terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Improviso marca 1º dia sem sacolinhas

Lojas pequenas distribuíam sacolas e nas grandes os consumidores disputavam caixas de papelão.
Adaptação
Consumidores buscam alternativas à sacolinha
O primeiro dia sem sacolinhas de plástico gratuitas nos supermercados paulistas foi marcado por improviso dos clientes e disputa por caixas de papelão nos corredores. Além disso, ainda era possível encontrar, especialmente nos mercados menores, a distribuição das sacolas.
Apesar de a maior parte dos consumidores afirmar que apoia a preservação ambiental, as reclamações foram recorrentes nos corredores dos supermercados do interior e da capital.
Em Sorocaba, uma parte deles achou um jeitinho de continuar se valendo do plástico não biodegradável para embalar produtos: os saquinhos transparentes, que continuam disponíveis em rolos nas seções de frutas e legumes. Foi o que fez a dona de casa Silvana Ramos, que retirou vários para embalar sabonetes e produtos de higiene. “Estão fazendo isso para forçar a venda das sacolas.”
No local, a sacola retornável era vendida a R$ 2,40 e a sacolinha biodegradável, por R$ 0,38. Havia também caixas de papelão. Mas o aposentado Alberto Coltrin também pôs parte das compras nos saquinhos. “Não posso levar na mão”, justificou. A caixa Milena Silva disse que os saquinhos transparentes eram exclusivos para produtos das seções de carnes, peixes, frutas e legumes. “Se o cliente usa para outros produtos, é questão da consciência dele.”
Em 25/01/12, também era possível ver as antigas sacolinhas em circulação em São Paulo nas unidades menores. Um exemplo é o mercado Dante, no bairro do Limão (zona norte), que, apesar de vender bolsas por R$3,50, despachava s compras dos clientes em sacolas normais. “Ainda temos no estoque. A partir de segunda vamos ter caixas de papelão e sacolas retornáveis”, informou a funcionária Sonia Soares.
Em uma unidade do mercado Dia, só levava caixas de papelão quem comprasse itens que vieram originalmente nelas. Havia distribuição de sacolas plásticas também. “Não sabemos dizer até que horas isso vai durar, porque tem muita sacola para dar ainda”, disse uma atendente.
Já nas redes maiores de lojas, só era possível ver as antigas sacolinhas nas mãos de clientes que as trouxeram de casa. Como opções, os preços dos diversos tipos de sacola variavam entre R$ 0,18 (sacolas biodegradáveis) e R$ 49,90 (carrinhos de tecido). As sacolas de PET, algodão e ráfia apresentaram preços entre R$ 1,99 e R$ 6,99.
A falta das caixas de papelão foi frequente. Nas lojas em que eram disponibilizadas, elas não duravam minutos. Muitos clientes não esperavam a reposição e saíam à caça nos corredores. “As caixas são muito disputadas”, afirma a analista de crédito Ana Paula Cruz. “Imagina quantas sacolas dessas (de ráfia) tem que comprar para carregar a compra do mês todo”, afirmou sua mãe, Maria Cruz.
Reações
A Associação Paulista de Supermercados (Apas) reconhece que precisam ser feitos ajustes, mas afirma que o primeiro dia foi “ótimo”. “Não dá para colocar tudo em prática logo no início”, afirma o presidente João Galassi. Segundo ele, a falta de caixas é consequência da recente adaptação das pessoas. Ele diz que a associação vai entrar em contato com mercados menores que ainda distribuem as sacolas para explicar a proposta.
Miguel Baiense, diretor executivo da Plastivida Instituto Sócio-Ambiental dos Plásticos, discorda. “Estive em várias lojas e notei muito improviso. A sacola plástica é um direito do consumidor. Colocar alimentos no carrinho ou nessas caixas é falta de higiene.” (OESP)

Instituto pesquisa como o material se degrada

Pesquisadores colocaram 40 sacos comprados em mercados e os deixaram expostos à radiação ultravioleta, à chuva e à poluição.
O processo de degradação de quatro tipos diferentes de sacolas plásticas está sendo pesquisado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Os resultados devem ser divulgados em outubro, quando o experimento completa um ano.
Os pesquisadores colocaram 40 sacos comprados em mercados em uma espécie de varal no topo do prédio do IPT. A ideia é que os materiais fiquem expostos à radiação ultravioleta, à chuva e à poluição para simular a situação a que estão sujeitos os sacos abandonados na rua.
Periodicamente, o material é retirado do varal e observado. Na última semana foi feita a avaliação de três meses de experimento. A pesquisadora Mara Lúcia Siqueira Dantas, do Laboratório de Embalagem e Acondicionamento (LEA), diz que já é possível ver sinais de degradação, como mudança de cor e de massa. No laboratório, são feitos testes de resistência mecânica, "O processo de degradação depende muito do lugar onde o material é deixado e das condições a que ele está exposto. Na rua, por exemplo, vai ser mais rápido do que em um aterro sanitário", afirma a pesquisadora. Segundo ela, o estudo deve servir para conscientizar a população de que as sacolas plásticas devem ser recicladas quando possível ou descartadas de maneira correta.
"A questão não é só qual sacola vai degradar mais rápido. Todas elas, largadas na rua, degradam o ambiente," Fazem parte do teste a sacola plástica convencional, de polietileno comum, a sacola com aditivo para degradação, a de papel kraft e a de TNT, feita com base em polipropileno. (OESP)

Consumidor e o fim das sacolinhas

Consumidor de SP foi ignorado sobre fim das sacolinhas
A partir 25/01/12, o consumidor vai ter de adicionar um item à sua trivial comprinha de supermercado: além do cartão de crédito e da lista de compras, terá de levar de casa recipientes para substituir as famigeradas sacolas plásticas.
O acordo que deve banir a sacola plástica de quase 90% das redes foi assinado entre a Associação Brasileira de Supermercados (Apas) e o governo do Estado de São Paulo em maio de 2011.
“É louvável que a Apas tenha tomado a iniciativa, mas o Idec entende que não ocorreu o devido processo de conscientização e informação necessário para que o consumidor cumpra sua parte”, opina Lisa Gunn, coordenadora executiva do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).
Segundo ela, a ideia de responsabilidade compartilhada - que norteia a Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS) - inclui a construção de soluções de forma também compartilhada, o que não ocorreu, pois o consumidor não foi incluído no processo.
“O consumidor está cheio de dúvidas. Desde as mais simples, como se deve ou não embalar detergente junto com comida, até questionamentos sobre o valor das sacolas biodegradáveis, que serão fornecidas a R$ 0,19. De onde vem esse valor? Quanto custava a outra sacola, cujo valor estava embutido nos produtos? Esse valor de R$ 0,19 vai subsidiar a compra das sacolas reutilizáveis? Nada disso foi explicado”, afirma ela.
De acordo com o diretor de sustentabilidade da Apas, João Sanzovo, pode acontecer de algumas pessoas não quererem aderir à campanha. “Pode ocorrer, mas, pela experiência que tivemos em Jundiaí, é uma minoria, que não quer sair de sua zona de conforto. Mas, de fato, algumas pessoas vão precisar de ajuda e informação para abandonar a cultura do descarte. ”
Opções
Entre as opções que o consumidor terá nos pontos de venda estão as sacolas de algodão, de PET, de ráfia e de polipropileno (todas reutilizáveis), além dos carrinhos de feira (de tecido ou comuns). Mas os especialistas dizem que o melhor é trazer sacolas de casa, pare evitar a compra desnecessária.
“Essa ideia de ter de comprar sacola não corresponde bem à realidade. Todo mundo tem em casa suas sacolas guardadas. Até mesmo aquelas bolsas de palha que se usa para ir à praia podem ser usadas para compras. Ele só vai ter de comprar se esquecer. E se comprar, será uma vez só”, diz a gerente de consumo sustentável do Ministério do Meio Ambiente, Fernanda Daltro.
Sanzovo, da Apas, diz que há uma hierarquia para as opções. “A primeira providência é trazer de casa. Se não trouxer, o caixa vai oferecer a biocompostável. Se ele não quiser comprar a biocompostável, a loja oferecerá caixa de papelão. Não vamos deixar ninguém sair da loja com as compras sem embalagem.”
Lisa Gunn, do Idec, diz que a falta de clareza pode criar uma tendência de se rechaçar a medida. “Temos de entender que o processo de consumo sustentável passa pela informação, conscientização e educação do consumidor. Se ele tiver de comprar saco de lixo para pôr no banheiro, há de se perguntar em que o saco de lixo é diferente da sacolinha. Essa resposta não foi dada.” (yahoo)

