risco” desse limite de 1,5º C ser ultrapassado até 2040. O contraste de datas entre o MET e o IPCC é apenas aparente porque, como o MET esclarece, há um intervalo de alguns anos entre o aquecimento ultrapassar momentaneamente 1,5ºC (2018-2022) e instalar-se acima desse patamar, o que deve ocorrer na segunda metade do próximo decênio. Da mesma maneira, antes de atingir em 2015 o nível agora irreversivelmente ultrapassado de 1ºC, chegamos a “queimá-lo” pela primeira vez em 2010, como mostra a Figura 1.
Figura 1 – Evolução das anomalias de temperatura (ºC) no primeiro semestre de 2016 em relação ao período 1880-1899.
Fonte: “Record-Breaking Climate Trends Briefing”, 19/VII/2016. Goddard Institute for Spatial Studies (GISS), NASA <https://svs.gsfc.nasa.gov/12305>.
Além disso, a preposição até na locução “até 2040” (by 2040) do IPCC indica um cauteloso termo limite, um terminus ante quem, e pode significar uma data qualquer nos próximos dois decênios. Na realidade, ela indica uma data provável já no próximo decênio, pois, segundo a Reuters, o texto ainda em revisão do IPCC afirma:
“Estima-se que a humanidade poderia ainda emitir tão somente 580 bilhões de toneladas [Gigatoneladas ou Gt] de gases de efeito estufa [GEE] para ter uma chance maior que 50% de limitar o aquecimento a 1,5ºC – o que equivale a um prazo de 12 a 16 anos mantido o nível atual das emissões desses gases”.
Se tomarmos por base o ano de 2016, quando, segundo o Emission Database for Global Atmospheric Research (EDGAR), as emissões globais de GEE atingiram 53,4 GtCO2-eq, ultrapassaremos esse limite de 580 Gt nos próximos 10 a 11 anos.
Essas estimativas do MET e do IPCC são corroboradas por uma terceira e por uma quarta projeção. Em 2016, o Climate Central, uma ONG nascida de um encontro de climatologistas na Yale University, afirmava que, “mantido o nível atual de emissões (RCP8,5), podemos cruzar o limiar de 1,5ºC em 10 a 15 anos, isto é, em algum momento entre 2025 e 2030. A quarta projeção, enfim, publicada em setembro de 2017 na Geophysical Research Letters, propõe que, se a Oscilação Interdecenal do Pacífico (IPO) tornar-se positiva ou permanecer negativa, atingiremos +1,5º C em 2026 ou em 2031, conforme mostra a Figura 2.

Figura 2 – Projeções de ultrapassagem de +1,5ºC nas temperaturas médias superficiais terrestres e marítimas combinadas acima da média das temperaturas pré-industriais (1850-1900), segundo a fase positiva (2026) ou negativa (2031) da Oscilação Interdecenal do Pacífico (IPO).

Fonte: Alvin Stone, “Paris 1.5º C target may be smashed by 2026” GeoSpace, 9/V/2017. Baseado em Benjamin J. Henley, Andrew D. King, “Trajectories toward the 1.5º C Paris target: Modulation by the Interdecadal Pacific Oscillation”. Geophys. Research Letters 8/V/2017.
2017 no contexto da aceleração das mudanças climáticas
Lembremos que os 20 anos mais quentes dos registros históricos, iniciados em 1880, ocorreram justamente nos 20 anos decorridos entre 1998 e 2017. E os 4 anos mais quentes dessa série de 137 anos incidem no quatriênio 2014-2017. Como se insere nessa aceleração o ano de 2017? Como seria de se esperar num quadro de aceleração das mudanças climáticas, 2017 quebrou vários recordes. Mas talvez nenhum ano dos registros históricos tenha se mostrado mais rico que o ano passado em número e variedade de sintomas de aceleração de nossa trajetória rumo a uma degradação socioambiental catastrófica. Em 18 de janeiro de 2018, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) declarou que “2015, 2016 e 2017 foram confirmados como os três anos mais quentes dos registros globais, sendo que 2017 foi o ano mais quente sem um El Niño”. Isso se traduziu em ondas de calor sem precedentes. Queensland e New South Wales, na Austrália, bateram o recorde de calor, com temperaturas próximas de 50ºC.