Os perigos de um mundo descartável

Quando seu aspirador de pó quebrou, a italiana Giovanna Micconi se revoltou ao saber que a peça de reposição sairia quase o preço de um novo. Valia mais a pena comprar outro, escutou do atendente, apesar dos poucos anos de uso do aparelho. “Algo de muito errado está acontecendo com a nossa sociedade”, postou aos amigos no Facebook. Doutoranda em literatura africana pela Universidade de Harvard e residente há alguns anos nos Estados Unidos, ela compartilha um sentimento universal – o de que o tempo de duração das coisas, assim como a percepção do nosso tempo, também parece acabar de forma bem mais rápida.
Geladeiras que duravam 40 anos e hoje são trocadas em menos de 10, TVs ultrapassadas de uma hora para outra por novas funções, liquidificadores que pifam a um impacto mais forte, computadores que envelhecem assim que saem da caixa. Não importa se esses produtos são comercializados em Boston ou São Paulo. Os bens de consumo duráveis nunca foram tão descartáveis.
Apanhados pelo ritmo estonteante da evolução tecnológica e por uma acessibilidade sem parâmetros às novas gerações de produtos, os consumidores pós-modernos sofrem de males pós-modernos. Por um lado, vivem dias de exuberância material. Por outro, a angústia de estar preso em uma espécie de “corrida armamentista de consumo” e na tormenta da constatação da obsolescência acelerada e inexorável das coisas.
Dados da indústria mostram que a velocidade das substituições, medida pelo número de lançamentos no mercado, só acelera. Tomem-se como exemplo os últimos três anos do setor de eletrônicos e eletrodomésticos – no qual a efemeridade seja talvez mais notável – e o que se vê é praticamente a duplicação de novos produtos em algumas categorias. Em 2009 foram lançados no país 163 modelos de televisores de tela plana. O que já parecia alto subiu ainda mais em 2011, com o auge de 256 novos modelos apresentados em um único ano (de janeiro a novembro). Nesse mesmo período, a oferta de novos celulares saltou de 116 para 175 e a de computadores de mesa, de 476 para 835. Isso foi somente no Brasil, desconsiderando mercados maduros de alta renda, onde os volumes são ainda mais expressivos, segundo a consultoria GfK, que compilou as informações a pedido do Valor.
A entrada no mercado de uma classe média mundial gigantesca e sedenta por novidades, que vê nas aquisições desses objetos uma forma de acesso à cidadania, fez o modelo de consumo adotado e dominado pelos Estados Unidos no século XX – o “american way of life” – replicar em uma escala asiática. De olho nos novos nichos de consumo, grupos que atuam em um segmento da economia passaram a abraçar outras áreas, caso das coreanas LG e Samsung, tradicionalmente de celulares, que avançam rapidamente sobre produtos da chamada linha branca. Em 2005, quando estreou aqui, a LG tinha quatro modelos de sua primeira linha de fornos micro-ondas. Hoje, apresenta 120 novos eletrodomésticos ao ano. A rival Samsung passou de 10 para 200 novos produtos ao ano.
A taxa de obsolescência encurtou à medida que a inovação acelerou e o processo de produção ficou mais barato. Fred Seixas, gerente de vendas da área de eletrodomésticos da LG, afirma que o tempo das coisas está, de fato, menor. “A gente observa que o intervalo de troca de refrigeradores e lavadoras de roupa, que era de dez anos na década de 90, hoje está em cinco ou seis anos”, diz.
Muitas vezes, porém, o salto tecnológico não existe. O poder de transformar a relação das pessoas com o mundo – propiciado por um smartphone, por exemplo – é visto em uma parte mínima dos lançamentos. E não se pode explicar essa tendência somente sob a ótica dos ganhos de eficiência dos equipamentos, com o consumo menor de energia e a produção com materiais menos danosos ao ambiente. “Isso só é relevante em mercados desenvolvidos”, diz Seixas. Pesquisas mostram que o primeiro ponto determinante para a troca de um bem de consumo é o que está por fora: design.
“A gente não faz inovação para trazer tecnologia, mas a partir de aspirações do consumidor”, confirma Rogério Martins, vice-presidente de desenvolvimento de produtos da Whirlpool, dona das marcas Brastemp, Consul e KitchAid, que põe quatro novos produtos por semana no mercado.
Em prol dessa inovação, tecnológica ou plástica, o mundo ficou mais carregado de objetos que logo se tornam inúteis e são descartados na gaveta. E, para alguns economistas, esse é o real problema. Para Eduardo Giannetti da Fonseca, professor do Insper de São Paulo, não há nada de errado se o consumidor escolhe um produto mais caro e de maior durabilidade ou um mais barato e de menor durabilidade. “Num ambiente de mudança tecnológica, faz todo o sentido preferir uma coisa que não vá durar tanto tempo, mas que não perca tanto valor ao ser vendido”, diz. “O maior problema é que o ambiente não está nessa conta. E o ambiente não aceita desaforos.” Giannetti engrossa o coro de economistas que afirmam que não só o modelo de produção se tornou insustentável, mas o cálculo da saúde econômica dos países tornou-se cego aos problemas ambientais que afetam a vida das sociedades hoje.
O impacto ambiental da insustentabilidade já é medido de algumas formas. Um estudo da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) mostra que a produção de lixo no Brasil cresce a um ritmo maior do que o da população – 6,9% em 2010, provavelmente superando o da economia nacional neste ano. Os resíduos de Nova York já são capturados por satélites no espaço. São Paulo esconde seus restos sob uma montanha de 130 metros de lixo compactado coberto por grama, à altura dos maiores arranha-céus da cidade. O embarque de resíduos com destino aos quintais da África não cessa.
Mas o que dita essa toada? Quando passou a fazer sentido comprar um aspirador novo e jogar o seminovo fora? Perdemos algo no caminho? Parte das respostas está na própria cultura capitalista, cumulativa por natureza, na inovação e nas mudanças profundas na estrutura familiar da sociedade contemporânea. Parte no que a economia batizou como obsolescência programada – ou a morte prematura dos produtos.
Marca do mercado de consumo no pós-Segunda Guerra, a obsolescência programada é um conceito segundo o qual a indústria de bens prepara desgastes artificialmente curtos para obrigar o consumidor a uma reposição mais rápida do produto. “A lógica era simples: se não há novos consumidores suficientes para cada produto, então é preciso fazer que os mesmos consumidores comprem o seu produto outra vez”, diz Carlota Perez, pesquisadora venezuelana da Universidade de Cambridge especializada nos impactos sociais e econômicos provocados pelas mudanças na tecnologia. “A princípio isso ocorreu através de mudanças técnicas, depois através da aparência dos produtos e dos modismos e, finalmente, reduzindo a sua durabilidade”.
Em um primeiro momento, isso parecia necessário para atender à emergência, a partir dos anos 1950, de uma sociedade capitalista afluente e uma classe operária bem remunerada, que impunham novos desafios à indústria de bens. Nos anos dourados americanos, a pergunta que passou a ser feita foi: como consumir novamente o que já se tem? Não se tratava mais de vender a primeira geladeira, mas a segunda. O mundo se deslocava de um padrão extensivo para um intensivo de consumo. A pujança econômica dessa época colocou as empresas em outro estágio de desenvolvimento. Após a revolução permitida com a massificação de produtos, criada com o lançamento em série do Ford-T, um ícone automobilístico, era preciso então se diferenciar da concorrência. Henry Ford dizia que qualquer consumidor poderia comprar um automóvel Modelo T, desde que fosse preto. Seu filho, Edsel Ford, colocou a questão em nova perspectiva: “Mas são as cores que dão lucro”. A previsão estava correta.
Para vender a segunda geladeira ela deveria não só durar menos, mas conter algo diverso do que estava disponível no mercado. Fosse por mudanças radicais ou plásticas, a diferenciação resultaria no sobrelucro embutido na competitividade capitalista. A inovação, explica o economista João Batista Pamplona, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), seria uma alavanca poderosa como estratégia de concorrência industrial para conseguir o monopólio.
Philip Kotler, um dos gurus do marketing, lembra que “muito da chamada obsolescência programada é o trabalho das forças competitivas e tecnológicas em uma sociedade livre, que levam a uma melhora progressiva dos bens e dos serviços”.
“Se não tivesse a intervenção da indústria, a obsolescência aconteceria naturalmente em função do próprio consumidor”, concorda a filósofa Carla Rodrigues, da PUC-Rio.
Ávido por novidades, o consumidor contemporâneo – com muito mais acesso ao crédito – passou a ter mais facilidade para obter o aparelho dos sonhos, que já não precisava durar tanto, mas apresentar design arrojado e reunir várias funções.
Com isso, a obsolescência do produto migrou para a dos serviços. Assim, ao comprar uma cafeteira, fabricada por uma multinacional, será informado de que ela só funcionará com os sachês de café da própria empresa. “Você compra um celular simples. A operadora oferece então um pacote gratuito de envio de fotos para outros celulares. Você compra um outro celular para aproveitar essa função e um novo aparelho permite acesso à internet, o que o leva a assinar o serviço de banda larga que oferece uma ampla possibilidade de recursos caso tenha um smartphone. Depois vem a videoconferência, o 3D e o ciclo nunca se encerra”, escreveu recentemente em artigo o consultor ambiental Tasso Azevedo. “A cada passo que você dá, o aparelho anterior fica obsoleto.”
Ao mesmo tempo que a tecnologia empurrava de lado o velho em nome do novo, a globalização puxava outra régua para cima. A descartabilidade também está ligada ao fato de muitos bens de consumo terem se tornado baratos hoje, a ponto de a peça de reposição de um aspirador equivaler a mais da metade do preço de um aparelho novo, como relatou a italiana Giovanna Micconi.
Isso é particularmente consolidado nas economias desenvolvidas, onde a mão de obra qualificada é tão cara que impossibilita a troca de peças. No Japão, montanhas de eletrônicos, geladeiras e bicicletas descartados nas ruas espantam os desavisados. Cenas como essas chocam pelo desperdício, pela desigualdade de renda, pela exaustão que impõem ao planeta. E também pela corrida desenfreada pelo consumo, já que os japoneses, como se sabe, estão entre as populações mais demandantes de novas tecnologias de ponta no mundo.
Essa obsessão, intrínseca ao ser humano, nunca pode ser desprezada – e, diga-se, desde que o mundo é mundo é assim. Já na Roma antiga há relatos da necessidade de se sobressair em relação ao outro. Em uma passagem do “Satiricon“, do escritor Petrônio, um milionário admite durante uma festa: “Só me interessam os bens que despertam no populacho a inveja de mim por possuí-los”. Bem mais tarde, o escritor francês André Malraux cravou que o desejo do homem é ocupar um lugar de honra na mente dos seus semelhantes.
O desejo do novo, daquilo que é visto como uma catapulta para a ascensão social e nos torna supostamente superiores, é um valor arcaico, que não só empurra os produtos para o fundo da gaveta – ou para o lixo, elevando o passivo ambiental já monumental – como pressiona a indústria por mais tecnologia. A efemeridade material é, portanto, fruto também desse consumidor inserido no que Giannetti, do Insper, chama de “corrida armamentista de consumo”.
“É do nosso passado remoto a competição por status que leve a alguma proeminência. O valor de um produto não é o que me traz diretamente a felicidade, mas deriva do fato de que os demais estão excluídos do acesso a ele. A posse desses chamados bens posicionais – BMWs, TVs planas, casas em bairros chiques – é o que passa a dominar o jogo interpessoal. Aí você entra na corrida armamentista de consumo”, diz o economista. “Uma corrida armamentista, stricto sensu, é uma situação em que dois ou mais países investem em armamento e, ao final, se percebem mais inseguros do que no início. Porque ao mesmo tempo em que um mobiliza recursos para se defender, o outro faz o mesmo. É um paradoxo. E a indústria está sempre renovando os bens posicionais. É o tênis de marca, o carrão. Quem não tem está fora”.
Nas empresas, lucra mais quem entende essa condição humana. “Ninguém melhor do que Steve Jobs compreendeu o conceito de fetichismo de Marx“, segundo o qual as relações sociais são mediatizadas pelos objetos, diz Carla Rodrigues. “Ele captou o algo a mais [fetiche] que os iPhones explicitam tão bem.” O fundador da Apple talvez nunca tenha lido Petrônio ou Malraux, mas respondeu aos anseios da sociedade contemporânea. Desde a primeira geração de iPhones, há cinco anos, a empresa comemora vendas recordes consecutivas, movimento seguido pela avalanche de seus primos-irmãos (os iPads) e celulares e tablets da concorrência.
É claro que, nesse processo, a publicidade tem desempenhado um papel auxiliar importante, ao estimular a compra de “novos” produtos, que se diferenciam dos anteriores basicamente no aspecto externo ou em um ou outro acessório supervalorizado.
Em seu livro “A Cultura do Novo Capitalismo“, o sociólogo americano Richard Sennett joga luz sobre o fato de que os consumidores comuns compram equipamentos com possibilidades que jamais utilizarão. “Discos de memória capazes de guardar 400 livros, embora a maioria das pessoas chegue a arquivar na melhor das hipóteses centenas de páginas, ou programas de informática que nunca são acessados no computador”, relaciona Sennett.
Tome-se o exemplo do iPod. Em tese, esse cobiçado aparelho – fininho, de design inovador, que transformou a indústria fonográfica – é capaz de arquivar e reproduzir dez mil músicas digitais de três minutos. Mas seria alguém capaz de se lembrar de todas as dez mil canções gravadas? Não acabamos ouvindo sempre as favoritas? “E, no entanto, o fenomenal atrativo comercial do iPod consiste precisamente em dispor de mais do que uma pessoa jamais seria capaz de usar. O apelo está, em parte, na ligação entre a potência material e a aptidão potencial da própria pessoa”, diz Sennett, professor da London School of Economics (LSE) e do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Falado de outra forma, ele representa a potência daquilo que podemos comprar.
A lista dos sonhos de consumo potencial foi inflada também porque o grupo de referência dos consumidores mudou. O universo antes restrito aos vizinhos do bairro, escola e familiares, foi escancarado pela comunicação de massa. A explosão de informação permitiu que pessoas de baixa renda sonhassem com a vida dos habitantes da grande cidade, seus equipamentos eletrônicos de última geração e viagens internacionais, intensificando a “corrida armamentista do consumo”.
O problema desse movimento, diz Giannetti, é que ele não tem fim. Para o economista, à medida que a sociedade prospera, as pessoas começam a competir pelos bens posicionais. É aquele estágio em que as necessidades mais básicas do ser humano, seus apetites universais, já foram satisfeitos e passam a abrir espaço para o furor de se distinguir em relação às pessoas comuns. É quando o foco da sociedade volta-se para “ocupar um lugar de honra na mente dos seus semelhantes”, como afirmava o escritor francês. “E, quanto mais se avança sobre os bens posicionais, mais as pessoas sentem que falta algo. Não tem solução econômica para isso. Mas a conta recairá sobre o meio ambiente, que não aceita desaforos.” (EcoDebate)

Economia de reciclagem total valeria 0,3% do PIB

País já evita emissão de 10 milhões de t de gases-estufa com reciclagem, mas incentivo fiscal é gargalo.
Já foi demonstrado por A + B que a gestão dos resíduos sólidos pode render milhões ao Brasil. No mundo todo a questão é considerada prioritária. Até porque, nos últimos cem anos, os resíduos produzidos nas cidades mudaram significativamente.
De acordo com Annie Leonard em seu livro A História das Coisas, há cem anos, a maior parte do lixo produzido pelos cidadãos americanos era composto de sobras de comida e cinzas de carvão, usado na calefação. Hoje, segundo a Environmental Protection Agency (EPA), quase três quartos do resíduo sólido urbano produzido nos EUA são compostos de objetos projetados, produzidos e comercializados, incluindo embalagens, bens duráveis e não duráveis.
Já o Brasil ainda tateia as oportunidades abertas depois de promulgada a Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS).
"A reciclagem no Brasil já gera retornos da ordem de US$ 2 bilhões por ano e evita a emissão de 10 milhões de toneladas de gases-estufa. Uma economia que reciclasse a totalidade dos resíduos representaria 0,3% do PIB", assinala Nick Nuttall, porta-voz do Pnuma.
"O Brasil não está no nível dos escandinavos, que têm consciência enorme no trato dos resíduos, mas estamos à frente de China e Índia, economias apontadas como promissoras", afirma Nabil Bonduki, secretário de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente (MMA).
"A coleta no Brasil atende mais de 90% da população, o que nos diferencia de países da África e Ásia. Apesar disso, gastamos muito com coleta, e mal", diz Bonduki. "Temos pouca coleta seletiva e não compostamos lixo orgânico. Mas temos uma lei muito avançada que, se implementada, pode nos levar a uma situação próxima a dos países adiantados."
Atualmente, 58% dos resíduos no Brasil vão para aterros e 42% ainda vão para lixões. O País recicla 13% de seu lixo seco e composta 2% do orgânico.
Incentivos. Recentemente, o governo brasileiro publicou o decreto n.º 7.619, concedendo desconto no IPI até 2014 às empresas que utilizam resíduos sólidos recicláveis adquiridos em cooperativas de catadores. Para resíduos de plástico e vidro, a redução será de 50%. Para papéis e resíduos de ferro ou aço, de 30% e, para resíduos de cobre, alumínio, níquel e zinco, o abatimento será de 10%. Mas o setor de reciclagem ainda reclama de questões como a "dupla tributação" - o fato de pagarem imposto sobre os resíduos que recuperam.
"Essa questão está na pauta. Acho que é um grande tema para 2012, mas depende muito do Ministério da Fazenda", diz Bonduki. (OESP)