Na Europa, “Lúcifer”, como foi chamada a onda de calor europeu de 2017, bateu, na zona mediterrânea, o recorde de intensidade da onda de calor europeu de 2003. Em junho de 2017, Las Vegas bateu seu recorde de temperatura, atingindo 47ºC. Em julho, na cidade chinesa de Xi’an, o termômetro atingiu por oito dias temperaturas acima de 40ºC. Em Xangai, ele subiu a 40,9ºC, em Trupan, a 49ºC, em Shaanxi, a 44,7ºC,  temperaturas todas que romperam novos recordes históricos no país. Em Jales, no estado de São Paulo, em 11 de setembro de 2017, a temperatura ainda invernal chegou a 37,2ºC. Na capital, ela chegou nesse mesmo dia a 31,9ºC, recorde batido apenas por 2016, quando chegou a 33ºC<.
O ano de 2017 quebrou recorde também no que se refere a eventos meteorológicos extremos e inundações. Houve no ano passado 17 tempestades nomeadas, 10 furacões e seis furacões de categoria 3 ou mais alta, todos esses números acima da média histórica. Em agosto, o furacão Harvey que se abateu sobre Houston e região, no Texas (EUA), trouxe a maior quantidade de chuvas dos registros históricos (1.539 mm) ao longo de quatro dias nesse país, causando pela terceira vez, após 2001 e 2015, uma inundação supostamente esperada “a cada 500 anos”. Em setembro, o Irma devastou o Caribe, com ventos de até 297 km/h que se mantiveram por 37 horas, a mais longa duração registrada no mundo. Apenas nos EUA, enquanto tais eventos extremos, incêndios e inundações trouxeram prejuízos de US$ 144 bilhões em 2005, os piores até então, 2017 trouxe prejuízos de US$ 306 bilhões.
Níveis igualmente sem precedentes de incêndios florestais ocorreram nos EUA, Europa (Portugal, Espanha, França, Itália, Romênia), Austrália e na Ásia do Sudeste. O Brasil teve em 2017 um número recorde de incêndios florestais na série histórica, iniciada em 1999. “A análise dos locais onde os incêndios ocorreram mostra que, neste ano, o fogo aumentou em áreas de floresta natural, avançando em pontos onde antes não havia registro de chamas, e atingindo unidades de conservação e terras indígenas. Entre todos os biomas, o Cerrado foi o que teve mais unidades de conservação atingidas, contabilizando 75% de toda a destruição nas áreas protegidas”.
Até 18 de dezembro, haviam sido registrados “cerca de 272 mil focos de fogo, 46% a mais do que em 2016 e acima do recorde anterior, de 2004, quando foram detectados 270 mil pontos de calor. Incêndios criminosos destruíram 986 mil hectares de unidades de conservação (…). O número ficou próximo do registrado no ano passado, quando foram destruídos cerca de 1 milhão de hectares. Nas terras indígenas, os focos aumentaram 70% e ultrapassaram 7 mil”.
Quanto ao branqueamento de corais, o Coral Reef Watch da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) afirmou em seu boletim de janeiro de 2018 que o Terceiro Evento Global de Branqueamento de Corais, terminado em junho de 2017, é o primeiro a perdurar três anos consecutivos. Esse evento “permanece o mais longo, o mais amplo e possivelmente o mais danoso evento de branqueamento de corais jamais registrado. Ele afetou mais corais que qualquer outro evento de branqueamento anterior”.
Salto sem precedentes no aquecimento oceânico
A mais inequívoca assinatura do aquecimento médio global é a temperatura dos oceanos, pois sua faixa superficial absorve mais de 90% do calor excedente produzido pelas crescentes concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa.  Aqui, a aceleração é igualmente evidente. Sabemos que “metade do aumento do calor absorvido no oceano globalmente desde 1865 foi acumulado desde 1997”. Sabemos também que o aumento do calor contido no oceano entre 1992 e 2015 quase dobrou em relação ao aumento ocorrido nas três décadas anteriores (1960 – 1990), como mostra a Figura 3.

Figura 3 – Calor contido nos oceanos (Ocean heat content, OHC) entre 1950 e 2015 (em 10²² Joules).