Fim das sacolas plásticas nos supermercados

Para Idec, faltou informação sobre fim das sacolas plásticas nos supermercados
Segundo o órgão, clientes de todo o Estado não participaram nem foram bem informados do acordo que põe fim à distribuição das sacolinhas, que passa a valer em 25/01/12.
A partir de 25/01/12, o consumidor vai ter de adicionar um item à sua trivial comprinha de supermercado: além do cartão de crédito e da lista de compras, terá de levar de casa recipientes para substituir as famigeradas sacolas plásticas.
O acordo que deve banir a sacola plástica de quase 90% das redes foi assinado entre a Associação Brasileira de Supermercados (Apas) e o governo do Estado de São Paulo em maio de 2011.
"É louvável que a Apas tenha tomado a iniciativa, mas o Idec entende que não ocorreu o processo de conscientização e informação necessário para que o consumidor cumpra sua parte", opina Lisa Gunn, coordenadora executiva do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).
Segundo ela, a ideia de responsabilidade compartilhada - que norteia a Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS) - inclui a construção de soluções de forma também compartilhada, o que não ocorreu, pois o consumidor não foi incluído no processo.
"O consumidor está cheio de dúvidas. Desde as mais simples, como se deve ou não embalar detergente junto com comida, até questionamentos sobre o valor das sacolas biodegradáveis, que serão fornecidas a R$ 0,19. De onde vem esse valor? Quanto custava a outra sacola, cujo valor estava embutido nos produtos? Esse valor de R$ 0,19 vai subsidiar a compra das sacolas reutilizáveis? Nada disso foi explicado", afirma ela.
De acordo com o diretor de sustentabilidade da Apas, João Sanzovo, pode acontecer de algumas pessoas não quererem aderir à campanha. "Pode ocorrer, mas, pela experiência que tivemos em Jundiaí, é uma minoria, que não quer sair de sua zona de conforto. Mas, de fato, algumas pessoas vão precisar de ajuda e informação para abandonar a cultura do descarte."
Opções
Entre as opções que o consumidor terá nos pontos de venda estão as sacolas de algodão, de PET, de ráfia e de polipropileno (todas reutilizáveis), além dos carrinhos de feira (de tecido ou comuns). Mas os especialistas dizem que o melhor é trazer sacolas de casa, pare evitar a compra desnecessária.
"Essa ideia de ter de comprar sacola não corresponde bem à realidade. Todo mundo tem em casa suas sacolas guardadas. Até mesmo aquelas bolsas de palha que se usa para ir à praia podem ser usadas para compras. Ele só vai ter de comprar se esquecer. E se comprar, será uma vez só", diz a gerente de consumo sustentável do Ministério do Meio Ambiente, Fernanda Daltro.
Sanzovo, da Apas, diz que há uma hierarquia para as opções. "A primeira providência é trazer de casa. Se não trouxer, o caixa vai oferecer a biocompostável. Se ele não quiser comprar, a loja oferecerá caixa de papelão. Não vamos deixar ninguém sair da loja com sem embalagem."
Direito
Em 24/01 a Plastivida, ligada à indústria do plástico, divulgou anúncio no intervalo do Jornal Nacional, da Rede Globo. "Queríamos informar a população de que ela tem o direito de exigir a sacola e que os supermercados estão desobedecendo a uma ordem do Tribunal de Justiça de São Paulo, que julgou inconstitucional a lei paulista das sacolinhas", disse o presidente da entidade, Miguel Bahienese.
Perguntas & Respostas
Próximo passo é devolução
A medida é válida somente para os supermercados ou para outros tipos de comércio?
É válida apenas para os supermercados.
Que tipo de embalagens entram no acordo?
Apenas as sacolas plásticas que antes eram distribuídas gratuitamente nos caixas para levar a compra embora da loja.
A medida vale para todo o Estado ou somente alguns municípios?
Vale para o Estado todo. A Apas representa quase 90% das redes que abastecem o Estado de São Paulo. Seus 1,2 mil associados aderiram ao acordo.
O que o consumidor deve fazer a partir de 25/01/12?
Em primeiro lugar, procurar em casa sacolas que possam ser usadas para compras. Na loja, a biocompostável deve ser usada em último caso, se ele esquecer ou resolver fazer uma compra de última hora.
Se minha sacola reutilizável estragar, devolvo?
A Apas estuda um esquema de logística reversa das sacolas. O prazo estipulado é de três meses. (OESP)

Sacolas de plástico vão 'sumir' do supermercado

A partir de 25/01/12, sacolas de plástico vão 'sumir' do supermercado
Em 25/01/12, pelo menos 80% dos supermercados do Estado de São Paulo deixarão de fornecer sacolas plásticas para seus clientes. Caixas de papelão e sacolas retornáveis são as opções mais comuns oferecidas pelas redes. Quem quiser, também poderá adquirir sacolas biodegradáveis por cerca de R$ 0,20.
A iniciativa de tirar as sacolas dos caixas é fruto de um acordo entre a Associação Paulista dos Supermercados (Apas) e o governo do Estado de São Paulo. Preferiu-se este caminho à adoção de uma lei. "Optamos pelo diálogo com o setor", afirma o secretário do Meio Ambiente, Bruno Covas. "O acordo é voluntário por parte das redes."
Ele recorda que algumas cidades, como Jundiaí, chegaram a aprovar legislações para proibir as sacolas, mas foram julgadas inconstitucionais. No caso de Jundiaí, a prefeitura assinou depois um acordo com os supermercados locais e obteve o resultado que não alcançara com a lei.
Para ambientalistas e gestores públicos, a medida tem um importante valor simbólico. Apesar de as sacolas só representarem uma pequena parcela do volume total de lixo descartado, têm o mérito de trazer para o cotidiano das pessoas a preocupação com a sustentabilidade, aponta Fernanda Daltro, gerente de consumo sustentável do Ministério do Meio Ambiente. "As pessoas aprenderão a separar o lixo seco do úmido, que é o que realmente precisa da sacola plástica para não fazer sujeira."
O governo federal pretende lançar em fevereiro, em conjunto com a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), uma campanha inspirada na experiência de São Paulo, na esperança de que outros Estados sigam o exemplo. Será a segunda fase da campanha "Saco é um saco", criada em 2009 pela pasta.
Covas e Fernanda concordam que o banimento total, baseado na autoridade do Estado, não constitui uma solução, mas uma complicação. "A ideia não é banir o plástico", afirma Covas. "Mas diminuir o impacto ambiental sem atrapalhar a vida do cidadão." O presidente do Instituto Akatu, Helio Mattar, recorda que o problema central não é o plástico, mas sim a descartabilidade das sacolas. Fernanda concorda: "O plástico é um material nobre: leve, barato, durável, higiênico. Deveria ser usado só para produtos não descartáveis".
A coordenadora da área de resíduos sólidos do Instituto Pólis, Elisabeth Grimberg, considera a restrição às sacolas apenas o primeiro passo. "Elas representam um pequeno porcentual das embalagens de plástico", afirma Elisabeth. "Precisaríamos avançar a discussão para diminuir a utilização das demais embalagens."
Outro lado. "Essa lei foi aprovada por interesse econômico (dos supermercados) e não ambiental ou social", critica Miguel Bahiense, presidente da Plastivida, entidade que representa institucionalmente o setor dos plásticos. Ele estima em R$ 500 milhões a economia das redes com a restrição. "Vão repassar essa economia para os clientes? Duvido."
Ligia Korkes, gerente de Sustentabilidade do Grupo Pão de Açúcar - dono da rede homônima e do Extra -, afirma que o dinheiro obtido com a economia das sacolas plásticas e com a venda das sacolas retornáveis será revertido para ações de sustentabilidade do grupo.
"Uma pesquisa que encomendamos mostrou que 96% da população utiliza as sacolas plásticas para acondicionar o lixo", diz Bahiense, que prevê que famílias mais pobres não comprarão sacos de lixo. "Cada rolo com dez unidades custa R$ 19. Vão descartar de qualquer jeito."
O presidente da Apas, João Galassi, discorda e cita como exemplo cidades onde o acordo já está em vigor: além de Jundiaí, Monte Mor, Americana, Marília e Descalvado, em São Paulo. Fora do Estado, há também Belo Horizonte. "As pessoas se adaptam: utilizam sacolas plásticas de outros estabelecimentos, como farmácias e padarias (que não deixarão de utilizar as sacolinhas), ou recorrem a embalagens de produtos em que o plástico é parte integrante, como o saco que envolve as verduras."
A primeira experiência de restringir o uso de sacolas plásticas no País ocorreu em uma loja do Carrefour, em Piracicaba. As vendas não se ressentiram, garante Paulo Pianez, diretor de sustentabilidade da empresa. "Uma pesquisa mostrou que 90% dos clientes aprovaram a mudança." (OESP)

domingo, 29 de janeiro de 2012

Rio+20: a rupture necessária

O Brasil se prepara para receber este ano (20 a 22 de junho), a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, denominada de Rio+20, que traz como tema a “Economia Verde”. O conceito “Economia Verde”, muito utilizado ultimamente, tem servido mais para justificar o modelo atual de desenvolvimento do que para alcançar e construir um modelo alternativo. Economia verde pode ser tudo e, ao mesmo tempo, qualquer coisa ou quase nada.
Diante desse tema, algumas questões nos fazem pensar: Quais são as possíveis alternativas para o modelo de desenvolvimento atual que se pauta exclusivamente na produção e no consumo tendo o setor privado como ator principal? Como conciliar crescimento econômico com sustentabilidade ambiental? O que fazer quando a expansão agrícola, urbana e industrial, os principais balizadores do modelo atual, têm o Estado como o principal financiador (veja a isenção de impostos para carros novos e eletrodomésticos)? O que tem de sustentável este modelo de desenvolvimento que se pauta na exploração do trabalho (escravidão humana), no comércio transcontinental e na depredação ambiental? Não estaria o atual modelo em seu pior momento econômico (reincidentes crises), tentando se reestruturar e se revitalizar através de uma concepção verde?
As informações que se tem até o momento são que, infelizmente, o rascunho oficial da Rio+20 chamado “Zero draft” ou rascunho zero (documento oficial do Rio+20), não aprofunda as questões essenciais que venham a romper com o atual modelo. Sobre o uso do termo “Economia Verde” e sua pouca capacidade de ruptura é oportuna a resposta do teólogo Leonardo Boff: “’Economia verde’ é auto ilusão porque não muda a relação de exploração da Terra. O processo todo é pouco verde, está cheio de toxinas danosas”. Ao mesmo tempo que “[...] o stablishment mundial não quer mudar o rumo. Na Rio+20, ao invés de discutir a sustentabilidade da Terra e da vida, prefere-se o tema economia verde”. Por isso a necessidade do protagonismo da sociedade civil organizada (movimentos sociais), no fortalecimento das alternativas que emergem das práticas baseadas no olhar feminista, agroecológico, da economia solidária, caso contrário a vontade do “stablishment” continuará sendo a dominante.
O problema parece ser mais sério do que parece. Enquanto não mudarmos o padrão de consumo imposto pelo capital e seus tentáculos publicitários, dificilmente reverteremos o processo. O “êxito” de todos os governos está pautado apenas no crescimento econômico (PIB – soma de todas as riquezas produzidas) e não no desenvolvimento econômico, que considera a distribuição da riqueza de forma mais equânime, padrões mais amplos como qualidade de vida, sustentabilidade, bem-estar social, níveis adequados de educação e cultura, moradia, saúde, trabalho digno. Parece que a aposta dos governos Lula-Dilma não foge do convencional: apostar no mercado de consumo de massa como a alternativa final para o enfrentamento da crise econômica do capitalismo. É tentar sair do buraco puxando-se pelo próprio cabelo (Barão de Münchhausen), como se fosse possível. (EcoDebate)

Rio+20 vai ser ‘teatrinho governamental’

Stédile diz que Rio+20 vai ser ‘teatrinho governamental’, sem efeitos sobre o atual modelo de desenvolvimento
O cooordenador do MST, João Pedro Stédile, disse que a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, que acontece em junho, no Rio de Janeiro, poderá até ser representativa e reunir chefes de Estado, mas será apenas um “teatrinho governamental”, sem efeitos sobre o atual modelo de desenvolvimento capitalista. Segundo ele, os governos promovem reuniões, seja o G20, sejam as conferências da ONU e depois os capitalistas não respeitam.
Porto Alegre – O coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, participa dos debates sobre a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que ocorre em junho, no Rio de Janeiro.
O coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, disse e 25/01/12 que a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontece em junho, no Rio de Janeiro, poderá até ser representativa e reunir chefes de Estado, mas será apenas um “teatrinho governamental”, sem efeitos sobre o atual modelo de desenvolvimento capitalista.
Stédile participa das atividades do Fórum Social Temático (FST), uma prévia da Cúpula dos Povos, reunião de movimentos sociais que acontecerá paralelamente à Rio+20.
O problema, segundo o líder do MST, é que os fóruns internacionais, como a Organização da Nações Unidas (ONU), não conseguem se impor ao movimento do capital, comandado pelas grandes corporações transnacionais e pelo capital financeiro. Nesse contexto, por mais que os governos nacionais se esforcem em propor novos modelos, as mudanças mais significativas são barradas pelo capital.
“Desde a década de 1990, quando o capitalismo se internacionalizou, a força do capital tem se revelado maior que a força dos governos. A situação esdrúxula é que os governos promovem reuniões, seja o G20, sejam as conferências da ONU e depois os capitalistas não respeitam. A Rio+20 pode até ter uma grande representatividade de presidentes, da presença de todos os países do mundo, mas no fundo vai ser um grande teatrinho governamental, porque os presidentes se reúnem, podem fazer bons discursos e acordos formais, mas que não terão ingerência sobre a ação que o capital vem fazendo sobre os recursos naturais”, avaliou, em entrevista à Agência Brasil e à Rádio Nacional da Amazônia.
Em contraponto à Rio+20, a sociedade civil está organizando a Cúpula dos Povos, para tentar viabilizar propostas alternativas que não terão repercussão na reunião formal, segundo Stédile. “Nessa cúpula, tentaremos construir pautas, agendas e ações de massa comuns para conseguirmos levantar uma barreira a essa sanha insana dos grandes capitalistas representados pelas empresas transnacionais que está provocando desastres”, adiantou.
O líder do MST ainda criticou o conceito de economia verde, que será o foco das discussões da Rio+20. Para Stédile, a ideia é “até simpática”, mas não tem efetividade diante da força do capital financeiro, e acaba servindo de maquiagem verde para o modelo tradicional de exploração dos recursos naturais e de distribuição das riquezas. “Os capitalistas mais espertos e que não atuam no polo de especulação do capital financeiro sacaram que podem dar um tom de maior sustentabilidade prometendo que não vão agredir o meio ambiente para parecer simpáticos à população, que então vão consumir mais e eles vão ter lucro maior. Mas quem manda são os grandes bancos, transnacionais, as petroquímicas”, apontou.
Radical, Stédile disse que a saída para evitar uma crise ambiental e mudar a rota do desenvolvimento para um caminho mais sustentável é a estatização do sistema financeiro em todo mundo, o que, segundo ele, daria aos governos a possibilidade de financiar um padrão de crescimento menos intensivo no uso dos recursos naturais.
“Os governos nacionais têm que controlar seus bancos para que, em vez de financiar investimentos que agridem ao meio ambiente, financiem outros tipos de investimentos produtivos, uma reconversão da economia de seus países.” (EcoDebate)

Economia verde busca avanço na Rio+20

Meta é diminuir impacto de produção e locomoção: agricultura, transportes, energia, lixo, indústria e água são estratégicos.
Um dos temas eleitos pela ONU para a Rio+20 é a economia verde, conceito que designa um modelo de desenvolvimento baseado em baixa queima de carbono, eficiência no uso dos recursos e inclusão social. Grosso modo, a ideia é "esverdear" a economia, estudando soluções de investimento nos setores verdes - e em outros originalmente não tão amigos do ambiente.
O desafio parece imenso - e é. O tema é abordado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) desde 2008, quando foi lançada a Iniciativa pela Economia Verde. Em 2011, o Pnuma lançou o relatório A caminho da Economia Verde. Diante da complexidade do tema, a abordagem foi dividida em duas grandes áreas: capital natural (que inclui agricultura, pesca, água e florestas) e energia e eficiência no uso de recursos (energias renováveis, indústria, construções, transporte, turismo e cidades).
"Seja pelo crescimento das energias renováveis na Alemanha, na China ou na Índia, pela propagação acelerada da agricultura orgânica e sustentável em Uganda e Argentina ou pelas políticas de transporte sustentáveis de cidades como Curitiba, há muitos exemplos sinalizando que a transição está em andamento", diz o porta-voz do Pnuma, Nick Nuttall. Para ele, a Rio+20 é uma oportunidade de dar escala e acelerar a incorporação dessas transições.
Agropecuária. No Brasil, que vem se destacando na produção de alimentos - somos o maior exportador de carne do mundo e o cultivo de grãos cresce em média 4% ao ano -, o setor agrícola merece atenção. "Trata-se de inverter o olhar e transformar uma agenda negativa, de custos adicionais, em oportunidades de negócio. Especialmente pela capacidade que temos de produzir sem degradar e sem comprometer o futuro", diz o agrônomo e chefe da Embrapa Meio Ambiente, Celso Vainer Manzatto.
A aposta da agricultura brasileira é nos sistemas integrados de produção (agrossilvopastoris), na minimização de danos e emissões de gases-estufa pela incorporação de práticas como plantio direto (sem revolver o solo ou fazer queimadas), na recuperação de áreas degradadas e na redução do uso de insumos tradicionais e aumento do uso de insumos biológicos (como o rizóbio, bactéria que capta o nitrogênio do ar e o fixa no solo).
Para reduzir as emissões dos gases carbônico, metano e do óxido nitroso, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) lançou há dois anos o programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC). "O ABC incentiva práticas que a agricultura brasileira tem há décadas. Mas exige reciclagem das equipes técnicas e dos produtores rurais. E também um tempo para que a aprendizagem do novo sistema seja internalizada", afirma Derly Dossa, chefe da assessoria de gestão estratégica do Mapa. Ele afirma que o Brasil tem hoje 27 milhões de hectares cultivados no sistema de plantio direto. "A meta é melhorar e aumentar mais 8 milhões de hectares em dez anos."
Manzatto, da Embrapa, lembra que a participação da agricultura nas emissões é grande. "Das metas de redução voluntárias do Brasil, da ordem de 36%, 29% têm de ser reduzidas na agricultura", diz. Dossa afirma que a meta do ABC é abranger 30 milhões de hectares (o equivalente ao território da Itália) nos próximos dez anos, prioritariamente no Cerrado. "Mas Paraná e Rio Grande do Sul estão se mexendo muito rapidamente, por conta do aumento do preço das terras e a degradação que já sofreram."
Transportes. Outro tema que merece olhar atento são os transportes, que respondem por boa parte das emissões em países como os EUA e vêm aumentando sua participação nos países em desenvolvimento. A frota brasileira cresceu de menos de 10 milhões de veículos, em 1980, para quase 40 milhões em 2009. Levando-se em consideração apenas o CO2, foram emitidas 170 milhões de toneladas em 2009, 38% originadas de automóveis.
Desde 1986, o governo brasileiro mantém o Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve). Os veículos são divididos em pesados, leves, motocicletas e máquinas agrícolas e rodoviárias. O programa regula monóxido de carbono, hidrocarbonetos, óxidos de nitrogênio e material particulado. "Uma fase do Proconve é sempre a combinação de uma data com um novo limite de emissão", diz Rudolf Noronha, gerente de Qualidade do Ar do MMA. "Avançamos muito em tecnologia. Em 1985, um carro emitia o equivalente a 56 autos de hoje. O problema é a somatória das emissões", afirma.
Há duas semanas, o Proconve entrou em sua sétima fase para veículos pesados, com a adoção do diesel S-50, que tem 50 partes por milhão de enxofre (atualmente ainda usamos, em muitos locais, um diesel com 1,8 mil ppm de enxofre).
Noronha chama a atenção para a emissão das motos. "Até pouco tempo atrás, uma moto emitia por quatro carros. Hoje uma moto equivale a um veículo leve. Mas é um equilíbrio que a gente mantém a muito custo", revela. (OESP)