Fonte: Paul Horn, Inside Climate News, baseado em Lijing Cheng et al., “Improved estimates of ocean heat content from 1960 to 2015”. Science Advances, 10/III/2017.
Mais que aceleração, o ano de 2017 foi, em toda a série histórica, o ano do grande salto no aquecimento nos oceanos até a profundidade de dois mil metros. A Figura 4 mostra as anomalias crescentes na energia térmica em Joules do oceano em relação ao período de referência, 1981-2010.
Figura 4 – Anomalias nas temperaturas oceânicas (0 a 2000 m) em relação ao período de base 1981-2010 (em  10²² joules).
Fonte: Lijing Cheng & Jiang Zhu, “2017 was the Warmest Year on Record for the Global Ocean”. Advances in Atmospheric Sciences, 34, março, 2018, pp, 261-263, baseados em dados do Institute of Atmospheric Physics (IAP) da Academia de Ciências da China.
O que se vê aqui é outra demonstração da aceleração em curso do aquecimento global, e talvez a mais irrefutável porque as mudanças climáticas nos oceanos são livres de “ruídos” meteorológicos de curto prazo, típicos da atmosfera. Entre 1958 e 1995, todos os anos mostram um oceano mais frio que a temperatura oceânica do período 1981-2010. Mas a partir de 1998, todos os anos foram mais quentes em relação a esse período de referência. Segundo o Instituto de Física Atmosférica (IAP) da China, os últimos cinco anos foram os mais quentes das medições disponíveis, com 2017 ocupando o topo do pódio. Em 2017, afirmam Lijing Cheng e Jiang Zhu:
“A faixa superior de 2 mil metros dos oceanos foi 1,51 x 1022 Joules mais quente do que 2015, o segundo ano mais quente, e 19,19 x 1022Joules acima do período de referência climatológica, 1981 – 2010. Para se ter uma comparação, a geração total de energia elétrica na China em 2016 equivale a 0,00216 x 1022 Joules, ou seja, ela foi 699 vezes menor que o aumento líquido de calor no oceano em 2017”.
Eis a progressão do aquecimento oceânico nos últimos cinco anos, sempre em relação ao período de referência (1981-2010):
1. 2017: 19,19 × 1022 J
2. 2016: 17,18 × 1022 J
3. 2015: 17,68 × 1022 J
4. 2014: 16,74 × 1022 J
5. 2013: 16,08 × 1022 J
Observe-se que 2017 registra um salto sem precedentes em relação a 2016 e em relação também a qualquer outro intervalo anual no período quinquenal em exame. Trata-se de um salto de 2,01 x 1022 J entre 2016 e 2017, quando o maior intervalo anterior (de 2015 em relação a 2014) foi de 0,94 x 1022. Como advertem ainda Cheng e Zhu, “o aumento na temperatura do oceano em 2017 resultou em uma elevação média de 1,7 milímetros do nível do oceano”, sendo que outro tanto se deveu ao degelo, numa elevação média total de 3,4 mm em 2017.
A aceleração das mudanças climáticas e o descumprimento do Acordo de Paris
As mensurações e as projeções acima citadas, em meio a uma profusão de dados convergentes, demonstram à saciedade que as mudanças climáticas estão se acelerando. Salvo para os que acreditam que a Terra é plana ou que o capitalismo pode-se tornar sustentável, essa evidência não está mais sujeita a discussão. Sua mais elementar demonstração encontra-se nas taxas de aumento médio anual das concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa (GEE) desde 1991:
Concentrações atmosféricas de CO2-eq (GEE) em partes por milhão (ppm) e aumento médio anual em cada período (dois decênios e o quinquênio 2011-2016).
A aceleração das taxas de aumento das concentrações atmosféricas de GEE nos últimos 25 anos implica correlativa aceleração do aquecimento global (tal como mostra, acima, a Figura 1). E dado que o aquecimento atmosférico e marítimo afeta negativamente os ecossistemas, a biodiversidade, a economia, a segurança energética, hídrica e alimentar das sociedades, além de intensificar os eventos meteorológicos extremos, a ação de agentes patogênicos, a letalidade por ondas de calor extremo e a elevação do nível do mar, pode-se concluir com razoável segurança que, em termos socioambientais, o próximo decênio será pior que este que se aproxima de seu fim.