Rio+20 deve insistir em taxa para países ricos

Saiu ontem o primeiro rascunho do documento que será o resultado principal da Rio+20, a conferência sobre desenvolvimento sustentável das Nações Unidas, no Rio de Janeiro, em junho.
Oceanos, segurança alimentar, agricultura, energia e cidades sustentáveis, acesso a água, empregos verdes, trabalho decente, inclusão social e redução de risco de desastres são as áreas sugeridas para que os países tenham metas a serem cumpridas a partir de 2015.
Batizado de “The Future We Want” (“O Futuro Que Queremos”), o documento de 19 páginas também dá a indicação financeira de como o mundo pode chegar ao cumprimento dessas metas: que sejam cumpridos os compromissos de países ricos de destinar 0,7% de seu Produto Interno Bruto (PIB) para a cooperação internacional às nações em desenvolvimento, assim como 0,15% a 0,20% do PIB para programas de assistência aos países mais pobres. Essa sugestão não é nova e resume decisões já tomadas em vários fóruns das Nações Unidas, mas que, nos últimos 20 anos, nem sempre decolaram.
Várias partes do texto estão entre colchetes, o que, no rito diplomático indica que são temas onde não há consenso. Tudo o que importa – finanças, energia, ciência e tecnologia, lixo, consumo e produção sustentável, educação, degradação da terra, mudança do clima, florestas e biodiversidade – aparecem entre colchetes. Na verdade, o processo de discussão do texto começa agora. Será a base da rodada informal de negociações em Nova York, no fim de janeiro. Acontecerão mais dois encontros nesse formato, onde representantes dos países discutem o documento, mas ainda não tomam decisões. No fim de março e em junho, pouco antes da cúpula da Rio+20, ocorrem duas reuniões preparatórias com poder de decisão.
O documento que saiu ontem, conhecido por “draft zero”, pretende ser um grande resumo de todas as sugestões que a ONU recebeu nos últimos meses do que deveria ser a Rio+20. Foram 6.000 páginas de contribuições vindas de governos, de ONGs, de empresas. “O documento final da Rio+20 deverá trazer aquele monte de tópicos sobre desenvolvimento sustentável, que já foram discutidos e decididos em um monte de fóruns diferentes, a um lugar único” opina Aron Belinky, coordenador de processos internacionais do Instituto Vitae Civilis e participante do comitê facilitador da sociedade civil na conferência. “Eles devem ser traduzidos em uma declaração política”, prossegue, referindo-se ao documento final da cúpula.
O primeiro rascunho do texto da Rio+20 traz pontos interessantes, como o que sugere que as grandes empresas tenham relatórios de sustentabilidade. Mas não há metas no texto, em nenhuma área. O prazo também é genérico e apenas menciona o “pós-2015″. (EcoDebate)

A grande ausência da Rio+20

População: a grande ausência da Rio+20?
Nas últimas 3 décadas do século XX, a ONU fez Conferências sobre o Meio Ambiente (1972 e 1992) separadas das Conferências de População (1974, 1984 e 1994). Isto é um problema, pois é sabido que não há como resolver as questões do meio ambiente sem considerar os temas populacionais e não há como resolver as questões populacionais sem levar em consideração a temática do meio ambiente. Mas como são dois assuntos polêmicos foram tratados de forma separada.
Contudo, esta estratégia deixou de ser efetiva diante da dimensão dos problemas que foram se acumulando e chegaram a um ponto crítico neste início do século XXI. Existia uma grande expectativa de que as questões populacionais e de meio ambiente sejam tratadas de forma conjunta na Conferência Rio + 20, em junho de 2012.
No dia 10 de janeiro de 2012 a ONU disponibilizou o “Zero draft”, ou Rascunho zero do documento final da Rio+20 (UN, 2012), que foi fruto de reuniões, sugestões e contribuições dos países, grupos regionais, organizações internacionais e da sociedade civil. Não pretendo tratar da discussão de todo o documento, pois isto exigiria muito tempo e espaço. O objetivo aqui é avaliar se as questões da dinâmica demográfica tiveram a merecida atenção no “Zero draft”.
Analisando as 19 páginas do documento, percebe-se que a palavra população aparece apenas 2 vezes: a) “Estamos profundamente preocupados com o fato de cerca de 1,4 bilhão de pessoas ainda viverem na pobreza extrema e de um sexto da população mundial ser subnutrida, e com as pandemias e epidemias, que são uma ameaça onipresente” (p. 4); b) (…) “sendo particularmente sensíveis aos impactos sobre as populações vulneráveis”. A palavra Demografia não aparece nenhuma vez. Além disto há a seguinte constatação: “Nosso planeta suporta sete bilhões de pessoas, que deverão chegar a nove bilhões, em 2050”.
Quanto às Conferências e Declarações passadas, o “Zero Draft” faz referencia à Carta da ONU, à Rio/92, à Agenda 21, à Declaração de Johannesburg/2002, aos ODMs/2000, à Estratégia de Barbados e Mauritius, ao Consenso de Monterrey, à Declaração de Doha e Progama de Istambul. Mas não faz referência à Conferência Internacional de População e Desenvolvimento (CIPD) do Cairo/1994 e nem à Plataforma de Ação da IV Conferência Mundial de Mulheres, de Beijing/1995.
As Conferências do Cairo/1994 e Beijing/1995 foram fundamentais para a aprovação e a formulação dos conceitos de “Direitos Sexuais e Reprodutivos” e “Empoderamento das Mulheres”. O documento também não cita a revisão de 2005 dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODMs) que estabeleceu a meta de número 5B: “Alcançar, até 2015, o acesso universal à saúde reprodutiva”.
Ou seja, ao não incorporar estes e outros conceitos importantes para o entendimento da dinâmica demográfica e que já haviam sido tratados ou aprovados em Conferências anteriores, o Esboço zero do documento deixa uma lacuna que pode ser muito ruim para o resultado final da Rio+20.
É sabido que existe um debate acirrado entre algumas correntes que jogam todas as culpas do mundo na população e outras correntes que consideram que a população não importa (Alves, 2011). Mas também existe visões que buscam o “caminho do meio” e consideram que pode existir uma sinergia entre dinâmica populacional e desenvolvimento sustentável e que o tratamento adequado destas questões, discutidas de forma democrática, podem ser fundamentais para o bem-estar da população e do meio ambiente. Já existem diversas iniciativas internacionais apontando caminhos nestas áreas (UNFPA, 2011 e IIASA, 2011).
Nos meses de janeiro e fevereiro vão acontecer debates em todo o mundo sobre estas questões e as negociações vão prosseguir até o mês de março de 2012. Portanto, ainda há tempo para incorporar o resultado do debate da população (humana e não-humana) no documento final da Rio + 20. Mas para tanto, as forças democráticas e progressistas precisam se mobilizar e dizer o que querem aprovar em junho de 2012. (EcoDebate)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

COP-17 e o Aquecimento Global

COP-17 e o Aquecimento Global: tragédia ou regulação dos ‘Bens Comuns’?
Um dos aparentes paradoxos da economia é que o valor de um produto não depende da sua utilidade. O diamante, por exemplo, tem pouca utilidade e é muito caro, enquanto o ar que respiramos é essencial para a vida, mas é gratuito. Na verdade, o diamante é caro porque é escasso e exige muito trabalho para ser encontrado, lapidado, etc, enquanto o oxigênio é abundante e não requer trabalho para manter o simples e fundamental ato da respiração.
Além disto, o oxigênio que respiramos não tem dono e a atmosfera é um bem comum da humanidade. É a atmosfera terrestre que protege a vida na Terra absorvendo os raios ultravioletas, aquecendo a superfície por meio da retenção de calor e diminuindo os extremos de temperatura entre o dia e a noite.
Mas como tem sido usado este bem comum?
Nínguem ignora o fato da humanidade estar usando a troposfera – camada que permite aos seres vivos respirar – da pior maneira possível. Além da poluição que provoca doenças respiratórias, as emissões de gases de efeito estufa (GEE) tem mudado a química da atmosfera e acelerado o fenômeno do aquecimento global, que possui enormes efeitos sobre a vida na Terra.
Existem autores que enxergam neste processo um conflito irremediável entre os interesses individuais e o gerenciamento do bem comum. A “Tragédia dos Comuns” é um conceito que considera que o uso irrestrito de um recurso finito (como o ar limpo) pode levar à sua degradação por conta de uma super exploração ou manejo inadequado. A Tragédia dos Comuns é um termo que ganhou repercussão com a publicação, em 1968, do artigo “The Tragedy of the Commons”, de Garrett Hardin. Para o autor, os regimes de propriedade comum não seriam sustentáveis, devido aos interesses antagônicos dos usuários.
Isto é, a racionalidade instrumental induz os agentes econômicos e as pessoas a retirar o máximo de proveito e colocar o mínimo de esforço pelo interesse do bem comum. Quando isto acontece, o bem comum estaria condenado pela super exploração do seu uso e pela falta de defesa coletiva da sua sustentabilidade.
Será que o aquecimento global será o resultado inevitável da “tragédia dos comuns”, decorrente da emissão desenfreada de gases de efeito estufa?
Se olharmos para a falta de resultados concretos das negociações anuais da Convenção do Clima (adotada na Rio/92), parece que o pessimismo de Hardin vai prevalecer. Como se sabe, a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Cúpula da Terra ou Eco/92) estabeleceu a Conferência Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas que é um tratado internacional que tem como objetivo a estabilização da concentração de gases do efeito estufa (GEE) na atmosfera em níveis tais que evitem o aquecimento perigoso da temperatura média do Planeta. Porém, inicialmente, não foram fixados limites obrigatórios para as emissões de GEE e não havia mecanismos de controle das emissões. Mas ficou decidido que os atuais 194 países membros da Convenção do Clima reuniriam-se anualmente nas reuniões chamadas Conferência das Partes (COP) para deliberar sobre as ações em defesa da atmosfera terrestre.
A primeira Conferência das Partes (COP-1) ocorreu na cidade de Berlim, em 1995, e nela foi firmado o Mandato de Berlim, no qual os países desenvolvidos (do Anexo I) assumiram maiores compromissos com a estabilização e redução das emissões de GEE. Na COP-3, ocorrida na cidade de Kyoto, em 1997, foi aprovado o Protocolo de Kyoto, que seguiu as diretrizes do Mandato de Berlim e estabelecia metas efetivas para reduzir as emissões de gases do efeito estufa até o ano de 2012.
Como a concentração de GEE na atmosfera no final do século passado era consequência das emissões realizadas pelos países industrializados no passado, foi estabelecido o princípio das “Responsabilidades comuns, porém diferenciadas”. Ou seja, os países desenvolvidos deveriam arcar com as maiores responsabilidades na redução de GEE e na transferência de recursos aos países em desenvolvimento.
No entanto, diversos países desenvolvidos, entre eles os Estados Unidos, não ratificaram o documento, com a alegação de que isto prejudicaria o crescimento econômico nacional. Ou seja, em nome do interesse particular de alguns países, o bem comum da humanidade foi relegado para segundo plano.
Se este bem comum fosse interno a um determinado país (como no caso de um lago, de um rio ou de uma reserva ambiental), o Estado Nacional – que tem o monopólio da coerção – poderia, em tese e de forma democrática, utilizar a força da lei para defender o bem comum. Mas em nível internacional não existe um governo central e nenhuma entidade que possa, globalmente, se sobrepor à soberania nacional de cada um dos países do mundo.
Portanto, o combate ao aquecimento global e o controle das emissões de GEE dependem de Tratados Internacionais estabelecidos de maneira consensual entre todos os países membros da comunidade mundial.
Evidentemente, não é fácil se chegar a um acordo consensual entre tantos países com realidades econômicas e culturais tão diferentes. Principalmente, não é fácil conciliar os interesses particulares com o interesse global. Exatamente por isto que a teoria pessimista da “Tragédia dos Comuns” volta sempre a ficar em evidência, pois cada país busca a externalização dos custos e internalização dos benefícios do desenvolvimento.
Contudo, se as partes não entrarem em um acordo, o mundo vai sucumbir diante da degradação ambiental e das mudanças climáticas. A única alternativa possível, portanto, é a continuidade das discussões internacionais, mesmo diante dos fracassos da COP-15, em Copenhague, ou da COP-16, em Cancun, México. Mas será que as COPs vão conseguir definir uma ação efetiva e conjunta?
Diante da aproximação da data de término do Tratado de Kyoto, esperava-se que a COP-17, em Durban, fosse capaz de apresentar uma alternativa viável para realmente reduzir a emissão de GEE, pois globalmente, as emissões aumentaram 50% desde 1992 e já existe a consciência de que o aquecimento global não pode superar 2º centígrados, pois, caso contrário, pode-se tornar realidade os cenários mais catastróficos. Porém a China não tem obrigações de corte de emissões e os EUA não assinaram o Tratado de Kyoto.
Portanto, os dois maiores poluidores ficam livres para continuar poluindo o Planeta.
Para complicar o princípio das “responsabilidades comuns, mas diferenciadas”, os países em desenvolvimento que eram cerca de um terço da economia mundial, em 1992, devem ultrapassar os países desenvolvidos em 2012 (PIB medido em poder de paridade de compra). A China já desbancou os dos Estados Unidos do posto de maior poluidor do mundo e a Índia vem no mesmo caminho, enquanto o Brasil prossegue em sua trajetória de destruição da Amazônia e do Cerrado (a Mata Atlântica já foi destruída no passado).
Além de tudo, a crise econômica dos países ricos tem servido de desculpa para se adiar o enfrentamento das questões ambientais. Toda vez que se agudiza os problemas sociais do desemprego e pobreza cresce a tendência de se adiar os problemas ambientais, afinal “os pobres seres humanos” devem ser os focos prioritários das políticas públicas. Assim, de desculpa em desculpa a “Tragédia dos Comuns” vai possibilitando a degradação da atmosfera e demais condições ambientais.
A COP-17, realizada em Durban, entre novembro e dezembro de 2011, reuniu cerca de 20 mil pessoas de 194 países e foi a mais longa reunião realizada até agora. Nada foi decidido, apenas se deliberou pela realização da COP-18, em 2012, no Qatar (um dos países com maior pegada ecológica per capita do mundo e que não se prima por práticas democráticas) e pelo adiamento das discussões para a busca de um acordo vinculante a ser definido até 2015, com metas obrigatórias de corte de emissões de gases de efeito estufa (GEE) a partir de 2020.
Ou seja, prevaleceu a lógica do ciclo político, pois os governantes dos 194 países do mundo precisam garantir vantagens econômicas para suas populações e não podem comprometer os recursos de curto prazo em nome do investimento de longo prazo no “Bem comum”. Em síntese, o que dá voto é dinheiro no bolso da população (para gastar em consumo) e não no controle do aquecimento global, que, além de tudo, os céticos (geralmente financiados pela indústria do petróleo) dizem não ter causas humanas.
Não gostaria de dar razão a Garrett Hardin e à sua teoria “The Tragedy of the Commons”, mas as sucessivas COPs parecem que não foram feitas para resolver os problemas, mas sob encomenda apenas para protelar as decisões mais importantes, procrastinando as medidas necessárias para evitar o desastre que se anuncia a cada nova medição do aquecimento global e a cada nova estatística do processo de depleção acelerada dos recursos ambientais no mundo.
Porém, existem outras perspectivas teóricas e outras formas de ação que podem trazer alguma esperança sobre este difícil e complexo processo de negociação internacional. Segundo Elinor Ostrom, primeira mulher a ganhar o Prêmico Nobel de Economia: “são as instituições que determinam o sucesso do manejo dos recursos comuns”. Ela contesta a afirmação de que a governança de propriedades comunais necessariamente implica em uma “tragédia”. Ao contrário do pessimismo de Hardin, Ostrom tem uma visão otimista da possibilidade de governança dos Bens Comuns e suas análises são importantes para questões como o aquecimento global porque servem para discutir as formas de gerenciamento dos recursos naturais. Mas, evidentemente, não é fácil se chegar a uma governança comum e a formas institucionais eficientes para regular o bem comum que é a atmosfera. Para tanto, é preciso ter boas informações e capacidade de mobilização dos interessados e envolvidos no problema.
Em junho de 2012, todos os países do mundo estarão reunidos na Rio + 20, cujo tema central é: “Economia verde, desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza”. Pelo estado atual das artes, não vai ser fácil se avançar substancialmente nesta Conferência, especialmente porque a Terra é um Bem Comum não só da espécie humana, mas de todos os seres vivos do Planeta. Qualquer solução possível vai exigir muito tempo e muita mobilização. Porém, precisamos acreditar que a tragédia pode ser evitada. (EcoDebate)

Conferência do Clima tem acordo inédito

Conferência do Clima tem acordo inédito com apoio de EUA e China
Compromisso dos dois maiores poluidores do mundo para reduzir emissões é um dos resultados da reunião; para ministra brasileira, o desfecho foi ‘histórico’.
Após quase ser suspenso por falta de quórum, encontro terminou com prorrogação do Protocolo de Kyoto e roteiro para acordo global com meta de redução para todos os países após 2020.
Representantes de 200 países reunidos na 17ª Conferência do Clima da ONU (COP-17) em Durban aprovaram um pacote que prorroga o Protocolo de Kyoto, viabiliza o Fundo Verde Climático e cria um roteiro para o futuro acordo global, que vigorará a partir de 2020, com metas obrigatórias para todos os países reduzirem as emissões de gases-estufa. Será a primeira vez que Estados Unidos e China, os maiores poluidores do mundo, terão compromissos para cortar as emissões de CO2.
Ainda não se sabe como esse futuro acordo global funcionará - os detalhes deverão ser acordados nas conferências dos próximos anos. E a prorrogação de Kyoto acontece de maneira esvaziada. Mas, na avaliação da ministra Izabella Teixeira (Meio Ambiente), o resultado foi "histórico, com todos os países convergindo" para a necessidade de um acordo pós-2020. O embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, negociador-chefe do País, ficou "aliviado por conseguir um resultado robusto".
Para o Brasil, o maior objetivo era garantir a manutenção do Protocolo de Kyoto, o primeiro tratado mundial para combater as mudanças climáticas. O protocolo, porém, só tem metas obrigatórias de corte de emissões para os países industrializados.
A COP-17 obteve o acordo para a realização do segundo período de compromisso do protocolo - sua primeira fase acaba em dezembro de 2012. A duração do compromisso, porém, ainda não está definida. Sabe-se que ele começará em 2013, mas no documento ficaram duas datas de conclusão: 2017 (preferida pelos Estados-ilha) ou 2020 (como queriam a União Europeia e o Brasil). A decisão terá de ocorrer na próxima COP, no Catar.
Atrasos
A presidente da COP-17, a chanceler sul-africana Maite Nkoana-Mashabane, afirmou que foram tomados "passos cruciais" em direção à cidadania global. "O que conseguimos atingir terá um papel central em salvar o mundo de amanhã."
Ela presidiu a mais longa Conferência do Clima da história. Foi elogiada por manter a transparência, mas também criticada pelos atrasos - a reunião deveria ter acabado em 09/12/11.
Com o avanço das negociações, vários ministros não conseguiram remarcar seus voos e foram embora antes de a COP-17 terminar.
Líder
A União Europeia foi a principal liderança ao aceitar se comprometer com o segundo período de Kyoto se os demais países concordassem em fazer um roteiro com cronograma para o futuro acordo global. Japão, Canadá e Rússia decidiram não participar da segunda fase do protocolo, o que o levou a ganhar o apelido de "Kyotinho", já que, esvaziado, perdeu relevância.
A UE insistiu que o acordo futuro deveria ser fechado em 2015, e os países teriam até 2020 para ratificar. Connie Hedegaard, comissária da União Europeia para Ação Climática, citou como importante para o bom resultado o papel do Brasil -a ministra Izabella afirmou na quinta-feira que o País aceitava um acordo com valor legal e metas obrigatórias. "Os Estados Unidos também disseram algo nessa direção e percebemos o avanço."
O chefe da delegação americana, Todd Stern, também estava contente com o resultado. Decidimos entrar em acordo porque conseguimos alcançar a simetria que buscávamos. Ele ressaltou o fato de que grandes economias, principalmente a China, estavam aumentando muito suas emissões e que a situação não poderia continuar desse jeito.
Glossário
Protocolo de Kyoto
Foi o primeiro tratado global para reduzir os lançamentos de gases-estufa, aprovado em 1997 no Japão com validade até 2012. Ele trouxe metas obrigatórias de redução de emissões apenas para países desenvolvidos. Em 11/12/11, foi aprovada uma extensão dele até 2017 ou 2020 (a data ainda não está definida)
Fundo Verde Climático
Os países desenvolvidos se comprometeram na COP-16 a colocar US$ 100 bilhões até 2020 em um fundo para custear ações de corte de emissões e de adaptação às mudanças climáticas pelos países desenvolvimento.
Futuro acordo global
Pela primeira vez, Estados Unidos e China aceitaram fazer parte de um acordo, em vigor a partir de 2010, que tenha metas de redução de gases para todos os países. (OESP)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Leite materno e o mapa da poluição