Quão capazes seremos de atenuar essa piora, eis algo que (ainda) depende da lucidez e da coragem política das sociedades de abandonar os combustíveis fósseis antes que eles nos destruam. Por enquanto, as sociedades deixam-se iludir por seus governos, que se comprometem a diminuir as emissões a cada COP, enquanto mantêm o pé bem fundo no acelerador dos combustíveis fósseis. O relatório de novembro de 2017 da PBL Netherlands Environmental Assessment Agency adverte que, dois anos após a assinatura do Acordo de Paris e um ano após sua entrada em vigor (4/11/2016), dois terços dos países mais emissores de GEE nem se colocaram em marcha na direção de atingir suas metas climáticas compromissadas em Paris.
O ano de 2017 foi também o ano em que Donald Trump decidiu abandonar explicitamente o Acordo, enquanto a Alemanha desistiu de suas metas de redução de emissões de GEE para 2020. Como declarou ao The Financial Times Tobias Austrup, do Greenpeace da Alemanha, “isso prejudica a credibilidade da Alemanha, mas prejudica também o inteiro processo internacional sobre o clima. Por que outros países deveriam manter suas metas climáticas se nós não as mantemos?”. De fato, 25 dos 28 países da União Europeia não estão se movendo na direção de cumprir suas próprias metas. Para Femke de Jong, diretor do Carbon Market Watch, “os governantes da União Europeia, que se retratam como líderes climáticos, deveriam colocar seu dinheiro onde está sua boca, tratando de fechar as brechas na legislação climática europeia e pressionando por mais ambição”. O Brasil, sétimo maior emissor de GEE do mundo, realizou a proeza do desacoplamento negativo: o PIB diminuiu enquanto as emissões antropogênicas brasileiras de GEE aumentaram 8,9% em 2016 em relação a 2015, “com crescimento expressivo da contribuição do desmatamento na poluição climática gerada pelo país”.
Um esforço de guerra sem precedentes
Segundo o que reporta a Reuters do já citado relatório do IPCC, ainda inédito:
“Não há precedentes históricos na escala de mudanças requeridas no uso de energia para transitar dos combustíveis fósseis a energias renováveis, e para as reformas na agropecuária e na indústria, de modo a que [o aquecimento médio global] permaneça abaixo do limite de 1,5ºC.  (…)”
Para desviarmos de nosso curso, seria hoje necessário, portanto, um esforço de guerra maior que qualquer outro já empreendido na história do capitalismo. O que está ocorrendo, contudo, é um esforço de guerra das petroleiras e da rede corporativa dela dependente no sentido de desinformar e manter paralisada nossa civilização termo fóssil. Eis o último resultado desse esforço: em 2017, as emissões antropogênicas globais de CO2 aumentaram ainda cerca de 2% (entre 0,8% e 3%) e 3,5% na China, com novo incremento do consumo de carvão nesse país.
A que distância estamos de uma aceleração irreversível ou mesmo de uma transição abrupta das mudanças climáticas, capaz de condenar a civilização contemporânea a um colapso socioambiental? Não é ainda dado sabê-lo. Mas sabemos que em 2017 diminuíram ainda mais as chances já diminutas de evitar o perigo que motivou o Acordo de Paris, vale dizer, a catástrofe climática de um aquecimento médio global superior a 2ºC acima do período pré-industrial, nível que pode desencadear e tornar inelutáveis aquecimentos sucessivos. Segundo Michael Mann, Robert Jackson e um número crescente de cientistas, essa catástrofe pode-se tornar realidade dentro de dois decênios. Por aterrorizante e iminente que seja, tal perspectiva não tem suscitado as “mudanças requeridas no uso de energia” exortadas pelo IPCC. Ao contrário, segundo a Energy Information Administration (EIA), em 2017 o consumo mundial de petróleo ultrapassou 98,39 milhões de barris de petróleo por dia (MMbb/d), contra 96,95 MMbb/d em 2016.
Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), “a demanda por petróleo aumentará nos próximos cinco anos, superando em 2019 o marco simbólico dos 100 MMbb/d e atingindo 104 MMbb/d até 2022”.  Nos cálculos da EIA, o marco dos 100 milhões de barris por dia será superado já em 2018.