Análise do leite materno ajuda a traçar mapa da poluição em diferentes áreas
Eles chegam em silêncio e muitas vezes são invisíveis, sem cheiro ou cor. Alastram-se de mansinho como uma praga dos novos tempos e deixam, em geral, um longo rastro de mortes e doenças das mais graves. Matam com o acúmulo de seus resíduos depositados, sobretudo, no tecido adiposo de homens e animais. Debilitam fauna e flora e agridem mananciais, mas ainda assim são fabricados, vendidos, usados e defendidos por empresários, políticos e representantes de vários setores da sociedade. Normalmente, por interesse econômico. Esses agentes do mal, contudo, podem estar com os dias contados. Em março de 2012, será concluído o primeiro grande inventário do país sobre fontes de emissão de poluentes orgânicos persistentes (POPs) — substâncias tóxicas impregnadas na terra, no ar e nas águas brasileiras.
Não se trata, em um primeiro momento, de procurar culpados ou banir do território brasileiro os famosos e perigosos POPs, que entraram para valer na pauta de preocupações do governo brasileiro nos últimos 10 anos. “A ideia é identificar o uso dos poluentes, as fontes de emissão e os problemas que eles causam ao país”, explica a química e doutora em saúde pública Sérgia Oliveira, diretora de Controle de Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Serão analisados 21 poluentes orgânicos. Catorze deles foram banidos há algum tempo e sete ainda são permitidos.
A montagem do mapa da poluição no país levará em consideração os resultados de uma primeira pesquisa feita pela Fiocruz, com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), em 2001/2002, como parte de um compromisso assumido pelo Brasil — e 27 países — com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas (ONU), durante a Convenção de Estocolmo, em 2001.
A convenção foi estabelecida para que os países signatários iniciassem um levantamento das emissões de substâncias tóxicas a fim de minimizar as fontes prejudiciais à saúde — até a eliminação e o banimento dos produtos, em um momento posterior.
“Padrão ouro”
Para medir os índices de poluição na natureza e saber até que ponto a saúde do brasileiro está ameaçada —, a Fiocruz escolheu como matriz de avaliação dos resíduos e do grau de poluição o leite materno (veja infografia). “Entre o ar e o sangue, a melhor resposta vem do leite humano”, afirma a química e especialista em saúde pública Ana Braga, da Fiocruz, que coordena a pesquisa.
Os resíduos desses poluentes têm uma afinidade muito próxima com tecidos adiposos (gordura) e não há melhor matriz, de acordo com os técnicos, para avaliar os índices de poluição que o leite materno. Além do mais, segundo a pesquisadora, “com essa fonte de pesquisa, não é necessário fazer exames invasivos, como biópsias, para analisar tecidos adiposos e os resultados com o leite são muito mais confiáveis”.
Os POPs que serão alvos das análises estão nos grupos dos agrotóxicos, das dioxinas e dos furanos, além de poluentes industriais e retardantes de chamas. “A preocupação maior do ministério é com as dioxinas (e os furanos) porque elas estão presentes na natureza e não precisam ser fabricadas. Basta queimar lixões ou pneus a céu aberto, incinerar resíduos de saúde ou queimar combustíveis.”
O estudo dos POPs em leite humano no Brasil será feito a partir da coleta do produto em 15 estados, com 150 amostras, ao todo, extraídas de um grupo de 10 mães em cada uma dessas unidades da Federação. Segundo os critérios de seleção do programa, definidos pela OMS, as doadoras têm de ser mães jovens, primíparas (que tiveram o primeiro filho) e saudáveis. Conforme Ana Braga, “as mães de primeira viagem oferecem um padrão de qualidade muito mais adequado do que o leite de mães com quatro, cinco filhos”. (EcoDebate)

O governo da poluição

No mês de setembro houve o anúncio em Pernambuco da construção da maior termelétrica a óleo combustível do mundo, no município do Cabo de Santo Agostinho. Com uma potência instalada de 1.452 MW e um sistema de armazenamento para suprir à termelétrica, com capacidade para armazenar 200.000 toneladas de óleo combustível, foi prometido assim, produzir energia suficiente para atender as necessidades da cidade do Recife, caso necessário. A cada dia de funcionamento esta usina emitirá 24.000 toneladas de CO2 para o meio ambiente e quantidades expressivas de outros gases altamente prejudiciais à saúde humana. Além de ser perigosa, esta fonte energética é cara e aumentará a tarifa para todos os consumidores.
O anúncio de mais uma termelétrica não é fato isolado, pois está se construindo deliberadamente em Pernambuco um pólo de produção de energia elétrica com termelétricas sujas, funcionando a base de combustíveis fósseis, concentradas em Suape (Termope com 520 MW a gás natural, Suape II de 380 MW e Suape III de 1.452 MWh, ambas com óleo combustível). Sem contar com a termelétrica a ser construída pela Petrobrás que servirá a Refinaria Abreu e Lima.
A instalação da Refinaria da Petrobrás para produzir 200.000 barris/dia de óleo diesel e a construção de estaleiros, também são atividades típicas de empreendimentos que poluem em todas as suas formas, porém a mão de obra necessária não é na sua grande maioria, oriunda da comunidade e de seu entorno.
Experiências passadas em outras partes do Brasil e do mundo mostraram como é perigosa para a saúde das pessoas a concentração de indústrias que utilizam combustíveis fósseis. Além de gases que contribuem para o efeito estufa produz óxidos à base de enxofre e de nitrogênio, que são lançados a atmosfera e assim se transformam em ácido sulfúrico e nitrosos, que se precipitam como chuva ácida. Elementos químicos pesados, cancerígenos são produzidos nestas termelétricas, que mesmo com sistemas de filtros ainda causam enormes danos e riscos aos habitantes próximos da usina.
Existem caminhos diferentes para o tão desejado e pretendido progresso, com a criação de empregos e geração de renda, beneficiando mais e mais famílias. Em Pernambuco, patrocinado pelo governo estadual acontece uma deliberada atração de instalações industriais de alto risco, que podem provocar acidentes graves, assim como agressões severas ao meio ambiente e produzir emissões poluentes extremamente venenosas para a saúde pública.
O que se espera de qualquer governo municipal, estadual e federal é a preservação do meio ambiente e da saúde daqueles moradores próximos a estes empreendimentos de alto risco. Todavia, o que se verifica é uma irresponsabilidade com o futuro. O modelo de desenvolvimento adotado em Pernambuco tem conceitos e paradigmas do século passado, ultrapassados em relação à realidade e as exigências do século XXI. O desenvolvimento tem que ser parceiro da preservação ambiental e trazer conseqüências positivas na geração de empregos e renda, saúde, habitação, saneamento, educação, lazer, cultura. Não basta somente o discurso do desenvolvimento sustentável, é preciso agir como tal.
A poluição causa danos reais e mensuráveis à saúde humana. As autoridades precisam levar esses danos em conta. Não podem esquecer que existem empregos que causam mortes e devem ser evitados. Existem estudos atuais que possibilitam estimar monetariamente os danos ambientais infligidos por diversos setores da economia. Recente estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Yale e do Middlebury College mostram que há diversos setores que infligem danos ambientais maiores que a soma dos salários que pagam e dos lucros que realizam. Portanto, não criam valor econômico e sim, destroem. Também neste estudo verificou-se que indústrias do setor de energia são as que mais destroem valor. Poluir mais como propõe o governo de Pernambuco, não vai resolver as questões de emprego, só torna a população mais pobre e doente. (EcoDebate)