Os jovens, que sofrerão em breve as consequências brutais desse consumo, terão razão de desprezar a atual geração de adultos, a primeira que pode saber cientificamente o que o futuro nos reserva e a última que ainda pode fazer algo para evitá-lo, mas está preferindo deixar um legado de indiferença ou de retóricas tranquilizantes de “desenvolvimento sustentável”. 2017 é o retrato em miniatura desse legado. (ecodebate)

O degelo da Groenlândia ameaça às áreas costeiras do mundo

A Groenlândia está em processo acelerado de degelo devido ao aquecimento global, provocado pelo crescimento da emissão de gases de efeito estufa, gerado pelo aumento exponencial das atividades antrópicas, incentivado pela concentração de capital e riqueza.
Uma ilha continental, tranquila, despovoada e gelada, localizada no Atlântico Norte, próxima ao Ártico, é a principal vítima dos efeitos perversos do crescimento incessante da produção de bens e serviços para satisfazer o bem-estar do ser humano, que é a espécie predadora responsável pelo surgimento do Antropoceno, época que deve ficar marcada na história geológica pela 6ª extinção em massa da biodiversidade da Terra.
Reportagem do site da CNN mostra (com imagens incríveis) que a perda de gelo da Groenlândia aumentou dramaticamente nas últimas décadas. Entre 1992 e 2001 o degelo foi de 34 gigatons em média (34 bilhões de toneladas métricas) e passou para uma média anual de 280 gigatons (280 bilhões de toneladas métricas).
Se todo o gelo da Groenlândia derreter pode elevar o nível dos oceanos em até 7 metros. Mas um degelo de somente 30% já seria suficiente para fazer os mares subirem 2,1 metros. Estimativas do IPCC e da NASA indicam que o nível das águas marinhas pode subir mais de 2 metros até 2100, no cenário mais dramático. Isto seria suficiente para inundar áreas urbanas onde vivem bilhões de pessoas, além de inundar o delta dos principais rios do mundo e inúmeras áreas agrícolas.
Os pesquisadores da Universidade Oceânica da China, liderados por Xianyao Chen, fizeram reanálise estatística dos principais fatores que contribuem para a subida global do nível dos mares e concluíram que o derretimento de gelo sobre os continentes, que em 1993 respondia por cerca de 40% da variação no nível do mar, passou a ser o fator dominante de mudança, com 60% da contribuição em 2014.
Uma grande parte dessa fatia, de cerca de 25%, vem da perda de glaciares de montanhas. Mas tem crescido a contribuição das grandes massas de gelo da Terra, como a Groenlândia, que passou de 5% a 25% do total de água em excesso derramada nos oceanos nesse período.
É difícil projetar os impactos específicos da elevação do nível dos mares em todos os lugares, pois o aumento não é homogêneo e nem linear. Alguns lugares serão mais afetados do que outros. Mas uma coisa é certa: todos os países litorâneos perderão, uns mais do que outros, mas ninguém ficará a salvo do avanço das águas salgadas.
Por exemplo, no segundo semestre de 2017 diversas praias do Rio de Janeiro foram atingidas pelas ressacas e pelo avanço do mar. As praias do Flamengo, de Ipanema e do Recreio dos Bandeirantes. A erosão causou estragos do Leme ao Pontal. A Praia da Macumba, na Zona Oeste do Rio, perdeu parte do muro de contenção colocado pela prefeitura e grandes trechos da calçada desabaram com a força das ondas.


Como já escrevi anteriormente (Alves, 05/10/2016), as praias da maioria das cidades do planeta correm o risco de serem “varridas do mapa”. Este processo pode ser socialmente grave na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que é a maior e mais complexa aglomeração urbana da zona costeira brasileira, com mais de 12 milhões de habitantes. De todas as zonas ameaçadas, a Barra da Tijuca e arredores é, entre os grandes bairros da Cidade Maravilhosa, a área mais vulnerável ao avanço do nível do mar e às inundações provocadas por ressacas, chuvas e tempestades.

Artigo de Dieter Muehe e Paulo Rosman (2011) mostra que a orla do Rio de Janeiro exposta e voltada para o oceano aberto se apresenta extremamente vulnerável considerando sua orientação diretamente voltada para a incidência de ondas de tempestade e seu déficit potencial de sedimentos. Eles dizem: “Em suma, para os diversos cenários de elevação do nível do mar as praias oceânicas urbanas, devido à sua ‘fixação’ com muros, ficam impedidas de se ajustar por meio de retrogradação e tenderão a perder areia, efeito acelerado pelo refluxo das ondas nos obstáculos impermeáveis representados pelos mesmos muros” (p.78). Eles ainda mostram (p.81) que as principais consequências da elevação do nível do mar são:
1) Tendência de translação das praias e cordões de dunas em direção a terra.
2) Onde houver ruas e avenidas na reta da praia haverá diminuição das faixas de areia e potencial risco de ataque de ondas diretamente nas benfeitorias públicas.
3) Recuo das linhas de orla em regiões de baixadas de lagoas costeiras e baías, em função da subida do nível médio relativo da água. Nestes locais, é provável que a taxa de elevação do nível médio do mar seja superior à média, visto que se trata de regiões sedimentares geologicamente recentes, cujos terrenos tendem a sofrer subsidências. Portanto, potencialmente o problema é mais grave.
4) Problemas de macrodrenagem em águas interiores, especialmente em zonas urbanas situadas em baixadas de baías e lagoas costeiras aumentando a tendência de alagamentos. As águas fluem de cotas mais altas para cotas mais baixas e a velocidade do escoamento depende do desnível. Com a subida do nível médio relativo diminuem os desníveis, diminuindo a declividade relativa e consequentemente a velocidade dos escoamentos.
5) Aumento da profundidade média de lagoas costeiras e baías.
6) Aumento da intrusão salina em zonas estuarinas levando a causar aumento ou diminuição de manguezais, em função da disponibilidade de áreas de expansão, e, mais para montante, potencial problema de captação de água salobra em locais que hoje captam água doce.
Ou seja, a avenida Lúcio Costa funciona como uma barreira artificial que contém o avanço das ondas e das marés na Barra da Tijuca. Mas esta barreira vai ficar cada vez mais frágil na medida em que o nível do mar sobe. Com as tempestades mais intensas na terra e no mar, as ondas ficam mais altas e as marés meteorológicas mais elevadas. Assim, a praia da Barra da Tijuca terá diminuição das faixas de areia e a Avenida Lúcio Costa deverá sofrer sérios problemas de erosão e possível destruição de áreas mais vulneráveis. Os sistemas de saneamento e água vão ser afetados e diversos equipamentos públicos (hospitais, escolas, etc.) devem ser danificados.
Portanto, os cariocas deveriam prestar atenção ao que acontece na Groenlândia, no Ártico, na Antártida e nos glaciares, pois o futuro do Rio de Janeiro depende do ritmo do degelo no mundo. Também a maioria dos brasileiros – que vivem em áreas litorâneas –deveriam ficar preocupados com o que acontece na Groenlândia.
Mas, além do Rio de Janeiro, outras cidades do mundo vão sofrer com a elevação do nível do mar e as enchentes. A cidade de Paris, neste mês de janeiro de 2018, enfrenta grandes enchentes devido à elevação do rio Sena. A “cidade luz” vive uma das maiores enchentes da sua história, repetindo o que ocorreu em 2016, e corre o risco de passar por um prejuízo sem precedentes. O museu do Louvre pode estar com os dias contados. As futuras enchentes tendem a ser mais destrutivas, pois a elevação das águas do Sena tende a se agravar com o aumento do nível do mar, que diminui a velocidade de vasão do rio.
O degelo é apenas uma consequência do aquecimento global, que por sua vez, é consequência da emissão de gases de efeito estufa, que também é consequência do crescimento demoeconômico exponencial dos últimos 200 anos. Enfim, grande parte do avanço do bem-estar humano gerado pelo aumento da produção e do consumo pode acabar debaixo d’água.
A humanidade deveria reavaliar o mito do crescimento econômico exponencial, pois o sonho de riqueza e domínio humano sobre a natureza pode acabar no fundo do oceano como se as áreas urbanas costeiras do mundo fossem uma grande Atlântida pós-moderna. (ecodebate)